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set 03 2026

Crónica: Quando a autonomia se confunde com auto-suficiência

Giovanni Muacua Há um fenómeno silencioso que se vai instalando na nossa sociedade e que poucos ganham a coragem de discutir. Fala-se muito da emancipação feminina, da independência económica e da igualdade de direitos, que são conquistas legítimas e inegociáveis. Mas fala-se pouco dos excessos que, por vezes, acompanham essas conquistas. O problema não está na liberdade da mulher. O problema começa quando a liberdade é confundida com auto-suficiência e quando a independência financeira passa a ser entendida como licença para dispensar os valores que sustentam uma família.   Há dias, num transporte semicolectivo, enquanto seguia para o trabalho, testemunhei uma conversa que me fez reflectir. Duas senhoras conversavam animadamente. Uma delas, aparentemente recém-formada na área da saúde, dizia à amiga: “Mana, estou cansada daquele homem. Assim que eu for colocada no Aparelho do Estado, nem me vou despedir dele. Simplesmente desapareço. Com o meu salário consigo alimentar-me”.   A frase foi dita com orgulho, como quem anuncia uma grande conquista. O silêncio que se fez no interior da viatura foi revelador. Alguns passageiros trocaram olhares discretos. Ninguém respondeu. Mas todos pareciam compreender que aquela afirmação dizia muito mais do que as palavras pronunciadas.   Aquela mulher certamente tem a sua história. Talvez tenha sofrido humilhações. Talvez tenha enfrentado desprezo ou violência. Não conhecemos a sua realidade e seria injusto julgá-la. Contudo, o seu discurso espelha uma mentalidade que se torna cada vez mais visível: a crença de que o emprego, o salário e a autonomia económica tornam dispensável o compromisso afectivo.   É aqui que reside uma das grandes ilusões do nosso tempo.   Vivemos numa sociedade que mede o sucesso pelas posses, pelo cargo ocupado e pelo saldo da conta bancária. Ensina-se a conquistar diplomas, empregos e património, mas ensina-se cada vez menos a cultivar relacionamentos, a resolver conflitos e a construir famílias sólidas. O resultado está diante dos nossos olhos: cresce o número de separações, aumentam os lares monoparentais, multiplicam-se pessoas que vivem rodeadas de conforto material, mas profundamente sós.   Nem o salário mais elevado substitui o carinho de quem espera por nós em casa. Nenhum cargo elimina a necessidade de ser amado. O dinheiro compra medicamentos, mas não cura a solidão. Compra uma casa, mas não constrói um lar. Compra uma cama confortável, mas não garante um sono tranquilo quando a consciência pesa ou quando o coração sente falta de companhia.   É curioso observar como algumas relações se transformam depois da estabilidade profissional. Existem casais em que o respeito dá lugar à competição. O diálogo cede espaço ao orgulho. Pequenos gestos de carinho deixam de existir. Já não se diz “boa viagem”, “cheguei bem” ou “até logo”.   No entanto, uma relação não termina apenas por causa de grandes traições. Muitas vezes morre lentamente, sufocada pela indiferença, pelo orgulho e pela ausência de atenção aos pequenos detalhes. Muitos homens continuam a abandonar os filhos, a fugir às responsabilidades familiares, a exercer violência doméstica e a acreditar que o dinheiro lhes concede autoridade para humilhar a esposa.   Muitos jovens já entram no namoro pensando mais na estabilidade financeira do que na estabilidade emocional. Casam-se sem aprender a dialogar. Separam-se sem tentar reconciliar-se. Trocam de parceiro com a mesma facilidade com que trocam de telefone.   Não será por acaso que tantos sacerdotes, pastores e conselheiros matrimoniais recebem diariamente homens e mulheres que, apesar de possuírem emprego, casa e rendimento, confessam sentir um enorme vazio afectivo. O dinheiro resolveu muitos problemas materiais, mas não conseguiu preencher o coração.   E talvez seja precisamente aí que muitos, homens e mulheres, estejam a pensar menos com o coração e mais com os joelhos: ajoelhados diante do dinheiro, do orgulho e da ilusão de que podemos viver sem precisar uns dos outros.

ago 04 2026

CRÓNICA: ENTRE PAREDES DE HOSPITAIS

Vukani Maxakha Estar doente nas nossas bandas tornou-se cada vez mais complicado. Outro dia, um vizinho ficou gravemente doente e precisávamos de o levar ao hospital. Mas como tirá-lo daquele beco sem ruas? Ele vivia no fundo dos becos da nossa banda, onde as ruelas não permitem a passagem nem de um carro nem de uma mota; acho que até uma mulher grávida de seis ou mais meses teria dificuldades sérias para passar por lá. Fazê-lo sair daqueles becos não foi nada fácil. Ter acesso aos serviços de saúde ficou ainda mais difícil. Outra vez, fui ao Hospital Central de Nampula para visitar o pai de um amigo que diziam estar internado lá, há três dias. Já fazia tempo que não entrava nas instalações daquela instituição sanitária, uma das maiores e de referência nacional. Informei-me pelas indicações dispostas no hospital e dirigi-me para onde, provavelmente, estaria o paciente que teria de visitar. Para meu espanto, quando cheguei à enfermaria, parecia estar a entrar num mercado: pacientes e visitantes em todo e qualquer canto, nas camas e nos corredores; não havia sequer lugar para nos deslocarmos. Aí me perguntei: como é que os pacientes podem recuperar-se bem naquele estado? Por outro lado, como é que os médicos e o resto da equipa médica podem dar conta do recado naquelas condições? É mesmo um milagre sobreviver em tais circunstâncias. Daí veio-me à mente um texto lindo, de um autor desconhecido, que passo a apresentar: “Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que igrejas, já viram despedidas e beijos mais sinceros do que aeroportos. É no hospital que você vê um homofóbico sendo salvo por um médico homossexual, uma médica “patricinha” salvando a vida de um mendigo. Na UTI, você vê um judeu cuidando de um racista, um paciente policial e outro, presidiário. Na mesma enfermaria, ambos recebem os mesmos cuidados. Um paciente rico na fila de transplante hepático, pronto para receber um órgão de um doador pobre. É nessas horas que o hospital toca na ferida das pessoas, que universos se cruzam com um propósito e, nessa comunhão de destinos, nos damos conta de que sozinhos não somos ninguém. A verdade absoluta das pessoas, na maioria das vezes, só aparece no momento da dor ou da ameaça real da perda definitiva. O hospital é o local onde os seres humanos se desnudam das suas máscaras e se mostram como são na sua verdadeira essência. Esta nossa vida passa rápido, não brigue com as pessoas em vão. Não critique tanto o seu corpo, não reclame. Não perca o seu sono, nem deixe que lhe tomem a paz. Não deixe de beijar os seus amores, não se preocupe tanto. Ame o seu Deus, a sua família, os seus amigos. Ore/reze por aqueles que você imagina não merecer. Bens e patrimónios devem ser conquistados por cada um, não se dedique a acumular herança. Espera-se muito o Natal, a sexta-feira, o outro ano, quando tiver dinheiro, quando o amor chegar, quando você achar que tudo será perfeito. Na realidade, não existe nada perfeito. O ser humano não consegue atingir isso porque, simplesmente, não foi feito para se completar aqui… Aproveite e ame mais. Perdoe mais. Abrace mais. Viva mais intensamente. E deixe todo o resto na mão de Deus!” Os parágrafos deste texto de origem desconhecida são tão profundos que nos deixam a reflectir. Como não fazer preces sinceras se estás entre a vida e a morte? Naquelas condições, cada paciente, além do alto risco de contagiar os outros, corre também o mesmo risco de ser contaminado por eles. Isto é desumano. Gritam as paredes, mas quem as escuta? Elas não fazem mais do que murmurar silenciosamente, e o seu ruído só é sentido pelos pacientes. Cá entre nós! Digamos de passagem. Parece brincadeira, mas esta situação pode tirar alguém do sério. Enquanto, de um lado, o hospital está superlotado como o mercado de Waresta, do outro lado temos as instalações do novo hospital provincial, inacabado e abandonado há tempo. É doloroso e triste ver o povo sofrendo e mal acomodado, e um bando de executivos de gravatas, responsáveis pela má gestão das obras, circulando por aí impunemente. Infelizmente, esta moda está a pegar na Pérola do Índico: escolas, hospitais, pontes, etc., que se começam, mas nunca se concluem. As paredes daqueles edifícios guardam muitas memórias. Apesar das condições precárias de trabalho, os hospitais também guardam lindas memórias de profissionais dando o seu melhor para salvar mais uma vida, ou de profissionais chorando e culpando-se por não poderem salvar mais vidas. Na verdade, se nestas situações é difícil ser um paciente, é ainda mais difícil ser um profissional de saúde nestes casos. Falou o velho de olhar penetrante!  

jul 03 2026

CRÔNICA: Bala a Bala, Destruindo o Novo Dia

Por: Giovani Muacua A crescente onda de esquadrões de morte mata o brilho de Moçambique. A realidade de cada dia no nosso país nega veementemente o esqueleto que o Hino Nacional descreve sobre Moçambique: “Moçambique, nossa terra gloriosa! Pedra a pedra construindo o novo dia. Milhões de braços, uma só força. Ó Pátria Amada, vamos vencer”. Moçambique, custa-nos perceber até que ponto és a “nossa terra gloriosa” com corpos imolados e sangue derramado em cada dia; custa-nos entender com que “pedra a pedra” construis o novo dia, quando, na realidade, com bala a bala são silenciadas vozes inocentes. Tão pouco conseguimos ver que “milhões de braços, uma só força”, com inúmeras divisões nas diferentes instituições (políticas, sociais e religiosas). Fazendo uma breve retrospectiva histórica, várias figuras públicas moçambicanas são eliminadas inocentemente, por vezes, pelas suas intervenções de forte impacto político, social e religioso. No ano 2000, mataram Carlos Cardoso (em Maputo), jornalista que investigava alegados casos de corrupção ligados à privatização bancária; em 2015, silenciaram Gilles Cistac (em Maputo), professor universitário e especialista em Direito Constitucional, morto a tiro após intervenções públicas sobre questões constitucionais e descentralização; em 2017, mataram a tiros em Nampula, Mahamudo Amurane, Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula; em 2019, assassinaram Anastácio Matavele (em Xai-Xai), Observador Eleitoral e Dirigente de uma organização da sociedade civil, durante o período eleitoral. Em 2024, não escaparam do assassinato Elvino Dias, Advogado ligado à oposição política, e Paulo Guambe, mandatário do partido PODEMOS. Desta vez, os esquadrões de morte invadiram Jerusalém, o Paço Episcopal da Diocese de Quelimane, onde mataram macabramente o Dom Osório Citora Afonso (2026), Bispo de Quelimane e Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira, o primeiro Bispo, natural de Iapala, Distrito de Ribáuè, Província de Nampula. Será de bala a bala que Moçambique é glorioso e pode construir um novo dia? O corpo imolado e sangue derramado de Osório clama pela justiça e verdade. Foi na madrugada de 6 de Junho de 2026, que este servo de Deus e da Igreja foi baleado mortalmente. Um novo Mártir, um novo Santo do povo moçambicano. Um assassínio macabro e hediondo que aconteceu precisamente nas vésperas da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com altares preparados, os fiéis católicos estão prontos para irem às procissões com cânticos de louvor para exaltar o Corpo oferecido e o Sangue derramado de Cristo pela salvação do mundo. Foi neste contexto em que outro corpo e outro sangue era derramado dramaticamente sobre o solo moçambicano. Sentimento de choque, incredulidade e dor para o mundo inteiro. Não foi apenas morte de um cidadão, nem apenas da morte de um líder religioso. Foi morte de um pastor, homem de Deus, filho moçambicano, que doara a sua vida ao serviço da Igreja e do povo. De facto, existem acontecimentos que superam a esfera de crime comum e se transformam em sinais dos tempos. O assassinato de Dom Osório é um desses acontecimentos. Realidade que nos impõe a fitar o olhar para além dos factos imediatos e a interrogar-nos sobre a realidade política, social e espiritual deste e neste país. Que sociedade estamos a construir enquanto cresce a onda de violência e esquadrões de morte? A morte de Dom Osório é luto “nacional” e deixa um forte apelo às autoridades governamentais, forças de segurança e instituições judiciais para que a verdade seja revelada e a justiça, seja feita. Não se trata de revelar a verdade e fazer justiça por vingança, mas por respeito supremo à dignidade. Quando um país resigna-se esclarecer crimes transforma a impunidade em cultura e a violência em café diário. Dom Osório era filho de Iapala, no distrito de Ribáuè, província de Nampula. O seu percurso de vida era motivo de orgulho para milhares de moçambicanos. Homem simples, próximo das comunidades, conhecedor das alegrias e sofrimentos do povo. A sua morte feriu a família, os amigos, os Missionários da Consolata, a Diocese de Quelimane, a Arquidiocese da Beira e toda a Igreja em Moçambique. Que Deus acolha Dom Osório Citora na plenitude da Sua paz. E que o seu sangue derramado se transforme numa voz profética que desperte Moçambique para os valores da justiça, da verdade, da fraternidade e da paz. Dom Osório Citora, Descanse em paz!

jun 16 2026

CRÓNICA: DA INDEPENDÊNCIA ÀS FRALDAS

Por: Giovanni Muacua Ao contemplarmos a realidade actual, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: estaremos verdadeiramente independentes em Moçambique? A independência política foi conquistada em 1975. Contudo, a independência económica, social e moral continua distante para muitos cidadãos. O país possui enormes riquezas naturais: gás natural, carvão mineral, rubis, ouro, grafite, madeira e terras férteis. Apesar disso, a maioria da povo continua mergulhada na pobreza. Aqui tudo falta-nos. A riqueza do país não beneficia que a uma minoria. Samora Machel alertava para o perigo do “inimigo interno”, um colonizador negro revestido de pele moçambicana. Hoje, muitos cidadãos sentem que essa profecia se tornou realidade. Expulsou-se o colono estrangeiro, mas nasceram novas formas de opressão dentro do próprio país. A diferença é que agora o explorador fala a mesma língua, vive no mesmo território e carrega a mesma bandeira. A corrupção tornou-se uma das maiores ameaças à verdadeira independência nacional. Recursos destinados ao povo desaparecem misteriosamente. Dinheiros públicos são desviados enquanto hospitais não possuem medicamentos básicos e escolas funcionam sem carteiras nem livros. Multiplicam-se os escândalos financeiros, mas poucos são responsabilizados. A justiça parece forte contra os pobres e fraca diante dos poderosos: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressoras, para negarem justiça aos pobres” (Is 10,1-2). O sofrimento do povo agrava-se diante da subida constante do custo de vida. O preço do combustível aumenta frequentemente. Isto afecta os transportes públicos, os produtos alimentares e os serviços básicos. Em consequência, o cidadão comum perde cada vez mais o poder de compra. Muitas famílias já não conseguem garantir três refeições por dia. Jovens licenciados permanecem anos sem emprego, enquanto vagas são atribuídas por influência ou corrupção. Na esfera profissional, tornou-se comum ouvir denúncias de concursos públicos manipulados. Os vencedores já são conhecidos antes mesmo da abertura oficial das candidaturas. O mérito perde espaço para o nepotismo e para o clientelismo político. O cidadão trabalhador e honesto sente-se desmotivado. Ele percebe que o esforço nem sempre é valorizado: “Ai daqueles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça” (Am 5,7). Há uma crescente onda de desigualdade social. Enquanto alguns acumulam fortunas e vivem em luxo exagerado, milhares de famílias vivem em bairros sem saneamento, energia eléctrica ou segurança. Crianças estudam sentadas no chão. Mulheres percorrem kilómetros em busca de água. Doentes morrem por falta de assistência médica adequada. Esta realidade contradiz os ideais pelos quais tantos moçambicanos lutaram durante a guerra de libertação. Além disso, Moçambique enfrenta graves desafios de segurança. O terrorismo em Cabo Delgado continua a provocar mortes, deslocamentos populacionais e destruição de comunidades inteiras. Milhares de famílias perderam casas, bens e familiares. Crianças crescem longe da escola e da estabilidade familiar. O medo e a incerteza passaram a fazer parte da vida de muitos moçambicanos. A crise moral também se faz sentir em vários sectores da sociedade. Na política, muitos dirigentes preocupam-se com interesses partidários do que em servir o povo, promovem-se divisões, intolerância e discursos manipuladores. O povo é frequentemente usado como instrumento para alcançar ou manter o poder: “Os seus chefes julgam por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,11). Na esfera religiosa surgem igualmente sinais preocupantes. Cresce o número de líderes religiosos que transformam a fé em negócio. Em vez de promoverem a justiça, a verdade e a solidariedade, exploram emocionalmente os fiéis em busca de riqueza e prestígio pessoal. Há mais preocupação com ofertas e contribuições financeiras do que com o sofrimento humano. A religião, que deveria ser fonte de esperança e transformação social, por vezes torna-se instrumento de manipulação: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). Perante tudo isso, muitos cidadãos perguntam-se: Que independência celebramos? Será apenas independência territorial e política? Ou deveríamos lutar também pela independência da fome, da corrupção, da injustiça e da pobreza? A verdadeira independência deve traduzir-se em dignidade humana, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos fundamentais e compromisso sincero com o bem comum. Enquanto persistirem o abuso do poder, a corrupção, a manipulação política, o nepotismo, a hipocrisia, a injustiça social e a indiferença diante do sofrimento do povo, a independência continuará incompleta: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm vestidos de ovelhas” (Mt 7,15). Moçambique precisa urgentemente de uma nova consciência nacional, baseada na honestidade, no patriotismo, na solidariedade e na responsabilidade colectiva. O país não mudará apenas com discursos políticos nem com celebrações festivas. A mudança exige líderes comprometidos com a verdade e cidadãos activos na defesa da justiça e do bem comum. Celebrar a independência nacional significa renovar o compromisso de construir um país onde haja justiça, paz, oportunidades e dignidade para todos.

maio 05 2026

Crónica: Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros

Por Giovanni Muacua Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros. A vida é um dom sagrado de Deus, oferecido gratuitamente a cada ser humano, independentemente da sua condição social, económica, cultural ou religiosa. Apenas a Deus compete dar e tirar a vida. Nenhum ser humano, por mais poderoso, rico ou influente que seja, tem autoridade para decidir sobre a vida do outro — muito menos quando essa decisão é movida pela ambição, pela ganância ou pela sede insaciável de riqueza. Vivemos tempos difíceis, marcados por uma profunda crise de valores humanos, morais e espirituais. As relações entre as pessoas tornaram-se frias, calculistas e perigosamente individualistas. Cada um parece preocupar-se apenas consigo mesmo, com o seu sucesso pessoal e com o seu bem-estar imediato, colocando a vida do próximo em segundo plano. Vive-se como se o sofrimento alheio fosse irrelevante, como se a dor do outro não tivesse importância alguma. Este modo de viver revela uma sociedade ferida e doente, que perdeu o sentido do sagrado e da fraternidade. Neste contexto, ganha força uma lógica perversa, segundo a qual “os fins justificam os meios”. Trata-se de um verdadeiro maquiavelismo social, no qual não importa como se alcança a riqueza ou o poder, desde que o objectivo final seja atingido. Esta lógica é profundamente desumana e anticristã. É uma visão pagã da vida, que transforma o ser humano em instrumento e não em fim. No entanto, a fé cristã recorda-nos que todos fomos criados para viver, para amar e para cuidar uns dos outros, enquanto caminhamos nesta terra à espera da segunda vinda de Cristo, nosso Salvador. Todos havemos de morrer. Esta é uma verdade incontornável. A morte não escolhe classe social, não respeita estatutos nem títulos. Morrem ricos e pobres, jovens e velhos, fortes e fracos, negros e brancos. A morte coloca todos no mesmo nível e recorda-nos que as riquezas acumuladas, muitas vezes com tanto sacrifício e violência, não acompanham ninguém para o túmulo. O que permanece é apenas a memória das nossas acções e a responsabilidade diante de Deus. Por isso, qualquer riqueza construída sobre a morte, o sofrimento e o sangue de outros seres humanos não conduz à felicidade verdadeira. Uma riqueza que nasce de assassinatos, sacrifícios humanos, feitiçaria ou práticas ocultas não traz paz interior, não gera segurança nem alegria duradoura. Pelo contrário: cria medo, desconfiança e destrói famílias inteiras, levando, inevitavelmente, à condenação moral e espiritual. É triste e revoltante constatar que estas práticas não são apenas histórias antigas ou lendas urbanas. Elas acontecem no seio das nossas comunidades, muitas vezes dentro das próprias famílias. Há tios, irmãos e pais que, movidos pela ganância, recorrem a feiticeiros e curandeiros para “fortalecer” os seus negócios, acreditando que a prosperidade só será possível à custa da morte ou da desgraça de alguém próximo. Em muitos casos, as vítimas são os próprios filhos, netos ou sobrinhos. Essas pessoas enriquecem rapidamente, exibem sinais exteriores de sucesso e sentem-se invencíveis. No entanto, esquecem-se de que também elas vão morrer. E, quando esse dia chegar, terão de prestar contas a Deus por cada vida destruída, por cada lágrima derramada, por cada injustiça cometida. Deus é paciente, mas é justo. A sua justiça pode tardar, mas nunca falha. Que sucesso é esse que se constrói sobre o medo, a morte e a destruição dos laços familiares? Nenhuma pessoa que vive da bruxaria está isenta da morte. Nenhuma prática oculta pode salvar alguém do juízo divino. Há pessoas que já não conseguem dar um passo sem recorrer à feitiçaria: para estudar, para trabalhar, para casar ou para enriquecer. Toda a vida passa a ser governada pelo medo e pela dependência do mal. Este tipo de vida não traz felicidade verdadeira; gera angústia, insegurança e isolamento. Viver sabendo que os próprios familiares o temem, não por respeito, mas por medo, é uma tragédia humana. Um bom pai, um bom tio ou um bom irmão não é aquele que enriquece destruindo a vida dos outros, mas aquele que protege, educa, orienta e promove a vida em abundância. É importante afirmar com clareza: para enriquecer, ninguém precisa de matar ninguém. Não é necessário destruir vidas para alcançar estabilidade económica. O trabalho honesto pode ser lento e difícil, mas preserva a dignidade humana e a paz de consciência. A pobreza vivida com dignidade vale muito mais do que a riqueza manchada de sangue. No fim, não seremos julgados pela quantidade de bens acumulados, mas pela forma como respeitámos a vida, promovámos a justiça e cuidámos uns dos outros. Quem tem ouvidos, ouça!

abr 16 2026

Crónica: Mesmo Fora Daqui se Morre

Por: Giovanni Muacua O nosso país, o belo Moçambique, está a ficar cada vez mais esfarrapado, não por falta de recursos de investimento, mas por causa da insensibilidade e egoísmo destes senhores. Como quem morre são sempre os outros, ninguém se interessa por melhorar as condições das nossas unidades sanitárias. Cada um preocupado em encher o próprio umbigo e bolso; investe na própria riqueza, jogando o bem-comum na morgue à espera da sepultura. Num país que nasceu rico em recursos naturais e culturais, a esperança transformou-se, aos poucos, num espaço onde a vida vale pouco e a sobrevivência tornou-se um privilégio. Não por falta de meios, mas por excesso de indiferença. O problema de Moçambique não é a falta de riqueza, mas a sua má gestão. O problema não é a escassez de dinheiro, mas a sua concentração em bolsos privados. O problema não é a falta de discursos políticos, mas a distância entre esses discursos e a realidade nua dos hospitais públicos, onde a dor grita mais alto do que qualquer slogan governamental. “O nosso maior valor é a vida”, diz o Ministério da Saúde. Mas que vida é essa que se promete, quando falta gesso, faltam reagentes, faltam medicamentos e sobra sofrimento? As unidades sanitárias do país são o retrato mais cruel da desigualdade social e económica. Enquanto o cidadão comum enfrenta bichas intermináveis, humilhações e tratamentos desumanos, os senhores do poder, os donos das decisões e das riquezas nacionais, viajam ao estrangeiro com uma simples dor de cabeça. Lá, recebem cuidados dignos, tecnologia avançada e conforto. Aqui, o povo recebe silêncio, desprezo e anestesia em falta. A saúde tornou-se um espelho da política nacional: quem pode, vive; quem não pode, espera ou morre. O país arrecada impostos, explora recursos minerais, assina contratos milionários e anuncia investimentos. Socialmente, porém, o retorno disso é invisível para a maioria. Onde vai o dinheiro que sai do suor dos trabalhadores, dos impostos pessoais e empresariais? Se nas farmácias públicas faltam medicamentos, como explicar a abundância nas clínicas privadas? Se os hospitais públicos carecem de aparelhos básicos de diagnóstico, de onde vêm os equipamentos modernos nas clinicas privadas? Essa contradição não vem do acaso; é o sistema. Um sistema que lucra com a dor e transforma a saúde num negócio para poucos. A contrapartida consiste em que há mais investimento em armas do que em vidas. Compra-se gás lacrimogéneo, munições e viaturas de repressão, enquanto se negligencia a compra de aparelhos clínicos, medicamentos essenciais e condições mínimas de trabalho para médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde trabalham sem 13º salário, sem materiais, sem motivação e sob pressão constante. Ainda assim, espera-se que salvem vidas com as mãos vazias. É um paradoxo cruel: o Estado exige milagres de quem ele próprio abandona. A violência não está apenas nas balas ou nos cassetetes; ela está também na agulha que perfura a carne sem anestesia, no parto feito sem condições, no paciente que grita de dor enquanto o sistema finge não ouvir. É uma violência silenciosa, diária e institucionalizada. Uma violência que mata mais do que qualquer guerra declarada. Dizem que a morte não escolhe classe social e é verdade. Mesmo os que fogem para além-mar, acreditando escapar ao destino comum, acabam por descobrir que em todo o canto se morre. A morte é democrática, mas a vida não é. A vida em Moçambique tornou-se profundamente desigual. Uns vivem cercados de conforto e protecção; outros sobrevivem cercados de medo, doença e abandono. Esta situação não é apenas uma falha administrativa, é uma falência moral. Um país que aceita ver o seu povo sofrer sem reagir, perdeu o sentido de nação. As festas luxuosas, as viagens desnecessárias e as mansões erguidas com dinheiro público são afrontas directas à dor colectiva. Cada tijolo dessas casas luxuosas poderia ser um medicamento, um aparelho clínico, uma cama hospitalar. Cada festa poderia ser uma ala reabilitada. Cada viagem poderia ser uma vida salva. O povo está exausto. Exausto de promessas vazias, de discursos reciclados, de ver a morgue mais organizada do que o hospital. Exausto de ser tratado como número e não como ser humano. A Bíblia já chorava a ruína da filha do povo; hoje, Moçambique chora a sua própria chaga. Uma chaga aberta pela ganância, pela corrupção e pela insensibilidade. Que fique bem claro: investir na saúde não é caridade, é obrigação. Melhorar hospitais não é favor, é um dever constitucional e moral. A vida não pode continuar a ser moeda de troca política. Porque no fim, ricos ou pobres, governantes ou governados, todos somos peregrinos nesta terra. A morte, justa e paciente, visita a todos, dentro ou fora de Moçambique. Quem tem ouvidos, ouça.

jan 06 2026

Crónica: O Orgulho do Sapo Mata

Por: Giovanni Muacua O orgulho é uma erva daninha que nasce sem ser cultivada. Cresce silenciosa, infiltra-se entre relações humanas e, quando menos se espera, já está a corroer amizades, destruindo laços familiares e envenenando ambientes de trabalho e comunidades inteiras. Em Moçambique, onde os desafios sociais exigem hoje mais união do que nunca, o orgulho funciona como um muro invisível que impede diálogos, bloqueia reconciliações e alimenta conflitos evitáveis. É comum ouvir que “quem cumprimenta primeiro perde”, como se o simples gesto de saudar um vizinho fosse uma abdicação da dignidade humana. Este modo de pensar, profundamente enraizado na cultura urbana contemporânea, é um sintoma de um problema maior: a dificuldade de assumir vulnerabilidades, reconhecer erros e valorizar o outro. Paradoxalmente, é precisamente essa recusa de humildade que nos enfraquece enquanto sociedade. Nas cidades moçambicanas, sobretudo nos bairros suburbanos onde as casas estão praticamente coladas umas às outras, a convivência diária deveria facilitar a proximidade. No entanto, muitas vezes acontece o oposto. Vizinhos que não se falam por questões banais, famílias divididas por mal-entendidos, colegas de trabalho que se ignoram por disputas pequenas, condutores que se ofendem na estrada e transportam a raiva como se fosse um troféu. A cultura do “orgulho” tem um preço, e esse preço é o enfraquecimento do tecido social. Em qualquer canto de Maputo, Beira, Nampula ou Pemba, pode-se observar este fenómeno. As pessoas passam umas pelas outras como se fossem invisíveis. Uma saudação, que deveria ser a ponte mais simples entre duas pessoas, torna-se um campo de batalha silencioso. Quem cumprimenta primeiro? Quem se dobra? Quem demonstra “fraqueza”? E assim vamos construindo paredes, tijolo por tijolo, até que se tornam tão altas que ninguém mais vê o outro lado. Mas afinal, o que se perde quando alguém saúda primeiro? Nada. O que se ganha? Mais do que parece. Em tempos de tensão social crescente, marcados por desigualdade económica, conflitos no norte, desemprego e frustração generalizada, a humildade pode ser um instrumento revolucionário. Um chefe pode pedir desculpas ao funcionário; um professor pode reconhecer o erro perante o aluno; um marido pode dar o primeiro passo para o diálogo; um vizinho pode desejar um “bom dia” mesmo sabendo que nunca recebe resposta. Gestos pequenos, sim, mas de impacto enorme. A humildade restaura dignidade, aproxima pessoas e desbloqueia relações congeladas. Moçambique é um país multicultural e multilingue, onde a coexistência sempre foi uma riqueza. No meio rural, por exemplo, ainda é comum encontrar comunidades que preservam a tradição da saudação calorosa, onde ninguém passa por alguém sem dizer ao menos “Bom dia, mano/a”. Mas nas cidades, onde a modernidade chegou carregada de pressa, individualismo e comparação social, este valor humano foi ficando para trás. É como se o país vivesse duas realidades paralelas: uma moçambicanidade antiga, profundamente comunitária, e uma modernidade orgulhosa, onde muitos têm medo de parecerem pequenos. O problema é que o orgulho não nos torna grandes, apenas nos afasta. Torna-nos frios, desconfiados, tensos. E, numa sociedade marcada por desafios estruturais, a falta de diálogo é um luxo que não podemos permitir. Nas reuniões de trabalho, muitas vezes o orgulho impede que se reconheça uma má decisão, uma falha de gestão ou a necessidade de colaboração. Nos bairros, impede reconciliações simples que poderiam evitar discussões, rixas e até violência. Nas famílias, o orgulho é responsável por silêncios que duram anos, perpetuando mágoas que poderiam ser resolvidas com uma única conversa. E, no entanto, todos reclamam da falta de união. Todos querem um país mais solidário, mais justo, mais harmonioso. Mas como construir união se cada um se agarra ao orgulho como se fosse um direito inalienável? A humildade, ao contrário do orgulho, não diminui ninguém. Pelo contrário, engrandece. Quem dá o primeiro passo não é fraco — é forte o suficiente para romper o ciclo da indiferença. Num ambiente onde quase ninguém quer ceder, ser o primeiro a cumprimentar é um acto de coragem. Talvez seja necessário reaprender o óbvio: relações humanas não se constroem com braços cruzados. Não se fortalecem com “orgulho do sapo”, aquele orgulho teimoso que impede o gesto mais simples. Não há desenvolvimento social possível onde falte diálogo. E não há diálogo sem humildade. Que mal há em dizer “bom dia” primeiro? Em reconhecer que também erramos? Em ligar para um familiar com quem não falamos há tempo? Em perdoar quando a vida é curta demais para guardar rancores? Moçambique precisa mais do que nunca desta revolução silenciosa. Uma revolução que não começa nas assembleias nem nos gabinetes, mas na porta de cada casa, na estrada, nos transportes, nas escolas, nos mercados, nos locais de trabalho. Afinal, grandes mudanças começam com pequenos passos. E talvez o primeiro passo seja simplesmente baixar a guarda, abrir o coração e cumprimentar alguém. Porque a humildade não custa dinheiro.

maio 03 2023

a Droga mata

Cesar Guedes responsável do gabinete das Nações Unidas contra droga e crime  (UNODC) em Moçambique destacou a cooperação com as autoridades Moçambicanas no sucesso das apreensões de grandes quantidades de drogas em Moçambique. Moçambique é um dos principais  corredor de narcotráfico estima se  que todos os anos  entre 30 a 40 toneladas de narcóticos seja traficada através da costa marítima Moçambicana para África do Sul Europa e Estados  Unidos. Cesar Guedes anunciou que vai inaugurar nos próximos meses o escritório da UNODC em Maputo.   Escute a radio-noticia da DW sobre este tema

abr 07 2023

Crónica – A FESTA DE LÁGRIMAS

Comemoramos hoje o 07 de Abril, dia mulher moçambicana. Momento em que é lembrado o aniversário da morte de Josina Machel (1945-1971), combatente da liberdade de Moçambique e heroína nacional. Consta dos anais históricos que até 25 de Junho de 1975, Moçambique era uma das colónias portuguesas em África, quando nesta data, após uma década de guerra pela libertação, conquistou sua independência. Uma mulher que tomara consciência do seu papel na conquista da libertação moçambicana do jugo colonial. Apesar do forte confronto e empenho da Josina Machel no combate aos inimigos da liberdade deste país, ainda hoje continuam vivos os rios de lágrimas na vida de muitos cidadãos, entre homens e mulheres. O tempo presente está sendo marcado por grandes dificuldades da vida: aumento doentio do clima de corrupção, acidentes de viação, desemprego, perseguições, subida de preço do pão e do combustível, greves, terrorismo em Cabo Delgado e noutros pontos do país. Sobretudo, o mundo feminino vive dilacerado ante vários fenómenos que reflectem ódio profundo ao seu sucesso. Mulheres vítimas de desigualdades sociais, assédio e violência sexual, humilhação doméstica, multiplicação do analfabetismo, o fracasso do direito à educação e ao emprego, etc. Diante de tudo isso, a falta de unidade entre as mulheres à causa comum é o grande veneno da libertação feminina. Porque, como Josina Machel, todas mulheres podem ser heroínas, claro, cada uma a seu modo. Mas tudo exige decisão. Continuarão longe do esquema do sucesso se ainda prevalecer, nesta sociedade, o empenho das famílias na promoção de casamentos prematuros, enquanto continuar cerrada a cultura de estudos e formação, na confiança de que basta se casar. O 7 de Abril deste ano é diferente de muitos outros. Coincide com a Sexta-Feira Santa, Dia da Paixão e Morte de Jesus na Cruz. Momento mais intenso de oração, jejum e prática de esmola para um verdadeiro cristão e uma verdadeira fiel, mulheres e homens que seguem Cristo em espírito e verdade. É dia de conhecer quem são os verdadeiros Judas Iscariotes e Judas Iscariotas, os traidores e traidoras de Jesus. Não é dia de faltar a Igreja por se tratar de 7 de Abril. Não é dia bater wines e cabangas, nem de comer carnes, menos ainda de promover a cultura do “primo, vou jobar, ou prima, vou ser jobada”. É dia de jejum de calúnias, fofocas, murmúrios, ciúme selvagem, inveja, consumismo de drogas e do álcool, etc. Ouviram? Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua, 07 de Abril de 2023

abr 07 2023

Venenos da libertação feminina

Por Giovanni Muacua Comemoramos hoje, Dia 7 de Abril, a data da mulher moçambicana. Momento em que é lembrado o aniversário da morte de Josina Machel (1945-1971), combatente da liberdade de Moçambique e heroína nacional. Consta dos anais históricos que até 25 de Junho de 1975, Moçambique era uma das colónias portuguesas em África, quando nesta data, após uma década de guerra pela libertação, conquistou a sua independência. Uma mulher que tomara consciência do seu papel na conquista da libertação moçambicana do jugo colonial. Apesar do forte confronto e empenho da heroína moçambicana, Josina Machel, no combate aos inimigos da liberdade deste país, ainda hoje continuam vivos os rios de lágrimas na vida de muitos cidadãos (homens e mulheres).O tempo presente está sendo marcado por grandes dificuldades da vida: aumento doentio do clima de corrupção, acidentes de viação, desemprego, perseguições, subida de preço do pão e do combustível, greves, terrorismo em Cabo Delgado e noutros pontos do país. Sobretudo o mundo feminino que vive dilacerado ante vários fenómenos que reflectem ódio profundo ao seusucesso. Mulheres vítimas de desigualdades sociais, assédio sexual, violência sexual e doméstica, a multiplicação do analfabetismo, o fracasso do direito à educação e ao emprego, etc. Diante de tudo isso, a falta da unidade das mulheres à causa comum é grande veneno da própria libertação feminina. Porque, como Josina Machel, todas mulheres podem ser heroínas, claro, cada uma a seu modo. Mas tudo exige decisão. Continuarão longe do esquema do sucesso se ainda prevalecer, nesta sociedade, o empenho das famílias na promoção de casamentos precoces, enquanto continuar cerrada a cultura de estudos e formação, na confiança de que basta casar apenas. É possível enxugar as lágrimas de Abril. Todas podem ser heroínas, mas é um trabalho que exige empenho e sacrifício de todos. Heroína não é apenas Josina Machel, mas todas as mulheres que lutam para pôr fim às sujeiras da vida da família. Daquelas que negam ser “caixa de lixoˮ na sociedade moribunda em que vivemos. São também heroínas as que: Se abrem para estudos e se sacrificam para própria formação; Se empenham no combate à pobreza e não sentem vergonha de sujar as mãos para o sustento da família; Sabem viver a fidelidade na sua família e fazem de tudo para o cuidado dos filhos; Negamser instrumento de vadiagem e produto do mercado sexual; Promovem a vida, negando cometer abortos voluntários; Se empenham na paciência, no cuidado dos doentes e dos idosos da família e da sociedade em geral; Se enquadram em espírito e verdade numa religião, igreja para o seu alimento espiritual; Negam a dependência nas drogas; Buscam auto-emprego; Vencem o veneno do ódio e da indiferença. E perdem o grau do heroísmo as que destroem seus lares, as que dependem apenas da vida dos outros, as que pensam que nasceram apenas para sofrer; as que se empenham nas calúnias e fofocas, no ciúme selvagem; aquelas mulheres que não se dedicam na partilha, que querem ouvir apenas “sim, senhora!ˮ, que investem na cultura da inveja, no consumismo do álcool; as que gostam de trair seus esposos, trocam momentos de diálogo familiar com as redes sociais. Não restam dúvidas que é possível enxugar as lágrimas que rolam na nossa alma. Assim como os mortos ressuscitam, também podem se recuperar as mulheres dilaceradas. Quem tem ouvidos, ouça!

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