O lugar de permanência após a circuncisão masculina

O lugar de permanência após a circuncisão masculina

‟Namuhakwa” e ‟Nvera”

Do lugar das operações, os circuncidados são conduzidos para um sítio, onde passam a noite daquele dia, e dias e noites seguintes, ao relento, deitando-se de costas (para dormir) num chão varrido e relativamente limpo, com as cabeças viradas para a fogueira, para evitar que o calor do fogo aqueça as coxas e (coza) o ferimento no órgão viril.

A este sítio chama-se ‟Namuhakwa”. Permanecem aqui, sem comer nem beber toda a noite e todo o dia solar seguinte, até cerca das 17 horas deste dia, hora em que tomam algum alimento, começando pela água, sorvida de uma cova artificial no solo, através de um pequeno tubo de palha. Este processo vai continuar durante vários dias, até ao dia em que se tomar o primeiro banho, o que vai acontecer só após arelativa cicatrização da incisão. A partir de outras tarefas, os padrinhos preparam pequenos paus com forquilhas com os quais prendem as pernas dos afilhados, por altura dos joelhos, para que, sobretudo durante o sono, a ferida não entre em contacto com as coxas, evitando assim a possível infecção da mesma.

Andam nus até à cicatrização completa das feridas, após o qual põem algum pedaço de tecido.

Transferem-se, depois, para uma construção tosca, denominada ‟Nvera”, um barracão não maticado e mal coberto de capim, deixando entrar a jorros a água da chuva, nos dias em que esta resolve visitá-los, mesmo que não seja torrencial.

Aqui cada iniciado toma um nome, à sua escolha, de um animal, de um Pássaro, de uma árvore ou de qualquer objecto, pelo qual deve ser chamado durante o período de permanência no mato, deixando, assim, aquele que recebera da família e conhecido na comunidade de onde veio.

 

Alguns Conselhos morais

– ‟Havara aluwa, munvare mwìl’awe!”. – Quando o leopardo estiver feroz, apanhai-o pela cauda.

Esta é uma das inúmeras canções que se entoam e os rapazes repetem, podendo durar tempo indeterminado, para depois o mestre explicar que o leopardo aqui referido é o capim da machamba, do qual não se deve fugir, mas pegá-lo pela ponta e arrancá-lo com a enxada, para as plantas alimentares poderem crescer à vontade. Metáfora popular, para incutir nos jovens a coragem e o espírito de trabalho, sobretudo o de produção agrícola.

‟Naxirakaletthiká, tthiká! Ohiyeonthéiha!”. Ó deficiente, volta para trás, volta para trás! Não venhas provocar riso em nós! A esta canção, aparece um individuo, simulado de portador de deficiência física: lábios revirados para fora e seguros por um fio quase invisível; cabelo desgrenhado e esbranquiçado com farinha ou cinza, andar desajeitado; apoiando-se a um cajado. Figura estranha e de aspeto repelente, perante a qual ninguém deve rir. Isto serve para ensinar aos circuncidados que, na vida real, vão-se deparar com situações idênticas a que está neste momento em frente deles, com a diferença de que esta de hoje é simulada. Então, não se riam.

Enkhuma, enkhumaenikonayòmi! – Tudo o que acontece só me vê a mim. Canção alusiva à galinha, a que se recorre para resolver questões de vária ordem. Com isto procura-se demonstrar aos jovens que é importante a criação de aves domésticas, para que quando forem adultos também as criem, porque ‟família sem galinha é uma família pobre” – dizem os mestres abalizados na matéria de ensinamentos e conselhos.

Mediante os ritos de iniciação, no barracão de que atrás fizemos menção, durante grande parte de noites, através de canções, provérbios e adivinhas seguidas de respectivas explicações, o rapaz aprendia a ser ‟homem”, aprendia os cuidados e normas a observar em relação a mulher nos seus delicados momentos de vida feminina (período menstrual, gravidez, doenças em geral, necessidades em alimentos, em roupa e em outras coisas). Era nestas circunstâncias que também se explicava aos circuncisos tudo o que se faz nos ritos de iniciação das mulheres, como prévia preparação para o casamento, pois os moços tinham idade para contraírem o matrimónio algum tempo após o regresso à comunidade, deixando de ser dependentes dos pais, já que eram adultos.

Achava-se necessário o conhecimento das particularidades da vida feminina, por parte dos jovens, como prevenção, para evitar que estes cometessem inconveniência contra as privacidades das suas futuras esposas.

É através de ritos de iniciação que se aprende e se chega ao conhecimento do mundo delicado e quão misterioso segredo do nascimento dos bebés. É ali, no mato, onde o jovem ou adolescente aprende e chega a saber como fica uma pessoa morta e o que se faz em tal circunstância, isto é, como se fecham os olhos do cadáver, como se lava o morto, como se prepara a cova para a sepultura, de que é constituída a mesma na parte interior, como se coloca nela o defunto, quem o coloca e em que posição o coloca.

Por Alberto Viegas

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