Terrorismo em Cabo Delgado e os Rosto dos rebeldes

Terrorismo em Cabo Delgado e os Rosto dos rebeldes

O governo de Moçambique em várias ocasiões lançou a mensagem que o país enfrenta um inimigo “sem rosto”, não existindo canais de comunicação, pelo que se desconhecem as suas pretensões. O Observatório do Meio Rural (OMR) através do seu pesquisador, Dr. João Feijó, argumenta o contrário. Aqui vai o resumo do documento.

«O documento apresentado (pelo OMR) resulta de informação recolhida a partir de 32 entrevistas a indivíduos raptados (a esmagadora maioria mulheres), mas também a antigos vizinhos, professores, superiores hierárquicos e colegas das pessoas analisadas. Grande parte dos entrevistados conviveu com os indivíduos em causa antes do processo de radicalização ou durante o seu cativeiro. (É de recordar que também o Secretário de Estado dos USA, dias antes da publicação do documento do OMR, anunciou a designação de 5 lideres terroristas em África e entre esses, está o líder dos terroristas que actuam em Cabo Delgado).

 

Rosto dos rebeldes

Não obstante a presença de estrangeiros, a esmagadora maioria dos membros do grupo são moçambicanos, oriundos maioritariamente dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Macomia e Quissanga, mas também do planalto de Mueda, do litoral de Nampula e da província do Niassa, entre outras regiões. Entre eles destacamos: o líder do grupo é largamente conhecido na região, ainda que por vários nomes como Bonomado Machude Omar ou Ibn Omar, natural de Palma e crescido em Mocímboa da Praia. O executivo de Omar, aquele que passa instruções no terreno, é identificado por Mustafá natural de Mocímboa da Praia. Maulana é o nome próprio, constitui um dos comandantes mais destacados pelos indivíduos que estiveram em cativeiro, pelo facto de se apresentar como engenheiro agrónomo. De acordo com as testemunhas, trata-se de um indivíduo natural de Lichinga. Enfim, Rosa Cassamo nasceu em Cabo Delgado, e reconhecida como chefe de logística em Ilala e Mucojo (distrito de Macomia). Hoje é considerada de mãe, no seio de insurgentes, desempenhando um papel importante na mobilização de várias mulheres do seu povoado, para ingressassem na insurgência.

 

O que proclamam e o que praticam?

Exceptuando algumas comunicações pela agência AMAQ (agência oficial do Estado Islâmico), o grupo não aposta na comunicação formal com o exterior. Os canais utilizados para apresentarem as suas reivindicações consistem, sobretudo, em pequenas palestras após os ataques, em sessões de doutrinação com indivíduos capturados, mas também mensagens e pequenos vídeos, que circulam pelas redes sociais.

O grupo adopta um discurso propagandístico anti-governamental, criticando as políticas do governo de Moçambique, que consideram responsável pela exclusão social e pela injustiça. A democracia é apresentada, literalmente, como um sistema que permite que os ricos se tornem mais ricos à custa dos pobres. De acordo com o grupo, a solução para o caos social reside no derrube do Governo e na adesão áquilo que se poderia designar de Sharia (Lei islâmica).

O discurso religioso é articulado com um discurso nacionalista (“Implementar a religião muçulmana, porque a terra é nossa”) e de primazia dos locais no acesso aos recursos de poder.

 

Complementar a via militar com reformas e diálogo

Ao invés de reconhecer a existência de problemas sociais internos, habilmente capitalizados pelos insurgentes para o seu esforço de guerrilha, promovendo reformas e abrindo canais de comunicação, o Governo de Moçambique vem privilegiando uma estratégia militar. Nas últimas semanas (cf. Mês de Julho), foi anunciado um grande contingente militar estrangeiro, oriundo do Ruanda e da SADC, e consolida-se uma operação de grande envergadura sobre uma área de cerca 30.000 km2, maioritariamente composta por floresta densa, onde o inimigo demonstra capacidade de camuflagem.

Porém com este texto pretendemos demonstrar que, contrariamente ao discurso oficial, os líderes moçambicanos do grupo dos “machababos” são largamente conhecidos por populações do Nordeste de Cabo Delgado (por líderes religiosos e comunitários, antigos professores, vizinhos e familiares), inclusive pelas Forças de Defesa e Segurança. Portanto apelamos para que se explorem canais negociais com os insurgentes, capacitando e envolvendo líderes locais, possibilitando condições para ajuda humanitária de civis, libertação de pessoas raptadas, promovendo amnistias e mecanismos de acesso aos recursos naturais, valorizando a importância do Islão na sociedade moçambicana». (F.J.)

Por OMR (Destaque Rural n. 130 10/8/21)

 

BOX

Em Cabo Delgado desde o mês de Julho operam um contingente militar ruandês e um contingente militar composto por militares dos países pertencentes a SADC. O Presidente moçambicano, em declarações na 41ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), que se realizou no dia 17/08, na cidade de Lilongwe, Malawi, afirmou que a intervenção militar contra os grupos armados em Cabo Delgado deve ser complementada com projectos de desenvolvimento social e económico, visando a eliminação das causas que favorecem o “extremismo violento”… “Estamos cientes da necessidade de complementar essas intervenções militares com o apoio humanitário imediato e investimento no desenvolvimento a médio e longo prazos”. Filipe Nyusi apontou igualmente a prevenção e sensibilização dos cidadãos da SADC contra o extremismo violento, observando que este fenómeno é uma ameaça à paz e segurança regional. “A paz e segurança constituem um dos alicerces do processo de integração regional” visando “propiciar a promoção da cooperação e desenvolvimento social para o progresso e bem-estar dos povos” (DW 17/8)

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