Crónica-A RIQUEZA DE SANGUE

Crónica-A RIQUEZA DE SANGUE

África dos nossos antepassados. África dos que lutaram e morreram por nossa libertação. África dos que sonham a igualdade de direitos e oportunidades. África daqueles que diariamente morrem explorados, injustiçados, empobrecidos, aniquilados nos seus sonhos. Esta é a terra que Deus abençoou com muitas riquezas: humanas, naturais, florestais, minerais, marinhas, faunísticas, petrolíferas, etc.

Pensa-se, desde muito tempo, que em África não existe riqueza saudável. Os que mais se sacrificam em trabalho, menos prosperam. Mesmo os assalariados não conseguem atingir os níveis de posse daqueles outros que seguem caminhos sinuosos. Enriquece quem serve a magia, quem passa por santuários obscuros, quem percorre caminhos de trevas e sem luz; quem passa de feiticeiro para outro, quem se transforma em cobra. Enriquece quem pratica iniquidade, quem corrompe, quem rouba, quem mata, quem se julga mais esperto, quem vive bajulando, quem se dobra diariamente para lamber chulé, para carregar e adicionar trocos que caem debaixo da mesa do suposto dono. Mas isso tem consequências sociais, religiosas, políticas, económicas, relacionais, existenciais.

É por esse motivo que se considera que os ricos de África e de Moçambique não o são como resultado do seu salário mensal. Esta é a história dos que vivem sempre subindo os outros. Assim foi também com o coelho e o camaleão.

Por sua natureza, o camaleão tem passos lentos. Porém, quando se encontrou com o coelho exibindo o seu talento de correr rápido, o camaleão respondeu-lhe:

– “Sim! Eu sei que não corro muito. Mas eu sou mais esperto do que tu. Força, corramos! Vamos ver quem ganha!”

Então o coelho começou a correr. O camaleão, no mesmo momento, subiu para a cauda do coelho, agarrou-se a ela e sentou-se. O coelho não sabia, ou não sentia o peso, porque estava com pressa. Logo que chegou à meta, o camaleão adiantou-se a saltar para o chão e sentou-se. Ora, quando o coelho ia sentar-se, o camaleão disse:

– “Não te sentes sobre mim! Eu cheguei há muito tempo e estou à tua espera”.

Então o coelho ficou muito aborrecido porque fora vencido pelo camaleão.

É da mesma forma como muitas riquezas de sangue trepam a cauda dos menos espertos. Revestidos de hipocrisia aparecem como se fossem os melhores, perfeitos e até se gabam da sua força e poder!

E enquanto continuarmos na esteira deste modo de enriquecimento nunca faltará a multidão dos miseráveis cada vez mais remetidos ao abismo; nunca faltará o barulho da guerra, do crime, dos falsos feiticeiros que se aproveitam da vida alheia para prosperar.

A riqueza de sangue mostra que o horror da guerra semeado em Moçambique é igualmente uma das faces obscuras do enriquecimento ilegal, indevido, selvagem, ganancioso e abominável. Por causa da riqueza há quem manda matar, manda sequestrar, manda fuzilar, manda expulsar o povo das suas terras, manda explorar os recursos do país exportando-os clandestinamente para fora do país, manda silenciar os que vêem a luz.

A vida de cada dia, as manobras que são produzidas e todas artimanhas dos elefantes cooperam sobremaneira na construção de riquezas de sangue que em nada facilitam o desenvolvimento de África e seus países. Os que se propõem liderar e gerir a coisa de todos, muitas vezes se apoderam de tudo e, em nome do povo, começam a enriquecer esquecendo-se daqueles a quem prometeram vida melhor e desenvolver o país. Utopia eterna.

A guerra, as rivalidades, as divisões, as assimetrias, as injustiças, a corrupção e outros males sociais acontecem porque a fome pelo dinheiro e consequente riqueza, coloca os reis e poderosos em conflitos intermináveis.

Ora, para manter a sua hegemonia, a sua riqueza, o seu poder, a sua fama, a sua prepotência servem-se das armas para afugentar possíveis pretendentes. O maior interesse em tudo isso é a procura do Reconhecimento.

Conta-se que há muito tempo, o elefante é que era reconhecido como rei de todos os animais. Mas, ao mesmo tempo, também o coelho tinha sido feito rei, mas ninguém sabia. Por isso, o elefante e o coelho lutavam entre si por esse mesmo reino. Queriam reinar em simultâneo. E por falta de reconhecimento por parte do povo começaram a lutar fortemente.

Acontece, porém, que certo dia, todos os animais se reuniram para saberem ao certo quem era o rei. Com efeito, concordaram ir perguntar a Deus.

O coelho mandou o macaco subir àquela árvore onde se ia realizar a reunião, para responder quando perguntassem a Deus: “Quem é, ao certo, o rei?”

Entretanto, se porventura perguntassem: “O rei é o elefante?” O macaco não devia responder. Mas quando lhe perguntassem “O rei é o coelho?” devia responder: “Sim! É o coelho”, senhor Deus. Ao responder, devia mostrar maior reverência ao coelho. A garantia disso é que o macaco seria adjunto do rei se o coelho fosse declarado rei de todos os animais.

Acontece que o elefante, por falta de esperteza, não conseguiu armar nenhuma cilada para reforçar o seu poderio. E, portanto, no dia em que se reuniram, Deus perguntou:

– O rei é o elefante?”

Nessa ocasião, ninguém respondeu nada. Todos osanimais permaneceram calados. Deus perguntou por sete vezes se o elefante era o rei. Seguindo as orientações do seu chefe máximo, o macaco também permaneceu totalmente quieto e sem se mexer. Continuava pendurado na árvore em redor da qual estavam sentados os demais animais.

Em seguida, Deus voltou a perguntar:

– “O rei é o coelho?”

E sem esperar a segunda vez, o macaco respondeu:

– “Sim, Senhor Deus! O rei é o coelho! Ele é muito respeitado por todos nós e promove o desenvolvimento da nossa aldeia e de todo o grupo”.

Naquele instante, depois dos pronunciamentos do macaco, todos os animais souberam que o seu rei era o coelho. O elefante, indefeso, ficou muito zangado e fugiu para o mato.

É desta forma como uns são ofuscados e ensombrados por aqueles que têm macacos pendurados em várias árvores para os defender. Os que não têm nada, continuam a gritar sem ser ouvidos e, quando se esgotam, fogem para o mato e encolhem a sua cauda.

Kant de Voronha

in Anatomia dos factos

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