O mês de Agosto, marcado por pausas escolares, convivência familiar mais intensa e reflexões sobre o andamento do ano lectivo, é também um momento oportuno para olhar com atenção para um tema muitas vezes silenciado: a saúde mental das crianças e dos adolescentes.
Em Moçambique, assim como em muitos outros países, cresce a preocupação com o bem-estar emocional dos mais jovens, cuja rotina escolar, desafios sociais, pressões familiares e influências tecnológicas podem gerar ansiedade, insegurança e sofrimento.
Falar de saúde mental não é falar de “fraqueza”, nem de problemas exclusivos de adultos. Trata-se de reconhecer que todas as pessoas, em qualquer idade, precisam de apoio emocional, compreensão e orientação para lidar com dificuldades.
O que está a acontecer com os nossos jovens?
A realidade mostra sinais preocupantes. Nas escolas, aumentam relatos de conflitos entre alunos, agressões, isolamento, choro fácil, dificuldades de concentração e desmotivação. Muitos estudantes enfrentam perdas familiares, deslocações internas, pobreza, insegurança nas comunidades, além das pressões naturais da idade: mudanças físicas, comparações sociais, dúvidas sobre o futuro e incertezas académicas.
A tecnologia, embora útil, trouxe consigo novos desafios. O tempo excessivo no telemóvel, a comparação constante com vidas “perfeitas” nas redes sociais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados podem gerar ansiedade, baixa auto-estima e até dependência digital. É um mundo atractivo, mas que exige maturidade emocional para ser usado com segurança.
Sinais que não devem ser ignorados
Nem sempre as crianças e os adolescentes conseguem explicar o que sentem. Muitas vezes expressam sofrimento através de comportamentos. Entre os sinais que merecem atenção destacam-se:
a) Isolamento ou recusa em participar de actividades;
b) Irritabilidade constante ou explosões de raiva;
c) Tristeza prolongada e choro sem explicação clara;
d) Queda brusca no rendimento escolar;
e) Queixas frequentes de dores sem causa médica clara;
f) Falta de energia ou desinteresse por coisas de que antes gostavam;
g) Medo de ir à escola ou de enfrentar colegas;
h) Mudanças nos hábitos de sono ou alimentação.
Estes comportamentos podem ter diferentes causas e não significam necessariamente uma doença, mas indicam que algo não vai bem. O importante é que adultos responsáveis estejam atentos e disponíveis para conversar.
A escola como espaço de apoio e protecção
A escola não é apenas um lugar de aprendizagem académica. É também um espaço de convivência humana, onde se constroem amizades, se desenvolve identidade e se criam referências afectivas importantes. Por isso, tem grande impacto no bem-estar emocional das crianças.
Um ambiente escolar positivo, em que os alunos se sintam valorizados e respeitados, reduz significativamente conflitos e ansiedade. Professores atentos podem identificar mudanças de comportamento e encaminhar para apoio adequado.
Pequenas práticas fazem grande diferença: Saudar cada aluno com cordialidade; incentivar a participação sem pressão; evitar humilhações públicas; organizar actividades que promovam cooperação; criar momentos de escuta activa; reforçar a confiança nos alunos que têm dificuldades.
Quando a escola transmite segurança e acolhimento, o aluno sente-se mais forte para enfrentar desafios.
O papel da família no cuidado emocional
A família é o primeiro espaço de protecção. Um lar onde as crianças podem falar livremente, ser ouvidas e respeitadas fortalece a saúde mental. Contudo, muitas famílias enfrentam dificuldades económicas, relações tensas ou rotinas pesadas, o que pode limitar o tempo e a paciência para lidar com questões emocionais.
Não é necessário perfeição, mas sim presença. Algumas atitudes simples ajudam muito: i) Conversar diariamente, nem que seja por alguns minutos; ii) Perguntar como correu o dia, sem julgamentos; iii) Evitar comparar os filhos entre si ou com outras crianças; iv) Valorizar pequenos progressos e não apenas notas; v) Oferecer carinho e atenção mesmo diante de conflito.
As crianças que se sentem amadas e compreendidas ganham maior confiança para enfrentar problemas.
A importância de falar sobre sentimentos
Muitas vezes, ensinar matemática, leitura ou ciências é considerado prioridade, enquanto educar emoções fica para segundo plano. No entanto, crianças que conseguem identificar e expressar sentimentos são mais capazes de resolver conflitos e gerir frustrações.
A escola e a família podem incentivar momentos de partilha emocional: 1) Perguntar o que o aluno ou filho está a sentir; 2) Usar actividades de grupo para trabalhar empatia; 3) Ensinar que sentir tristeza, medo ou raiva não é errado; 4) Mostrar como resolver problemas com diálogo.
Quando se normaliza a conversa sobre emoções, reduz-se o estigma e facilita-se o pedido de ajuda.
Estratégias simples para fortalecer a saúde mental
Mesmo em contextos com poucos recursos, existem práticas acessíveis que podem ajudar:
a) Caminhadas e actividades ao ar livre; b) Jogos e brincadeiras que estimulem socialização; c) Horários de descanso adequados; d) Redução do uso de telemóveis antes de dormir; e) Leitura e actividades artísticas;f) Rotinas equilibradas de estudo e lazer.
O equilíbrio entre o corpo e a mente é essencial para o desenvolvimento saudável.
Quando procurar ajuda especializada
Há momentos em que o apoio familiar e escolar não é suficiente. Quando o sofrimento se prolonga por semanas, afecta as actividades diárias ou envolve risco para a segurança da criança, é importante procurar ajuda de profissionais da psicologia ou da saúde mental. Quanto mais cedo for a intervenção, maiores são as chances de recuperação.
Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. E todos: família, escola, comunidade e sociedade, têm um papel insubstituível nesta missão.
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