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ago 13 2021

APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO

Frei Carlos Mesters, Carmelita 5ª Chave APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO O Apocalipse é Boa Nova porque comunica conforto e esperança a um povo em crise, ameaçado na sua fé. A crise tinha duas causas, ligadas entre si. A externa: a perseguição e as mudanças na sociedade. A interna: a falta de visão e de fé, as divisões e o cansaço. Deus parecia ter perdido o controle da situação. Os opressores pareciam ser os donos da história. Muitos se perguntavam: “Será que vale a pena continuar a participar da comunidade?” O Apocalipse enfrenta este problema e ajuda o povo a perceber e a combater as causas da crise. Ele tira o véu dos fatos e revela o outro lado, o lado escondido que só a fé é capaz de enxergar, e faz o povo saber que os aconteci­mentos não estão escapando da mão de Deus. Os poderosos parecem ser os donos do mundo, mas, na realidade, o seu poder é limitado por Deus. A Boa Nova do Apocalipse é esta: Deus continua sendo o Senhor da história! Ele conduz o seu povo para a vitória final. Ninguém, por mais forte que seja, consegue mudar o rumo do plano de Deus. Os opressores do povo vão ser derrotados e condenados, todos! A ressurreição de Jesus o garante! Este anúncio forte e vigoroso desloca o peso da balança. De um lado, enfraquece a carga da perseguição (causa externa). Do outro lado, fortalece o peso da fé (causa interna). O povo se equilibra de novo na vida. Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo agradece, explode em cânticos de alegria e se dispõe a resistir. Entoa, desde já, o canto da vitória, como Miriam, irmã de Moisés, depois da travessia do Mar Vermelho. Depois dos Salmos, o Apocalipse é o livro da Bíblia, em que mais se canta! Por isso, qualquer interpretação do Apocalipse feita para meter medo nas pessoas deve ser considerada como errada e falsa! Já não seria Boa Nova para os pobres. Seria o mesmo que usar o sol para molhar ou a água para enxugar! As várias maneiras de se anunciar a Boa Nova de Deus No início, os cristãos criaram várias formas para transmitir a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe: em forma de história (Atos dos Apóstolos), de carta (Paulo), de cântico (Maria, Zacarias), de evangelho escrito (Mateus, Marcos, Lucas, João), e em forma de apocalipse. Quem transmite uma mensagem em forma de cordel, deve conhecer o ritmo da poesia do povo. Quem o faz em forma de história em quadrinhos, deve saber desenhar. Quem o faz em forma de uma canção, deve entender de música. E quem anunciava a Boa Notícia de Deus em forma de apocalipse, o que ela ou ele devia saber ou fazer?  Costumava fazer as coisas que caracterizam o jeito próprio dos apocalípticos transmitirem sua mensagem ao povo perseguido das comunidades: (1) expressar tudo por meio de visões e símbolos; (2) dividir a história em etapas para situar o momento presente; (3) usar linguagem radical de oposição entre o bem e o mal. Entender bem estas três coisas ajudará a esclarecer grande parte das dificuldades que o Apocalipse costuma provocar em nós. Vamos ver de perto estas três chaves. É o que vamos ver de perto nas próximas três chaves

ago 11 2021

A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO

Frei Carlos Mesters, Carmelita 3ª Chave A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO Apocalipse 1,1-20 Ap 1,1-3: A Apresentação. Aqui batemos na porta Ap 1,4-8: A Saudação.        João vem abrir e convida para entrar Ap 1,9-20:                           A Visão Inaugural João nos coloca em contato com Jesus O primeiro capítulo do Apocalipse de João é uma amostra do que vem a ser o livro e a sua mensagem: (1) informa sobre a natureza do livro; (2) apresenta-o como uma carta carinhosa escrita por uma pessoa amiga para comunidades perseguidas que precisavam de animação e de orientação; (3) cria o ambiente, no qual o livro deve ser lido; (4) envolve as comunidades numa celebração, em que possam experimentar a presença de Jesus ressuscitado, vivo no meio delas. Apocalipse 1,1-3: Apresentação do livro: Revelação de Jesus Cristo Estes versículos iniciais oferecem informações sobre a natureza do Apocalipse, sua origem, seu valor ou autoridade, seu autor, conteúdo e destinatários. Mostram ainda como o livro deve ser lido e interpretado, qual a exigência de compromisso e qual a recompensa que a sua observância traz consigo. A palavra Apocalipse significa re-velação. Jesus é o autor da Revelação. Ele nos revela “as coisas que devem acontecer em breve” (Ap 1,1). Há uma hierarquia na maneira de comunicar a revelação:       A sua origem está em Deus, que a transmite a Jesus, que a entrega ao Anjo, que a manifesta a João, que a comunica aos Servos, que devem testemunhá-la diante da humanidade. O Apocalipse é Profecia (1,3), mas não é profecia no sentido de Nostradamus ou dos videntes que entram em ação na véspera de cada Ano Novo. Para estes, a profecia é uma adivinhação, nascida da curiosidade que quer conhecer o futuro. O Apocalipse não deve ser lido como se lá dentro pudéssemos encontrar referências abertas ou veladas ao nosso tempo. Isto seria uma tentativa irreverente do ser humano para penetrar no mundo de Deus e arrancar dele o segredo do futuro. Profecia no sentido do Apocalipse é o contrário. É Deus que, através de Jesus, penetra no nosso mundo, na nossa história, e se dá a conhecer através das palavras de João. Com a ajuda da Palavra de Deus, contida no Antigo Testamento, e do Espírito de Jesus (Jo 14,26; 16,13; Ap 1,10; 4,2), chamado Espírito da Profecia (Ap 19,10), João revela, tira o véu, e nos faz conhecer a ação de Deus na história. Até hoje, as nossas comunidades, animadas pelo Espírito de Jesus e orientadas pela Palavra de Deus, descobrem e partilham entre si a ação deste mesmo Deus, sempre presente na vida e na história do seu povo. Apocalipse 1,4-8:  Saudação inicial: em Nome da Trindade Santa Nós dizemos: Pai, Filho, e Espírito Santo. O Apocalipse diz: É-Era-Vem; os Sete Espíritos; Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos Reis da terra. No fim do primeiro século, a doutrina era como uma flor que brotava diretamente da experiência vivida das comunidades. Nestes nomes, João diz o que eles esperavam do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Hoje, para muitos de nós, a doutrina cristã é como a flor que foi cortada da experiência e está guardada no caderno do catecismo. Flor bonita e colorida, mas seca, sem vida. Apocalipse 1,9-20: “Não tenham medo! Estive morto, mas estou vivo!” A visão de Jesus ressuscitado é o grandioso painel de entrada do Apocalipse. Nele João transmite a experiência que ele mesmo teve da ressurreição. É o resumo e o centro da mensagem que ele quer comunicar às comunidades cansadas e perseguidas da Ásia Menor. É para que elas possam ter a mesma experiência da presença viva de Jesus ressuscitado no meio delas. Pois só assim serão capazes de superar o medo da morte e de acreditar na vida. Esta visão inicial nos coloca em contato direto com a linguagem dos símbolos, própria do Apocalipse. É uma linguagem, cujo valor não estão só naquilo que é dito, mas também naquilo que é sugerido e evocado. Por isso, o intérprete não deve querer explicar racionalmente todas as palavras, mas sim fazer o possível para levar o leitor, a leitora, a ter a mesma experiência que está na raiz do símbolo. Convém ler a visão inaugural de Jesus como se contempla uma pintura, como se assiste a um drama, como se ouve uma música. A linguagem simbólica faz com que escritor e leitores sintonizem na mesma freqüência ou con-spiração (ação comum do espírito), e tenta fazer com que a con-spiração se torne em ambos uma in–spiração comum, um chão comum. A gente talvez não entenda logo o significado de todos os detalhes: túnica longa, cinto de ouro, cabelos brancos, olhos como chamas de fogo, pés de bronze incandescente, voz como o estrondo de cataratas de água, sete estrelas na mão direita, espada afiada de dois gumes saindo da boca, o rosto como sol em pleno brilho do meio dia! Mas, mesmo sem entender, adivinhamos algo de grande e de muito importante para a vida. São imagens poderosas que falam por si. É como acontece com música bonita: todos gostam de ouvir e se sentem bem, mas só pouca gente entende de música. Música é feita não para quem entende, mas para quem gosta dela e se reanima ao ouvi-la! Esta visão de Jesus, colocada no início do livro, é como a obra de arte colocada na entrada da igreja. Toda vez que você entra, terá que olhar de novo, pois a gente não dá conta de abarcá-la de uma vez. Tem que voltar sempre para ver de novo, meditar, até que ela entre em você e lhe comunique a sua mensagem. A Primeira Palavra de Jesus no Apocalipse: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente!” A primeira reação de João é de medo: Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Era a reação normal diante da manifestação de Deus (Dn 10,9; Is 6,5; Ex 3,6). Mas não é só isto! A atitude de medo de João reflete também a situação das comunidades. Ameaçadas por dentro e por fora pelo poder do império e pelas tensões internas, elas estavam prostradas e com medo. Estavam

ago 10 2021

DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 2ª Chave DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE Quando dizemos: “Fulano é um sujeito apocalíptico!”, costumamos indicar uma pessoa que só fala em desastres e fim do mundo. Quando dizemos: “Fulana é uma profetisa!”, indicamos uma pessoa, cuja palavra tem uma mensagem importante para os outros. Como explicar esta diferença? Profecia e Apocalipse não são ambos manifestações do mesmo Espírito de Deus e fontes de espiritualidade para o mesmo povo de Deus? Muitas vezes, se diz: “Temos que ser profetas!” Nunca se diz: “Temos que ser apocalípticos!” Pelo contrário! A palavra apocalíptico parece ter uma apreciação negativa. As igrejas até costumam reagir para manter fora de casa os ares aparentemente confusos e incômodos do movimento apocalíptico. Mesmo assim, o movimento pentecostal-apocalíptico cresce como uma bola de neve. Cresce em toda a parte, sobretudo entre os mais pobres e excluídos. Assim acontecia no fim do primeiro século. Assim acontece hoje. No Antigo Testamento, antes do exílio, no período dos Reis, entre 1000 e 587 aC, não havia Apoca­lípticos, mas havia muitos Profetas. Depois do exílio, de 587 aC até 100 dC, depois que os grandes impérios tomaram conta do mundo, os profetas começaram a desaparecer e apareceram os apocalípticos que produziram uma abundante literatura entre o século IV aC e o século II dC. Como se explica esta mudança? Qual a relação entre apocalipse e império, entre o movimento apocalíptico e a situação sócio-política e econômica em que o povo vive? Desde o início da monarquia, em torno do ano 1000 antes de Cristo, até o exílio, 587 aC, os profetas faziam parte da vida do povo de Israel. Eles eram a consciência falante do povo de Deus. Depois do exílio, porém, o povo dizia: “Não existem mais profetas” (Sl 74,9). Chegaram a dividir a história em dois períodos: o período em que havia profetas, e o período “em que já não havia mais profetas” (1 Mc 9,27). Falava-se dos “antigos profetas” (Zac 1,4; 7,7; cf Ez 38,17). Coisa do passado! Tinham até feito uma lista que já estava completa e encerrada: “doze profetas” (Ecli 49,10). E diziam: “Antigamente, Deus falava para a gente, agora já não fala mais!” (Sl 99,6-8). O povo constatava a mudança, mas não sabia explicar por que Deus já não se manifestava como antes. Achavam que “a mão de Deus tinha mudado” (Sl 77,11). Só ficou a saudade, cada vez mais forte, dos antigos profetas! Assim, durante os mais de 400 anos do período dos reis, eles tiveram profe­tas. Durante mais de 500 anos, desde o exílio até João Batista, viveram sem profetas! É neste período sem profetas que surge o movimento apocalíptico como nova forma de profecia, como nova manifestação do Espírito, como nova espiritualidade. Qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera a profecia, e qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera o movimento apocalíptico? A experiência humana em que surge e floresce a profecia Os profetas do tempo dos Reis viviam numa época em que era possível abarcar e controlar a situação. O espaço em que viviam, o território, era limitado e podia ser defendido e governado. O povo que vivia dentro deste território podia ser convocado, recenseado e cobrado. Eles eram donos do espaço em que viviam. Tinham autonomia política. Todos professavam a mesma religião, tinham fé no mesmo Deus. Todos eram súditos do mesmo rei, tinham o mesmo compromisso de observar a Aliança. Eles eram uma nação independente, senhora do seu próprio destino, da sua própria história. Era dentro deste espaço limitado que eles procuravam viver a sua fé em Deus, observando a Aliança. Na origem da ação profética está uma experiência humana muito profunda e muito comum até hoje. Quando, diante de uma injustiça, você percebe que tem a possibilidade de fazer algo para mudar a situação, então, dentro de você, nasce um sentimento de responsabilidade que o faz dizer: “Não posso ficar parado! Deus está me chamando! Devo fazer alguma coisa!” Não é assim? Pois bem, a ação profética nasce desta consciência forte que, de vez em quando, surge em nós de que podemos e devemos fazer algo para mudar a situação. A teologia da Libertação é profética. Ela nasceu da consciência e da possibilidade que se entrevia de nós cristãos podermos interferir no rumo da história da América Latina e de transformarmos a situação de acordo com as exigências da Aliança, do Evangelho. Ela usa expressões que traduzem a mesma experiência: ser sujeito da história, assumir nossa responsabilidade diante dos fatos, responder diante de Deus pelo que acontece no país, cumprir nossa tarefa de transformar a situação. A mudança que ocorreu O exílio da Babilônia (598 aC a 537 aC) provocou uma grande mudança, pois quebrou o sistema sócio-político em que o povo vivia no tempo dos reis. Em 598, a elite (rei, sacerdotes, falsos profetas, nobres e chefes) foi levada para o exílio (2Rs 24,10-17). Dez anos depois, em 587, o pouco que restava da lide­rança foi preso e morto (2Rs 25,1-21). Jerusalém, a capital, junto com o Templo, o santuário do rei, tudo foi destruí­da. Todos ficaram sob o domínio do poder estrangeiro, sem mais nenhum recurso para poder con­trolar a situação. Já não eram Estado nem Nação, mas apenas uma comunidade étnica, perdida num império multi-racial, sem independência política, sem exército, sem rei. O espaço livre ficou muito reduzido e, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez menor. O pouco poder que lhes sobrou se concen­trava em torno do Sacerdócio que controlava o Templo e em torno dos doutores ou escribas que controlavam a explicação da Lei. Anteriormente, na época da monarquia, o povo experimentava o mundo, o tempo (história) e o espaço (terri­tório) como entregues à sua própria responsabilidade. Esta experiência despertava nele a vontade de interferir no rumo das coisas e gerava a profecia. Quando, naquele tempo, o povo do campo era oprimido pelos poderosos, ameaçado de perder suas terras, surgiam profetas como Amós, Miquéias, Isaías e Jeremias. Eles enfrentavam os poderosos e cobravam deles o compromisso da Aliança. A fé

ago 10 2021

“JAMAIS PEDIRIA PARA SAIR”

A história de Moçambique habituou-nos cenários de aparente hostilidade contra a Igreja. Num relatório de 1973 a PIDE sugeria a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o território moçambicano. Em Fevereiro de 1974, foi publicada uma carta denominada “Imperativo de Consciência”, assinada por Dom Manuel Vieira Pinto e todos os missionários combonianos presentes em Moçambique (34 padres, 19 irmãos leigos e 41 irmãs). Essa carta era uma manifestação contra a política colonial, contra a continuação da guerra e contra o silêncio da Igreja Católica em Moçambique. Fruto da polémica instalada, o Governo deu ordem de expulsão a 11 missionários combonianos (nove italianos e dois portugueses) e Dom Manuel Vieira Pinto, que chegou a Lisboa nas vésperas de 25 de Abril. Entre 1974 e 1977, vários bispos moçambicanos pediram para sair das suas dioceses. Vieira Pinto voltou para Nampula. Na época da revolução, a seguir a independência, a Igreja foi vista como um perigo ou inimigo a abater. Pois, a construção de um Novo Homem nascido da revolução moçambicana, cujo ideal foi consolidado no III Congresso da Frelimo, em 1977, exigia que a sociedade moçambicana deveria estar afastada das crenças consideradas “supersticiosas e obscurantistas” e caberia ao Estado levar ao povo uma perspectiva materialista e científica do mundo. Neste sentido, o governo da Frelimo adoptou uma postura de restrição e perseguição às diversas confissões religiosas no país. Mas antes do Congresso havia igualmente uma política antirreligiosa. Considerava-se que os missionários eram agentes a favor do imperialismo, as Igrejas transformavam os seus ensinamentos em dogmas que escravizavam, e que faziam acreditar que a miséria e a opressão do povo eram algo imutável. Em 1976 a Conferência Episcopal de Moçambique publicou uma Carta Pastoral onde os bispos destacam que cerca de 600 missionários deixaram o país entre 1975 e 1976, muitos deles por dificuldades de adaptação à nova realidade, por traumas pelos acontecimentos que acompanharam a Revolução, por serem expulsos pelo governo ou impedidos de entrar novamente no país. Em Junho de 1977 Dom Manuel Vieira Pinto escreveu uma carta onde criticava o ideal de Homem Novo. “(…) Uma coisa é combater o obscurantismo, a superstição, os preconceitos, outra coisa é combater a religião. Confundir, sem mais, obscurantismo e religião é cometer um erro grave. Infelizmente não falta quem o faça, provocando assim na consciência do Povo, particularmente na consciência dos continuadores, novos preconceitos, novas formas de obscurantismo. Também não será correcto confundir a crítica à religião com a negação pura e simples de Deus, ou com a humilhação do homem crente. A intolerância religiosa é uma triste e lamentável ofensa à dignidade do homem”. Entre os dias 08 e 13 de Setembro de 1977, ocorreu a I Assembleia Nacional de Pastoral na cidade da Beira para encontrar respostas face aos novos tempos. Na época, os fiéis não sabiam como era possível engajar-se na Revolução e praticar a fé. Não sabiam se a filiação ao partido Frelimo significava a negação de Deus. Influenciados pelos ventos de mudança da Igreja Católica, a I Assembleia Nacional de Pastoral tinha a intenção de criar em Moçambique uma Igreja Ministerial, pobre, despojada de seus bens e apoiada na participação de todos os seus membros e não mais no Estado. Ora, como a história é cíclica, factos do passado voltam a manifestar-se no presente. Aliás, segundo Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), em seu “Historia Magistra Vitae”, a história é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mensageira da velhice. Para Cícero, conhecer a história é se deparar com as acções de várias pessoas, independentemente da distância espacial e temporal que a separam. Teria, a história, uma função pedagógica, de instruir o indivíduo a pensar acerca de seu presente e planejar seu futuro tendo como referência o passado. Combinando com essa linha de pensamento, o historiador alemão R. Koselleck (1923-2006), afirma que a história nos deixa livres para repetir os sucessos do passado, ao invés de incorrermos presentemente nos velhos erros. Por essa razão, a história de antiprofetismo apresentada acima, repete-se ainda com a transferência de Dom Luiz Fernando Lisboa da Diocese de Pemba, na província moçambicana de Cabo Delgado, para a diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim, no Estado do Espírito Santo, e concede-lhe ainda o título honorífico pessoal de arcebispo. O anúncio foi feito a 11 de Fevereiro último, em comunicado, pela sala de imprensa da Santa Sé. Como é sabido Dom Luiz Fernando Lisboa foi uma das primeiras vozes a alertar o mundo sobre a situação de Cabo Delgado e destacou-se, nos últimos anos, na defesa das populações desprotegidas. Além disso, no ano passado, foi acusado por indivíduos próximos do Governo de ser apoiante dos insurgentes, talvez isso lhe valeu ser expulso do país. Portanto, a transferência de Dom Luiz cheira a cor de expulsão diplomática. Porque já foi ameaçado de morte por várias ocasiões. E em certa altura falando do “ciclone humano dos ataques” expressou que ser bispo de Pemba “foi uma experiência de cruz e de dor”. De facto, centenas de pessoas já morreram e milhares estão deslocadas devido à acção de um grupo fundamentalista islâmico do qual pouco se sabe ao certo, mas que terá ligações ao autoproclamado Estado Islâmico. “Dessa guerra, eu pude tirar muitas lições. A principal delas é a grandeza desse povo que é pobre mas que é muito solidário. Eu vi muitas histórias, ouvi muitas histórias, vi muitas situações e percebi quanto é que, mesmo na pobreza, nós podemos ajudar, nós podemos repartir, partilhar. Nesse tempo de guerra cada família que não era deslocada acolheu uma ou duas ou até três famílias deslocadas, dentro da sua casa, no seu quintal repartindo o pouco que tinha com aqueles que não tinham nada e estavam ainda no desespero, na estrada, sem ter norte. A experiência do povo de Cabo Delgado vai ficar sempre marcada na minha vida” garante Dom Luiz. É verdade que “a missão é de Deus, não é nossa”. Mas como diz o cantor “Se calarem a voz dos profetas,

ago 10 2021

Covid-19 versus direito ao trabalho

Por Dr. Ali Armando Amade Covid-19 versus direito ao trabalho Trabalhei durante 5 anos, com contrato de trabalho regular (indeterminado), no restaurante duma unidade hoteleira nas belas praias da Província de Inhambane. Antes da Pandemia da COVID-19 tínhamos sempre muitos clientes. Infelizmente, desde Abril do ano passado (2020) o empreendimento ficou encerrado, precisamente devido à COVID-19. Todos nós, trabalhadores, fomos dispensados e ficámos em casa à espera que os tempos melhorassem. Nos finais do ano passado, o restaurante reabriu, mas, lamentavelmente, eu e alguns colegas não fomos chamados para retomar o trabalho, portanto, fomos deixados em casa sem nenhuma remuneração. O que é que temos que fazer com a unidade patronal? (Carta assinada – Inhambane).   As praias da Província de Inhambane são por excelência um cartão-de-visita para muitos turistas moçambicanos (internos) e estrangeiros, visitantes de fora do nosso país que querem se deliciar daquelas maravilhosas praias. Falar de turismo é o mesmo que falar duma actividade que implica a deslocação de um ou vários indivíduos de sua zona habitual para outra durante um determinado período de tempo. Deslocação, tanto por lazer ou alguma actividade profissional facto que, naturalmente, implica a procura de unidades hoteleiras para a hospedagem. E, ao se instalarem nas referidas instâncias turísticas, vão manter contactos físicos ou de aproximação com outras tantas pessoas. Desde finais de 2019 o mundo começou a confrontar-se com um novo Vírus da família dos Coronavírus, o SARS-COV-2, identificado em Wuhan na China, COVID-19. Como se sabe, a transmissão é feita por meio das gotículas respiratórias, ao tossir ou espirrar, ou ao tocar em objectos contaminados e levar a mão à boca, nariz e olhos sem antes higienizá-las. Foi com vista a reduzir o máximo possível a propagação do COVID-19, que o Governo de Moçambique e um pouco por todo o mundo, fechou as fronteiras nacionais, cancelando, por isso, as viagens para o nosso país. A medida de fechar as fronteiras, praias, estâncias turísticas, etc. afectou sobre maneira o sector hoteleiro (incluindo os restaurantes e outros similares) que, sem clientes, se viu forçado a encerrar as portas e, por conseguinte, a despedir ou suspender alguns contratos de trabalho. Feita a explicação do porquê da suspensão dos contratos de trabalho, agora vamos responder à inquietação do nosso querido amigo trabalhador dum restaurante, com contrato de trabalho por tempo indeterminado há mais de cinco anos e neste momento em casa sem a competente remuneração. Falámos nas linhas anteriores de duas figuras jurídicas, nomeadamente o despedimento e a suspensão do contrato de trabalho. E será precisamente sobre esta última figura que nos vamos debruçar visto ser a que se adequa à situação no nosso amigo. Dispõe o n.º 1 do artigo 123 da Lei 23/2007, de 1 de Agosto (Lei do Trabalho) que “o empregador pode suspender o contrato de trabalho por motivos de mercado, tecnológicos, catástrofes ou ocorrências que tenham ou venham, previsivelmente, a afectar a actividade normal da empresa ou estabelecimento”. Significa que o contrato de trabalho pode ser suspenso por força maior quando, por exemplo, se verifiquem motivos conjunturais que obriguem o encerramento temporário da empresa.   Dos direitos adquiridos Ora, pese embora esse direito reservado ao empregador para suspender temporariamente o contrato de trabalho mediante uma comunicação, por escrito, a cada trabalhador abrangido, os fundamentos da suspensão e indicada a data de início e de duração da mesma, remetendo simultaneamente cópias dessas comunicações ao ministério que tutela a área do trabalho e ao órgão sindical da empresa, conforme o n.º 2 do artigo 123 da Lei do Trabalho, não quer dizer que o trabalhador fica em casa sem remuneração ou com “as mãos a abanar” como se diz. Pois, o n.º 5 do mesmo artigo 123 da Lei do Trabalho, recomenda que mesmo estando em casa, devido à suspensão do contrato de trabalho, o trabalhador tem direito a receber 75% do seu salário no primeiro mês, 50% no segundo mês e 25% no terceiro mês. Contudo, se passarem os três meses e o motivo que originou a suspensão prevalecer, suspende-se o pagamento das remunerações, podendo as partes (se quiserem) acordar a extinção do contrato ou relação de trabalho, sem prejuízo das indemnizações a que o trabalhador tiver direito. Portanto, caro amigo, como pode perceber na nossa resposta, tinhas o direito de receber o teu salário durante três meses nos moldes que já indicámos. Mas se o encerramento continuasse, o que não é o caso, podiam (tu e a direcção do restaurante) acordar a extinção do contrato de trabalho e por conseguinte ser paga a competente indemnização. E, uma vez recebido o valor da indemnização por sua parte, cessavam todos os direitos e obrigações com a sua entidade patronal. Ora, no caso que tudo o que explicamos não tenha acontecido e até à presente data continue em casa, sem ter recebido qualquer valor monetário desde a suspensão do seu contrato de trabalho, aconselhamos ao nosso caríssimo amigo para, querendo, pedir ajuda, ao IPAJ, à Inspecção Provincial do Trabalho e ou ao Centro de Mediação e Arbitragem Laboral aí na cidade de Inhambane.   BOX Despedimento (extinção do contrato ou da relação de trabalho) Se o impedimento referido n. 1 do artigo 123 da Lei de Trabalho subsistir, para além dos 3 meses, e houver um acordo para a extinção do contrato ou relação de trabalho, o empregador deve colocar à disposição do trabalhador ou trabalhadores, compensação pecuniária calculada nos termos do artigo 128 da Lei de Trabalho, podendo a indeminização ser fraccionada em três parcelas, mediante acordo das partes.   O que recomenda o artigo 128 da Lei do Trabalho? O n. 2 deste artigo 128 da Lei do Trabalho recomenda que a rescisão do contrato de trabalho por tempo indeterminado, com justa causa porte do trabalhador, confere-lhe o direito à indemnização a 45 dias de salário por cada ano de serviço. No que tange aos contratos a prazo certo, cujo suporte legal se encontra no n. 3 do mesmo artigo, a indemnização será correspondente às remunerações que se venceriam entre

ago 09 2021

Cidadania é a chave da mudança

Por Dr Deolindo Paúa A nossa experiência do dia-dia como moçambicanos tem-nos provado que não estamos seguros ao abandonar nosso destino como país aos políticos. Sempre que adormecemos um pouco, ao acordar, encontramos nossos direitos hipotecados, a justiça social pontapeada e o país mergulhado nos piores escândalos e crises de toda a índole. Quem se esqueceu das mortes em massa pós-eleições de 1999 na Mocimboa da Praia? Quem se esqueceu do abandono dos madjermanes que reivindicam suas pensões há décadas? Quem se esqueceu das dívidas ocultas? Quem pode ser capaz de fechar os olhos ao duvidoso crescimento da fortuna de nossos líderes contra o crescimento da pobreza de cidadãos comuns em todo o país? A memória da nossa história Nossa memória sobre guerras injustificadas, sobre as dívidas ocultas, sobre processos eleitorais de credibilidade duvidosa, sobre a corrupção levada a cabo por altos funcionários, nossa memória sobre as matanças a cidadãos indefesos em plena luz do dia ainda é fresca. Aliás, graças a esses acontecimentos, hoje, o país está mergulhado numa das piores crises que se podia ter. O custo de vida sobe até mesmo no campo. O emprego escasseia e sua disponibilidade começa também a privilegiar quem tem poder de decisão sobre os recursos públicos e não mais aos competentes. As oportunidades de trabalho e de empreender continuam sendo do benefício de pessoas injustamente seleccionadas. De quem é a culpa? De quem é a culpa é a pergunta que todos fazem. Mas mais do que procurar culpados, há que procurar os erros para corrigi-los. Em todos os países, o exercício pleno de cidadania tem sido o travão para a anarquia dos políticos em relação a gestão pública. Países onde políticos fazem e desfazem é onde os cidadãos são cobardes. Cidadãos íntegros não deixam seus direitos serem violados. Denunciam quando há desigualdade no acesso aos benéficos; denunciam quando o atendimento nas instituições públicas é injusto; denunciam quando os políticos descriminam vontades do povo em favor das suas; reclamam, gritam e se agitam quando os pressupostos de uma vida juntos não estão a ser preenchidos pelos políticos. Onde não há cidadania o contrato social morre. A democracia extingue-se. E então, reclamar um direito passa a ser agitação. Exigir o respeito do contrato aos políticos ser falta de patriotismo como algumas opiniões próximas ao poder pretendem fazer entender. Atentado contra a cidadania A ditadura ganhou sempre lugar onde os cidadãos, por medo ou não, abandonaram sua liberdade, abdicaram seu poder e renderam-se ao poder arbitrário estabelecido. O nosso país é todos os dias bombardeado por atentados contra a nossa cidadania. A cada amanhecer há um cidadão morto por pensar diferente. A cada anoitecer, há um cidadão detido, um outro ameaçado por questionarem o poder, e há uma outra maioria de cidadãos sem direito ao básico para sobreviver e propositadamente abandonados á sua sorte. Estas situações todas parece vencerem nossa vontade de ser cidadãos. O mais grave é a tendência de abandono da cidadania, manifesta nas palavras que se ouvem hoje nas ruas: “este país tem donos!”. Que donos? Se este país realmente tem donos e esses donos não somos nós como cidadãos, os que nasceram e crescem aqui, os que procuram a todo custo sobreviver e fazer sobreviver o país, então, somos realmente fracassados. A responsabilidade pela mudança é dos cidadãos Não há dúvidas de que certas pessoas apoderaram-se dos recursos do país, que deveriam ser de todos e que para mante-los na sua posse usam todos os recursos ao seu alcance. Mas isto não justifica nossa perigosa desistência. A responsabilidade pela mudança das coisas é inteiramente dos cidadãos, nossa. Cidadãos significa donos do país. Políticos significa sevos dos cidadãos. Não vejo a possibilidade dos donos abandonarem sua propriedade aos empregados. Nosso grave erro é que ao dizermos que “este país tem donos” esses donos referimos aos políticos. Pensamos que eles podem tratar as coisas por nós. Enganamo-nos que o nosso modelo de políticos moçambicanos são patriotas e que podemos ficar descansados que eles vão resolver os problemas por nós. Tal como a experiência nos provou, estamos redundantemente enganados! Pelo menos os nossos políticos já nos provaram várias vezes que não passam de comissários. Nenhuma mudança do interesse do povo será encabeçada por um político ou por um partido político. Os partidos políticos são organizações de interesses, muitas vezes egoístas. Jamais serão capazes de beneficiar ao povo em algo que não beneficie seus negócios. O perigo da neocolonização Nenhuma mudança justa será encabeçada por um partido político. Então é erróneo fechar-se na própria cobardia pensando que as coisas piores que acontecem no nosso país mudarão quando houver mudança de partidos políticos na gestão do Estado. Talvez! Seria bom! Mas acho que temos experiência suficiente para não pensar assim. Todos os partidos, no que lhes move a procurar incessantemente o poder, são iguais. A única possibilidade que temos para impor justiça social e mudanças profundas no nosso país, é tomando o nosso activismo. Precisamos de voltar a nos sentir donos deste país ou seremos novamente colonizados da forma mais vil e pelos nossos próprios irmãos, se é que não estamos a ser colonizados. Aqueles que preferem pensar que o país está sendo governado na justiça gostava que me explicassem, por exemplo, o motivo das incessantes guerras. Além de impor de propósito milhões de pessoas à situação de pobreza, a pior injustiça que se pode cometer num país é a de impor uma guerra e à situação de refúgio pessoas pobres e desfavorecidas. O país a saque dos políticos Tal como diz a ditado popular, ou mudamos, ou tudo se repete. Ou nos reerguemos da nossa cobardia, ou continuaremos sendo espezinhados. Nosso país continuará a saque de várias formas desde a corrupção, o roubo, as desigualdades salariais que beneficiam mais aos políticos do que aos funcionários públicos, o saque inexplicado dos nossos recursos naturais, o endividamento do país para fins singulares, a manutenção propositada de guerras, até que sejamos conscientes dessa colonização. Continuarão fabricando ricos repentinos. Continuará fazendo pessoas extremamente ricas de um lado

ago 09 2021

O valor da solidariedade

Por P. António Bonato Neste capítulo da Encíclica “Fratelli Tutti” Papa Francisco convida-nos a reflectir sobre o valor da solidariedade como tomada de responsabilidade pela fragilidade dos outros na procura dum destino comum. Na sua recente viagem ao Iraque nos mostrou quanto importante seja a solidariedade para a construção dum mundo mais humano. Quero destacar a solidariedade, que «como virtude moral e comportamento social, fruto da conversão pessoal, exige empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que detêm responsabilidades de carácter educativo e formativo. Penso em primeiro lugar nas famílias, chamadas a uma missão educativa primária e imprescindível. Constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro e da transmissão da fé. Também os agentes culturais e dos meios de comunicação social têm responsabilidades no campo da educação e da formação, especialmente na sociedade actual onde se vai difundindo cada vez mais o acesso a instrumentos de informação e comunicação (114).   Sociedades líquidas Nestes momentos em que tudo parece diluir-se e perder consistência, faz-nos bem invocar a solidez, que deriva do facto de nos sabermos responsava pela fragilidade dos outros na procura dum destino comum. A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros. O serviço é, «em grande parte, cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo». Nesta tarefa, cada um é capaz «de pôr de lado as suas exigências, expectativas, desejos de omnipotência, à vista concreta dos mais frágeis (…). O serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até “padece” com ela e procura a promoção do irmão. Por isso, o serviço nunca é ideológico, dado que não servimos ideias, mas pessoas» (115).   Pensar e agir como comunidade Solidariedade é uma palavra que nem sempre agrada; diria que algumas vezes a transformamos num palavrão, que não se pode dizer; mas é uma palavra que expressa muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro (…). A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem» (116).   Solidariedade e casa comum Quando falamos em cuidar da casa comum, que é o planeta, fazemos apelo àquele mínimo de consciência universal e de preocupação pelo cuidado mútuo que ainda possa existir nas pessoas. De facto, se alguém tem água de sobra mas poupa-a pensando na humanidade, é porque atingiu um nível moral que lhe permite transcender-se a si mesmo e ao seu grupo de pertença. Isto é maravilhosamente humano! Requer-se este mesmo comportamento para reconhecer os direitos de todo o ser humano, incluindo os nascidos fora das nossas próprias fronteiras (117).   Desenvolvimento deve ser riqueza para todos O desenvolvimento não deve orientar-se para a acumulação sempre maior de poucos, mas há-de assegurar «os direitos humanos, pessoais e sociais, económicos e políticos, incluindo os direitos das nações e dos povos». O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; nem acima do respeito pelo ambiente, pois «quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos» (122). É verdade que a actividade dos empresários «é uma nobre vocação, orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos»… Mas estas capacidades dos empresários, que são um dom de Deus, deveriam em todo o caso orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e a superação da miséria, especialmente através da criação de oportunidades de trabalho diversificadas. (123).   Novas relações Falamos duma nova rede nas relações internacionais, porque não é possível resolver os graves problemas do mundo, pensando apenas em termos de mútua ajuda entre indivíduos ou pequenos grupos. Lembremo-nos que «a desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais». E a justiça exige reconhecer e respeitar não só os direitos individuais, mas também os direitos sociais e os direitos dos povos. Quanto afirmamos implica que se assegure «o direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso», que às vezes é fortemente dificultado pela pressão resultante da dívida externa. Em muitos casos, o pagamento da dívida não só não favorece o desenvolvimento, mas limita-o e condiciona-o intensamente. Embora se mantenha o princípio de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, a maneira de cumprir este dever que muitos países pobres têm para com países ricos não deve levar a comprometer a sua subsistência e crescimento (126).   Sonhar humanidade diferente Trata-se, sem dúvida, doutra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nesta lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio. Mas, se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples facto de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, tecto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Com efeito, a paz real e duradoura é possível só «a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a co-responsabilidade na família humana inteira» (127).

ago 09 2021

Cárie Dentária

Cárie Dentária A cárie dentária é uma destruição dos tecidos calcificados do dente (chamados de esmalte, dentina e cemento) através do ataque dos ácidos produzidos por bactérias presentes na boca. Essa produção de ácidos é maior com o consumo de açúcar e em casos onde há falta de higiene bucal.   Sintomas Dor que piora ao comer ou beber algo doce, frio ou quente; Perda de dentes; Dificuldades em engolir; Presença de furinhos em um ou mais dentes; Manchas amarelas ou brancas na superfície do dente; Sensibilidade ao tocar num dente; Gengiva inchada e dolorida.   O que fazer quando se tem cárie? O tratamento para eliminar cáries é realizado pelo dentista. Na fase inicial a cárie não apresenta qualquer sintoma e, por isso quando aparecem os primeiros sintomas é importante ir imediatamente ao dentista para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento adequado, evitando complicações como uma infecção mais grave ou perda de um dente.

ago 09 2021

Os maiores travões do desenvolvimento de Moçambique

4 – A fragmentação da governação Por Thomas Selemane thomselemane9@gmail.com  A fragmentação da governação neste texto significa a prática de ter muitos “planos de desenvolvimento” ou “planos estratégicos”, muitas vezes desconexos e contraditórios entre si, para um mesmo sector (agricultura, educação, saúde, e por aí em diante) e com horizontes temporais diferentes. Essa prática de “governar à retalho” a que chamo de fragmentação da governação é um dos maiores travões do desenvolvimento de Moçambique, a par da intolerância política, da ausência de reconciliação nacional e da frágil unidade nacional, a que me referi nas últimas três edições desta revista. Por causa dessa fragmentação, a nossa governação tem sido orientada mais por uma visão de curto prazo, típica dos interesses partidários, do que por uma visão de longo prazo, que seria mais consentânea com um projecto de construção de uma nação. Mas nem sempre foi assim. Ao longo do percurso do nosso país houve várias tentativas de pensar o desenvolvimento nacional a médio e longo prazos, de forma integrada, embora os resultados nunca tenham sido satistafatórios na medida em que se desejaria. A prática de criar vários fragmentos da governação (estratégias, políticas, directivas, planos nacionais) vem dos últimos 20 anos, para prejuízo do país e de todos os moçambicanos. Não pretendo defender aqui o modelo de economia centralmente planificada que vulgarmente se chamou de “socialismo”. Estou apenas a situar aos leitores o percurso que a governação do país seguiu desde que Moçambique existe como tal. A última tentativa de se pensar na construção da nação, a médio e longo prazo, foi nos primórdios dos anos 2000, quando se elaborou a consensual “Agenda 2025 – Visão e Estratégias da Nação.” Esse documento cujo prazo deve terminar daqui a quatro anos, em 2025, preconizava “a nação em primeiro lugar.” A sua elaboração foi tanto inclusiva – no verdadeiro sentido da palavra – quanto demorada e metodologicamente sofisticada. Esperava-se que nestes 25 anos, desde o ano 2000, toda a planificação da governação do país se baseasse na Agenda 2025. Mas isso não aconteceu. Foram sendo elaboradas novas “agendas”, “visões” e “estratégias” com curto alcance temporal, sem a perspectiva inclusiva que a Agenda 2025 teve, e acima de tudo, sem colocar a nação em primeiro lugar, procurando responder mais a demandas de fora e menos a demandas de dentro. Os resultados dessa fragmentação da governação – em particular, os resultados de se ter ignorado a Agenda 2025 – estão à nossa vista: desde a progressiva desagregação da sociedade moçambicana, passando pelos conflitos pós-eleitorais, desembocando na guerra de Cabo Delgado. Apresento a seguir alguns exemplos para demonstrar como a fragmentação da nossa governação tem sido um dos principais travões ao desenvolvimento do nosso país. Começando pelo campo económico, vemos uma lista interminável de “planos” e “agendas.” Por exemplo, o país conta com uma “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, que se pretende que seja um mecanismo nacional de resposta aos anseios internacionais de atingir os chamados “Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)” em 2030, isto é, daqui a nove anos. Reservo para outra ocasião a discussão sobre a fiabilidade dos tais ODS. Por enquanto, importa-me realçar a ténue e por vezes ausente ligação entre a Agenda 2030 e os demais instrumentos de governação. Para além dela, Moçambique possui também uma “Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2015-2035. Esse fragmento da governação, diz o seguinte: “Por forma a assegurar uma maior coordenação do processo de desenvolvimento, o Governo decidiu elaborar a Estratégia Nacional de Desenvolvimento , que tem como objectivo: elevar as condições de vida da população através da transformação estrutural da economia, expansão e diversificação da base produtiva.” Ninguém discorda das boas intenções anunciadas naquele documento. Nenhum moçambicano diria que até ao 2035, não gostaria de ver no país uma “transformação estrutural da economia”. Por outras palavras, todos os moçambicanos querem ver o país a ter mais exportações do que importações, a gerar mais emprego de qualidade, a produzir mais do que o suficiente para alimentar os 30 milhões de moçambicanos. Mas como é que se chega lá? Temos também uma “Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2016-2022”. Tal como os outros fragmentos da governação, essa estratégia de inclusão financeira também colhe consenso de toda a gente. Porque, afinal, ninguém acha mau que todos os cidadãos do nosso país tenham acesso aos serviços financeiros. Sejam eles bancos, contas móveis de uma ou de outra companhia de telefonia móvel. Ora, qual é a ligação entre essa estratégia de inclusão financeira cujo prazo termina no próximo ano de 2022 e as outras estratégias de desenvolvimento económico? Nenhuma ligação! Outra área da governação que merece atenção é agricultura, que é definida como “a base de desenvolvimento de Moçambique”, pela nossa Constituição da República (Nr 1, Art. 103). Vários estudos têm considerado o fraco desempenho da agricultura em Moçambique como um dos principais entraves para a falta de redução da incidência da pobreza. E uma das razões desse fraco desempenho tem sido comprovadamente a existência de demasiados “planos” e “estratégias” sem conexão entre si, por vezes contraditórias entre si, e sem visão de longo prazo. Decorre actualmente o mais badalado programa do sector agrário – SUSTENTA – que se pretende que seja uma iniciativa transformadora da vida dos camponeses, dos comerciantes e de todos os demais agentes económicos que trabalham ao longo da cadeia de valor da agricultura. Se o programa SUSTENTA pode ou não dar os resultados que se prometem, veremos mais tarde, quando se fizer uma avaliação. Por enquanto, e para efeitos deste texto interessa-me problematizar a existência de vários programas dentro do sector agrário. Nos últimos 20 anos, o país teve os seguintes cinco programas nacionais do sector agrário: (i) PROAGRI 1 (1999-2005); (ii) PROAGRI 2 (2005-2009); (iii) Estratégia de Desenvolvimento Rural (EDR) 2007-2025; (iv) Plano Estratégico de Desenvolvimento do Sector Agrário (PEDSA) 2010-2020; (v) Plano Nacional de Investimento do Sector Agrário (PNISA) 2013-2017. Cada um desses programas foi desenhado na boa-fé de ser a salvação da agricultura e a solução para o problema da pobreza em Moçambique. Porque é

ago 09 2021

Visão geral da problemática em torno do Apocalipse

Frei Carlos Mesters, Carmelita 1ª Chave VISÃO GERAL DA PROBLEMÁTICA EM TORNO DO APOCALIPSE 1. As dificuldades mais comuns do povo O Apocalipse de João é um livro misterioso, difícil, controvertido, fechado a sete chaves, cheio de visões estranhas, descritas em linguagem obscura, que a gente não entende e que muitas vezes metem até medo nas pessoas. Sobretudo hoje em dia, nestes tempos apocalípticos! Livro cheio de violência e morte como se a vida humana já não valesse mais nada. Livro que mistura os tempos: você não sabe se ele fala do presente, do passado ou do futuro. Livro que provoca atitudes fatalistas, pois ele parece sugerir que não adianta você se esforçar para interferir no rumo dos acontecimentos. Tudo já parece determinado e a nós só cabe assistir a tudo de camarote. A palavra apocalipse sugere e provoca reações bastante negativas: Sugere algo que tem a ver com confusão, desastre, fim do mundo. Sugere algo que vem de forças superiores. Alguns dizem que vem de Deus. Por isso provoca o fatalismo que faz ficar parado sem participar. Sugere visões e revelações, recebidas e interpretadas por videntes, como aqueles três sinais que apareceram na parede do palácio do rei Baltazar (Dn 5,5.25-26). Sugere ainda um certo fanatismo que pode levar as pessoas a cometer desatinos. A leitura errada do Apocalipse já provocou o suicídio de muita gente, tanto ontem como hoje. Afinal, qual o significado certo do Apocalipse? 2. Três interpretações muito comuns O Apocalipse de João é um dos livros mais procurados da Bíblia. Também dos mais abusados. Muitos não entendem o seu sentido, mas sentem uma atração, uma curiosidade. Uma senhora disse: “Entender, não entendo. O meu entendimento é fraco, mas gosto muito. Me traz conforto e coragem na luta”. De fato, não é necessário entender de música para poder sentir o con¬forto de uma bela sinfonia! Imagens e visões, por si mesmas, podem comunicar conforto e coragem. Mas não basta a coragem. Sem o entendimento, ela pode desandar como um carro desgovernado. Pode até ser usada para fins anti-evangélicos, como já aconteceu e ainda acontece. Outros são mais críticos. Não querem só assistir. Querem é conhecer o rumo e participar. Por isso não gostam do Apocalipse: “Deus faz tudo. Não sobra mais nada para a gente. E aquelas visões terríveis do fim do mundo! Sem um entendimento, aquilo só dá medo na gente”. Coragem sem entendimento desanda. Entendimento sem coragem paralisa. Como combinar as duas coisas na interpretação do Apocalipse? E que entendimento? Pois nem todo entendimento abre o sentido do Apocalipse. Quando em 1980 o Papa João Paulo II sofreu o atentado, alguns crentes diziam: “Isto está bem conforme o que está escrito. O Apocalipse diz que a besta-fera recebe ferida de morte e sobrevive”. Para uns, a besta-fera é o Papa. Para outros, é o governo. Para outros, o capitalismo. Para outros, o comunismo. Cada um lê o Apocalipse conforme o seu próprio entendimento e dele tira as suas conclusões. Onde procurar o entendimento certo? 3. Resumindo: Na opinião comum, apocalipse ou apocalíptico é sinônimo de: * Desastre e confusão, * Medo e fim de mundo, * Visões estranhas e imagens esquisitas, * Intervenção do alto e fatalismo cá em baixo * Muito usado e muito abusado

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