QUARENTENA SEM VIOLÊNCIA
QUARENTENA SEM VIOLÊNCIA
O ano de 2020 despiu-nos. Os sábios, os religiosos, os políticos, o povo e até os analfabetos ficaram provados. Todos descobriram que não são nada sem Deus. Os que pensavam ter o mundo e a vida em suas mãos mostraram-se impotentes. Os ricos morrem em busca do ar, os pobres morrem em busca de comida. Os sábios sofrem insónias em busca de soluções para vencer um inimigo invisível. Cada um apalpa como pode. E parece que as hipóteses científicas caem por terra.
Os peritos em ciência sanitária convenceram-nos que o Coronavírus só se vence com a higiene das mãos lavadas com água e sabão ou cinza. Para evitar o contágio é preciso estabelecer o distanciamento físico, não tocar os olhos, a boca e o nariz usando as mãos. Com efeito, desinfectar as mãos é outra medida aconselhada. Produtos como máscaras, álcool gel, sabão etc. começaram a subir de preço e os que tinham em quantidade ganharam lucros exorbitantes em pouco tempo. A capulana que não tinha valor começou a ser apreciada como instrumento para produzir máscaras. A nossa boca que nunca usou chapéu, já há quase três meses anda tapada a todo rigor. Lutamos com um inimigo invisível.
Mas por detrás deste inimigo mundial esconde-se a violência doméstica. É um mal social que abarca comportamentos diversificados e abala pessoas de todas classes sociais. As vítimas podem ser ricas ou pobres, independentemente da sua idade ou religião, cultura ou estado civil.
A violência doméstica, portanto, como inimigo a combater substancia-se em maus-tratos físicos ou psíquicos, ameaças, coação, injúrias, difamação e crimes sexuais. Esta realidade acontece tanto a nível emocional, quanto a nível social e física; a nível sexual ou financeiro. Esta é uma outra pandemia que assola várias famílias cujo grito é silencioso na escura noite dos lares. Há muitas pessoas conformadas com esta realidade, embora sofram diariamente. Não denunciam os infractores.
A República de Moçambique serve-se da Lei nº 29/2009, sobre “Violência Doméstica Praticada contra a mulher” que visa “prevenir, sancionar os infractores e prestar às vítimas de violência doméstica a necessária protecção, garantir e introduzir medidas que forneçam aos órgãos do Estado os instrumentos necessários para a eliminação da violência doméstica” (artigo 2º).
Este instrumento legal parece ainda carecer de divulgação. A responsabilidade, para isso, deve ser partilhada entre o Governo, a Sociedade Civil e cidadãos em geral. Uma sociedade livre deste mal é possível. E ainda mais em circunstâncias de quarentena, passa-se muito tempo juntos, aborrecimentos e agressões se juntam.
Precisamos de vigilância e protagonizar acções de prevenção, mitigação e combate da violência doméstica que está vitimando várias pessoas mundialmente. Esta é uma outra pandemia embora não exige uso de máscaras e lavagem das mãos. Exige, sim, a nossa capacidade de reconciliação, carinho, paz, compaixão, diálogo sincero e espírito de compreensão. Aliás, a paciência mãe da sapiência.
Leia a edição completa impressa