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out 22 2026

A EDUCAÇÃO EM MOÇAMBIQUE E OS DESAFIOS DO PROFESSOR CATÓLICO

Por: Judite Comia e Luciano Bartolomeu Panela

A educação desempenha um papel crucial na formação dos indivíduos e na construção das sociedades. É uma das ferramentas mais poderosas para o desenvolvimento pessoal e o progresso social. Sociedades bem-sucedidas e desenvolvidas estão geralmente associadas a sistemas de educação sólidos e eficientes, capazes de proporcionar uma instrução consistente e que reflecte os valores morais e éticos, bem como as aspirações das suas populações. Por esta razão, é de todo legítimo considerar a educação como a base do desenvolvimento e do progresso equilibrado de uma nação.

Volvidos cinquenta anos da sua independência, Moçambique tem vindo a registar progressos assinaláveis no campo da educação, principalmente no que diz respeito ao acesso ao ensino, fruto dos esforços empreendidos pelo Governo para o alargamento da rede escolar, tanto nas zonas urbanas e periurbanas como nas zonas rurais. Paralelamente, reformas curriculares têm sido introduzidas no sistema educativo, com vista a adequá-lo às condições sociais e económicas do país e a ajustá-lo às novas exigências nacionais, regionais e internacionais, com destaque para a inclusão, a equidade e a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino e à formação.

Não obstante este progresso significativo, a educação em Moçambique enfrenta inúmeros desafios estruturais, com destaque para os seguintes pontos:

  • Baixos níveis de aproveitamento escolar: Muitos alunos revelam um baixo desempenho escolar, frequentemente associado ao fraco desenvolvimento das competências básicas de leitura e escrita, como tem sido apontado em vários estudos sobre a qualidade da educação em Moçambique. A este respeito, vale lembrar que a leitura e a escrita são habilidades fundamentais para o sucesso escolar. No entanto, um número significativo de alunos termina os ciclos escolares com dificuldades notórias, impactando as etapas subsequentes do percurso escolar, incluindo a universitária.
  • Limitações de infra-estruturas e meios: Embora tenha crescido o número de escolas no país, muitas delas ressentem-se da falta de salas de aula condignas. Muitos alunos ainda estudam em espaços improvisados debaixo de árvores, sem carteiras nem bancos, tornando a aprendizagem limitada e penosa. Nalguns casos, falta até o quadro-preto, elemento essencial numa sala de aula. As bibliotecas escolares são um luxo e um privilégio reservado a pouquíssimas instituições.
  • Elevado ratio professor-aluno: Os professores lidam com turmas duas ou três vezes mais numerosas do que o ideal, tornando o acompanhamento individualizado dos estudantes um exercício quase impossível.
  • Corrupção e conduta irresponsável de alguns professores: O mal da corrupção que se instalou no país não exclui o sector da educação. Não são raros os casos em que professores e professoras se envolvem em actos de corrupção e assédio sexual em troca de notas para a passagem de classe. Aliás, tornou-se prática em muitas escolas que cada aluno tenha um “padrinho”, isto é, um docente que, em troca de dinheiro ou por afinidade, se encarrega de gerir “casos” nas avaliações ou nos conselhos de notas. Nisto, não importa o desempenho do aluno na sala de aula: o que conta é “quanto tem”. Desolador ainda é saber que alguns pais e encarregados de educação têm sido mentores ou, no mínimo, cúmplices dessa prática de apadrinhamento. Hoje, parece não haver grande preocupação por parte do aluno em adquirir conhecimentos, mas sim em obter o certificado. Por outro lado, o professor também parece não estar preocupado em transmitir saberes ou incutir valores, mas apenas em manter o seu emprego e garantir o salário.
  • Consumo de álcool e drogas nas escolas: Se o consumo de bebidas alcoólicas por parte dos alunos já constituía uma grande preocupação, nos últimos dias o problema agravou-se com o alastramento de casos de circulação e consumo de estupefacientes por jovens e adolescentes, mesmo nos recintos escolares. Estes fenómenos geram comportamentos desviantes com repercussões nefastas tanto no ambiente escolar como nas comunidades. Os casos de “maakha” que têm sido reportados em várias escolas da cidade de Nampula, e que têm resultado em situações de agressões físicas e até de mortes, são disso exemplo.

Estas e outras situações concorrem para a degradação do ensino e da aprendizagem, tornando a educação em Moçambique alvo de incessantes questionamentos. Diante deste cenário nebuloso e desolador, o professor católico não deve ficar indiferente. Pelo contrário, ele é chamado a assumir o protagonismo e a imprimir uma diferença positiva no seu local de trabalho, dando o melhor de si com vista a contribuir para a reversão da situação.

Com efeito, os vários desafios que caracterizam o cenário actual da educação em Moçambique constituem uma ocasião para o professor católico dar prova da sua vocação, da sua missão e do seu compromisso, que é formar integralmente crianças, adolescentes e jovens. Deve dotá-los não só de conhecimentos científicos, como também de valores humanos (amor, respeito, tolerância), de modo a que se tornem cidadãos responsáveis, conscientes dos seus direitos e deveres, e capazes de contribuir para a construção de uma sociedade mais coesa e harmoniosa.

Isto exige dele a adopção de uma postura firme e irrepreensível, abstendo-se de todas as práticas e comportamentos que não abonam a sua missão enquanto professor e educador, chamado a ser sal da terra e luz do mundo, conforme refere o Evangelho de São Mateus 5,13-16.

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