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set 14 2026

OS PAIS: PRIMEIROS CATEQUISTAS NA BÍBLIA

Pe. Marcos Mubango

Introdução

A transmissão da fé constitui uma das principais preocupações da revelação bíblica. Desde o Antigo Testamento, Deus confia à família a missão de conservar e transmitir a memória da sua acção salvífica. Neste contexto, os pais aparecem como os primeiros catequistas dos filhos, responsáveis por introduzi-los no conhecimento de Deus, na observância da Aliança e na prática da vida religiosa. A presente reflexão pretende mostrar que esta missão possui sólido fundamento bíblico e continua a constituir um princípio orientador da acção catequética da Igreja.

 

  1. Os pais como educadores da fé no Antigo Testamento

O fundamento da catequese familiar encontra-se na vocação de Israel para transmitir a fé de geração em geração. Em Génesis 18, 19, Deus afirma ter escolhido Abraão para ensinar os seus descendentes a seguir os caminhos do Senhor, revelando que a educação religiosa integra o próprio projecto da Aliança. O texto central desta missão é Deuteronómio 6, 4-9, onde, após a profissão de fé do Shema Israel, Moisés ordena que os mandamentos sejam constantemente ensinados aos filhos. A Palavra de Deus deve acompanhar toda a vida quotidiana: em casa, durante as viagens, ao levantar e ao deitar. A catequese deixa, assim, de ser um acto ocasional para se tornar um verdadeiro estilo de vida.

 

Esta missão prolonga-se na pedagogia da memória. Quando os filhos interrogam os pais acerca do significado dos mandamentos, estes respondem narrando a libertação do Egipto (Dt 6, 20-25). A transmissão da fé realiza-se, portanto, através da recordação das obras de Deus na história, tornando a experiência da salvação o fundamento da educação religiosa.

 

  1. A catequese familiar no Novo Testamento

O Novo Testamento confirma a centralidade da família na formação da fé. Jesus cresceu no ambiente religioso da família de Nazaré, sendo educado por Maria e José na observância da Lei e das tradições de Israel (Lc 2, 41-52). A Encarnação confere à vida familiar um significado singular, mostrando que o próprio Filho de Deus quis experimentar o processo humano de crescimento numa família.

 

As cartas paulinas reforçam esta responsabilidade ao exortarem os pais a educar os filhos “na disciplina e na instrução do Senhor” (Ef 6, 4). O exemplo de Timóteo, formado na fé pela mãe Eunice e pela avó Lóide (2 Tm 1, 5), evidencia que o testemunho familiar constitui o primeiro ambiente de iniciação cristã.

 

  1. Implicações teológico-pastorais

A missão catequética dos pais ultrapassa a simples transmissão de conhecimentos religiosos. Ela concretiza-se sobretudo através do testemunho de vida, da oração em família, da participação na liturgia e da prática da caridade. A família torna-se, deste modo, uma verdadeira comunidade educativa da fé.

 

Num contexto marcado pela secularização e pela fragilidade das relações familiares, a redescoberta desta vocação revela-se essencial para a renovação da catequese. A comunidade paroquial exerce uma função indispensável, mas não substitui a responsabilidade originária dos pais, primeiros educadores da fé dos seus filhos.

 

Conclusão

A análise dos principais textos bíblicos permite concluir que a missão catequética dos pais possui origem divina e ocupa um lugar central na história da salvação. Desde Abraão até às primeiras comunidades cristãs, a família é apresentada como o espaço privilegiado da transmissão da fé. A Palavra de Deus, celebrada, vivida e testemunhada no ambiente familiar, garante a continuidade da Aliança entre as gerações e faz da família uma verdadeira “igreja doméstica”. Recuperar esta consciência constitui um dos desafios mais relevantes para a catequese e para a pastoral familiar da Igreja na actualidade.

 

 

 

Anexo

A Bíblia considera a família também como o local da catequese dos filhos. Vê-se isto claramente na descrição da celebração pascal (cf. Ex 12, 26-27; Dt 6, 20-25) – mais tarde explicitado na haggadah judaica –, concretamente no diálogo que acompanha o rito da ceia pascal. Eis como um Salmo exalta o anúncio familiar da fé: «O que ouvimos e aprendemos e os nossos antepassados nos transmitiram, não o ocultaremos aos seus descendentes; tudo contaremos às gerações vindouras: as glórias do Senhor e o seu poder, e as maravilhas que Ele fez. Ele estabeleceu um preceito em Jacob, instituiu uma lei em Israel. E ordenou aos nossos pais que a ensinassem aos seus filhos, para que as gerações futuras a conhecessem e os filhos que haviam de nascer a contassem aos seus próprios filhos» (Sl 78/77, 3-6). Por isso, a família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa «artesanal», pessoa a pessoa: «Se amanhã o teu filho te perguntar (…), dir-lhe-ás…» (Ex 13, 14). Assim, entoarão o seu canto ao Senhor as diferentes gerações, «os jovens e as donzelas, os velhos e as crianças» (Sl 148, 12). Amoris Laetitia 16

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