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jan 30 2023

CRONICANDO: QUANTO MAIS VELHO, MELHOR AINDA

Há teorias segundo as quais, o vinho mais antigo agrada mais. Ou seja, existe a premissa de que todo vinho fica melhor quando envelhecido. Uma outra máxima do povo macua estima que a chima fica bem preparada em panela (de barro) velha. Estima-se que há sensações (cheiros e sabores) que só são proporcionadas por um vinho velho. Esse espectro aromático, que vai dos frutos secos, passando por tons defumados até notas de trufas (e além), por exemplo, só é revelado quando a bebida evolui em garrafa. Eles são chamados de aromas terciários, e só são formados durante a lenta oxidação pela qual o líquido passa com os anos. É isso que os especialistas nomeiam como “buquê” – termo que está intimamente ligado a vinhos envelhecidos. “Ninguém que bebeu do vinho velho, quer já do novo, porque diz: ‘O vinho velho é melhor’”. Apesar de alegórica, esta passagem do evangelho de São Lucas mostra o quanto a premissa está enraizada nas mentes até de quem não se considera um enófilo. No entanto, muito da explicação para essa crença ter perdurado até aos nossos dias está no processo de produção dos vinhos que, durante milénios, fazia com que os novos, recém-fermentados, fossem “duros”, difíceis de beber. Eram vinhos rústicos, que somente com o tempo se tornavam mais palatáveis. Os séculos passaram e, com as novas técnicas de produção e mais conhecimentos sobre a videira, a uva, as leveduras, o envelhecimento em barricas etc., os vinhos tornaram-se bebíveis logo quechegavam ao mercado. Se antes nem sempre as uvas eram colhidas no ponto exacto de maturação (de açúcar e fenóis), por exemplo, agora isso é quase impensável (estudos mostram que as datas de colheita ao redor do mundo ficaram cada vez mais tardias) e explica uma parte da “suavidade” encontrada nas bebidas jovens actualmente. No entanto, diversos outros processos (fermentação malolática, bâtonnage e maceração carbônica, por exemplo) se somam para resultar em algo prazeroso desde o início. Não à toa, hoje a ampla maioria dos rótulos é planeada para ser consumida jovem, dentro de um ou dois anos depois de lançada. Neles, tudo (taninos, acidez, fruta) foi programado para estar equilibrado logo de cara e o tempo não é capaz de fazer com que ganhem nada (apenas percam). Isso não quer dizer, porém, que não existam vinhos que podem envelhecer bem. Mas, a questão que levantamos não reside na possibilidade de um bom envelhecimento, mas se é válido ou necessário esperar por esse envelhecimento para desfrutar de um vinho “melhor”. Ora, a alegoria daprevalência da delícia do vinho velho ou sua transição ao vinho novo, ou vice-versa é muito aplicável à realidade moçambicana. Senão vejamos. Em vários sectores de trabalho, tanto públicos como privados, imperam os adultos como os mais preferidos para assumir cargos de chefia. Julga-se que os mais velhos acumulam experiência laboral de longa data. Como tal, aos novos que se afiliam exige-se-lhes 5 anos de experiência da área a que pretendem ocupar uma vaga. Portanto, o vinho velho ainda é melhor que o vinho novo. Mas o mundo digital arrasta consigo novas exigências. O vinho velho já está obsoleto. As tecnologias não estão ao seu alcance. As competências actuais não são jamais as mesmas que há 40 anos atrás. Daí ser necessário o vinho novo para adequar ao novo modelo das garrafas contemporâneas. Aliás, Jesus já nos advertiu nesse sentido ao afirmar que “Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo puxa parte do tecido e o rasgão torna-se maior.Nem se deita vinho novo em odres velhos; de contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e, desta maneira, ambas as coisas se conservam” (Mt 9,16-17). Nessa passagem, Jesus, falando por meio de parábola, traz um ensinamento acerca da mensagem da Nova Aliança. Comparando o sistema religioso tradicional a um odre velho, o Mestre chama a atenção para a necessidade de renovação (da maneira de pensar e agir com relação ao evangelho) para um encontro verdadeiro com Deus. Vamos entender melhor o que Jesus quis dizer: o odre era um recipiente feito de couro, utilizado para o transporte e conservação de líquidos, mais comumente o vinho. Com o tempo e o manuseio, além de se desgastar e enrijecer, o couro ia cedendo até esticar-se ao máximo, não suportando a expansão do sumo de uva fresco durante o processo de fermentação e rompendo-se. O vinho novo, portanto, deveria ser colocado em um odre novo. Essa mudança também é possível nos dias atuais. Mas é preciso, de antemão, identificar quais sejam os odres velhos e, nesse caso, esta mensagem é um incentivo para tanto. Ela visa motivar-nos a avaliar a história do nosso dia-a-dia e questionar as tradições a que, por ventura, estejamos apegados ou as escolhas realizadas por outros a nosso respeito, no passado, e que o estejam influenciando no presente. Certamente o caminho dos odres novos está em Jesus Cristo. Como mediador entre Deus e os homens, Jesus possui o vinho novo a ser derramado, a revelação fresca e transformadora do reino. Mas cabe a você abrir mão dos odres velhos, deixar as tradições e a herança das gerações passadas e decidir, por você mesmo, o seu caminho. Podemos então espreitar os vários sectores. Nota-se sem precisar óculos de vista que os jovens são extremamente desconfiados de incompetência. Razão pela qual encontramos inúmeros jovens formados em universidades ou outras áreas profissionais, mas que vivem frustrados, desempregados. Os seus sonhos foram desmamados pelo vinho velho. As teorias aprendidas em carteira escolar ficam sufocadas pelas drogas e insucesso da vida. Kant de Voronha, in Anatomia dos Factos

jan 30 2023

DIREITOS DO CONSUMIDOR

 Em Moçambique os direitos do consumidor estão consagrados na Constituição da República de Moçambique (artigo 92) na lei de defesa dos Direitos do consumidor (lei 22/2009 de 28 de Setembro).   Âmbito da Lei 22/2009 A Lei 22/2009, tem como objecto principal a regulação das matérias respeitantes a defesa do consumidor (Artigo 2). Aplica-se a todas as pessoas singulares e colectivas, públicas e privadas que habitualmente desenvolvem actividades de produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou comercialização de bens ou serviços a consumidores, mediante a cobrança de um preço, não só como também a organismos, fornecedoras, prestadoras e transmissoras de bens, serviços e direitos, nomeadamente, da administração pública, autarquias locais, empresas de capitais públicos ou detidos maioritariamente pelo Estado, e empresas concessionárias de serviços públicos (Artigo3).   E quais são os direitos do consumidor consagrados na lei? Os consumidores têm direito à qualidade dos bens e serviços consumidos, à formação e à informação, à protecção da saúde, da segurança dos seus interesses económicos, bem como à reparação de danos. – Direito à qualidade dos bens e serviços; – Direito à protecção da vida, saúde e da segurança física; – Direito à formação e a educação para o consumo; – Direito à informação para o consumo; – Direito à protecção dos interesses económicos; – Direito à prevenção ou reparação de danos patrimoniais ou não patrimoniais que resultem da ofensa de interesses ou direitos individuais homogéneos, colectivos ou difusos; – Direito à protecção jurídica e a uma justiça acessível e pronta; – Direito à participação por via representativa, na definição legal ou administrativa dos seus direitos e interesses; – Direito à protecção contra publicidade enganosa. E se violarem o meu direito como consumidor? A falta de informação ou prestação de informação deficiente ou viciada que comprometa a utilização adequada do produto ou serviço confere ao consumidor o direito à retracção do contrato de aquisição ou prestação, no prazo de 7 (sete) dias úteis a contar da data da recepção do bem ou da data de celebração do contrato de prestação de serviços. Certo dia Mário Sivela comprou um telemóvel numa loja. Minutos depois descobriu que aquele telemóvel estava rachado no lado da bateria. Ao voltar à loja para reclamar, o Sr. Mário ficou surpreso com a seguinte resposta do comerciante: “Não aceitamos trocas nem devoluções. Não viste aquele papel ali na parede?” Nesta situação do senhor Mário Sivelaencontramos a violação de dois direitos nomeadamente:- O direito a qualidade de bens e serviços e o direito a prevenção e à reparação de danos patrimoniais ou não patrimoniais. E como fazer nessas circunstâncias?  a) Responsabilidade pelo produto ou serviço São responsáveis pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos do produto, o fabricante, comerciante, vendedor, produtor, construtor e importador. O produto é considerado defeituoso quando não apresenta os requisitos de qualidade e segurança, nomeadamente, a apresentação, o prazo de validade, a falta de informação em português sobre as características do produto e o prazo de garantia. O comerciante é, ainda, responsável pelo defeito do produto quando não os conservar adequadamente nos termos da legislação aplicável, e quando os fornecer sem a identificação do fabricante, produtor, construtor ou importador. A responsabilidade do produtor, construtor ou importador pode ser afastada caso se comprove, entre outras circunstâncias, que: i) não colocou o produto no mercado; ii)embora tenha colocado o produto no mercado, o defeito era inexistente; ou iii) a culpa pelo defeito é exclusivamente do consumidor ou de terceiro. Quanto aos serviços, a reparação dos danos causados pela prestação de serviços defeituosa é da responsabilidade do fornecedor. Nos termos do Regulamento, o serviço é defeituoso quando não fornece segurança ao consumidor, consideradose adicionalmente outras circunstâncias, como o modo e o período de fornecimento. O fornecedor de serviços poderá estar isento da responsabilidade de reparação de danos, desde que prove que o defeito era inexistente no momento da prestação dos serviços, ou que a culpa pelo defeito é da exclusiva responsabilidade do consumidor ou de terceiro.   b) Responsabilidade por vício do produto ou serviço O fornecedor de produtos responde solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo, sejam eles produtos duráveis ou não duráveis, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas. Caso o vício não seja sanado no prazo máximo de 30 (trinta) dias, o consumidor pode optar por exigir, alternativamente: i) a substituição do produto por outro da mesma espécie e em perfeitas condições de uso. Não sendo possível a substituição do bem, pode haver substituição por outro de espécie, marca ou modelos diversos, mediante compensação ou restituição da diferença do preço; ii) a restituição imediata da quantia paga, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; iii) a redução proporcional do preço. As partes poderão convencionar a redução ou ampliação do prazo para a reparação do vício, desde que não seja inferior a 7 (sete) dias ou superior a 180 (cento e oitenta) dias. Dr. Pirai

jan 30 2023

POLÍTICA: TEMPO COLONIAL E A ACTUALIDADE

Análise das escandalosas semelhanças de duas épocas que deviam ser opostas  A libertação do jugo colonial é sempre um acto de felicidade, sobretudo quando isso supõe a possibilidade de Auto governação na base da justiça social onde todos se revejam no desenvolvimento socioeconómico. Em Moçambique, durante a noite colonial, a expectativa era essa e com a proclamação da independência supunha-se que era chegada a hora dos moçambicanos se afirmarem. De facto, o tempo colonial deixou marcas de dor e de opressão de que ninguém sente saudades, ninguém quer repetir. Não existe comparação justa entre o tempo colonial e o actual que, embora não seja ainda totalmente o desejável, podemos ao menos manipulá-lo, ajeitá-lo, endireitá-lo, bastando que saibamos usar os direitos que temos como cidadãos.   Lembrando a era colonial Apesar disso, se quisermos aceitar a realidade sem fingimentos, tal como ela é, perceberemos que, muitas vezes algumas pessoas que tiveram a sorte de viver nos dois períodos, o colonial e o actual, lembram com certa nostalgia a época colonial. Recordam com desejo de lá voltar pelas raras ocasiões em que eram felizes. Espantoso! Era suposto que pelo jeito que fomos escravizados e humilhados no tempo colonial, todas as lembranças dessa época fossem enterradas e compensadas pela felicidade de sermos não apenas os donos do nosso país e do nosso destino, mas também por um desenvolvimento que nos oferecesse dignidade; era suposto também que a esta altura todos nos emprenhássemos de forma igual a construir o nosso país. Mas por que motivos ainda olhamos para trás? Que frustrações goram nossas expectativas ao ponto de desejarmos de certa forma a época colonial em vez desta?   Prevalência da humilhação colonial A resposta directa é de que ainda continuamos a ser humilhados, e da pior forma. De facto, preocupam-me as semelhanças entre as duas épocas. Com a luta, com as resistências e sacrifícios que consentimos para expulsar o colono, o que na verdade conseguimos foi apenas substituir a cor da pele do colono. Exagero? Talvez. Mas acho que a humilhação do colono português talvez fosse suave por ele ser de outra raça, outras origens. Não nos conformamos com a nova colonização, porque ela é-nos imposta pelos nossos próprios irmãos, por isso dói mais. Paradoxalmente, se ficarmos bem atentos, veremos que todas as práticas coloniais continuam hoje vivas: opressão ao povo, ditadura, descriminação, injustiça social, etc. O comportamento do poder político e económico que instalamos leva-nos a entender que oprimimo-nos entre moçambicanos. O poder económico e político, ao invés de ajudar no desenvolvimento, desencadeia um orgulho que prejudica a sobrevivência dos outros. É só observar o modo como os ministros fazem uso do poder; nos distritos os administradores consideram-se donos dos recursos e dos funcionários a quem governam. A relação entre dirigentes e dirigidos nas instituições públicas não é democrática, mas de um escravo com o seu senhor. Inaceitável! A consequência disto é que as pessoas encontram refúgio dessa opressão na bajulação. Para garantir a própria sobrevivência, o povo ou os funcionários de menor escalão sentem-se obrigados a bajular ao chefe, prejudicando indirectamente aos outros e condenando o país a pobreza extrema.   Prevalência da ditadura colonial Por outro lado a ditadura colonial não acabou com a independência. Mudou de rosto. Obrigar aos cidadãos a se conformarem sem perguntar com as condições que lhes são impostas, tal como assistimos, é ditadura. Não existe, tal como no tempo colonial, o mínimo respeito pelas liberdades dos cidadãos. Falar contra a opinião oficial é perigoso. As pessoas são sequestradas e mortas sempre que tomam a coragem de expressar a sua ideia, quando não são mortas, são, no mínimo, ameaçadas de morte pública ou particularmente. Os académicos, jornalistas, políticos que conservam sua honra, sabem da veracidade disso. Para garantir uma ditadura cerrada até fala-se da existência dos famosos esquadrões da morte para cuidar dos que “falam muito”, tal como havia a PIDE na época colonial para tratar dos mais resistentes a opressão. Nas televisões, rádios e redes sociais existe uma versão melhorada daqueles assimilados do tempo colonial que humilhavam os próprios irmãos para impressionar o branco e ganhar alguma simpatia. A consequência é que repetidas vezes empurramos pessoas de idoneidade duvidosa a poderes vitais do Estado que condenam o país a cada vez mais exclusão social.   Prevalência da discriminação A luta de libertação deveria também ter eliminado a descriminação que hoje ganhou proporções preocupantes. Hoje descrimina-se oficialmente pela origem, pela cor de pele, pelo género, pelo nível de posse económica, pelo nível académico, pela filiação partidária, pela etnia, etc. Tal como na época colonial, hoje também há descriminação no atendimento das instituições públicas e privadas, na disponibilização de recursos de sobrevivência aos cidadãos. A primazia no atendimento obedece sempre ao critério da cor de pele, do modo de se vestir que identifica ricos e pobres, as relações de parentesco ou região de proveniência, da filiação partidária. Há sempre uns condenados a um longo tempo de espera pelo atendimento nas instituições com um determinado nível de respeito e outros que são atendidos de imediato e com outro nível de respeito. No tempo colonial também os pressupostos de sobrevivência digna eram reservados a certos indivíduos. Fazemos alguma diferença? Estes problemas que arrolei e outros que não estão aqui, são os mesmos do tempo colonial e que nos induziram a guerra de libertação. Teremos resolvido aqueles problemas ou os agravamos? O curioso é que as práticas coloniais tenham sido herdadas por aqueles que durante a guerra se predispunham a corrigi-las. Não podemos falar de um país independente e muito menos em desenvolvimento quando as condições básicas de sobrevivência são propositadamente negadas para a maioria das pessoas.   O que é a unidade nacional? A ideia de unidade nacional não significa apenas convivência pacífica entre a regiões e as culturas do nosso país com base em ideologias políticas de conveniência, mas também e sobretudo significa criação das mesmas condições de vida para todos os moçambicanos em todos os locais onde eles nasceram ou se encontram. Respeitemos o sacrifício e os

jan 30 2023

A reconciliação é um compromisso comum

A encarnação de Jesus Cristo, o Filho de Deus, aconteceu depois de João Baptista ter percorrido as terras da Galileia anunciando aos Judeus a necessidade do arrependimento e da conversão. Toda a humanidade foi reconciliada com Deus pela morte de Cristo na Cruz. Pois, “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos pelos nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo” (Ef. 2,4-5). Ele – Jesus Cristo – é a nossa paz. “Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, anulando pela sua carne, a Lei, os preceitos e as prescrições, veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto” (Ef. 2,14-17). Razão pela qual, com a Exortação Pastoral “Conversão e Reconciliação” elaborada pelos Bispos Católicos de Moçambique em 28 de Setembro de 1983, vamos falar do tema da Reconciliação. Reconciliados com Deus “Se, de facto, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de Seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela Sua vida. E não é só isto; também nos gloriamos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Qual obtivemos agora a reconciliação” (Rom. 5, 10-11). A partir desta palavra de Paulo, há todo um caminho a percorrer e todo um trabalho a fazer, não apenas quando celebramos a Fé na comunidade, mas em qualquer momento da nossa vida. Com efeito “a nossa vida, lembra o Papa Paulo VI, está perturbada por muitas rupturas, por demasiadas desarmonias, por demasiadas desordens. Temos necessidade, em primeiro lugar, de estabelecer relações autênticas, vitais e felizes com Deus, de ser reconciliados na humildade e no amor com Ele, a fim de que, desta primeira e fundamental harmonia, todo o mundo da nossa experiência exprima uma exigência e adquira uma virtude de reconciliação, na caridade e na justiça com os homens a quem, imediatamente, reconhecemos o título inovador de irmãos” (Paulo VI – Aloc. de 9 de Maio de 1973). Reconciliação fraterna Assim, a reconciliação deve ser para todos nós um empenho constante e decisivo. Em primeiro lugar a reconciliação com Deus, ou a conversão de que já falamos mais acima. Mas a reconciliação com Deus não é possível, sem a reconciliação com os outros. O maior sinal do amor a Deus é o amor sincero aos outros. (Jo. 13,35). Por outro lado, “se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas odiar a seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama o seu irmão, ao qual vê, como pode amar a deus, que não vê?” (1 Jo. 4,20). A reconciliação fraterna é o sinal mais vivo da reconciliação com Deus. Jesus lembra-nos este dever de reconciliação, quando nos diz que antes da oferta sobre o altar está a reconciliação com o irmão. “Se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois volta para apresentar a tua oferta” (Mt. 5,23-24). Diz-nos também, na oração que nos ensinou, que o perdão de Deus está condicionado pelo perdão ao nosso irmão, “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o Vosso Pai Celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas” (Mt. 6,12-16). “Com o teu adversário mostra-te conciliador” (Mt. 5, 25). O homem da parábola dos dois devedores não foi perdoado porque se recusou a perdoar ao seu irmão. “E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco Meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar do fundo do seu coração a seu irmão. (Mt. 18,34-35). O Apóstolo Paulo, escrevendo às comunidades de Corinto, diz-lhes que é dever delas não só assumir a reconciliação de todos os dias, mas também anunciá-la e praticá-la. “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. Mas tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo, por meio de Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação” (2 Cor. 5, 17-18). Deu-nos este ministério e mandou praticá-lo. “Reconciliai-vos com Deus” (2 Cor. 5,20). “Revesti-vos de entranhas de misericórdia suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra o outro” (Col. 3, 12-15). Devemos, então, viver no dia-a-dia a reconciliação e devemos testemunhá-la onde quer que estejamos e onde quer que haja ameaças ao amor fraterno e à paz. Reconciliação na comunidade eclesial A reconciliação leva-se a cabo na própria comunidade eclesial, na sociedade, na política, no ecumenismo, na paz” (Paulo VI – Aloc. De 9 de Maio de 1973). Primeiro, na comunidade eclesial. As comunidades cristãs devem saber que a igreja é um mistério de comunhão e que, na evangelização e na pastoral, construir, aqui e hoje, “uma Igreja – comunhão” é uma opção de todos nós. Ninguém, contudo, ignora as tentações que podem surgir contra a comunhão que nos propomos viver e aprofundar. Essas tentações ou ameaças podem nascer de muitos lados. Podem vir do egoísmo do coração de cada um, do egoísmo dos grupos, das etnias, das culturas e dos lugares onde nascemos ou vivemos. Podem vir dos serviços que prestamos nas comunidades se, em vez de servirmos, procuramos dominar. Podem vir da diversidade das mentalidades, ou das linhas e métodos pastorais porventura isolados ou mais individualistas. Podem vir das relações deficientes entre os diversos agentes de pastoral ou dos projectos de trabalho, de algum modo egoístas e desligados da comunhão de todos e com todos. A reconciliação, que o nosso Deus de misericórdia e de paz (Ef. 2,4 ; Fil 4,9) nos manda, passa efectivamente pelo combate contra estas e outras tentações; passa, ao mesmo tempo, pela edificação da

jan 25 2023

Lembrando Dom Sebastião de Resende

Lembrando Dom Sebastião de Resende Bom dia, Irmãos. 25 de Janeiro, Festa Litúrgica da Conversão de São Paulo. Neste dia, no ano de 1967, faleceu na Beira o grande Bispo missionário Dom Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira. Homem de visão larga, muito adiantado para o seu tempo. Nunca tendo estado antes em África e acreditando ingenuamente na teoria da missão evangelizadora e civilizadora de Portugal em África, logo à chegada em 1943 ficou chocadíssimo com a realidade que encontrou e logo passou a contestar em voz alta e por escrito. Reprovou o indigenato, exigindo uma mesma cidadania para todos, Negros e Brancos, com o mesmo sistema de Educação e de Saúde, de Justiça, de Trabalho e Segurança Social. Enquanto não o ouviam, fundou mais de 50 Missões pelo interior da Região Centro, toda ela sua Diocese, as Escolas de Formação de Professores de Boroma, Dondo e Inhamizua, o Seminário do Zobue, o Instituto Liceal Dom Gonçalo da Silveira, o Liceu João XXIII, os jornais Voz Africana, Economia de Moçambique (semanários) e Diário de Moçambique. Promoveu a criação das Dioceses de Quelimane e de Tete. Em cada ano, publicava uma Carta Pastoral sobre temas de doutrinação social. Ficaram celebres “Hora Decisiva de Moçambique”, “Coordenadas Cristãs no Moçambique de hoje” e “Moçambique na encruzilhada”. Em todas defendia as ideias acima e a Independência de Moçambique para todos, Negros e Brancos em pé de igualdade. Deu bolsas para estudos superiores no estrangeiro a dezenas de jovens moçambicanos, vários dos quais foram os primeiros dirigentes da Frente de Libertação de Moçambique e do País independente. Ficou célebre a frase que ele disse a um jovem que queria ir estudar para Lisboa em plena Luta Armada: “Com isto conseguido à força, qual será o lugar daqueles que nesse dia estiverem em Lisboa?”. Doutorado em Filosofia pela Universidade Gregoriana, onde também se licenciou em Teologia, obteve também um Diploma em Ciências Sociais pela Universidade de Bergamo, onde foi contemporâneo do Cónego Roncalli, futuro Papa João XXIII com quem teria em 1960 um reencontro emocionante. Salazar não o perseguiu directamente, mas mandou que fizessem de tudo para lhe dificultar a vida. Ao abrigo da Concordata, bloqueou a sua nomeação para Arcebispo de Lourenço Marques em 1962 e de Braga em 1965. Morreu cedo, a caminho dos 61 anos de idade e 24 de Bispo, vítima de um cancro no esófago que a medicina de então não conseguiu debelar. A seu pedido, foi enterrado em campa rasa na estrada de acesso ao cemitério de Santa Isabel (Beira), para onde em idênticas circunstâncias foram Dom Altino Ribeiro de Santana (mais tarde trasladado para Angola, donde viera transferido) e Dom Jaime Pedro Gonçalves. Que, pela misericórdia de Deus, a alma de Dom Sebastião Soares de Resende descanse em paz! Ainda sobre Dom Sebastião, na Missa de corpo presente, o pregador, Dom Eurico Dias Nogueira, um declarado fã seu, disse – na cara do Governador-geral de Moçambique – que “Dom Sebastião era um Homem demasiadamente grande, para ser entendido por homens demasiadamente pequenos”! (Benedito Marime)

jan 05 2023

Famílias promovem paz e desenvolvimento da sociedade

A família é o fundamento da sociedade. Ela representa uma «pedra angular» na construção da paz e do desenvolvimento na sociedade. O desentendimento que se vive no relacionamento entre as famílias constitui uma ameaça à paz e ao desenvolvimento da sociedade. É da família que saem os cidadãos e na família encontram a primeira escola das virtudes sociais, que são o ponto focal da vida e do desenvolvimento da sociedade. A família constitui o lugar mais eficaz de humanização e de personalização da sociedade. Ela contribui para a promoção da paz e do desenvolvimento na sociedade através da sua experiência de comunhão e de participação na vida social. Como primeira escola de sociabilidade, a harmonia entre os pais e a correcção para com os filhos quando estes estão errados, estimula o crescimento das relações comunitárias,a sensibilidade para com a  justiça, diálogo e amor e uma forte educação ao trabalho. Coragem da mudança “É de pequeno que se torce o pepino”, diz um proverbio popular. Numa família onde os pais primam por uma postura liberalista, olhando com indiferença os maus comportamentos dos filhos estão preparando para a sociedade, talvez, membros delinquentes. O hábito de se colocar sempre a favor dos filhos, de os encobrir, independentemente de estarem certos ou errados, perverte a personalidade deles como futuros membros da sociedade. A falta de união no relacionamento, a vida sempre conflituosa no seio da família, influencia na personalidade social das crianças. A maneira de os pais gerirem o conflito dos filhos dita também na sua educação moral. É a família que tem o dever de educar os filhos no respeito, no amor à verdade, justiça e solidariedade. Família humanizante Também a educação ao respeito da ecologia ambiental começa na família, quando os pais ensinam os filhos a valorizarem os recursos naturais como a água, as plantas. É assim que o Papa Francisco diz que “a humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo”. Diante de uma sociedade tendente a ser cada vez mais despersonalizada, desumana e desumanizante, a família possui a capacidade de “arrancar o homem do anonimato, de o manter consciente da sua dignidade pessoal”. Portanto, a família é uma pequena sociedade dentro de uma grande sociedade. A paz e o desenvolvimento da sociedade em que estamos, exige conversão das famílias no modo de lidar com seus membros e na maneira como gere os pequenos conflitos no seio das mesmas. As ameaças O mal-estar da sociedade é reflexo do mal-estar das famílias. Não é possível uma sociedade feliz, um mundo pacífico e desenvolvido sem famílias felizes, pacíficas e pacificadoras. Por esta íntima conexão entre a família e a sociedade, impõe-se ao Estado e à sociedade o dever fundamental de respeitar, defender e de promover a família. Contudoé preciso vencer algumas posturas que colocam em causa o seu papel de promoção da paz e do desenvolvimento. Medo: o medo de perder o emprego, do terrorismo, de perder o amor do parceiro, da exclusão, de ficarmos para trás influenciam negativamente o desenvolvimento familiar. Smartphonismo ou onlinismo: é o apego doentio do celular, a ponto de boicotar o diálogo directo entre membros da família e que mata o hábito de conversar, dialogar entre os vários membros familiares. Quaresma sem Páscoa: é a situação de muitos lares familiares hoje que já não são lugar de amor nem de paz, mas, antes, campos de batalha e luta. Perante estes medos e dificuldades temos uma inversão de marcha a respeito daquilo que a educação familiar exige. Por exemplo, o “você é tudo para mim” transforma-se em “você não é nada para mim”; “eu amo-te” é substituído por “eu odeio-te”; em lugar do “meu bem” fica “minha desgraça”; “sem você eu não vivo” fica “você é um inferno para mim. É o perigo do desenraizamento generalizado. A ruptura familiar desemboca num caos drástico: filhos desenraizados, idosos abandonados, crianças órfãs de pais vivos, adolescentes e jovens desorientados e sem regras. Famílias responsáveis Enfim, recordamos que a família é uma instituição social de capital importância, é uma instituição de “ensino superior” onde se promovea paz e o desenvolvimento da nossa sociedade. Daí que há necessidade de cada família assumir a responsabilidade de, através da sua experiência de comunhão em casa, na sociedade, transmitir uma boa educação às novas gerações. Como deixámos claro, o mal-estar da sociedade actual é reflexo do mal-estar das famílias. Na verdade, o medo de educar, corrigir os próprios membros da família, a falta da cultura de diálogo, a fragilidade dos laços familiares, a atitude de estar sempre a favor dos membros da família independentemente de estarem certos ou errados, só podem contribuir para a destruição da própria família e da sociedade. Por último, dada a íntima conexão entre a família e a sociedade, existe, por outro lado, o imperativo de a sociedade e o Estado estarem a par da defesa e da promoção dos direitos das famílias, sobretudo as que se encontram em situação de vulnerabilidade. Por Serafim João Muacua  

jan 02 2023

Recordando papa Bento XVI o 265º Papa da Igreja Católica

Recordando papa Bento XVI o 265º Papa da Igreja Católica Joseph Aloisius Ratzinger nasceu no dia 16 de Abril de 1927, na Alemanha. Ele foi o grande responsável por apresentar um Catecismo actualizado para toda a Igreja. Foi Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional desde1982. No dia 19 de Abril de 2005, aos 78 anos, o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa, assumindo o nome de Bento XVI. “Depois do grande Papa João Paulo II, os senhores cardeais elegeram-me a mim, um simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor”. Depois de oito anos de pontificado, aos 85 anos de idade, no dia 11 de Fevereiro 2013, renunciou por não ter mais forças para exercer seu ministério. “Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice” (Bento XVI). Após a renúncia, Bento XVI passou a viver no Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano. Por causa de sua frágil saúde poucas vezes saiu do Mosteiro para participar em algumas celebrações e manteve-se em silêncio, para que pudesse continuar ao serviço da oração. No dia 31 de Dezembro 2022 foi descansar em Paz. Obrigado Papa Bento XVI!

jan 01 2023

CRONICANDO: PESSOAS DE COSTAS QUENTES

Repetidas vezes ouvi e oiço dizer que “Cada um por si e Deus por todos”. Se por um lado isto contribui para o predominante desequilíbrio social entre a minoria cada vez mais rica e a maioria de pobres cada vez mais empobrecidos, por outro lado, alimenta o espírito de nepotismo e a crescente corrupção. Cada um quer ser primeiro e o mais importante. E a cadeia é longa. Quem se beneficia disso são os socialmente bem posicionados. E quem fica prejudicado são os pobres e desconhecidos. Penso que nas nossas sociedades aplica-se mal a palavra padrinho. Ao invés de ser o nosso conselheiro, muitas vezes o padrinho aparece como advogado defendendo até em situações de pecado grave. Há padrinhos do hospital, padrinhos do banco, padrinhos dos ritos de iniciação, padrinhos dos sacramentos, padrinhos do registo civil, padrinhos do bairro, padrinhos da escola, padrinhos da cadeia, padrinhos da barraca, padrinhos das dívidas ocultas, padrinhos de etc., padrinhos de tudo o que há debaixo do céu. E só me falta ver padrinhos visíveis do cemitério. Será que ninguém gosta de defender os mortos? Aliás, mesmo no cemitério há padrinhos para garantir lugar onde cavar a sepultura até nos cemitérios oficialmente fechados. É certamente isto que nos pode provar que cada coisa tem o seu padrinho. Mas são as ditas pessoas de costas quentes que aumentam o número de padrinhos. Geralmente, essas pessoas, não querendo fazer bicha por se acharem mais ocupadas e importantes que as outras, suplantam os outros, passam-lhes a perna e são atendidas imediatamente. O grito silencioso dos pobres é quase inaudível. Pena é que não sabem que o coração dos outros fica dolorido com esse tipo de comportamento que revela falta de educação e de humanismo. Somos iguais em direitos. Não há motivos de nos pisarmos em vão. Sim!!! De acordo com o artigo 35 da Constituição, “todos os cidadãos são iguais perante a lei e gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, a sua profissão ou a sua preferência política. A realidade que vemos todos os dias, no entanto, nos apresenta esse artigo como mais uma utopia criada para que nos enganemos e nos deixemos levar pelas condições e situações de conformismo. Essa afirmação nos permite, muitas vezes, tolerar todos os dias as diferenças que vemos, seja no noticiário, seja ao vivo, das discrepâncias criadas em relação a factos e pessoas, não conseguindo convencer muitas pessoas da desigualdade que temos em nosso país. E isso tudo, por que motivo? Na vivência comum do dia-a-dia, podemos entender que diferenças podem ocorrer em vista de um sistema criado por seres humanos que, naturalmente, são falhanços, não são perfeitos. Em nossa sociedade os que não têm costas quentes são postos na cadeia e até podem desaparecer ou apodrecer lá mesmo sem o mínimo de julgamento ou abertura do processo criminal. Por isso mesmo, as cadeias moçambicanas são lotadas por pessoas que roubam galinhas, artigos de vestuário, etc. Mas os que possuem costas quentes não conhecem o caminho da esquadra. Se eles cometerem crime, têm advogados que os inocentam à custa de avultadas somas de dinheiro. As pessoas de costas quentes podem até matar, corromper, defraudar a nação inteira, ninguém lhes toca porque têm os seus padrinhos vitalícios. O corruptor fica livre e o corrompido entra na cadeia. É a lei da apadrinhagem moçambicana. Podemos crer na igualdade, sim, a partir do momento em que tivermos diante de nossos olhos o resultado incontestável para os delitos, quando tivermos a garantia de que, enquanto estamos à nossa mesa, matando a nossa fome, todos os moçambicanos estarão na mesma condição; ou quando tivermos a certeza de que não haverá falta de vaga numa creche infantil para aquela empregada doméstica que trabalha todos os dias em nossa casa para nos satisfazer as pequenas vontades; ou quando entendermos que a democracia entende que todos são iguais perante a lei, eliminando aqueles que se consideram mais iguais que os iguais. Seremos perfeitamente iguais quando fugirmos das condições estabelecidas na “Revolução dos Bichos” (George Orwell) e nos encontrarmos frente a frente com a “Utopia” (Thomas More). Ou, enfim, quando estivermos preparados para viver efectivamente numa “República” (Platão). E aqueles que têm costas arrefecidas quando é que serão reconhecidos como merecendo atendimento rápido? Será que há um lugar onde não há costas quentes? Onde? Não sei se existe. Mesmo para arrumar um cadáver numa gaveta melhor na casa mortuária é preciso costas quentes. Tenho medos que nos queimem com as vossas costas esquentadas. Quem nos livrará disso? Começa contigo! E mais não disse! Por Kant de Voronha, in Anatomia dos factos

dez 21 2022

De Ahlu Sunna Wal Jamaa ao Estado Islâmico Moçambique

Embora a insurgência tenha enfrentado desafios consideráveis desde seu pico em 2020 e no primeiro semestre de 2021, ela permaneceu robusta e capaz. Evidências sugerem que ele tem sido consistente em sua ideologia e objetivos. Apesar de operar com uma liderança descentralizada e uma estrutura de células, sua liderança permaneceu focada e coerente diante dos recursos significativos implantados contra ela. A associação com o EI deu ao grupo uma identidade mais clara, mesmo que as implicações práticas desse relacionamento às vezes flutuante permaneçam obscuras. Embora enraizada em Cabo Delgado, a insurgência sempre foi de natureza transnacional. A sua seita religiosa antecedente, com escolas e mesquitas em Mocímboa da Praia e noutros locais, fazia parte de redes de religiosos e grupos armados de ideologia islâmica semelhante em toda a África Oriental. Alguns de seus professores originais vieram da Tanzânia e dos Grandes Lagos. Um grupo armado semelhante na Tanzânia, promovendo uma interpretação socialmente divisiva semelhante do Islã, foi violentamente desmantelado pelas forças de segurança tanzanianas em meados de 2017. Seus líderes escaparam por rotas provavelmente bem trilhadas para o sul até Cabo Delgado, e noroeste para a RDC, via Burundi. Tal como na Tanzânia, os insurgentes em Cabo Delgado não projectaram uma identidade clara para os forasteiros. O grupo inicialmente assumiu o nome Ahlu Sunnah Wal Jamaa (ASWJ) para demonstrar sua autenticidade espiritual, mas o Al Shababpassou a ser usado com mais frequência. Se este último era um descritor usado pela comunidade e adotado pelos insurgentes sempre foi incerto. Na costa leste africana, “Shabab”, que significa “juventude”, era no passado recente tão provável de aparecer em uma música pop, quanto na propaganda oficial de recrutamento. ASWJé raramente usado agora, com a possível exceção do SAMIM. A incorporação da insurgência na Província da África Central do EI em junho de 2019, por meio de uma reivindicação de ataque ao Escritório Central de Mídia do EI, foi, portanto, um reflexo justo das redes transnacionais existentes. Elementos das Forças Democráticas Aliadas na RDC tinham uma relação significativa com o EI. No entanto, não há evidências de que a taxa de crescimento da insurgência naquela época tenha sido devido à mão-de-obra ou apoio externo. Acredita-se que tenha até 1.500 pessoas em suas fileiras em meados de 2019, a maioria de Cabo Delgado, de acordo com fontes de segurança. A ideologia foi crucial para semear a insurgência. A resiliência que a insurgência demonstrou ao sobreviver à considerável perturbação provocada pela intervenção militar internacional provavelmente dependeu da organização interna em primeira instância, tanto quanto de qualquer apoio externo. O que sabemos disso é esboçado e depende em grande parte do testemunho de ex-insurgentes e cativos libertados ou fugidos. Evidências parciais que temos para essa resiliência apontam para pelo menos três fatores: o uso intencional da ideologia islâmica violenta em assuntos internos, uma liderança confortável operando em redes e uma capacidade de adaptar uma série de abordagens militares. Cativos que escaparam ou foram libertados, e combatentes que desertaram, têm consistentemente referido a importância da ideologia na indução de recrutas e cativos. Um programa ativo para reforçar a orientação ideológica foi confirmado por materiais recuperados de campos insurgentes pelas forças de segurança. Ao promover a rejeição da autoridade do Estado laico, da educação e das hierarquias tradicionais, espera-se que a lealdade ao novo grupo seja induzida, seja por medo ou de outra forma. Também houve evidências de estruturas departamentais para a administração de assuntos do dia-a-dia, como serviços de saúde, que ilustram a disciplina necessária para gerenciar qualquer grande organização. Tais estruturas são uma exigência do EI das suas províncias, são funcionais e não apenas operacionais, e informaram a decisão do EI de anunciar a sua Província de Moçambique em Maio de 2022. Enquanto os Estados Unidos em março de 2021 declararam Abu Yasir Hassan como o líder do EI Moçambique, sua liderança tem sido entendida como coletiva. Figuras que conhecemos, como Bonomade Machude Omar, Abu Dardai Jongo, Andre Idrissa e Ansumane Vipodozi, normalmente trabalharam como pequenos comerciantes ou empresários, muitas vezes operando regionalmente. Eles estão, portanto, provavelmente mais confortáveis trabalhando em redes colaborativas baseadas em confiança do que em organizações hierárquicas. A capacidade de operar efetivamente em redes de apoio mútuo foi fundamental para a sobrevivência do grupo em 2021 e além. As operações das forças de intervenção, particularmente o Ruanda, expulsaram com sucesso os insurgentes dos distritos de Palma e Mocímboa da Praia, bem como de algumas das bases bem estabelecidas em Nangade e Macomia. A queda nos eventos organizados de violência política envolvendo os insurgentes em Palma foi vertiginosa, de 58 no primeiro semestre de 2021 para apenas nove no segundo semestre, e seis nos primeiros seis meses de 2022. Mocímboa da Praia assistiu a uma intensificação da atividade. Os eventos organizados de violência política envolvendo os insurgentes subiram para 44 no segundo semestre de 2021, caindo para apenas sete nos seis meses seguintes. Isso refletiu a retomada da sede do distrito pelas forças ruandesas e pelo FDS em agosto de 2021, após um ano de ocupação pelos insurgentes, e a tomada de seus principais campos, Siri 1 e Siri 2, no sul do distrito em setembro de 2021. Essas operações deram à insurgência um duro golpe, levando a um declínio significativo em seu número, resultando em uma queda significativa nas mortes relatadas e na proporção de civis entre as fatalidades. No entanto, eles não foram embora. Grupos móveis menores de combatentes seguiram para o distrito de Nangade, no oeste, onde a atividade insurgente mais do que dobrou para 70 incidentes no primeiro semestre de 2022, em comparação com os seis meses anteriores. Seguiram também para sul, abrindo uma nova frente nos distritos meridionais da província, bem como na província de Nampula, em meados de 2022. Não há evidências de qualquer perturbação grave do grupo de liderança. O Cabo Ligado entende que pelo menos dois dos líderes pré-intervenção ainda estão ativos – Bonomade Machude Omar, no distrito de Macomia, e Abu Dardai Jongo, no sul. Outros líderes permaneceram ativos em Nangade. Relatórios consistentes por parte

dez 16 2022

Papa Francisco: “juntos” é o nome da paz em 2023

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, o Papa faz um convite a refletir sobre as lições deixadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia e indica o caminho para a paz: “É juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos.” “É hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar”: este é o convite do Papa Francisco contido na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, celebrado em 1º de janeiro. O tema escolhido pelo Pontífice é “Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz”. Ouça e compartilhe: Passados três anos, é justamente a experiência da pandemia o fio condutor da mensagem. “A Covid-19 precipitou-nos no coração da noite, desestabilizando a nossa vida quotidiana, transtornando os nossos planos e hábitos, subvertendo a aparente tranquilidade mesmo das sociedades mais privilegiadas, gerando desorientação e sofrimento, causando a morte de tantos irmãos e irmãs.” Os efeitos foram de longa duração: além do luto, o vírus causou um mal-estar generalizado, ameaçou a segurança laboral de muitas pessoas, agravou a solidão em nossas sociedades, fez aflorar contradições e desigualdades e fragilidades. Então vem a pergunta: “O que é que aprendemos com esta situação de pandemia?”. Francisco não tem dúvidas: “A maior lição que Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho”. Por conseguinte, é urgente buscar e promover, juntos, os valores universais que traçam o caminho desta fraternidade humana. A própria pandemia favoreceu atitudes positivas, como um regresso à humildade; uma redução de certas pretensões consumistas; um renovado sentido de solidariedade, bem como um empenho, “em alguns casos verdadeiramente heroico”, de muitas pessoas que se doaram para que todos conseguissem superar do melhor modo possível o drama da emergência. O segredo, aponta o Papa, está na palavra “juntos”. “Com efeito, é juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos. De fato, as respostas mais eficazes à pandemia foram aquelas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais unidos para responder ao desafio, deixando de lado interesses particulares.” Mas quando o mundo ainda se recuperava do trauma, eis que outro fato colocou a humanidade à dura prova: a guerra na Ucrânia. Francisco fala de “desgraça”, “flagelo” que, diferentemente da Covid, foi pilotado por “opções humanas culpáveis”. A guerra ceifa vítimas inocentes e suas consequências vão além-fronteiras, como demonstram o aumento do preço do trigo e energia. “Não era esta, sem dúvida, a estação pós-Covid que esperávamos ou por que ansiávamos”, lamenta o Pontífice, definindo a guerra uma “derrota da humanidade” para a qual ainda não há vacina. “Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provem de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado.” E vem a última pergunta: “Que fazer?” Antes de mais nada, deixar que Deus transforme nossos corações. E depois, pensar em termos comunitários. Não existe mais o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas “é hora de nos comprometermos todos em prol da cura de nossa sociedade e do nosso planeta”. Outra lição deixada pela pandemia é que as crises morais, sociais, políticas e econômicas estão interligadas. “E assim somos chamados a enfrentar, com responsabilidade e compaixão, os desafios do nosso mundo.” E os desafios, infelizmente, não são poucos: guerras, alterações climáticas, desigualdades, desemprego, migração e o “escândalo dos povos famintos”. “Compartilho estas reflexões com a esperança de que, no novo ano, possamos caminhar juntos valorizando tudo o que a história nos pode ensinar”, conclui o Santo Padre, fazendo os melhores votos aos Chefes de Estado e de Governo, aos Responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes das várias religiões. “Desejo a todos os homens e mulheres de boa vontade que possam, como artesãos de paz, construir dia após dia um ano feliz! Maria Imaculada, Mãe de Jesus e Rainha da Paz, interceda por nós e pelo mundo inteiro.” (Vatican News)   Leia a Mensagem do Papa Francisco para o dia Mundial da Paz 1/1/2023 mensagem Paz 2023

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