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maio 06 2026

O TRABALHO, NA BÍBLIA: MALDIÇÃO OU BÊNÇÃO?

Por: Pe. Marcos Mubango

Introdução

É muito generalizada a ideia segundo a qual o trabalho é uma maldição, fundamentando essa visão na Sagrada Escritura. Maio é mês trabalhador. Vamos dedicar o nosso espaço deste mês a perceber como, na verdade, a Bíblia vê o trabalho: bênção ou maldição?

1. O trabalho, uma maldição?

A ideia de que o trabalho é uma “maldição” vem principalmente de uma interpretação comum de Gn 3,17 onde, após o pecado de Adão e Eva, Deus profere palavras que associam o trabalho a dor, cansaço e esforço extremo, dizendo a Adão: “maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida”. Estas palavras de Deus são interpretadas como uma punição divina que tornou o trabalho maldito.
A visão negativa do trabalho é reforçada pela perspectiva negativa dada ao termo ’abodah, palavra hebraica para trabalho, em Êxodo 5, 9-18, onde é usada para significar “servidão”, “trabalho forçado”, referindo-se à “escravidão” dos hebreus no Egito, imposta pelo Faraó, como um mecanismo de opressão e punição, para mantê-los exaustos e impedi-los de ouvir as promessas de libertação de Moisés.

A visão negativa do trabalho na Bíblia é reforçada ainda pelo livro do Eclesiastes que o apresenta, muitas vezes, como “vaidade”, especialmente quando o esforço não traz satisfação real.
Como se pode facilmente constatar, parece haver uma progressão na maldição do trabalho que, além de ser “penoso” (Gn 3,17), impedindo qualquer tentativa de libertação (Ex 5,9-18) e, finalmente, é um “correr atrás do vento” (Ecle 6,1).

2. O trabalho, uma bênção!

Uma diferente interpretação das passagens acima citadas (Gn 3,17; Ex 5,9-18 e Ecle 6,1) mostra-nos o contrário, ou seja, que o trabalho é uma dádiva de Deus, uma bênção, e não uma maldição.
O trabalho é algo bom e digno, antes de tudo, porque é uma extensão da ação criativa de Deus. Deus trabalhou na criação do universo (Cf. Gn 2,2-3) e trabalha continuamente para a manutenção da vida e para a redenção humana (cf. Jo 5,17). O trabalho humano é uma participação na obra criadora de Deus, pois ele, criado à imagem de Deus, é chamado a administrar, desenvolver e dar continuidade à criação, agindo como colaborador de Deus no mundo. Esta vocação dignifica o ser humano, permitindo que, através de seus dons, intelecto e esforço, transforme a realidade e contribua para a construção da sociedade. Aliás, como nos mostra Gênesis 2,15, o trabalho faz parte do plano original de Deus que coloca o homem no jardim do Éden com a tarefa de torná-lo produtivo e protegê-lo, servindo a Deus e ao próximo.

Em Gn 3,17-19, Deus amaldiçoa a terra e não o trabalho em si. A maldição da terra trouxe futilidade e dor para a atividade laboral que em si é boa. O trabalho, natural e prazeroso, se torna penoso por causa da ruptura da comunhão do homem com Deus, que torna a terra menos produtiva, forçando o homem a trabalhar de forma penosa para obter o sustento.

Em Êxodo 5,9-18, o trabalho não é descrito como uma maldição em si, mas transformado em um instrumento de opressão e castigo devido à crueldade do Faraó. Trata-se, portanto, de uma instrumentalização do trabalho que é usado para “calar a boca” dos israelitas, impedindo-os de pensar na liberdade ou de ouvir Moisés. Isso demonstra que o trabalho, que deveria ser digno, pode ser pervertido pelo pecado humano em exploração e escravidão.

Para o Eclesiastes, o trabalho é considerado uma bênção e dádiva de Deus na medida em que permite o homem desfrutar dos seus frutos (Ecle 3,13.22). Entretanto, o trabalho se torna “vaidade” quando a pessoa trabalha incessantemente e não consegue aproveitar o que acumulou, deixando tudo para outros que não se esforçaram. A maldição não está no trabalho, mas na ganância, no stress e na incapacidade de aproveitar o fruto do próprio trabalho (Ecle 6,2). Qohelet sugere, assim, a necessidade de equilíbrio no trabalho, isto é, trabalhar com dedicação, mas também desfrutar da vida, reconhecendo que a verdadeira satisfação vem de Deus, não apenas do acúmulo de riquezas.

Esta visão positiva do trabalho é reforçada pelo Novo Testamento onde o trabalho é visto como uma bênção, vocação e dádiva divina, e não como um castigo ou maldição. Jesus, ao ser conhecido como filho do carpinteiro (cf. Mt 13,55), valoriza o trabalho manual como parte do plano divino. No seu ministério, Jesus ensina que Deus valoriza o empenho e é generoso, não baseando a recompensa apenas no tempo trabalhado, mas na graça e no chamado (cf. Mt 25,14-30). S. Paulo também valorizava profundamente o trabalho, tanto em um sentido prático quanto espiritual. Ele não apenas pregava a importância do esforço, mas também o praticava como fabricante de tendas (Act 18,3) para sustentar seu ministério e não ser um fardo para as comunidades. O trabalho é um acto de adoração (cf. Col 3,23-24), uma maneira de viver a vida digna e respeitável, garantindo a autonomia financeira e evitando ser um fardo para os outros (cf.1 Ts 4,11-12). O trabalho, quando feito no Senhor, nunca é fútil (cf.1 Cor 15,58).

Conclusão

Na Bíblia, o trabalho é considerado uma bênção divina e uma vocação original do ser humano, instituída por Deus antes da queda do homem, e não um castigo. Ele é visto como uma forma de honrar a Deus, desenvolver o caráter, obter sustento e servir ao próximo, sendo um meio de realização pessoal e de exercer a administração da criação. No mês dos trabalhadores, peçamos a Deus para que nos livre da tentação da instrumentalização, da exploração e da busca incessante por lucro, e nos capacite a valorizar a dignidade humana e a justiça no trabalho, fazendo dele um meio de servir a Deus e prover sustento com dignidade.

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