Famílias e Jovens

Famílias e Jovens

Lineamenta da IV Assembleia Nacional de Pastoral

Continuamos a apresentar os temas dos Lineamenta que preparam e animam as comunidades cristãs para a IV ANP. Neste número tratamos da Pastoral familiar e Juvenil, riquezas e desafios.

A iniciativa da preparação e celebração da IV Assembleia Nacional de Pastoral (2021-2023) visa criar uma experiência conjunta de Escuta, Discernimento e Comunhão eclesial que coloque todo o Povo de Deus a exprimir o que as Comunidades Cristãs e os Católicos dispersos vivem em todo Moçambique.

 

O que é a pastoral da família?

A Pastoral da Família é um serviço que se realiza na Igreja e com a Igreja, de forma organizada e planeada através de agentes específicos, com metodologias próprias, tendo como objectivo apoiar a família a partir da realidade em que se encontra, para que possa existir e viver dignamente, estabelecer relacionamentos e formar as novas gerações conforme o plano de Deus. Esta Pastoral abrange todas as famílias, independentemente da sua situação familiar, com o propósito de promover a inclusão e resgatar os valores e a dignidade de cada pessoa (18).

 

Leitura da realidade

Em Moçambique, como em muitos lugares de África, mais do que a dimensão jurídico-legal, o que define a família são os valores que ela representa, principalmente a união e protecção de um para com o outro. A família pode, em Moçambique, não necessariamente ter pessoas do mesmo sangue mas ela é composta por pessoas com os mesmos valores e princípios. Neste sentido, o indivíduo só pode existir colectivamente e numa lógica espiritualizada, o que lhe garante a identidade pessoal, noções de responsabilidade em relação a si e aos outros (19).

Mas a família em Moçambique, enquanto instituição social, tem passado por mudanças aceleradas na sua estrutura, organização e função de seus membros. Ao modelo tradicional foram-se somando muitos outros modelos de família, fruto e consequência de abertura às outras culturas e de profundas transformações estruturais de carácter global. Os novos modelos de família, importados ou forjados de propósito para acomodar as contínuas mudanças, embora em alguns aspectos tenham contribuído para libertar a pessoa humana dos vários condicionamentos e determinismos, em muitos outros aspectos têm sido porta de ingresso para profundas crises (20).

O crescimento progressivo de crianças de rua em todas as nossas cidades é um sinal evidente do mal-estar da Família em Moçambique. As crianças de rua são, simultaneamente, uma denúncia à crise de estabilidade nas uniões matrimoniais e o aumento do número de mães solteiras, resultantes, ou de separações, ou de escolhas de procriação livre de compromisso marital. Uma outra expressão emblemática da crise nas famílias moçambicanas é o crescimento do número de idosos abandonados e, portanto, desamparados, quer pelos próprios filhos e também pela sociedade, cada vez mais carente de estruturas aptas a dar uma resposta idónea a este tipo de precariedades. As várias crises estruturais às quais estão sujeitas muitas famílias moçambicanas, acabam fazendo da família um laboratório de ensaio de todo o tipo de violências que, depois, encontram a sua plena maturação na violência social generalizada (21).

 

Fundamentação teológica

A família é muito importante para Deus, é uma instituição sagrada, criada por Ele. Quando o homem foi criado, Deus viu que não era bom que ele estivesse sozinho, e por isso criou a mulher para ser sua companheira (Cf. Gn 2,18). Juntos, eles receberam a ordem de se multiplicar e povoar a Terra (Cf. Gn 1,28). Jesus também falou sobre a santidade do casamento em Mateus 19. Mas na Bíblia, o conceito de família também é espiritual e não apenas físico. Assim, todos aqueles que aceitam Jesus, fazem parte de uma grande família, composta por elementos de todas as línguas e nações cf. Ap 7,9 (22).

Por sua vez, a Igreja sempre cuidou da família. Por um lado, por acreditar ser ela não apenas a célula mater da sociedade e o santuário da vida, mas também a “Igreja doméstica” (Cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 11). E, por outro, porque está convencida de que “o bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar (Cf. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 47). Logo no início de seu pontificado, o Papa São João Paulo II publicou uma Exortação Apostólica sobre a família, como conclusão, precisamente, dos temas tratados num Sínodo de Bispos sobre a família. Nela, ele afirma com convicção que a evangelização depende essencialmente da saúde espiritual dessa instituição, porque, “onde uma legislação anti-religiosa pretende impedir até a educação na fé, onde uma incredulidade difundida ou um secularismo invasor tornam praticamente impossível um verdadeiro crescimento religioso, aquela que poderia ser chamada “Igreja doméstica” fica como único ambiente, no qual crianças e jovens podem receber uma autêntica catequese” (Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiares Consortio, n. 52), (23).

 

BOX1

Perguntas para a reflexão e partilha

1) A leitura da realidade corresponde àquilo que se releva na Igreja e na sociedade de hoje? Quais são os aspectos que faltam e que devem ser tomados em consideração?

2) Quais são as maiores dificuldades que as famílias cristãs têm encarado para melhor desempenhar o próprio papel de educadores e primeiros evangelizadores dos próprios filhos?

3) Quais são as oportunidades e as possibilidades que poderiam fortalecer os papéis de educadores e evangelizadores das famílias cristãs?

4) Como fazer das nossas famílias verdadeiras “Igrejas domésticas”?

5) Quais são as principais razões para a dissolução (divórcio) das famílias?

6) Como é que as famílias têm reagido aos conflitos entre o casal, entre o casal e os filhos jovens ou adolescentes?

7) Que ajuda da parte dos sacerdotes, religiosos e religiosas (agentes de pastoral), seria útil para a consolidação da vivência cristã e compromisso social nas famílias?

8) Que ajuda as famílias poderiam prestar umas às outras para fortalecer a harmonia e o clima de prática cristã nas próprias famílias?

 

O que é Pastoral juvenil?

Pastoral é um conjunto de acções pelas quais a Igreja cuida do seu povo e fomenta fé nele. O principal objectivo da pastoral Juvenil é de conduzir os jovens a uma experiência de discipulado a partir do encontro pessoal com Cristo, num processo de formação na fé e discernimento da sua vocação, a fim de que se possam perceber como protagonistas da sua própria vida (25).

 

Leitura da realidade

Em Moçambique, segundo as estatísticas, a maior parte da população é jovem. Os jovens encontram-se em diferentes situações sociais, políticas, económicas e culturais. E também são vítimas das guerras, criminalidade, tráfico de seres humanos, escravidão, exploração sexual, estupros, desemprego (26).

Constata-se que a crise socioeconómica e cultural que afecta a sociedade atinge, sobretudo, os jovens. De facto, o desemprego inutiliza os dotes de muitos deles, impedindo-os de construir dignamente a sua vida e felicidade (Cf. IIIª ANP, 38).

Neste mundo neocapitalista, os jovens tornam-se vítimas do consumismo, individualismo e egoísmo. Porém, casos há em que os jovens com espírito de pertença à Igreja envolvem-se de corpo e alma no serviço da Igreja e em organizações de voluntariado (27).

 

No entanto, esse envolvimento é ofuscado quando os jovens não são bem recebidos nos grupos juvenis paroquiais e muitos deles nem sequer são acarinhados pelos adultos.

É preocupante também o facto de que alguns jovens abandonam a Igreja após os sacramentos do Baptismo e Confirmação e outros participam nas catequeses aos sábados, mas aos domingos rezam em outras confissões religiosas.

Alguns jovens não se identificam com as suas tradições culturais e religiosas e, às vezes, vivem sem pontos de referência em termos de valores éticos e morais (28).

 

Fundamentação teológica

“Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei” (Jr 1,1-5). Com estas palavras, Deus confirma a vocação do profeta Jeremias. Jeremias tem consciência da sua consagração e missão profética. Esta consciência deveria inspirar os jovens a acolher a vocação de Deus para a missão, hoje, no seguimento de Jesus, o jovem Mestre de Nazaré. Este chamou os 12 apóstolos para enviá-los a construir o Reino de Deus na terra.

  1. Maria, a jovem de Nazaré, soube escutar a voz de Deus e superou todas as incertezas ao dizer: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). A Igreja precisa de jovens alegres como Maria, corajosos e devotados, que ofereçam ao mundo testemunhos de santidade (29).

 

BOX 2

Perguntas para a reflexão e partilha

1) A leitura da realidade corresponde àquilo que se releva na Igreja e na sociedade de hoje? Quais são os aspectos que faltam e que devem ser tomados em consideração?

2) Quais os actuais desafios e quais as oportunidades mais significativas para os jovens na Igreja?

3) De que modos as nossas comunidades se ocupam dos jovens em situações extremas (conflito armado, prisão, toxicodependência, casamentos prematuros)?

4) Existe consciência cristã dos jovens católicos quando se trata de participar em actividades de natureza sociopolítica?

5) Como a Pastoral Juvenil tem respondido aos seguintes desafios: HIV-SIDA, COVID-19, alcoolismo, violência doméstica, casamentos prematuros, degradação dos valores morais, radicalização?

6) Quais as principais causas da desvinculação dos jovens da Igreja após a recepção dos sacramentos?

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