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set 16 2026

SINAIS E SÍMBOLOS, NA BÍBLIA

Daniel A. Raul

  1. Conceitos: Símbolo e sinal

Iniciámos esta reflexão procurando perceber a ligeira diferença entre sinal e símbolo: “sinal é indício, prova, aviso, emblema… O sinal indica algo de forma directa, funcional e objectiva, enquanto um símbolo representa conceitos abstractos, culturais ou emocionais com significados profundos e múltiplos. Sinais avisam (muitas vezes convencionais, carecem de iniciação para interpretá-los e entendê-los) ou instruem (exemplo: o semáforo). Na Bíblia, às vezes é algo que transcende o rumo comum da natureza; símbolos (do grego, symbolon = prova, de symballein = juntar) evocam ideias ou convicções (pombo da paz, bandeira nacional, aliança de casamento, logótipos), podem ser também convencionais, mas culturalmente construídos, e evocam um mundo de associações. Em muitos casos, mesmo na Bíblia, símbolo e sinal aparecem como sinónimos ou um ao lado do outro” (cfr. Bíblia Africana, p. 2259). De facto, em algum momento desta breve reflexão, poderemos usar as palavras “símbolo” e “sinal” como sinónimas.

 

  1. Palavras e manifestações simbólicas no Antigo Testamento

São várias as passagens bíblicas que apresentam a palavra ou palavras que, traduzidas em português, significam “sinal”. Em Ex 12,13: o hebraico ‘ot significa sinal distintivo das casas durante as pragas no Egipto; Gn 9,12: o arco-íris como sinal da aliança; Ex 3,12: sinal da verdade de uma afirmação; Js 4,6: memorial; Ex 4,8: sinal = milagre; 2Rs 20,8: sinal = presságio. Em Jz 6,17: sinal é a prova do encargo recebido, é a sua legitimação; mas em 1Sm 14,10: ‘ot é a conduta dos inimigos.

 

A palavra grega para dizer sinal é σημειον (lê-se: semeion) e aparece diversas vezes na Bíblia grega do Antigo Testamento, chamada A Setenta (LXX). As estatísticas da presença dessa palavra no AT são: 79 vezes no Antigo Testamento, das quais 39 vezes no Pentateuco e 19 vezes em Isaías, Jeremias e Ezequiel (provavelmente por causa das famosas acções simbólicas presentes nesses profetas).

 

Ainda no AT, é frequente a expressão “sinais e prodígios” (‘otôt ûmôfetîm), quase sempre em referência à libertação no Egipto, com interpretação deuteronomista (após a Reforma religiosa do rei Josias, em 622 a.C.).

 

2.1. Acções simbólicas nos profetas

Nos profetas, ‘ot (sinal) tem a função de legitimar a palavra de Deus que se realizará no futuro (Dt 13,2), como um modo de o profeta encontrar legitimidade diante dos ouvintes (1Sm 2,34).

 

As acções simbólicas nos profetas acontecem, especialmente em Ez, Jer e Is, por ordem divina que deve ser obedecida e são ligadas a uma interpretação que, por sua vez, deve ser feita. Têm testemunhas oculares, visam sempre algum fim, são sinais divinos que comportam um anúncio e são sinais que por si só falam… Por exemplo, nas acções simbólicas (Is 8,18; Is 20,3; Ez 4,3; Ez 5,1-17; Ez 12,6.11; Ez 24,15-27; Jer 13,1ss; Jer 18,1-11; Jer 19,1ss; Jer 28,1ss…), neste caso, ‘ot refere-se à mensagem do profeta: o sinal tem a mesma função da palavra profética, como nos exemplos acima. ‘Ot pode indicar “memória” que chama a atenção para a acção salvífica de Deus ou ponto de chegada futuro da obra de Deus, sobretudo em textos que se aproximam da apocalíptica (Is 19,20; Is 53,13).

 

  1. Sinais e símbolos no Novo Testamento, especialmente no Evangelho segundo S. João

Embora a palavra grega semeion (sinal) apareça diversas vezes nos evangelhos (veja-se o “sinal de Jonas” referido por Jesus em Mt 12,38-40 e Lc 11,29-32), é sobretudo no Evangelho segundo S. João que essa presença é mais frequente, a ponto de os sinais serem um conteúdo central e estruturante desse Evangelho, e por isso, a primeira parte desse livro se designa “Livro dos Sinais” (João, capítulos 1-12).

 

Os sete sinais no Evangelho de S. João são: a transformação da água em vinho (Jo 2,1-11), a cura do filho do oficial do rei (Jo 4,46-54), a cura do paralítico em Betesda (Jo 5,1-15), a multiplicação dos pães (Jo 6,1-14), Jesus andando sobre as águas (Jo 6,16-21), a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-44).

 

A seguinte passagem resume o propósito dos sinais, em Jo 20,30-31: “Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida n’Ele”. Desse modo, João explica o objectivo dos milagres realizados por Jesus, que, neste evangelho, são designados por “sinais”: eles servem para revelar a divindade de Jesus e convidar as pessoas à fé.

 

  1. Do sinal e símbolo bíblico para o sinal/mistério na Igreja primitiva

Na comunidade primitiva, a par do pão, do vinho e do cordeiro, pontifica o sinal do peixe (em grego ΙΧΘΥΣ, lê-se ikthus), o qual servia como código secreto e uma profunda profissão de fé, pois as suas letras formam uma sigla (Jesus Cristo, de Deus Filho, Salvador), para despistar os perseguidores do cristianismo nos primeiros séculos, tempo das catacumbas e de muita perseguição por causa da fé em Jesus Cristo.

 

  1. Elementos para uma conclusão

Os símbolos na Bíblia abrangem:

  1. a) Linguagem: parábolas, alegorias e comparações (2Sm 12,1-15; Lc 7,41-42; Lc 17,11-19).
  2. b) Números: 2 a 2 discípulos, 3 dias sepultado, 7, 12, 40, 50 ou 7×7=49, 70×7, 80, 1000, 5000.
  3. c) Acções (simbólicas) que equivalem a palavras (especialmente em Is, Ez e Jer).
  4. d) Veste: sandálias, manto, saco, faixa nos rins, báculo de pastor, cinza (Jer 1,17; Lc 12,35; Jo 13; 1Pd 1,13).
  5. e) Comida e bebida: leite e mel, acolhimento e comida especialmente como hospitalidade (A PRÓPRIA EUCARISTIA), pão e vinho, comer de pé no Egipto (Gn 14,18; Ex 3,8; Lc 22,19-20).
  6. f) Animais: leão, lobos, cães, serpente, touros, vacas, cordeiro, pombo (Am 4,1; Sl 22; 1Pd 5,8; Ap 5,5).
  7. g) Gestos: lavar os pés, sacudir o pó, imposição das mãos, rasgar as vestes (Mt 10,14; Jo 13; At 14,14; Hb 6,1-2).

 

Deste resumo, vemos a necessidade de conhecer e aprofundar tanto os sinais como os símbolos bíblicos para mantermos a alegria de entrar no Mistério de Cristo, que se fez Emmanuel, isto é, Deus no meio de nós, para nos salvar (cfr. Is 7,14; Mt 1,23).

 

BIBLIOGRAFIA

ACHTMEIER, P. J. et al, Il Dizionario della Bibbia, Zanichelli editore, Bologna 1986.

COENEN, L. et al, Dicionario Teológico del Nuevo Testamento, 3 voll, Sígueme, Salamanca 1990.

JENNI, E & WESTERMANN, C., Dizionario teologico dell’Antico Testamento, 2 voll, Marietti, Torino 1978.

JOHANNES BOTTEREWECK, G. & RINGGREN, H.,  Grande Lessico dell’Antico Testamento, 10 voll, Paideia, Torino 1988.

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