MOÇAMBIQUE, TERRA DOS LOUCOS (PARTE II)

MOÇAMBIQUE, TERRA DOS LOUCOS (PARTE II)

Aproveitando o calor intenso que até nas manhãs o sono não é agradável, ou seja, além da noite quente também nas primeiras horas do dia é quente, retomo a crónica sobre Moçambique terra dos loucos. Como eu disse anteriormente, considero ser terra de loucos apresentando as diferentes loucuras. Loucura num sentido positivo, como vontade de ver algo melhor. Desta vez partilho o que verifico nos mercados formais e informais, lojas, supermercados, barracas e bancas: cada um quer ficar rico de uma única vez ou quer aproveitar para explorar os outros.

Loucos por um Moçambique com preços de produtos justos

Desde a preparação intensiva para a celebração do Natal do Senhor até a entrada de 2021, alguns preços de produtos de primeira necessidade subiram exageradamente.

A que se deve essa subida de preços? Como continuar a viver numa terra onde comer, por exemplo, uma batata “Reno” ou “inglesa” é luxo?

  1. Agricultura, pecuária e indústria sem nenhuma expressão regional

Não quero dar razão a nenhum comerciante, no entanto, os preços altos de produtos de primeira necessidade podem ser motivados pela fraca expressividade das áreas agropecuária e indústria. Muita coisa que se consome no país, Moçambique importa. Com o problema da Covid-19, a importação pode ter sido afectada.

Loucos por ver um Moçambique explorando suas potencialidades nas áreas agrícolas, terras férteis e povo trabalhador.

Deve ser urgente o abandono da agricultura de subsistência. A enxada com cabo curto serve somente para alimentar uma família de oito pessoas. Moçambique já não é mais uma família de poucas pessoas. O país já regista cerca de trinta milhões de habitantes.

Deve se traçar políticas que favoreçam a produção para o consumo interno e a exportação.

Loucos por Moçambique com uma indústria que produza o básico. Que haja pelo menos uma indústria que processa a ração de galinhas.

Conversando com um amigo que tem aviário, criação de galinhas poedeiras, disse-me que na região norte de Moçambique, dependem do Malawi para o fornecimento de ração.

Entretanto, incentiva-se a criação de animais de pequeno porte. Como avançar com projectos idênticos se não há facilidades? A falta de ração compromete o negócio de ovos e consequentemente, os ovos acabam sendo muito caros.

Antes de se pensar na criação, por exemplo, de galinhas para o consumo local, deve haver uma fábrica de ração e tudo que permita o funcionamento de um aviário.

 

  1. Braço de aço para mais fiscalização

O governo deve incentivar a circulação de produtos nacionais embora como vimos no ponto número um, a produção local é fraca. Porém, quem importa, não deve aproveitar para se tornar rico numa única venda.

O governo deve fiscalizar, monitorar e avaliar os preços de acordo com o salário mínimo do país.

Não é justo, um quilo de açúcar custar, por exemplo, numa loja MZN 78,00, aproximadamente um dólar, e noutra loja ser quase um Euro, isto é, MZN 90,00. A concorrência de preços deve ser leal e não uma competição para ver quem vende mais aplicando o preço mais alto.

 

  1. Honestidade nas balanças

Loucos por um Moçambique com balanças justas ou balanças halal.

Na correria do dia-a-dia, muitas vezes, a pessoa se esquece que o quilograma que antes era 1000 gramas, hoje tem outra medida. Dependendo da honestidade de um vendedor, pode ser de 800 gramas ou mesmo 700 gramas. Além de venderem caro, alguns comerciantes, principalmente os informais, adulteram a balança para ganharem mais e mais.

Se fores ao mercado “Waresta” em Nampula, irás ouvir o termo balança halal, ou seja, uma balança que minimamente pesa o que equivale “quilo certo”.

Em mercados muito movimentados como Waresta, o tempo é limitado para verificar se a balança é halal ou haram (justa ou injusta).

 

  1. Consumidor consciente

Loucos por um Moçambique que tenha consumidores conscientes.

Que adianta fazer uma concorrência desleal? Se tu ganhas cinco salários mínimos sempre terás as condições de fazer boas compras e talvez nunca irás sentir que os preços subiram.

Os milhares de moçambicanos que ganham único salário mínimo, sempre irão murmurar que os preços sobem cada minuto.

A questão não deveria se basear na diferença salarial mas numa sociedade consciente que tem direito de comprar os produtos, pelo menos, da primeira necessidade, a preços justos.

No final da quadra festiva, alguns jornalistas da TV local mostraram um fenómeno não humano que se verificou no Mercado Grossista de Zimpeto, na cidade de Maputo. Importaram grandes quantidades de batata Reno para atender aos clientes que se preparavam para festejar o Natal.

Não obstante o interesse do povo em comprar as batatas, esconderam em algum lugar para que na hora certa vendessem a preços altíssimos.

Conscientes de que não passava de um “roubo”, muitos clientes recusaram-se a aderir ao fenómeno. Ninguém foi comprar as batatas. Pela demora na liberação dos armazéns, as batatas decidiram ficar podres antes do destino final: enriquecimento ilícito de certos vendedores.

Que proveito tem ao deixar apodrecer as batatas que vende-las aos irmãos que tanto as procuraram para comerem nas festas?

Por um lado, parabenizo pelo tipo de consumidor consciente que decidiu não aderir ao esquema e por outro lado lamento pela atitude de algumas pessoa que mancham o bom nome de vários moçambicanos que sobrevivem fazendo o comércio justo.

 

  1. Guerras e Coronavírus

Loucos para ver Moçambique livre de guerras e de Covid-19.

Os preços altos que nesta crónica constituem prato forte podem ser motivados pelas guerras: do centro do país e do norte (terrorismo em Cabo Delgado) e pelo Coronavírus.

Quando há guerra, muita gente se aproveita para ficar rica facilmente. Por isso, em Cabo Delgado, norte de Moçambique, os preços são típicos.

Porque há maior procura de produtos de primeira necessidade para atender quer os deslocados de guerra quer os que se encontram nas zonas de refúgio, como cidade de Pemba, notou-se uma subida excessiva de preços.

Os comerciantes culpam a guerra e Coronavírus. Muitos se aproveitaram disso e vendem tudo a preços insuportáveis.

Loucos por ver um Moçambique solidário. De gente que entende que na condição em que o país se encontra não deve haver a única preocupação de ficar rico imediatamente.

Loucos por um Moçambique com gente que sabe reclamar pelos seus direitos e que viva ou cumpra os deveres.

Para a superação de alguns males, deve haver união, partilha, solidariedade, ética e cidadania. Cada um deve ter o sentido de pertence e fraternidade.

Por um Moçambique de irmãos e amigos e não de inimigos.

Servo inútil, Pe Fonseca Kwiriwi, CP.

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