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A mulher no Diálogo: Um Sinal para Paz e Reconciliação nas Famílias Moçambicanas

Mónica Alexandre Meque Desde os tempos remotos, entre os séculos V e IV a.C., o diálogo vem assumindo um papel imprescindível na vida da humanidade em diferentes esferas (social, política, económica), mostrando-se um vector de união, reconciliação e estabilidade na sociedade. A mulher, por vezes marginalizada desta arena, ocupou um papel reconciliador fundamental nesta longa história.   Nos dias que correm, com o crescente desenvolvimento das tecnologias de comunicação no mundo em geral (redes sociais como WhatsApp, Instagram, Facebook, etc.) aliado ao seu mau uso, as famílias já não se encontram; os princípios e os valores éticos e morais tendem a perder-se. Neste cenário constrangedor, a mulher surge como um fermento que leveda a massa por dentro. Ela, como guardiã de valores e princípios, actua discretamente, buscando tornar o encontro familiar não uma ocasionalidade, mas uma possibilidade efectiva.   Em Moçambique, em particular, os conflitos pós-eleitorais, a pobreza, o desemprego e as tecnologias de comunicação acima mencionadas concorrem para a ausência da paz e para a urgência da presença de um diálogo saudável e efectivo. Mas o que é o diálogo?   O diálogo é nada mais do que a escuta e o perdão. É o saber ouvir e acolher, o conhecer e não julgar. Uma ferramenta ou mecanismo que nos permite voltar a amar, viver e comungar com o nosso irmão. O texto de Mt 18 explica que o diálogo é o único mecanismo legítimo para a reconciliação; através dele é possível encontrar a paz e a harmonia, e nele identificar a presença de Jesus Cristo. Mas o que é a paz e qual a sua relevância para a sociedade?   A paz e a reconciliação são elementos indispensáveis e inegociáveis na vida do ser humano e da sociedade em geral. Elas assumem o estado de conformidade da tranquilidade e da harmonia económica, social e política. Porém, quando olhada no seu sentido particular, a paz pode ser relativa, dependendo de indivíduo para indivíduo.   A reconciliação, por sua vez, reside na reconstrução e no perdão ao próximo, permitindo a retoma da tranquilidade e da harmonia entre as partes. Aqui centra-se um papel fundamental da mulher. Muitas vezes, vemos a mulher como o elo de reconciliação familiar entre o pai e os filhos, por exemplo. É ela quem sabe fazer acalmar a voz do pai quando este está exaltado. É ela quem toma a dianteira na negociação dos desejos dos filhos junto do marido. Ela sabe como se expressar para que a mediação possa surtir o devido efeito.   No nosso contexto moçambicano em geral, e no das famílias moçambicanas, a reconciliação e a paz revelam-se elementos e ferramentas imprescindíveis para a harmonia, tranquilidade e desenvolvimento da sociedade. Sem paz não se pode falar ou pensar em desenvolvimento, pois sem ela não há investimentos, educação, saúde, etc. O verdadeiro diálogo comporta o caminho do perdão, da aproximação, da escuta e da comunhão.   O perdão deve ser o pão de cada família moçambicana, de cada governante; aquele que orienta as acções e as decisões de um lar, dos pais e da nação. É a partir do perdão que nasce a paz e através dele que também a restauramos. Uma família que não se comunica é uma família vazia; um irmão ou ser humano que não ouve e pouco sente o choro do seu irmão é um ser humano sem empatia.   Por isso, é cada vez mais necessário que tanto as famílias como os políticos conheçam e aceitem o verdadeiro caminho para a paz e a reconciliação. Não o ignorem nem façam pouco uso dele. É preciso um diálogo despido de poder, razões, artimanhas, orgulho, preconceito e ressentimento; mas sim, um diálogo repleto de humildade, empatia, escuta, aproximação, perdão e reconciliação.   Somente aceitando o caminho do verdadeiro e sustentável diálogo, guiados pela sensibilidade e firmeza do rosto materno da mulher, se pode conhecer o seu real sentido e alcance. Que cada mulher moçambicana continue a ser esse sinal vivo e inestimável, capaz de cultivar, restaurar e preservar a paz e a reconciliação no seio das nossas famílias e da nossa nação.

out 01 2026

COMBATER A CORRUPÇÃO? SÓ COM ACÇÕES!

Por Thomas Selemane No encerramento da 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, realizada em Chimoio, o Presidente do partido, Daniel Chapo, fez uma declaração forte sobre a corrupção: “Na Frelimo não queremos corruptos. Não há lugar para ladrões. Não queremos traficantes de drogas, plateia para lambe-botas, porque não é santuário de criminosos”. Acrescentou que, naquilo que chamou de “nova era”, cada membro deverá responder individualmente pelos crimes que cometer. São palavras importantes. Sobretudo porque o próprio Presidente reconhece que a conduta de alguns membros tem prejudicado a imagem da Frelimo. Mas o combate à corrupção em Moçambique já não precisa de mais discursos. Precisa de acções. Durante décadas, ouvimos dirigentes declararem guerra à corrupção. Foram aprovadas leis e estratégias. Foram criados gabinetes, procuradorias, inspecções e outras instituições. Apesar disso, a corrupção continua sendo um dos principais problemas do país. É aqui que o discurso de Chimoio enfrenta o seu verdadeiro teste. Da declaração à regra O Congresso Nacional Africano (ANC) adoptou a chamada “Step Aside Rule” (o equivalente a uma regra de afastamento). A ideia é simples: um membro do ANC formalmente acusado perante um tribunal por corrupção ou outro crime grave deve afastar-se das suas responsabilidades enquanto o processo decorre. Quem não o fizer voluntariamente pode ser suspenso. Não significa considerar culpado quem ainda não foi condenado. Significa separar duas coisas: a responsabilidade criminal e a política. A responsabilidade criminal cabe aos tribunais. Até haver condenação, prevalece a presunção de inocência. Mas um partido pode estabelecer regras mais rigorosas para quem exerce funções políticas em seu nome. Quando o antigo Secretário-Geral do ANC, Ace Magashule, contestou a sua suspensão, o Tribunal Superior de Gauteng rejeitou a sua pretensão. A regra continua a ser aplicada pelo ANC. Então, por que a Frelimo não pode fazer o mesmo? Será pelo número e pelo peso político dos membros abrangidos? Abanar a árvore? Em Chimoio, Daniel Chapo usou a expressão “abanar a árvore” ao falar sobre a renovação da Frelimo. A metáfora é interessante. Mas não basta anunciar que se vai abanar a árvore. Se “na Frelimo não queremos corruptos”, essa intenção deve ser transformada em regra. A Frelimo poderia adoptar um princípio simples: qualquer membro formalmente acusado perante um tribunal por corrupção ou outro crime grave seria suspenso dos cargos partidários e das funções públicas que exerce por indicação ou representação política do partido enquanto decorresse o processo. Se fosse absolvido, recuperaria os seus direitos partidários. Se fosse definitivamente condenado, seria expulso da Frelimo. A regra deveria aplicar-se a todos: membros da Comissão Política e do Comité Central, ministros, deputados, governadores, presidentes de municípios e outros dirigentes. Sem excepções. Sem protecção aos “camaradas”. Independentemente do cargo ou da influência do acusado.   Presunção de inocência não é presunção de cargo Alguns poderão dizer que suspender um arguido viola a presunção de inocência. Não viola. A pessoa continuaria a beneficiar de todos os direitos de defesa perante os tribunais. A suspensão seria uma medida política e temporária para proteger a credibilidade do partido e das instituições. A presunção de inocência não implica direito automático de permanecer no cargo. Há também outra razão importante. Um dirigente politicamente poderoso, mantendo o cargo enquanto enfrenta um processo, pode exercer influência sobre pessoas, documentos ou instituições relevantes para o caso. Mesmo que essa influência nunca seja utilizada, a simples suspeita prejudica a confiança dos cidadãos. Afastar temporariamente não é condenar. É proteger o processo e as instituições.   Uma zona libertada da corrupção? A Frelimo conhece bem, pela sua história, a expressão “zonas libertadas”. Durante a luta de libertação nacional, eram territórios onde uma nova ordem começava a ser construída. Daniel Chapo tem agora a possibilidade de dar à expressão um significado diferente. Se pretende realmente mudar a relação da Frelimo com a corrupção, deve começar por transformar o próprio partido numa zona libertada da corrupção. Mas isso não acontecerá por meio de discursos. Não basta dizer que não há lugar para corruptos se pessoas formalmente acusadas continuam a ocupar posições políticas na Frelimo, e muitas delas na Administração Pública. Não basta condenar ladrões nos discursos se as pessoas condenadas pelos tribunais continuam politicamente protegidas. Uma regra desta natureza não acabaria, por si só, com a corrupção em Moçambique. Mas faria algo fundamental: mostraria que a Frelimo está disposta a iniciar o combate na sua própria casa. E deixaria claro que a pertença ao partido não pode servir de escudo perante a justiça. Muito menos um caminho para o enriquecimento ilícito.   Portanto, suspenda formalmente os membros acusados perante os tribunais. Expulse os definitivamente condenados por corrupção e por outros crimes graves. Coloque essa obrigação nos Estatutos. E aplique-a a todos, independentemente do cargo, da história ou da influência. Só assim se poderá começar a falar de uma nova era. Porque a corrupção não se combate com adjectivos. Só mesmo com acções!

set 23 2026

A planificação de pequenos projectos: A sementeira

Pe. Sérgio Vilanculo Todo o projecto exige planificação. O trabalhar a terra também exige planificar-se, mesmo que certas coisas não dependam exclusivamente do camponês. Setembro chega e, com ele, chega o tempo de começar a preparar a terra, pensar nas culturas a produzir e garantir as sementes. Uma boa colheita requer igualmente uma boa planificação e muito esforço. Há um provérbio macua que diz o seguinte: “Quando tu vês o teu vizinho ou as pessoas a irem à machamba, tu também faz o mesmo. Porque não há nada de graça que caia do céu, a não ser a chuva para ajudar naquilo que tu começaste”. As pequenas comunidades começam a agitar-se; vê-se por toda a parte fumaça resultante das queimadas. São as pessoas a preparar o meio. Apesar de ser uma prática bastante contestada ultimamente, é o começo do trabalho. Além da preocupação com a terra, a atenção volta-se para a escolha da cultura, que está também aliada ao terreno a ser cultivado, de modo que as primeiras chuvas te encontrem já devidamente preparado. Convém sempre adquirir as sementes quanto antes. Ora vejamos: por vezes, a chuva começa no princípio de Outubro. Normalmente, na chamada “primeira campanha”, os preços de compra de sementes começam a subir, independentemente do tipo de semente. Por exemplo, o amendoim que tu vendeste a 50,00 MT/Kg, neste tempo podes comprá-lo por 100,00 MT ou 150,00 MT/Kg. Contudo, passada esta, segue-se a segunda campanha em Novembro e pode ir até uma terceira campanha, independentemente de quando tu começas a preparar o teu terreno. O ideal é ter as sementes guardadas em casa; isso torna o processo mais fácil e poupa mais dinheiro e mais esforço. Pois, depois de ter preparado o terreno, começas a preparar (descascar, nesse caso) a semente para que, logo que venha a chuva, comece a sementeira. A vantagem deste tipo de sementes é que não precisam de produtos químicos para sair bem; o que precisam é de chuva normal e boa sacha. Por isso, é sempre bom pensar numa boa gestão e numa prudência aguçada: quando temos a colheita, além de vender tudo, podes optar por vender uma metade e a outra metade guardar para a outra fase das sementeiras. Por exemplo, se alguém conseguiu mais ou menos 5 sacos de amendoim, vende dois sacos e três sacos ficam consigo. Por isso vale a nota: vale mais a pena guardar a semente em casa do que comprá-la caro depois. Um outro aspecto a ter em conta é o factor capital e pessoal. É tempo de sonhar um pouco mais alto: tempo de passar de projectos de subsistência a projectos que rentabilizem mais. Se para esta campanha eu contava com dois sacos de sementes, na próxima apostarei em cinco e, consequentemente, terei de aumentar o pessoal. Assim, o empreendimento crescerá mais. No próximo número aprofundaremos este trampolim.

set 21 2026

O SONHO DE UM PAÍS QUE QUER VIVER EM PAZ

Por: Kant de Voronha Setembro chega sempre com uma luz diferente. Há um brilho maduro no céu, um calor que começa a regressar devagar, uma pressa da natureza em lembrar-nos que o ciclo agrícola está prestes a recomeçar. É um mês de preparação: o agricultor olha para o solo, sente a humidade, observa as nuvens que ainda tardam. É o mês das decisões; semeia-se esperança mesmo antes de semear o milho. Mas Setembro, para nós, com as mudanças climáticas, não é apenas o mês do agricultor. É também o mês das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), o mês em que o país pára por um instante para olhar para quem veste a farda e guarda a fronteira, para quem patrulha a madrugada, para quem protege povoações inteiras das ameaças que teimam em surgir, ora vindas da violência armada, ora do crime organizado, ora das tensões territoriais. E assim, sem qualquer exagero, Setembro torna-se o mês que une duas realidades essenciais para a sobrevivência do país: terra e segurança. Porque um país que não defende a sua terra não colhe o seu alimento. E um agricultor que vive com medo não consegue produzir nada além de ansiedade.   A agricultura é a espinha dorsal de Moçambique Todos repetem esta frase, mas poucos compreendem a sua profundidade. Não é apenas uma actividade económica; é uma cultura, uma identidade, um modo de existir. É da terra que vêm o pão, o emprego, a paz social, a economia familiar, a segurança alimentar e a dignidade de milhões de moçambicanos. Contudo, a agricultura ainda vive num estado de sobrevivência. Sobrevive ao clima imprevisível. Sobrevive às pragas e às cheias repentinas. Sobrevive à falta de insumos, de assistência técnica, de mercados estáveis. Sobrevive à distância entre a aldeia produtora e a cidade consumidora. Sobrevive às queimadas descontroladas, ao desmatamento, à erosão que engole campos inteiros. E, em alguns distritos de Cabo Delgado e Nampula, sobrevive também ao conflito armado, esse inimigo silencioso que destrói não apenas infra-estruturas, mas também a alma da comunidade. Setembro recorda-nos que a agricultura não precisa apenas de chuva. Precisa de paz. Precisa de protecção. Precisa de estabilidade. E é aqui que entra a ponte com as Forças Armadas. As Forças Armadas não guardam apenas fronteiras; guardam a soberania alimentar. Quando combatem o terrorismo no Norte, não estão apenas a defender quilómetros de terra — estão a proteger machambas, aldeias, famílias, mulheres que carregam lenha, crianças que caminham para a escola, jovens que querem apenas cultivar a vida. É impossível falar de agricultura em Moçambique sem falar de segurança. E é impossível falar de segurança sem reconhecer a importância das FADM no tecido social. O agricultor pode ter sementes, pode ter vontade, pode ter força; mas se não tiver paz, nada brota. A farda militar e a enxada agrícola, embora pertençam a mundos diferentes, são irmãs no propósito: ambas trabalham para a sobrevivência do país. Mas, apesar da sua importância, o agricultor continua sem apoios consistentes. A produção nacional não acompanha a demanda. A dependência de importações aumenta. A juventude rural migra para a cidade porque a terra já não parece prometer futuro. E o próprio país parece ter esquecido que o desenvolvimento sustentável começa com uma enxada, não com uma torre de vidro. Setembro obriga-nos a encarar uma verdade desconfortável: somos um país agrícola que não investe suficientemente na agricultura. E enquanto isso continuar, a fome ocasional, a inflação dos alimentos, a vulnerabilidade climática e a pobreza estrutural continuarão a ser companheiras de viagem. Mas Setembro também é um mês de esperança. A terra continua fértil. O povo continua trabalhador. E, mesmo diante das adversidades, há sinais de resistência: cooperativas que renascem, jovens que regressam à agricultura com tecnologias novas, projectos de irrigação comunitária, mulheres que lideram associações rurais, pequenos agricultores que inovam sem esperar por promessas governamentais. Ao mesmo tempo, as FADM vão-se profissionalizando, reestruturando, dialogando mais com as comunidades, reconhecendo que a defesa nacional não se faz apenas com armas, mas também com presença, proximidade e respeito pelo povo que protegem. E assim, este Setembro obriga-nos a pensar numa nova equação:   Como construir um país onde a terra esteja segura e o cidadão também? Uma agricultura fortalecida garante a paz social. Uma força armada preparada garante a estabilidade. E a estabilidade gera desenvolvimento. A grande pergunta que este mês nos deixa é simples, mas profunda: quando teremos coragem para assumir que a independência económica, a verdadeira, começa na terra e na segurança? Porque, se a independência política foi conquistada em 1975, a independência alimentar ainda está por conquistar. A independência económica ainda está por construir. E a independência social ainda está por lapidar.   E agora? O país não pode ficar eternamente dependente da chuva, nem eternamente dependente da ajuda externa. Precisamos de responsabilidade interna. Precisamos de uma gestão coerente. Precisamos de uma liderança capaz de transformar o solo produtivo em motor do desenvolvimento. E precisamos de paz — a paz que nasce não só do silêncio das armas, mas da presença visível de um Estado que protege, inclui e cuida. Setembro, com o seu misto de vento seco e esperança verde, lembra-nos que Moçambique tem duas grandes forças: o povo que cultiva e o povo que defende. Se estas duas forças caminharem juntas, não haverá fome que vença, não haverá crise que derrube, não haverá ameaça que destrua. Porque, no fim, a realidade é esta: sem uma agricultura forte, o país passa fome; sem uma segurança forte, o país perde a alma. Setembro é o mês que nos pede para unir as duas. E para acreditar que, juntas, podem transformar Moçambique num país verdadeiramente independente — da terra ao espírito.

set 08 2026

A Palavra que reconcilia, a Casa Comum que nos une

A coordenação O mês de Setembro convida-nos, de modo muito especial, a voltar o coração para a Palavra de Deus. A Bíblia não é apenas um livro antigo nem uma colecção de histórias do passado. Ela é a voz viva de Deus que continua a iluminar os caminhos da humanidade, a fortalecer a esperança e a indicar o rumo para uma vida mais justa, mais fraterna e mais solidária.   Vivemos tempos marcados por muitos desafios. O nosso País continua a procurar caminhos seguros para consolidar a paz, fortalecer a reconciliação e construir uma verdadeira unidade nacional. Ao mesmo tempo, enfrentamos problemas ambientais que ameaçam a vida das pessoas, das comunidades e das futuras gerações. A degradação das florestas, a poluição, as mudanças climáticas e a exploração irresponsável dos recursos naturais recordam-nos que a criação não é propriedade de alguns, mas um dom de Deus confiado a todos.   Foi precisamente esta preocupação que levou o Papa Francisco a oferecer à Igreja e ao mundo a Encíclica Laudato Si’. Nela somos convidados a compreender que tudo está interligado. Não podemos separar o cuidado da natureza do cuidado das pessoas, sobretudo dos pobres, dos doentes, dos idosos e das crianças. Quando destruímos a criação, também ferimos a dignidade humana. Quando protegemos a vida, protegemos igualmente a obra do Criador.   Mas não haverá verdadeiro cuidado da Casa Comum sem corações reconciliados. A paz começa no interior de cada pessoa, cresce na família, fortalece-se nas comunidades e produtos e produz frutos na sociedade. A reconciliação não significa esquecer o passado, mas decidir construir um futuro onde prevaleçam o perdão, a justiça, a verdade e o respeito mútuo. Um povo dividido desperdiça energias; um povo unido encontra força para vencer as dificuldades e alcançar o desenvolvimento.   A Palavra de Deus oferece-nos esta sabedoria. Ela ensina-nos que todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, somos irmãos. Não há lugar para o ódio, para a exclusão, para a violência ou para a indiferença. O cristão é chamado a ser construtor de pontes, promotor do diálogo e testemunha da esperança. A fé que professamos deve traduzir-se em gestos concretos de amor, de respeito pela criação e de compromisso com o bem comum.   Neste mês da Bíblia, somos convidados a renovar o hábito da leitura diária das Sagradas Escrituras. Uma família que reza com a Palavra de Deus torna-se mais unida. Uma comunidade que escuta a Palavra torna-se mais missionária. Uma nação que se deixa iluminar pelos valores do Evangelho fortalece a justiça, a paz e a solidariedade.   Que Maria, Mãe da Igreja e Rainha da Paz, nos acompanhe neste caminho de conversão. Que aprendamos a ouvir a Palavra de Deus, a cuidar da Casa Comum e a trabalhar, todos os dias, pela reconciliação e pela unidade nacional. Assim construiremos um Moçambique mais humano, mais fraterno e mais fiel ao projecto de Deus para o seu povo.   Unidos na fé!

set 02 2026

ECOLOGIA: TEMPO DA CRIAÇÃO 2026

Pe. Massimo Robol, mccj O Tempo da Criação é a celebração ecuménica anual que envolve cristãos de várias Igrejas e comunidades eclesiais para rezar e responder juntos ao clamor da Terra. A celebração começa a 1 de Setembro, considerado por algumas denominações cristãs como o Dia Mundial de Oração pela Criação e por outras como a Festa da Criação, e termina a 4 de Outubro, Festa de São Francisco de Assis. O tema do Tempo da Criação de 2026 é “Água viva”, e baseia-se na passagem do Livro do Profeta Ezequiel 47, 9-12. O tema, “Água Viva”, é inspirado numa visão bíblica de esperança e cura ecológica. No meio do exílio e de uma grande perda, a imagem da água viva que flui do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água e a biodiversidade, bem como a responsabilidade humana para com toda a criação. A visão de Ezequiel é, em última análise, de esperança; entrar no rio lembra-nos o baptismo. Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo, isto é, a cura de Deus, então “rios de água viva” também fluirão do nosso coração. À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura das outras pessoas e da criação. De facto, o Tempo da Criação é também um momento oportuno para a proximidade fraterna e a solidariedade com as pessoas vulneráveis e pobres, principalmente aquelas que sofrem com a degradação ambiental. Todavia, a visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas, 2,1 biliões de pessoas ainda não têm acesso a água potável segura. Isto representa uma em cada quatro pessoas no mundo! Com o aumento das alterações climáticas e o incremento da extracção de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica”, ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural. A crise hídrica afecta de forma desproporcional, sobretudo, as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e todas as formas de vida que não têm voz nos sistemas políticos ou económicos. O facto de subestimar a importância da preservação e da boa gestão da água traz consigo muitos desafios: o impacto na saúde das doenças transmitidas pela água contaminada; o impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios; o aumento do consumo de água impulsionado pela produção da energia necessária para as nossas actividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial; o impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar. Todos os cristãos são chamados a confrontar estes desafios e a rejeitar uma visão do mundo que trata a água como um recurso descartável, ou até mesmo como um produto que pode ser vendido com fins lucrativos. Torna-se fundamental promover a preservação, o uso responsável e a distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental. É assim que o Tempo da Criação se torna uma oportunidade para nos empenharmos na construção de um mundo mais justo e que dê vida a toda a família humana, bem como a toda a criação. Seria recomendável que também as lideranças religiosas fizessem um apelo público para denunciar a poluição prejudicial, e exigir que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água. Ao vencermos o medo e mergulharmos nas águas do amor de Deus, que possamos tornar-nos parte do Rio da transformação para o mundo, para testemunharmos a cura e a renovação da criação e a bênção da Terra. Entre no Tempo da Criação e visite o portal https://seasonofcreation.org/pt/, onde é possível encontrar material e ideias para participar da celebração.

ago 18 2026

As lágrimas de Raquel e o Despertar da Paz

Por: Mónica Meque Vivemos em tempos difíceis e de desafios constantes, num mundo onde a esperança da paz e da tranquilidade humana tende a desmoronar-se a cada dia. As armaduras da pobreza, do terrorismo, das angústias, das incertezas, da xenofobia e de outros males que apoquentam a sociedade tendem a vergar incessantemente o povo moçambicano. As recentes informações que nos chegam da vizinha África do Sul esmagam o coração de muitas mulheres, de muitas mães que esperavam o seu marido, o seu filho ou filha, o seu sobrinho e o seu neto voltarem triunfantes do prometido Eldorado, carregados de molhos de espigas de uma abundante colheita. Mas, infelizmente, algumas delas têm de enfrentar o terrível drama de receber em lágrimas os corpos dos seus entes queridos. Face a esta situação, o que pode ainda fazer a mulher? A profecia de Jeremias, num dos seus versículos, relata-nos um episódio que vale a pena recordar: “Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem” (Jer 31,15). O cenário repete-se. As personagens mudam. Hoje, já não é Raquel; é a África, é uma outra pobre mulher que chora amargamente e de forma inconsolável. Hoje não são as tribos do Norte de Israel chacinadas pelos assírios; são filhos da mesma Mãe-África a perpetrarem atrocidades fratricidas. Violência após violência! Como fica o coração de uma mãe? A mulher vive, hoje, numa sociedade onde o choro de um irmão já não nos toca o peito, onde o abraço de esperança virou uma troca de moeda, onde a família e a sociedade em geral se transformaram em lugares de julgamento e exclusão. Somos os acusadores e os defensores do crime alheio; somos os donos da verdade. Porém, não conhecemos a paz. Um lar de paz e harmonia é o que toda a mulher deseja para a sua família. Mas o que seria essa paz? Falar da paz não significa necessariamente ausência de armas, guerras, conflitos, discussões ou atritos sociais e familiares, mas refere-se igualmente à observância da tranquilidade e da ordem em todos os aspectos: individual ou interior, social, político e religioso. Nenhuma mulher gosta de viver em ambientes de hostilidade. Ela é, por natureza, acolhedora, protectora, promotora e integradora de paz e solidariedade. Sabemos que o povo moçambicano viveu e vive momentos turbulentos, desafios de natureza política, social, económica, financeira, cultural e até mesmo religiosa. Ninguém escapa ao caos. Os preços dos alimentos de primeira necessidade não param de aumentar; sobre o combustível, esse nem se pode comentar; o filho tende a julgar e a desonrar os seus pais; os pais não assumem a responsabilidade de criar e educar os seus filhos; os cônjuges fogem da fidelidade; a globalização surge com mais poder de decisão sobre os valores sociais e éticos da sociedade; enfim, o desespero vai tomando conta de cada cidadão moçambicano. Aliado a isto, um exemplo concreto revelou-se na vida dos moçambicanos aquando das manifestações pós-eleitorais das últimas eleições gerais. O povo moçambicano viveu momentos de aflição e de tensão jamais vistos, onde o desespero e a insegurança eram o único sentimento e alimento diário, fazendo com que os corações se tornassem menos esperançosos e mais angustiados. Podemos ainda acrescentar a este exemplo os recentes actos xenófobos que aumentam a violência e o luto, minando a irmandade. Mas como buscar a paz? Como reacender a esperança? Antes de mais, é preciso compreender que a paz é o amor; a paz é uma responsabilidade individual e colectiva que o ser humano deve conhecer e cultivar todos os dias. Ela constitui a chave-mestra para o bem-estar social e económico de toda a sociedade. Não se pode somente falar e gritar sobre a paz e a união, sem buscar acções concretas e mecanismos eficazes para que elas se materializem. A paz exige, não só da mulher como também de todos, a humildade e o amor a Deus. Desde a simples mulher até às lideranças governamentais, é crucial conhecer, compreender e aceitar a paz, colocando-a como uma agenda indispensável e inegociável para o bem-estar socioeconómico de todos os moçambicanos e da Região Austral. A promoção da cultura do diálogo, da partilha, do acolhimento e do aperfeiçoamento da fé torna-se cada vez mais indispensável na vida dos moçambicanos. Outrossim, não menos importante, a luta pela erradicação da fome, da iliteracia, do desemprego, a provisão de serviços essenciais de saúde, água e saneamento constituem caminhos que nos levam à paz e à integração nacional e regional. Por fim, é tempo de compreender que somente cultivando e fomentando a paz, o homem e a mulher, o moçambicano, o sul-africano e o africano em geral podem ter uma vida saudável, impulsionar o amor ao próximo e promover um país de Direito, justiça social e democracia. Só assim se tornará evidente que a responsabilidade pela paz efectiva é tarefa de cada um de nós, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou cor partidária. Não importa onde e quando, o coração do ser humano deve estar recheado de sentimentos saudáveis que o levem à paz, e somente assim conseguirá viver em paz e transmitir ao próximo essa mesma paz. Só assim calaremos e limparemos as lágrimas de Raquel dos nossos dias.

ago 05 2026

Dom Osório Citora Afonso: um Evangelho vivido ao serviço da Igreja

Por: Kant de Voronha Há vidas que não precisam de longos discursos para serem compreendidas. Basta contemplar o caminho que percorreram, as pessoas que tocaram e a esperança que semearam. Assim foi a vida de Dom Osório Citora Afonso. O seu ministério episcopal não pode ser reduzido aos anos em que governou a Diocese de Quelimane, nem à dor provocada pela sua morte. A sua verdadeira grandeza encontra-se na forma como viveu o Evangelho e fez da sua vida uma escola permanente de comunhão, catequese e missão. A Igreja em Moçambique despede-se de um dos seus pastores, mas não perde o testemunho de um discípulo que acreditava profundamente que a evangelização continua a ser a primeira missão da Igreja. Dom Osório compreendia que uma comunidade só cresce verdadeiramente quando cresce na fé. Por isso, dedicou grande parte do seu ministério à formação dos cristãos, ao fortalecimento das comunidades e à valorização da catequese como fundamento da vida eclesial.   Num tempo em que tantas pessoas procuram respostas rápidas para os problemas da humanidade, Dom Osório recordava-nos que a resposta mais profunda continua a ser Jesus Cristo. Era esta convicção que orientava a sua acção pastoral. Não procurava apenas organizar estruturas ou administrar instituições. Procurava formar discípulos. Sabia que uma Igreja forte não é aquela que possui muitos edifícios ou grandes recursos materiais, mas aquela que possui cristãos bem formados, conscientes da sua fé e comprometidos com a missão. Talvez por isso a palavra “catequese” ocupasse um lugar tão especial no seu coração. Para Dom Osório, a catequese nunca foi apenas um período de preparação para receber sacramentos. Era um verdadeiro caminho de encontro com Cristo, capaz de transformar a vida das pessoas e renovar as comunidades. Catequizar significava educar para a fé, formar consciências, despertar vocações, fortalecer famílias e construir uma sociedade iluminada pelos valores do Evangelho.   Num mundo onde muitos baptizados conhecem pouco a riqueza da própria fé, o seu testemunho desafia-nos a devolver à catequese o lugar central que sempre ocupou na vida da Igreja. Uma comunidade que descuida a formação cristã corre o risco de possuir muitos fiéis, mas poucos discípulos. A evangelização começa precisamente quando o coração se deixa educar pela Palavra de Deus. Outro traço marcante do seu ministério foi a convicção de que a Igreja deve caminhar unida. Muito antes de a sinodalidade se tornar um dos grandes temas da vida eclesial contemporânea, Dom Osório já procurava viver este estilo de Igreja. Gostava de escutar. Valorizava o diálogo. Incentivava a participação dos leigos, dos religiosos, dos catequistas, dos jovens e das famílias na construção das comunidades. Compreendia que a Igreja não pertence apenas aos seus pastores, mas a todo o Povo de Deus, onde cada baptizado possui uma missão insubstituível. A sinodalidade não é apenas um método de organização pastoral. É uma espiritualidade. É aprender a caminhar juntos, a discernir juntos e a procurar juntos a vontade de Deus. Num tempo marcado por divisões, conflitos e individualismos, esta forma de viver a Igreja torna-se um verdadeiro sinal profético. Dom Osório acreditava que ninguém evangeliza sozinho. A missão pertence a toda a Igreja. Também a missão ocupava um lugar privilegiado na sua visão pastoral. Nunca concebia uma Igreja fechada sobre si mesma. A Igreja existe para anunciar Cristo. Existe para sair ao encontro das pessoas, sobretudo das mais pobres, das mais esquecidas e das mais afastadas da fé. Uma comunidade que deixa de evangelizar começa lentamente a perder a sua identidade. O Evangelho não foi dado para permanecer fechado nas sacristias, mas para ser anunciado em cada família, em cada escola, em cada hospital, em cada prisão, em cada aldeia e em cada cidade. É precisamente esta dimensão missionária que continua a desafiar a Igreja em Moçambique. Ainda existem muitas periferias humanas que esperam pela presença consoladora de Cristo. Ainda existem jovens à procura de sentido para a vida, famílias marcadas pelo sofrimento, crianças necessitadas de formação cristã e comunidades sedentas da Palavra de Deus. O maior tributo que podemos prestar à memória de Dom Osório será continuar esta missão com renovado entusiasmo. A morte violenta de Dom Osório Citora Afonso, ocorrida no Paço Episcopal de Quelimane, no dia 6 de Junho de 2026, provocou profunda consternação na Igreja e na sociedade. As circunstâncias deste acontecimento permanecem entregues ao trabalho das autoridades competentes. Contudo, para os cristãos, permanece uma certeza maior do que qualquer acto de violência: a vida daquele que serve fielmente Cristo não termina com a morte. O testemunho continua vivo nas comunidades que edificou, nas vocações que incentivou, nos catequistas que formou e nos fiéis que ajudou a aproximar-se de Deus. As novas gerações necessitam de conhecer testemunhos como o de Dom Osório. Vivemos numa época em que abundam influenciadores digitais, mas escasseiam verdadeiras referências espirituais. A juventude precisa de homens e mulheres que mostrem, pela própria vida, que a santidade continua a ser possível. Dom Osório ensinou precisamente isso. A santidade constrói-se na fidelidade quotidiana, na simplicidade do serviço, na escuta da Palavra de Deus e no amor incondicional pela Igreja. O seu legado não pode permanecer apenas na memória afectiva daqueles que o conheceram. Deve transformar-se num compromisso pastoral. Cada catequista que prepara uma criança para encontrar Cristo, cada sacerdote que anuncia o Evangelho com dedicação, cada religioso que serve os pobres, cada jovem que responde generosamente à vocação e cada família que educa os seus filhos na fé prolonga a missão que Dom Osório abraçou com tanto amor. A Igreja em Moçambique possui hoje a responsabilidade de preservar esta herança espiritual. Não através de monumentos ou homenagens ocasionais, mas vivendo aquilo que ele acreditava: uma Igreja verdadeiramente sinodal, onde todos caminham juntos; uma Igreja profundamente catequética, onde a fé é constantemente formada; e uma Igreja essencialmente missionária, que nunca se cansa de anunciar Jesus Cristo. No Evangelho, Jesus afirma que a árvore conhece-se pelos seus frutos. Os frutos deixados por Dom Osório Citora Afonso permanecem vivos na fé de tantas comunidades, no entusiasmo de muitos catequistas, na

jul 23 2026

Cidades que crescem sem crescer

Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a abrir os olhos para aquilo que fingimos não ver no quotidiano. Julho é um desses meses. As temperaturas baixam, mas as contradições do país aquecem. É o mês em que o vento frio atravessa as ruas, carregando consigo o pó das obras paradas, o lixo não recolhido, os gritos dos mercados improvisados e o burburinho de uma cidade que cresce todos os dias, mesmo quando não cresce para melhor. As nossas cidades são organismos vivos: respiram, expandem-se, enchem-se de sonhos e de sobrevivências improvisadas. Mas são também espelhos que revelam, sem piedade, a desigualdade que atravessa o coração de Moçambique. De Maputo a Nampula, da Cidade da Beira a Tete, o país urbano é um mosaico de contrastes: “ilhas” modernas cercadas de bairros sem água confiável, prédios novos ao lado de vielas onde a noite chega antes do pôr-do-sol por falta de iluminação pública. Julho lembra-nos que a urbanização moçambicana não é apenas um fenómeno demográfico. É uma urgência social. A cidade não se desenvolve na mesma proporção Cresce em população, cresce em trânsito, cresce em bairros informais. Cresce em problemas que se repetem: trânsito caótico, transportes precários, ausência de saneamento básico, habitação inapropriada, criminalidade urbana, erosão e enchentes de Julho ou Novembro que encontram canais entupidos e ruas desalinhadas com o próprio projecto urbano. Cresce, mas não amadurece. A cidade é como um adolescente que no corpo parece adulto, mas cujas responsabilidades excedem as suas capacidades. Tudo o que se construiu parece correr atrás do prejuízo. A população chega primeiro; os serviços chegam depois e, muitas vezes, não chegam. Em cada rua improvisada há uma história de fuga da pobreza rural. Em cada mercado informal há um grito de sobrevivência. Em cada “chapa” congestionado há um pedido silencioso por dignidade. E tudo isto compõe o cenário urbano de Moçambique, onde o desenvolvimento nem sempre acompanha o ritmo da necessidade. Julho convida-nos a pensar na cidade a partir de três perguntas essenciais: Para quem as cidades estão a ser construídas? Para quem pode pagar rendas altas? Para quem tem carro? Para quem ocupa escritórios envidraçados? Ou para a maioria que caminha longas distâncias, que vende no mercado e que acorda às quatro da manhã para apanhar o primeiro transporte? A forma como uma cidade se organiza diz muito sobre quem ela considera prioritário. Quanto da cidade é planeado e quanto é improvisado? A verdade, dolorosa mas evidente, é que grande parte da expansão urbana é uma resposta individual à ausência de políticas eficazes de habitação. As pessoas constroem onde é possível, não onde é seguro. Constroem porque precisam, não porque o espaço foi pensado para elas. A cidade cria oportunidades ou apenas concentra dificuldades? O espaço urbano deveria ser um lugar de avanço: emprego, educação, cultura, serviços. Mas, para muitos moçambicanos, a cidade é um desafio diário, não uma promessa. Estas perguntas são mais do que retóricas. São exigências. O drama urbano moçambicano não é apenas infra-estrutural; é existencial. A cidade tornou-se o lugar onde os sonhos se misturam com a frustração. Onde o jovem procura o emprego que não encontra. Onde a mulher vende hortaliças para garantir o jantar. Onde o trabalhador luta contra o transporte caótico e perde horas preciosas da vida em filas, engarrafamentos e caminhadas intermináveis. E, ainda assim, há beleza na cidade. Há resiliência. Há criatividade. Há sobreviventes que insistem em transformar espaços quebrados em possibilidades. A cidade vive porque o povo teima em viver O problema não é o povo. O problema é o sistema que organiza o povo sem escutar o que ele realmente precisa. Para que Moçambique cresça com dignidade, é urgente repensar o que significa urbanizar. Urbanizar não é encher de prédios. Não é construir avenidas sem calçadas. Não é erguer centros comerciais enquanto bairros inteiros continuam sem saneamento básico. Urbanizar é humanizar. É criar espaços onde as pessoas se sintam seguras, incluídas e respeitadas. É permitir que o morador do bairro periférico tenha os mesmos direitos de mobilidade que o morador do centro. É investir em transporte público digno, seguro e eficiente. É garantir que a habitação seja um direito, não um privilégio. É organizar o comércio informal em vez de reprimi-lo. É planear a cidade com quem nela vive e não apenas com projectos que agradam a quem governa. A cidade é casa. E casa não se constrói para alguns, constrói-se para todos. Julho, com o seu frio persistente, traz um aviso discreto: a urbanização continuará a ser o grande desafio moçambicano nas próximas décadas. A população urbana cresce a uma velocidade maior do que a capacidade de resposta do Estado. Se não forem tomadas medidas estruturantes agora, o futuro das cidades será um futuro de desigualdades agravadas. Mas há margem para esperança. E a esperança, em Moçambique, é sempre matéria viva. A cidade pede parceria Se a escutarmos, ela cresce. Se a ignorarmos, ela desmorona. Julho é o mês que nos pergunta: que cidade queremos deixar para as nossas crianças e para o país que celebrará 60, 70, 80 anos de independência? Porque, no fim, a realidade é esta: sem cidades dignas, não haverá país digno. E sem justiça urbana, não haverá verdadeiro desenvolvimento.

jul 06 2026

PROJECTOS PARA PEQUENAS COMUNIDADES RURAIS

Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo Introdução Em muitas zonas de Nampula ou de Inhambane, por exemplo, o sustento do povo baseia-se na machamba de subsistência e na produção de carvão vegetal. Contudo, cada família planta, consome, vende e sofre sozinha. Sozinha, a mandioca pode render apenas 20,00 MT por molho. Sozinho, o carvão destrói a floresta e resulta em multas pesadas. O problema nas nossas comunidades, muitas das vezes, não é a falta de trabalho; é a falta de união. O associativismo é o atalho para transformar a terra, a mão-de-obra e o carvão em rendimento que permanece na própria comunidade. Apresentamos quatro projetos simples que começam com menos de 2.000,00 MT por família. Caixa Agrícola Rotativa – “O Xitique da Enxada” Um grupo de 10 famílias organiza-se, e cada uma contribui com 200,00 MT por mês. Todos os meses, uma família recebe o total de 2.000,00 MT para comprar sementes, enxadas ou para alugar uma charrua ou um trator. Sem bancos e sem juros. Ao fim de 10 meses, todas as famílias investiram na sua produção. Farinha de Mandioca com Marca da Comunidade Um grupo de 5 mulheres junta-se para torrar farinha um dia por semana, utilizando o carvão local. Embalam o produto com uma etiqueta simples: “Farinha de Wakhunteya”. A mandioca que antes saía a 20,00 MT o molho, transformada em farinha, passa a valer 70,00 MT por quilo. O investimento inicial é de apenas 1.500,00 MT. Carvão Legal + Horta de 45 Dias Uma associação de 8 carvoeiros assume o compromisso: para cada 10 sacos de carvão produzidos, plantam um canteiro de couve ou de tomate. O carvão garante o sustento de hoje; a horta assegura o de amanhã. Além disso, a cinza do carvão é reaproveitada como adubo orgânico. O custo financeiro é zero. Banco de Sementes Comunitário Cada família guarda 2 kg da sua melhor semente num bidão comunitário. Quem pede sementes emprestadas para a sementeira, devolve 3 kg na altura da colheita. O custo envolve apenas a compra dos bidões e do produto contra o gorgulho, somando cerca de 800,00 MT. Em dois anos, o banco de sementes triplica de tamanho. Conclusão Um projeto grande começa sempre pequeno. Não é necessário esperar por um trator ou por uma ONG. Basta que 5 vizinhos ou membros da comunidade estejam decididos a fazer a experiência durante 30 dias. Começa com quem já produz carvão junto ou tem uma machamba vizinha. A pergunta certa a fazer é: “O que podemos fazer já na próxima segunda-feira com 500,00 MT?” Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito. A machamba do futuro nasce da conversa de hoje.  

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