Discutir sobre as mulheres não é fazer com que elas se conformem a um modelo cultural específico, mas sim entender a gama de funções que desempenham e o valor de sua contribuição para o progresso socioeconómico de um país.
De acordo com Sen (2000), um país só pode crescer se as liberdades e a gama de oportunidades disponíveis para todos os seus cidadãos, mulheres em particular, forem aumentadas. Em Moçambique, as mulheres têm sido as protagonistas silenciosas e, em alguns momentos, invisíveis no lar, na família, na economia da agricultura e do comércio informal, na política comunitária e no patrimônio cultural.
1. Mulher que é Mulher no Lar
O lar é um dos primeiros locais onde os papéis de gênero se manifestam. Beauvoir (1949) observa que em muitas sociedades, as mulheres são socializadas para serem “a responsável natural” na gestão do lar, o que reforça a suposição de que tal trabalho doméstico é uma função social das mulheres.
Na prática, as mulheres acordam ao amanhecer para ir buscar água, preparar refeições, cuidar das crianças e arrumar a casa. Em províncias como Nampula, Zambézia e Cabo Delgado, ainda é comum caminhar longas distâncias para coletar lenha para cozinhar e também caminhar por longos períodos.
2. Mulher que é Mulher na Vida Familiar
Na família, como uma das primordiais instituições da sociedade, é onde a mulher está mais presente. Ela exerce maior papel na qualidade das relações familiares e para o desenvolvimento humano. Ela é educadora, mediadora e guarda os valores éticos.
Gilligan (1982) afirma que as mulheres são relacionais e assumem responsabilidades que impactam a estabilidade emocional da família. Assim mulher que é mulher na família é a que em grande parte, mesmo em difíceis condições socioeconómicas, assegura a continuidade e a estabilidade da vida da família. A sua autoridade moral dentro da família a fortalece como o principal sustento da sociedade.
3. Mulher que é Mulher na Vida Social
A presença da mulher na vida social moçambicana é notável e crescente. Giddens (2001), ao analisar o fenómeno da modernidade, defende que ela amplia a esfera pública. Deste modo, grupos anteriormente marginalizados, como as mulheres, tornam-se visíveis. Nos diversos sectores que integram, como associações comunitárias, grupos religiosos, cooperativas, actividades culturais e movimentos de solidariedade, as mulheres desempenham funções significativas na facilitação da prevenção da violência, na assistência humanitária e na perpetuação de um legado. Contudo, continuam a sofrer com a discriminação social, com a violência baseada no gênero, a educação escassa em algumas regiões, e a marginalidade social. O que se ressalta é a capacidade da mulher em desempenhar o papel de agente de transformação da sua comunidade, assistindo o empoderamento de outras mulheres e a defesa de direitos sociais.
4. Mulher que é Mulher na Vida Política
A evolução da democracia é acompanhada pelo desenvolvimento da participação da mulher na política. Quanto aos direitos democráticos, a ONU (2023) afirma que a democracia é legítima na medida em que a mulher faz parte dos processos de decisão. Pitkin (1967) reafirma que a existência de mulheres nos espaços de tomada de decisão é mais do que um detalhe, porque com mulheres se reservam direitos que, de outro modo, poderiam ser ignorados.
Moçambique tem facilitado a inclusão da mulher que actualmente é vista nos espaços de tomada de decisão, como nos parlamentos, nos governos provinciais e na justiça. As mulheres têm sido protagonistas nos processos de paz e reconciliação, principalmente, depois do conflito armado. Contudo, padece de: violência política; pressão familiar e social; falta de recursos financeiros para a sua campanha; estereótipos que a posicionam como incapaz de exercer a liderança. Por isso, uma mulher, neste sector, é a que constrói um caminho, representando as outras na conquista paulatina de mais direitos e na desigualdade da distribuição do poder.
5. Mulher que é Mulher na Vida Económica
A economia moçambicana depende fortemente do trabalho feminino. Elson (1995) demonstra que o trabalho das mulheres, embora essencial, é frequentemente invisível. Ela destaca que o desenvolvimento económico só é sustentável quando reconhece e valoriza a contribuição das mulheres.
As mulheres estão presentes: na agricultura de subsistência e comercial; na pesca artesanal; nos pequenos negócios urbanos e informais; nos mercados municipais; no sector dos serviços, saúde e educação; no empreendedorismo local. Mesmo assim, enfrentam barreiras como: dificuldade de acesso ao crédito e terra; baixa escolaridade em algumas regiões; sobrecarga de tarefas domésticas; vulnerabilidade económica. Apesar de tudo, mulher que é mulher investe, cria, empreende e garante a sobrevivência familiar. São verdadeiras sustentadoras da economia nacional. (Por: Dra. Alice da P. E. Manuel)
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