Os Pais: Primeiros Catequistas na Bíblia
Pe. Marcos Mubango Introdução A transmissão da fé constitui uma das principais preocupações da revelação bíblica. Desde o Antigo Testamento, Deus confia à família a missão de conservar e transmitir a memória da sua acção salvífica. Neste contexto, os pais aparecem como os primeiros catequistas dos filhos, responsáveis por introduzi-los no conhecimento de Deus, na observância da Aliança e na prática da vida religiosa. A presente reflexão pretende mostrar que esta missão possui sólido fundamento bíblico e continua a constituir um princípio orientador da acção catequética da Igreja. Os pais como educadores da fé no Antigo Testamento O fundamento da catequese familiar encontra-se na vocação de Israel para transmitir a fé de geração em geração. Em Génesis 18, 19, Deus afirma ter escolhido Abraão para ensinar os seus descendentes a seguir os caminhos do Senhor, revelando que a educação religiosa integra o próprio projecto da Aliança. O texto central desta missão é Deuteronómio 6, 4-9, onde, após a profissão de fé do Shema Israel, Moisés ordena que os mandamentos sejam constantemente ensinados aos filhos. A Palavra de Deus deve acompanhar toda a vida quotidiana: em casa, durante as viagens, ao levantar e ao deitar. A catequese deixa, assim, de ser um acto ocasional para se tornar um verdadeiro estilo de vida. Esta missão prolonga-se na pedagogia da memória. Quando os filhos interrogam os pais acerca do significado dos mandamentos, estes respondem narrando a libertação do Egipto (Dt 6, 20-25). A transmissão da fé realiza-se, portanto, através da recordação das obras de Deus na história, tornando a experiência da salvação o fundamento da educação religiosa. A catequese familiar no Novo Testamento O Novo Testamento confirma a centralidade da família na formação da fé. Jesus cresceu no ambiente religioso da família de Nazaré, sendo educado por Maria e José na observância da Lei e das tradições de Israel (Lc 2, 41-52). A Encarnação confere à vida familiar um significado singular, mostrando que o próprio Filho de Deus quis experimentar o processo humano de crescimento numa família. As cartas paulinas reforçam esta responsabilidade ao exortarem os pais a educar os filhos “na disciplina e na instrução do Senhor” (Ef 6, 4). O exemplo de Timóteo, formado na fé pela mãe Eunice e pela avó Lóide (2 Tm 1, 5), evidencia que o testemunho familiar constitui o primeiro ambiente de iniciação cristã. Implicações teológico-pastorais A missão catequética dos pais ultrapassa a simples transmissão de conhecimentos religiosos. Ela concretiza-se sobretudo através do testemunho de vida, da oração em família, da participação na liturgia e da prática da caridade. A família torna-se, deste modo, uma verdadeira comunidade educativa da fé. Num contexto marcado pela secularização e pela fragilidade das relações familiares, a redescoberta desta vocação revela-se essencial para a renovação da catequese. A comunidade paroquial exerce uma função indispensável, mas não substitui a responsabilidade originária dos pais, primeiros educadores da fé dos seus filhos. Conclusão A análise dos principais textos bíblicos permite concluir que a missão catequética dos pais possui origem divina e ocupa um lugar central na história da salvação. Desde Abraão até às primeiras comunidades cristãs, a família é apresentada como o espaço privilegiado da transmissão da fé. A Palavra de Deus, celebrada, vivida e testemunhada no ambiente familiar, garante a continuidade da Aliança entre as gerações e faz da família uma verdadeira “igreja doméstica”. Recuperar esta consciência constitui um dos desafios mais relevantes para a catequese e para a pastoral familiar da Igreja na actualidade. Anexo A Bíblia considera a família também como o local da catequese dos filhos. Vê-se isto claramente na descrição da celebração pascal (cf. Ex 12, 26-27; Dt 6, 20-25) – mais tarde explicitado na haggadah judaica –, concretamente no diálogo que acompanha o rito da ceia pascal. Eis como um Salmo exalta o anúncio familiar da fé: «O que ouvimos e aprendemos e os nossos antepassados nos transmitiram, não o ocultaremos aos seus descendentes; tudo contaremos às gerações vindouras: as glórias do Senhor e o seu poder, e as maravilhas que Ele fez. Ele estabeleceu um preceito em Jacob, instituiu uma lei em Israel. E ordenou aos nossos pais que a ensinassem aos seus filhos, para que as gerações futuras a conhecessem e os filhos que haviam de nascer a contassem aos seus próprios filhos» (Sl 78/77, 3-6). Por isso, a família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa «artesanal», pessoa a pessoa: «Se amanhã o teu filho te perguntar (…), dir-lhe-ás…» (Ex 13, 14). Assim, entoarão o seu canto ao Senhor as diferentes gerações, «os jovens e as donzelas, os velhos e as crianças» (Sl 148, 12). Amoris Laetitia 16
Curiosidades sobre a Bíblia
Na antiga Fenícia (hoje correspondente ao Líbano), havia uma cidade chamada Biblos (βύβλος).Lá, se produzia uma planta que, depois de bem preparada, era usada para receber a escrita: o papiro. As coleções de escritos em papiro eram chamadas de rolos ou “livros”. Por isso, Bíblia (βιβλία — palavra grega no plural) é um conjunto de rolos ou livros de papiros que formam uma pequena biblioteca em um só lugar. A Sagrada Escritura começou a ser registrada entre o ano 1500 a.C. e o ano 150 d.C., Ou seja, ela levou cerca de 1600 anospara ficar pronta. Nos seus textos originais, a Escritura não tinha a divisão em versículos e capítulos. Entre 1227 e 1228, o teólogo Stephen Langton, bispo de Cantuária, na Inglaterra,realizou um detalhado trabalho para dividir a Bíblia inteira em capítulos. Apenas em 1551, Robert d’Etiénne, um tipógrafo francês, conseguiu dividir a Bíblia toda em versículos. Ele se baseou nos esforços de estudiosos judeus, conhecidos como massoretas, que já haviam esboçado uma divisão em versículos do Antigo Testamento nos séculos IX e X. Qual o livro mais longo e o mais curto? O título de maior livro são os Salmos.O livro contém hinos, louvores, orações de agradecimento, súplicas e cânticos, somando um total de 150 composições abordando diversos temas. O mais curto é a Terceira Epístola de João, com apenas 14 versículos. Em quais idiomas a Bíblia foi escrita? Foram em três línguas.Os autores escreveram a maior parte do Antigo Testamento em hebraico antigo, incluindo o Pentateuco, os Livros Históricos, os Livros Proféticos e parte dos Livros Sapienciais. Os escritores também usaram o aramaico para compor alguns trechos do Antigo Testamento,especialmente nos Livros de Daniel e Esdras. Isso ocorreu durante o Exílio Babilônico e reflete a influência dessa língua na região. Já o Novo Testamento foi escrito em grego.Os autores compuseram os Evangelhos, as Epístolas e o Livro do Apocalipse nesse idioma, o que possibilitou uma ampla divulgação da mensagem de Jesus Cristo na época. Por que Nossa Senhora é citada poucas vezes na Bíblia? Apesar de sua grande importância no Cristianismo sendo a Mãe de Jesus e nossa Mãe, as palavras de Maria são concentradas em momentos-chave, como o Magnificat em Lucas 1,46. A missão de Nossa Senhora está totalmente ligada a missão do seu próprio Filho. E uma das características mais bonitas da Mãe de Deus é exatamente essa,Maria ser a Virgem do silêncio, aquela cuja presença fala e muito ao nosso coração. Como interpretar a Sagrada Escritura? À luz do Espírito Santo, da própria Igreja a partir da Tradição e do Magistério,é possível entender que existem passagens literais e simbólicas na Bíblia. Isso significa que nem tudo nas Escriturasé para ser compreendido de maneira estritamente literal, pois possuem significados mais profundos, usando linguagem poética ou imagens que apontam para verdades espirituais. Um exemplo disso está em Marcos 9,43, quando Jesus fala que “Se tua mão te leva a pecar, corta-a!”,não é para fisicamente realizar este corte, mas a real mensagem é que se amamos verdadeiramente a Deus, devemos detestar tudo o que O aborrece e O ofende, rompendo definitivamente com o pecado, principalmente atitudes com mais apego ou mesmo afetos impuros.
Quando Servir Vira Sofre: Alerta de Maio para o trabalhador moçambicano
Maio, mês do trabalhador, encontra muitos moçambicanos com um cansaço que não passa no domingo. A OMS classifica burnout como “estresse crónico de trabalho não gerenciado”: exaustão, cinismo e perda de sentido. O retrato em Moçambique O estudo “Vulnerabilidade ao burnout em profissionais de saúde de um hospital público no norte de Moçambique”, publicado na Quaderns de Psicología em Julho de 2023, avaliou 300 profissionais. Os dados são alarmantes: 77,3% tinham desgaste psíquico alto, 72% alta indolência e 31,6% baixa ilusão pelo trabalho. Trabalho por turnos e ser mulher aumentaram o risco. Se acontece no hospital, ocorre na machamba, na escola, na igreja. Teologia do limite A Bíblia normaliza o descanso. Deus cessou no sétimo dia (Gn 2,2) e ordenou o sábado (Ex 20,8). Jesus se retirava para orar (Lc 5,16). Elias teve burnout em 1Rs 19: Deus respondeu com sono e comida, não cobrança. Descanso é mandamento, não luxo. Teu valor vem de seres imagem de Deus (Gn 1,27), não do teu salário. Marta servia Cristo e ouviu: “Andas inquieta” (Lc 10,41). Até ministério sem limite adoece. Moisés ia colapsar até Jetro mandar delegar (Ex 18,17-18). Três medidas para Maio Vigia os sinais: Insônia, irritabilidade, cinismo e “dor de domingo” são luz vermelha. Guarda o sábado: 24h sem email/trabalho. O cérebro precisa de off para não queimar. Negocia a carga: Fala com a liderança. Pr 15,22 diz que “planos sem conselho falham”. Neste mês dos trabalhadores, Moçambique precisa de servos saudáveis, não mártires da produtividade. Deus te chamou para frutificar (Gn 1,28), mas também disse “vinde a mim, cansados” (Mt 11,28). Descansar é mordomia do corpo, templo do Espírito (1Co 6,19). Desafio: Escolhe um sábado este mês para desligar. Deus sustenta o mundo sem ti por 24h.
maio 06 2026
O trabalho, na Bíblia: maldição ou bênção?
Por: Pe. Marcos Mubango Introdução É muito generalizada a ideia segundo a qual o trabalho é uma maldição, fundamentando essa visão na Sagrada Escritura. Maio é mês trabalhador. Vamos dedicar o nosso espaço deste mês a perceber como, na verdade, a Bíblia vê o trabalho: bênção ou maldição? 1. O trabalho, uma maldição? A ideia de que o trabalho é uma “maldição” vem principalmente de uma interpretação comum de Gn 3,17 onde, após o pecado de Adão e Eva, Deus profere palavras que associam o trabalho a dor, cansaço e esforço extremo, dizendo a Adão: “maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida”. Estas palavras de Deus são interpretadas como uma punição divina que tornou o trabalho maldito. A visão negativa do trabalho é reforçada pela perspectiva negativa dada ao termo ’abodah, palavra hebraica para trabalho, em Êxodo 5, 9-18, onde é usada para significar “servidão”, “trabalho forçado”, referindo-se à “escravidão” dos hebreus no Egito, imposta pelo Faraó, como um mecanismo de opressão e punição, para mantê-los exaustos e impedi-los de ouvir as promessas de libertação de Moisés. A visão negativa do trabalho na Bíblia é reforçada ainda pelo livro do Eclesiastes que o apresenta, muitas vezes, como “vaidade”, especialmente quando o esforço não traz satisfação real. Como se pode facilmente constatar, parece haver uma progressão na maldição do trabalho que, além de ser “penoso” (Gn 3,17), impedindo qualquer tentativa de libertação (Ex 5,9-18) e, finalmente, é um “correr atrás do vento” (Ecle 6,1). 2. O trabalho, uma bênção! Uma diferente interpretação das passagens acima citadas (Gn 3,17; Ex 5,9-18 e Ecle 6,1) mostra-nos o contrário, ou seja, que o trabalho é uma dádiva de Deus, uma bênção, e não uma maldição. O trabalho é algo bom e digno, antes de tudo, porque é uma extensão da ação criativa de Deus. Deus trabalhou na criação do universo (Cf. Gn 2,2-3) e trabalha continuamente para a manutenção da vida e para a redenção humana (cf. Jo 5,17). O trabalho humano é uma participação na obra criadora de Deus, pois ele, criado à imagem de Deus, é chamado a administrar, desenvolver e dar continuidade à criação, agindo como colaborador de Deus no mundo. Esta vocação dignifica o ser humano, permitindo que, através de seus dons, intelecto e esforço, transforme a realidade e contribua para a construção da sociedade. Aliás, como nos mostra Gênesis 2,15, o trabalho faz parte do plano original de Deus que coloca o homem no jardim do Éden com a tarefa de torná-lo produtivo e protegê-lo, servindo a Deus e ao próximo. Em Gn 3,17-19, Deus amaldiçoa a terra e não o trabalho em si. A maldição da terra trouxe futilidade e dor para a atividade laboral que em si é boa. O trabalho, natural e prazeroso, se torna penoso por causa da ruptura da comunhão do homem com Deus, que torna a terra menos produtiva, forçando o homem a trabalhar de forma penosa para obter o sustento. Em Êxodo 5,9-18, o trabalho não é descrito como uma maldição em si, mas transformado em um instrumento de opressão e castigo devido à crueldade do Faraó. Trata-se, portanto, de uma instrumentalização do trabalho que é usado para “calar a boca” dos israelitas, impedindo-os de pensar na liberdade ou de ouvir Moisés. Isso demonstra que o trabalho, que deveria ser digno, pode ser pervertido pelo pecado humano em exploração e escravidão. Para o Eclesiastes, o trabalho é considerado uma bênção e dádiva de Deus na medida em que permite o homem desfrutar dos seus frutos (Ecle 3,13.22). Entretanto, o trabalho se torna “vaidade” quando a pessoa trabalha incessantemente e não consegue aproveitar o que acumulou, deixando tudo para outros que não se esforçaram. A maldição não está no trabalho, mas na ganância, no stress e na incapacidade de aproveitar o fruto do próprio trabalho (Ecle 6,2). Qohelet sugere, assim, a necessidade de equilíbrio no trabalho, isto é, trabalhar com dedicação, mas também desfrutar da vida, reconhecendo que a verdadeira satisfação vem de Deus, não apenas do acúmulo de riquezas. Esta visão positiva do trabalho é reforçada pelo Novo Testamento onde o trabalho é visto como uma bênção, vocação e dádiva divina, e não como um castigo ou maldição. Jesus, ao ser conhecido como filho do carpinteiro (cf. Mt 13,55), valoriza o trabalho manual como parte do plano divino. No seu ministério, Jesus ensina que Deus valoriza o empenho e é generoso, não baseando a recompensa apenas no tempo trabalhado, mas na graça e no chamado (cf. Mt 25,14-30). S. Paulo também valorizava profundamente o trabalho, tanto em um sentido prático quanto espiritual. Ele não apenas pregava a importância do esforço, mas também o praticava como fabricante de tendas (Act 18,3) para sustentar seu ministério e não ser um fardo para as comunidades. O trabalho é um acto de adoração (cf. Col 3,23-24), uma maneira de viver a vida digna e respeitável, garantindo a autonomia financeira e evitando ser um fardo para os outros (cf.1 Ts 4,11-12). O trabalho, quando feito no Senhor, nunca é fútil (cf.1 Cor 15,58). Conclusão Na Bíblia, o trabalho é considerado uma bênção divina e uma vocação original do ser humano, instituída por Deus antes da queda do homem, e não um castigo. Ele é visto como uma forma de honrar a Deus, desenvolver o caráter, obter sustento e servir ao próximo, sendo um meio de realização pessoal e de exercer a administração da criação. No mês dos trabalhadores, peçamos a Deus para que nos livre da tentação da instrumentalização, da exploração e da busca incessante por lucro, e nos capacite a valorizar a dignidade humana e a justiça no trabalho, fazendo dele um meio de servir a Deus e prover sustento com dignidade.
abr 21 2026
A LITURGIA COMO ESCOLA DE FÉ E COMUNHÃO
Por Cantífula de Castro A liturgia é o lugar onde a comunidade cristã experimenta de forma plena o mistério da fé. É nela que a Igreja celebra a salvação oferecida por Cristo e se reúne como povo de Deus para escutar a Palavra, participar dos sacramentos e fortalecer os laços de fraternidade. Para o catequista moçambicano, compreender a liturgia é essencial, pois grande parte da educação da fé acontece precisamente no espaço celebrativo. A liturgia é, ao mesmo tempo, celebração, formação e vida. Cada gesto, símbolo, canto, leitura e oração possui significado profundo e ensina verdades de fé que muitas vezes ultrapassam a própria catequese verbal. Nas comunidades cristãs, a liturgia assume um potencial pedagógico especial, tornando-se escola de espiritualidade e de comunhão. O catequista deve ajudar a comunidade a compreender que a liturgia não é “um ritual a cumprir”, mas uma participação viva e consciente no mistério de Cristo. Isso implica educar para o respeito pelo espaço sagrado, para a escuta atenta da Palavra e para a participação activa nas celebrações. A liturgia molda atitudes: ensina silêncio interior, reconciliação, acolhimento, solidariedade e espírito de serviço. A inculturação litúrgica é outro elemento relevante. Em Moçambique, a riqueza cultural expressa-se no canto polifónico, nas danças suaves de acolhimento, no ritmo dos tambores, na força dos provérbios e na beleza das línguas nacionais. A Igreja encoraja que tais elementos, quando adequadamente discernidos, possam integrar a liturgia, tornando-a mais próxima e compreensível ao povo. O catequista deve, portanto, incentivar o diálogo entre fé e cultura, sem perder de vista a fidelidade ao sentido universal da liturgia. Outro desafio é promover uma liturgia que eduque para a paz e a reconciliação. Num país marcado por períodos de conflito armado, crise política e tensões sociais, a celebração eucarística torna-se espaço privilegiado para curar memórias, reavivar a esperança e reforçar a unidade. O gesto da paz, o Pai-Nosso, as preces da comunidade e o envio missionário final recordam que a fé tem dimensão pública e que o cristão é chamado a ser construtor de paz no quotidiano. A liturgia também é fonte de compromisso. A comunhão com Cristo na Eucaristia deve repercutir-se no compromisso com os pobres, na honestidade no trabalho, na responsabilidade familiar e na ética comunitária. O catequista é responsável por reforçar esses vínculos, mostrando que liturgia e vida são inseparáveis. Uma liturgia bem vivida transforma a comunidade e faz amadurecer a fé. Por fim, é fundamental promover a formação litúrgica contínua. Muitos fiéis participam das celebrações sem compreender plenamente o seu sentido. Explicar os tempos litúrgicos, as cores, os ministérios, as partes da missa, o simbolismo dos sacramentos, leva a uma vivência cristã mais profunda da liturgia. Assim, a liturgia torna-se uma verdadeira escola de fé, onde a comunidade aprende a amar, crer, celebrar e servir.
O Direito de Resistência: Fundamentos, Importância e Aplicação Prática
Por: Aurélio Jumbe Nos dias que correm, é frequente muitas pessoas e autoridades, no nosso meio, praticarem acções que contrariam a lei, ferirem a dignidade da pessoa humana ou deixarem de o fazer conscientemente com a justificação de estarem a cumprir “ordens superiores”. Em face a estas situações, podemos questionar-nos sobre o que fazer e como reagir diante das “ordens/instruções superiores”. O artigo 80 da Constituição da República de Moçambique consagra o chamado direito de resistência, reconhecendo que toda pessoa tem o direito de não se submeter a ordens ou actos ilegais, arbitrários ou que violem os seus direitos enquanto pessoa. São as chamadas “ordens superiores” que em geral não têm uma justificação válida. Este direito não nasce do desejo de desobediência, mas da própria ideia de que a autoridade só é legítima quando actua dentro da lei e ao serviço do bem comum. Fundamento do direito de resistência O fundamento principal deste direito está na dignidade da pessoa humana. Antes de qualquer função, cargo ou posição social, cada indivíduo é uma pessoa com consciência, liberdade e responsabilidade. Nenhuma hierarquia, seja administrativa, política, social ou comunitária, pode anular o dever que cada ser humano tem de dizer “não” à injustiça, ao abuso e à violação da legalidade. Assim, o direito de resistência protege a pessoa contra a obediência cega e contra o uso arbitrário do poder. Assim, o direito de resistência funciona como um limite ao dever de obediência. Importância do direito de resistência O direito de resistência é importante porque protege as pessoas contra abusos de poder. Em palavras simples, ele significa que: i) Quando um governo ou autoridade age de forma injusta, violenta ou contra os direitos humanos, as pessoas têm o direito de não obedecer cegamente; ii) as leis existem para proteger o povo, e não para oprimir; iii) ajuda a manter a liberdade, a justiça e a democracia, pois impede que o poder seja usado sem limites; iv) ensina que os cidadãos não são passivos: eles podem questionar, protestar e se organizar de forma responsável para defender seus direitos. Assim, o direito de resistência garante que ninguém seja obrigado a aceitar injustiças e ajuda a construir uma sociedade mais justa e consciente. O que significa resistir, na prática? Resistir não é lutar com violência, nem criar confusão. Resistir é dizer “não” às injustiças; recusar participar em actos ilegais; proteger a própria consciência e os direitos dos outros bem como a dignidade humana. Porém, a resistência deve ser pacífica, consciente e responsável. Este direito serve como um escudo de protecção. Numa linguagem simples: “Ninguém pode mandar fazer o que é errado, mesmo que seja o seu chefe.” Isso vale para todos. O direito de resistência ajuda a combater subornos pedidos por agentes públicos, cobranças ilegais, discriminação em serviços públicos, abuso de autoridade por polícias ou fiscais, entre outros. Aliás, este direito ainda protege contra expulsão injusta de terras familiares, distribuição de benefícios apenas a amigos ou parentes, decisões injustas de líderes comunitários, exclusão no acesso à água, escola ou posto de saúde. Um líder comunitário tenta dar a machamba de uma família a outra pessoa sem explicação legal. A família pode resistir pacificamente e procurar apoio nas autoridades distritais. Para os funcionários e agente do Estado, o direito de resistência é também um dever profissional. Neste âmbito, em especial, o Estatuto dos Funcionários e Agentes do Estado, aprovado pela Lei n.º 4/2022, de 11 de Fevereiro, no seu art. 63/a deixa claro que o funcionário não deve cumprir ordens ilegais. Uma ordem é ilegal quando: viola a Constituição; vai contra a lei; vem de quem não tem poder para ordenar; ignora os procedimentos legais; tenta enganar ou esconder a verdade. Este direito garante a protecção contra o abuso de poder por parte de superiores como também de qualquer autoridade administrativa em relação à população em geral. Por exemplo, se um chefe manda um funcionário alterar um documento para beneficiar um parente ou a si mesmo, o funcionário pode e deve recusar, pedir a ordem por escrito e comunicar o caso ao chefe máximo ou à procuradoria. Em poucas palavras, o direito de resistência existe para equilibrar o poder com a consciência, proteger a pessoa humana contra a arbitrariedade e fortalecer o Estado de Direito. Resistir não é destruir, mas corrigir; não é desobedecer por orgulho, mas por consciência; não é criar o caos, mas ajudar a restaurar a justiça. Assim, o artigo 80 não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade: cada cidadão é chamado a ser guardião da legalidade, da dignidade humana e do bem comum. Dizer “não” ao que é errado é uma forma de dizer “sim” à justiça, à dignidade e ao bem comum.
Eis o Tempo Favorável: ainda é possível recomeçar
Com a imposição das cinzas, iniciamos a Quaresma, tempo de conversão, penitência e renovação espiritual. A Quaresma não pode ser reduzida a um mero exercício ritualista. Ela interpela a consciência pessoal e colectiva, exigindo uma fé encarnada na nossa realidade concreta. Num país como o nosso que persistem as desigualdades estruturais, fragilidade institucional, pobreza crónica e crises de valores, a Quaresma é um tempo ainda mais profundo e exigente para o povo moçambicano. Na realidade política, Moçambique vive tensões recorrentes ligadas à governação, à corrupção- ção, à exclusão social e à fragilidade da justiça. Nesse plano, a Quaresma interpela profundamente tanto os governantes quanto os governados. Converter-se não significa apenas rezar mais, mas romper com práticas que atentam contra a dignidade humana. Neste sentido, a Quaresma deveria ser tempo de exame de consciência sobre o uso dos recursos públicos, a manipulação das instituições e o silenciamento da voz dos pobres. O jejum quaresmal denuncia a “fome” causada pela má governação e desafia os líderes a jejuarem da corrupção, do autoritarismo e da indiferença. Para os cidadãos, a Quaresma interpela a passividade, o medo e a resignação. A conversão quaresmal exige uma cidadania activa, ética e responsável, que recuse normalizar a injustiça e a violência política. Assim, a fé cristã deixa de ser ópio e torna-se fermento de transformação social. O sentido do jejum quaresmal torna-se particularmente provocador num país onde grande parte da população já vive em jejum forçado devido à pobreza extrema, ao desemprego, ao aumento do custo de vida e às desigualdades regionais. O verdadeiro jejum quaresmal deve ser solidário e profético: jejuar do consumismo, da exploração económica, da acumulação egoísta e da indiferença face ao sofrimento alheio. A esmola quaresmal, por sua vez, não pode limitar-se a gestos assistencialistas. Ela deve ser ex-pressão de partilha justa, promoção da dignidade e questionamento das causas profundas da pobreza. No campo religioso, Moçambique assiste a um crescimento significativo de expressões religiosas, algumas marcadas por sincera busca de Deus, outras por discursos de prosperidade fácil, milagres imediatos e espiritualidade desvinculada da ética social. Neste cenário, a Quaresma impõe um sério discernimento. A verdadeira espiritualidade quaresmal não aliena o crente da realidade, mas compromete-o com ela. A oração, um dos pilares da Quaresma, não pode ser fuga dos problemas sociais, mas força interior para enfrentá-los com coragem e lucidez. Uma fé que não questiona a injustiça, que legitima o sofrimento como “vontade de Deus”, trai o sentido bíblico da conversão. A Quaresma chama também a Igreja a uma auto-crítica: até que ponto as comunidades cristãs são voz profética diante das injustiças. Até que ponto os líderes religiosos denunciam o pecado estrutural e não apenas os pecados individuais. (Coordenação VN)
Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo bíblico
Introdução Fevereiro é, em Moçambique, o mês dos heróis porque a 3 do mesmo mês celebra-se o dia nacional dos “Heróis”, uma ocasião para reflectir sobre os feitos daqueles que se empenharam na luta pela independência do país e para honra-los pela sua dedicação na construção da nação moçambicana. Este facto serviu de pretexto para a escolha do nosso tema deste mês: “Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo”. O que é um herói? Na conceção secular tradicional, herói é uma pessoa de coragem excecional, integridade moral e capacidade de sacrifício, motivada por ideais meramente humanos, sociais ou éticos. No Novo Testamento, verdadeiro herói é aquele que, através da fé, obediência à vontade de Deus, humildade, serviço e sacrifício segue Jesus e está disposto a enfrentar perseguição por causa do Evangelho. Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo bíblico O modelo bíblico de heroísmo, por excelência, é Jesus Cristo. Ele é também a fonte do heroísmo bíblico pois de si provêm todas as graças para que o indivíduo tenha a perfeição (cf. Mt 5,58; Jo 14,6; Hb 5,8-9). O exemplo mais eloquente de heroísmo que Jesus deu é o seu sacrifício supremo na cruz por amor incondicional (cf. Jo 3,16; Mt 20,28; Hb 10,10), entregando livremente sua vida (cf. Jo 10,18) para expiação dos pecados da humanidade, demonstrando humildade (cf. Mt 11,29; Jo 13,5; Fl 2,6-8), obediência (Mt 26,39; Jo 6,38; Jo 8,29; Fl 2,8) e serviço (cf. Mt 20,26-27; Mc 10,45; Lc 22,27; Jo 13,14-15). Nisso, o heroísmo de Jesus está em forte contraste com a conceção secular tradicional de heroísmo que valoriza a força, o poder e a glória humana. “O discípulo não é superior ao mestre…” Se Jesus é modelo e fonte de heroísmo, todo seu discípulo é chamado a ser um “herói” no sentido de viver uma vida de fé, superação e impacto, seguindo o modelo do Mestre, porque “o discípulo não é superior ao mestre, mas todo aquele que for bem instruído será como o seu mestre” (Mt 10,24). O estar com Jesus deve transformar radicalmente a pessoa e torna-la um agente de transformação, capaz de enfrentar desafios. Portanto, todo discípulo de Jesus é chamado a seguir o Mestre também no heroísmo, que se manifesta na renúncia total do próprio “eu” egocêntrico para se voltar a Deus, na tomada da própria cruz, isto é, aceitação das dificuldades, perseguições e sacrifícios que vêm com a fé cristã, e na obediência amorosa a Jesus, pondo em prática as suas obras com fé inabalável e serviço sacrificial (cf. Mt 16,24). Por isso, “Não temais” (Mt 10,26-33) Por isso, ao enviar os seus discípulos, Jesus os adverte de que as perseguições e incompreensões, que se traduzirão em sofrimento, gerando medo e angústia, são inevitáveis; entretanto, garante-lhes a contínua ajuda e protecção de Deus ao longo de todo o caminho, sinal da sua atenção e amor por eles; por isso, “não temais” (cf. Mt 10,26.28.31). Os discípulos de Jesus devem proclamar com coragem, com convicção, com coerência e com abertura, por palavras e por atitudes, evitando a cobardia e o comodismo, a mensagem libertadora do Mestre a fim de transformar o mundo, libertando a todos, homens e mulheres, de tudo aquilo que lhes rouba a vida e a felicidade: a opressão, o egoísmo, o sofrimento, o medo. O verdadeiro temor não deve ser de quem apenas pode matar o corpo, mas de Deus que pode destruir o corpo e a alma, fazendo perder a possibilidade de chegar à vida definitiva, um dom que Deus oferece àqueles que aceitaram pôr a própria vida ao serviço do Reino. Quem procura percorrer com fidelidade o caminho de Jesus não precisa viver angustiado pelo medo da morte pois Deus tem um cuidado especial por cada pessoa, como mostra a imagem dos passarinhos, insignificantes e indefesos, e a contagem dos cabelos. Há, portanto, que confiar absolutamente na solicitude, no cuidado e no amor de Deus e empenhar-se, sem medo, na missão. Conclusão Todo cristão é chamado a ser herói, isto é, à perfeição e à imitação de Cristo, onde a verdadeira bravura se manifesta na entrega total a Deus e ao próximo, sendo sal e luz do mundo, transformando-o com pequenas acções de bondade, justiça e coerência com o Evangelho, encontrando poder na fé para superar as limitações humanas e a própria morte. (Por: Pe. Marcos Mubango)
jan 26 2026
Não a paz, mas a espada?
Introdução No primeiro dia do ano, para coincidir com o ano novo e ser uma oportunidade simbólica para iniciar o ano com um apelo à promoção da paz universal e da dignidade humana, comemora-se o Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI, em 1967. Para o presente ano de 2026, em que se celebra o 59º Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV escolheu como tema: “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante’”. Trata-se de um convite à humanidade para rejeitar a violência e a guerra e promover uma paz autêntica, uma paz que não se baseia no medo, mas no amor e na justiça, e que é capaz de dissolver conflitos e gerar confiança. Entretanto, este propósito parece contrariar o de Jesus que, em S. Mateus, evangelista do presente ano litúrgico, afirma categoricamente: “Não penseis que eu vim trazer a paz à terra; eu não vim trazer a paz e sim a espada” (Mt 10,34-39). Como entender estas palavras de Jesus? Na nossa “Formação Bíblica” deste mês, vamos meditar sobre este texto para colhermos e vivermos o seu significado. 1. A “espada” de Cristo e a divisão (Mt 10,34-36) A espada que Jesus veio trazer é uma metáfora para a divisão que o Evangelho causa, separando quem o aceita de quem o rejeita, resultando em conflitos e desafios, inclusive familiares. Essa divisão, embora não sendo desejada por Jesus, é uma consequência necessária da decisão de seguir a verdade. A “paz” que Jesus trouxe não é a ausência de conflitos a qualquer custo, nem é o comodismo espiritual. A paz de Cristo é um estado de harmonia com Deus que pode coexistir com tribulações e perseguições no mundo. 2. Amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa (Mt 10,37) O amor por Deus deve ser o centro da vida. É preciso amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa, inclusive a família. Quem ama pai, mãe, filho ou filha mais do que a Ele, não é digno d’Ele. Isso não diminui a importância da família. Devemos colocar Deus em primeiro lugar nas nossas vidas, acima de desejos, vontades, trabalho ou estudos. Se algo ou alguém nos afasta da comunhão com Deus, essa coisa ou pessoa está indevidamente no lugar de Deus. 3. Carregar a Cruz e Perder a Vida (Mt 10,38-39) Seguir Jesus implica tomar a própria cruz, o que significa ter disposição de sofrer perseguição, rejeição e outras adversidades por causa da fé, vivendo de acordo com a vontade de Deus em vez da própria. Não é apenas suportar as dificuldades da vida, mas, sobretudo, renunciar activamente à própria vontade, aos desejos egoístas e até mesmo à própria vida física por causa d’Ele. Quem procura conservar a sua vida física, apegando-se aos bens terrenos, confortos e segurança, perdê-la-á. Mas aquele que perde a sua vida física por causa de Jesus, renunciando a si mesmo e dedicando-se ao Seu serviço, encontrá-la-á, alcançando uma vida mais valiosa, a vida espiritual plena e eterna que se alcança ao viver para Cristo. Conclusão A aparente contradição entre as palavras de Jesus em Mt 10,34-39 é solucionada ao entender os diferentes tipos de “paz” a que Mateus se refere no seu evangelho: a paz verdadeira, que é a paz que vem de dentro, a paz testemunhada pelos pacificadores (Mt 5,9) e transmitida aos dignos (Mt 10,13) e a “paz” superficial, a paz do comodismo e da falta de compromisso. Esta última não é a paz que Jesus oferece. A paz que Jesus trouxe é a primeira, isto é, a paz que se conquista através de uma luta e compromisso com a verdade. A divisão causada pela “espada” é um passo necessário para se chegar essa paz verdadeira, usando as palavras do Papa Leão XI, uma paz “desarmada e desarmante”, construída na justiça e no amor, que não se fundamenta no medo ou na força das armas, mas na confiança e esperança.
𝗘𝗻𝗰𝗲𝗿𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗔𝗻𝗼 𝗝𝘂𝗯𝗶𝗹𝗮𝗿: 𝗔𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗮̀ 𝗘𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮 𝗲 𝗮𝗼 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗿𝗼𝗺𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗣𝗮𝘀𝘁𝗼𝗿𝗮𝗹 𝗲𝗺 𝗡𝗮𝗺𝗽𝘂𝗹𝗮
No encerramento do Ano Jubilar 2025, vivido como tempo de graça, reconciliação e renovação da fé, o arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saure, apelou a um balanço espiritual profundo, sublinhando que o Jubileu, celebrado num contexto marcado pelo Natal e pelo fim do ano, recordou que todos, sem distinção de profissão, condição social ou percurso de vida, são filhos de Deus e destinatários da Sua misericórdia. Ao longo do ano, as celebrações jubilares envolveram diversos grupos sociais e eclesiais, reforçando o lema “Peregrinos da Esperança”, mas o prelado alertou para desafios sérios na sociedade, como famílias fragilizadas por conflitos, irresponsabilidade parental e perda de valores, bem como o consumo de drogas entre adolescentes e jovens, descrito como um verdadeiro veneno que ameaça o futuro das crianças, desestrutura os lares e alimenta a violência, interpelando a Igreja em Moçambique a reforçar a sua presença, proximidade e acção pastoral junto das famílias e da juventude.


