A missão pertence à própria natureza da Igreja, enviada para anunciar e testemunhar Jesus Cristo. Ela não se reduz à proclamação da Palavra, mas concretiza-se também na proximidade, compaixão e serviço. O “Outubro Missionário” de 2026, marcado pelo 100.º Dia Mundial das Missões, convida a renovar este compromisso. O tema proposto pelo Papa Leão XIV é: «Um em Cristo, unidos na missão». A comunhão com Cristo constitui a fonte da unidade e da fecundidade missionária. Esta unidade manifesta-se concretamente no amor e no serviço aos irmãos.
A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) ilumina esta compreensão da missão. O samaritano vê, compadece-se, aproxima-se, cuida e acompanha o homem ferido. Também a Igreja é chamada a aproximar-se das pessoas feridas, pobres e marginalizadas, tornando visível a misericórdia de Deus. Por isso, «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10,37) constitui um verdadeiro programa missionário para a Igreja de hoje.
A missão nasce do amor
O texto de Lc 10,25-37 situa-se no contexto da pergunta sobre a vida eterna: «Mestre, que hei-de fazer para receber em herança a vida eterna?» (Lc 10,25). Jesus remete o interlocutor ao mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. Dt 6,5; Lv 19,18). A questão seguinte — «E quem é o meu próximo?» (Lc 10,29) — leva Jesus a deslocar a atenção da definição do próximo para a responsabilidade de tornar-se próximo.
A parábola mostra, assim, que o amor não é apenas um princípio doutrinal, mas uma prática concreta. A missão da Igreja participa desta mesma lógica: anunciar o Evangelho significa tornar presente o amor misericordioso de Deus na vida das pessoas. Por isso, evangelização e misericórdia são dimensões inseparáveis da missão cristã.
O Samaritano: paradigma da missão misericordiosa
O homem ferido representa uma humanidade vulnerável, abandonada «à beira do caminho». O sacerdote e o levita vêem-no, mas passam adiante. O samaritano, porém, «ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33). O verbo grego esplanchnisthē indica uma compaixão profunda que se transforma imediatamente em acção.
A narrativa apresenta uma sequência fundamental: ver, compadecer-se, aproximar-se e cuidar (cf. Lc 10,33-35). A misericórdia não permanece um mero sentimento; traduz-se em gestos concretos de cuidado e acompanhamento. Ao colocar um samaritano como modelo, Jesus ultrapassa fronteiras étnicas, religiosas e sociais: o próximo é aquele de quem nos aproximamos com misericórdia.
A tradição cristã reconheceu também no Samaritano uma figura de Cristo, que se aproxima da humanidade ferida e lhe oferece cura e salvação. Esta leitura cristológica, sem substituir o sentido histórico da parábola, manifesta a coerência entre a acção de Jesus e a missão da Igreja.
«Vai e faz tu também o mesmo»: a missão como práxis
A conclusão de Jesus é um imperativo: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10,37). A missão, portanto, não se limita ao anúncio verbal; exige uma práxis coerente com o Evangelho. O discípulo missionário é chamado a reconhecer as feridas do mundo e a responder-lhes com proximidade, compaixão e serviço.
Uma Igreja missionária é uma Igreja que vê os que sofrem, aproxima-se dos vulneráveis, cuida dos feridos e acompanha os que necessitam de esperança. Esta perspectiva converge com a visão de uma Igreja «em saída», chamada a encontrar as pessoas nas suas situações concretas, especialmente nas periferias existenciais.
A «hospedaria» pode ser compreendida pastoralmente como imagem da comunidade cristã: espaço de acolhimento, cura e reconstrução da esperança. A pergunta «quem é o meu próximo?» transforma-se, assim, numa questão missionária: de quem sou chamado a tornar-me próximo?
A resposta de Jesus permanece programática: «Vai e faz tu também o mesmo». A missão torna-se credível quando o anúncio de Cristo se transforma em misericórdia concreta. A misericórdia não é uma dimensão periférica da missão; é uma das suas expressões fundamentais.
Conclusão
Lucas 10,25-37 apresenta a misericórdia como uma dimensão essencial da missão. A Igreja evangeliza não somente através da palavra proclamada, mas também através da proximidade, do serviço e do cuidado. A pergunta decisiva para uma comunidade missionária não é apenas «Quem é o meu próximo?», mas sim: «De quem somos chamados a tornarmo-nos próximos?» A resposta permanece actual: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10,37).
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