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abr 08 2026

MULHERES QUE SUSTENTAM O PAÍS COM A VOZ

Por: Kant de Voronha

Março e Abril chegam sempre com uma luz especial. Março traz o Dia Internacional da Mulher e Abril recorda-nos o poder da palavra e da comunicação na vida moçambicana. Quando olhamos para o nosso país com mais atenção, percebemos que estes dois meses não se podem separar. A mulher é, há séculos, a grande comunicadora da vida: é ela quem transmite valores, educa, partilha saberes, resolve conflitos, consola, encoraja, vigia, avisa e preserva a história oral. É também ela que domina a palavra doméstica, comunitária, religiosa e cultural. Por isso, juntar estes dois meses numa só reflexão não é apenas conveniente: é justo.

A verdade é simples e profunda: a mulher moçambicana é uma ponte entre a vida e o futuro. E a sua voz é um dos instrumentos mais importantes para a construção da paz, da harmonia e da dignidade no país.

A mulher que carrega o mundo sem fazer barulho

Todos sabemos, mesmo sem estatísticas, que grande parte do peso do país assenta nos ombros das mulheres. São elas que acordam mais cedo, carregam bidões de água, fazem longas filas nos mercados, trabalham na machamba, sustentam a economia informal, organizam o lar, tratam dos filhos, ajudam os vizinhos e ainda encontram força para cantar, rezar e sorrir.

O curioso é que tudo isto acontece quase sempre em silêncio. As mulheres trabalham numa espécie de heroísmo diário que raramente é reconhecido. A sociedade habituou-se tanto à sua resistência que, muitas vezes, nem percebe a injustiça de esperar tanto delas.

Quando celebramos Março, não estamos apenas a elogiar as mulheres; estamos a admitir que, muitas vezes, falhamos com elas.

O poder invisível da voz feminina

Abril convida-nos a falar da comunicação. E aqui, novamente, encontramos a mulher no centro da conversa. A casa funciona porque a mulher comunica. O bairro mantém paz porque as mulheres conversam, aconselham, acalmam, chamam à razão. As igrejas têm vida porque as mulheres rezam, cantam, catequizam e animam. Os mercados sobrevivem porque as mulheres negociam, discutem preços, partilham informações e seguram a economia informal.

Em muitas famílias, a figura que transmite valores como respeito, disciplina, fé, solidariedade e responsabilidade é a mãe ou a avó. É ela quem diz frases que moldam a personalidade dos filhos: “não mintas”, “trabalha com honestidade”, “não faltes ao respeito”, “não te metas em confusão”, “não explores ninguém”, “não desprezes quem sofre”. A comunicação feminina é formadora. Educa mais do que muitos programas oficiais.

A mulher que enfrenta medos que não contam nas estatísticas

A realidade da mulher moçambicana também tem sombras pesadas: violência doméstica, casamentos prematuros, assédio, desigualdades no emprego, exclusão de oportunidades, carga mental desproporcional, pobreza extrema, acesso limitado à educação e injustiça social. Muitas destas situações permanecem escondidas porque as vítimas têm medo de falar — ou porque não acreditam que alguém as irá ouvir.

E aqui o tema da comunicação volta a aparecer: o silêncio imposto às mulheres é uma das formas mais cruéis de violência. Um país cresce quando a voz das mulheres é respeitada, escutada e protegida.

Mulheres no jornalismo, na rádio e na comunicação comunitária

Moçambique tem visto crescer o número de mulheres no jornalismo, na rádio e noutras formas de comunicação pública. Este avanço é importante porque a presença feminina muda, de forma positiva, a forma como contamos a realidade.

As mulheres jornalistas tendem a abordar temas muitas vezes esquecidos: problemas de saúde materna, a luta das famílias pobres, as dificuldades das raparigas na escola, os desafios da violência baseada no género, a economia doméstica, a vida comunitária, os sentimentos das pessoas, as dores silenciosas.

Quando uma mulher comunica, a sociedade ouve assuntos que antes eram ignorados. Mas ainda há desafios: desigualdade salarial, assédio nas redações, falta de oportunidades de liderança e a necessidade de maior segurança no terreno, especialmente nas zonas afectadas por violência ou instabilidade.

A palavra como arma e como remédio

No nosso contexto, a palavra pode ser cura ou ferida. Pode levantar ou derrubar. Pode orientar ou enganar. E muitas mulheres são vítimas de palavras que ferem: insultos, humilhações, ameaças, mentiras, fofocas destrutivas, manipulação emocional. Esta violência verbal é tão séria quanto a física, porque destrói lentamente a dignidade.

Mas também há palavras que curam: palavras de apoio, encorajamento, solidariedade e esperança e a maioria destas palavras vêm das mulheres. Quando uma mulher diz “vai ficar bem”, a comunidade inteira respira melhor.

A comunicação feminina como força de paz

Em tempos de conflitos armados ou tensões comunitárias, quem cuida primeiro dos feridos, quem consola os vizinhos, quem garante que as crianças mantêm alguma rotina, quem organiza grupos de ajuda, quem procura informação para proteger a família? As mulheres.

São elas que entendem que a paz não nasce de discursos: nasce de gestos pequenos, de palavras serenas, de reconciliações discretas, de coragem silenciosa. Se queremos promover paz em Moçambique, precisamos de ouvir mais as mulheres e aprender com elas.

A fé feminina que sustenta a comunidade

Nas paróquias, comunidades eclesiais, grupos de oração, cânticos e actividades sociais, a força motriz é feminina. A fé das mulheres não é apenas espiritual; é prática. É fé que cozinha para funerais, que acolhe órfãos, que visita doentes, que organiza coros, que mantém viva a tradição de celebrar, rezar e agradecer. Através da palavra de fé, elas transmitem esperança num país onde a vida é, muitas vezes, dura demais.

Desafios que ainda pedem resposta

Para honrar verdadeiramente as mulheres, não basta celebrar Março e Abril. É preciso transformar a realidade. Entre os maiores desafios estão: Garantir educação plena para raparigas; combater casamentos prematuros; criar mecanismos sérios contra a violência doméstica; apoiar mulheres empresárias e agricultoras; aumentar o acesso das mulheres à terra e ao crédito; valorizar o trabalho doméstico, que sustenta milhões; fortalecer a presença feminina em cargos de decisão; proteger a palavra das mulheres: o direito de falar sem medo.

A palavra da mulher é património nacional

Quando pensamos bem, percebemos que a voz feminina moçambicana é um património cultural. É pela voz das mulheres que as histórias passam de geração em geração. São as mães que ensinam os provérbios, os conselhos, os cantos tradicionais, as receitas e os rituais. São elas que mantêm viva a memória das famílias. Perder a voz das mulheres seria perder a alma do país.

Portanto, Março e Abril lembram-nos que a mulher é mais do que uma figura social: é uma força moral, económica, espiritual e comunicativa. Ela forma a família, sustenta a comunidade, equilibra a sociedade e ajuda a construir a paz. E faz tudo isto com a palavra certa, o gesto certo, o silêncio certo e a coragem certa.

A realidade é esta: se a mulher moçambicana parar, o país pára. Se a sua voz for silenciada, o país empobrece. Mas se a mulher for valorizada, ouvida e protegida, Moçambique avança com passos firmes.

 

 

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