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jun 26 2026

UM PAÍS QUE AINDA PROCURA A SUA VERDADEIRA INDEPENDÊNCIA

Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a olhar mais fundo para nós mesmos, e Junho é um desses meses. É o mês em que o país se veste de cores infantis, de danças escolares, de poesias ensaiadas em salas sem carteiras, de bonecas feitas de capulana velha. Mas é também o mês em que a bandeira se levanta mais alto, recordando um dia longínquo, 25 de Junho de 1975, quando Moçambique proclamou ao mundo que queria ser dono do seu destino.   Passaram-se cinquenta e um anos. Meio século de busca, de quedas e recomeços, de esperanças repetidas, de feridas cicatrizadas que não desaparecem, e de uma juventude que já nasceu livre, mas que, contraditoriamente, ainda vive amarrada a condicionamentos que a independência política não conseguiu resolver. Entre estes dois símbolos, a criança e a bandeira, está a nossa história recente, com as suas promessas cumpridas, promessas adiadas e promessas traídas. Junho é o espelho duplo da nação: de um lado, a fragilidade; do outro, a possibilidade.   Uma metáfora e um diagnóstico Tem o rosto da esperança, mas carrega o peso da pobreza estrutural que ainda persiste. Em muitas zonas, a infância começa cedo demais e termina rápido demais. Começa aos três anos, quando já se aprende a carregar água na cabeça; termina aos dez, quando se entra num mercado informal para ajudar a sustentar a casa. Sonha-se ser professor, enfermeira, piloto, jornalista mas acorda-se, muitas vezes, num país onde a escola ainda não é um porto seguro, onde faltam professores motivados, carteiras minimamente dignas ou livros que cheirem a futuro.   Mistura inquieta entre o sonho legítimo e a carência imposta O Dia da Criança serve, portanto, não para entregar bolachas embrulhadas em eventos formais, mas para nos perguntar que tipo de país estamos a construir para elas: Um país que promete educação de qualidade, mas deixa escolas sem condições? Um país que proclama direitos da criança, mas continua a tolerar casamentos prematuros? Um país que organiza desfiles escolares, mas ainda falha na nutrição, na saúde e na protecção social? Se as crianças são o futuro, a pergunta que Junho nos coloca é simples: que futuro um país oferece quando o presente falta?   Mas Junho também é Independência, um daqueles marcos que não se celebra por hábito, mas por consciência histórica. O país que conquistou a independência política em 1975 ainda não encontrou, por completo, a sua independência económica e social. E isso não é segredo: é visível nos indicadores, nas ruas, na desigualdade, na dependência de doadores externos, no comércio dominado por forças externas, nos mercados de trabalho frágeis e, sobretudo, na dificuldade de transformar recursos naturais em riqueza para o povo.   A independência não termina quando se baixa uma bandeira estrangeira. A independência só se cumpre quando um povo consegue orientar-se pelas suas próprias capacidades. E aqui surge o grande dilema moçambicano: como é que um país tão rico em recursos permanece com tanta gente pobre? A resposta é complexa, mas não é impossível de compreender: décadas de conflitos, fraca industrialização, corrupção sistemática, instabilidade em algumas regiões e um sistema económico que não foi desenhado para fortalecer o pequeno produtor, o trabalhador urbano ou o jovem empreendedor.   A pergunta de Junho, mais profunda do que parece, é esta: Se não conquistarmos a independência económica e social, o que comemoraremos daqui a mais cinquenta anos? A independência política é como uma porta aberta. A independência económica é o caminho. A independência social é o destino. E o destino do país deve ser traçado com a mesma seriedade com que se protege uma criança, porque o futuro da nação é literalmente o rosto delas.   Se há algo que estes 51 anos nos ensinaram, é que um país não cresce apenas com discursos, cresce com trabalho, com justiça social, com instituições credíveis, com políticas coerentes, com uma cidadania activa e com a coragem de enfrentar os nossos próprios erros. A independência verdadeira não é uma lembrança histórica, mas uma construção diária. Se o país alcançar estes dois níveis de emancipação, então sim, poderemos dizer que Junho é uma celebração completa e não apenas um ritual anual.   E voltamos às crianças, porque elas são a medida exacta do que fazemos bem e do que continuamos a falhar. Se um país é capaz de abrir caminhos para que cada criança se transforme em cidadã plena, então esse país está no rumo certo. Mas se a infância é marcada pela privação, pela violência, pela exclusão e pela ausência de oportunidades, então a independência continuará incompleta.   Por isso, Junho não é apenas festa. É uma convocatória. Convoca-nos a assumir responsabilidades, a olhar para a nação com honestidade, a reconhecer que 51 anos é tempo suficiente para perceber que o problema não é a falta de talento do povo, mas a falta de estruturas que o permitam florescer. Convoca-nos a perguntar, sem medo: estamos a construir um país onde as crianças poderão celebrar, um dia, uma independência que não seja apenas política? Porque a verdadeira independência — a que transforma a vida das pessoas, a que rompe os ciclos de pobreza, a que gera oportunidade e dignidade, essa ainda está em construção. E cada Junho deveria lembrar-nos disso.

jun 25 2026

51 Anos depois: Da pobreza à extrema pobreza

Por: Deolindo Paúa Um dos motivos que encorajou jovens e velhos a começar uma guerra de libertação era a desigualdade imposta pelo colono ao moçambicano. Essa situação gerava profundas injustiças no nosso território. Resumidamente, a injustiça era a causa principal da luta pela independência. A chegada da independência, em 1975, criou no seio dos moçambicanos a esperança de que aquele obstáculo ao desenvolvimento humano estava ultrapassado. Acreditava-se que começava uma nova era: a era da inclusão. Hoje, voltados 51 anos, quase todos os estudos sobre o estágio de desenvolvimento de Moçambique colocam-no na dianteira da extrema pobreza. A causa é exactamente a mesma que conduziu à luta: as desigualdades. A desigualdade imposta pelo colono foi substituída pela desigualdade imposta pelos nossos próprios irmãos, que mais tarde assumiram o poder. Meio século depois ainda somos os mais pobres Quem acompanha a história de Moçambique pode constatar dois cenários que perturbaram a sua evolução. O primeiro foi a guerra civil que, além de ceifar vidas, retraíu o investimento e a confiança internacional. O segundo foi uma sucessiva governação antipatriótica, que fundou e solidificou a corrupção e o nepotismo, sobretudo depois de 1987. Uma análise rápida desse cenário permite concluir que, com a independência, a elite opressora colonial foi literalmente substituída por uma elite corrupta em termos económicos. Esta elite entendeu Moçambique como sua propriedade privada. Por isso, concluiu que tinha primazia sobre os recursos do país. Este modo de ver o novo Moçambique eliminou a inclusão. Infelizmente, esta percepção continua a orientar os sucessivos processos de governação. Moçambique, que deveria ser uma conquista de todos os moçambicanos, continua a ser visto, dentro e fora, com a imagem que uma elite vendeu por décadas: a de que é conquista de apenas alguns patriotas. Esta tem sido a causa dos conflitos sociais e políticos recentes. Vemos jovens que se querem afirmar política e economicamente contra uma elite historicamente constituída. A ideologia segundo a qual Moçambique pertence a uma minoria consolidada unilateralmente faz com que, 51 anos depois, continuemos num círculo vicioso interminável: entre a pobreza da crescente maioria e a prosperidade da mesma minoria. A causa da pobreza é fundamentalmente a desigualdade Há alguns dias, mais um relatório do Banco Mundial colocou Moçambique na segunda posição entre os países mais pobres do mundo. Mais uma vez, a informação soou como um escândalo. Não apenas porque o nosso país se encontra numa fase adulta, em que deveria ter consolidado a sua economia, mas sobretudo porque Moçambique é actualmente um palco de exploração multimilionária de recursos naturais diversos e de financiamentos externos. Entre as causas está, uma vez mais, a desigualdade profunda e cada vez mais acentuada entre os extremamente ricos e os extremamente pobres. Esta constatação, que não é nova, reforça a ideia de que a nossa pobreza não é motivada pela insuficiência de recursos. Ela é fruto dos problemas da sua distribuição, que privilegia sempre as mesmas pessoas. Há quem diga que esta conclusão tenha objectivos obscuros do o Banco Mundial, tal como sempre se afirma, mas independentemente de tais posições, os factos são confirmados por vários estudos domésticos. A título de exemplo, o relatório do Observatório do Meio Rural (OMR) de Fevereiro de 2022, sobre os ingredientes da revolta juvenil, indica as desigualdades e a injustiça na distribuição de oportunidades como uma das prováveis causas da facilidade do recrutamento de jovens nas acções terroristas em Cabo Delgado. Igualmente, o Instituto Nacional de Estatística (INE), no seu último Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) em 2022, indicou que, apesar do crescimento de Moçambique, as grandes diferenças geográficas de desenvolvimento prevalecem e as assimetrias se aprofundam, continuando o meio rural mais pobre e as cidades mais prósperas, as periferias mais precária e as zonas de cimento em evolução constante. Estes dados comprovam que nenhum crescimento será capaz de criar desenvolvimento se as políticas públicas continuarem a privilegiar com recursos e oportunidades apenas determinadas pessoas e regiões geográficas. A política, que deveria ser um serviço público e patriótico, foi transformada em autovergonhoso auto-serviço. Tornou-se uma oportunidade para o enriquecimento duvidoso a partir de recursos vida dos mais pobres. Sem esforços para mudar o cenário O pior é que todos nós, incluindo quem governa, sabemos desta situação e conhecemos as suas soluções. Contudo, não se vê esforço para mudar. Os indicadores de pobreza são anunciados com recorrência por vários estudos de várias entidades. No entanto, ao invés de se ocupar de políticas que corrijam tais indicadores com as técnicas adequadas, financia-se a produção de teorias para discutir se a nossa pobreza é verdadeira ou inventada. Somos mais ágeis em negar a pobreza do que em combatê-la. Contudo, mesmo sem estes relatórios, ditos tendenciosos, a nossa pobreza tem sinais objectivos: falta de emprego, prevalência da fome, falta de água potável e dificuldade do Estado em prover recursos para o seu próprio financiamento e funcionamento. Estes sinais têm soluções técnicas claras: descentralizar as oportunidades e garantir que todos tenham as mesmas condições de acesso aos recursos de sobrevivência e de desenvolvimento. É necessário eliminar as práticas governativas que insistem em dar recursos a quem não precisa deles para sobreviver, mas apenas para o luxo. Num país como o nosso, não faz sentido que pessoas que governaram e se aproveitaram do Estado para erguer impérios tenham, ainda, primazia nas regalias. Esse direito deve pertencer àquelas que precisam do básico, como uma escola para estudar e um hospital para tratar da saúde. Regalias para os ricos são uma ofensa para os pobres. Se para ter o básico para sobreviver se exige uma pertença obrigatória a um partido que supõe distribuir as oportunidades, então estamos a replicar as políticas coloniais. Se assim for, o processo que nos levou à independência é nulo.

jun 04 2026

Até quando durará o sofrimento em Moçambique?

Até quando durará o sofrimento em Moçambique? Um país tão rico em recursos minerais, terrestres, marinhos e florestais, mas que continua mergulhado na pobreza. O mais inesperado, triste e difícil de acreditar foi o surpreendente facto de, na última classificação sobre a pobreza global, o país ter caído para a segunda posição a nível mundial. Nas décadas de 80 e 90, momentos antes de começar a extração em grande escala de muitos recursos, o país ocupava sempre a quinta ou a sexta posição; actualmente, porém, apesar da exploração de diversos recursos, caímos quase no extremo inferior do desenvolvimento. A população vive sem sossego devido a acontecimentos horríveis, que vão desde a insurgência armada até aos relatos chocantes de desaparecimento de órgãos genitais, episódios que provocam mortes injustas e espalham o terror. Penso que as entidades competentes devem, urgentemente, procurar mecanismos eficazes para pôr fim a estas hostilidades no país. Mesmo no tempo de Moisés, as dez pragas do Egipto — enviadas por Deus através de Moisés e Aarão para convencer o Faraó a libertar o povo de Israel da escravidão — que provocaram uma série de catástrofes descritas no livro bíblico do Êxodo (capítulos 7 a 12), tiveram um fim, e o povo finalmente ficou livre. Portanto, o governo deve preocupar-se genuinamente com o seu povo, a partir da resolução dos problemas concretos que inquietam e ameaçam o bem-estar das famílias. O Senhor falou aos sacerdotes: “Tomai a arca da aliança e ide diante do povo”. Eles tomaram a arca e caminharam à testa do povo (Js 3,6). A forma como vivemos hoje não dignifica a moçambicanidade. Moçambique é amplamente reconhecido como uma sociedade com enormes jazigos de recursos, necessários para alavancar processos sérios de desenvolvimento económico e social que permitam gerar bem-estar e prosperidade para todos. É fundamental que os governantes mudem a visão centralizadora de que decidem tudo sozinhos, e passem a considerar que são apenas mais um actor neste processo de desenvolvimento do país. Nós, a população, queremos a paz e a liberdade de nos engajarmos no processo de desenvolvimento de forma individual e colectiva.  (Carta assinada Nampula) João Rodrigues Sabonete

maio 27 2026

SEM VERBA NÃO SE ANUNCIA O VERBO

Pe. Ananias Cambo Milissão O Padre Ananias Cambo Milissão, do clero diocesano de Tete, apresenta aos cristãos de Moçambique a sua obra intitulada: SEM VERBA NÃO SE ANUNCIA O VERBO: O dízimo como caminho para a auto-sustentabilidade da Igreja Católica em Moçambique. Segundo o autor, ainda que o tema do dízimo seja muito antigo, não está ultrapassado e permanece sempre novo e actual, sobretudo quando é notório nas comunidades cristãs a existência de muitos membros que ignoram, quer em parte, quer por completo, a sua importância para o bom funcionamento da própria comunidade cristã, e não se comprometem com a sua sustentabilidade, uma vez que, erroneamente, acreditam que a Igreja é rica. Com o lançamento da presente obra, Padre Ananias pretende, dentro das suas limitações, contribuir para uma maior consciencialização dos cristãos sobre o dízimo, visando a urgente e inadiável autonomia e independência financeira da Igreja local, apelando para o inconformismo e a insatisfação diante do status quo das comunidades cristãs em Moçambique que, podendo ser auto-sustentáveis, assumem como normal a permanente insustentabilidade e a dependência em relação às Igrejas estrangeiras. E para o alcance desse desiderato, propõe alguns caminhos, a saber: que as comunidades cristãs tenham uma nova consciência de si próprias (novus habitus mentis), assumindo o facto de que, enquanto Igreja local, não devem viver perpetuamente dependente da ajuda de Igrejas estrangeiras, sendo necessário, para o efeito, uma só coisa: mudança de mentalidade; a formação para a co-responsabilidade de todos os cristãos para com a sua Igreja, de modo que a Igreja dependa de cada cristão uma vez que cada cristão é a própria Igreja, e que assumam alegremente o seguinte ideal: sou dizimista porque eu sou a Igreja. Diante da desinformação que se verifica em relação ao dízimo, este livro surge como um importante instrumento de informação e de formação, não apenas para os agentes da pastoral do dízimo, mas para todos os cristãos.

maio 25 2026

E se parássemos tudo… para começar de novo?

Por Deolindo Paúa Nos últimos anos, a nossa situação como sociedade tem demonstrado uma deterioração em quase todos os âmbitos. O que se supunha ter sido conquistado parece estar em declínio e, até ao momento, tornou-se difícil prever o nosso futuro. A Perda das Conquistas Há poucos anos, quando olhávamos para o caminho que Moçambique tem trilhado, reclamávamos pelo facto de o desenvolvimento ser localizado. Todas as críticas e reclamações direccionavam-se para a existência de crescentes desigualdades — não apenas no acesso às oportunidades, mas também na falta de abrangência do desenvolvimento às zonas periféricas. Sabíamos que, desde a independência, houve conquistas. O problema era que tais avanços estavam localizados e personalizados, sendo propriedade quase absoluta de alguns. Bom emprego, saúde de qualidade, educação de primeira, cidades condignas, os melhores salários e oportunidades de financiamento — em suma, os melhores serviços públicos — tinham (e ainda têm) donos; beneficiários quase naturais a quem a “cor da bandeira” serve. Outros moçambicanos sempre viveram em serviços periféricos. Nessa ocasião, qualquer moçambicano sabia que o nosso pior problema era a desigualdade. Saúde e Educação: O Retrato da Nossa Desgraça Hoje, percebe-se que, em vez de se criar a tão reclamada igualdade, nem sequer se consegue manter o pouco que se havia conquistado. Estamos numa viagem de regresso à desgraça colectiva, ao sermos incapazes de prover serviços básicos necessários para a sobrevivência de uma nação, como a saúde, a educação e a segurança. – Um sistema de saúde em colapso: Num passado recente, exigíamos que o Governo levasse assistência médica ao meio rural. Hoje, os poucos hospitais que existiam tornaram-se apenas paredes. A qualidade da assistência baixou devido ao elevado índice de corrupção, e o Executivo tornou-se incapaz de oferecer condições para um atendimento hospitalar básico. Nos hospitais, morre-se por negligência e corrupção, mas também por falta de medicamentos elementares, como gessos, paracetamol ou antimaláricos. – Um ensino que não oferece conhecimento: As escolas perderam a importância estratégica que deveriam ter. Os programas actuais demonstram, claramente, um investimento na analfabetização das crianças. Um relatório de 2021 indicava que apenas 6 em cada 100 crianças do ensino primário sabiam ler e escrever. Esta tendência não melhorou, pois a qualidade dos professores continuou a baixar. O sistema de educação transformou-se numa oportunidade de enriquecimento por meio de comissões, e as escolas passaram a ser locais de consumo de drogas ou prostituição, em vez de moldarem sonhos e profissões. Um Passo Diário para o Fundo do Poço Não existe sociedade próspera sem educação e saúde. Uma governação que sabota essas esperanças é, sem dúvida, um projecto de sabotagem à Pátria. A nossa situação só se resolve com uma paragem para reflectir: precisamos de pensar sobre a nossa origem e sobre onde queremos chegar. Até aqui, todos os esforços aparentes não sortiram efeito. Andamos num círculo vicioso de soluções provisórias e inadequadas. Insistimos em atribuir tarefas importantes de desenvolvimento a pessoas manifestamente incompetentes, governando no interesse próprio e não no da Pátria. Enquanto investirmos mais na protecção do poder do que na protecção da Pátria, Moçambique continuará a cair na anarquia e na pobreza. O reencontro e o recomeço parecem ser as únicas soluções ajustadas para termos o nosso País de regresso. “E se parássemos tudo… para começar de novo?” Deolindo Paúa assina uma análise frontal sobre o estado actual de Moçambique, onde o declínio da saúde, a sabotagem da educação e a inversão de valores ameaçam o futuro da Pátria. Um diagnóstico urgente que aponta a corrupção e a incompetência como os principais motores da nossa desgraça colectiva.

abr 21 2026

Campeões de diálogos e perdedores da reconciliação

(Dr Deolindo Bento Paúa) Se existe alguma coisa em que somos bons é a capacidade de encenar diálogos e, por via disso, encenar também soluções dos nossos problemas. A história reza que o nosso Estado foi fundado, eliminando opiniões discordantes e gerindo conflitos de vária ordem. Tudo parece indicar que só é possível governar Moçambique se se construir pontes e concordâncias de forma honesta e genuína, o que não conseguimos e, por isso, não alcançamos a verdadeira estabilidade. Não se conversa com bandidos A expressão “não se dialoga com bandido” é amplamente atribuída à Frelimo, sobretudo, no contexto da guerra dos 16 anos, para interagir com a Renamo com vista a acabar com o conflito. Até hoje, a palavra “bandido” usada naquele contexto, parece indicar todo aquele que discorda com a opinião oficial vigente. Quem discorda com a governação, com as decisões, com as políticas públicas adoptadas é marginalizado como se de um bandido se tratasse. Podemos então assumir que a dificuldade da Frelimo em dialogar de forma franca é tradicional e que por razões de formalidade e de demonstração de bom senso na arena internacional, ela precisou encenar diálogos. Deus queira que este diálogo em curso não seja uma dessas encenações, porque Moçambique precisa dialogar com franqueza para passar ao próximo capítulo, o capítulo da inclusão, depois de longos anos de exclusão social. De facto, os nossos diálogos sempre estiveram órfãos de verdade e de franqueza, porque sempre houve uns pensando que, por seu esforço, deveriam criar consensos com bandidos, mesmo sem intenção de cumprir os consequentes acordos. A longa guerra dos 16 anos prova o desinteresse em manter um Moçambique unido e reconciliado. Depois, seguem-se os sucessivos conflitos pós-eleitorais cujo apogeu foi as eleições de 2024. Até aqui, os métodos, os canais e os intervenientes dos sucessivos diálogos que têm tido lugar, além de terem sido sempre questionáveis, não produziram efeitos desejados. Hoje, numa mistura de dúvida e esperança movidas por essa história de insucessos, muitas pessoas olham para o Diálogo Nacional Inclusivo em curso como possibilidade de ruptura da tradição improdutiva de diálogos. O diálogo nacional chamado inclusivo Sabemos todos que para responder aos sucessivos conflitos que têm acompanhado a história de Moçambique e, sobretudo para acabar com o conflito instalado após os eventos das eleições de 2024, foi proposto o Diálogo Nacional Inclusivo que, sob a gestão de uma comissão técnica, supõe-se estar a colher sensibilidades de todas as camadas sociais e de todos os grupos de moçambicanos para constituir uma intenção política consensual. A ideia formal é a de criar um pacote legislativo de gestão pública livre de conflitos. Por isso o principal pacote em auscultação é o eleitoral que se supõe que tem facilitado fraudes e gerado desavenças. Se o diálogo funcionar em obediência cega a letra, a intenção pode produzir resultados que criem bases de justiça social e de reconciliação que precisamos estabelecer desde a independência. Elogio a COTE, apesar de partidária Uma das razões que leva parte dos moçambicanos a duvidar dos resultados deste diálogo não tem a ver apenas com o facto de diálogos passados não terem produzido efeito, mas também pelo facto da composição comissão técnica que o encabeça ser questionável. Os diálogos passados foram feitos entre o governo da Frelimo e a Renamo, excluindo outras sensibilidades sociais. Esse modelo levou a questionamentos sobre a legitimidade de partidos em representar interesses nacionais. Infelizmente, neste diálogo, o figurino continua. Representantes de partidos políticos, alguns deles sem legitimidade, lideram o processo. A sociedade civil e o resto da população são apenas convidados. O povo é convidado num processo que deveria ser ele a liderar. Parece ser certo que, neste modelo, interesses de partidos vão sempre nortear o rumo do diálogo. E agora, graças aos eventos das últimas eleições, parece haver certeza de que o interesse dos partidos políticos é divergente do interesse nacional, o que os torna efectivamente suspeitos para agir no interesse do povo. O que a CNE, o STAE e Conselho Constitucional se tornaram é resultado da tentativa de acomodação de interesses e garantia de sobrevivência de partidos e não do interesse nacional. A ineficiência desses órgãos e suas decisões tendenciosas nas sucessivas eleições e sobretudo nas últimas, provou-se na exclusão de candidaturas de partidos que seriam uma ameaça à hegemonia dos partidos representados neles. Em suma, no modelo de diálogo vigente, o interesse nacional pode sucumbir sempre ao interesse dos interlocutores partidários que ilegitimamente o encabeçam. No entanto, o trabalho técnico feito pela COTE até aqui demonstra algum profissionalismo. Veremos quando chegar a hora das decisões políticas sobre os resultados da auscultação. A intolerância do PR e os sinais de um diálogo teatral Há décadas que se repete a teoria de que o diálogo político tem que ser feito com verdade e antecedido pela reconciliação. A carta dos bispos católicos de Novembro de 2024 faz recomendações concretas a esse respeito. Assumir a verdade eleitoral, os crimes e os excessos cometidos por todas as partes nos conflitos, reconciliar-se com os factos, com os divergentes e com todos os moçambicanos e só depois ir ao diálogo. Ora, se por um lado a COTE demonstra competência e compromisso no exercício da sua missão de coordenar o diálogo, o Presidente da República não tem dado sinais de compromisso com a reconciliação. Aliás, depois da sua tomada de posse, Daniel Chapo passou os primeiros 6 meses em comícios pelo país, em que tentava convencer aos moçambicanos de que tinha ganho as eleições. Para conseguir isso, definiu apelidos pejorativos concretos para os manifestantes e, sobretudo para os seus líderes. No seu primeiro informe sobre o estado geral da nação, Daniel Chapo voltou a apelidar as manifestações de criminosas, ilegais e inconstitucionais, sem no entanto mencionar a sua causa criminosa. Crimes nas manifestações não fazem manifestações criminosas. Mesmo que tivessem sido criminosas e ilegais, em nome da reconciliação que se supõe existir para que o diálogo produza o efeito desejado, não seria admissível uma tal atitude, um ano depois. Os sucessivos discursos intolerantes do Presidente

abr 08 2026

MULHERES QUE SUSTENTAM O PAÍS COM A VOZ

Por: Kant de Voronha Março e Abril chegam sempre com uma luz especial. Março traz o Dia Internacional da Mulher e Abril recorda-nos o poder da palavra e da comunicação na vida moçambicana. Quando olhamos para o nosso país com mais atenção, percebemos que estes dois meses não se podem separar. A mulher é, há séculos, a grande comunicadora da vida: é ela quem transmite valores, educa, partilha saberes, resolve conflitos, consola, encoraja, vigia, avisa e preserva a história oral. É também ela que domina a palavra doméstica, comunitária, religiosa e cultural. Por isso, juntar estes dois meses numa só reflexão não é apenas conveniente: é justo. A verdade é simples e profunda: a mulher moçambicana é uma ponte entre a vida e o futuro. E a sua voz é um dos instrumentos mais importantes para a construção da paz, da harmonia e da dignidade no país. A mulher que carrega o mundo sem fazer barulho Todos sabemos, mesmo sem estatísticas, que grande parte do peso do país assenta nos ombros das mulheres. São elas que acordam mais cedo, carregam bidões de água, fazem longas filas nos mercados, trabalham na machamba, sustentam a economia informal, organizam o lar, tratam dos filhos, ajudam os vizinhos e ainda encontram força para cantar, rezar e sorrir. O curioso é que tudo isto acontece quase sempre em silêncio. As mulheres trabalham numa espécie de heroísmo diário que raramente é reconhecido. A sociedade habituou-se tanto à sua resistência que, muitas vezes, nem percebe a injustiça de esperar tanto delas. Quando celebramos Março, não estamos apenas a elogiar as mulheres; estamos a admitir que, muitas vezes, falhamos com elas. O poder invisível da voz feminina Abril convida-nos a falar da comunicação. E aqui, novamente, encontramos a mulher no centro da conversa. A casa funciona porque a mulher comunica. O bairro mantém paz porque as mulheres conversam, aconselham, acalmam, chamam à razão. As igrejas têm vida porque as mulheres rezam, cantam, catequizam e animam. Os mercados sobrevivem porque as mulheres negociam, discutem preços, partilham informações e seguram a economia informal. Em muitas famílias, a figura que transmite valores como respeito, disciplina, fé, solidariedade e responsabilidade é a mãe ou a avó. É ela quem diz frases que moldam a personalidade dos filhos: “não mintas”, “trabalha com honestidade”, “não faltes ao respeito”, “não te metas em confusão”, “não explores ninguém”, “não desprezes quem sofre”. A comunicação feminina é formadora. Educa mais do que muitos programas oficiais. A mulher que enfrenta medos que não contam nas estatísticas A realidade da mulher moçambicana também tem sombras pesadas: violência doméstica, casamentos prematuros, assédio, desigualdades no emprego, exclusão de oportunidades, carga mental desproporcional, pobreza extrema, acesso limitado à educação e injustiça social. Muitas destas situações permanecem escondidas porque as vítimas têm medo de falar — ou porque não acreditam que alguém as irá ouvir. E aqui o tema da comunicação volta a aparecer: o silêncio imposto às mulheres é uma das formas mais cruéis de violência. Um país cresce quando a voz das mulheres é respeitada, escutada e protegida. Mulheres no jornalismo, na rádio e na comunicação comunitária Moçambique tem visto crescer o número de mulheres no jornalismo, na rádio e noutras formas de comunicação pública. Este avanço é importante porque a presença feminina muda, de forma positiva, a forma como contamos a realidade. As mulheres jornalistas tendem a abordar temas muitas vezes esquecidos: problemas de saúde materna, a luta das famílias pobres, as dificuldades das raparigas na escola, os desafios da violência baseada no género, a economia doméstica, a vida comunitária, os sentimentos das pessoas, as dores silenciosas. Quando uma mulher comunica, a sociedade ouve assuntos que antes eram ignorados. Mas ainda há desafios: desigualdade salarial, assédio nas redações, falta de oportunidades de liderança e a necessidade de maior segurança no terreno, especialmente nas zonas afectadas por violência ou instabilidade. A palavra como arma e como remédio No nosso contexto, a palavra pode ser cura ou ferida. Pode levantar ou derrubar. Pode orientar ou enganar. E muitas mulheres são vítimas de palavras que ferem: insultos, humilhações, ameaças, mentiras, fofocas destrutivas, manipulação emocional. Esta violência verbal é tão séria quanto a física, porque destrói lentamente a dignidade. Mas também há palavras que curam: palavras de apoio, encorajamento, solidariedade e esperança e a maioria destas palavras vêm das mulheres. Quando uma mulher diz “vai ficar bem”, a comunidade inteira respira melhor. A comunicação feminina como força de paz Em tempos de conflitos armados ou tensões comunitárias, quem cuida primeiro dos feridos, quem consola os vizinhos, quem garante que as crianças mantêm alguma rotina, quem organiza grupos de ajuda, quem procura informação para proteger a família? As mulheres. São elas que entendem que a paz não nasce de discursos: nasce de gestos pequenos, de palavras serenas, de reconciliações discretas, de coragem silenciosa. Se queremos promover paz em Moçambique, precisamos de ouvir mais as mulheres e aprender com elas. A fé feminina que sustenta a comunidade Nas paróquias, comunidades eclesiais, grupos de oração, cânticos e actividades sociais, a força motriz é feminina. A fé das mulheres não é apenas espiritual; é prática. É fé que cozinha para funerais, que acolhe órfãos, que visita doentes, que organiza coros, que mantém viva a tradição de celebrar, rezar e agradecer. Através da palavra de fé, elas transmitem esperança num país onde a vida é, muitas vezes, dura demais. Desafios que ainda pedem resposta Para honrar verdadeiramente as mulheres, não basta celebrar Março e Abril. É preciso transformar a realidade. Entre os maiores desafios estão: Garantir educação plena para raparigas; combater casamentos prematuros; criar mecanismos sérios contra a violência doméstica; apoiar mulheres empresárias e agricultoras; aumentar o acesso das mulheres à terra e ao crédito; valorizar o trabalho doméstico, que sustenta milhões; fortalecer a presença feminina em cargos de decisão; proteger a palavra das mulheres: o direito de falar sem medo. A palavra da mulher é património nacional Quando pensamos bem, percebemos que a voz feminina moçambicana é um património cultural. É pela voz das mulheres que as

fev 24 2026

JUVENTUDE QUE PROCURA CAMINHOS, MESMO SEM ESTRADAS

Por: Kant de Voronha Fevereiro chega sempre com um ritmo diferente. Já passou a euforia do Ano Novo, as resoluções já começaram a mostrar se eram de verdade ou apenas entusiasmo passageiro e o país retoma o seu movimento real. É também o mês em que muitos adultos, jovens, adolescentes e crianças regressam às escolas, às universidades, aos centros de formação e, nalguns casos, às ruas, onde a aprendizagem da vida é mais dura e mais exigente. Falar da juventude no nosso país nunca é assunto leve. É tocar no coração do país, porque somos uma nação jovem, mas ainda com pouca capacidade de transformar essa força em desenvolvimento. E quando dizemos que a juventude procura caminhos mesmo sem estradas, estamos a reconhecer, com honestidade, que o jovem moçambicano vive num cenário onde as portas nem sempre estão abertas, os horizontes nem sempre são nítidos e as oportunidades ainda são escassas. Mas, apesar disso, ele insiste. Persiste. Imagina soluções e cria espaços onde o Estado, as instituições e a própria sociedade muitas vezes ainda não chegaram.   A juventude que carrega muito e recebe pouco Há décadas que ouvimos discursos a exaltar “o potencial dos jovens”. Mas a verdade nua é que muitos jovens sentem que o país lhes pede demais e lhes devolve de menos. Pedimos que estudem, mas oferecemos escolas sem carteiras suficientes, salas superlotadas, professores desmotivados e livros que chegam tarde. Pedimos que sonhem alto, mas não criamos o ambiente económico necessário para transformar sonhos em projectos de vida. Pedimos que sejam responsáveis, mas colocamo-los num mercado de trabalho onde a experiência é exigida até para tarefas que poderiam ser portas de entrada. No fim, o jovem fica no meio de duas realidades: aquilo que lhe pedem e aquilo que lhe dão. Entre essas duas margens, ele tenta construir uma ponte — às vezes com ferramentas frágeis, outras vezes com criatividade surpreendente. Criatividade a partir da falta O que mais impressiona na juventude moçambicana não é a dificuldade que enfrenta, mas a capacidade que tem de reinventar a vida. Basta passar por qualquer bairro para ver jovens que transformam um telemóvel velho num pequeno negócio de recargas; que fazem cortes de cabelo na porta de casa; que criam páginas de redes sociais para divulgar produtos; que começam pequenos projectos de costura, serralharia ou reparação de aparelhos. Há jovens que estudam com candeeiro de petróleo, mas discutem temas globais com uma maturidade admirável. Há estudantes que dividem um único livro por quatro colegas, mas apresentam trabalhos com profundidade e disciplina. Há rapazes e raparigas que vendem gelo, amendoim, refrescos ou carvão para pagar a própria escola. Isto mostra duas verdades: a juventude tem força; mas esta força não pode continuar a depender apenas de improviso. Um país sério não pode sobreviver sem políticas robustas para a juventude. E, muito menos, pode continuar a viver da criatividade que nasce da carência, é preciso criatividade que nasce da oportunidade. A luta silenciosa pelo emprego Falar de emprego juvenil em Moçambique é quase falar de um deserto. Há poucas vagas, muita procura, salários baixos e exigências desajustadas. Muitos jovens passam meses, até anos, a procurar trabalho. A esperança começa grande, mas vai diminuindo. Alguns aceitam trabalhos temporários, muitas vezes sem contrato, sem segurança, sem protecção. Outros acabam por desistir e voltam para a informalidade. No entanto, não é falta de talento. O país tem jovens formados em várias áreas: saúde, educação, engenharia, comunicação, administração, informática, agricultura. O problema é que a economia ainda não tem fôlego suficiente para absorver todos. E aqui surge uma pergunta incómoda: que futuro oferecemos a esta massa jovem que cresce todos os anos? Se a juventude não encontra caminho, o país perde a sua energia. Não existe nação forte com jovens frustrados. Juventude, valores e identidade Um dos desafios actuais é também a pressão sobre os valores. Vivemos num tempo em que a influência das redes sociais, das modas importadas e da busca rápida por dinheiro tem abalado a construção moral de muitos jovens. Há quem queira sucesso sem esforço, riqueza sem trabalho, fama sem mérito. Mas, ao lado desses, existem milhares de jovens discretos, que não aparecem nas notícias, mas carregam valores firmes: o respeito pelos pais, o compromisso com a comunidade, a fé, a responsabilidade, o amor ao estudo, a paciência e a honestidade. Moçambique não está perdido. O que está em disputa? Duas formas de ser jovem: uma que procura atalhos e outra que procura caminhos verdadeiros. Cabe à sociedade apoiar a segunda e orientar a primeira. A escola como porta ou parede A escola deve ser o lugar onde o jovem descobre o mundo, adquire ferramentas, fortalece a mente e molda a visão. Mas a realidade, para muitos, é que a escola é também fonte de frustração. Faltam professores de qualidade, falta água, faltam livros, faltam carteiras, faltam laboratórios, falta tudo o que deveria existir. E, mesmo assim, há alunos que caminham quilómetros, atravessam pontes improvisadas e acordam às quatro da manhã só para sentar numa sala quente e cheia. Quando um país vê jovens com esta força e não melhora a escola, está a cometer uma injustiça grave. O que a juventude e País precisam? Para que Moçambique avance, é urgente: – Criar oportunidades de emprego e estágios reais; – Reforçar políticas públicas de juventude; – Garantir educação de qualidade; – Combater a corrupção que fecha portas; – Proteger os jovens do crime, das drogas e das falsas promessas; – Incentivar o empreendedorismo com apoio concreto, não apenas discursos; – Ouvir os jovens antes de falar por eles. Nenhuma sociedade prospera quando a juventude anda perdida. A juventude moçambicana não precisa de piedade, precisa de caminhos. Não precisa de elogios vazios, precisa de políticas sólidas. Não precisa de incentivos passageiros, precisa de oportunidades estruturadas. Mas, enquanto essas mudanças não chegam, ela continua a caminhar, com coragem, criatividade e uma esperança teimosa que insiste em acreditar no futuro. Porque a realidade é esta: mesmo quando o país falha nas estradas, os

jun 06 2023

Mártires da Paz e da Democracia em Moçambique?

O Reitor do Seminário Filosófico São Carlos Lwanga Padre Avelino Arlindo desafia aos fieis católicos a serem mártires pela Paz e democracia que continuam ameaçadas em Moçambique. Padre Avelino denuncia com nostalgia que, no nosso país, quando alguém quer falar da paz e da democracia, no seu verdadeiro sentido, é morto. “Todos nós temos que fazer esforço, mesmo que para isso tenhamos que ser mártires, porque estamos a servir o nosso povo” – disse, recortando que “nos séculos passados, muitos foram mártires porque estavam a amar à Deus, na pessoa do nosso senhor Jesus Cristo e a seus irmãos”. “Hoje, deveríamos naturalmente, ser mártires por causa da paz que não há e que quando a desejamos, alguém nos mata, o mesmo que acontece quando desejamos a democracia. Vocês deviam ser mártires, porque Mártir, é aquele que testemunha Jesus Cristo nessas circunstancias na sociedade e no mundo inteiro”. Desafiou a fonte, lamentando que “há muita gente que morre em moçambique por causa de um bem que se quer para o povo”. Padre Avelino entende que a igreja enfrenta muitos desafios, numa altura em que os recém formados no sacerdócio, algumas vezes acabam caindo noutras actividades. “A formação que estamos a fazer é desafiante, porque hoje em dia há quem vem para a formação sacerdotal, para depois se ocuparem em outras áreas”.- referiu, dando como exemplo aos que usaram da  formação, no seminário, para mais tarde engrossarem as suas fileiras partidárias neste país, onde na sua opinião, “muitos que estão na Educação e na Política foram seminaristas”. O Padre Avelino não considera isso como um desperdício para a Igreja, porque em qualquer área onde esses dissidentes vão trabalhar, passam a ser bons profissionais e moralmente aceites na sociedade. “Gostaríamos que a pessoa fosse Padre, mas, se não pode, é melhor que saia antes”. – concluiu o prelado que falava a Rádio e Televisão Encontro no sábado, 03/06, à margem da comemoração do dia do Padroeiro do Seminário Filosófico São Carlos Lwanga, onde ele é Magnífico Reitor, tendo afirmado que está satisfeito com o aparecimento de muitas comunidades que ostentam o nome de São Carlos Lwanga, fora e dentro do país. Por Elísio João

maio 03 2023

Princípios políticos “ferem” liberdade de imprensa no país

A liberdade de imprensa continua a ser “pisada” em alguns países africanos e não só, o que periga sobremaneira o exercício livre da actividade jornalística. No nosso país, apesar de a liberdade de imprensa continuar um desafio, alguns jornalistas na cidade de Nampula, afirmam que a liberdade de imprensa existe, apesar de forma tímida. “Estamos a assistir aparecimento de muitas empresas jornalísticas e aumento do número de profissionais nessa classe, mas isso só, não significa que existe uma liberdade de imprensa no seu verdadeiro sentido”. – disse um profissional de comunicação social, que acrescentou que ainda existem casos de intimidações de jornalistas. “Ainda enfrentamos o problema de as fontes não serem abertas para a imprensa e isso fere a tal liberdade.” – comentou um outro jornalista para o qual a criação da figura de porta vozes nas instituições, pensava que seria o fim desse dilema. Por seu turno, o Presidente do Núcleo Provincial do MISA-Moçambique  em Nampula, Aunício da Silva, defende que o surgimento de mais órgãos de informação, é uma evidencia clara, que estamos a viver uma Liberdade de imprensa, pese embora não seja genuína. Deu o exemplo de fechamento de algumas fontes como que constitui violação da liberdade de imprensa, mas por outro lado, acredita que isso esteja associado com o facto de o país estar a experimentar novos modelos de governação ao nível das províncias, em que muitas fontes ainda não têm uma posição firmada, sobre o seu relacionamento com a imprensa, para o desenvolvimento da nação. “São novos actores no processo da governação descentralizada e outros vem de partidos políticos, que têm uma conservação ferrenha sobre seus princípios, que não aceitam críticas, e isso vai beliscando a liberdade de imprensa” – anotou Aunício da Silva, o qual dá exemplo de casos de ameaças de jornalistas e de fazedores de opinião. Para o Presidente do MISA em Nampula, “o que precisamos fazer neste momento, é preservar a conquista que temos ao nível da nossa constituição, como uma garantia legal das liberdades dos cidadãos”. A Assembleia da República deve garantir essa conquista como um poder legislativo sem permitir que haja uma distorção”. – desafiou o presidente do Núcleo Provincial do MISA – Moçambique em Nampula, Aunício da Silva, fazendo uma reflexão em volta do dia internacional da liberdade de imprensa, que se assinala em cada 03 de Maio. Por Elísio João

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