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set 03 2026

CRÓNICA: QUANDO A AUTONOMIA SE CONFUNDE COM AUTO-SUFICIÊNCIA

Giovanni Muacua

Há um fenómeno silencioso que se vai instalando na nossa sociedade e que poucos ganham a coragem de discutir. Fala-se muito da emancipação feminina, da independência económica e da igualdade de direitos, que são conquistas legítimas e inegociáveis. Mas fala-se pouco dos excessos que, por vezes, acompanham essas conquistas. O problema não está na liberdade da mulher. O problema começa quando a liberdade é confundida com auto-suficiência e quando a independência financeira passa a ser entendida como licença para dispensar os valores que sustentam uma família.

 

Há dias, num transporte semicolectivo, enquanto seguia para o trabalho, testemunhei uma conversa que me fez reflectir. Duas senhoras conversavam animadamente. Uma delas, aparentemente recém-formada na área da saúde, dizia à amiga: “Mana, estou cansada daquele homem. Assim que eu for colocada no Aparelho do Estado, nem me vou despedir dele. Simplesmente desapareço. Com o meu salário consigo alimentar-me”.

 

A frase foi dita com orgulho, como quem anuncia uma grande conquista. O silêncio que se fez no interior da viatura foi revelador. Alguns passageiros trocaram olhares discretos. Ninguém respondeu. Mas todos pareciam compreender que aquela afirmação dizia muito mais do que as palavras pronunciadas.

 

Aquela mulher certamente tem a sua história. Talvez tenha sofrido humilhações. Talvez tenha enfrentado desprezo ou violência. Não conhecemos a sua realidade e seria injusto julgá-la. Contudo, o seu discurso espelha uma mentalidade que se torna cada vez mais visível: a crença de que o emprego, o salário e a autonomia económica tornam dispensável o compromisso afectivo.

 

É aqui que reside uma das grandes ilusões do nosso tempo.

 

Vivemos numa sociedade que mede o sucesso pelas posses, pelo cargo ocupado e pelo saldo da conta bancária. Ensina-se a conquistar diplomas, empregos e património, mas ensina-se cada vez menos a cultivar relacionamentos, a resolver conflitos e a construir famílias sólidas. O resultado está diante dos nossos olhos: cresce o número de separações, aumentam os lares monoparentais, multiplicam-se pessoas que vivem rodeadas de conforto material, mas profundamente sós.

 

Nem o salário mais elevado substitui o carinho de quem espera por nós em casa. Nenhum cargo elimina a necessidade de ser amado. O dinheiro compra medicamentos, mas não cura a solidão. Compra uma casa, mas não constrói um lar. Compra uma cama confortável, mas não garante um sono tranquilo quando a consciência pesa ou quando o coração sente falta de companhia.

 

É curioso observar como algumas relações se transformam depois da estabilidade profissional. Existem casais em que o respeito dá lugar à competição. O diálogo cede espaço ao orgulho. Pequenos gestos de carinho deixam de existir. Já não se diz “boa viagem”, “cheguei bem” ou “até logo”.

 

No entanto, uma relação não termina apenas por causa de grandes traições. Muitas vezes morre lentamente, sufocada pela indiferença, pelo orgulho e pela ausência de atenção aos pequenos detalhes. Muitos homens continuam a abandonar os filhos, a fugir às responsabilidades familiares, a exercer violência doméstica e a acreditar que o dinheiro lhes concede autoridade para humilhar a esposa.

 

Muitos jovens já entram no namoro pensando mais na estabilidade financeira do que na estabilidade emocional. Casam-se sem aprender a dialogar. Separam-se sem tentar reconciliar-se. Trocam de parceiro com a mesma facilidade com que trocam de telefone.

 

Não será por acaso que tantos sacerdotes, pastores e conselheiros matrimoniais recebem diariamente homens e mulheres que, apesar de possuírem emprego, casa e rendimento, confessam sentir um enorme vazio afectivo. O dinheiro resolveu muitos problemas materiais, mas não conseguiu preencher o coração.

 

E talvez seja precisamente aí que muitos, homens e mulheres, estejam a pensar menos com o coração e mais com os joelhos: ajoelhados diante do dinheiro, do orgulho e da ilusão de que podemos viver sem precisar uns dos outros.

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