O Direito de Resistência: Fundamentos, Importância e Aplicação Prática
Por: Aurélio Jumbe Nos dias que correm, é frequente muitas pessoas e autoridades, no nosso meio, praticarem acções que contrariam a lei, ferirem a dignidade da pessoa humana ou deixarem de o fazer conscientemente com a justificação de estarem a cumprir “ordens superiores”. Em face a estas situações, podemos questionar-nos sobre o que fazer e como reagir diante das “ordens/instruções superiores”. O artigo 80 da Constituição da República de Moçambique consagra o chamado direito de resistência, reconhecendo que toda pessoa tem o direito de não se submeter a ordens ou actos ilegais, arbitrários ou que violem os seus direitos enquanto pessoa. São as chamadas “ordens superiores” que em geral não têm uma justificação válida. Este direito não nasce do desejo de desobediência, mas da própria ideia de que a autoridade só é legítima quando actua dentro da lei e ao serviço do bem comum. Fundamento do direito de resistência O fundamento principal deste direito está na dignidade da pessoa humana. Antes de qualquer função, cargo ou posição social, cada indivíduo é uma pessoa com consciência, liberdade e responsabilidade. Nenhuma hierarquia, seja administrativa, política, social ou comunitária, pode anular o dever que cada ser humano tem de dizer “não” à injustiça, ao abuso e à violação da legalidade. Assim, o direito de resistência protege a pessoa contra a obediência cega e contra o uso arbitrário do poder. Assim, o direito de resistência funciona como um limite ao dever de obediência. Importância do direito de resistência O direito de resistência é importante porque protege as pessoas contra abusos de poder. Em palavras simples, ele significa que: i) Quando um governo ou autoridade age de forma injusta, violenta ou contra os direitos humanos, as pessoas têm o direito de não obedecer cegamente; ii) as leis existem para proteger o povo, e não para oprimir; iii) ajuda a manter a liberdade, a justiça e a democracia, pois impede que o poder seja usado sem limites; iv) ensina que os cidadãos não são passivos: eles podem questionar, protestar e se organizar de forma responsável para defender seus direitos. Assim, o direito de resistência garante que ninguém seja obrigado a aceitar injustiças e ajuda a construir uma sociedade mais justa e consciente. O que significa resistir, na prática? Resistir não é lutar com violência, nem criar confusão. Resistir é dizer “não” às injustiças; recusar participar em actos ilegais; proteger a própria consciência e os direitos dos outros bem como a dignidade humana. Porém, a resistência deve ser pacífica, consciente e responsável. Este direito serve como um escudo de protecção. Numa linguagem simples: “Ninguém pode mandar fazer o que é errado, mesmo que seja o seu chefe.” Isso vale para todos. O direito de resistência ajuda a combater subornos pedidos por agentes públicos, cobranças ilegais, discriminação em serviços públicos, abuso de autoridade por polícias ou fiscais, entre outros. Aliás, este direito ainda protege contra expulsão injusta de terras familiares, distribuição de benefícios apenas a amigos ou parentes, decisões injustas de líderes comunitários, exclusão no acesso à água, escola ou posto de saúde. Um líder comunitário tenta dar a machamba de uma família a outra pessoa sem explicação legal. A família pode resistir pacificamente e procurar apoio nas autoridades distritais. Para os funcionários e agente do Estado, o direito de resistência é também um dever profissional. Neste âmbito, em especial, o Estatuto dos Funcionários e Agentes do Estado, aprovado pela Lei n.º 4/2022, de 11 de Fevereiro, no seu art. 63/a deixa claro que o funcionário não deve cumprir ordens ilegais. Uma ordem é ilegal quando: viola a Constituição; vai contra a lei; vem de quem não tem poder para ordenar; ignora os procedimentos legais; tenta enganar ou esconder a verdade. Este direito garante a protecção contra o abuso de poder por parte de superiores como também de qualquer autoridade administrativa em relação à população em geral. Por exemplo, se um chefe manda um funcionário alterar um documento para beneficiar um parente ou a si mesmo, o funcionário pode e deve recusar, pedir a ordem por escrito e comunicar o caso ao chefe máximo ou à procuradoria. Em poucas palavras, o direito de resistência existe para equilibrar o poder com a consciência, proteger a pessoa humana contra a arbitrariedade e fortalecer o Estado de Direito. Resistir não é destruir, mas corrigir; não é desobedecer por orgulho, mas por consciência; não é criar o caos, mas ajudar a restaurar a justiça. Assim, o artigo 80 não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade: cada cidadão é chamado a ser guardião da legalidade, da dignidade humana e do bem comum. Dizer “não” ao que é errado é uma forma de dizer “sim” à justiça, à dignidade e ao bem comum.
Eis o Tempo Favorável: ainda é possível recomeçar
Com a imposição das cinzas, iniciamos a Quaresma, tempo de conversão, penitência e renovação espiritual. A Quaresma não pode ser reduzida a um mero exercício ritualista. Ela interpela a consciência pessoal e colectiva, exigindo uma fé encarnada na nossa realidade concreta. Num país como o nosso que persistem as desigualdades estruturais, fragilidade institucional, pobreza crónica e crises de valores, a Quaresma é um tempo ainda mais profundo e exigente para o povo moçambicano. Na realidade política, Moçambique vive tensões recorrentes ligadas à governação, à corrupção- ção, à exclusão social e à fragilidade da justiça. Nesse plano, a Quaresma interpela profundamente tanto os governantes quanto os governados. Converter-se não significa apenas rezar mais, mas romper com práticas que atentam contra a dignidade humana. Neste sentido, a Quaresma deveria ser tempo de exame de consciência sobre o uso dos recursos públicos, a manipulação das instituições e o silenciamento da voz dos pobres. O jejum quaresmal denuncia a “fome” causada pela má governação e desafia os líderes a jejuarem da corrupção, do autoritarismo e da indiferença. Para os cidadãos, a Quaresma interpela a passividade, o medo e a resignação. A conversão quaresmal exige uma cidadania activa, ética e responsável, que recuse normalizar a injustiça e a violência política. Assim, a fé cristã deixa de ser ópio e torna-se fermento de transformação social. O sentido do jejum quaresmal torna-se particularmente provocador num país onde grande parte da população já vive em jejum forçado devido à pobreza extrema, ao desemprego, ao aumento do custo de vida e às desigualdades regionais. O verdadeiro jejum quaresmal deve ser solidário e profético: jejuar do consumismo, da exploração económica, da acumulação egoísta e da indiferença face ao sofrimento alheio. A esmola quaresmal, por sua vez, não pode limitar-se a gestos assistencialistas. Ela deve ser ex-pressão de partilha justa, promoção da dignidade e questionamento das causas profundas da pobreza. No campo religioso, Moçambique assiste a um crescimento significativo de expressões religiosas, algumas marcadas por sincera busca de Deus, outras por discursos de prosperidade fácil, milagres imediatos e espiritualidade desvinculada da ética social. Neste cenário, a Quaresma impõe um sério discernimento. A verdadeira espiritualidade quaresmal não aliena o crente da realidade, mas compromete-o com ela. A oração, um dos pilares da Quaresma, não pode ser fuga dos problemas sociais, mas força interior para enfrentá-los com coragem e lucidez. Uma fé que não questiona a injustiça, que legitima o sofrimento como “vontade de Deus”, trai o sentido bíblico da conversão. A Quaresma chama também a Igreja a uma auto-crítica: até que ponto as comunidades cristãs são voz profética diante das injustiças. Até que ponto os líderes religiosos denunciam o pecado estrutural e não apenas os pecados individuais. (Coordenação VN)
Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo bíblico
Introdução Fevereiro é, em Moçambique, o mês dos heróis porque a 3 do mesmo mês celebra-se o dia nacional dos “Heróis”, uma ocasião para reflectir sobre os feitos daqueles que se empenharam na luta pela independência do país e para honra-los pela sua dedicação na construção da nação moçambicana. Este facto serviu de pretexto para a escolha do nosso tema deste mês: “Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo”. O que é um herói? Na conceção secular tradicional, herói é uma pessoa de coragem excecional, integridade moral e capacidade de sacrifício, motivada por ideais meramente humanos, sociais ou éticos. No Novo Testamento, verdadeiro herói é aquele que, através da fé, obediência à vontade de Deus, humildade, serviço e sacrifício segue Jesus e está disposto a enfrentar perseguição por causa do Evangelho. Jesus, o arquétipo e fonte do heroísmo bíblico O modelo bíblico de heroísmo, por excelência, é Jesus Cristo. Ele é também a fonte do heroísmo bíblico pois de si provêm todas as graças para que o indivíduo tenha a perfeição (cf. Mt 5,58; Jo 14,6; Hb 5,8-9). O exemplo mais eloquente de heroísmo que Jesus deu é o seu sacrifício supremo na cruz por amor incondicional (cf. Jo 3,16; Mt 20,28; Hb 10,10), entregando livremente sua vida (cf. Jo 10,18) para expiação dos pecados da humanidade, demonstrando humildade (cf. Mt 11,29; Jo 13,5; Fl 2,6-8), obediência (Mt 26,39; Jo 6,38; Jo 8,29; Fl 2,8) e serviço (cf. Mt 20,26-27; Mc 10,45; Lc 22,27; Jo 13,14-15). Nisso, o heroísmo de Jesus está em forte contraste com a conceção secular tradicional de heroísmo que valoriza a força, o poder e a glória humana. “O discípulo não é superior ao mestre…” Se Jesus é modelo e fonte de heroísmo, todo seu discípulo é chamado a ser um “herói” no sentido de viver uma vida de fé, superação e impacto, seguindo o modelo do Mestre, porque “o discípulo não é superior ao mestre, mas todo aquele que for bem instruído será como o seu mestre” (Mt 10,24). O estar com Jesus deve transformar radicalmente a pessoa e torna-la um agente de transformação, capaz de enfrentar desafios. Portanto, todo discípulo de Jesus é chamado a seguir o Mestre também no heroísmo, que se manifesta na renúncia total do próprio “eu” egocêntrico para se voltar a Deus, na tomada da própria cruz, isto é, aceitação das dificuldades, perseguições e sacrifícios que vêm com a fé cristã, e na obediência amorosa a Jesus, pondo em prática as suas obras com fé inabalável e serviço sacrificial (cf. Mt 16,24). Por isso, “Não temais” (Mt 10,26-33) Por isso, ao enviar os seus discípulos, Jesus os adverte de que as perseguições e incompreensões, que se traduzirão em sofrimento, gerando medo e angústia, são inevitáveis; entretanto, garante-lhes a contínua ajuda e protecção de Deus ao longo de todo o caminho, sinal da sua atenção e amor por eles; por isso, “não temais” (cf. Mt 10,26.28.31). Os discípulos de Jesus devem proclamar com coragem, com convicção, com coerência e com abertura, por palavras e por atitudes, evitando a cobardia e o comodismo, a mensagem libertadora do Mestre a fim de transformar o mundo, libertando a todos, homens e mulheres, de tudo aquilo que lhes rouba a vida e a felicidade: a opressão, o egoísmo, o sofrimento, o medo. O verdadeiro temor não deve ser de quem apenas pode matar o corpo, mas de Deus que pode destruir o corpo e a alma, fazendo perder a possibilidade de chegar à vida definitiva, um dom que Deus oferece àqueles que aceitaram pôr a própria vida ao serviço do Reino. Quem procura percorrer com fidelidade o caminho de Jesus não precisa viver angustiado pelo medo da morte pois Deus tem um cuidado especial por cada pessoa, como mostra a imagem dos passarinhos, insignificantes e indefesos, e a contagem dos cabelos. Há, portanto, que confiar absolutamente na solicitude, no cuidado e no amor de Deus e empenhar-se, sem medo, na missão. Conclusão Todo cristão é chamado a ser herói, isto é, à perfeição e à imitação de Cristo, onde a verdadeira bravura se manifesta na entrega total a Deus e ao próximo, sendo sal e luz do mundo, transformando-o com pequenas acções de bondade, justiça e coerência com o Evangelho, encontrando poder na fé para superar as limitações humanas e a própria morte. (Por: Pe. Marcos Mubango)
jan 26 2026
Não a paz, mas a espada?
Introdução No primeiro dia do ano, para coincidir com o ano novo e ser uma oportunidade simbólica para iniciar o ano com um apelo à promoção da paz universal e da dignidade humana, comemora-se o Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI, em 1967. Para o presente ano de 2026, em que se celebra o 59º Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV escolheu como tema: “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante’”. Trata-se de um convite à humanidade para rejeitar a violência e a guerra e promover uma paz autêntica, uma paz que não se baseia no medo, mas no amor e na justiça, e que é capaz de dissolver conflitos e gerar confiança. Entretanto, este propósito parece contrariar o de Jesus que, em S. Mateus, evangelista do presente ano litúrgico, afirma categoricamente: “Não penseis que eu vim trazer a paz à terra; eu não vim trazer a paz e sim a espada” (Mt 10,34-39). Como entender estas palavras de Jesus? Na nossa “Formação Bíblica” deste mês, vamos meditar sobre este texto para colhermos e vivermos o seu significado. 1. A “espada” de Cristo e a divisão (Mt 10,34-36) A espada que Jesus veio trazer é uma metáfora para a divisão que o Evangelho causa, separando quem o aceita de quem o rejeita, resultando em conflitos e desafios, inclusive familiares. Essa divisão, embora não sendo desejada por Jesus, é uma consequência necessária da decisão de seguir a verdade. A “paz” que Jesus trouxe não é a ausência de conflitos a qualquer custo, nem é o comodismo espiritual. A paz de Cristo é um estado de harmonia com Deus que pode coexistir com tribulações e perseguições no mundo. 2. Amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa (Mt 10,37) O amor por Deus deve ser o centro da vida. É preciso amar a Deus mais do que a qualquer outra coisa, inclusive a família. Quem ama pai, mãe, filho ou filha mais do que a Ele, não é digno d’Ele. Isso não diminui a importância da família. Devemos colocar Deus em primeiro lugar nas nossas vidas, acima de desejos, vontades, trabalho ou estudos. Se algo ou alguém nos afasta da comunhão com Deus, essa coisa ou pessoa está indevidamente no lugar de Deus. 3. Carregar a Cruz e Perder a Vida (Mt 10,38-39) Seguir Jesus implica tomar a própria cruz, o que significa ter disposição de sofrer perseguição, rejeição e outras adversidades por causa da fé, vivendo de acordo com a vontade de Deus em vez da própria. Não é apenas suportar as dificuldades da vida, mas, sobretudo, renunciar activamente à própria vontade, aos desejos egoístas e até mesmo à própria vida física por causa d’Ele. Quem procura conservar a sua vida física, apegando-se aos bens terrenos, confortos e segurança, perdê-la-á. Mas aquele que perde a sua vida física por causa de Jesus, renunciando a si mesmo e dedicando-se ao Seu serviço, encontrá-la-á, alcançando uma vida mais valiosa, a vida espiritual plena e eterna que se alcança ao viver para Cristo. Conclusão A aparente contradição entre as palavras de Jesus em Mt 10,34-39 é solucionada ao entender os diferentes tipos de “paz” a que Mateus se refere no seu evangelho: a paz verdadeira, que é a paz que vem de dentro, a paz testemunhada pelos pacificadores (Mt 5,9) e transmitida aos dignos (Mt 10,13) e a “paz” superficial, a paz do comodismo e da falta de compromisso. Esta última não é a paz que Jesus oferece. A paz que Jesus trouxe é a primeira, isto é, a paz que se conquista através de uma luta e compromisso com a verdade. A divisão causada pela “espada” é um passo necessário para se chegar essa paz verdadeira, usando as palavras do Papa Leão XI, uma paz “desarmada e desarmante”, construída na justiça e no amor, que não se fundamenta no medo ou na força das armas, mas na confiança e esperança.
𝗘𝗻𝗰𝗲𝗿𝗿𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗔𝗻𝗼 𝗝𝘂𝗯𝗶𝗹𝗮𝗿: 𝗔𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗮̀ 𝗘𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮 𝗲 𝗮𝗼 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗿𝗼𝗺𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗣𝗮𝘀𝘁𝗼𝗿𝗮𝗹 𝗲𝗺 𝗡𝗮𝗺𝗽𝘂𝗹𝗮
No encerramento do Ano Jubilar 2025, vivido como tempo de graça, reconciliação e renovação da fé, o arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saure, apelou a um balanço espiritual profundo, sublinhando que o Jubileu, celebrado num contexto marcado pelo Natal e pelo fim do ano, recordou que todos, sem distinção de profissão, condição social ou percurso de vida, são filhos de Deus e destinatários da Sua misericórdia. Ao longo do ano, as celebrações jubilares envolveram diversos grupos sociais e eclesiais, reforçando o lema “Peregrinos da Esperança”, mas o prelado alertou para desafios sérios na sociedade, como famílias fragilizadas por conflitos, irresponsabilidade parental e perda de valores, bem como o consumo de drogas entre adolescentes e jovens, descrito como um verdadeiro veneno que ameaça o futuro das crianças, desestrutura os lares e alimenta a violência, interpelando a Igreja em Moçambique a reforçar a sua presença, proximidade e acção pastoral junto das famílias e da juventude.
Mais dois Sacerdotes na Arquidiocese de Nampula
Os Padres Jeremias José da congregação São João Baptista e Xavier Ligório, do clero diocesano, foram ordenados no domingo, 25 de Junho. Com a ordenação desses dois sacerdotes, a arquidiocese de Nampula passa a contar com 50 Sacerdotes, sendo 45 padres diocesanos e 5 da congregação São João Baptista. Os dois novos sacerdotes foram ordenados por Dom Inácio Saure, Arcebispo de Nampula, o qual recordou que aquele que entra nessa missão, não pode nem deve ser orgulhoso e tem a obrigação de cumprir integralmente aquilo que disse na sua consagração, que se resume no bem servir o povo de Deus e fazer chegar a sua palavra a toda a humanidade. “Devem ser coerentes e testemunhos fieis de Deus perante o povo, através do vosso modo de viver e em todas as vossas actividades.” – orientou Dom Inácio, apelando para que “procurem guiar os fieis num único caminho que conduz a Cristo sem os deixar perderem-se”. Recordou que tudo que esteja escondido virá a descoberta. Numa clara alusão de que os padres, devem dar sempre um bom exemplo, para que o seu sacerdócio não seja desacreditado. “Jesus Cristo nos adverte: Não há nada que esteja coberto que não venha descobrir-se nem oculto que não venha conhecer-se”.- disse Dom Inácio, recordando que teria falado isso noutras homilias, mas que infelizmente sabe que ainda há problemas, mas, referiu, “o povo de Deus acabará sabendo tudo, por isso sejam pessoas de uma oração pessoal e intensa com a qual vos alimenteis espiritualmente e organizar belas celebrações com os fieis, que poderão ser de bom proveito para o povo de Deus mas não para vós mesmos, porque a ser assim serão teatros a baixo custo sem nenhum efeito espiritual sobre as vossas vidas”. Naquela homilia, o Arcebispo de Nampula lembrou que o povo quer ver Deus nos seus servos, numa altura em que o número de Padres continua insuficiente, olhando pelo povo que precisa de ser alimentado com a palavra de Deus. A igreja precisa de sacerdotes de qualidade e não em quantidade “Vocês querem ter padres sem qualidade?” – questionou Dom Inácio, que dirigindo-se aos fieis e familiares dos dois novos Padres, pediu apoio incondicional como forma de eles conseguirem fazer o trabalho de Deus sem correrem o risco de caírem em tentação. “Não tenhais medo de vos aproximardes deles, para lhes dizer uma palavra de encorajamento quando eles estão no bom caminho mas também de correção fraterna quando se enganarem”. – Advertiu, pedindo atenção dos familiares, no sentido de as suas casas não servirem de esconderijos de filhos feitos as escondidas, pois, disse, “para quem a vida sacerdotal não serve, deve ir para outra vida, porque ninguém é obrigado a ser sacerdote para toda a vida”. “Não queremos ouvir aquilo que se diz por aí: –Ah, os padres de hoje não prestam”. – disse Dom Inácio pedindo para que todos os fieis orem para os sacerdotes, sem os caluniar. Sejam promotores da paz que continua a ser um bicho de 7 cabeças Através de várias mensagens apresentadas na ocasião, as comunidades assumiram o compromisso de dar o seu apoio aos novos sacerdotes, para que sejam, na verdade, promotores da paz, que continua a ser muito necessária, numa altura em que a província de Cabo Delgado está a sofrer ações terroristas. A Mensagem do Clero Diocesano, por exemplo, apresentada pelo respetivo Secretário, Padre Serafim Muacua, refere que a ordenação dos dois padres, representa um presente que Deus concede ao povo de Nampula, numa altura em que o país, celebrava a sua independência. Dirigimo-nos a vos irmãos em cristo para desejar as nossas notas de boas vindas no ministério sacerdotal e de modo particular ao Padre Xavier Ligório do clero diocesano de Nampula, um clero que apesar dos vários desafios da vida busca viver e se manter na alegria do evangelho, no empenho pastoral com vista a salvação das almas do rebanho que lhe foi confiado”. – lê-se na mensagem, a qual sublinha que “em virtude da vossa ordenação, senhores padres, o espirito do senhor está sobre voz, porque vos ungiu para pregar o evangelho aos pobres”. “Ele vos enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação de vista aos cegos, para restituir a liberdade aos oprimidos”. – sublinha ainda a mensagem, destacando que “proclamar a libertação dos aprisionados, a recuperação a vista aos cegos e restituir a liberdade aos oprimidos no mundo, sobre tudo no país em que estamos, continua sendo um bicho de sete cabeças”. Recordando a mensagem de Jesus, segundo a qual “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”, os padres diocesanos apontam que “por a paz ser um bem necessário, os novos Sacerdotes não podem pensar que seja um trabalho fácil semear a paz através do evangelho, quando ainda aqueles que simulam ser promotores dela, apenas se limitam a cantar – “Paz, paz, paz, paz, com mãos erguidas para o céu, mas com os pés pisando os outros”. O Sacerdote Diocesano Xavier Ligório foi ordenado com o lema: – “Eis-me aqui, senhor, envia-me a mim”. Enquanto que o Padre Jeremias José, da congregação São João Baptista escolheu o lema –“ Como retribuirei ao senhor por tudo que ele me deu, elevarei o cálice da salvação invocando o nome do senhor”. Padre Xavier Ligório nasceu no distrito de Moma em 1992 e o padre Jeremias José, nasceu em 1983 no distrito de Pebane, na Província de Zambézia. Por Elísio João
jun 13 2023
Sacramento da Eucaristia é o Centro da fé cristã
A Vida da Igreja católica continua a ser resumida na eucaristia. Essa realidade foi recordada pelo Padre Isac Jacinto Velica, durante a celebração eucarística no último domingo, 11/06, no infantário- Aldeia Esperança, de Momola. Padre Isac observou que “a melhor maneira de o cristão católico participar na ceia do senhor, é recebendo o maior sacramento da eucaristia, que é o resumo de todos os sacramentos”. “Hoje celebramos a festa do corpo e Sangue do nosso Senhor Jesus Cristo, um grande mistério e símbolo da nossa fé.” – recordou o prelado, sublinhando que por meio do corpo e sangue de Jesus Cristo, o cristão comtempla o grande sacramento que é o cume de todos os sacramentos. “A vida pascal, quaresmal e quase toda a vida da igreja, pode estar resumida no sacramento da eucaristia, e, por isso, Ela tem muitos significados”. Anotou, lembrando que a vida do cristão deve se resumir no amor, porque Jesus disse “amai ao próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas”. Nessa homilia, o Padre Isac destacou a necessidade de os cristãos expandirem o amor para o mundo, respeitando a natureza e ao seu irmão segundo as escrituras, o que suscita a paz e tranquilidade no mundo. Hoje o nosso mundo está a ir cada vez mais a abaixo por falta de amor com a natureza, e para com o nosso irmão. – lamentou, implorando que “o nosso amor, deve ser aquele que contemplamos no rosto do nosso senhor Jesus Cristo, que suscita a paz e tranquilidade para todos”. Esta celebração eucarística, aconteceu a margem de uma visita efectuada pelos Peregrinos do Papa Francisco ao Infantário – Aldeia Esperança de Momola. Por Elísio João
jun 10 2023
Síntese do Simpósio de ‘’Diálogo com Lideranças Religiosas’’ Anchilo Junho 2023
O Grupo de Reflexão sobre o Diálogo Intercultural e Inter-religioso de Nampula, realizou nos dias 6-7-8 de Junho 2023, em colaboração com o Centro Sócio-Pastoral São Paulo VI de Anchilo, da Igreja Católica, a Comissão Arquidiocesana para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, a Plataforma dos Clubes de Paz de Nampula, (Conselho Islâmico de Moçambique – CISLAMO e Conselho Cristão de Moçambique – CCM), em pareceria com o Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), um simpósio sobre o tema: “Diálogo com lideranças religiosas”. A seguir vai a síntese dos trabalhos realizados: O pressuposto para uma coexistência respeitosa e pacífica entre confissões religiosas num determinado País, é que o Estado seja laico. O Estado é chamado a garantir que o espaço público pertença a todos, e que nenhum indivíduo possa impor suas crenças e convicções sobre outros. Nasce então uma sociedade que sabe conviver na diversidade, tendo o Estado como garante desse direito. A laicidade do Estado permite que haja sintonia entre todas as crenças, sem restrições, porém dentro dos limites indicados pela legislação do País. O Estado moçambicano encoraja a presença de diferentes confissões religiosas e garante a todas o respeito pelos mesmos direitos e deveres. O Estado não deve interferir nas atividades das várias religiões, mas vigiar pelo cumprimento das prerrogativas legais vigentes, por parte das religiões, para que elas actuem respeitando a lei do País. A presença das lideranças religiosas nos âmbitos institucionais não é má em si mesma, desde que o sistema não desacredite o nome da religião de pertença, forçando aquele líder a adoptar comportamentos inadequados e contrários aos valores promovidos pela sua religião. É necessário velar para que a religião não seja utilizada para fins políticos ou partidários, pois, a laicidade não deve significar o abandono pelo Estado das instituições religiosas, mas sim um ponto de convergência das diferentes tradições religiosas. Assim, evitar-se-á o uso e abuso do fenómeno religioso, como está acontecendo em várias regiões do País, como é o caso de Cabo Delgado. Para que a sociedade possa conviver com as suas diferenças, é necessário cultivar um certo consenso em torno de determinados valores, proporcionando o que é definido como o mínimo ético. Isso pressupõe a procura daquilo que é justo, do correto e do bom. A justiça deve estar sempre na base do mínimo ético. Uma justiça que procure “costurar” as divisões e as diferenças para que sobressaia o bem comum, para que se enalteça a paz e a harmonia com todos os seres viventes. A vivência comum implica a ideia de que ninguém está sozinho, mas cada um deve algo a um Outro: Deus, os Antepassados, a Comunidade, a Família. Os princípios éticos, só poderão ajudar a reestabelecer a moral e a justiça se descerem do nível da mente para o nível do coração. Isto significa que o mínimo ético deve ser visto e assumido como uma consciência de cidadania e pluralismo cultural e religioso. Acrescenta-se ainda que para atingir os pressupostos do mínimo ético e de um adequado diálogo inter-religioso, é necessário renunciar ao proselitismo e cultivar os valores da amizade e da fraternidade comum. Em tudo isto, o ponto de partida para uma convivência pacífica é o conhecimento dos fundamentos religiosos das várias crenças, como por exemplo do cristianismo e do Islão. O cristianismo nasce do seguimento de Jesus de Nazaré, e se desenvolve como continuação da sua missão para com toda a humanidade. O Islão tem também a consciência de ter uma missão religiosa na história, a de proclamar a unidade e unicidade de Deus a toda a humanidade. Sendo Deus o Criador, o ser humano é chamado a cumprir com a Sua vontade, em todas as esferas da vida pública e privada. O Islão e o cristianismo partilham valores comuns: o mandamento do amor a Deus e ao próximo; a caridade sem fronteiras; a misericórdia; a fraternidade universal; o testemunho de vida; a centralidade da pessoa humana; o perdão e a reconciliação; a missão de anunciar a mensagem contida nos Livros Sagrados e na tradição profética, a justiça e a paz. A partir da vivência destes princípios, é possível chegar a uma convivência baseada no respeito recíproco, cultivando aquilo que é comum a todos. Não há convivência inter-religiosa sem diálogo inter-religioso. Para chegar a um diálogo inter-religioso é necessário assumir a condição de uma sociedade diversa na sua cultura e na religião. O ser religioso num mundo globalizado deve ter uma visão adequada da sua religião e de outras comunidades, com uma consciência positiva da diversidade. Cada comunidade deve estar ciente da existência do seu próprio grupo e de outros grupos, com todas as diferenças que isso comporta. Tal convivência inter-religiosa tem as suas fraquezas e as suas oportunidades também. Entre as fraquezas, sobressaem as seguintes: a exclusão ou autoexclusão de certos grupos da participação na vida social e religiosa, isso devido a certos complexos de inferioridade ou superioridade; o crescimento do radicalismo ou extremismo religioso; a ignorância em relação aos fundamentos religiosos próprios ou de outros; a manipulação política e ideológica do fenómeno religioso, seja a nível local, nacional ou global. Há também oportunidades, como por exemplo: o crescimento em qualidade e quantidade da liderança religiosa com conhecimento teológico; a história de interação multicultural e multirreligiosa da sociedade moçambicana; a partilha dos princípios de paz, igualdade, generosidade, solidariedade, em todas as religiões; os vários espaços de intercâmbio de conhecimento religioso abertos a todos, como é o caso dos Simpósios promovidos pelo Centro Sócio-Pastoral São Paulo VI de Anchilo – Nampula; o projecto do curso de formação e investigação em Ciências da Religião da Universidade Rovuma em Nampula; a vontade expressa por toda a comunidade em desenvolver um ambiente de paz e igualdade entre os seres humanos. Porém, para dar mais um passo em frente no caminho da convivialidade das diferenças, é importante verificar qual é a influência de valores religiosos numa sociedade multicultural, multiétnica e multirreligiosa. O ponto de partida é a consideração do conhecimento da outra religião como uma oportunidade para viver melhor
jun 05 2023
Simpósio: “Diálogo com lideranças religiosas” – Anchilo 6-7-8 de junho 2023
O Grupo de Reflexão sobre o Diálogo Intercultural e Inter-religioso de Nampula, vai realizar, em colaboração com o Centro Sócio-Pastoral São Paulo VI de Anchilo, da Igreja Católica, a Comissão Arquidiocesana para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, a Plataforma dos Clubes de Paz de Nampula, (Conselho Islâmico de Moçambique – CISLAMO e Conselho Cristão de Moçambique – CCM), em pareceria com o Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), um simpósio sobre o tema: “Diálogo com lideranças religiosas”. O objectivo do Simpósio é continuar o caminho iniciado há alguns anos em Nampula, entre as várias confissões religiosas, para promover o diálogo intercultural e inter-religioso como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério para defender e consolidar a paz, a justiça, a dignidade humana e o cuidado do ambiente. O evento decorrerá nos dias 6-7-8 de Junho 2023, no Centro Sócio-Pastoral São Paulo VI de Anchilo. abaixa o programa do simpósio Simpósio Nampula 2023_230605_143500
maio 31 2023
Missionários Beneditinos terão primeiro mosteiro em território Moçambicano
O Arcebispo de Nampula Dom Inácio Saure procedeu, na terça feira, 30/05, ao lançamento da primeira pedra, para o arranque das obras de construção do primeiro Mosteiro dos Missionários Beneditinos neste solo pátrio. O primeiro mosteiro dos Beneditinos a nível Nacional, será construído numa área de cerca de 4 quilómetros quadrados, na Localidade de Mecua, Posto Administrativo de Corrane, distrito de Meconta. O espaço vai servir para construção de Uma Escola profissional, Unidade Sanitária, e outras infraestruturas de carril religioso, uma vez que os Beneditinos apostam, principalmente, nessas áreas. O superior dos Missionários Beneditinos em Moçambique, Padre Deivis Josef Massão, fez saber que a intenção é apostar na evangelização, educação e Saúde, com o lema “Oração e trabalho”. “Somos Beneditinos missionários de Santa Otília, o nosso mosteiro está localizado na Tanzânia e somos obrigados a observar o lema principal, que é ‘oração e trabalho’. – disse o superior, anotando que, ‘por sermos missionários, somos diferentes de outros Beneditinos, pois isso nos acrescenta outra aza, com a qual temos que voar.” “O nosso principal foco em Moçambique, é servir o povo de Deus, nas áreas de Evangelização, Saúde e educação. Acreditamos que podemos implementar essas tarefas.” – lê-se na mensagem, na qual referem que a partir dessas perspetivas, os missionários Beneditinos estão ansiosos em construir um hospital de qualidade e de nível regional, Centro de educação vocacional, Escola primária, e, no futuro, uma escola para o ensino médio. O Arcebispo de Nampula agradeceu a iniciativa dos Beneditinos, porque, segundo observou, a congregação é de origem Tanzaniana, mas que preferiu construir o seu mosteiro na Arquidiocese de Nampula, o que poderá ajudar em grande medida, na formação dos fieis desta. “Quero, na verdade, dar graças a Deus, por esta presença que está a começar aqui na nossa Arquidiocese de Nampula dos Monges Beneditinos, que por serem missionários, tiveram azas e voaram ate aqui, o que é muito bom para nos.” – disse Dom Inácio, destacando que “as três áreas de acção dos missionários Beneditinos são muito importantes para o povo de Nampula e filhos de Deus, por se tratar de um povo muito religioso, apesar da diversificação de crenças.” Pediu a comunidade local para que receba esses missionários de mãos dadas, porque, segundo avançou, “eles vêm para nos evangelizar, cuidar-nos na saúde e nos potenciar na educação, sendo esse o motivo para eu olhar a presença deles aqui, com esperança e confiança.” A liderança comunitária local, também olha a iniciativa dos Missionários Beneditinos com muita espectativa, uma vez que os jovens locais precisam de oportunidades de emprego. ‘Recebemos com muita alegria esta iniciativa dos missionários, porque essas actividades vão decorrer aqui no regulado de Mecua, onde a população carece de muitas necessidades.”- confidenciou o líder de primeiro escalão Carlos Victorino, que promete mobilizar a população para colaborar na implementação das actividades. O governo local, na pessoa da Chefe da Localidade de Mecua, Olga Ussene, deixou apelos no sentido de a comunidade assumir o empreendimento com responsabilidade, olhando como da sua pertença. “Não gostaríamos de ouvir que há desvio de materiais de construção nem sabotagem, porque tudo que for construído aqui, vai beneficiar a população desta localidade”. – Advertiu, destacando que com uma escola de artes e ofícios, os jovens daquela localidade poderão ser formados em diferentes áreas e criarem o seu auto emprego. O primeiro edifício, a ser erguido no espaço, poderá ser concluído nos próximos 10 meses, segundo garantia do representante do empreiteiro. A localidade de Mecua, com 20.445 habitantes, ainda debate-se com a falta de infraestruturas escolares melhoradas e unidades sanitárias, o que preocupa a população local, dai que olha na instalação do mosteiro, como o principio do fim de uma parte do sofrimento. Informações colhidas no local indicam que num futuro breve, a localidade de Mecua poderá ser iluminada com a energia elétrica da rede nacional. Por Elísio João


