A Palavra que reconcilia, a Casa Comum que nos une
A coordenação O mês de Setembro convida-nos, de modo muito especial, a voltar o coração para a Palavra de Deus. A Bíblia não é apenas um livro antigo nem uma colecção de histórias do passado. Ela é a voz viva de Deus que continua a iluminar os caminhos da humanidade, a fortalecer a esperança e a indicar o rumo para uma vida mais justa, mais fraterna e mais solidária. Vivemos tempos marcados por muitos desafios. O nosso País continua a procurar caminhos seguros para consolidar a paz, fortalecer a reconciliação e construir uma verdadeira unidade nacional. Ao mesmo tempo, enfrentamos problemas ambientais que ameaçam a vida das pessoas, das comunidades e das futuras gerações. A degradação das florestas, a poluição, as mudanças climáticas e a exploração irresponsável dos recursos naturais recordam-nos que a criação não é propriedade de alguns, mas um dom de Deus confiado a todos. Foi precisamente esta preocupação que levou o Papa Francisco a oferecer à Igreja e ao mundo a Encíclica Laudato Si’. Nela somos convidados a compreender que tudo está interligado. Não podemos separar o cuidado da natureza do cuidado das pessoas, sobretudo dos pobres, dos doentes, dos idosos e das crianças. Quando destruímos a criação, também ferimos a dignidade humana. Quando protegemos a vida, protegemos igualmente a obra do Criador. Mas não haverá verdadeiro cuidado da Casa Comum sem corações reconciliados. A paz começa no interior de cada pessoa, cresce na família, fortalece-se nas comunidades e produtos e produz frutos na sociedade. A reconciliação não significa esquecer o passado, mas decidir construir um futuro onde prevaleçam o perdão, a justiça, a verdade e o respeito mútuo. Um povo dividido desperdiça energias; um povo unido encontra força para vencer as dificuldades e alcançar o desenvolvimento. A Palavra de Deus oferece-nos esta sabedoria. Ela ensina-nos que todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, somos irmãos. Não há lugar para o ódio, para a exclusão, para a violência ou para a indiferença. O cristão é chamado a ser construtor de pontes, promotor do diálogo e testemunha da esperança. A fé que professamos deve traduzir-se em gestos concretos de amor, de respeito pela criação e de compromisso com o bem comum. Neste mês da Bíblia, somos convidados a renovar o hábito da leitura diária das Sagradas Escrituras. Uma família que reza com a Palavra de Deus torna-se mais unida. Uma comunidade que escuta a Palavra torna-se mais missionária. Uma nação que se deixa iluminar pelos valores do Evangelho fortalece a justiça, a paz e a solidariedade. Que Maria, Mãe da Igreja e Rainha da Paz, nos acompanhe neste caminho de conversão. Que aprendamos a ouvir a Palavra de Deus, a cuidar da Casa Comum e a trabalhar, todos os dias, pela reconciliação e pela unidade nacional. Assim construiremos um Moçambique mais humano, mais fraterno e mais fiel ao projecto de Deus para o seu povo. Unidos na fé!
ECOLOGIA: TEMPO DA CRIAÇÃO 2026
Pe. Massimo Robol, mccj O Tempo da Criação é a celebração ecuménica anual que envolve cristãos de várias Igrejas e comunidades eclesiais para rezar e responder juntos ao clamor da Terra. A celebração começa a 1 de Setembro, considerado por algumas denominações cristãs como o Dia Mundial de Oração pela Criação e por outras como a Festa da Criação, e termina a 4 de Outubro, Festa de São Francisco de Assis. O tema do Tempo da Criação de 2026 é “Água viva”, e baseia-se na passagem do Livro do Profeta Ezequiel 47, 9-12. O tema, “Água Viva”, é inspirado numa visão bíblica de esperança e cura ecológica. No meio do exílio e de uma grande perda, a imagem da água viva que flui do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água e a biodiversidade, bem como a responsabilidade humana para com toda a criação. A visão de Ezequiel é, em última análise, de esperança; entrar no rio lembra-nos o baptismo. Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo, isto é, a cura de Deus, então “rios de água viva” também fluirão do nosso coração. À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura das outras pessoas e da criação. De facto, o Tempo da Criação é também um momento oportuno para a proximidade fraterna e a solidariedade com as pessoas vulneráveis e pobres, principalmente aquelas que sofrem com a degradação ambiental. Todavia, a visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas, 2,1 biliões de pessoas ainda não têm acesso a água potável segura. Isto representa uma em cada quatro pessoas no mundo! Com o aumento das alterações climáticas e o incremento da extracção de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica”, ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural. A crise hídrica afecta de forma desproporcional, sobretudo, as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e todas as formas de vida que não têm voz nos sistemas políticos ou económicos. O facto de subestimar a importância da preservação e da boa gestão da água traz consigo muitos desafios: o impacto na saúde das doenças transmitidas pela água contaminada; o impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios; o aumento do consumo de água impulsionado pela produção da energia necessária para as nossas actividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial; o impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar. Todos os cristãos são chamados a confrontar estes desafios e a rejeitar uma visão do mundo que trata a água como um recurso descartável, ou até mesmo como um produto que pode ser vendido com fins lucrativos. Torna-se fundamental promover a preservação, o uso responsável e a distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental. É assim que o Tempo da Criação se torna uma oportunidade para nos empenharmos na construção de um mundo mais justo e que dê vida a toda a família humana, bem como a toda a criação. Seria recomendável que também as lideranças religiosas fizessem um apelo público para denunciar a poluição prejudicial, e exigir que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água. Ao vencermos o medo e mergulharmos nas águas do amor de Deus, que possamos tornar-nos parte do Rio da transformação para o mundo, para testemunharmos a cura e a renovação da criação e a bênção da Terra. Entre no Tempo da Criação e visite o portal https://seasonofcreation.org/pt/, onde é possível encontrar material e ideias para participar da celebração.
ago 18 2026
As lágrimas de Raquel e o Despertar da Paz
Por: Mónica Meque Vivemos em tempos difíceis e de desafios constantes, num mundo onde a esperança da paz e da tranquilidade humana tende a desmoronar-se a cada dia. As armaduras da pobreza, do terrorismo, das angústias, das incertezas, da xenofobia e de outros males que apoquentam a sociedade tendem a vergar incessantemente o povo moçambicano. As recentes informações que nos chegam da vizinha África do Sul esmagam o coração de muitas mulheres, de muitas mães que esperavam o seu marido, o seu filho ou filha, o seu sobrinho e o seu neto voltarem triunfantes do prometido Eldorado, carregados de molhos de espigas de uma abundante colheita. Mas, infelizmente, algumas delas têm de enfrentar o terrível drama de receber em lágrimas os corpos dos seus entes queridos. Face a esta situação, o que pode ainda fazer a mulher? A profecia de Jeremias, num dos seus versículos, relata-nos um episódio que vale a pena recordar: “Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem” (Jer 31,15). O cenário repete-se. As personagens mudam. Hoje, já não é Raquel; é a África, é uma outra pobre mulher que chora amargamente e de forma inconsolável. Hoje não são as tribos do Norte de Israel chacinadas pelos assírios; são filhos da mesma Mãe-África a perpetrarem atrocidades fratricidas. Violência após violência! Como fica o coração de uma mãe? A mulher vive, hoje, numa sociedade onde o choro de um irmão já não nos toca o peito, onde o abraço de esperança virou uma troca de moeda, onde a família e a sociedade em geral se transformaram em lugares de julgamento e exclusão. Somos os acusadores e os defensores do crime alheio; somos os donos da verdade. Porém, não conhecemos a paz. Um lar de paz e harmonia é o que toda a mulher deseja para a sua família. Mas o que seria essa paz? Falar da paz não significa necessariamente ausência de armas, guerras, conflitos, discussões ou atritos sociais e familiares, mas refere-se igualmente à observância da tranquilidade e da ordem em todos os aspectos: individual ou interior, social, político e religioso. Nenhuma mulher gosta de viver em ambientes de hostilidade. Ela é, por natureza, acolhedora, protectora, promotora e integradora de paz e solidariedade. Sabemos que o povo moçambicano viveu e vive momentos turbulentos, desafios de natureza política, social, económica, financeira, cultural e até mesmo religiosa. Ninguém escapa ao caos. Os preços dos alimentos de primeira necessidade não param de aumentar; sobre o combustível, esse nem se pode comentar; o filho tende a julgar e a desonrar os seus pais; os pais não assumem a responsabilidade de criar e educar os seus filhos; os cônjuges fogem da fidelidade; a globalização surge com mais poder de decisão sobre os valores sociais e éticos da sociedade; enfim, o desespero vai tomando conta de cada cidadão moçambicano. Aliado a isto, um exemplo concreto revelou-se na vida dos moçambicanos aquando das manifestações pós-eleitorais das últimas eleições gerais. O povo moçambicano viveu momentos de aflição e de tensão jamais vistos, onde o desespero e a insegurança eram o único sentimento e alimento diário, fazendo com que os corações se tornassem menos esperançosos e mais angustiados. Podemos ainda acrescentar a este exemplo os recentes actos xenófobos que aumentam a violência e o luto, minando a irmandade. Mas como buscar a paz? Como reacender a esperança? Antes de mais, é preciso compreender que a paz é o amor; a paz é uma responsabilidade individual e colectiva que o ser humano deve conhecer e cultivar todos os dias. Ela constitui a chave-mestra para o bem-estar social e económico de toda a sociedade. Não se pode somente falar e gritar sobre a paz e a união, sem buscar acções concretas e mecanismos eficazes para que elas se materializem. A paz exige, não só da mulher como também de todos, a humildade e o amor a Deus. Desde a simples mulher até às lideranças governamentais, é crucial conhecer, compreender e aceitar a paz, colocando-a como uma agenda indispensável e inegociável para o bem-estar socioeconómico de todos os moçambicanos e da Região Austral. A promoção da cultura do diálogo, da partilha, do acolhimento e do aperfeiçoamento da fé torna-se cada vez mais indispensável na vida dos moçambicanos. Outrossim, não menos importante, a luta pela erradicação da fome, da iliteracia, do desemprego, a provisão de serviços essenciais de saúde, água e saneamento constituem caminhos que nos levam à paz e à integração nacional e regional. Por fim, é tempo de compreender que somente cultivando e fomentando a paz, o homem e a mulher, o moçambicano, o sul-africano e o africano em geral podem ter uma vida saudável, impulsionar o amor ao próximo e promover um país de Direito, justiça social e democracia. Só assim se tornará evidente que a responsabilidade pela paz efectiva é tarefa de cada um de nós, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou cor partidária. Não importa onde e quando, o coração do ser humano deve estar recheado de sentimentos saudáveis que o levem à paz, e somente assim conseguirá viver em paz e transmitir ao próximo essa mesma paz. Só assim calaremos e limparemos as lágrimas de Raquel dos nossos dias.
Dom Osório Citora Afonso: um Evangelho vivido ao serviço da Igreja
Por: Kant de Voronha Há vidas que não precisam de longos discursos para serem compreendidas. Basta contemplar o caminho que percorreram, as pessoas que tocaram e a esperança que semearam. Assim foi a vida de Dom Osório Citora Afonso. O seu ministério episcopal não pode ser reduzido aos anos em que governou a Diocese de Quelimane, nem à dor provocada pela sua morte. A sua verdadeira grandeza encontra-se na forma como viveu o Evangelho e fez da sua vida uma escola permanente de comunhão, catequese e missão. A Igreja em Moçambique despede-se de um dos seus pastores, mas não perde o testemunho de um discípulo que acreditava profundamente que a evangelização continua a ser a primeira missão da Igreja. Dom Osório compreendia que uma comunidade só cresce verdadeiramente quando cresce na fé. Por isso, dedicou grande parte do seu ministério à formação dos cristãos, ao fortalecimento das comunidades e à valorização da catequese como fundamento da vida eclesial. Num tempo em que tantas pessoas procuram respostas rápidas para os problemas da humanidade, Dom Osório recordava-nos que a resposta mais profunda continua a ser Jesus Cristo. Era esta convicção que orientava a sua acção pastoral. Não procurava apenas organizar estruturas ou administrar instituições. Procurava formar discípulos. Sabia que uma Igreja forte não é aquela que possui muitos edifícios ou grandes recursos materiais, mas aquela que possui cristãos bem formados, conscientes da sua fé e comprometidos com a missão. Talvez por isso a palavra “catequese” ocupasse um lugar tão especial no seu coração. Para Dom Osório, a catequese nunca foi apenas um período de preparação para receber sacramentos. Era um verdadeiro caminho de encontro com Cristo, capaz de transformar a vida das pessoas e renovar as comunidades. Catequizar significava educar para a fé, formar consciências, despertar vocações, fortalecer famílias e construir uma sociedade iluminada pelos valores do Evangelho. Num mundo onde muitos baptizados conhecem pouco a riqueza da própria fé, o seu testemunho desafia-nos a devolver à catequese o lugar central que sempre ocupou na vida da Igreja. Uma comunidade que descuida a formação cristã corre o risco de possuir muitos fiéis, mas poucos discípulos. A evangelização começa precisamente quando o coração se deixa educar pela Palavra de Deus. Outro traço marcante do seu ministério foi a convicção de que a Igreja deve caminhar unida. Muito antes de a sinodalidade se tornar um dos grandes temas da vida eclesial contemporânea, Dom Osório já procurava viver este estilo de Igreja. Gostava de escutar. Valorizava o diálogo. Incentivava a participação dos leigos, dos religiosos, dos catequistas, dos jovens e das famílias na construção das comunidades. Compreendia que a Igreja não pertence apenas aos seus pastores, mas a todo o Povo de Deus, onde cada baptizado possui uma missão insubstituível. A sinodalidade não é apenas um método de organização pastoral. É uma espiritualidade. É aprender a caminhar juntos, a discernir juntos e a procurar juntos a vontade de Deus. Num tempo marcado por divisões, conflitos e individualismos, esta forma de viver a Igreja torna-se um verdadeiro sinal profético. Dom Osório acreditava que ninguém evangeliza sozinho. A missão pertence a toda a Igreja. Também a missão ocupava um lugar privilegiado na sua visão pastoral. Nunca concebia uma Igreja fechada sobre si mesma. A Igreja existe para anunciar Cristo. Existe para sair ao encontro das pessoas, sobretudo das mais pobres, das mais esquecidas e das mais afastadas da fé. Uma comunidade que deixa de evangelizar começa lentamente a perder a sua identidade. O Evangelho não foi dado para permanecer fechado nas sacristias, mas para ser anunciado em cada família, em cada escola, em cada hospital, em cada prisão, em cada aldeia e em cada cidade. É precisamente esta dimensão missionária que continua a desafiar a Igreja em Moçambique. Ainda existem muitas periferias humanas que esperam pela presença consoladora de Cristo. Ainda existem jovens à procura de sentido para a vida, famílias marcadas pelo sofrimento, crianças necessitadas de formação cristã e comunidades sedentas da Palavra de Deus. O maior tributo que podemos prestar à memória de Dom Osório será continuar esta missão com renovado entusiasmo. A morte violenta de Dom Osório Citora Afonso, ocorrida no Paço Episcopal de Quelimane, no dia 6 de Junho de 2026, provocou profunda consternação na Igreja e na sociedade. As circunstâncias deste acontecimento permanecem entregues ao trabalho das autoridades competentes. Contudo, para os cristãos, permanece uma certeza maior do que qualquer acto de violência: a vida daquele que serve fielmente Cristo não termina com a morte. O testemunho continua vivo nas comunidades que edificou, nas vocações que incentivou, nos catequistas que formou e nos fiéis que ajudou a aproximar-se de Deus. As novas gerações necessitam de conhecer testemunhos como o de Dom Osório. Vivemos numa época em que abundam influenciadores digitais, mas escasseiam verdadeiras referências espirituais. A juventude precisa de homens e mulheres que mostrem, pela própria vida, que a santidade continua a ser possível. Dom Osório ensinou precisamente isso. A santidade constrói-se na fidelidade quotidiana, na simplicidade do serviço, na escuta da Palavra de Deus e no amor incondicional pela Igreja. O seu legado não pode permanecer apenas na memória afectiva daqueles que o conheceram. Deve transformar-se num compromisso pastoral. Cada catequista que prepara uma criança para encontrar Cristo, cada sacerdote que anuncia o Evangelho com dedicação, cada religioso que serve os pobres, cada jovem que responde generosamente à vocação e cada família que educa os seus filhos na fé prolonga a missão que Dom Osório abraçou com tanto amor. A Igreja em Moçambique possui hoje a responsabilidade de preservar esta herança espiritual. Não através de monumentos ou homenagens ocasionais, mas vivendo aquilo que ele acreditava: uma Igreja verdadeiramente sinodal, onde todos caminham juntos; uma Igreja profundamente catequética, onde a fé é constantemente formada; e uma Igreja essencialmente missionária, que nunca se cansa de anunciar Jesus Cristo. No Evangelho, Jesus afirma que a árvore conhece-se pelos seus frutos. Os frutos deixados por Dom Osório Citora Afonso permanecem vivos na fé de tantas comunidades, no entusiasmo de muitos catequistas, na
jul 23 2026
Cidades que crescem sem crescer
Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a abrir os olhos para aquilo que fingimos não ver no quotidiano. Julho é um desses meses. As temperaturas baixam, mas as contradições do país aquecem. É o mês em que o vento frio atravessa as ruas, carregando consigo o pó das obras paradas, o lixo não recolhido, os gritos dos mercados improvisados e o burburinho de uma cidade que cresce todos os dias, mesmo quando não cresce para melhor. As nossas cidades são organismos vivos: respiram, expandem-se, enchem-se de sonhos e de sobrevivências improvisadas. Mas são também espelhos que revelam, sem piedade, a desigualdade que atravessa o coração de Moçambique. De Maputo a Nampula, da Cidade da Beira a Tete, o país urbano é um mosaico de contrastes: “ilhas” modernas cercadas de bairros sem água confiável, prédios novos ao lado de vielas onde a noite chega antes do pôr-do-sol por falta de iluminação pública. Julho lembra-nos que a urbanização moçambicana não é apenas um fenómeno demográfico. É uma urgência social. A cidade não se desenvolve na mesma proporção Cresce em população, cresce em trânsito, cresce em bairros informais. Cresce em problemas que se repetem: trânsito caótico, transportes precários, ausência de saneamento básico, habitação inapropriada, criminalidade urbana, erosão e enchentes de Julho ou Novembro que encontram canais entupidos e ruas desalinhadas com o próprio projecto urbano. Cresce, mas não amadurece. A cidade é como um adolescente que no corpo parece adulto, mas cujas responsabilidades excedem as suas capacidades. Tudo o que se construiu parece correr atrás do prejuízo. A população chega primeiro; os serviços chegam depois e, muitas vezes, não chegam. Em cada rua improvisada há uma história de fuga da pobreza rural. Em cada mercado informal há um grito de sobrevivência. Em cada “chapa” congestionado há um pedido silencioso por dignidade. E tudo isto compõe o cenário urbano de Moçambique, onde o desenvolvimento nem sempre acompanha o ritmo da necessidade. Julho convida-nos a pensar na cidade a partir de três perguntas essenciais: Para quem as cidades estão a ser construídas? Para quem pode pagar rendas altas? Para quem tem carro? Para quem ocupa escritórios envidraçados? Ou para a maioria que caminha longas distâncias, que vende no mercado e que acorda às quatro da manhã para apanhar o primeiro transporte? A forma como uma cidade se organiza diz muito sobre quem ela considera prioritário. Quanto da cidade é planeado e quanto é improvisado? A verdade, dolorosa mas evidente, é que grande parte da expansão urbana é uma resposta individual à ausência de políticas eficazes de habitação. As pessoas constroem onde é possível, não onde é seguro. Constroem porque precisam, não porque o espaço foi pensado para elas. A cidade cria oportunidades ou apenas concentra dificuldades? O espaço urbano deveria ser um lugar de avanço: emprego, educação, cultura, serviços. Mas, para muitos moçambicanos, a cidade é um desafio diário, não uma promessa. Estas perguntas são mais do que retóricas. São exigências. O drama urbano moçambicano não é apenas infra-estrutural; é existencial. A cidade tornou-se o lugar onde os sonhos se misturam com a frustração. Onde o jovem procura o emprego que não encontra. Onde a mulher vende hortaliças para garantir o jantar. Onde o trabalhador luta contra o transporte caótico e perde horas preciosas da vida em filas, engarrafamentos e caminhadas intermináveis. E, ainda assim, há beleza na cidade. Há resiliência. Há criatividade. Há sobreviventes que insistem em transformar espaços quebrados em possibilidades. A cidade vive porque o povo teima em viver O problema não é o povo. O problema é o sistema que organiza o povo sem escutar o que ele realmente precisa. Para que Moçambique cresça com dignidade, é urgente repensar o que significa urbanizar. Urbanizar não é encher de prédios. Não é construir avenidas sem calçadas. Não é erguer centros comerciais enquanto bairros inteiros continuam sem saneamento básico. Urbanizar é humanizar. É criar espaços onde as pessoas se sintam seguras, incluídas e respeitadas. É permitir que o morador do bairro periférico tenha os mesmos direitos de mobilidade que o morador do centro. É investir em transporte público digno, seguro e eficiente. É garantir que a habitação seja um direito, não um privilégio. É organizar o comércio informal em vez de reprimi-lo. É planear a cidade com quem nela vive e não apenas com projectos que agradam a quem governa. A cidade é casa. E casa não se constrói para alguns, constrói-se para todos. Julho, com o seu frio persistente, traz um aviso discreto: a urbanização continuará a ser o grande desafio moçambicano nas próximas décadas. A população urbana cresce a uma velocidade maior do que a capacidade de resposta do Estado. Se não forem tomadas medidas estruturantes agora, o futuro das cidades será um futuro de desigualdades agravadas. Mas há margem para esperança. E a esperança, em Moçambique, é sempre matéria viva. A cidade pede parceria Se a escutarmos, ela cresce. Se a ignorarmos, ela desmorona. Julho é o mês que nos pergunta: que cidade queremos deixar para as nossas crianças e para o país que celebrará 60, 70, 80 anos de independência? Porque, no fim, a realidade é esta: sem cidades dignas, não haverá país digno. E sem justiça urbana, não haverá verdadeiro desenvolvimento.
PROJECTOS PARA PEQUENAS COMUNIDADES RURAIS
Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo Introdução Em muitas zonas de Nampula ou de Inhambane, por exemplo, o sustento do povo baseia-se na machamba de subsistência e na produção de carvão vegetal. Contudo, cada família planta, consome, vende e sofre sozinha. Sozinha, a mandioca pode render apenas 20,00 MT por molho. Sozinho, o carvão destrói a floresta e resulta em multas pesadas. O problema nas nossas comunidades, muitas das vezes, não é a falta de trabalho; é a falta de união. O associativismo é o atalho para transformar a terra, a mão-de-obra e o carvão em rendimento que permanece na própria comunidade. Apresentamos quatro projetos simples que começam com menos de 2.000,00 MT por família. Caixa Agrícola Rotativa – “O Xitique da Enxada” Um grupo de 10 famílias organiza-se, e cada uma contribui com 200,00 MT por mês. Todos os meses, uma família recebe o total de 2.000,00 MT para comprar sementes, enxadas ou para alugar uma charrua ou um trator. Sem bancos e sem juros. Ao fim de 10 meses, todas as famílias investiram na sua produção. Farinha de Mandioca com Marca da Comunidade Um grupo de 5 mulheres junta-se para torrar farinha um dia por semana, utilizando o carvão local. Embalam o produto com uma etiqueta simples: “Farinha de Wakhunteya”. A mandioca que antes saía a 20,00 MT o molho, transformada em farinha, passa a valer 70,00 MT por quilo. O investimento inicial é de apenas 1.500,00 MT. Carvão Legal + Horta de 45 Dias Uma associação de 8 carvoeiros assume o compromisso: para cada 10 sacos de carvão produzidos, plantam um canteiro de couve ou de tomate. O carvão garante o sustento de hoje; a horta assegura o de amanhã. Além disso, a cinza do carvão é reaproveitada como adubo orgânico. O custo financeiro é zero. Banco de Sementes Comunitário Cada família guarda 2 kg da sua melhor semente num bidão comunitário. Quem pede sementes emprestadas para a sementeira, devolve 3 kg na altura da colheita. O custo envolve apenas a compra dos bidões e do produto contra o gorgulho, somando cerca de 800,00 MT. Em dois anos, o banco de sementes triplica de tamanho. Conclusão Um projeto grande começa sempre pequeno. Não é necessário esperar por um trator ou por uma ONG. Basta que 5 vizinhos ou membros da comunidade estejam decididos a fazer a experiência durante 30 dias. Começa com quem já produz carvão junto ou tem uma machamba vizinha. A pergunta certa a fazer é: “O que podemos fazer já na próxima segunda-feira com 500,00 MT?” Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito. A machamba do futuro nasce da conversa de hoje.
E se parássemos tudo… para começar de novo?
Por Deolindo Paúa Nos últimos anos, a nossa situação como sociedade tem demonstrado uma deterioração em quase todos os âmbitos. O que se supunha ter sido conquistado parece estar em declínio e, até ao momento, tornou-se difícil prever o nosso futuro. A Perda das Conquistas Há poucos anos, quando olhávamos para o caminho que Moçambique tem trilhado, reclamávamos pelo facto de o desenvolvimento ser localizado. Todas as críticas e reclamações direccionavam-se para a existência de crescentes desigualdades — não apenas no acesso às oportunidades, mas também na falta de abrangência do desenvolvimento às zonas periféricas. Sabíamos que, desde a independência, houve conquistas. O problema era que tais avanços estavam localizados e personalizados, sendo propriedade quase absoluta de alguns. Bom emprego, saúde de qualidade, educação de primeira, cidades condignas, os melhores salários e oportunidades de financiamento — em suma, os melhores serviços públicos — tinham (e ainda têm) donos; beneficiários quase naturais a quem a “cor da bandeira” serve. Outros moçambicanos sempre viveram em serviços periféricos. Nessa ocasião, qualquer moçambicano sabia que o nosso pior problema era a desigualdade. Saúde e Educação: O Retrato da Nossa Desgraça Hoje, percebe-se que, em vez de se criar a tão reclamada igualdade, nem sequer se consegue manter o pouco que se havia conquistado. Estamos numa viagem de regresso à desgraça colectiva, ao sermos incapazes de prover serviços básicos necessários para a sobrevivência de uma nação, como a saúde, a educação e a segurança. – Um sistema de saúde em colapso: Num passado recente, exigíamos que o Governo levasse assistência médica ao meio rural. Hoje, os poucos hospitais que existiam tornaram-se apenas paredes. A qualidade da assistência baixou devido ao elevado índice de corrupção, e o Executivo tornou-se incapaz de oferecer condições para um atendimento hospitalar básico. Nos hospitais, morre-se por negligência e corrupção, mas também por falta de medicamentos elementares, como gessos, paracetamol ou antimaláricos. – Um ensino que não oferece conhecimento: As escolas perderam a importância estratégica que deveriam ter. Os programas actuais demonstram, claramente, um investimento na analfabetização das crianças. Um relatório de 2021 indicava que apenas 6 em cada 100 crianças do ensino primário sabiam ler e escrever. Esta tendência não melhorou, pois a qualidade dos professores continuou a baixar. O sistema de educação transformou-se numa oportunidade de enriquecimento por meio de comissões, e as escolas passaram a ser locais de consumo de drogas ou prostituição, em vez de moldarem sonhos e profissões. Um Passo Diário para o Fundo do Poço Não existe sociedade próspera sem educação e saúde. Uma governação que sabota essas esperanças é, sem dúvida, um projecto de sabotagem à Pátria. A nossa situação só se resolve com uma paragem para reflectir: precisamos de pensar sobre a nossa origem e sobre onde queremos chegar. Até aqui, todos os esforços aparentes não sortiram efeito. Andamos num círculo vicioso de soluções provisórias e inadequadas. Insistimos em atribuir tarefas importantes de desenvolvimento a pessoas manifestamente incompetentes, governando no interesse próprio e não no da Pátria. Enquanto investirmos mais na protecção do poder do que na protecção da Pátria, Moçambique continuará a cair na anarquia e na pobreza. O reencontro e o recomeço parecem ser as únicas soluções ajustadas para termos o nosso País de regresso. “E se parássemos tudo… para começar de novo?” Deolindo Paúa assina uma análise frontal sobre o estado actual de Moçambique, onde o declínio da saúde, a sabotagem da educação e a inversão de valores ameaçam o futuro da Pátria. Um diagnóstico urgente que aponta a corrupção e a incompetência como os principais motores da nossa desgraça colectiva.
abr 16 2026
Autossustentabilidade: A gestão das iniciativas locais
Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo No número anterior, apresentamos a iniciativa uma comunidade, uma machamba. Conforme sublinhamos é uma iniciativa que muito tem ajudado algumas das nossas comunidades rurais ou peri-rurais. Contudo, estas iniciativas locais têm enfrentado um grande problema, sobretudo no que concerne a gestão: Quem deve gerir? Como guardar o dinheiro? Em que aplicar? Como justificar ou prestar contas? Estas e outras perguntas não se calam e que, por vezes, podem gerar conflitos nas comunidades. Como sanar esta preocupação? A primeira coisa a fazer é perceber que as nossas comunidades rurais são constituídas, muitas das vezes, por gente muito simples, gente que está habituada a uma economia doméstica muito simples: produziu, consumiu. Os que chegam a vender, por vezes, tudo vendem sem um mínimo de stock para eventuais situações e, chegado o tempo da fome, compram os mesmos produtos a um preço muito superior ao que tinham vendido. Por outra, a maioria parece não estar preparada para o associativismo ou cooperativismo. Por isso muitos que levam a cabo tais iniciativas, sejam eles anciãos ou animadores, chegados a época das campanhas, enfrentam sérios problemas. A segunda coisa a fazer é munir as comunidades de uma educação económica sustentável e os líderes de uma gestão inclusiva. A educação económica sustentável tem de ser guiada por alguns princípios: a busca pelo bem comum, o sentido de pertença à comunidade ou ao grupo, incentivos de trabalho, etc. A gestão inclusiva dos líderes exige, por sua vez, uma visão estratégica, o envolvimento da comunidade na escolha de prioridades e tomada de decisões que visam a aplicação dos bens alocados. A terceira coisa a fazer é a prestação de contas. Este aspecto tem sido um grande “calcanhar de Aquiles” da gestão nas nossas comunidades locais. Muitas vezes ouvimos, fulano ou sicrano “comeu ou está a comer o nosso dinheiro”. O facto de ter ciente que o dinheiro e os bens pertencem à comunidade é já um grande passo na autossustentabilidade pois todos são chamados a prover à mesma do necessário. Mas isto exige que os detentores dos bens façam a devida prestação de contas, justificando o uso do dinheiro e, sempre que possível, documentado e não usem os bens comuns como bens próprios. Uma boa gestão inspira as pessoas, cria um ambiente saudável de colaboração e se foca em soluções, busca oportunidades e crescimento da comunidade, transforma desafios em oportunidades e faz com que as pessoas se sintam capazes de realizar coisas grandiosas.
MULHERES QUE SUSTENTAM O PAÍS COM A VOZ
Por: Kant de Voronha Março e Abril chegam sempre com uma luz especial. Março traz o Dia Internacional da Mulher e Abril recorda-nos o poder da palavra e da comunicação na vida moçambicana. Quando olhamos para o nosso país com mais atenção, percebemos que estes dois meses não se podem separar. A mulher é, há séculos, a grande comunicadora da vida: é ela quem transmite valores, educa, partilha saberes, resolve conflitos, consola, encoraja, vigia, avisa e preserva a história oral. É também ela que domina a palavra doméstica, comunitária, religiosa e cultural. Por isso, juntar estes dois meses numa só reflexão não é apenas conveniente: é justo. A verdade é simples e profunda: a mulher moçambicana é uma ponte entre a vida e o futuro. E a sua voz é um dos instrumentos mais importantes para a construção da paz, da harmonia e da dignidade no país. A mulher que carrega o mundo sem fazer barulho Todos sabemos, mesmo sem estatísticas, que grande parte do peso do país assenta nos ombros das mulheres. São elas que acordam mais cedo, carregam bidões de água, fazem longas filas nos mercados, trabalham na machamba, sustentam a economia informal, organizam o lar, tratam dos filhos, ajudam os vizinhos e ainda encontram força para cantar, rezar e sorrir. O curioso é que tudo isto acontece quase sempre em silêncio. As mulheres trabalham numa espécie de heroísmo diário que raramente é reconhecido. A sociedade habituou-se tanto à sua resistência que, muitas vezes, nem percebe a injustiça de esperar tanto delas. Quando celebramos Março, não estamos apenas a elogiar as mulheres; estamos a admitir que, muitas vezes, falhamos com elas. O poder invisível da voz feminina Abril convida-nos a falar da comunicação. E aqui, novamente, encontramos a mulher no centro da conversa. A casa funciona porque a mulher comunica. O bairro mantém paz porque as mulheres conversam, aconselham, acalmam, chamam à razão. As igrejas têm vida porque as mulheres rezam, cantam, catequizam e animam. Os mercados sobrevivem porque as mulheres negociam, discutem preços, partilham informações e seguram a economia informal. Em muitas famílias, a figura que transmite valores como respeito, disciplina, fé, solidariedade e responsabilidade é a mãe ou a avó. É ela quem diz frases que moldam a personalidade dos filhos: “não mintas”, “trabalha com honestidade”, “não faltes ao respeito”, “não te metas em confusão”, “não explores ninguém”, “não desprezes quem sofre”. A comunicação feminina é formadora. Educa mais do que muitos programas oficiais. A mulher que enfrenta medos que não contam nas estatísticas A realidade da mulher moçambicana também tem sombras pesadas: violência doméstica, casamentos prematuros, assédio, desigualdades no emprego, exclusão de oportunidades, carga mental desproporcional, pobreza extrema, acesso limitado à educação e injustiça social. Muitas destas situações permanecem escondidas porque as vítimas têm medo de falar — ou porque não acreditam que alguém as irá ouvir. E aqui o tema da comunicação volta a aparecer: o silêncio imposto às mulheres é uma das formas mais cruéis de violência. Um país cresce quando a voz das mulheres é respeitada, escutada e protegida. Mulheres no jornalismo, na rádio e na comunicação comunitária Moçambique tem visto crescer o número de mulheres no jornalismo, na rádio e noutras formas de comunicação pública. Este avanço é importante porque a presença feminina muda, de forma positiva, a forma como contamos a realidade. As mulheres jornalistas tendem a abordar temas muitas vezes esquecidos: problemas de saúde materna, a luta das famílias pobres, as dificuldades das raparigas na escola, os desafios da violência baseada no género, a economia doméstica, a vida comunitária, os sentimentos das pessoas, as dores silenciosas. Quando uma mulher comunica, a sociedade ouve assuntos que antes eram ignorados. Mas ainda há desafios: desigualdade salarial, assédio nas redações, falta de oportunidades de liderança e a necessidade de maior segurança no terreno, especialmente nas zonas afectadas por violência ou instabilidade. A palavra como arma e como remédio No nosso contexto, a palavra pode ser cura ou ferida. Pode levantar ou derrubar. Pode orientar ou enganar. E muitas mulheres são vítimas de palavras que ferem: insultos, humilhações, ameaças, mentiras, fofocas destrutivas, manipulação emocional. Esta violência verbal é tão séria quanto a física, porque destrói lentamente a dignidade. Mas também há palavras que curam: palavras de apoio, encorajamento, solidariedade e esperança e a maioria destas palavras vêm das mulheres. Quando uma mulher diz “vai ficar bem”, a comunidade inteira respira melhor. A comunicação feminina como força de paz Em tempos de conflitos armados ou tensões comunitárias, quem cuida primeiro dos feridos, quem consola os vizinhos, quem garante que as crianças mantêm alguma rotina, quem organiza grupos de ajuda, quem procura informação para proteger a família? As mulheres. São elas que entendem que a paz não nasce de discursos: nasce de gestos pequenos, de palavras serenas, de reconciliações discretas, de coragem silenciosa. Se queremos promover paz em Moçambique, precisamos de ouvir mais as mulheres e aprender com elas. A fé feminina que sustenta a comunidade Nas paróquias, comunidades eclesiais, grupos de oração, cânticos e actividades sociais, a força motriz é feminina. A fé das mulheres não é apenas espiritual; é prática. É fé que cozinha para funerais, que acolhe órfãos, que visita doentes, que organiza coros, que mantém viva a tradição de celebrar, rezar e agradecer. Através da palavra de fé, elas transmitem esperança num país onde a vida é, muitas vezes, dura demais. Desafios que ainda pedem resposta Para honrar verdadeiramente as mulheres, não basta celebrar Março e Abril. É preciso transformar a realidade. Entre os maiores desafios estão: Garantir educação plena para raparigas; combater casamentos prematuros; criar mecanismos sérios contra a violência doméstica; apoiar mulheres empresárias e agricultoras; aumentar o acesso das mulheres à terra e ao crédito; valorizar o trabalho doméstico, que sustenta milhões; fortalecer a presença feminina em cargos de decisão; proteger a palavra das mulheres: o direito de falar sem medo. A palavra da mulher é património nacional Quando pensamos bem, percebemos que a voz feminina moçambicana é um património cultural. É pela voz das mulheres que as
abr 08 2026
Mulher: Tesouro precioso da sociedade
Por: Coordenação Esta edição única da Vida Nova, que une os meses de Março e Abril, convida-nos a olhar para a mulher com atenção renovada. Março lembra-nos o Dia Internacional da Mulher, a 8, e Abril convoca-nos para o Dia da Mulher Moçambicana, a 7. Duas datas próximas no calendário, mas sobretudo unidas por uma mesma urgência reconhecer, valorizar e proteger a dignidade da mulher, em todas as circunstâncias da vida. Em Moçambique, falar da mulher é falar do centro silencioso da família e da comunidade. É falar da mãe que sustenta o lar, da camponesa que trabalha a terra, da vendedora que garante o pão diário, da catequista que transmite a fé, da jovem que sonha com um futuro melhor. Mas é também falar da mulher que sofre mais quando o País é ferido por desastres naturais e pela violência armada. As cheias e inundações que recentemente atingiram o Centro e o Sul do País deixaram marcas profundas. Casas destruídas, campos perdidos, famílias deslocadas. Nestes cenários, a mulher aparece muitas vezes como a primeira a organizar a sobrevivência. Cuida das crianças, dos idosos, procura água, alimento, abrigo. Faz tudo isto em condições duras, com poucos recursos e, não raras vezes, sem voz nas decisões que afectam a reconstrução. A crise ambiental não é neutra. Pesa mais sobre quem já vive em situação de fragilidade. O Magistério da Igreja tem-nos recordado, de forma clara, que o cuidado da casa comum é inseparável do cuidado das pessoas. Quando a terra é maltratada, quando os rios transbordam por falta de protecção ambiental, quando o clima se torna imprevisível, os pobres sofrem primeiro. E entre os pobres, as mulheres sofrem mais. Cuidar do ambiente é, portanto, um acto de justiça. É uma escolha moral que protege a vida, hoje e amanhã. Ao mesmo tempo, o terrorismo que desde Outubro de 2017 assola Cabo Delgado, atingindo também Memba, tem deixado um rasto de dor difícil de descrever. Deslocações forçadas, famílias desfeitas, medo permanente. Mais uma vez, as mulheres carregam um peso particular. Muitas perderam maridos e filhos, outras foram obrigadas a fugir, deixando tudo para trás. Mesmo assim, continuam a ser fonte de resistência, de cuidado e de esperança nos centros de acolhimento e nas comunidades feridas. A Igreja ensina-nos que não pode haver verdadeira paz sem justiça. A violência não se combate apenas com armas, mas com dignidade, inclusão e solidariedade. Promover a paz em Cabo Delgado passa por escutar as populações, valorizar o papel das mulheres na reconstrução do tecido social e criar condições para uma vida segura e digna. A mulher não é apenas vítima da guerra. É também artesã da paz, quando lhe é dada oportunidade. Neste tempo marcado por desafios ambientais e humanos, somos chamados a uma solidariedade concreta. Celebrar a mulher nestes dois meses não é apenas um gesto simbólico. É um compromisso. Compromisso com a vida, com a justiça, com a paz e com o cuidado da criação.


