Era sexta-feira quando fui ao serviço participar numa reunião a convite da Direcção da Escola. Sendo o primeiro a entrar na sala, escolhi a cadeira do fundo para me sentar. Desde cedo aprendi que as cadeiras da frente são para gente importante.
Chegados ao ponto número três da reunião, sobre os “Diversos”, uma voz levantou-se para recordar aos presentes que ainda estavam em vigor as contribuições para a aquisição de camisetas em função do 12 de Outubro, Dia do Professor. Foi, então, que me lembrei da ONP. Confesso que já me tinha esquecido da sua existência.
É que, nos últimos tempos, tenho escutado muito mais o barulho ensurdecedor da ANAPRO, que diz lutar pelos direitos dos professores, do que o silêncio sepulcral da ONP, que se apresenta como patrona e parte legítima na defesa dos direitos dos docentes e da dignificação da profissão.
Mas também não quero, de maneira alguma, ser injusto com a minha ONP, que também trabalha: cobrar dinheiro para camisetas, organizar festas, redigir e ler mensagens de exaltação pelo Dia do Professor, tirar fotos com o executivo, publicar nas redes sociais e, no dia seguinte, regressar ao seu habitual silêncio. Aliás, se não fosse esse árduo, invisível e silencioso trabalho da ONP, talvez a ANAPRO nem tivesse encontrado espaço para nascer, em 2019.
Há, no entanto, uma coisa que me parece estranha. Não é justo que duas organizações disputem o mesmo dia e o mesmo espaço para celebrar aquilo que dizem representar e defender. Então, para resolver a confusão, temos de pôr em prática aquilo que Jesus Cristo nos ensinou: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Há que entregar o 12 de Outubro à ANAPRO e procurarmos outro dia de festa para a ONP.
Estou convicto de que, só assim, cada organização ficará a conhecer o seu dia festivo, de tal modo que os professores ficarão sabendo também com quem fica a sua voz. Aliás, diz um adágio popular: “quando dois elefantes lutam, é o capim que sofre”.
Nessa disputa de espaço entre estas duas organizações que representam a classe dos professores, há um elemento ainda mais importante em todo o processo de ensino e aprendizagem que parece cair no esquecimento: A DEFESA DO ALUNO, a razão de ser da profissão docente. A luta pelos direitos de quem ensina não deve ser dissociada da luta pelo direito de quem aprende. Defender a classe docente e os respectivos alunos, em simultâneo, é defender a QUALIDADE DA EDUCAÇÃO.
E uma educação de qualidade pressupõe, no mínimo, cinco dimensões essenciais: um ambiente didáctico-pedagógico adequado, um ambiente físico digno, um ambiente emocional saudável, uma gestão escolar responsável e uma relação afectiva entre a escola, a família e a comunidade. Por isso, há que repensar o dia 12 de Outubro.
Urge a necessidade de voltar a perguntar: a quantas anda o combate ao absentismo nas nossas escolas? A quantas anda a disponibilidade de material didáctico para alunos e professores? E as salas de aula, carteiras, água e demais infra-estruturas? Como anda a gestão transparente das escolas e, sobretudo, que relação existe hoje entre a escola e as comunidades onde estão inseridas?
Defender o professor é importante, mas defender a educação exige, também, perguntar pelas condições em que ela decorre. E, mais do que isso, implica reflectir sobre o que os nossos alunos efectivamente aprendem a cada dia.
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