O nosso país, o belo Moçambique, está a ficar cada vez mais esfarrapado, não por falta de recursos de investimento, mas por causa da insensibilidade e egoísmo destes senhores. Como quem morre são sempre os outros, ninguém se interessa por melhorar as condições das nossas unidades sanitárias. Cada um preocupado em encher o próprio umbigo e bolso; investe na própria riqueza, jogando o bem-comum na morgue à espera da sepultura. Num país que nasceu rico em recursos naturais e culturais, a esperança transformou-se, aos poucos, num espaço onde a vida vale pouco e a sobrevivência tornou-se um privilégio. Não por falta de meios, mas por excesso de indiferença.
O problema de Moçambique não é a falta de riqueza, mas a sua má gestão. O problema não é a escassez de dinheiro, mas a sua concentração em bolsos privados. O problema não é a falta de discursos políticos, mas a distância entre esses discursos e a realidade nua dos hospitais públicos, onde a dor grita mais alto do que qualquer slogan governamental. “O nosso maior valor é a vida”, diz o Ministério da Saúde. Mas que vida é essa que se promete, quando falta gesso, faltam reagentes, faltam medicamentos e sobra sofrimento?
As unidades sanitárias do país são o retrato mais cruel da desigualdade social e económica. Enquanto o cidadão comum enfrenta bichas intermináveis, humilhações e tratamentos desumanos, os senhores do poder, os donos das decisões e das riquezas nacionais, viajam ao estrangeiro com uma simples dor de cabeça. Lá, recebem cuidados dignos, tecnologia avançada e conforto. Aqui, o povo recebe silêncio, desprezo e anestesia em falta. A saúde tornou-se um espelho da política nacional: quem pode, vive; quem não pode, espera ou morre.
O país arrecada impostos, explora recursos minerais, assina contratos milionários e anuncia investimentos. Socialmente, porém, o retorno disso é invisível para a maioria. Onde vai o dinheiro que sai do suor dos trabalhadores, dos impostos pessoais e empresariais? Se nas farmácias públicas faltam medicamentos, como explicar a abundância nas clínicas privadas? Se os hospitais públicos carecem de aparelhos básicos de diagnóstico, de onde vêm os equipamentos modernos nas clinicas privadas? Essa contradição não vem do acaso; é o sistema. Um sistema que lucra com a dor e transforma a saúde num negócio para poucos.
A contrapartida consiste em que há mais investimento em armas do que em vidas. Compra-se gás lacrimogéneo, munições e viaturas de repressão, enquanto se negligencia a compra de aparelhos clínicos, medicamentos essenciais e condições mínimas de trabalho para médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde trabalham sem 13º salário, sem materiais, sem motivação e sob pressão constante. Ainda assim, espera-se que salvem vidas com as mãos vazias. É um paradoxo cruel: o Estado exige milagres de quem ele próprio abandona.
A violência não está apenas nas balas ou nos cassetetes; ela está também na agulha que perfura a carne sem anestesia, no parto feito sem condições, no paciente que grita de dor enquanto o sistema finge não ouvir. É uma violência silenciosa, diária e institucionalizada. Uma violência que mata mais do que qualquer guerra declarada.
Dizem que a morte não escolhe classe social e é verdade. Mesmo os que fogem para além-mar, acreditando escapar ao destino comum, acabam por descobrir que em todo o canto se morre. A morte é democrática, mas a vida não é. A vida em Moçambique tornou-se profundamente desigual. Uns vivem cercados de conforto e protecção; outros sobrevivem cercados de medo, doença e abandono. Esta situação não é apenas uma falha administrativa, é uma falência moral. Um país que aceita ver o seu povo sofrer sem reagir, perdeu o sentido de nação. As festas luxuosas, as viagens desnecessárias e as mansões erguidas com dinheiro público são afrontas directas à dor colectiva. Cada tijolo dessas casas luxuosas poderia ser um medicamento, um aparelho clínico, uma cama hospitalar. Cada festa poderia ser uma ala reabilitada. Cada viagem poderia ser uma vida salva.
O povo está exausto. Exausto de promessas vazias, de discursos reciclados, de ver a morgue mais organizada do que o hospital. Exausto de ser tratado como número e não como ser humano. A Bíblia já chorava a ruína da filha do povo; hoje, Moçambique chora a sua própria chaga. Uma chaga aberta pela ganância, pela corrupção e pela insensibilidade.
Que fique bem claro: investir na saúde não é caridade, é obrigação. Melhorar hospitais não é favor, é um dever constitucional e moral. A vida não pode continuar a ser moeda de troca política. Porque no fim, ricos ou pobres, governantes ou governados, todos somos peregrinos nesta terra. A morte, justa e paciente, visita a todos, dentro ou fora de Moçambique.
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