jul 21 2021
Vendedores de batata-doce somam prejuízos avultados por falta de mercado em Nampula
Por: Júlio Assane Batata-doce um dos produtos considerado de referência pelos especialistas na área de saúde, para o combate a desnutrição nas famílias de baixa renda, perdeu mercado nos últimos tempos, mesmo com estas qualificações. Só para se ter uma ideia, um saco de 50 quilogramas que, no ano passado, era vendido a 750 meticais, actualmente custa 300 a 450 meticais. Aliás, João António vendedor de batata-doce no mercado grossista de Waresta na cidade de Nampula, decidiu vender a retalho o seu produto, alegando a falta de compradores. “Por falta de clientes para comprar este produto, assistimos os nossos produtos a deteriorar-se por falta de clientes” avançou o nosso entrevistado. A mesma ideia é compartilhada por José Amade também vendedor de batata-doce que viu os seus produtos mercado. Esta realidade trás um contraste aos apelos do governo no que tange ao aumento da produção deste tubérculo. Como forma de facilitar a venda, estes sugerem ao governo a implantação de uma fábrica de processamento deste produto, rico em recursos energéticos.
jul 17 2021
XVI Domingo do Tempo Comum B
LITURGIA DA PALAVRA Primeira Leitura: Jeremias 23,1-6 Salmo 22 (23) Segunda Leitura: Efésios 2,13-18 Evangelho: Marcos 6,30-34 TEMA: CHAMADOS A SER SERVOS DO REBANHO DO SENHOR Na celebração deste domingo, somos desafiados a assumir uma missão de pastores que ama o rebanho e denunciar os pastores que roubam os pobres. Jesus Cristo, o bom pastor, deve ser a única inspiração para todos os chamados a ser servos do Senhor. O pastor que deve ser guia é um homem com duas características: por um lado é um homem forte, capaz de defender seu rebanho contra os animais ferozes. Por outro lado é um homem delicado para com suas ovelhas, conhecendo sua condição, adaptando-se a sua situação, levando-as no colo, amando ternamente cada uma como uma filha. A autoridade do bom pastor é indiscutível, baseada na dedicação e no amor. Mas quer no contexto dos antigos pastores quer alguns actuais, existe a tentação de não se buscar o exemplo de Jesus Bom Pastor. Jesus é o chefe (pastor) que reúne, o povo se constitui em virtude de um poder régio extrínseco, enquanto o novo povo é convocado pela palavra de Jesus. Ele faz com amor e por amor. Esse amor e essa solicitude traduzem-se, naturalmente, na oferta de vida nova e plena que Deus faz a todos os homens e mulheres. É Amor doação e auto entrega. Marcos recorda-nos que a proposta salvadora e libertadora de Deus para os homens, apresentada em Jesus, é agora continuada pelos discípulos, por mim e por você. É continuada por cada baptizado e comprometido pelo Reino de Deus. Os discípulos de Jesus são – como Jesus o foi – as testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus por esses homens e mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo, “como ovelhas sem pastor”. A missão dos discípulos tem, no entanto, de ter sempre Jesus como referência. Nunca busquemos outra referência nem ídolo, nem famoso ou rico… Com frequência, os discípulos enviados ao mundo em missão devem vir ao encontro de Jesus, dialogar com Ele, escutar as suas propostas, elaborar com Ele os projectos de missão, confrontar o anúncio que apresentam com a Palavra de Jesus. É a Jesus que temos que prestar o relatório do trabalho prestado como servos inúteis. Paulo fala aos cristãos da cidade de Éfeso, e hoje fala a cada um de nós, da solicitude de Deus pelo seu Povo que manifestou-se na entrega de Cristo, que deu a todos os homens e mulheres, sem excepção, a possibilidade de integrarem a família de Deus. Reunidos na família de Deus, os discípulos de Jesus são agora irmãos, unidos pelo amor. Tudo o que é barreira, divisão, inimizade, ficou definitivamente superado. Quem não supera esses elementos ruins é considerado inimigo do projecto de Jesus. Compromisso Pessoal Assumir a missão de bom pastor das ovelhas de hoje Ter a paciência no cuidado das ovelhas Escutar as ovelhas feridas pelas situações da vida Se inspirar no próprio Jesus, o Bom Pastor Fugir da tentação de ser autoritário abraçando a humildade
jul 16 2021
Arquidiocese de Nampula exorta os párocos e fiéis ao escrupuloso cumprimento das medidas de prevenção da Covid-19
Por Kant de Voronha Em cumprimento das medidas anunciadas pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, na sua comunicação à Nação, na última quinta-feira (15), a Arquidiocese de Nampula emitiu um comunicado de imprensa no qual orienta aos párocos, às equipas missionárias, aos vários animadores das comunidades cristãs, assim como os gestores das instituições católicas de ensino a observar o encerramento das celebrações públicas, por 30 dias a partir do dia 18 de Julho corrente ano. O comunicado assinado pelo Porta-voz da Arquidiocese, Pe Pinho dos Santos Martinhs, prescreve que “Os sacerdotes devem celebrar em privado ou em casas religiosas pelo povo de Deus, e a Rádio Encontro transmitirá celebrações radiofónicas de Segunda-feira a Sábado a partir das 17 horas”. Face a impossibilidade de participação Eucarística, os fiéis da Arquidiocese de Nampula são instruídos a manter sintonia com os seus pastores “rezando o Santo Terço, pedindo a intercessão de Nossa Senhora para o fim da pandemia” O documento que temos vindo a citar refere ainda que “Ficam suspensas todas as palestras, simpósios, congressos, retiros, etc., nas comunidades” e as instituições católicas de ensino deverão seguir “escrupulosamente as orientações do comunicado presidencial”. De salientar que no rol das medidas mais recentes anunciadas pelo PR, o destaque vai para a suspensão das aulas presencias no ensino primário, secundária, ensino superior e técnico-profissional na cidade de Maputo incluindo Marracuene, Xai-Xai, Inhambane, Chimoio, Beira, Dondo e Tete. O sector público passa a funcionar das 8h às 14h e o recolher obrigatório passa para 21h às 4h. Volta a não ser permitida a realização de treinos nas diferentes modalidades, incluindo nas camadas de formação. Por outro lado, as equipas de alta competição treinam sem público nas bancadas. Nyusi garantiu a chegada de 11 milhões de doses de vacinas que chegam entre Julho e Agosto para intensificar o processo de vacinação onde se prevê ainda no presente ano a vacinação de grande parte da população moçambicana.
jul 16 2021
OS EXTREMOS DA “PÁTRIA AMADA”
Por Kant de Voronha Uma minoria do povo moçambicano conhece a letra do Hino Nacional. Uma poesia artisticamente bem elaborada, com engenho melódico de manifestação de pertença, integridade e esperança de um povo que sonha com a unidade nacional. Ora, era suposto que fosse a canção mais popular de Moçambique, cantada de cor por todos os moçambicanos. Mas vezes sem conta surpreendemo-nos com personalidades (figuras públicas), chefes de instituições e departamentos, povo simples, professores e jornalistas, que gaguejam ao tentar morder algumas palavras apagadas pelo vento em sua memória. Já participei em vários encontros multissectoriais nos quais a vergonha foi visível. A letra e a música do Hino Nacional são estabelecidas por lei, aprovadas nos termos do n.º 1 do artigo 295 da Constituição. Se calhar é necessário partilhar aqui, ao menos, a letra do Hino Nacional: Na memória de África e do Mundo; Pátria bela dos que ousaram lutar; Moçambique, o teu nome é liberdade; O Sol de Junho para sempre brilhará. Coro: Moçambique nossa terra gloriosa; Pedra a pedra construindo um novo dia; Milhões de braços, uma só força; Oh pátria amada, vamos vencer. Povo unido do Rovuma ao Maputo; Colhe os frutos do combate pela paz; Cresce o sonho ondulando na bandeira; E vai lavrando na certeza do amanhã. Flores brotando do chão do teu suor; Pelos montes, pelos rios, pelo mar; Nó juramos por ti, oh Moçambique; Nenhum tirano nos irá escravizar. Como se depreende desse Hino, Moçambique é uma terra livre, resultado da luta de libertação nacional contra o colonialismo português. A memória do povo conserva a alegria do dia da independência nacional a 25 de Junho de 1975. Hipoteticamente o povo está unido do Rovuma ao Maputo colhendo os frutos do combate pela Paz, pois “nenhum tirano nos irá escravizar”. Ora, a experiência de cada dia mostra que o sonho pela liberdade está ainda minado por lutas fratricidas que nunca acabam. Luta-se pelo poder; luta-se pelas riquezas; luta-se por comida; luta-se por hegemonia política; luta-se por recursos minerais e madeira; luta-se sem fim. Como consequência, somos um povo que caminha sem rumo, inseguros e de olhos vermelhos. A assimetria socioeconómica é grande. Moçambique conhece, desde sempre, um povo com uma maioria miserável e umaminoria de elite cada vez mais rica. Aumenta com as guerras o número dos empobrecidos, dos necessitados, dos estrangeiros que vivem na sua própria terra. Aumenta o número daqueles que são forçados a deixar assuas terras, partir sem rumo certo com bagagens na cabeça procurando asilo em lugares supostamente mais acolhedores e seguros. Aqui funciona a selecção natural. Mesmo para o acesso a riqueza, a escolaridade de qualidade, para ter um apelido como antigo combatente, para ter liberdade de compra e venda de recursos naturais do país, para viver com dignidade, em tudo funciona a selecção natural. Os extremos são visíveis e não precisa usar lupa para microscopiar. Até os problemas sociais estão geograficamente divididos no país. Parece que a falta de unidade do povo consubstancia-se, igualmente, nos seus problemas, preocupações e necessidades. A metrópole e capital do país concentra amaior parte do capital financeiro. Parece que todos osfinanciamentos que chegam à nossa terra devem olhar primeiro e por último em Maputo e suas periferias na zona Sul. A zona Centro é o epicentro de ciclones, inundações, tempestades que se acrescem com o problema de Nyonguismo. A zona norte é a menina dos olhos das multinacionais, os megaprojectos e exploradores insaciáveis. Aí nasce o famoso terrorismo que deslocou milhares de pessoas de Cabo Delgado para províncias circunvizinhas. O Alshababismo é uma mancha negra que revela que a nossa segurança nacional está ameaçada e ainda não estamos em altura de nos gloriar que “nenhum tirano nos irá escravizar”. Sim! Nós somos escravos de estrangeiros e também escravos de nossos irmãos. Matamo-nos mutuamente em nome das riquezas; exploramo-nos em busca da comida. Esta música é amarga e não alegra ninguém para dançar. O mais agravante ainda, a Covid-19 veio reforçar a nossa falta de liberdade. Para além dos mortos por guerra, por malária, por sida, o nosso coração vive ameaçado pelo inimigo invisível, o Coronavírus. Até quando? “Oh pátria amada, vamos vencer”! Esta declaração de esperança coloca-nos no horizonte da batalha de quem se convence que a vitória é sua. Pela unidade nacional, do Rovuma ao Maputo, precisamos de sair da teoria para a prática. A experiência mostra que muitos trabalhadores, incluindo serventes de obras ou grandes projectos que pululam no centro e norte do país são “importados” de Maputo ou zona sul. A população local interroga-se: “os nossos filhos não têm capacidades de trabalhar com as empresas ou projectos lucrativos?”.Todos nós somos moçambicanos e merecemos tratamento e oportunidades iguais. Devemo-nos engajar na luta contra o divisionismo que gera regionalismo porque, vezes sem conta, julga-se que o desenvolvimento socioeconómico é regional. Se repararmos com atenção até os partidos políticos são regionalistas e étnicos. Como resultado, os conflitos não acabam e a opinião alheia é algo para combater. Aliás, em vários sectores de trabalho, ser da posição ou da oposição gera mau-olhar e juízos indiferentes. Tanto é que só pode chefiar um sector ou departamento aquele que é “nosso” (Risos). Quem é que não é nosso nesta Pátria Amada? Mais vale empregar um incompetente (por ser nosso) que um competente que não é nosso? Isso não deixa de revelar efeitos indesejados à medida que notamos trabalho que deixa a desejar. Pois, quando trabalhamos por confiança política e não por capacidades adequadas o resultado são os maus préstimos para o povo. Se queremos, Pedra a pedra construir um novo dia, devemos investir na profissionalização dos nossos gestores. Já se viu em várias ocasiões pessoas bocejando ou dormindo em plena sessão da Assembleia da República. Que proveito se poderá esperar de um dorminhoco que diz ser representante do povo? Quem votou um “non sui compos?” Veja-se o esforço do camponês. Todo o ano cultivando a terra, comendo o suor do seu corpo e o resultado é quase invisível. Pior ainda neste ano. Em muitas regiões
jul 16 2021
Mundo: casa comum e consumismo global
Por AB Mundo: casa comum Casa Comum é uma expressão compartilhada entre a Agenda 2030 da ONU para os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Carta Encíclica Laudato si ‘(Ls). O novo cenário do COVID19 e da crise humanitária exige ainda mais a adopção de uma agenda pública com um esforço político e social colectivo que vide a construção duma cultura de solidariedade. Em momentos como estes, as religiões têm um grande potencial de empatia e cooperação social com as agendas públicas. É por isso os objectivos da Agenda 2030 da ONU com base na noção compartilhada de Casa Comum com a Laudato si’visa: a) Desenvolver um modelo de compreensão que interaja com o potencial de cooperação e solidariedade no campo religioso com as diversas áreas do conhecimento para uma revisão das perspectivas morais e mentais, em uma chave intercultural que busca soluções cooperativas entre diferentes pessoas e instituições para problemas comuns; b) Promover uma criação cultural ecológica para os ODS interdependentes, que se concentram em linguagens que reúnem senso crítico e senso comum; c) Práticas quotidianas, que trazem a necessidade de pensar na vulnerabilidade como categoria central de uma ética e estética do cuidado. Conversão ecológica Não há duas crises separadas, ambiental e social, e as soluções passam pelo combate à pobreza, pela valorização da dignidade do ser humano e pela preservação da natureza. O apelo do Papa à “conversão ecológica” converge nalguns pontos com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), adoptados pelas Nações Unidas. Mas a transformação que o Papa pede é mais radical. Os ODS e LS, são unânimes em afirmar que não há duas crises separadas, ambiental e social, e que as soluções passam pelo combate à pobreza, pela valorização da dignidade do ser humano e pela preservação da natureza. É urgente salvarmos a casa comum e para isso é necessário unir a família humana, num desenvolvimento sustentável e integral. Produção e Consumismo Os ODS e a LS convergem na necessidade de alterar padrões de produção e consumo. O tom da LS é mais forte no que diz respeito ao desperdício e ao crescimento. Há uma convergência no que diz respeito à reforma das instituições que passa pela reabilitação do político, no sentido de um multilateralismo. Sublinha-se o papel das instituições multilaterais, lugar privilegiado da elaboração de consensos políticos mundiais necessários à acçãocolectiva. Contudo, a LS vai mais longe e o Papa diz-nos que a política não deve estar submetida ao económico nem à eficácia tecnocrata e que a economia política deve orientar-se para o bem comum.
jul 15 2021
Activistas do Projecto COVIDA acusadas de burlar cerca de 50 famílias do povoado de Nasapo
Por Kant de Voronha Activistas da Associação Ovarelelana que integram no Projecto COVIDA são acusadas de burlar cerca de 50 famílias do povoado de Nasapo, no Posto Administrativo de Anchilo. A informação foi partilhada por pais e encarregados de educação da EPC de Mulapane I, aparentemente saturados por constantes acções de descontos irregulares do subsídio de apoio escolar que visa promover a retenção das alunas na escola e desencorajar as uniões prematuras. O facto ocorreu na última sexta-feira, 09.07, quando activistas e mentoras do Projecto COVIDA se fizeram ao local para distribuir dinheiro num montante não especificado. Margarida Agostinho, cuja filha foi vítima, conta que sua filha sofreu o desconto forçado de 500,00Mt. “Minha filha recebeu 500mt e lhe tiraram 400,00mt tendo ficado com 100,00mt”. O mesmo sucedeu com várias crianças cujos encarregados mostram-se agastados porque não é pela primeira vez que isto acontece. Vários documentos de crianças, entre cédulas e cartões de recenseamento dos encarregados estão ainda na posse das activistas. No acto de distribuição dos valores, a activista Olga é acusada de ter manipulado um grupo de encarregados fantasmas que eram entregues senhas com objectivo de receberem dinheiro que mais tarde viria a ser recolhido pela mentora Olga. A autora era coadjuvada por sua irmã cujo nome não nos foi reportado. A nossa equipa de reportagem tentatou ouvir a acusada mas sem sucesso. A coordenadora do Projecto em Anchilo, Emília, diz desconhecer os contornos das cobranças ilícitas perpetradas por sua colega, embora tenha desconfiado o movimento estranho de pessoas não inscritas para o projecto. “Eu não sei dessas cobranças e a colega Olga não me reportou. Mas eu ja tinha exortados todo grupo para não se deixar aliciar com esquemas indevidos”. O chefe do Posto Administrativo de Anchilo, Herminio Munttharani, lamenta o infortúnio e explicou a população que a taxa normal a ser dada a cada criança é de 1000,00Mt. Para as crianças mais desfavorecidas deveriam receber 1750,00MT. O montante serve para a compra de uniforme e material escolar conexo. Munttharani exortou a população a manter-se vigilante face a oportunistas que gostam de extorquir o povo. Igualmente apelou a que as pessoas possam coordenar com as lideranças locais denunciando os males que acontecem na sociedade.
jul 15 2021
Morte de principais actores políticos: uma marcha de regresso ao passado?
Dr Deolindo Paúa O prematuro desaparecimento físico de DavizSimango, edil da cidade da Beira e fundador do MDM, estimula-nos uma reflexão sobre a democracia. Moçambique é um país em construção. A sua democracia está ainda em passos por aperfeiçoar. A democracia deve ser permitida e aceite por quem governa, para permitir que os governados participem com ideias e acções no desenvolvimento do país por meio dos mais adequados caminhos; mas também a democracia deve ser praticada pelos cidadãos no sentido de tentarem ocupar oseu lugar no panorama político. Esta prática dos cidadãos deve ser falando, reclamando, fazendo propostas, exigindo seus direitos, criticando o que não está correcto, denunciando ilegalidades, etc. Como funciona a democracia? Estamos a dizer que a Democracia funciona com liberdades, igualdade e justiça social. Liberdade no sentido de que todos os moçambicanos precisam ter e assumir a propriedade sobre o seu pensamento e sobre a sua palavra. Ninguém pode proibir ninguém de falar ou de opinar; igualdade no sentido de que no nosso país, as divergências de religião, de tribo, de cor de pele, de posses económicas, de estatuto social ou político não podem servir como base para a diferenciação nos direitos. Todos os moçambicanos, como seres humanos, são iguais e possuem os mesmos direitos e deveres; finalmente justiça social no sentido de que as oportunidades de sobrevivência devem ser disponibilizadas para todos de igual para igual. Esses pressupostos da democracia facilitam a participação. Embora depois da independência a Frelimo e Samora Machel dissessem que o país era democrático, que vigorava a democracia popular, faltavam ainda pressupostos por serem preenchidos. Um desses pressupostos era a participação. Nenhum cidadão comum se podia atrever a contradizer as ordens do governo central. A opinião vigente, a mais correcta era a tomada pelas autoridades, mesmo sob o risco de se enganarem. A participação popular não era racional, mas manipulada. Além da participação popular, existe aquela participação que é feita por outras organizações discordantes com as políticas de quem dirige. Falamos da participação da sociedade civil e dos partidos políticos. Estas também não havia, pelo menos em termos de espaço de acção. Havia um único partido, uma única sociedade civil, uma única voz certa e verdadeira com quem todos estavam obrigados “democraticamente” a concordar. Sem participação não podemos dizer que nessa altura em Moçambique havia democracia, até que anos depois, em 1990, depois de um longo período de pressão militar, começou a haver abertura para as liberdades de participação e de opinião popular. Em termos políticos, dois anos depois começamos a ter alternativas políticas, opções de escolha para a governação. A participação política, portanto, começa a se alargar. Mas mesmo assim, durante anos, notamos que essa participação política estava limitada a dois partidos, a Frelimo e a Renamo, e as principais figuras do teatro democrático foram por longos anos os candidatos da Frelimo e o líder da Renamo, o falecido presidente Afonso Dhlakama. Como é óbvio, era uma democracia incompleta. Aliás, a Assembleia da República foi dominada pelos dois partidos, que levou a debates deficientes e até muitas vezes marginais. A participação política de Daviz Simango Uma democracia, no sentido de participação deve alargar a sua arena a vários actores, por isso o aparecimento, mais tarde do partido Movimento Democrático de Moçambique (MDM) como terceira força política nacional e o 3º partido na Assembleia da República, bem como do seu líder DavizMbepoSimango, trouxe alguma esperança para o alargamento da participação política, a melhoria dos debates na Assembleia da República que passariam a ser tripartidos. Com esse facto, o MDM e DavizSimango fizeram história e mudaram o rumo das coisas e aqualidade do debate nacional. Não se pode negar que com Simango e o MDM anossa participação como povo no debate público cresceu. Ainda que três partidos sejam insuficientes, criou-se, pelo menos, uma esperança de que oscaminhos estão sendo abertos para a entrada na arena de vários outros partidos. Uma democracia é sólida e verdadeira quando aceita diversas sensibilidades nos principais órgãos do Estado. O erro que cometemos como moçambicanos neste tempo todo de aperfeiçoamento da nossa democracia pode ter sido o de assentar a democracia em pessoas, sustentar a popularidade e legitimidade dos partidos políticos nos seus líderes. Por isso, há sinais de que a Renamo só foi gloriosa enquanto viveu oseu líder. Morte de Daviz abala a política do país Tal como no passado ano de 2018 o país perdeu uma das peças importantes da democracia, o líder da Renamo Afonso Dhlakama, há dias, três anos depois, o país perdeu mais um líder influente e incontentável na história da construção da nossa democracia, DavizSimango. Um abalo para a política moçambicana! Dhlakama foi o responsável pela desconstrução do monopartidarismo e lutou de todas as formas para implantar a liberdade e a justiça social no nosso país. Igualmente Simango foi o responsável pela desconstrução do bipartidarismo e embora enfrentando as deficiências da liberdade política que afecta o país, conseguiu solidificar a ideia de que é possível fazer representar todas as sensibilidades nacionais nos principais órgãos e acima de tudo, introduzir uma nova abordagem e dinâmica na governação de territórios municipais. Por isso surgiu a esperança de que algum dia se quebre também o tripartidarismo e assim em diante, num processo imparável de aperfeiçoamento da nossa Democracia. Não se pode falar de democracia moçambicana sem falar de Dhlakama e de Simango. É por isso que aincerteza da continuidade da luta pela democracia pode nascer. Morreu Dhlakama e a Renamo perdeu asua pujança. O nosso receio pode ser o de que agora que morre Simango, o MDM também perca asua pujança e a nossa democracia volte vários passos atrás. As células do partido na função pública O monopartidarismo, embora tenha sido eliminado formalmente, continua implantado e solidificado informalmente. Penso que os funcionários públicos sabem das células do Partido Frelimo nas instituições públicas, penso que toda a sociedade tem a consciência da existência de um critério de acesso a fontes de sobrevivência pela exibição do cartão de membro do partido. Penso
jul 15 2021
O ninguém da nossa sociedade
Por AB Papa Francisco nos pede para reflectir sobre a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) como o ícone da fraternidade universal onde cada um preocupa-se não tanto com a sua imagem mas com o papel que deve desenvolver para que não existam mais nenhum “ninguém” na nossa sociedade. «Retomemos agora a parábola do bom samaritano que ainda tem muito a propor-nos. Havia um homem ferido no caminho. As personagens que passavam ao lado dele não se concentravam na chamada íntima a fazer-se próximos, mas na sua função, na posição social que ocupavam, numa profissão prestigiosa na sociedade. Sentiam-se importantes para a sociedade de então, e o que mais as preocupava era o papel que devia desempenhar. O homem ferido e abandonado no caminho era um incómodo para este projecto. Era um «ninguém», não pertencia a um grupo considerado notável, não tinha papel algum na construção da história. Entretanto o generoso samaritano opunha-se a estas classificações fechadas, embora ele mesmo estivesse fora de qualquer uma destas categorias, sendo simplesmente um estranho sem um lugar próprio na sociedade. Assim, livre de todas as etiquetas e estruturas, foi capaz de interromper a sua viagem, mudar os seus programas, estar disponível para se abrir à surpresa do homem ferido que precisava dele (101). Que reacção poderia provocar hoje essa narração, num mundo onde constantemente aparecem e crescem grupos sociais, que se agarram a uma identidade que os separa dos outros? (102). Liberdade, igualdade e fraternidade A fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que surja como resultado necessário a fraternidade. Esta tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. Que sucede quando não há a fraternidade conscientemente cultivada, quando não há uma vontade política de fraternidade, traduzida numa educação para a fraternidade, o diálogo, a descoberta da reciprocidade e enriquecimento mútuo como valores? Sucede que a liberdade se atenua, predominando assim uma condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou a alguma coisa, ou apenas para possuir e desfrutar. Isso não esgota de maneira alguma a riqueza da liberdade, que se orienta sobretudo para o amor (103). Tampouco se alcança a igualdade definindo, abstractamente, que «todos os seres humanos são iguais», mas resulta do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade (104). O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade (105). Amor universal que promove as pessoas Para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Se cada um vale assim tanto, temos de dizer clara e firmemente que «o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente». Trata-se de um princípio elementar da vida social que é, habitualmente e de várias maneiras, ignorado por quantos sentem que não convém à sua visão do mundo ou não serve os seus objectivos (106). Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade (107). Atenção à pessoa Alguns nascem em famílias com boas condições económicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão dum Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para tais pessoas, e a fraternidade não passará duma palavra romântica (109). Liberdade económica A verdade é que «a simples proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reais impedem que muitos possam efectivamente ter acesso a ela (…), torna-se um discurso contraditório». Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade esvaziam-se de sentido. Na realidade, «enquanto o nosso sistema económico-social ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada, não poderá haver a festa da fraternidade universal». Uma sociedade humana e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir, de modo eficiente e estável, que todos sejam acompanhados no percurso da sua vida, não apenas para assegurar as suas necessidades básicas, mas para que possam dar o melhor de si mesmos, ainda que o seu rendimento não seja o melhor, mesmo que sejam lentos, embora a sua eficiência não seja relevante (110). … Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflito e violência» (111).
jul 15 2021
Febre Tifóide
Por Júlia Tarrua Febre Tifóide Febre tifóide é uma doença sistémica, é uma condição médica relativamente grave, que é causada pela bactéria Salmonela entérica typhi. A febre tifóide também pode ser chamada somente de “tifo”. A febre tifóide é transmitida por meio da ingestão de água ou de alimentos que estejam contaminados com a bactéria. Os indivíduos também podem contrair a febre tifóide por meio do contacto com as fezes e a urina de pessoas que estejam contaminadas com a Salmonela entérica typhi. É por conta dessas características que a febre tifóide está relacionada, muitas vezes, às más condições de higiene. Uma vez que a bactéria causadora da febre tifóide cai na corrente sanguínea de um indivíduo, ela precisa ser combatida de imediato. Caso isso não aconteça, a pessoa pode acabar desenvolvendo complicações sérias em órgãos como o fígado, o baço e a vesícula. Sintomas Febre alta Dores de cabeça: mal-estar geral Falta de apetite Aumento do volume do baço Manchas rosadas no tronco Prisão do ventre ou diarreias Tosse seca Causas A febre tifóide pode ser transmitida pela ingestão de água ou de alimentos contaminados com fezes humanas ou com urina. Algumas vezes pode ser transmitida pelo contacto directo (mão-boca) com fezes, urina, secreções respiratórias, vómitos ou pus de indivíduo infectado. A vítima elimina a bactéria nas fezes e na urina independentemente de apresentar os sintomas da doença. Prevenção Destacar os hábitos de higiene pessoais, principalmente a lavagem correcta das mãos; Observar cuidados na preparação, manipulação, armazenamento e distribuição de alimentos; Cuidados com relação ao lixo; Em locais onde a água for considerada suspeita, orientar a população para ferver ou colorar a água. Tratamento A febre tifóide é tratada por meio de medicamentos antibióticos, sendo que o paciente precisa deser observado e ter asua hidratação reforçada, já que perde muito líquido nas diarreias características da doença. Existe vacina contra a febre tifóide, que pode ser tomada por indivíduos que viajam para locais onde a doença é endémica. Além disso, manter bons hábitos de higiene, como lavar constantemente as mãos, são formas de evitar a contracção da febre tifóide.
jul 15 2021
A frágil Unidade Nacional
Por Tomas Selemane Travões do desenvolvimento: A frágil Unidade Nacional Até aqui vimos que a intolerância política e a ausência de reconciliação nacional são os grandes entraves ao desenvolvimento de Moçambique. Mas não podemos esquecer que a fragilidade da unidade nacional também é outro grande entrave ao desenvolvimento. A unidade nacional foi a condição necessária e indispensável para os três movimentos que antes de 1962 lutavam pela independência nacional – UDENAMO (União Democrática Nacional de Moçambique), MANO (Mozambique NationalAfricanUnion – União Nacional Africana de Moçambique) e UNAMI (União Nacional Africana de Moçambique Independente) – se juntarem num único movimento: a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) a 25 de Junho de 1962. Por outras palavras, sem o consenso da necessidade de unidade nacional não teria surgido a junção de esforços que vinham sendo feitos por diferentes grupos para que, de uma forma coordenada, surgisse uma força única de luta pela independência de Moçambique. Percurso desafiante Não ignoro as guerras internas havidas na Frelimo pré e pós-independência nacional em que algumas figuras importantes foram mortas pelo simples facto de terem tido opiniões diferentes daquelas que a direcção da Frelimo achava serem mais acertadas. Também não ignoro a conotação étnico-tribal e regionalista que esses assassinatos tiveram. O que pretendo destacar é o facto de que foi graças à unidade nacional que se conseguiu o primeiro e mais importante ganho político do nosso país: a independência nacional. Depois de 25 de Junho de 1975, a Frelimo já como Governo teve um entendimento difuso de como construir a unidade nacional. Por um lado, colocou Governadores Provinciais naturais de cada uma das dez províncias do país. Por outro lado, procurou-se unir a população moçambicana de diferentes origens étnicas e tribais, colocando os trabalhadores das instituições públicas e privadas, cada um fora da sua terra de origem. O resultado foi a actual situação que temos em que encontramos pessoas originárias de uma província que vivem noutra há mais de trinta anos. Foi também por essa via que passamos a ter famílias moçambicanas com mestiçagem étnica: esposa duma tribo e marido doutra tribo, e vice-versa. Não temos conflitos étnicos, porém… Em suma, o povo moçambicano encarnou dentro de si a unidade nacional. Isto não significa que tentativas de divisionismo étnico-tribal e histórias de diabolização de umas tribos por outras tenham desaparecido do contexto moçambicano. Nunca desapareceram da mesma forma que ainda hoje em 2021 existem. O facto relevante é que não há território moçambicano (província, distrito, vila ou localidade) que seja habitado apenas por gente originária de lá. A estratégia da unidade nacional por via da mistura étnico-tribal funcionou relativamente bem no nosso país. É por essa razão que Moçambique é hoje um dos países do mundo com uma grande diversidade étnica mas sem conflitos étnicos visíveis. Entretanto, ao longo do percurso de Moçambique, a Frelimo foi sendo titubeante e inconsistente na construção da unidade nacional por via da nomeação de dirigentes: num mandato nomeando os naturais para cada uma das províncias, noutro mandato procedendo ao contrário. Em resultado, enquanto por um lado, a unidade nacional de nível sociocultural tem funcionado relativamente bem, a unidade nacional de cariz político, de construção da nação, de perspectivar o futuro conjunto, de edificação da “Casa Comum” nos dizeres do Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si, apresenta fragilidades que devem ser resolvidas. As fragilidades de hoje A mais importante consequência dessa fragilidade tem sido a impossibilidade de termos, como nação e povo, alguns consensos mínimos que sirvam de factor mobilizador para as causas do desenvolvimento. É por essa razão que depois de 1975, o país nunca mais conseguiu mobilizar-se para uma causa comum. Por vários motivos e sob vários sinais. Por limitação de espaço, vou cingir-me a apenas três desses sinais. Primeiro, a guerra de 16 anos surgida apenas dois anos após a proclamação da independência nacional, em 1977, foi um sinal claro da fragilidade da unidade nacional que outrora tinha juntado aquelas diferentes sensibilidades de que falei no começo deste texto. Segundo, ao longo da história deste nosso país, temos assistido à formação de “associações de naturais e amigos de X, Y ou Z” o que me parece bem enquanto essa associação procure preservar a sua identidade cultural, usos e costumes, culinária ou outras práticas. A constituição dessas associações começa a ser problemática quando os seus mentores e membros começam a ver nessas associações um palco e um instrumento de reivindicação política, ou mesmo de reivindicação de representatividade no Governo, nos municípios, nas empresas e até nas nossas paróquias. Conheço paróquias onde é obrigatório que o repertório de cada missa tenha igual número de cânticos de cada língua ali falada! O problema é que ao invés de essa diversidade traduzir-se numa harmonia e riqueza cultural, ela acaba descambando numa luta de auto-afirmação desnecessária. Terceiro, na vida social, política e económica do nosso país, a distribuição de cargos no Governo, nos partidos políticos e nas empresas públicas tem sido feito com o falso cuidado de “não deixar nenhuma etnia de fora.” Digo falso cuidado, porque na realidade é impossível que todas as tribos deste vasto Moçambique caibam num Governo, num Conselho de Administração duma empresa ou noutro organismo dirigente. Ademais, não temos nenhuma evidência de que a nomeação de uma pessoa do norte, do centro ou do sul do país beneficia a essa sua região de origem em termos económicos, políticos, culturais ou sociais. Precisamos de agendas nacionais Neste contexto, o nosso país precisa de agendas nacionais, causas comuns de unificação do país tal como foi na altura da independência nacional. Essas agendas e causas comuns têm de superar as fronteiras partidárias, étnico-tribais e regionais. Precisamos da construção de uma moçambicanidade baseada na unidade nacional, na nossa diversidade. Sem isso, conflitos como o de Cabo Delgado, ou o de Manica e Sofala vão alimentando ideias de divisionismo, de que nos poderemos arrepender, mais tarde ou mais cedo.
