Na última edição, apresentou-se a importância da planificação em pequenos projectos. O exemplo foi o das sementeiras. Sublinhou-se igualmente que é tempo de sonhar um pouco mais alto. É tempo de passar de pequenos projectos de subsistência a projectos que rentabilizem um pouco mais.
Thomas Selemane, no seu artigo “Sem produção alimentar, não há desenvolvimento”, publicado na edição 784 de Junho de 2026 da Revista Vida Nova, pressupõe que talvez o maior erro estratégico das políticas agrárias moçambicanas tenha sido não colocar a agricultura familiar verdadeiramente no centro do desenvolvimento nacional. A agricultura familiar continua responsável pela maior parte dos alimentos consumidos internamente e constitui a principal fonte de sobrevivência de milhões de moçambicanos. No entanto, permanece marginalizada no acesso ao financiamento, à extensão rural, ao armazenamento, à irrigação e aos seguros agrícolas.
Este é o cerne da problemática: como inventarmo-nos para sonhar mais alto num País onde temos poucos recursos e onde o Governo parece não ter muito interesse em alavancar a agricultura familiar?
É a partir desta pergunta que este artigo propõe uma reflexão. Se o apoio tarda, como pode o próprio agricultor familiar reinventar-se para sair da lógica de sobrevivência e entrar na lógica da sustentabilidade? Defendemos que a resposta não está em esperar mais recursos, mas em usar melhor os recursos que já temos, assentes em três pilares essenciais.
O cuidado responsável da terra: o primeiro sonho alto
Muitos de nós crescemos a ouvir que a terra dá quando Deus quer. Mas a agricultura sustentável ensina o contrário: a terra devolve o que nós lhe damos. Enquanto a agricultura familiar de sobrevivência explora o solo até à exaustão, a agricultura sustentável propõe uma relação de reciprocidade. Sonhar mais alto, neste caso, não significa expandir a machamba, mas sim aprofundar a relação com ela.
Este cuidado começa com práticas simples e sem custo. A produção de composto orgânico a partir de restos de colheita, cinza e esterco animal, e a prática da consorciação — como o plantio de milho com feijão nhemba — são exemplos de como é possível restaurar a fertilidade sem depender de insumos externos caros. O feijão fixa o nitrogénio no solo, o composto devolve a vida microbiana e a cobertura morta guarda a humidade. É a ciência dos nossos avós, agora validada pela agroecologia.
Portanto, o primeiro acto de se reinventar é mudar a mentalidade: deixamos de ser extractores da terra para sermos guardiões dela. Quem cuida do solo não está apenas a plantar para esta época; está a garantir que a mesma terra que alimentou os seus pais poderá pagar a escola dos seus filhos e ainda alimentar os seus netos.
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