O orgulho é uma erva daninha que nasce sem ser cultivada. Cresce silenciosa, infiltra-se entre relações humanas e, quando menos se espera, já está a corroer amizades, destruindo laços familiares e envenenando ambientes de trabalho e comunidades inteiras. Em Moçambique, onde os desafios sociais exigem hoje mais união do que nunca, o orgulho funciona como um muro invisível que impede diálogos, bloqueia reconciliações e alimenta conflitos evitáveis.
É comum ouvir que “quem cumprimenta primeiro perde”, como se o simples gesto de saudar um vizinho fosse uma abdicação da dignidade humana. Este modo de pensar, profundamente enraizado na cultura urbana contemporânea, é um sintoma de um problema maior: a dificuldade de assumir vulnerabilidades, reconhecer erros e valorizar o outro. Paradoxalmente, é precisamente essa recusa de humildade que nos enfraquece enquanto sociedade.
Nas cidades moçambicanas, sobretudo nos bairros suburbanos onde as casas estão praticamente coladas umas às outras, a convivência diária deveria facilitar a proximidade. No entanto, muitas vezes acontece o oposto. Vizinhos que não se falam por questões banais, famílias divididas por mal-entendidos, colegas de trabalho que se ignoram por disputas pequenas, condutores que se ofendem na estrada e transportam a raiva como se fosse um troféu. A cultura do “orgulho” tem um preço, e esse preço é o enfraquecimento do tecido social.
Em qualquer canto de Maputo, Beira, Nampula ou Pemba, pode-se observar este fenómeno. As pessoas passam umas pelas outras como se fossem invisíveis.
Uma saudação, que deveria ser a ponte mais simples entre duas pessoas, torna-se um campo de batalha silencioso. Quem cumprimenta primeiro? Quem se dobra? Quem demonstra “fraqueza”? E assim vamos construindo paredes, tijolo por tijolo, até que se tornam tão altas que ninguém mais vê o outro lado.
Mas afinal, o que se perde quando alguém saúda primeiro? Nada. O que se ganha? Mais do que parece. Em tempos de tensão social crescente, marcados por desigualdade económica, conflitos no norte, desemprego e frustração generalizada, a humildade pode ser um instrumento revolucionário.
Um chefe pode pedir desculpas ao funcionário; um professor pode reconhecer o erro perante o aluno; um marido pode dar o primeiro passo para o diálogo; um vizinho pode desejar um “bom dia” mesmo sabendo que nunca recebe resposta.
Gestos pequenos, sim, mas de impacto enorme.
A humildade restaura dignidade, aproxima pessoas e desbloqueia relações congeladas.
Moçambique é um país multicultural e multilingue, onde a coexistência sempre foi uma riqueza. No meio rural, por exemplo, ainda é comum encontrar comunidades que preservam a tradição da saudação calorosa, onde ninguém passa por alguém sem dizer ao menos “Bom dia, mano/a”. Mas nas cidades, onde a modernidade chegou carregada de pressa, individualismo e comparação social, este valor humano foi ficando para trás. É como se o país vivesse duas realidades paralelas: uma moçambicanidade antiga, profundamente comunitária, e uma modernidade orgulhosa, onde muitos têm medo de parecerem pequenos.
O problema é que o orgulho não nos torna grandes, apenas nos afasta. Torna-nos frios, desconfiados, tensos. E, numa sociedade marcada por desafios estruturais, a falta de diálogo é um luxo que não podemos permitir.
Nas reuniões de trabalho, muitas vezes o orgulho impede que se reconheça uma má decisão, uma falha de gestão ou a necessidade de colaboração. Nos bairros, impede reconciliações simples que poderiam evitar discussões, rixas e até violência. Nas famílias, o orgulho é responsável por silêncios que duram anos, perpetuando mágoas que poderiam ser resolvidas com uma única conversa.
E, no entanto, todos reclamam da falta de união. Todos querem um país mais solidário, mais justo, mais harmonioso. Mas como construir união se cada um se agarra ao orgulho como se fosse um direito inalienável? A humildade, ao contrário do orgulho, não diminui ninguém. Pelo contrário, engrandece. Quem dá o primeiro passo não é fraco — é forte o suficiente para romper o ciclo da indiferença. Num ambiente onde quase ninguém quer ceder, ser o primeiro a cumprimentar é um acto de coragem.
Talvez seja necessário reaprender o óbvio: relações humanas não se constroem com braços cruzados.
Não se fortalecem com “orgulho do sapo”, aquele orgulho teimoso que impede o gesto mais simples. Não há desenvolvimento social possível onde falte diálogo. E não há diálogo sem humildade. Que mal há em dizer “bom dia” primeiro? Em reconhecer que também erramos?
Em ligar para um familiar com quem não falamos há tempo? Em perdoar quando a vida é curta demais para guardar rancores?
Moçambique precisa mais do que nunca desta revolução silenciosa. Uma revolução que não começa nas assembleias nem nos gabinetes, mas na porta de cada casa, na estrada, nos transportes, nas escolas, nos mercados, nos locais de trabalho.
Afinal, grandes mudanças começam com pequenos passos. E talvez o primeiro passo seja simplesmente baixar a guarda, abrir o coração e cumprimentar alguém.
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