Ao contemplarmos a realidade actual, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: estaremos verdadeiramente independentes em Moçambique? A independência política foi conquistada em 1975. Contudo, a independência económica, social e moral continua distante para muitos cidadãos. O país possui enormes riquezas naturais: gás natural, carvão mineral, rubis, ouro, grafite, madeira e terras férteis. Apesar disso, a maioria da povo continua mergulhada na pobreza.
Aqui tudo falta-nos. A riqueza do país não beneficia que a uma minoria. Samora Machel alertava para o perigo do “inimigo interno”, um colonizador negro revestido de pele moçambicana. Hoje, muitos cidadãos sentem que essa profecia se tornou realidade. Expulsou-se o colono estrangeiro, mas nasceram novas formas de opressão dentro do próprio país. A diferença é que agora o explorador fala a mesma língua, vive no mesmo território e carrega a mesma bandeira.
A corrupção tornou-se uma das maiores ameaças à verdadeira independência nacional. Recursos destinados ao povo desaparecem misteriosamente. Dinheiros públicos são desviados enquanto hospitais não possuem medicamentos básicos e escolas funcionam sem carteiras nem livros. Multiplicam-se os escândalos financeiros, mas poucos são responsabilizados. A justiça parece forte contra os pobres e fraca diante dos poderosos: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressoras, para negarem justiça aos pobres” (Is 10,1-2).
O sofrimento do povo agrava-se diante da subida constante do custo de vida. O preço do combustível aumenta frequentemente. Isto afecta os transportes públicos, os produtos alimentares e os serviços básicos. Em consequência, o cidadão comum perde cada vez mais o poder de compra. Muitas famílias já não conseguem garantir três refeições por dia. Jovens licenciados permanecem anos sem emprego, enquanto vagas são atribuídas por influência ou corrupção.
Na esfera profissional, tornou-se comum ouvir denúncias de concursos públicos manipulados. Os vencedores já são conhecidos antes mesmo da abertura oficial das candidaturas. O mérito perde espaço para o nepotismo e para o clientelismo político. O cidadão trabalhador e honesto sente-se desmotivado. Ele percebe que o esforço nem sempre é valorizado: “Ai daqueles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça” (Am 5,7).
Há uma crescente onda de desigualdade social. Enquanto alguns acumulam fortunas e vivem em luxo exagerado, milhares de famílias vivem em bairros sem saneamento, energia eléctrica ou segurança. Crianças estudam sentadas no chão. Mulheres percorrem kilómetros em busca de água. Doentes morrem por falta de assistência médica adequada. Esta realidade contradiz os ideais pelos quais tantos moçambicanos lutaram durante a guerra de libertação.
Além disso, Moçambique enfrenta graves desafios de segurança. O terrorismo em Cabo Delgado continua a provocar mortes, deslocamentos populacionais e destruição de comunidades inteiras. Milhares de famílias perderam casas, bens e familiares. Crianças crescem longe da escola e da estabilidade familiar. O medo e a incerteza passaram a fazer parte da vida de muitos moçambicanos.
A crise moral também se faz sentir em vários sectores da sociedade. Na política, muitos dirigentes preocupam-se com interesses partidários do que em servir o povo, promovem-se divisões, intolerância e discursos manipuladores. O povo é frequentemente usado como instrumento para alcançar ou manter o poder: “Os seus chefes julgam por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,11).
Na esfera religiosa surgem igualmente sinais preocupantes. Cresce o número de líderes religiosos que transformam a fé em negócio. Em vez de promoverem a justiça, a verdade e a solidariedade, exploram emocionalmente os fiéis em busca de riqueza e prestígio pessoal. Há mais preocupação com ofertas e contribuições financeiras do que com o sofrimento humano. A religião, que deveria ser fonte de esperança e transformação social, por vezes torna-se instrumento de manipulação: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1).
Perante tudo isso, muitos cidadãos perguntam-se: Que independência celebramos? Será apenas independência territorial e política? Ou deveríamos lutar também pela independência da fome, da corrupção, da injustiça e da pobreza?
A verdadeira independência deve traduzir-se em dignidade humana, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos fundamentais e compromisso sincero com o bem comum. Enquanto persistirem o abuso do poder, a corrupção, a manipulação política, o nepotismo, a hipocrisia, a injustiça social e a indiferença diante do sofrimento do povo, a independência continuará incompleta: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm vestidos de ovelhas” (Mt 7,15).
Moçambique precisa urgentemente de uma nova consciência nacional, baseada na honestidade, no patriotismo, na solidariedade e na responsabilidade colectiva. O país não mudará apenas com discursos políticos nem com celebrações festivas. A mudança exige líderes comprometidos com a verdade e cidadãos activos na defesa da justiça e do bem comum.
Celebrar a independência nacional significa renovar o compromisso de construir um país onde haja justiça, paz, oportunidades e dignidade para todos.
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