Nos últimos anos, a nossa situação como sociedade tem demonstrado uma deterioração em quase todos os âmbitos. O que se supunha ter sido conquistado parece estar em declínio e, até ao momento, tornou-se difícil prever o nosso futuro.
A Perda das Conquistas
Há poucos anos, quando olhávamos para o caminho que Moçambique tem trilhado, reclamávamos pelo facto de o desenvolvimento ser localizado. Todas as críticas e reclamações direccionavam-se para a existência de crescentes desigualdades — não apenas no acesso às oportunidades, mas também na falta de abrangência do desenvolvimento às zonas periféricas.
Sabíamos que, desde a independência, houve conquistas. O problema era que tais avanços estavam localizados e personalizados, sendo propriedade quase absoluta de alguns. Bom emprego, saúde de qualidade, educação de primeira, cidades condignas, os melhores salários e oportunidades de financiamento — em suma, os melhores serviços públicos — tinham (e ainda têm) donos; beneficiários quase naturais a quem a “cor da bandeira” serve. Outros moçambicanos sempre viveram em serviços periféricos. Nessa ocasião, qualquer moçambicano sabia que o nosso pior problema era a desigualdade.
Saúde e Educação: O Retrato da Nossa Desgraça
Hoje, percebe-se que, em vez de se criar a tão reclamada igualdade, nem sequer se consegue manter o pouco que se havia conquistado. Estamos numa viagem de regresso à desgraça colectiva, ao sermos incapazes de prover serviços básicos necessários para a sobrevivência de uma nação, como a saúde, a educação e a segurança.
– Um sistema de saúde em colapso: Num passado recente, exigíamos que o Governo levasse assistência médica ao meio rural. Hoje, os poucos hospitais que existiam tornaram-se apenas paredes. A qualidade da assistência baixou devido ao elevado índice de corrupção, e o Executivo tornou-se incapaz de oferecer condições para um atendimento hospitalar básico. Nos hospitais, morre-se por negligência e corrupção, mas também por falta de medicamentos elementares, como gessos, paracetamol ou antimaláricos.
– Um ensino que não oferece conhecimento: As escolas perderam a importância estratégica que deveriam ter. Os programas actuais demonstram, claramente, um investimento na analfabetização das crianças. Um relatório de 2021 indicava que apenas 6 em cada 100 crianças do ensino primário sabiam ler e escrever. Esta tendência não melhorou, pois a qualidade dos professores continuou a baixar. O sistema de educação transformou-se numa oportunidade de enriquecimento por meio de comissões, e as escolas passaram a ser locais de consumo de drogas ou prostituição, em vez de moldarem sonhos e profissões.
Um Passo Diário para o Fundo do Poço
Não existe sociedade próspera sem educação e saúde. Uma governação que sabota essas esperanças é, sem dúvida, um projecto de sabotagem à Pátria. A nossa situação só se resolve com uma paragem para reflectir: precisamos de pensar sobre a nossa origem e sobre onde queremos chegar.
Até aqui, todos os esforços aparentes não sortiram efeito. Andamos num círculo vicioso de soluções provisórias e inadequadas. Insistimos em atribuir tarefas importantes de desenvolvimento a pessoas manifestamente incompetentes, governando no interesse próprio e não no da Pátria.
Enquanto investirmos mais na protecção do poder do que na protecção da Pátria, Moçambique continuará a cair na anarquia e na pobreza. O reencontro e o recomeço parecem ser as únicas soluções ajustadas para termos o nosso País de regresso.
“E se parássemos tudo… para começar de novo?” Deolindo Paúa assina uma análise frontal sobre o estado actual de Moçambique, onde o declínio da saúde, a sabotagem da educação e a inversão de valores ameaçam o futuro da Pátria. Um diagnóstico urgente que aponta a corrupção e a incompetência como os principais motores da nossa desgraça colectiva.
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