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ago 18 2026

AS LÁGRIMAS DE RAQUEL E O DESPERTAR DA PA.

Por: Mónica Meque

Vivemos em tempos difíceis e de desafios constantes, num mundo onde a esperança da paz e da tranquilidade humana tende a desmoronar-se a cada dia. As armaduras da pobreza, do terrorismo, das angústias, das incertezas, da xenofobia e de outros males que apoquentam a sociedade tendem a vergar incessantemente o povo moçambicano.

As recentes informações que nos chegam da vizinha África do Sul esmagam o coração de muitas mulheres, de muitas mães que esperavam o seu marido, o seu filho ou filha, o seu sobrinho e o seu neto voltarem triunfantes do prometido Eldorado, carregados de molhos de espigas de uma abundante colheita. Mas, infelizmente, algumas delas têm de enfrentar o terrível drama de receber em lágrimas os corpos dos seus entes queridos. Face a esta situação, o que pode ainda fazer a mulher?

A profecia de Jeremias, num dos seus versículos, relata-nos um episódio que vale a pena recordar: “Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem” (Jer 31,15). O cenário repete-se. As personagens mudam. Hoje, já não é Raquel; é a África, é uma outra pobre mulher que chora amargamente e de forma inconsolável. Hoje não são as tribos do Norte de Israel chacinadas pelos assírios; são filhos da mesma Mãe-África a perpetrarem atrocidades fratricidas. Violência após violência! Como fica o coração de uma mãe?

A mulher vive, hoje, numa sociedade onde o choro de um irmão já não nos toca o peito, onde o abraço de esperança virou uma troca de moeda, onde a família e a sociedade em geral se transformaram em lugares de julgamento e exclusão. Somos os acusadores e os defensores do crime alheio; somos os donos da verdade. Porém, não conhecemos a paz. Um lar de paz e harmonia é o que toda a mulher deseja para a sua família. Mas o que seria essa paz?

Falar da paz não significa necessariamente ausência de armas, guerras, conflitos, discussões ou atritos sociais e familiares, mas refere-se igualmente à observância da tranquilidade e da ordem em todos os aspectos: individual ou interior, social, político e religioso. Nenhuma mulher gosta de viver em ambientes de hostilidade. Ela é, por natureza, acolhedora, protectora, promotora e integradora de paz e solidariedade.

Sabemos que o povo moçambicano viveu e vive momentos turbulentos, desafios de natureza política, social, económica, financeira, cultural e até mesmo religiosa. Ninguém escapa ao caos. Os preços dos alimentos de primeira necessidade não param de aumentar; sobre o combustível, esse nem se pode comentar; o filho tende a julgar e a desonrar os seus pais; os pais não assumem a responsabilidade de criar e educar os seus filhos; os cônjuges fogem da fidelidade; a globalização surge com mais poder de decisão sobre os valores sociais e éticos da sociedade; enfim, o desespero vai tomando conta de cada cidadão moçambicano.

Aliado a isto, um exemplo concreto revelou-se na vida dos moçambicanos aquando das manifestações pós-eleitorais das últimas eleições gerais. O povo moçambicano viveu momentos de aflição e de tensão jamais vistos, onde o desespero e a insegurança eram o único sentimento e alimento diário, fazendo com que os corações se tornassem menos esperançosos e mais angustiados. Podemos ainda acrescentar a este exemplo os recentes actos xenófobos que aumentam a violência e o luto, minando a irmandade. Mas como buscar a paz? Como reacender a esperança?

Antes de mais, é preciso compreender que a paz é o amor; a paz é uma responsabilidade individual e colectiva que o ser humano deve conhecer e cultivar todos os dias. Ela constitui a chave-mestra para o bem-estar social e económico de toda a sociedade.

Não se pode somente falar e gritar sobre a paz e a união, sem buscar acções concretas e mecanismos eficazes para que elas se materializem. A paz exige, não só da mulher como também de todos, a humildade e o amor a Deus. Desde a simples mulher até às lideranças governamentais, é crucial conhecer, compreender e aceitar a paz, colocando-a como uma agenda indispensável e inegociável para o bem-estar socioeconómico de todos os moçambicanos e da Região Austral.

A promoção da cultura do diálogo, da partilha, do acolhimento e do aperfeiçoamento da fé torna-se cada vez mais indispensável na vida dos moçambicanos. Outrossim, não menos importante, a luta pela erradicação da fome, da iliteracia, do desemprego, a provisão de serviços essenciais de saúde, água e saneamento constituem caminhos que nos levam à paz e à integração nacional e regional.

Por fim, é tempo de compreender que somente cultivando e fomentando a paz, o homem e a mulher, o moçambicano, o sul-africano e o africano em geral podem ter uma vida saudável, impulsionar o amor ao próximo e promover um país de Direito, justiça social e democracia. Só assim se tornará evidente que a responsabilidade pela paz efectiva é tarefa de cada um de nós, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou cor partidária. Não importa onde e quando, o coração do ser humano deve estar recheado de sentimentos saudáveis que o levem à paz, e somente assim conseguirá viver em paz e transmitir ao próximo essa mesma paz. Só assim calaremos e limparemos as lágrimas de Raquel dos nossos dias.

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