Sagrada Escritura, Tradição e Magistério

Sagrada Escritura, Tradição e Magistério

Vamos reflectir sobre a relação existente entre a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério. Para melhor percebermos a importância deste tema, importa começarmos, em jeito de introdução, por fazer a seguinte pergunta: qual é o fundamento da fé e da moral cristã?

Para alguns, o fundamento da fé e da moral cristã é unicamente a Bíblia (Sola Scriptura), interpretada livremente por qualquer pessoa (método do exame livre). Para a Igreja Católica não é assim; a fé e a moral têm três bases ou pilares, a saber: a Sagrada Escritura, a Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja (cf. DV. 21). Ou seja, sem negar a grande importância da Bíblia, a Igreja ensina que, além desta, é necessário também ter em conta a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério para a fundamentação da doutrina e da moral da mesma. A nossa reflexão de hoje, portanto, tem, como objectivo, falar de cada uma destas realidades e mostrar a estreita relação que existe entre elas. Visto que nos encontros anteriores falamos abundantemente da Sagrada Escritura, hoje vamos dar particular atenção à Tradição e ao Magistério.

Muitas são as passagens do Novo Testamento que nos revelam a importância da Tradição oral e do Magistério. Escutemos:

“Muitas coisas tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade…” (Jo 16,12).

“O que ouvistes de mim, em presença de muitas testemunhas, confiai-o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros”(2 Tm 2, 2).

“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus…” ( Mt 16, 18-19).

“Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois de minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que irão proferir doutrinas perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai!” (At 20,28-31).

 

A Tradição Apostólica

A palavra “tradição” vem do latim traditio que significa “entrega”, ” “transmissão”. Ela pode indicar tanto o “processo” de transmitir quanto o “conteúdo” transmitido. Por sua vez, a palavra “apostólica” é um adjectivo qualificativo que, primariamente, diz respeito a algo que procede dos apóstolos, ou seja, do grupo dos seguidores de Cristo, composto pelos doze Apóstolos.

Por Tradição Apostólica, portanto, entende-se a transmissão oral, pelo exemplo e pelas instituições daquelas coisas que os Apóstolos ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam por inspiração do Espírito Santo (Cf. CIC § 76; cf. DV 7). Enquanto tal, a Tradição Apostólica distingue-se da Sagrada Escritura porquanto esta última é a transmissão “por escrito” feita por “aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação” (Cf. CIC § 76).

A Tradição Apostólica distingue-se igualmente das “tradições” teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais surgidas ao longo do tempo, nas Igrejas locais. Estas últimas são expressões adaptadas da Tradição Apostólica aos diversos lugares e às diferentes épocas, sob a orientação do Magistério da Igreja (Cf. CIC, §83).

As leituras que acabamos de escutar mostram-nos que a própria Bíblia fala-nos da necessidade, existência e importância da Tradição Apostólica, enquanto transmissão oral da Palavra de Deus feita pelos apóstolos.

Nesta primeira leitura, tirada do Evangelho segundo S. João, Jesus, numa das últimas conversas com os Seus discípulos, deixa claro que tinha ainda muitas coisas por ensinar. Entretanto, dada a incapacidade dos Apóstolos de suportar tais ensinamentos, Ele mandaria o Espírito Santo para que este os transmitisse ao longo dos tempos (cf. Jo 16,12). A Igreja entende que aquelas verdades que os Apóstolos foram aprendendo do Espírito Santo são as que, em parte, foram formando a Tradição Apostólica.

O mesmo Evangelista João atesta a necessidade de uma transmissão oral da Palavra de Deus, de geração em geração, quando afirma que “Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome”(Jo 20,30s) e que “Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”(Jo 21,25).

Nos dois textos acima citados, o Evangelista João deixa claro que nem todas as coisas que Jesus ensinou aos seus discípulos, com actos e palavras, encontram-se na Bíblia. Aquilo que os Apóstolos e os evangelistas escreveram é só o essencial da mensagem de Jesus. Por isso, não podemos reduzir a pessoa e os ensinamentos de Jesus àquilo que foi escrito sobre Ele, porque a sua mensagem é muito mais do que isso, é Ele próprio. Jesus é mais do que um livro ou um conjunto de livros.

Do que acima dissemos, é lógico concluir que muitas outras coisas a respeito da pessoa e dos ensinamentos de Jesus continuaram a ser transmitidas oralmente de geração em geração. Aliás, é o que nos mostra S. Paulo em 2Tm 2,2, ao recomendar vivamente a Timóteo para que aquilo que ele “ouviu” do próprio Paulo, na presença de muitas testemunhas, o confiasse a homens fieis, capazes de, por sua vez, ensiná-lo a outros homens. Estamos aqui, claramente, diante da tradição oral do depósito da fé.

Muitas outras passagens bíblicas atestam a existência da transmissão oral da Revelação, de geração a geração. S. João, na sua segunda e terceira epístolas, diz que há ensinamentos que gostaria de confiar aos seus interlocutores de viva voz, e não por escrito: “Embora tenha muitas coisas a vos escrever, não quis fazê-lo com tinta e papel. Mas espero estar convosco e vos falar de viva voz…” (2Jo, 12; cf. 3Jo, 14). S. Paulo, por sua vez, apela fortemente aos cristãos de Tessalónica para que observem tanto a tradição oral quanto a tradição escrita: “portanto, irmãos, ficai firmes; guardai “as tradições”que vos ensinamos “oralmente” ou por escrito” (2Ts 2,15). Paulo assegura-nos aqui que as verdades transmitidas oralmente não são menos importantes que as escritas, por isso, ambas devem ser observadas como normas de fé e de moral.

Pelo acima exposto, a Igreja entende que tanto a Sagrada Escritura quanto a Sagrada Tradição, enquanto duas realidades “intimamente unidas e compenetradas” (DV 9), são fontes da Revelação e veículos dessa mesma Revelação e, por isso, fundamentos da fé e da doutrina da Igreja.

 

O Magistério Vivo da Igreja

O termo magistério é um substantivo masculino originário do termo latino magisterium, que indica tanto o “ofício de ensinar” quanto o “conteúdo” do “ensino”. No âmbito da Igreja, por este termo entende-se a função de ensinar, enquanto acto de transmitir e de interpretar autenticamente a Palavra de Deus e os ensinamentos de Jesus, exercido pelo Sumo Pontífice e pelos Bispos, em comunhão com ele (cf. DV 10).

Trata-se de um Magistério Vivo pois é exercido por guias vivos que orientam a Igreja sobre a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, sua autenticidade, veracidade e interpretação, e acompanham o caminho da Igreja até a consumação dos séculos, e se opõe ao magistério (escrito) ainda exercido atualmente na Igreja por homens que desapareceram, mas aos quais suas obras sobreviveram.

Foi o próprio Jesus Cristo quem instituiu um Magistério Vivo para a Sua Igreja, ao instituir o colégio apostólico, com S. Pedro à cabeça. De facto, ao estabelecer Pedro como a pedra sobre a qual edificaria a Sua Igreja e ao prometer-lhe as chaves do Reino dos Céus e a faculdade de ligar na terra o que seria ligado nos céus e desligar na terra o que seria desligado nos céus (cf. Mt 16, 18-19), bem como ao assegurar aos Seus apóstolos que “Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou” (Lc 10,26), Jesus estabelece um Magistério para a Sua Igreja.

Para que a missão de levar o Evangelho até aos confins do mundo, deixada por Jesus, se cumprisse, os Apóstolos deixaram seus sucessores, os bispos, a quem transmitiram o depósito da fé que tinham recebido de Jesus. Foi o que fez o apóstolo Paulo, por exemplo, estabelecendo Timóteo à frente da igreja de Éfeso (cf. 1Tm 1,3) e deixando Tito em Creta (cf. Tt 1,5).

Estes sucessores dos apóstolos, para além de serem guias espirituais e garantes da unidade da Igreja, têm como principal missão garantir a preservação e transmissão da sã doutrina nas comunidades a eles confiadas. Nesse sentido, são particularmente expressivas as recomendações do Apóstolo Paulo aos Bispos, que escutamos na última leitura, no sentido de cuidarem do rebanho, impedindo o ensino de heresias (cf. At 20,28-31).

A Relação entre a Sagrada Tradição, Sagrada Escritura e Magistério Tradição e Sagrada Escritura

Como vimos, a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus “escrita” sob a inspiração do Espírito Santo e a Sagrada Tradição é a transmissão “oral” da Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos. Estas duas realidades estão intimamente unidas e entrelaçadas na medida que ambas têm a mesma origem e inspiração divina. O que as distingue é somente o modo como comunicam as verdades. Por isso, é  de ambas que a Igreja tira a sua certeza a respeito de todas as verdades reveladas (cf. DV 9).

A Tradição da Igreja é o lugar por excelência da correcta interpretação e compreensão da Sagrada Escritura e de onde colhemos com certeza todas as verdades reveladas por Deus e que não podem ser conhecidas apenas com base nas Escrituras.

A Sagrada Escritura necessita da Sagrada Tradição para que conheçamos a sua existência, a sua legitimidade, a sua autenticidade e a sua integridade (cf. DV 8).

 

Tradição, Sagrada Escritura e Magistério

A relação que existe entre o Magistério e a Palavra de Deus é de serviço. O Magistério, de facto, não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela. Ele tem o ofício de, em nome de Jesus Cristo, interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida. Por mandato divino, com a assistência do Espírito Santo, ele ausculta piamente a Palavra, a guarda santamente e a expõe fielmente, tirando dela o que propõe à Igreja para ser crido como divinamente revelado (cf. CIC §85).

Existe, portanto, uma íntima união entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja de modo que “um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas” (CIC § 95).

Por Pe. Marcos Amélia Mubango

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