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ago 04 2026

CRÓNICA: ENTRE PAREDES DE HOSPITAIS

Vukani Maxakha

Estar doente nas nossas bandas tornou-se cada vez mais complicado. Outro dia, um vizinho ficou gravemente doente e precisávamos de o levar ao hospital. Mas como tirá-lo daquele beco sem ruas? Ele vivia no fundo dos becos da nossa banda, onde as ruelas não permitem a passagem nem de um carro nem de uma mota; acho que até uma mulher grávida de seis ou mais meses teria dificuldades sérias para passar por lá. Fazê-lo sair daqueles becos não foi nada fácil.

Ter acesso aos serviços de saúde ficou ainda mais difícil. Outra vez, fui ao Hospital Central de Nampula para visitar o pai de um amigo que diziam estar internado lá, há três dias. Já fazia tempo que não entrava nas instalações daquela instituição sanitária, uma das maiores e de referência nacional.

Informei-me pelas indicações dispostas no hospital e dirigi-me para onde, provavelmente, estaria o paciente que teria de visitar. Para meu espanto, quando cheguei à enfermaria, parecia estar a entrar num mercado: pacientes e visitantes em todo e qualquer canto, nas camas e nos corredores; não havia sequer lugar para nos deslocarmos. Aí me perguntei: como é que os pacientes podem recuperar-se bem naquele estado? Por outro lado, como é que os médicos e o resto da equipa médica podem dar conta do recado naquelas condições? É mesmo um milagre sobreviver em tais circunstâncias.

Daí veio-me à mente um texto lindo, de um autor desconhecido, que passo a apresentar:

“Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que igrejas, já viram despedidas e beijos mais sinceros do que aeroportos. É no hospital que você vê um homofóbico sendo salvo por um médico homossexual, uma médica “patricinha” salvando a vida de um mendigo. Na UTI, você vê um judeu cuidando de um racista, um paciente policial e outro, presidiário. Na mesma enfermaria, ambos recebem os mesmos cuidados. Um paciente rico na fila de transplante hepático, pronto para receber um órgão de um doador pobre.

É nessas horas que o hospital toca na ferida das pessoas, que universos se cruzam com um propósito e, nessa comunhão de destinos, nos damos conta de que sozinhos não somos ninguém.

A verdade absoluta das pessoas, na maioria das vezes, só aparece no momento da dor ou da ameaça real da perda definitiva. O hospital é o local onde os seres humanos se desnudam das suas máscaras e se mostram como são na sua verdadeira essência.

Esta nossa vida passa rápido, não brigue com as pessoas em vão. Não critique tanto o seu corpo, não reclame. Não perca o seu sono, nem deixe que lhe tomem a paz. Não deixe de beijar os seus amores, não se preocupe tanto. Ame o seu Deus, a sua família, os seus amigos. Ore/reze por aqueles que você imagina não merecer. Bens e patrimónios devem ser conquistados por cada um, não se dedique a acumular herança.

Espera-se muito o Natal, a sexta-feira, o outro ano, quando tiver dinheiro, quando o amor chegar, quando você achar que tudo será perfeito. Na realidade, não existe nada perfeito. O ser humano não consegue atingir isso porque, simplesmente, não foi feito para se completar aqui… Aproveite e ame mais. Perdoe mais. Abrace mais. Viva mais intensamente. E deixe todo o resto na mão de Deus!”

Os parágrafos deste texto de origem desconhecida são tão profundos que nos deixam a reflectir. Como não fazer preces sinceras se estás entre a vida e a morte? Naquelas condições, cada paciente, além do alto risco de contagiar os outros, corre também o mesmo risco de ser contaminado por eles. Isto é desumano. Gritam as paredes, mas quem as escuta? Elas não fazem mais do que murmurar silenciosamente, e o seu ruído só é sentido pelos pacientes.

Cá entre nós! Digamos de passagem. Parece brincadeira, mas esta situação pode tirar alguém do sério. Enquanto, de um lado, o hospital está superlotado como o mercado de Waresta, do outro lado temos as instalações do novo hospital provincial, inacabado e abandonado há tempo. É doloroso e triste ver o povo sofrendo e mal acomodado, e um bando de executivos de gravatas, responsáveis pela má gestão das obras, circulando por aí impunemente. Infelizmente, esta moda está a pegar na Pérola do Índico: escolas, hospitais, pontes, etc., que se começam, mas nunca se concluem.

As paredes daqueles edifícios guardam muitas memórias. Apesar das condições precárias de trabalho, os hospitais também guardam lindas memórias de profissionais dando o seu melhor para salvar mais uma vida, ou de profissionais chorando e culpando-se por não poderem salvar mais vidas. Na verdade, se nestas situações é difícil ser um paciente, é ainda mais difícil ser um profissional de saúde nestes casos.

Falou o velho de olhar penetrante!

 

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