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out 30 2026

A FORÇA DA PARTICIPAÇÃO DOS PAIS E LÍDERES LOCAIS

Valentina Atthumpuha À medida que o ano lectivo avança para a sua fase final, torna-se cada vez mais evidente que a educação não é responsabilidade exclusiva da escola. Pais, encarregados de educação, líderes comunitários, grupos religiosos, associações locais e até vizinhos desempenham um papel decisivo no desenvolvimento das crianças. A escola ensina conteúdos, mas é na relação com a comunidade que o aluno encontra apoio, exemplo, orientação e motivação para continuar o seu percurso académico. Em Moçambique, onde muitas localidades dependem fortemente da solidariedade entre famílias, a ligação entre escola e comunidade torna-se ainda mais essencial. Turmas numerosas, falta de materiais, longas distâncias e outros desafios podem ser suavizados quando existe envolvimento comunitário activo. A força colectiva transforma não só a escola, mas o próprio ambiente social. A escola não trabalha sozinha Tradicionalmente, muitos pais acreditam que a responsabilidade pela educação pertence apenas ao professor. No entanto, a experiência mostra que os alunos que recebem acompanhamento familiar têm maior rendimento, menos faltas e melhor comportamento. A presença dos pais, mesmo simples e discreta, transmite segurança à criança e mostra que o estudo é valorizado em casa. O envolvimento familiar não se limita a reuniões escolares. Pode manifestar-se em pequenos gestos diários: perguntar como correu o dia, ajudar com tarefas, verificar cadernos, estimular a leitura, incentivar a pontualidade e mostrar interesse pelas actividades escolares. Cada gesto comunica ao aluno que o seu esforço é importante. O papel dos líderes comunitários Os líderes tradicionais e comunitários exercem grande influência sobre comportamentos e valores. Quando estes líderes apoiam a educação, desencorajam casamentos prematuros, defendem a permanência das raparigas na escola e promovem acções comunitárias, toda a comunidade avança. Há localidades onde líderes reúnem famílias para alertar sobre a necessidade do estudo, colaboram na prevenção de violência escolar e incentivam iniciativas como campanhas de limpeza, protecção de infra-estruturas e construção de salas improvisadas. Estas acções fortalecem o sentido de pertença e responsabilidade colectiva. Escolas que acolhem e valorizam a comunidade A relação entre escola e comunidade deve ser construída com base em diálogo e respeito. Uma escola que ouve os pais, que compreende as suas preocupações e que valoriza os saberes locais torna-se mais próxima e mais forte. Para isso, algumas práticas são de grande utilidade: Organizar encontros; criar espaços de escuta; convidar a comunidade; promover acções abertas; envolver associações. Quando uma escola se abre à comunidade, deixa de ser apenas um edifício e transforma-se num ponto de encontro e aprendizagem colectiva. A importância do exemplo em casa e na comunidade As crianças aprendem muito mais pela observação do que pelas palavras. Quando vêem os pais respeitarem professores, participarem de encontros, valorizarem o estudo e manterem um diálogo saudável, tendem a imitar essas atitudes. O mesmo ocorre em relação ao comportamento dos líderes locais: quando promovem a paz, o respeito e a responsabilidade, tornam-se modelos positivos para os jovens. Pelo contrário, quando a comunidade transmite mensagens negativas, insultos a professores, descanso exagerado, violência doméstica, discriminação ou desvalorização da escola, o aluno sente que o estudo não tem importância real. O exemplo é a primeira forma de educação. Parcerias que transformam a vida escolar Escolas que trabalham em parceria com organizações locais, igrejas, associações juvenis e grupos de mulheres conseguem avançar muito mais rapidamente na resolução de desafios. Estas parcerias podem resultar em: Campanhas de solidariedade; hortas escolares; apoio alimentar; melhoramento de infra-estruturas; programas de protecção; dinamização cultural; incentivo à inclusão. Mesmo pequenas contribuições, quando reunidas, fazem uma grande diferença. A responsabilidade compartilhada na educação das raparigas A comunidade tem um papel crucial na permanência das raparigas na escola. São os pais, líderes, vizinhos e avós que podem protegê-las contra pressões para abandonar os estudos, casamentos prematuros ou trabalhos domésticos que impedem o rendimento escolar. Quando a comunidade compreende que a educação das raparigas beneficia toda a sociedade, torna-se guardiã do seu direito de aprender. A participação da comunidade também reforça a segurança das raparigas no caminho da escola, reduzindo riscos de assédio ou violência. Construção de confiança entre escola e família Para que exista uma colaboração eficaz, é necessário que a escola conquiste a confiança dos pais. Muitos pais sentem receio de visitar a escola; outros acreditam que não têm educação suficiente para contribuir. É importante que a escola acolha estas famílias com respeito, sem julgamentos, valorizando os conhecimentos que elas trazem, sejam eles agrícolas, culturais, artesanais ou tradicionais. Todos têm algo a ensinar; todos têm algo a aprender. A educação é um caminho que nenhum actor percorre sozinho. E quando caminhamos juntos, a distância torna-se menor e o futuro mais promissor.

out 22 2026

A Educação em Moçambique e os desafios do Professor Católico

Por: Judite Comia e Luciano Bartolomeu Panela A educação desempenha um papel crucial na formação dos indivíduos e na construção das sociedades. É uma das ferramentas mais poderosas para o desenvolvimento pessoal e o progresso social. Sociedades bem-sucedidas e desenvolvidas estão geralmente associadas a sistemas de educação sólidos e eficientes, capazes de proporcionar uma instrução consistente e que reflecte os valores morais e éticos, bem como as aspirações das suas populações. Por esta razão, é de todo legítimo considerar a educação como a base do desenvolvimento e do progresso equilibrado de uma nação. Volvidos cinquenta anos da sua independência, Moçambique tem vindo a registar progressos assinaláveis no campo da educação, principalmente no que diz respeito ao acesso ao ensino, fruto dos esforços empreendidos pelo Governo para o alargamento da rede escolar, tanto nas zonas urbanas e periurbanas como nas zonas rurais. Paralelamente, reformas curriculares têm sido introduzidas no sistema educativo, com vista a adequá-lo às condições sociais e económicas do país e a ajustá-lo às novas exigências nacionais, regionais e internacionais, com destaque para a inclusão, a equidade e a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino e à formação. Não obstante este progresso significativo, a educação em Moçambique enfrenta inúmeros desafios estruturais, com destaque para os seguintes pontos: Baixos níveis de aproveitamento escolar: Muitos alunos revelam um baixo desempenho escolar, frequentemente associado ao fraco desenvolvimento das competências básicas de leitura e escrita, como tem sido apontado em vários estudos sobre a qualidade da educação em Moçambique. A este respeito, vale lembrar que a leitura e a escrita são habilidades fundamentais para o sucesso escolar. No entanto, um número significativo de alunos termina os ciclos escolares com dificuldades notórias, impactando as etapas subsequentes do percurso escolar, incluindo a universitária. Limitações de infra-estruturas e meios: Embora tenha crescido o número de escolas no país, muitas delas ressentem-se da falta de salas de aula condignas. Muitos alunos ainda estudam em espaços improvisados debaixo de árvores, sem carteiras nem bancos, tornando a aprendizagem limitada e penosa. Nalguns casos, falta até o quadro-preto, elemento essencial numa sala de aula. As bibliotecas escolares são um luxo e um privilégio reservado a pouquíssimas instituições. Elevado ratio professor-aluno: Os professores lidam com turmas duas ou três vezes mais numerosas do que o ideal, tornando o acompanhamento individualizado dos estudantes um exercício quase impossível. Corrupção e conduta irresponsável de alguns professores: O mal da corrupção que se instalou no país não exclui o sector da educação. Não são raros os casos em que professores e professoras se envolvem em actos de corrupção e assédio sexual em troca de notas para a passagem de classe. Aliás, tornou-se prática em muitas escolas que cada aluno tenha um “padrinho”, isto é, um docente que, em troca de dinheiro ou por afinidade, se encarrega de gerir “casos” nas avaliações ou nos conselhos de notas. Nisto, não importa o desempenho do aluno na sala de aula: o que conta é “quanto tem”. Desolador ainda é saber que alguns pais e encarregados de educação têm sido mentores ou, no mínimo, cúmplices dessa prática de apadrinhamento. Hoje, parece não haver grande preocupação por parte do aluno em adquirir conhecimentos, mas sim em obter o certificado. Por outro lado, o professor também parece não estar preocupado em transmitir saberes ou incutir valores, mas apenas em manter o seu emprego e garantir o salário. Consumo de álcool e drogas nas escolas: Se o consumo de bebidas alcoólicas por parte dos alunos já constituía uma grande preocupação, nos últimos dias o problema agravou-se com o alastramento de casos de circulação e consumo de estupefacientes por jovens e adolescentes, mesmo nos recintos escolares. Estes fenómenos geram comportamentos desviantes com repercussões nefastas tanto no ambiente escolar como nas comunidades. Os casos de “maakha” que têm sido reportados em várias escolas da cidade de Nampula, e que têm resultado em situações de agressões físicas e até de mortes, são disso exemplo. Estas e outras situações concorrem para a degradação do ensino e da aprendizagem, tornando a educação em Moçambique alvo de incessantes questionamentos. Diante deste cenário nebuloso e desolador, o professor católico não deve ficar indiferente. Pelo contrário, ele é chamado a assumir o protagonismo e a imprimir uma diferença positiva no seu local de trabalho, dando o melhor de si com vista a contribuir para a reversão da situação. Com efeito, os vários desafios que caracterizam o cenário actual da educação em Moçambique constituem uma ocasião para o professor católico dar prova da sua vocação, da sua missão e do seu compromisso, que é formar integralmente crianças, adolescentes e jovens. Deve dotá-los não só de conhecimentos científicos, como também de valores humanos (amor, respeito, tolerância), de modo a que se tornem cidadãos responsáveis, conscientes dos seus direitos e deveres, e capazes de contribuir para a construção de uma sociedade mais coesa e harmoniosa. Isto exige dele a adopção de uma postura firme e irrepreensível, abstendo-se de todas as práticas e comportamentos que não abonam a sua missão enquanto professor e educador, chamado a ser sal da terra e luz do mundo, conforme refere o Evangelho de São Mateus 5,13-16.

ago 24 2026

A CATEQUESE E A COMUNICAÇÃO DA FÉ NO MUNDO DIGITAL

Pe Cantífula de Castro No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé.   A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. Portanto, este tema desafia os catequistas a integrar a tecnologia na missão evangelizadora, mantendo a essência do Evangelho e alcançando as pessoas onde elas se encontram hoje: no mundo digital. Com discernimento, criatividade e autenticidade, é possível transformar os desafios tecnológicos em oportunidades para crescer na fé e formar discípulos conscientes e comprometidos. No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé. A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. “Esta transformação histórica exige responsabilidade e discernimento para garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada para o bem comum, construindo pontes de diálogo e promovendo a fraternidade, e assegurando que ela sirva os interesses da humanidade como um todo.”. Papa Leão XIV

ago 20 2026

Educação e Saúde Mental

Por: Valentina Atthumpuha O mês de Agosto, marcado por pausas escolares, convivência familiar mais intensa e reflexões sobre o andamento do ano lectivo, é também um momento oportuno para olhar com atenção para um tema muitas vezes silenciado: a saúde mental das crianças e dos adolescentes. Em Moçambique, assim como em muitos outros países, cresce a preocupação com o bem-estar emocional dos mais jovens, cuja rotina escolar, desafios sociais, pressões familiares e influências tecnológicas podem gerar ansiedade, insegurança e sofrimento. Falar de saúde mental não é falar de “fraqueza”, nem de problemas exclusivos de adultos. Trata-se de reconhecer que todas as pessoas, em qualquer idade, precisam de apoio emocional, compreensão e orientação para lidar com dificuldades.   O que está a acontecer com os nossos jovens? A realidade mostra sinais preocupantes. Nas escolas, aumentam relatos de conflitos entre alunos, agressões, isolamento, choro fácil, dificuldades de concentração e desmotivação. Muitos estudantes enfrentam perdas familiares, deslocações internas, pobreza, insegurança nas comunidades, além das pressões naturais da idade: mudanças físicas, comparações sociais, dúvidas sobre o futuro e incertezas académicas. A tecnologia, embora útil, trouxe consigo novos desafios. O tempo excessivo no telemóvel, a comparação constante com vidas “perfeitas” nas redes sociais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados podem gerar ansiedade, baixa auto-estima e até dependência digital. É um mundo atractivo, mas que exige maturidade emocional para ser usado com segurança.   Sinais que não devem ser ignorados Nem sempre as crianças e os adolescentes conseguem explicar o que sentem. Muitas vezes expressam sofrimento através de comportamentos. Entre os sinais que merecem atenção destacam-se: a) Isolamento ou recusa em participar de actividades; b) Irritabilidade constante ou explosões de raiva; c) Tristeza prolongada e choro sem explicação clara; d) Queda brusca no rendimento escolar; e) Queixas frequentes de dores sem causa médica clara; f) Falta de energia ou desinteresse por coisas de que antes gostavam; g) Medo de ir à escola ou de enfrentar colegas; h) Mudanças nos hábitos de sono ou alimentação. Estes comportamentos podem ter diferentes causas e não significam necessariamente uma doença, mas indicam que algo não vai bem. O importante é que adultos responsáveis estejam atentos e disponíveis para conversar.   A escola como espaço de apoio e protecção A escola não é apenas um lugar de aprendizagem académica. É também um espaço de convivência humana, onde se constroem amizades, se desenvolve identidade e se criam referências afectivas importantes. Por isso, tem grande impacto no bem-estar emocional das crianças. Um ambiente escolar positivo, em que os alunos se sintam valorizados e respeitados, reduz significativamente conflitos e ansiedade. Professores atentos podem identificar mudanças de comportamento e encaminhar para apoio adequado. Pequenas práticas fazem grande diferença: Saudar cada aluno com cordialidade; incentivar a participação sem pressão; evitar humilhações públicas; organizar actividades que promovam cooperação; criar momentos de escuta activa; reforçar a confiança nos alunos que têm dificuldades. Quando a escola transmite segurança e acolhimento, o aluno sente-se mais forte para enfrentar desafios.   O papel da família no cuidado emocional A família é o primeiro espaço de protecção. Um lar onde as crianças podem falar livremente, ser ouvidas e respeitadas fortalece a saúde mental. Contudo, muitas famílias enfrentam dificuldades económicas, relações tensas ou rotinas pesadas, o que pode limitar o tempo e a paciência para lidar com questões emocionais. Não é necessário perfeição, mas sim presença. Algumas atitudes simples ajudam muito: i) Conversar diariamente, nem que seja por alguns minutos; ii) Perguntar como correu o dia, sem julgamentos; iii) Evitar comparar os filhos entre si ou com outras crianças; iv) Valorizar pequenos progressos e não apenas notas; v) Oferecer carinho e atenção mesmo diante de conflito. As crianças que se sentem amadas e compreendidas ganham maior confiança para enfrentar problemas.   A importância de falar sobre sentimentos Muitas vezes, ensinar matemática, leitura ou ciências é considerado prioridade, enquanto educar emoções fica para segundo plano. No entanto, crianças que conseguem identificar e expressar sentimentos são mais capazes de resolver conflitos e gerir frustrações. A escola e a família podem incentivar momentos de partilha emocional: 1) Perguntar o que o aluno ou filho está a sentir; 2) Usar actividades de grupo para trabalhar empatia; 3) Ensinar que sentir tristeza, medo ou raiva não é errado; 4) Mostrar como resolver problemas com diálogo. Quando se normaliza a conversa sobre emoções, reduz-se o estigma e facilita-se o pedido de ajuda.   Estratégias simples para fortalecer a saúde mental Mesmo em contextos com poucos recursos, existem práticas acessíveis que podem ajudar: a) Caminhadas e actividades ao ar livre; b) Jogos e brincadeiras que estimulem socialização; c) Horários de descanso adequados; d) Redução do uso de telemóveis antes de dormir; e) Leitura e actividades artísticas;f) Rotinas equilibradas de estudo e lazer. O equilíbrio entre o corpo e a mente é essencial para o desenvolvimento saudável.   Quando procurar ajuda especializada Há momentos em que o apoio familiar e escolar não é suficiente. Quando o sofrimento se prolonga por semanas, afecta as actividades diárias ou envolve risco para a segurança da criança, é importante procurar ajuda de profissionais da psicologia ou da saúde mental. Quanto mais cedo for a intervenção, maiores são as chances de recuperação. Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. E todos: família, escola, comunidade e sociedade, têm um papel insubstituível nesta missão.

jul 20 2026

Igualdade de Género nas Escolas

Por: Valentina Atthumpuha No contexto moçambicano, onde persistem desigualdades ligadas ao género, torna-se essencial compreender como estas diferenças afectam o percurso educativo das crianças e dos jovens. A escola deveria ser o lugar onde todos têm oportunidades iguais para crescer, aprender e sonhar. Contudo, muitas raparigas e rapazes continuam a enfrentar obstáculos que limitam o seu potencial.   A igualdade de género não significa que todos devam ser iguais, mas sim que todos devem ter as mesmas oportunidades de desenvolver as suas capacidades, independentemente de serem rapazes ou raparigas. A educação tem um papel crucial nesse processo, pois é na escola que se constroem atitudes, se quebram preconceitos e se abrem novas janelas de futuro.   Desigualdades que começam cedo Em muitas comunidades, as crianças crescem inseridas em tradições e expectativas sociais que influenciam a forma como cada género é percebido. Algumas raparigas são incentivadas a cuidar da casa, dos irmãos e a preparar-se para o casamento, enquanto os rapazes são vistos como potenciais provedores ou líderes familiares. Estes papéis, embora culturais, acabam por limitar o acesso e a permanência das raparigas na escola, sobretudo quando surgem responsabilidades domésticas precoces, longas distâncias a percorrer ou dificuldades económicas.   Além disso, fenómenos como casamentos prematuros, gravidez precoce, assédio e violência de género continuam a afastar muitas raparigas do percurso escolar. O impacto é grave: quando uma rapariga abandona a escola, perde-se uma oportunidade de desenvolvimento individual e social.   A escola como espaço de transformação A escola tem o poder de romper com estereótipos que se perpetuam há gerações. Professores atentos e bem formados podem mostrar, através de palavras e atitudes, que rapazes e raparigas são capazes de aprender, liderar, criar e resolver problemas de forma igualmente competente. Quando a escola valoriza a participação de todos, sem favoritismos nem preconceitos, abre-se um caminho mais justo para o desenvolvimento humano.   Medidas como organizar grupos mistos, incentivar o debate sobre igualdade, distribuir responsabilidades de forma equitativa e promover atividades que reforcem o respeito mútuo ajudam a criar um ambiente escolar saudável. O professor tem um papel especial ao observar situações de discriminação e intervir de forma firme, educativa e respeitosa. A importância do exemplo familiar e comunitário A escola educa, mas a família e a comunidade têm grande influência sobre a forma como raparigas e rapazes se veem a si mesmos. Quando os pais reforçam que a educação é valiosa tanto para as filhas quanto para os filhos, a mensagem transforma-se em ação. Famílias que apoiam as raparigas nos estudos, que as protegem do casamento precoce e que valorizam o seu talento contribuem para quebrar ciclos de desigualdade.   Da mesma forma, é essencial mostrar aos rapazes que a igualdade de género não os diminui; pelo contrário, ensina-os a relacionar-se com respeito, a reconhecer capacidades e a viver num ambiente mais justo. A educação para a igualdade beneficia toda a sociedade.   Estereótipos dentro da sala de aula Alguns gestos simples podem reforçar ou questionar desigualdades. Quando se espera que somente rapazes participem de certas atividades ou que raparigas realizem tarefas específicas, alimenta-se a ideia de que existem papéis fixos para cada género. É fundamental que professores analisem cuidadosamente as suas práticas: Quem responde mais às perguntas? Quem recebe mais elogios? Quem é colocado como líder de grupo? Quem é lembrado para limpar a sala ou organizar materiais? Estas pequenas escolhas têm grande impacto na autoestima e no desenvolvimento de competências.   O valor da educação das raparigas para o futuro do país Estudos internacionais e experiências comunitárias mostram que quando uma rapariga permanece na escola, toda a sociedade beneficia. Ela tem maior probabilidade de conseguir emprego, participar activamente na vida cívica, proteger a saúde da família, apoiar a escolarização dos seus filhos e romper ciclos de pobreza.   Uma rapariga educada torna-se uma mulher mais preparada para enfrentar desafios, tomar decisões e contribuir para o crescimento económico da sua comunidade. A educação das raparigas é, portanto, um investimento estratégico para o desenvolvimento nacional.   Proteger e apoiar as raparigas na escola Para promover igualdade de género, é essencial criar ambientes seguros e acolhedores. Isso inclui: Reforçar a vigilância contra assédio e violência; Criar espaços de apoio emocional; Oferecer orientação sobre saúde sexual e reprodutiva; Garantir condições básicas, como casas de banho adequadas e privadas; Incentivar a participação das raparigas em clubes, debates, concursos e actividades de liderança. Quando a rapariga sente que pertence à escola e que é valorizada, ela permanece, aprende e cresce.   A igualdade de género é um caminho que se faz dia a dia, dentro da sala de aula, nas famílias e nas comunidades. E cada passo dado a favor da justiça e da dignidade abre portas para um futuro mais solidário e mais promissor para Moçambique.

maio 28 2026

A Formação de Professores e o Papel do Educador na Sociedade Actual

Por Valentina Atthumpuha É tradicional recordarmo-nos do valor do trabalho e dos trabalhadores no mês de Maio. Entre todos os profissionais que sustentam o desenvolvimento de uma nação, o professor ocupa um lugar de destaque. Ele é o mediador do conhecimento, o guardião da esperança, o construtor silencioso de gerações futuras. Em Moçambique, onde a juventude representa a maior parcela da população, a importância do educador torna-se ainda mais evidente: sem professores preparados, motivados e apoiados, não há escola que floresça, nem sociedade que avance. Contudo, o trabalho docente enfrenta desafios profundos. Muitos professores ensinam em condições difíceis, com excesso de alunos por turma, escassez de materiais, longas distâncias a percorrer e salários que nem sempre acompanham a exigência da profissão. Ainda assim, dia após dia, entram nas salas de aula com o compromisso de formar cidadãos, abrir horizontes e fortalecer a identidade nacional. É por isso que Maio é um momento oportuno para reflectir sobre a formação dos professores e sobre o papel indispensável que desempenham na sociedade actual. A formação é base para a qualidade do ensino A formação inicial e contínua dos professores é um dos pilares da educação. Um professor bem preparado domina os conteúdos, compreende as necessidades dos alunos e utiliza métodos de ensino mais eficazes. No entanto, a formação docente enfrenta certas limitações: falta de acesso fácil a cursos complementares, actualizações pedagógicas irregulares, escassez de materiais de estudo e dificuldades logísticas. Muitos professores, sobretudo nas zonas rurais, trabalham com conhecimentos adquiridos há vários anos, sem oportunidades regulares de reciclagem. Apesar disso, há um esforço crescente para oferecer oficinas pedagógicas, seminários e recursos digitais que ajudam no aperfeiçoamento do professor. Programas de ensino à distância também têm permitido que educadores continuem os estudos sem abandonar as suas comunidades. O professor como orientador e modelo para a juventude Mais do que transmitir conteúdos, o professor orienta, inspira e influencia profundamente a forma como os alunos vêem o mundo. Muitos jovens, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades familiares ou económicas, encontram no professor um ponto de apoio, uma voz de confiança e um exemplo de superação. O educador é, muitas vezes, o primeiro adulto fora da família a reconhecer um talento, a ouvir uma preocupação ou a encorajar um sonho. É por isso que o professor precisa de ter sensibilidade, paciência e capacidade de diálogo. A escola não é apenas um espaço de ensino; é também um espaço de convivência humana, onde se aprendem valores, respeito, cidadania e responsabilidade. Os desafios actuais da profissão docente A sociedade moçambicana enfrenta problemas que afectam directamente o ambiente escolar: desigualdade social, violência, gravidez precoce, trabalho infantil e instabilidade económica. Esses desafios recaem frequentemente sobre o professor, que precisa de lidar com realidades complexas para as quais, por vezes, não teve formação específica. Além disso, o aumento do número de alunos por turma torna o trabalho pedagógico mais exigente. Ensinar a mesma matéria a cinquenta ou sessenta crianças, cada uma com ritmos e dificuldades diferentes, é uma tarefa que exige criatividade e grande dedicação. Criar condições dignas para o trabalho docente Para que a educação avance, é indispensável valorizar os professores. Isso inclui condições materiais adequadas, remuneração justa, apoio emocional e reconhecimento social. Valorizar o professor não é apenas responsabilidade do Estado; é um compromisso de toda a comunidade. Pais que colaboram com a escola, alunos que respeitam os educadores e líderes comunitários que apoiam projectos educativos contribuem para criar um ambiente favorável ao ensino. O papel transformador do professor nas comunidades Em muitas localidades do país, o professor é também um líder comunitário. Ele participa de reuniões, esclarece dúvidas sobre saúde e cidadania, orienta famílias e mobiliza pais para acompanharem os estudos dos filhos. Em certas comunidades, o professor é visto como uma figura de referência, alguém que traz conhecimento e promove mudança. Com efeito, investir no professor é investir nas crianças, nas famílias e no futuro do país. É garantir que a sala de aula continue a ser um espaço de esperança, transformação e oportunidade. É, acima de tudo, reconhecer que sem educadores comprometidos, não há sonhos que encontrem caminho, nem futuro que se realize com plenitude. Box 1 (Focada na Missão): «O professor é o mediador do conhecimento, o guardião da esperança e o construtor silencioso de gerações futuras. Sem educadores apoiados, não há sociedade que avance.» Box 2 (Focada na Realidade Social): «Muitos jovens, especialmente os que enfrentam dificuldades familiares ou económicas, encontram no professor um ponto de apoio, uma voz de confiança e um exemplo de superação.» Box 3 (Apelo à Acção): «Valorizar o professor não é apenas responsabilidade do Estado; é um compromisso de toda a comunidade. Investir no docente é garantir que a sala de aula continue a ser um espaço de esperança.»

Novo Magno Chanceler da UCM apresentado à Reitoria

O recém-eleito Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique, Dom António Juliasse, Bispo de Pemba, foi apresentado esta terça-feira à Reitoria da instituição, num acto conduzido por Dom Osório Citora Afonso, Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), em representação do presidente daquele organismo. A cerimónia contou igualmente com a presença de vários bispos que representam o episcopado moçambicano na universidade. A informação foi partilhada na página oficial da UCM no Facebook. Durante o encontro, Dom Osório destacou que a UCM continua a ser um projecto da Igreja ao serviço da nação moçambicana, promovendo a ligação entre a fé, a cultura e a ciência. Por sua vez, o Reitor da universidade, Padre Filipe Sungo, afirmou que a chegada de Dom António Juliasse marca o início de um caminho conjunto assente na missão educativa da Igreja e no compromisso com o desenvolvimento do país.

abr 24 2026

DESAFIOS E OPORTUNIDADES NO MOÇAMBIQUE DIGITAL

(Valentina Atthumpuha) A juventude moçambicana encontra-se num momento de grandes transformações. A expansão gradual da internet, o aumento do acesso a telemóveis inteligentes e a circulação constante de informações colocam os jovens diante de novas possibilidades, mas também de desafios que exigem orientação, equilíbrio e espírito crítico. Se por um lado as tecnologias criam oportunidades para aprender, trabalhar e empreender, por outro lado podem facilmente conduzir a dependências, dispersão e vulnerabilidades. Março e Abril, meses marcados por diversos debates sobre juventude, inovação e inclusão, tornam-se propícios para reflectir sobre o impacto das tecnologias no presente e no futuro profissional dos nossos jovens. É uma reflexão necessária, sobretudo num país em que grande parte da população é jovem e vive em contextos sociais, económicos e educativos muito diversos.   A presença crescente das tecnologias no quotidiano da juventude Em Moçambique, o telemóvel tornou-se o principal meio de acesso ao mundo digital. Mesmo nas zonas rurais, onde a internet pode ser mais limitada, a juventude utiliza redes sociais, vídeos educativos, jogos e plataformas de comunicação. Esta presença digital influencia a forma como os jovens aprendem, socializam e constroem a sua identidade. As tecnologias, quando bem utilizadas, abrem portas para conhecimentos que antes eram difíceis de alcançar. Hoje, um jovem pode assistir a uma aula online, aprender uma nova habilidade técnica, procurar oportunidades de emprego ou comunicar com pessoas de outras províncias e países. Porém, o uso inadequado pode resultar em dispersão, conflitos familiares, consumo de conteúdos inadequados e até riscos de segurança.   Entre a inspiração e a pressão As redes sociais são, talvez, o espaço digital mais frequentado pelos jovens. Lá encontram entretenimento, humor, tendências culturais e modelos de vida que influenciam comportamentos. Muitos jovens criam conteúdos, partilham ideias e encontram reconhecimento entre amigos e seguidores. Contudo, há também riscos importantes: a comparação constante com vidas idealizadas, a pressão por “likes”, a exposição exagerada da vida pessoal e a facilidade de contacto com desconhecidos. Estes factores podem afectar a auto-estima, a concentração nos estudos e o bem-estar emocional. É fundamental que pais, educadores e líderes comunitários orientem os jovens para um uso equilibrado e responsável. Ensinar a filtrar informações, reconhecer conteúdos falsos e evitar comportamentos perigosos é tão importante quanto ensinar leitura e escrita.   A tecnologia como caminho para novas carreiras O mercado de trabalho está a mudar e o Moçambique digital começa lentamente a abrir espaço para profissões que há poucos anos eram quase desconhecidas. Hoje, jovens podem trabalhar ou aspirar a actuar em áreas como: Desenvolvimento de aplicações e software; Manutenção e montagem de equipamentos informáticos; Design gráfico e audiovisual; Marketing digital; Análise de dados; Produção de conteúdos digitais; Prestação de serviços online para pequenas empresas. Estas oportunidades não exigem, inicialmente, grandes investimentos financeiros. Muitos jovens começam a aprender através de vídeos, cursos gratuitos e grupos de estudo. A curiosidade e a persistência tornam-se os principais instrumentos de trabalho. Mesmo em comunidades rurais, há jovens que prestam pequenos serviços de informática, ajudam colegas a criar documentos digitais, ou iniciam micro-negócios baseados em telemóveis. São exemplos que mostram como a tecnologia pode contribuir para autonomia financeira e desenvolvimento local.   A escola diante dos desafios tecnológicos As escolas enfrentam o grande desafio de acompanhar o ritmo das mudanças digitais. Muitas ainda têm poucos computadores, falta de energia estável ou professores com formação limitada em tecnologias. Contudo, mesmo com essas limitações, há possibilidades reais de integração da tecnologia no processo educativo. O professor pode utilizar vídeos educativos, textos digitais, simulações simples e até exercícios interactivos para tornar as aulas mais atractivas. Actividades de pesquisa orientada, debates sobre segurança digital e pequenos projectos envolvendo telemóveis podem também ajudar a desenvolver competências modernas sem exigir equipamentos sofisticados. Ao abordar tecnologias, a escola não deve limitar-se aos aspectos técnicos. É essencial trabalhar também valores como ética digital, respeito online, privacidade e responsabilidade no uso de redes sociais.   Apoiar a juventude no uso saudável da tecnologia A juventude precisa de apoio para que a tecnologia seja uma aliada, e não um obstáculo. É importante promover: Rotinas equilibradas que incluam estudo, descanso, convívio familiar e tempo limitado de ecrãs; Actividades culturais e desportivas que combatem o sedentarismo e fortalecem o bem-estar emocional; Momentos de diálogo entre pais e filhos para que os jovens se sintam livres para partilhar dúvidas e dificuldades; Projectos comunitários, onde jovens aprendem juntos e se apoiam mutuamente; Exemplos positivos, porque os jovens aprendem mais com o que veem do que com o que lhes é dito. Educar um jovem para o uso consciente da tecnologia é educá-lo para a vida, para o respeito e para o futuro.   Esperança e responsabilidade O Moçambique digital está a crescer, e a juventude é a grande protagonista desta transformação. Contudo, o futuro profissional não depende apenas de acesso à internet; depende de disciplina, curiosidade, resiliência e capacidade de aprender continuamente. O mundo exige jovens flexíveis, criativos e capazes de resolver problemas reais. Se os adultos, pais, professores, líderes comunitários, investirem na orientação, no incentivo e na criação de ambientes de aprendizagem, a tecnologia deixará de ser apenas entretenimento e tornar-se-á um instrumento poderoso para o desenvolvimento do país. Portanto, as tecnologias, que muitas vezes são vistas como ameaça, podem tornar-se ferramentas de transformação, desde que usadas com responsabilidade e acompanhadas de valores sólidos. Jovens que aprendem a usar a tecnologia com propósito tornam-se cidadãos mais preparados, trabalhadores mais competentes e seres humanos capazes de sonhar com um futuro melhor. O Moçambique digital não acontecerá apenas nos grandes centros urbanos: ela nasce, sobretudo, na criatividade da juventude, na força da comunidade e no compromisso de todas as gerações com a educação e o desenvolvimento.

fev 27 2026

O ruidoso silêncio da crise da educação em Moçambique

Por Thomas Selemane A educação em Moçambique atravessa um dos momentos mais delicados da sua história recente. Embora o País tenha conhecido avanços notáveis na expansão do acesso escolar desde o início dos anos 2000, o quadro actual revela fragilidades profundas que comprometem o futuro das gerações mais jovens. A crise do pagamento de horas extras aos professores, a conversão do ensino nocturno em ensino à distância ao nível secundário e a degradação progressiva da qualidade educativa são apenas alguns dos sintomas de um sistema que pede reforma urgente. Neste novo ciclo governativo, 2026-2029, espera-se que a governação do Presidente Chapo resolva as mazelas de tensão, expectativas e exigência social. Entre as várias vertentes da crise, três merecem particular destaque. O primeiro elemento crítico é o não pagamento regular das horas extras aos professores, uma situação que se arrasta em diferentes províncias e tem gerado protestos, greves intermitentes e um clima de desmotivação generalizada no corpo docente. Muitos professores, sobretudo os que leccionam em turmas superlotadas ou leccionam em turnos adicionais para suprir a falta de docentes, dependem deste rendimento suplementar para sustentar as suas famílias. Quando o Estado atrasa ou suspende os pagamentos, o impacto é directo: aulas canceladas, redução do tempo lectivo, diminuição da preparação pedagógica e um sentimento precário de valorização da carreira docente. Não é exagero afirmar que o sistema educacional funciona hoje sobre o sacrifício pessoal de milhares de professores, cuja resiliência tem sido maior que a própria capacidade institucional de resposta. A crise das horas extras não é apenas administrativa; é um indicador de sub-financiamento estrutural. O sector da educação continua a competir com outras prioridades fiscais num orçamento nacional pressionado pela dívida pública, por choques económicos e por limitações de arrecadação. No entanto, um país que falha em remunerar dignamente os seus professores compromete a base de qualquer política de desenvolvimento sustentável. A retórica oficial frequentemente enaltece a educação como um pilar do progresso, mas essa visão precisa traduzir-se em acções concretas, previsibilidade orçamental e gestão eficiente dos recursos humanos. A valorização docente não pode ser uma promessa — deve ser uma política de Estado. O segundo ponto crítico é a transformação do ensino nocturno em ensino à distância no ensino secundário, uma mudança acelerada pela pandemia e consolidada sem a devida preparação pedagógica, tecnológica ou social. O curso nocturno sempre desempenhou um papel inclusivo fundamental: permitiu que trabalhadores, jovens mães, vendedores informais e outros cidadãos com horários restritivos pudessem estudar presencialmente. A migração para o ensino à distância, embora compreensível no contexto de modernização, poderá gerar exclusão. A realidade digital do país ainda é marcada por profundas desigualdades. Muitos estudantes não dispõem de computadores, de internet estável ou de condições domésticas para acompanhar aulas virtuais. O risco é evidente: transformar uma política de expansão do acesso num mecanismo de selecção socioeconómica que penaliza os mais pobres. Além disso, há o desafio pedagógico. O ensino à distância exige metodologias próprias, plataformas funcionais, professores capacitados e acompanhamento contínuo. Sem isso, a modalidade pode deteriorar o processo de aprendizagem e aumentar o abandono escolar. A modernização digital é uma oportunidade, mas precisa ser tratada com responsabilidade e planejamento. Não basta transferir aulas presenciais para telas; é preciso repensar currículos, ritmos, suporte tutorial e mecanismos de avaliação. Caso contrário, estaremos a construir um ensino secundário noturno que existe apenas no papel, mas que falha na prática. O terceiro ponto — talvez o mais preocupante — é a qualidade do ensino. Indicadores de aprendizagem revelam que muitos alunos terminam o ensino primário com dificuldades sérias de leitura, escrita e cálculo básico. No ensino secundário, o problema agrava-se com currículos extensos, baixa taxa de domínio conceitual, escassez de livros didáticos atualizados e um ambiente escolar muitas vezes hostil ao pensamento crítico. Não é incomum que estudantes cheguem à universidade com lacunas graves, como incapacidade de leitura, escrita e compreensão de textos básicos, comprometendo a formação de quadros para os setores públicos e privados. A qualidade da educação não depende apenas do número de escolas construídas ou da taxa de matrícula; depende da capacidade de ensinar bem. O futuro de Moçambique dependerá, em grande medida, da capacidade de olhar para a sala de aula e nela ver o coração do desenvolvimento. O professor valorizado, o estudante motivado, o currículo relevante e o ambiente escolar digno não são luxo; são fundamento. Se falharmos aqui, falhamos em tudo o restante. Por isso, 2026 marca o início de uma nova travessia. Que seja o ano em que deixamos de gerir crises e começamos a construir soluções.

jan 27 2026

O REGRESSO ÀS AULAS E A ORGANIZAÇÃO FAMILIAR

Por:Valentina Atthumpuha O início de cada ano escolar em Moçambique costuma trazer um misto de entusiasmo, expectativas e alguma ansiedade para pais, educadores e alunos. Janeiro chega sempre com a força de um recomeço, e com ele surgem novas oportunidades para reorganizar rotinas, rever objectivos e fortalecer os laços que dão sustentação ao processo educativo. Não importa se o aluno está a entrar pela primeira vez na escola ou se já frequenta o ensino secundário: o regresso às aulas é sempre um momento decisivo para estabelecer bases sólidas que influenciarão o restante ano. Apesar de muitos desafios enfrentados no sistema educativo moçambicano, desde o acesso a materiais escolares até às longas distâncias percorridas por milhares de crianças, é possível transformar este período inicial numa fase de arranque equilibrada, consciente e inspiradora. A organização familiar desempenha um papel decisivo nesta etapa. Quando a família se envolve, mesmo com recursos limitados, o aluno tende a apresentar mais motivação, mais disciplina e maior capacidade de adaptação diante das exigências escolares. Preparar emocionalmente as crianças e os jovens O aspecto emocional é frequentemente esquecido quando se fala do regresso às aulas, mas ele é fundamental para o sucesso escolar. Muitas crianças, especialmente as mais pequenas, enfrentam receios naturais diante de um ambiente novo, um novo professor, novos colegas, ou até mesmo uma nova escola. Os adolescentes, por sua vez, além das expectativas sobre o desempenho académico, lidam com questões típicas da idade, como a auto-estima, a afirmação pessoal e o sentimento de pertença ao grupo. Por isso, é importante que o diálogo aconteça dentro de casa, de modo simples e acolhedor. Pais e encarregados devem encorajar os filhos, ouvir as suas inquietações e ajudar a transformar as preocupações em metas possíveis. Um aluno emocionalmente apoiado sente-se mais seguro, mais atento e mais disposto a aprender. Pequenas acções que fazem grande diferença A organização familiar não depende de grandes investimentos, mas sim de pequenas acções consistentes. Definir horários para dormir, acordar, estudar e brincar ajuda a criar disciplina sem que a criança ou o jovem se sintam sobrecarregados. É útil, por exemplo, estabelecer um espaço específico para os estudos, mesmo que seja apenas uma mesa limpa, bem iluminada e longe de distrações. Ter um local simbólico para a aprendizagem ajuda o cérebro a “entrar no modo de concentração”. Outra medida importante é preparar com antecedência os materiais escolares. Em muitas famílias, o orçamento pode ser limitado, mas mesmo com poucos recursos é possível organizar-se. Reutilizar cadernos parcialmente usados, forrar livros com papel resistente e arrumar a mochila na véspera das aulas são práticas que evitam stress e reforçam a responsabilidade do aluno. Para os mais pequenos, os pais podem transformar a preparação da mochila num momento divertido e educativo, ajudando-os a distinguir o que é essencial e promovendo hábitos de autonomia. Alimentação equilibrada e cuidados com a saúde A alimentação é uma das bases para o bom rendimento escolar. Crianças e jovens que saem de casa sem tomar o pequeno-almoço, chegam às aulas com menor capacidade de atenção, irritabilidade e cansaço precoce. Mesmo em famílias com poucos recursos, é possível assegurar uma refeição simples, como chá com pão ou uma fruta. O mais importante é que o corpo tenha energia suficiente para o período da manhã. Além disso, Janeiro é também o momento ideal para rever o estado de saúde das crianças: actualizar cadernetas de vacinação, verificar se há necessidade de óculos, acompanhar o crescimento e observar sinais de dificuldades auditivas ou visuais que possam prejudicar o desempenho escolar. Muitas crianças têm baixo rendimento simplesmente porque não conseguem ver o quadro ou ouvir o professor com clareza. Segurança no caminho para a escola Em várias regiões do país, a distância entre casa e escola continua a ser um dos maiores desafios. Por isso, é fundamental reforçar conversas sobre segurança. Para os alunos que caminham sozinhos, recomenda-se a escolha de caminhos movimentados e a criação de pequenos grupos de companheiros. Para os que utilizam transporte escolar ou semi-colectivos, é importante que os pais orientem sobre o comportamento adequado, a importância de manter as mochilas fechadas e a necessidade de evitar conversas com desconhecidos. Criar redes de apoio entre vizinhos também pode ser uma solução. Partilhar responsabilidades no transporte ou na vigilância das crianças fortalece a comunidade e reduz riscos. Fortalecer o vínculo entre escola e família O início do ano escolar é um momento privilegiado para que os pais reforcem o contacto com a escola. Conhecer o director, conversar com os professores, participar nas primeiras reuniões e estar disponível para ouvir orientações é fundamental para construir uma parceria que favoreça o progresso do aluno. Uma relação aberta e respeitosa entre família e escola reflecte-se directamente no comportamento e no empenho da criança. É igualmente importante que os encarregados não procurem a escola apenas quando surge um problema. A participação regular demonstra interesse e compromisso, motivando o aluno e facilitando a identificação precoce de dificuldades. Cultivar expectativas realistas e celebrar pequenas conquistas Cada aluno tem o seu próprio ritmo de aprendizagem. Comparações são prejudiciais e criam tensões desnecessárias. O ideal é estabelecer objectivos realistas, ajustados às capacidades do estudante e às condições disponíveis. E, mais do que isso, celebrar cada progresso — um caderno mais organizado, uma nota melhor, um comportamento mais responsável — ajuda a fortalecer a auto-estima e a criar uma relação positiva com a escola. O ano escolar não é uma corrida de velocidade, mas sim uma maratona. Exige persistência, paciência e apoio contínuo. Quando a família, a escola e a comunidade se unem, o regresso às aulas deixa de ser um momento de preocupação e passa a ser uma oportunidade de renovação. Janeiro é, portanto, um convite para reorganizar, fortalecer e inspirar. É o mês em que se semeiam hábitos que podem transformar o restante do ano. E, mesmo diante de desafios sociais e económicos, é sempre possível criar caminhos de esperança, responsabilidade e confiança para as nossas crianças e jovens.

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