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jul 03 2026

CRÔNICA: BALA A BALA, DESTRUINDO O NOVO DIA

Por: Giovani Muacua

A crescente onda de esquadrões de morte mata o brilho de Moçambique. A realidade de cada dia no nosso país nega veementemente o esqueleto que o Hino Nacional descreve sobre Moçambique: “Moçambique, nossa terra gloriosa! Pedra a pedra construindo o novo dia. Milhões de braços, uma só força. Ó Pátria Amada, vamos vencer”.

Moçambique, custa-nos perceber até que ponto és a “nossa terra gloriosa” com corpos imolados e sangue derramado em cada dia; custa-nos entender com que “pedra a pedra” construis o novo dia, quando, na realidade, com bala a bala são silenciadas vozes inocentes. Tão pouco conseguimos ver que “milhões de braços, uma só força”, com inúmeras divisões nas diferentes instituições (políticas, sociais e religiosas).

Fazendo uma breve retrospectiva histórica, várias figuras públicas moçambicanas são eliminadas inocentemente, por vezes, pelas suas intervenções de forte impacto político, social e religioso.

No ano 2000, mataram Carlos Cardoso (em Maputo), jornalista que investigava alegados casos de corrupção ligados à privatização bancária; em 2015, silenciaram Gilles Cistac (em Maputo), professor universitário e especialista em Direito Constitucional, morto a tiro após intervenções públicas sobre questões constitucionais e descentralização; em 2017, mataram a tiros em Nampula, Mahamudo Amurane, Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula; em 2019, assassinaram Anastácio Matavele (em Xai-Xai), Observador Eleitoral e Dirigente de uma organização da sociedade civil, durante o período eleitoral. Em 2024, não escaparam do assassinato Elvino Dias, Advogado ligado à oposição política, e Paulo Guambe, mandatário do partido PODEMOS.

Desta vez, os esquadrões de morte invadiram Jerusalém, o Paço Episcopal da Diocese de Quelimane, onde mataram macabramente o Dom Osório Citora Afonso (2026), Bispo de Quelimane e Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira, o primeiro Bispo, natural de Iapala, Distrito de Ribáuè, Província de Nampula.

Será de bala a bala que Moçambique é glorioso e pode construir um novo dia? O corpo imolado e sangue derramado de Osório clama pela justiça e verdade. Foi na madrugada de 6 de Junho de 2026, que este servo de Deus e da Igreja foi baleado mortalmente. Um novo Mártir, um novo Santo do povo moçambicano. Um assassínio macabro e hediondo que aconteceu precisamente nas vésperas da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com altares preparados, os fiéis católicos estão prontos para irem às procissões com cânticos de louvor para exaltar o Corpo oferecido e o Sangue derramado de Cristo pela salvação do mundo. Foi neste contexto em que outro corpo e outro sangue era derramado dramaticamente sobre o solo moçambicano. Sentimento de choque, incredulidade e dor para o mundo inteiro.

Não foi apenas morte de um cidadão, nem apenas da morte de um líder religioso. Foi morte de um pastor, homem de Deus, filho moçambicano, que doara a sua vida ao serviço da Igreja e do povo.

De facto, existem acontecimentos que superam a esfera de crime comum e se transformam em sinais dos tempos. O assassinato de Dom Osório é um desses acontecimentos. Realidade que nos impõe a fitar o olhar para além dos factos imediatos e a interrogar-nos sobre a realidade política, social e espiritual deste e neste país.

Que sociedade estamos a construir enquanto cresce a onda de violência e esquadrões de morte? A morte de Dom Osório é luto “nacional” e deixa um forte apelo às autoridades governamentais, forças de segurança e instituições judiciais para que a verdade seja revelada e a justiça, seja feita. Não se trata de revelar a verdade e fazer justiça por vingança, mas por respeito supremo à dignidade. Quando um país resigna-se esclarecer crimes transforma a impunidade em cultura e a violência em café diário.

Dom Osório era filho de Iapala, no distrito de Ribáuè, província de Nampula. O seu percurso de vida era motivo de orgulho para milhares de moçambicanos. Homem simples, próximo das comunidades, conhecedor das alegrias e sofrimentos do povo. A sua morte feriu a família, os amigos, os Missionários da Consolata, a Diocese de Quelimane, a Arquidiocese da Beira e toda a Igreja em Moçambique.

Que Deus acolha Dom Osório Citora na plenitude da Sua paz. E que o seu sangue derramado se transforme numa voz profética que desperte Moçambique para os valores da justiça, da verdade, da fraternidade e da paz.

Dom Osório Citora, Descanse em paz!

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