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jan 26 2026

NÃO A PAZ, MAS A ESPADA?

Introdução
No primeiro dia do ano, para coincidir com o ano novo e ser uma oportunidade simbólica para iniciar o ano com um apelo à promoção da paz universal e da dignidade humana, comemora-se o Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI, em 1967. Para o presente ano de 2026, em que se celebra o 59º Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV escolheu como tema: “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante'”. Trata-se de um convite à humanidade para rejeitar a violência e a guerra e promover uma paz autêntica, uma paz que não se baseia no medo, mas no amor e na justiça, e que é capaz de dissolver conflitos e gerar confiança. Entretanto, este propósito parece contrariar o de Jesus que, em S. Mateus, evangelista do presente ano litúrgico, afirma categoricamente: “Não penseis que eu vim trazer a paz à terra; eu não vim trazer a paz e sim a espada” (Mt 10,34-39). Como entender estas palavras de Jesus? Na nossa “Formação Bíblica” deste mês, vamos meditar sobre este texto para colhermos e vivermos o seu significado.

1. A “espada” de Cristo e a divisão (Mt 10,34-36)
A espada que Jesus veio trazer é uma metáfora para a divisão que o Evangelho causa, separando quem o aceita de quem o rejeita, resultando em conflitos e desafios, inclusive familiares. Essa divisão, embora não sendo desejada por Jesus, é uma consequência necessária da decisão de seguir a verdade. A “paz” que Jesus trouxe não é a ausência de conflitos a qualquer custo, nem é o comodismo espiritual. A paz de Cristo é um estado de harmonia com Deus que pode coexistir com tribulações e perseguições no mundo.

2. Amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa (Mt 10,37)
O amor por Deus deve ser o centro da vida. É preciso amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa, inclusive a família. Quem ama pai, mãe, filho ou filha mais do que a Ele, não é digno d’Ele. Isso não diminui a importância da família. Devemos colocar Deus em primeiro lugar nas nossas vidas, acima de desejos, vontades, trabalho ou estudos. Se algo ou alguém nos afasta da comunhão com Deus, essa coisa ou pessoa está indevidamente no lugar de Deus.

3. Carregar a Cruz e Perder a Vida (Mt 10,38-39)
Seguir Jesus implica tomar a própria cruz, o que significa ter disposição de sofrer perseguição, rejeição e outras adversidades por causa da fé, vivendo de acordo com a vontade de Deus em vez da própria. Não é apenas suportar as dificuldades da vida, mas, sobretudo, renunciar activamente à própria vontade, aos desejos egoístas e até mesmo à própria vida física por causa d’Ele. Quem procura conservar a sua vida física, apegando-se aos bens terrenos, confortos e segurança, perdê-la-á. Mas aquele que perde a sua vida física por causa de Jesus, renunciando a si mesmo e dedicando-se ao Seu serviço, encontrá-la-á, alcançando uma vida mais valiosa, a vida espiritual plena e eterna que se alcança ao viver para Cristo.

Conclusão
A aparente contradição entre as palavras de Jesus em Mt 10,34-39 é solucionada ao entender os diferentes tipos de “paz” a que Mateus se refere no seu evangelho: a paz verdadeira, que é a paz que vem de dentro, a paz testemunhada pelos pacificadores (Mt 5,9) e transmitida aos dignos (Mt 10,13) e a “paz” superficial, a paz do comodismo e da falta de compromisso. Esta última não é a paz que Jesus oferece. A paz que Jesus trouxe é a primeira, isto é, a paz que se conquista através de uma luta e compromisso com a verdade. A divisão causada pela “espada” é um passo necessário para se chegar essa paz verdadeira, usando as palavras do Papa Leão XI, uma paz “desarmada e desarmante”, construída na justiça e no amor, que não se fundamenta no medo ou na força das armas, mas na confiança e esperança.

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