Celebrámos a 25 de Junho deste ano 51 anos de independência. A tónica dos discursos de ocasião foi sempre a unidade nacional para alcançar a independência económica. Voltámos a gritar “Viva a unidade nacional!”, mesmo conscientes de que a nossa desunião como povo se aprofunda a cada dia por causa das nossas opções de governação.
Se há uma verdade no discurso de unidade nacional repetido a cada evento comemorativo é que, de facto, dispersos e sem unidade, dispersamos também energias que deveríamos orientar para uma só causa: a causa do desenvolvimento económico do nosso país. Desuniões baseadas em banalidades e em conflitos de poder nunca nos levarão à prosperidade. A nossa união deve encabeçar a nossa vontade de mudar o presente e de lutar por um futuro melhor. Todos os políticos deveriam ser chamados à consciência sobre esta finalidade. Se os partidos políticos são orientados apenas pelo desejo de posse de poder e não pelo anseio de fazer a diferença no projecto de melhorar Moçambique, então a sua existência é inútil.
A cada ciclo eleitoral vemos esforços de políticos e dos seus partidos para alcançar o poder. Mas para quê? Os sinais mostram que a única intenção dos partidos políticos que lutam pelo poder é ter acesso aos recursos para resolver problemas dos seus grupos. Provam-no as deficiências de gestão de poder dentro dos próprios partidos. Assim, partidos que deveriam ser alternativas ideológicas para a realização da mesma causa nacional tornam-se grupos de rivalidades e de dispersão de esforços. A unidade nacional, que deveria ser solidificada pelo direito a essas várias visões políticas para o país, fica, ao contrário, em crise ao pregarem-se ideologias de divisionismo.
A falsa unidade nacional como causa da exclusão
A nossa independência foi fruto da unidade nacional. Mas o acesso ao poder, depois da proclamação da independência, não seguiu a mesma lógica. Por meio de critérios duvidosos, o poder foi distribuído entre aqueles que atribuíram a si mesmos a legitimidade de aceder-lhe. A exclusão de pessoas de visões diferentes da daqueles que assumiram o poder começou uma nova era nacional: a era da falsa unidade nacional pregada nos púlpitos, mas negada na realidade.
Desde essa altura, prega-se a unidade nacional nos comícios, nas cerimónias oficiais do Estado, nos encontros diplomáticos, nos acordos políticos, etc., mas na realidade, em termos de acções, não se veem sinais tendentes à unidade nacional. Pelo contrário, a crise da unidade nacional, que antes era movida por facções tribais, hoje atingiu outros estágios. A exclusão política e económica encabeçam uma nova desunião, mesmo antes de se resolver o problema da desunião causada pelos factores tribais e regionais.
Hoje, a pobreza é causada pela exclusão económica e política. Tal como se faz nos discursos políticos, a nossa unidade nacional deveria reflectir-se em esforços de dar espaço a todos para contribuírem de igual forma para a chamada independência económica. Mas o nosso modelo de união discrimina os mais pobres e exclui os que não possuem recursos para medir forças na batalha pelo acesso a recursos de desenvolvimento.
O exemplo mais prático é o da exclusão no acesso ao emprego e ao financiamento de projectos de renda. Quase sempre, os que conseguem emprego são os que conseguem pagar por ele. Os que conseguem financiamento são os que possuem influência política ou económica para sensibilizar quem decide. A exclusão política segue o mesmo caminho. A via da filiação partidária tem sido usada para excluir muitos cidadãos do acesso a recursos de sobrevivência, num claro atentado à unidade nacional.
A unidade nacional, que deveria significar a mobilização de todos para o trabalho, é condicionada a sensibilidades políticas. Não é ao acaso que os lugares estratégicos de decisão para o desenvolvimento do país não são confiados a pessoas competentes. O único critério para aceder a tais lugares tem sido o da filiação política. Esta prática tem excluído milhões de moçambicanos que gostariam de contribuir para o desenvolvimento do país.
Enquanto as nossas políticas económicas continuarem excludentes, não podemos falar de unidade nacional. A dependência política e económica continuarão se as nossas opções para alcançar o progresso forem selectivas e condicionadas a pertenças políticas. O país é de todos e quem governa deveria ter o domínio desta base. A unidade nacional não se faz com discursos embelezados de aparentes boas intenções. Ela é o resultado de acções concretas que, com patriotismo, mobilizam a todos e disponibilizam recursos para a luta contra a pobreza, tal como no passado foi feito na luta contra o colonialismo.
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