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jun 16 2026

CRÓNICA: DA INDEPENDÊNCIA ÀS FRALDAS

Por: Giovanni Muacua Ao contemplarmos a realidade actual, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: estaremos verdadeiramente independentes em Moçambique? A independência política foi conquistada em 1975. Contudo, a independência económica, social e moral continua distante para muitos cidadãos. O país possui enormes riquezas naturais: gás natural, carvão mineral, rubis, ouro, grafite, madeira e terras férteis. Apesar disso, a maioria da povo continua mergulhada na pobreza. Aqui tudo falta-nos. A riqueza do país não beneficia que a uma minoria. Samora Machel alertava para o perigo do “inimigo interno”, um colonizador negro revestido de pele moçambicana. Hoje, muitos cidadãos sentem que essa profecia se tornou realidade. Expulsou-se o colono estrangeiro, mas nasceram novas formas de opressão dentro do próprio país. A diferença é que agora o explorador fala a mesma língua, vive no mesmo território e carrega a mesma bandeira. A corrupção tornou-se uma das maiores ameaças à verdadeira independência nacional. Recursos destinados ao povo desaparecem misteriosamente. Dinheiros públicos são desviados enquanto hospitais não possuem medicamentos básicos e escolas funcionam sem carteiras nem livros. Multiplicam-se os escândalos financeiros, mas poucos são responsabilizados. A justiça parece forte contra os pobres e fraca diante dos poderosos: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressoras, para negarem justiça aos pobres” (Is 10,1-2). O sofrimento do povo agrava-se diante da subida constante do custo de vida. O preço do combustível aumenta frequentemente. Isto afecta os transportes públicos, os produtos alimentares e os serviços básicos. Em consequência, o cidadão comum perde cada vez mais o poder de compra. Muitas famílias já não conseguem garantir três refeições por dia. Jovens licenciados permanecem anos sem emprego, enquanto vagas são atribuídas por influência ou corrupção. Na esfera profissional, tornou-se comum ouvir denúncias de concursos públicos manipulados. Os vencedores já são conhecidos antes mesmo da abertura oficial das candidaturas. O mérito perde espaço para o nepotismo e para o clientelismo político. O cidadão trabalhador e honesto sente-se desmotivado. Ele percebe que o esforço nem sempre é valorizado: “Ai daqueles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça” (Am 5,7). Há uma crescente onda de desigualdade social. Enquanto alguns acumulam fortunas e vivem em luxo exagerado, milhares de famílias vivem em bairros sem saneamento, energia eléctrica ou segurança. Crianças estudam sentadas no chão. Mulheres percorrem kilómetros em busca de água. Doentes morrem por falta de assistência médica adequada. Esta realidade contradiz os ideais pelos quais tantos moçambicanos lutaram durante a guerra de libertação. Além disso, Moçambique enfrenta graves desafios de segurança. O terrorismo em Cabo Delgado continua a provocar mortes, deslocamentos populacionais e destruição de comunidades inteiras. Milhares de famílias perderam casas, bens e familiares. Crianças crescem longe da escola e da estabilidade familiar. O medo e a incerteza passaram a fazer parte da vida de muitos moçambicanos. A crise moral também se faz sentir em vários sectores da sociedade. Na política, muitos dirigentes preocupam-se com interesses partidários do que em servir o povo, promovem-se divisões, intolerância e discursos manipuladores. O povo é frequentemente usado como instrumento para alcançar ou manter o poder: “Os seus chefes julgam por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,11). Na esfera religiosa surgem igualmente sinais preocupantes. Cresce o número de líderes religiosos que transformam a fé em negócio. Em vez de promoverem a justiça, a verdade e a solidariedade, exploram emocionalmente os fiéis em busca de riqueza e prestígio pessoal. Há mais preocupação com ofertas e contribuições financeiras do que com o sofrimento humano. A religião, que deveria ser fonte de esperança e transformação social, por vezes torna-se instrumento de manipulação: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). Perante tudo isso, muitos cidadãos perguntam-se: Que independência celebramos? Será apenas independência territorial e política? Ou deveríamos lutar também pela independência da fome, da corrupção, da injustiça e da pobreza? A verdadeira independência deve traduzir-se em dignidade humana, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos fundamentais e compromisso sincero com o bem comum. Enquanto persistirem o abuso do poder, a corrupção, a manipulação política, o nepotismo, a hipocrisia, a injustiça social e a indiferença diante do sofrimento do povo, a independência continuará incompleta: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm vestidos de ovelhas” (Mt 7,15). Moçambique precisa urgentemente de uma nova consciência nacional, baseada na honestidade, no patriotismo, na solidariedade e na responsabilidade colectiva. O país não mudará apenas com discursos políticos nem com celebrações festivas. A mudança exige líderes comprometidos com a verdade e cidadãos activos na defesa da justiça e do bem comum. Celebrar a independência nacional significa renovar o compromisso de construir um país onde haja justiça, paz, oportunidades e dignidade para todos.

maio 05 2026

Crónica: Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros

Por Giovanni Muacua Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros. A vida é um dom sagrado de Deus, oferecido gratuitamente a cada ser humano, independentemente da sua condição social, económica, cultural ou religiosa. Apenas a Deus compete dar e tirar a vida. Nenhum ser humano, por mais poderoso, rico ou influente que seja, tem autoridade para decidir sobre a vida do outro — muito menos quando essa decisão é movida pela ambição, pela ganância ou pela sede insaciável de riqueza. Vivemos tempos difíceis, marcados por uma profunda crise de valores humanos, morais e espirituais. As relações entre as pessoas tornaram-se frias, calculistas e perigosamente individualistas. Cada um parece preocupar-se apenas consigo mesmo, com o seu sucesso pessoal e com o seu bem-estar imediato, colocando a vida do próximo em segundo plano. Vive-se como se o sofrimento alheio fosse irrelevante, como se a dor do outro não tivesse importância alguma. Este modo de viver revela uma sociedade ferida e doente, que perdeu o sentido do sagrado e da fraternidade. Neste contexto, ganha força uma lógica perversa, segundo a qual “os fins justificam os meios”. Trata-se de um verdadeiro maquiavelismo social, no qual não importa como se alcança a riqueza ou o poder, desde que o objectivo final seja atingido. Esta lógica é profundamente desumana e anticristã. É uma visão pagã da vida, que transforma o ser humano em instrumento e não em fim. No entanto, a fé cristã recorda-nos que todos fomos criados para viver, para amar e para cuidar uns dos outros, enquanto caminhamos nesta terra à espera da segunda vinda de Cristo, nosso Salvador. Todos havemos de morrer. Esta é uma verdade incontornável. A morte não escolhe classe social, não respeita estatutos nem títulos. Morrem ricos e pobres, jovens e velhos, fortes e fracos, negros e brancos. A morte coloca todos no mesmo nível e recorda-nos que as riquezas acumuladas, muitas vezes com tanto sacrifício e violência, não acompanham ninguém para o túmulo. O que permanece é apenas a memória das nossas acções e a responsabilidade diante de Deus. Por isso, qualquer riqueza construída sobre a morte, o sofrimento e o sangue de outros seres humanos não conduz à felicidade verdadeira. Uma riqueza que nasce de assassinatos, sacrifícios humanos, feitiçaria ou práticas ocultas não traz paz interior, não gera segurança nem alegria duradoura. Pelo contrário: cria medo, desconfiança e destrói famílias inteiras, levando, inevitavelmente, à condenação moral e espiritual. É triste e revoltante constatar que estas práticas não são apenas histórias antigas ou lendas urbanas. Elas acontecem no seio das nossas comunidades, muitas vezes dentro das próprias famílias. Há tios, irmãos e pais que, movidos pela ganância, recorrem a feiticeiros e curandeiros para “fortalecer” os seus negócios, acreditando que a prosperidade só será possível à custa da morte ou da desgraça de alguém próximo. Em muitos casos, as vítimas são os próprios filhos, netos ou sobrinhos. Essas pessoas enriquecem rapidamente, exibem sinais exteriores de sucesso e sentem-se invencíveis. No entanto, esquecem-se de que também elas vão morrer. E, quando esse dia chegar, terão de prestar contas a Deus por cada vida destruída, por cada lágrima derramada, por cada injustiça cometida. Deus é paciente, mas é justo. A sua justiça pode tardar, mas nunca falha. Que sucesso é esse que se constrói sobre o medo, a morte e a destruição dos laços familiares? Nenhuma pessoa que vive da bruxaria está isenta da morte. Nenhuma prática oculta pode salvar alguém do juízo divino. Há pessoas que já não conseguem dar um passo sem recorrer à feitiçaria: para estudar, para trabalhar, para casar ou para enriquecer. Toda a vida passa a ser governada pelo medo e pela dependência do mal. Este tipo de vida não traz felicidade verdadeira; gera angústia, insegurança e isolamento. Viver sabendo que os próprios familiares o temem, não por respeito, mas por medo, é uma tragédia humana. Um bom pai, um bom tio ou um bom irmão não é aquele que enriquece destruindo a vida dos outros, mas aquele que protege, educa, orienta e promove a vida em abundância. É importante afirmar com clareza: para enriquecer, ninguém precisa de matar ninguém. Não é necessário destruir vidas para alcançar estabilidade económica. O trabalho honesto pode ser lento e difícil, mas preserva a dignidade humana e a paz de consciência. A pobreza vivida com dignidade vale muito mais do que a riqueza manchada de sangue. No fim, não seremos julgados pela quantidade de bens acumulados, mas pela forma como respeitámos a vida, promovámos a justiça e cuidámos uns dos outros. Quem tem ouvidos, ouça!

abr 16 2026

Crónica: Mesmo Fora Daqui se Morre

Por: Giovanni Muacua O nosso país, o belo Moçambique, está a ficar cada vez mais esfarrapado, não por falta de recursos de investimento, mas por causa da insensibilidade e egoísmo destes senhores. Como quem morre são sempre os outros, ninguém se interessa por melhorar as condições das nossas unidades sanitárias. Cada um preocupado em encher o próprio umbigo e bolso; investe na própria riqueza, jogando o bem-comum na morgue à espera da sepultura. Num país que nasceu rico em recursos naturais e culturais, a esperança transformou-se, aos poucos, num espaço onde a vida vale pouco e a sobrevivência tornou-se um privilégio. Não por falta de meios, mas por excesso de indiferença. O problema de Moçambique não é a falta de riqueza, mas a sua má gestão. O problema não é a escassez de dinheiro, mas a sua concentração em bolsos privados. O problema não é a falta de discursos políticos, mas a distância entre esses discursos e a realidade nua dos hospitais públicos, onde a dor grita mais alto do que qualquer slogan governamental. “O nosso maior valor é a vida”, diz o Ministério da Saúde. Mas que vida é essa que se promete, quando falta gesso, faltam reagentes, faltam medicamentos e sobra sofrimento? As unidades sanitárias do país são o retrato mais cruel da desigualdade social e económica. Enquanto o cidadão comum enfrenta bichas intermináveis, humilhações e tratamentos desumanos, os senhores do poder, os donos das decisões e das riquezas nacionais, viajam ao estrangeiro com uma simples dor de cabeça. Lá, recebem cuidados dignos, tecnologia avançada e conforto. Aqui, o povo recebe silêncio, desprezo e anestesia em falta. A saúde tornou-se um espelho da política nacional: quem pode, vive; quem não pode, espera ou morre. O país arrecada impostos, explora recursos minerais, assina contratos milionários e anuncia investimentos. Socialmente, porém, o retorno disso é invisível para a maioria. Onde vai o dinheiro que sai do suor dos trabalhadores, dos impostos pessoais e empresariais? Se nas farmácias públicas faltam medicamentos, como explicar a abundância nas clínicas privadas? Se os hospitais públicos carecem de aparelhos básicos de diagnóstico, de onde vêm os equipamentos modernos nas clinicas privadas? Essa contradição não vem do acaso; é o sistema. Um sistema que lucra com a dor e transforma a saúde num negócio para poucos. A contrapartida consiste em que há mais investimento em armas do que em vidas. Compra-se gás lacrimogéneo, munições e viaturas de repressão, enquanto se negligencia a compra de aparelhos clínicos, medicamentos essenciais e condições mínimas de trabalho para médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde trabalham sem 13º salário, sem materiais, sem motivação e sob pressão constante. Ainda assim, espera-se que salvem vidas com as mãos vazias. É um paradoxo cruel: o Estado exige milagres de quem ele próprio abandona. A violência não está apenas nas balas ou nos cassetetes; ela está também na agulha que perfura a carne sem anestesia, no parto feito sem condições, no paciente que grita de dor enquanto o sistema finge não ouvir. É uma violência silenciosa, diária e institucionalizada. Uma violência que mata mais do que qualquer guerra declarada. Dizem que a morte não escolhe classe social e é verdade. Mesmo os que fogem para além-mar, acreditando escapar ao destino comum, acabam por descobrir que em todo o canto se morre. A morte é democrática, mas a vida não é. A vida em Moçambique tornou-se profundamente desigual. Uns vivem cercados de conforto e protecção; outros sobrevivem cercados de medo, doença e abandono. Esta situação não é apenas uma falha administrativa, é uma falência moral. Um país que aceita ver o seu povo sofrer sem reagir, perdeu o sentido de nação. As festas luxuosas, as viagens desnecessárias e as mansões erguidas com dinheiro público são afrontas directas à dor colectiva. Cada tijolo dessas casas luxuosas poderia ser um medicamento, um aparelho clínico, uma cama hospitalar. Cada festa poderia ser uma ala reabilitada. Cada viagem poderia ser uma vida salva. O povo está exausto. Exausto de promessas vazias, de discursos reciclados, de ver a morgue mais organizada do que o hospital. Exausto de ser tratado como número e não como ser humano. A Bíblia já chorava a ruína da filha do povo; hoje, Moçambique chora a sua própria chaga. Uma chaga aberta pela ganância, pela corrupção e pela insensibilidade. Que fique bem claro: investir na saúde não é caridade, é obrigação. Melhorar hospitais não é favor, é um dever constitucional e moral. A vida não pode continuar a ser moeda de troca política. Porque no fim, ricos ou pobres, governantes ou governados, todos somos peregrinos nesta terra. A morte, justa e paciente, visita a todos, dentro ou fora de Moçambique. Quem tem ouvidos, ouça.

jan 06 2026

Crónica: O Orgulho do Sapo Mata

Por: Giovanni Muacua O orgulho é uma erva daninha que nasce sem ser cultivada. Cresce silenciosa, infiltra-se entre relações humanas e, quando menos se espera, já está a corroer amizades, destruindo laços familiares e envenenando ambientes de trabalho e comunidades inteiras. Em Moçambique, onde os desafios sociais exigem hoje mais união do que nunca, o orgulho funciona como um muro invisível que impede diálogos, bloqueia reconciliações e alimenta conflitos evitáveis. É comum ouvir que “quem cumprimenta primeiro perde”, como se o simples gesto de saudar um vizinho fosse uma abdicação da dignidade humana. Este modo de pensar, profundamente enraizado na cultura urbana contemporânea, é um sintoma de um problema maior: a dificuldade de assumir vulnerabilidades, reconhecer erros e valorizar o outro. Paradoxalmente, é precisamente essa recusa de humildade que nos enfraquece enquanto sociedade. Nas cidades moçambicanas, sobretudo nos bairros suburbanos onde as casas estão praticamente coladas umas às outras, a convivência diária deveria facilitar a proximidade. No entanto, muitas vezes acontece o oposto. Vizinhos que não se falam por questões banais, famílias divididas por mal-entendidos, colegas de trabalho que se ignoram por disputas pequenas, condutores que se ofendem na estrada e transportam a raiva como se fosse um troféu. A cultura do “orgulho” tem um preço, e esse preço é o enfraquecimento do tecido social. Em qualquer canto de Maputo, Beira, Nampula ou Pemba, pode-se observar este fenómeno. As pessoas passam umas pelas outras como se fossem invisíveis. Uma saudação, que deveria ser a ponte mais simples entre duas pessoas, torna-se um campo de batalha silencioso. Quem cumprimenta primeiro? Quem se dobra? Quem demonstra “fraqueza”? E assim vamos construindo paredes, tijolo por tijolo, até que se tornam tão altas que ninguém mais vê o outro lado. Mas afinal, o que se perde quando alguém saúda primeiro? Nada. O que se ganha? Mais do que parece. Em tempos de tensão social crescente, marcados por desigualdade económica, conflitos no norte, desemprego e frustração generalizada, a humildade pode ser um instrumento revolucionário. Um chefe pode pedir desculpas ao funcionário; um professor pode reconhecer o erro perante o aluno; um marido pode dar o primeiro passo para o diálogo; um vizinho pode desejar um “bom dia” mesmo sabendo que nunca recebe resposta. Gestos pequenos, sim, mas de impacto enorme. A humildade restaura dignidade, aproxima pessoas e desbloqueia relações congeladas. Moçambique é um país multicultural e multilingue, onde a coexistência sempre foi uma riqueza. No meio rural, por exemplo, ainda é comum encontrar comunidades que preservam a tradição da saudação calorosa, onde ninguém passa por alguém sem dizer ao menos “Bom dia, mano/a”. Mas nas cidades, onde a modernidade chegou carregada de pressa, individualismo e comparação social, este valor humano foi ficando para trás. É como se o país vivesse duas realidades paralelas: uma moçambicanidade antiga, profundamente comunitária, e uma modernidade orgulhosa, onde muitos têm medo de parecerem pequenos. O problema é que o orgulho não nos torna grandes, apenas nos afasta. Torna-nos frios, desconfiados, tensos. E, numa sociedade marcada por desafios estruturais, a falta de diálogo é um luxo que não podemos permitir. Nas reuniões de trabalho, muitas vezes o orgulho impede que se reconheça uma má decisão, uma falha de gestão ou a necessidade de colaboração. Nos bairros, impede reconciliações simples que poderiam evitar discussões, rixas e até violência. Nas famílias, o orgulho é responsável por silêncios que duram anos, perpetuando mágoas que poderiam ser resolvidas com uma única conversa. E, no entanto, todos reclamam da falta de união. Todos querem um país mais solidário, mais justo, mais harmonioso. Mas como construir união se cada um se agarra ao orgulho como se fosse um direito inalienável? A humildade, ao contrário do orgulho, não diminui ninguém. Pelo contrário, engrandece. Quem dá o primeiro passo não é fraco — é forte o suficiente para romper o ciclo da indiferença. Num ambiente onde quase ninguém quer ceder, ser o primeiro a cumprimentar é um acto de coragem. Talvez seja necessário reaprender o óbvio: relações humanas não se constroem com braços cruzados. Não se fortalecem com “orgulho do sapo”, aquele orgulho teimoso que impede o gesto mais simples. Não há desenvolvimento social possível onde falte diálogo. E não há diálogo sem humildade. Que mal há em dizer “bom dia” primeiro? Em reconhecer que também erramos? Em ligar para um familiar com quem não falamos há tempo? Em perdoar quando a vida é curta demais para guardar rancores? Moçambique precisa mais do que nunca desta revolução silenciosa. Uma revolução que não começa nas assembleias nem nos gabinetes, mas na porta de cada casa, na estrada, nos transportes, nas escolas, nos mercados, nos locais de trabalho. Afinal, grandes mudanças começam com pequenos passos. E talvez o primeiro passo seja simplesmente baixar a guarda, abrir o coração e cumprimentar alguém. Porque a humildade não custa dinheiro.

maio 03 2023

a Droga mata

Cesar Guedes responsável do gabinete das Nações Unidas contra droga e crime  (UNODC) em Moçambique destacou a cooperação com as autoridades Moçambicanas no sucesso das apreensões de grandes quantidades de drogas em Moçambique. Moçambique é um dos principais  corredor de narcotráfico estima se  que todos os anos  entre 30 a 40 toneladas de narcóticos seja traficada através da costa marítima Moçambicana para África do Sul Europa e Estados  Unidos. Cesar Guedes anunciou que vai inaugurar nos próximos meses o escritório da UNODC em Maputo.   Escute a radio-noticia da DW sobre este tema

abr 07 2023

Crónica – A FESTA DE LÁGRIMAS

Comemoramos hoje o 07 de Abril, dia mulher moçambicana. Momento em que é lembrado o aniversário da morte de Josina Machel (1945-1971), combatente da liberdade de Moçambique e heroína nacional. Consta dos anais históricos que até 25 de Junho de 1975, Moçambique era uma das colónias portuguesas em África, quando nesta data, após uma década de guerra pela libertação, conquistou sua independência. Uma mulher que tomara consciência do seu papel na conquista da libertação moçambicana do jugo colonial. Apesar do forte confronto e empenho da Josina Machel no combate aos inimigos da liberdade deste país, ainda hoje continuam vivos os rios de lágrimas na vida de muitos cidadãos, entre homens e mulheres. O tempo presente está sendo marcado por grandes dificuldades da vida: aumento doentio do clima de corrupção, acidentes de viação, desemprego, perseguições, subida de preço do pão e do combustível, greves, terrorismo em Cabo Delgado e noutros pontos do país. Sobretudo, o mundo feminino vive dilacerado ante vários fenómenos que reflectem ódio profundo ao seu sucesso. Mulheres vítimas de desigualdades sociais, assédio e violência sexual, humilhação doméstica, multiplicação do analfabetismo, o fracasso do direito à educação e ao emprego, etc. Diante de tudo isso, a falta de unidade entre as mulheres à causa comum é o grande veneno da libertação feminina. Porque, como Josina Machel, todas mulheres podem ser heroínas, claro, cada uma a seu modo. Mas tudo exige decisão. Continuarão longe do esquema do sucesso se ainda prevalecer, nesta sociedade, o empenho das famílias na promoção de casamentos prematuros, enquanto continuar cerrada a cultura de estudos e formação, na confiança de que basta se casar. O 7 de Abril deste ano é diferente de muitos outros. Coincide com a Sexta-Feira Santa, Dia da Paixão e Morte de Jesus na Cruz. Momento mais intenso de oração, jejum e prática de esmola para um verdadeiro cristão e uma verdadeira fiel, mulheres e homens que seguem Cristo em espírito e verdade. É dia de conhecer quem são os verdadeiros Judas Iscariotes e Judas Iscariotas, os traidores e traidoras de Jesus. Não é dia de faltar a Igreja por se tratar de 7 de Abril. Não é dia bater wines e cabangas, nem de comer carnes, menos ainda de promover a cultura do “primo, vou jobar, ou prima, vou ser jobada”. É dia de jejum de calúnias, fofocas, murmúrios, ciúme selvagem, inveja, consumismo de drogas e do álcool, etc. Ouviram? Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua, 07 de Abril de 2023

abr 07 2023

Venenos da libertação feminina

Por Giovanni Muacua Comemoramos hoje, Dia 7 de Abril, a data da mulher moçambicana. Momento em que é lembrado o aniversário da morte de Josina Machel (1945-1971), combatente da liberdade de Moçambique e heroína nacional. Consta dos anais históricos que até 25 de Junho de 1975, Moçambique era uma das colónias portuguesas em África, quando nesta data, após uma década de guerra pela libertação, conquistou a sua independência. Uma mulher que tomara consciência do seu papel na conquista da libertação moçambicana do jugo colonial. Apesar do forte confronto e empenho da heroína moçambicana, Josina Machel, no combate aos inimigos da liberdade deste país, ainda hoje continuam vivos os rios de lágrimas na vida de muitos cidadãos (homens e mulheres).O tempo presente está sendo marcado por grandes dificuldades da vida: aumento doentio do clima de corrupção, acidentes de viação, desemprego, perseguições, subida de preço do pão e do combustível, greves, terrorismo em Cabo Delgado e noutros pontos do país. Sobretudo o mundo feminino que vive dilacerado ante vários fenómenos que reflectem ódio profundo ao seusucesso. Mulheres vítimas de desigualdades sociais, assédio sexual, violência sexual e doméstica, a multiplicação do analfabetismo, o fracasso do direito à educação e ao emprego, etc. Diante de tudo isso, a falta da unidade das mulheres à causa comum é grande veneno da própria libertação feminina. Porque, como Josina Machel, todas mulheres podem ser heroínas, claro, cada uma a seu modo. Mas tudo exige decisão. Continuarão longe do esquema do sucesso se ainda prevalecer, nesta sociedade, o empenho das famílias na promoção de casamentos precoces, enquanto continuar cerrada a cultura de estudos e formação, na confiança de que basta casar apenas. É possível enxugar as lágrimas de Abril. Todas podem ser heroínas, mas é um trabalho que exige empenho e sacrifício de todos. Heroína não é apenas Josina Machel, mas todas as mulheres que lutam para pôr fim às sujeiras da vida da família. Daquelas que negam ser “caixa de lixoˮ na sociedade moribunda em que vivemos. São também heroínas as que: Se abrem para estudos e se sacrificam para própria formação; Se empenham no combate à pobreza e não sentem vergonha de sujar as mãos para o sustento da família; Sabem viver a fidelidade na sua família e fazem de tudo para o cuidado dos filhos; Negamser instrumento de vadiagem e produto do mercado sexual; Promovem a vida, negando cometer abortos voluntários; Se empenham na paciência, no cuidado dos doentes e dos idosos da família e da sociedade em geral; Se enquadram em espírito e verdade numa religião, igreja para o seu alimento espiritual; Negam a dependência nas drogas; Buscam auto-emprego; Vencem o veneno do ódio e da indiferença. E perdem o grau do heroísmo as que destroem seus lares, as que dependem apenas da vida dos outros, as que pensam que nasceram apenas para sofrer; as que se empenham nas calúnias e fofocas, no ciúme selvagem; aquelas mulheres que não se dedicam na partilha, que querem ouvir apenas “sim, senhora!ˮ, que investem na cultura da inveja, no consumismo do álcool; as que gostam de trair seus esposos, trocam momentos de diálogo familiar com as redes sociais. Não restam dúvidas que é possível enxugar as lágrimas que rolam na nossa alma. Assim como os mortos ressuscitam, também podem se recuperar as mulheres dilaceradas. Quem tem ouvidos, ouça!

fev 25 2023

Crónica-O Veneno da independência

É sonho de todos os que se sentem pessoas, viverem livres, independentes, autónomos, etc. Aspiram igualmente a viver em segurança e em pleno gozo da paz e de todos os direitos humanos. Mas quanto custa viver independente? O que exige? O que implica? Era suposto que com a independência, Moçambique fosse dos moçambicanos. Ou seja, os moçambicanos gozassem em plenitude o fruto da sua conquista. Que o bem comum não continuasse privado por um punhado de pessoas; que as riquezas do país fossem partilhadas pelos cidadãos; que a lei fosse aplicada a todos indistintamente; que o gozo dos direitos fosse equitativo; que a educação fosse de qualidade para todos os cidadãos; que o emprego fosse acessível não somente para alguns afilhados que têm padrinhos poderosos, mas também para os filhos dos enteados desta pátria amada. Afinal lutámos para continuar oprimidos? Lutámos para continuar analfabetos e no medo? Lutámos para continuar escravos da minoria? Lutámos para continuar reféns das decisões egoístas? Lutámos para viver alimentando-nos de balas como carne para canhão? Lutámos para sermos expropriados das nossas terras? Lutámos para quê? Qual era o nosso sonho? Certo dia, Daudo Rafael escreveu: “estamos há 46 anos de independência, mas até agora não deixámos de ser dependentes do ocidente. O governante moçambicano é simples embaixador dos ocidentais porquê? Porque deixa de potenciar os hospitais de Moçambique só para quando ficar doente ser levado para a diáspora? Porque despreza o seu próprio povo e vai-se entender por duas horas de tempo com o próprio homem que o colonizou? Porque vive dependente enquanto tem tudo para viver independente na sua terra? Porque deixa de exigir que o estrangeiro instalea sua fábrica aqui no país e prefere levar a matéria-prima para fora e depois importar? Porque considera o ocidente como fim de todo o problema que ele tem? Será que temos governantesMaquiavélicos neste país?” A nossa idade de independência devia-nos orgulhar. Mas estamos longe disso. Parece que usamos caminhos errados para a libertação do país. Investimos na luta para expulsar os colonos. Mas essa táctica ainda prevalece. Moçambique nunca mais deixou de sentir os efeitos da guerra, mesmo em formas parceladas. A instabilidade, a destruição e as mortes por guerra acompanham ininterruptamente a vida dos cidadãos moçambicanos. Por causa desse fenómeno de guerra interminável, a insegurança reina. Os cidadãos vivem até duvidando da sua própria sombra, como se não houvesse uma autoridade com missão de proteger e garantir a segurança de todos. “Em Moçambique a insegurança está instalada. Não há lugar, nem cidade, nem campo, onde o cidadão se sinta seguro e tenha a sua vida a fluir de forma tranquila, sem a ameaça da sua integridade física ou económica. No campo, instalam-se guerras. Por meio destas guerras mata-se e viola-se os mais básicos direitos humanos da forma mais vil. Nas cidades, instalam-se raptos e assassinatos; na periferia das cidades instala-se o crime organizado. De dia ou de noite, nas cidades, grupos de criminosos desfilam a sua classe, matando, ferindo, violando e expropriando bens de forma tranquila, sem o mínimo de medo de repressão de alguma autoridade, porque a autoridade está quase sempre ausente” escreve Dr. Paúa. Esse veneno chamado independência ainda não nos libertou. Mudou o governo, mudou a constituição, mas as acções continuam a colonizar-nos. E o pior colono é aquele que se disfarça como irmão com pele de ovelha e coração de Leão. É um colono que é legitimado pelo voto popular e por um esquema de representação que não representa a ninguém na assembleia da República. Trabalhamos para o inglês ver. Como consequências desse comportamento, multiplicam-se as estruturas, os esquemas, as modalidades e as acções de corrupção em rede. É uma praga que não vai acabarde se transmitir de geração em geração. Esta onda de “caça só para a própria gaiola” origina desigualdade e desequilíbrio social. Daí que uns vivem na abundância eterna e outros na miséria perpétua. Ou seja “enquanto os políticos esbanjam recursos públicos comprando para si bens que não precisam, fazendo viagens desnecessárias, vivem uma vida de reis, o povo, nas cidades e no campo, morre de pobreza, de desnutrição, de fome, se alimenta de capim, a menos que a sociedade tenha sido abolida e estejamos vivendo numa selva”. Será que para viver bem em Moçambique é preciso atrelar-se a critérios partidários e regionais? Será que para ser chefe em Moçambique só é possível se exibir cartão partidário? Até quando viveremos com o negócio da venda do emprego e o privilégio que se dá às pessoas mais chegadas? O Mestre e Padre Kwiriwi refere que para ser desmistificado o que muitos não sabem sobre este país é preciso que se crie uma equipa de especialistas de várias áreas de saber para se dedicar ao estudo sobre Moçambique e também de forma detalhada sobre cada cidadão. “Apresento alguns traços que me levam a afirmar que deve haver uma investigação de carácter multidisciplinar. a) Foram quinhentos anos de colonização, dominação e imposição de culturas diferentes, mas até hoje, há moçambicanos que não sabem falar a língua portuguesa e resistem expressando-se unicamenteem idiomas locais. b) A dita civilização europeia ficou no papel porque até hoje, em Moçambique se pratica a poligamia, algo dito como um crime em países nórdicos. c) Guerras tribais: para maior controle de territórios e para a imposição da autoridade e poder, os chefes tribais faziam guerras entre si, mas no final do campeonato, tomavam juntos as suas bebidas, como a Otheka. Os chefes tribais mantinham laços de amizades e também de vizinhança não se lembrando das guerras.Seus filhos praticavam casamentos interétnicos e a intimidade crescia. d) Com o início do comércio de escravos, uns tios vendiam seus sobrinhos principalmente os mais indisciplinados mesmo sabendo que o mesmo daria a continuidade da família e do clã ou da tribo.Quando faltasse o que vender, alguns homens preparados para esse tipo de missão, iam roubar meninos noutras regiões. Enquanto a escravidão continuava, crescia também o povo e aos poucos foi povoando o país todo. e) Desde cedo o povo moçambicano

fev 24 2023

Crónica-OS EXTREMOS DA “PÁTRIA AMADA”

Uma minoria do povo moçambicano conhece a letra do Hino Nacional. Uma poesia artisticamente bem elaborada, com engenho melódico de manifestação de pertença, integridade e esperança de um povo que sonha com a unidade nacional. Ora, era suposto que fosse a canção mais popular de Moçambique, cantada de cor por todos os moçambicanos. Mas vezes sem conta surpreendemo-nos com personalidades (figuras públicas), chefes de instituições e departamentos, povo simples, professores e jornalistas, que gaguejam ao tentar morder algumas palavras apagadas pelo vento em sua memória. Já participei em vários encontros multissectoriais nos quais a vergonha foi visível. A letra e a música do Hino Nacional são estabelecidas por lei, aprovadas nos termos do n.º 1 do artigo 295 da Constituição. Se calhar é necessário partilhar aqui, ao menos, a letra do Hino Nacional: Na memória de África e do Mundo; Pátria bela dos que ousaram lutar; Moçambique, o teu nome é liberdade; O Sol de Junho para sempre brilhará. Coro: Moçambique nossa terra gloriosa; Pedra a pedra construindo um novo dia; Milhões de braços, uma só força; Oh pátria amada, vamos vencer. Povo unido do Rovuma ao Maputo; Colhe os frutos do combate pela paz; Cresce o sonho ondulando na bandeira; E vai lavrando na certeza do amanhã. Flores brotando do chão do teu suor; Pelos montes, pelos rios, pelo mar; Nó juramos por ti, oh Moçambique; Nenhum tirano nos irá escravizar. Como se depreende desse Hino, Moçambique é uma terra livre, resultado da luta de libertação nacional contra o colonialismo português. A memória do povo conserva a alegria do dia da independência nacional a 25 de Junho de 1975. Hipoteticamente o povo está unido do Rovuma ao Maputo colhendo os frutos do combate pela Paz, pois “nenhum tirano nos irá escravizar”. Ora, a experiência de cada dia mostra que o sonho pela liberdade está ainda minado por lutas fratricidas que nunca acabam. Luta-se pelo poder; luta-se pelas riquezas; luta-se por comida; luta-se por hegemonia política; luta-se por recursos minerais e madeira; luta-se sem fim. Como consequência, somos um povo que caminha sem rumo, inseguros e de olhos vermelhos. A assimetria socioeconómica é grande. Moçambique conhece, desde sempre, um povo com uma maioria miserável e uma minoria de elite cada vez mais rica. Aumenta com as guerras o número dos empobrecidos, dos necessitados, dos estrangeiros que vivem na sua própria terra. Aumenta o número daqueles que são forçados a deixar as suas terras, partir sem rumo certo com bagagens na cabeça procurando asilo em lugares supostamente mais acolhedores e seguros. Aqui funciona a selecção natural. Mesmo para o acesso a riqueza, a escolaridade de qualidade, para ter um apelido como antigo combatente, para ter liberdade de compra e venda de recursos naturais do país, para viver com dignidade, em tudo funciona a selecção natural. Os extremos são visíveis e não precisa usar lupa para microscopiar. Até os problemas sociais estão geograficamente divididos no país. Parece que a falta de unidade do povo consubstancia-se, igualmente, nos seus problemas, preocupações e necessidades. A metrópole e capital do país concentra amaior parte do capital financeiro. Parece que todos os financiamentos que chegam à nossa terra devem olhar primeiro e por último em Maputo e suas periferias na zona Sul. A zona Centro é o epicentro de ciclones, inundações, tempestades que se acrescem com o problema de Nyonguismo. A zona norte é a menina dos olhos das multinacionais, os megaprojectos e exploradores insaciáveis. Aí nasce o famoso terrorismo que deslocou milhares de pessoas de Cabo Delgado para províncias circunvizinhas. O Alshababismo é uma mancha negra que revela que a nossa segurança nacional está ameaçada e ainda não estamos em altura de nos gloriar que “nenhum tirano nos irá escravizar”. Sim! Nós somos escravos de estrangeiros e também escravos de nossos irmãos. Matamo-nos mutuamente em nome das riquezas; exploramo-nos em busca da comida. Esta música é amarga e não alegra ninguém para dançar. O mais agravante ainda, a Covid-19 veio reforçar a nossa falta de liberdade. Para além dos mortos por guerra, por malária, por sida, o nosso coração vive ameaçado pelo inimigo invisível, o Coronavírus. Até quando? “Oh pátria amada, vamos vencer”! Esta declaração de esperança coloca-nos no horizonte da batalha de quem se convence que a vitória é sua. Pela unidade nacional, do Rovuma ao Maputo, precisamos de sair da teoria para a prática. A experiência mostra que muitos trabalhadores, incluindo serventes de obras ou grandes projectos que pululam no centro e norte do país são “importados” de Maputo ou zona sul. A população local interroga-se: “os nossos filhos não têm capacidades de trabalhar com as empresas ou projectos lucrativos?”.Todos nós somos moçambicanos e merecemos tratamento e oportunidades iguais. Devemo-nos engajar na luta contra o divisionismo que gera regionalismo porque, vezes sem conta, julga-se que o desenvolvimento socioeconómico é regional. Se repararmos com atenção até os partidos políticos são regionalistas e étnicos. Como resultado, os conflitos não acabam e a opinião alheia é algo para combater. Aliás, em vários sectores de trabalho, ser da posição ou da oposição gera mau-olhar e juízos indiferentes. Tanto é que só pode chefiar um sector ou departamento aquele que é “nosso” (Risos). Quem é que não é nosso nesta Pátria Amada? Mais vale empregar um incompetente (por ser nosso) que um competente que não é nosso? Isso não deixa de revelar efeitos indesejados à medida que notamos trabalho que deixa a desejar. Pois, quando trabalhamos por confiança política e não por capacidades adequadas o resultado são os maus préstimos para o povo. Se queremos, Pedra a pedra construir um novo dia, devemos investir na profissionalização dos nossos gestores. Já se viu em várias ocasiões pessoas bocejando ou dormindo em plena sessão da Assembleia da República. Que proveito se poderá esperar de um dorminhoco que diz ser representante do povo? Quem votou um “non sui compos?” Veja-se o esforço do camponês. Todo o ano cultivando a terra, comendo o suor do seu corpo e o resultado é quase invisível. Pior ainda neste ano. Em muitas regiões do

fev 22 2023

Cronica – O destino dos patos da Quaresma

  Não sei se todos patos são como os do meu vizinho que quando chove acorrem às águas, mergulhando ao fundo. O tabu ocorre quando se retiram da água e se sacodem, que apenas sai poeira. A imposição das cinzas é um mistério que nos introduz no tempo da Quaresma. Tempo favorável de renovar a alma, de prepara-la para Deus. A conversão a Deus e aos irmãos somente tem sentido salvífico nesta vida. A cinza que se nos impõe hoje significa penitência e mudança de comportamento, expressos em espírito de jejum, da oração e da esmola. Do jejum da mentira, do egoísmo, da fofoca, do adultério, da avareza, do jejum de desenhar esquadrões de morte, da corrupção, da ladroagem, do alcoolismo, da inveja, de ciúme selvagem, e não de uma mera abstinência alimentar moldada nos escombros económicos de poupança. Da oração sincera e verdadeira, um verdadeiro louvor a Deus, rezando por si, pelos amigos e inimigos, e não de uma simples acção da boca com medo de silêncio. Mas de uma conversa de coração humano para coração divino. Da esmola, um abrir a mão aos necessitados e coração para Deus. Como os patos do meu vizinho, que quando saem do mergulho, ao se sacudirem sai mais poeira que água, há muitos cristãos que, depois da imposição das cinzas, o seu comportamento continua o mesmo: não vivem as práticas quaresmais do jejum, da oração e da esmola. São os verdadeiros patos das cinzas. O mundo os engana que esquecem que um dia todos havemos de morrer. Ocupam-se fazendo tudo em excesso, a ponto de viver como se Deus e o pecado não existissem. Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua, 22 de Fevereiro 2023            

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