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ago 18 2021

Os maiores travões do desenvolvimento de Moçambique

A partidarização do Estado  Por partidarização do Estado entendo a subordinação dos desígnios de interesse público (do Estado) às normas e interesses de um determinado partido político, geralmente o partido que gere o Estado (que governa). Essa partidarização acontece em dois principais níveis do Estado: primeiro, o nível central que inclui os ministérios e órgãos de soberania, nomeadamente o Presidente da República (PR), a Assembleia da República (AR), o Governo, os Tribunais e o Conselho Constitucional – conforme define o art 137 da nossa Constituição da República. O segundo nível é o local ou autárquico (os municípios). Este texto é o quinto da série “Os maiores travões do desenvolvimento de Moçambique” que venho abordando nesta rubrica. Depois de ter me debruçado sobre a (i) intolerância política, (ii) a ausência da reconciliação nacional, (iii) a frágil unidade nacional e (iv) a fragmentação da governação, desta vez proponho-me a analisar outro grande impedimento do nosso bem-estar colectivo: a partidarização do Estado – nos termos em que defini acima. O meu argumento é este: a priorização dos interesses partidários (de um grupo de pessoas – partido quer dizer isso mesmo), no nosso país, em detrimento dos interessesde toda a colectividade moçambicana (o Estado) impede a concretização dos anseios de combate à pobreza, da criação do emprego, da erradicação da fome, da melhoria dos serviços de saúde e educação e dos demais males que nos afligem. Todas as iniciativas de promoção do desenvolvimento do nosso país não têm produzido os resultados desejáveis porque a sua implementação acontece dentro dum contexto de partidarização do Estado, de exclusão política e social, de separação dos moçambicanos entre “nós do nosso partido” e “aqueles outros”. A meu ver, a partidarização do Estado trava o nosso desenvolvimento de duas formas: por um lado, ela impede que iniciativas de governação que se pretendem de melhoria do bem-estar da população no geral acabem não somente sendo implementadas como iniciativas do partido que governa, mas sobretudo geridas como se fossem iniciativas privadas desse partido, beneficiando em primeiro, segundo, terceiro, quarto lugares, ou mais, apenas às pessoas do partido que governa, e só depois, muito depois, se procura chegar aos demais. Mas esse depois acaba sendo tão tardio que se transforma num nunca, resultando mesmo no adiamento do bem-estar dos tais demais. Por outro lado, da mesma forma que os partidos que governam o Estado ou os diferentes municípios – Frelimo, Renamo e MDM, buscam para si todos os benefícios da sua acção governativa, e porque a governação está sempre sujeita a falhas e fracassos, torna-se muito difícil, em alguns casos mesmo impossível, haver uma mobilização colectiva para a paciência, a tolerância e a compreensão das falhas e fracassos dessa governação. A partidarização do Estado é fundamentalmente, na teoria e na prática, contra o funcionamento normal duma sociedade de democracia multipartidária como a moçambicana. Vejamos alguns dos exemplos mais significativos. No nosso país, a partidarização do Estado começa ao mais alto nível de soberania: o Presidente da República. Não me refiro às pessoas nem anteriores nem actual que ocupam o cargo, refiro-me à instituição constitucional “Presidente da República”, nos termos do artigo 145 da nossa Constituição da República, que define o órgão Presidente da República como sendo “Chefe do Estado, símbolo da unidade nacional, representante da nação dentro e fora do país, e quem zela pelo funcionamento correcto dos órgãos do Estado.” Depois dessas competências, a nossa Constituição da República (art. 148) define as incompatibilidades entre o exercício do cargo de Presidente da República com o exercício de quaisquer outros cargos públicos ou privados, não previstos na Constituição. Acontece, porém, que historicamente os Presidentes da República de Moçambique têm sido propostos e eleitos por via dum partido político – a Frelimo, e têm sido ao mesmo tempo presidentes da Frelimo. Ora, ser presidente dum partido político é uma função privada, porque os partidos políticos – mesmo não parecendo – são organizações de direito privado. Ou seja, uma vez eleita presidente, a pessoa que seja simultaneamente presidente dum partido político deveria renunciar a essa função partidária. Eu sei que este é um cenário que muitos leitores olham com incredulidade, simplesmente porque nunca viram neste país um Presidente da República que não fosse ao mesmo tempo presidente do partido Frelimo. Pior ainda, com a excepção das primeiras eleições presidenciais realizadas em 1994, o país nunca viu candidatos presidenciais que não fossem propostos pelos partidos políticos. Ora, o problema não é o facto de os candidatos presidenciais serem provenientes dum partido político. Mas sim o facto de que, uma vez eleito presidente, o candidato vive em contínua violação constitucional ao se manter presidente do seu partido, acabando dessa forma por ser o primeiro e maior expoente da partidarização do Estado, contra o estabelecido na Constituição da República, conforme demonstrei acima. Para mim, é mais preocupante ainda notar que nenhum partido político no nosso país pretende acabar com essa partidarização do cargo de Presidente da República. Em linha com a Frelimo, o que a Renamo e o MDM têm proposto aos moçambicanos é a eleição dos seus respectivos presidentes partidários para exercerem o cargo de Presidente da República (PR), sem nenhuma promessa muito menos garantia de que uma vez eleito PR o presidente da Renamo ou do MDM deixará de dirigir o seu partido. Ou seja, a Renamo e o MDM pretendem perpetuar o mesmo erro da Frelimo. Outro exemplo de partidarização do Estado consiste na forma de preenchimento dos demais cargos do Estado (a nível central ou municipal). Geralmente, têm sido nomeadas para cargos de direcção somente pessoas que militam no partido que governa o Estado, por exemplo, a nível central, somente membros do partido Frelimo são considerados capazes de serem ministros ou vice-ministros. No município de Maputo, apenas militantes da Frelimo são chamados a ocupar os cargos de vereadores e directores. Na Beira, somente membros do MDM são vistos como tendo capacidade para serem vereadores e directores do município. Em Nampula, Nacala, Quelimane e noutros municípios onde a Renamo governa, somente os seus membros

ago 18 2021

DECLARAÇÃO DOS BISPOS CATÓLICOS DE MOÇAMBIQUE

 Reunidos na nossa primeira Sessão Plenária deste ano, 2021, nós os Bispos Católicos de Moçambique, com o coração cheio de tristeza, como todo o cidadão moçambicano que se identifica com o bem do pais, deploramos a trágica situação que vive a população de Cabo Delgado; lamentamos a prevalecente insegurança nas populações do centro do país e estamos inconformados com a insegurança alimentar e a fome que afetam a outras populações, assim como a violência que de varias formas se alastra no país, e tudo isso num contexto de Pandemia do Covid-19. Deploramos e condenamos todos os actos de barbárie cometidos. Em Cabo Delgado pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas. Elas veem seus bens pilhados, a intimidade dos seus lares violada, suas casas destruídas e cadáveres de seus familiares profanados. São obrigadas a abandonarem a terra que os viu nascer e onde estão sepultados os seus antepassados. Estes nossos concidadãos, a maioria mulheres e crianças, são empurrados para o precipício da insegurança e do medo. Deploramos a prevalência deste estado de coisas, sem indicações claras de que a breve trecho haverá superação das causas que alimentam este conflito. Este estado de coisas faz crescer e consolidar a percepção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos. Recursos que, em lugar de serem postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento, com a construção de infraestruturas, serviços básicos, oportunidade de trabalho, são subtraídos, na total falta de transparência, alimentando a revolta e o rancor, particularmente no coração dos jovens, e tornando-se fonte de descontentamento, de divisão e de luto. Reconhecemos que um dos motivos fortes que move os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de insurgência, desde a criminalidade ao terrorismo, ou também aquela outra insurgência, não menos nociva, do extremismo político ou religioso, assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável por parte dos nossos jovens.  Para a maioria deles não há oportunidades de se construir uma vida digna. Sentem que a sociedade e quem toma as decisões ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz. É fácil aliciar pessoas, cheias de vida e de sonhos, mas sem perspetivas e que se sentem injustiçadas e vítimas de uma cultura de corrupção, a aderirem a propostas de uma nova ordem social imposta com a violência ou a seguir ilusões de fácil enriquecimento que conduzem à ruína. Como podem ter os jovens perspetivas se o próprio país parece não ter rumo, um projeto comum, no qual são convidados a serem colaboradores ativos e que alimente a sua esperança?  É nossa posição de que nada justifica a violência. Nem a situação difícil, de falta de uma perspetiva coletiva, partilhada como uma nação, nem ressentimentos, nem intolerância ou interesses de parte, de natureza religiosa, politica ou económica, devem desviar-nos, como um povo para o caminho de qualquer tipo de insurgência. Mais uma vez, manifestamos a nossa total solidariedade com os mais fracos e com os jovens que anseiam uma vida digna.  As religiões têm uma grande contribuição a dar na  resiliência das comunidades e perseguir um ideal de sociedade unida e solidária, limitar a sua acção não favorece a procura de soluções. Como missão da Igreja Católica tem sido sempre nosso compromisso colaborar para o bem da nação, apontando os perigos e esperando sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções. Sempre demos nossa colaboração concreta no campo do bem-estar do nosso povo na educação, na saúde e no desenvolvimento humano. Em tudo desejando colaborar na reconstrução do tecido social ferido por traumas antigos e recentes. Continuaremos a redobrar os esforços para ajudar os desamparados e acolher os deslocados, proporcionando-lhes escuta e consolação, além de meios de sustentação partilhados pelos crentes. Gostaríamos de poder oferecer, às nossas crianças e jovens, percursos educativos que os abra aos valores da tolerância, do respeito e da amizade e possam ver o sonho de um futuro melhor realizado.  Reiteramos a nossa disponibilidade de colaborar com as forças vivas do nosso país para uma ordem social onde o egoísmo deixe o espaço à solidariedade, e juntos com as autoridades, se elabore um projeto de país que contemple todo o cidadão, privilegiando os mais marginalizados e desfavorecidos. Exortamos as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, a comunidade internacional para unirem esforços e, pondo de lado os interesses de parte, se socorram as populações deslocadas, as que vivem em grave insuficiência alimentar, expostas às doenças endémicas e sem acesso aos serviços básicos. Igualmente é urgente criar mais oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para todos, particularmente para os jovens e,  para tal, se apliquem in loco os ganhos dos recursos naturais disponíveis. Por fim, apelamos para que todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado. Apesar dos momentos difíceis que estamos a viver, ninguém perca a esperança. Como refere a Encíclica do Papa Francisco “Todos Irmãos” (Fratelli Tutti), a “esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”.   Maputo, 16 de Abril de 2021  Bispos da CEM Lúcio Andrice MUANDULA  Presidente

ago 18 2021

Falhas do nosso Estado ou Estado falhado?

Viver juntos, de forma organizada é o que nos caracteriza como humanos. Os homens são os únicos seres vivos capazes de não apenas viver com os outros, mas também juntos, seguindo uma ordem por si estabelecida. Criar uma hierarquia para manter a nossa harmonia e nossa segurança é a mais básica das nossas necessidades como humanos. Diz-se que só a vida colectiva dos homens é que pressupõe uma ordem consciente e um plano eficaz de autoprotecção. Os outros animais vivem uns com os outros pelo instinto natural, só porque são da mesma espécie e não porque alguma recomendação lhes obrigue a tal. A crise das relações humanas Mas infelizmente, nós pessoas, nos últimos anos, o nosso “viver juntos” e nossa pretensão de viver seguros nesse viver juntos estão em constantes crises. Parece estar a ser insustentável. Os homens perdem a cada dia a sua sensibilidade sobre a importância de viver juntos como pressuposto de complemento mútuo. Esquecem a cada momento que sem os outros a vida individual é insustentável. Ao invés de viver juntos, hoje, uns vivem à custa dos outros. É isto que observamos nas sociedades de todo o mundo: uns a sobreviver à custa do sacrifício dos outros. Com efeito, por exemplo, empresários enriquecem por desgraçar os pobres por causa das suas políticas comerciais; mulheres são usadas como objecto de prazer dos homens; crianças são mercadoria para riqueza fácil dos preguiçosos; quem devia proteger a integridade da maioria, os políticos, se esforçam para melhorar a cada dia suas estratégias para viver dos seus súbditos. Já não se vive mais juntos, mas vive-se dos outros. Não existe mais a preocupação da sobrevivência humana como género, existe sim uma preocupação de sobrevivência individual. Para isto todos lutam, mesmo que seja por via do prejuízo da vida dos outros e para colocar em causa todos os valores da sociabilidade. Causas da fundação do Estado Noutros contextos, dizia-se que estes comportamentos que perigavam a sobrevivência uns dos outros, eram a causa da fundação do Estado. O Estado, com toda a sua autoridade, era a alternativa para conformar todas as vontades e todos os comportamentos ao respeito da dignidade dos outros. Onde houvesse Estado, devia haver também segurança, justiça e liberdade das pessoas. Estes pressupostos preenchiam os direitos humanos, os quais qualquer Estado tinha o direito de proteger na pessoa dos cidadãos. É por isso que o artigo 11 da nossa Constituição estabelece seus objectivos fundamentais assentes em vários pressupostos, alguns dos quais são a garantia da segurança, a justiça social e a liberdade dos cidadãos, justificados pela obrigação do Estado em garantir e defender os direitos humanos. Objectivos fundamentais do Estado Há algum tempo, alguns analistas moçambicanos constatam que estes três pressupostos (segurança, justiça e liberdade), plasmados como objectivos fundamentais na nossa Constituição não estão a ser preenchidos no nosso Moçambique. Chegam, por isso, a dizer que o nosso Estado é falhado. É difícil e discutível dizer que realmente o nosso Estado moçambicano é ou não é falhado. Mas uma coisa é certa: não temos, nem nos esforçamos em solidificar as verdadeiras bases do que nos uniu para vivermos juntos como membros do mesmo país, como moçambicanos. A nossa segurança, a nossa justiça e a nossa liberdade são cada vez mais colocados em risco, até por vezes de forma propositada, ora por outras pessoas, ora pelas próprias autoridades que se despem das suas responsabilidades. Insegurança generalizada Em termos de segurança, a cada dia os cidadãos sentem-se mais desprotegidos como se não houvesse uma autoridade com missão de proteger e garantir a segurança de todos. Em Moçambique a insegurança está instalada. Não há lugar, nem cidade, nem campo, onde o cidadão se sinta seguro e tenha a sua vida a fluir de forma tranquila, sem a ameaça da sua integridade física ou económica. No campo, instalam-se guerras. Por meio destas guerras mata-se e viola-se os mais básicos direitos humanos da forma mais vil. Nas cidades, instalam-se raptos e assassinatos; na periferia das cidades instala-se o crime organizado. De dia ou de noite, nas cidades, grupos de criminosos desfilam sua classe, matando, ferindo, violando e expropriando bens de forma tranquila, sem o mínimo de medo de repressão de alguma autoridade, porque a autoridade está quase sempre ausente. Em termos de justiça, nunca tinha-se assistido em alguma sociedade tamanha desigualdade social, económica e política como na nossa sociedade moçambicana. Enquanto os políticos esbanjam recursos públicos comprando para si bens que não precisam, fazendo viagens desnecessárias, o povo, nas cidades e no campo morre de pobreza, de desnutrição, de fome. Desigualdade social Num país como nosso, onde líderes vivem uma vida de reis, não faz sentido que haja comunidades que se alimentam de capim, a menos que a sociedade tenha sido abolida e estejamos vivendo numa selva. Pior que a desigualdade e a corrupção que, apesar de insistir em desgraçar os pobres e enriquecer pelo roubo os mais ricos, torna-se norma de vida. A distribuição da riqueza que devia ser igual para todos obedece, agora, a critérios partidários e regionais. Só membros de um grupo partidário dominante ou só indivíduos provenientes de um certo extremo do país conseguem alcançar seus objectivos económicos com facilidade. Não é ao acaso que vemos que onde domina a Renamo, só os seus membros ascendem a cargos de chefia, onde reina a Frelimo, os empregos são distribuídos pela regra de exibição do cartão, assim sucessivamente. Outrossim, a venda do emprego e o privilégio das pessoas mais chegadas tornou-se norma no acesso a meios de sobrevivência, por isso, empregos com os melhores salários são reservados aos filhos dos chefes. Em relação a liberdade, nunca o nosso país teve uma Constituição e um conjunto de leis favoráveis à liberdade dos cidadãos. Mas ao mesmo tempo, nunca estivemos sem liberdade como agora. A incapacidade dos líderes em garantir a segurança e a igualdade exige um mecanismo de defesa. Esse mecanismo de defesa tem sido a ameaça à liberdade para que os cidadãos estejam desgostosos mas não perguntem, sofram e não reclamem, estejam inseguros

ago 18 2021

O Veneno da independência

É sonho de todos que se sentem pessoas viverem livres, independentes, autónomos, etc. Aspiram igualmente viver em segurança e em pleno gozo da paz e de todos os direitos humanos. Mas quanto custa viver independente? O que exige? O que implica? Era suposto que com a independência Moçambique fosse dos moçambicanos. Ou seja, os moçambicanos gozassem em plenitude o fruto da sua conquista. Que o bem comum não continuasse privado por um punhado de pessoas; que as riquezas do país fossem partilhadas pelos cidadãos; que a lei fosse aplicada a todos indistintamente; que o gozo dos direitos fosso equitativo; que a educação fosse de qualidade para todos cidadãos; que o emprego fosse acessível não somente para alguns afilhados que têm padrinhos poderosos, mas também para os filhos dos enteados desta pátria amada. Afinal lutamos para continuar oprimidos? Lutamos para continuar analfabetos e no medo? Lutamos para continuar escravos da minoria? Lutamos para continuar refém das decisões egoístas? Lutamos para viver alimentando-nos de balas como carne para canhão? Lutamos para sermos expropriados das nossas terras? Lutamos para que? Qual era o nosso sonho? Certo dia, Daudo Rafael escreveu: “estamos há 46 anos de independência, mas até agora não deixamos de ser dependentes do ocidente. O governante moçambicano é simples embaixador dos ocidentais porque? Porque deixa de potenciar os hospitais de Moçambique só para quando ficar doente ser levado na diáspora? Porque despreza o seu próprio povo e vai-se entender por duas horas de tempo com o próprio homem que lhe colonizou? Porque vive dependente enquanto tem tudo para viver independente na sua terra? Porque deixa de exigir o estrangeiro instalar sua fábrica aqui no país prefere levar a matéria-prima para fora e depois importar? Porque considera o ocidente como fim de todo o problema que ele tem? Será que temos governantes Maquiavélicos neste país?” A nossa idade de independência devia-nos orgulhar. Mas estamos longe disso. Parece que usamos caminhos errados para a libertação do país. Investimos na luta para expulsar os colonos. Mas essa táctica ainda prevalece. Moçambique nunca mais deixou de sentir os efeitos da guerra, mesmo em formas parceladas. A instabilidade, a destruição e as mortes por guerra acompanham ininterruptamente a vida dos cidadãos moçambicanos. Por causa desse fenómeno de guerra interminável, a insegurança reina. Os cidadãos vivem até duvidando da sua própria sombra, como se não houvesse uma autoridade com missão de proteger e garantir a segurança de todos. “Em Moçambique a insegurança está instalada. Não há lugar, nem cidade, nem campo, onde o cidadão se sinta seguro e tenha a sua vida a fluir de forma tranquila, sem a ameaça da sua integridade física ou económica. No campo, instalam-se guerras. Por meio destas guerras mata-se e viola-se os mais básicos direitos humanos da forma mais vil. Nas cidades, instalam-se raptos e assassinatos; na periferia das cidades instala-se o crime organizado. De dia ou de noite, nas cidades, grupos de criminosos desfilam sua classe, matando, ferindo, violando e expropriando bens de forma tranquila, sem o mínimo de medo de repressão de alguma autoridade, porque a autoridade está quase sempre ausente” escreve Dr Paúa. Esse veneno chamado independência ainda não nos libertou. Mudou o governo, mudou a constituição, mas as acções continuam a colonizar-nos. E o pior colono é aquele que se disfarça como irmão com pele de ovelha e coração de Leão. É um colono que é legitimado pelo voto popular e por um esquema de representação que não representa a ninguém na assembleia da República. Trabalhamos para o inglês ver. Como consequências desse comportamento, multiplicam-se as estruturas, os esquemas, as modalidades e as acções de corrupção em rede. É uma praga que não vai acabar por se transmitir de geração em geração. Esta onda de “caça só para a própria gaiola” origina desigualdade e desequilíbrio social. Daí que uns vivem na abundância eterna e outros na miséria perpétua. Ou seja “enquanto os políticos esbanjam recursos públicos comprando para si bens que não precisam, fazendo viagens desnecessárias, vivem uma vida de reis, o povo, nas cidades e no campo, morre de pobreza, de desnutrição, de fome, se alimenta de capim, a menos que a sociedade tenha sido abolida e estejamos vivendo numa selva”. Será que para viver bem em Moçambique é preciso atrelar-se a critérios partidários e regionais? Será que para ser chefe em Moçambique só é possível exibir cartão partidário? Até quando viveremos com o negócio da venda do emprego e o privilégio que se dá às pessoas mais chegadas? O Mestre e Padre Kwiriwi refere que para ser desmistificado o que muitos não sabem sobre este país é preciso que se crie uma equipa de especialistas de várias áreas de saber para se dedicar no estudo sobre Moçambique e também de forma detalhada sobre cada cidadão. “Apresento alguns traços que me levam a afirmar que deve haver uma investigação de carácter multidisciplinar. a) Foram quinhentos anos de colonização, dominação e imposição de culturas diferentes, mas até hoje, tem moçambicanos que não sabem falar a língua portuguesa e resistem expressando-se unicamente em idiomas locais. b) A dita civilização europeia ficou no papel porque até hoje, Moçambique se pratica a poligamia, algo dito como um crime em países nórdicos. c) Guerras tribais: para maior controle de territórios e para a imposição da autoridade e poder, os chefes tribais faziam guerras entre si, mas no final do campeonato, tomavam juntos suas bebidas, como a Otheka. Os chefes tribais mantinham laços de amizades e também de vizinhança não se lembrando das guerras. Seus filhos praticavam casamentos interétnicos e a intimidade crescia. d) Com o início do comércio de escravos, uns tios vendiam seus sobrinhos principalmente os mais indisciplinados mesmo sabendo que o mesmo daria a continuidade da família e do clã ou da tribo. Quando faltasse o que vender, alguns homens preparados para esse tipo de missão, iam roubar meninos noutras regiões. Enquanto a escravidão continuava, crescia também o povo e aos poucos foi povoando o país todo. e) Desde cedo o povo moçambicano tinha sua religião e sabia

ago 18 2021

AS TENDÊNCIAS NA INTERPRETAÇÃO DO APOCALIPSE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 10ª Chave AS TENDÊNCIAS NA INTERPRETAÇÃO DO APOCALIPSE O Apocalipse prediz o desenrolar da história O Apocalipse é visto como uma profecia da história. Prediz as etapas do Projeto de Deus, desde o seu começo até o fim. Assim pensava, por exemplo, Santo Agostinho. Os que se orientam por esta teoria, interpretam as visões como descrições antecipadas dos grandes acontecimentos da história da Igreja e da humanidade. Eles encontram aí dentro alusões, por exemplo, à explosão da bomba atômica, ao avanço e implosão do comunismo, ao atentado ao Papa, aos terremotos, às guerras, aos problemas ecológicos, etc. Tudo parece previsto. Esta maneira de ler o Apocalipse provoca a curiosidade e levou Nostradamus a elaborar suas teorias e profecias. O Apocalipse fala do fim do mundo Para outros, o Apocalipse não descreve o desenrolar da história, mas sim o fim dela. Isto é, fala só das coisas que vão acontecer no fim dos tempos, imediatamente antes da vinda de Jesus. É o que pensam muitos grupos pentecostais. Eles se consideram “os santos dos últimos dias”, vivendo no fim dos tempos, prontos para acompanhar Jesus, quando ele vier nas nuvens. Daí o seu grande interesse pelo Apocalipse que é visto como um “aviso prévio” de Deus à humanidade. Eles dizem: “De 1000 passou! De 2000 não passará!” As vagas são poucas: só 144.000 assinalados. As suas interpretações causam medo em muita gente. O Apocalipse quer animar as Comunidades do fim do primeiro Século O Apocalipse não foi escrito para predizer as etapas da história, nem para descrever o fim do mundo, mas sim para iluminar a situação sofrida das comunidades perseguidas do fim do primeiro século. Época de Domiciano (81-96). Quer ajudá-las a entender o que estava acontecendo e, assim, reanimar sua fé, sua esperança e seu amor. Quer animar, consolar, situar e clarear. Até hoje, as comunidades perseguidas experimentam tal conforto na leitura do Apocalipse. O Apocalipse tira Raio-X da vida humana Outros dizem que o Apocalipse não se refere à situação das comunidades do fim do primeiro século, nem descreve o desenrolar das etapas da história, nem fala do fim do mundo. Não se refere a nenhuma época determinada da história, mas sim a todas as épocas e a todos os acontecimentos, tanto de ontem como de hoje e de amanhã, e procura revelar neles uma dimensão mais profunda. Ajuda os leitores a não parar na superfície dos fatos, mas a olhar tudo pelo lado de dentro e descobrir a ação de Deus em tudo que acontece. Ter uma consciência mais crítica. Estas quatro tendências não se excluem mutuamente. Podem até completar-se. Importante é o acento que se dá. Colocamos o acento na terceira. Partimos da convicção de que o Apocalipse foi escrito para animar as comunidades perseguidas da Ásia Menor do fim do primeiro século. Esta maneira de interpretar predomina entre os estudiosos hoje em dia. Ela é nossa principal chave de leitura que será esclarecida e comprovada ao longo dos roteiros e subsí­dios. Esta variedade de opiniões mostra e confirma que uma obra de arte é sempre maior que o seu intérprete. O poeta é maior que o seu crítico literário. O Apocalipse de João é maior que as teorias que o interpretam. O seu sentido não se esgota em nenhuma delas. As interpretações passam. A obra permanece! Isto obriga o intérprete a ser humilde.

ago 17 2021

LIMITES, PERIGOS E DESVIOS DO MOVIMENTO APOCALÍPTICO

Frei Carlos Mesters, Carmelita 9ª Chave LIMITES, PERIGOS E DESVIOS DO MOVIMENTO APOCALÍPTICO Perigo de imobilismo e fatalismo O movimento apocalíptico ensina e sugere que o Plano de Salvação já está pronto e definido. Por isso, corre o perigo de alimentar o fatalismo que impede ou desaconselha a participação das pessoas. Assim, na comunidade de Tessalônica, muitos cruzavam os braços e ficavam em cima do muro, sem comprometer-se. “Se Jesus vem logo, para que trabalhar ainda?” (cf. 2Ts 3,11). O mesmo fazem hoje os que, em nome do evangelho, recusam ou condenam a participação na transformação da sociedade. A resposta de Paulo é clara: “Quem não quiser trabalhar, também não coma” (2Ts 3,10)! Perigo de isolamento e de alienação O movimento apocalíptico ensina que os pobres, perseguidos e ameaçados pelo império, são o povo eleito de Deus a ser salvo no Dia de Javé. Por isso, este “povo eleito” corre o perigo de considerar-se um “povo privile­giado”, os únicos eleitos a serem salvos! Eles sofrem a tentação de se isolar no seu privilégio e de tratar os outros com uns pobres condenados! Em vez de realizarem a sua missão de “servir à humanidade”como “luz das nações”, passam o tempo can­tando, esperando pela vinda de Jesus, tentando puxar todos para dentro da sua igreja ou do seu grupo. Esta atitude transpa­rece nos discípulos, depois da ascensão de Jesus. Ficavam olhando para o céu, esquecendo a missão do anúncio (At 1,11). A recomendação do livro dos Atos dos Apóstolos é clara: “Deixe na mão de Deus a preocupação com o fim do mundo, e vá pelo mundo para dar testemunho do Evangelho” (cf. At 1,7-8)! Perigo da manipulação que usa o Apocalipse para meter medo no povo A experiência de Deus é um mistério fascinante de amor que atrai. Ao mesmo tempo, ela nos faz sentir nossa pequenez e pecado. No Apocalipse, a experiência de Deus se revela em visões que anunciam catástrofes. Muita gente, inclusive Daniel e João, ficam com medo diante destas visões (Dn 7,15; 8,17; Ap 1,17). Há pessoas que usam estes textos para meter medo nos pobres. Manipulam as visões do Apocalipse para dominar as consciências atra­vés da ameaça do castigo. Fazer isto é uma forma de idolatria. Mas Deus não quer que o anúncio do castigo para os maus cause medo nos bons. Sem cessar manda repetir o apelo: “Não tenham medo” (Ap 1,17)!, “Não chore” (Ap 5,5)! Por causa dos eleitos, Deus até abreviou as dores do fim dos tempos (Mc 13,20). Perigo de fundamentalismo. Nem sempre o vidente entende a visão que recebe (Ap 7,14; Dn 8,15). Esta obscuridade das visões junto com a situação de sofrimento em que se encontram as pessoas traz consigo o perigo do fundamentalismo que interpreta tudo ao pé da letra. “O fundamentalismo é uma grande tentação que, em épocas de incerte­za e de inseguran­ça, se instala na mente de muita gente. Ele separa o texto da vida e da história do povo e o absolutiza como sendo a única manifestação da Palavra de Deus. A vida, a história do povo, a comunidade, já não teriam mais nada a dizer sobre Deus e a sua Vontade. É a ausência total de consciência crítica. O funda­mentalismo distorce o sentido da Bíblia e, na sua interpretação, alimenta o moralismo, o individualis­mo e o espiritualismo. É uma visão alienada que agrada aos opressores, pois impede que os oprimidos tomem cons­ciência da iniqüidade do sistema montado e mantido pelos poderosos” Recusando o pensa­mento crítico e o bom senso, o fundamentalismo pode transformar-se em causa de tragédias. Por exemplo, durante o cerco de Jerusalém no ano 70 depois de Cristo, grupos apocalípticos luta­vam entre si, exterminando-se mutuamente. Depois da destruição de Jerusalém, os sobreviventes comete­ram suicídio coletivo em Massada. No século XX já tivemos o suicídio coletivo de vários grupos fundamentalistas. O documento da Pontifícia Comissão Bíblica da igreja católica, “A Interpretação da Bíblia na Igreja”, pu­blicado em 1993, condena fortemente os desvios e os perigos do fundamentalismo.

ago 16 2021

USAR LINGUAGEM RADICAL NA LEITURA DOS FATOS

Frei Carlos Mesters, Carmelita 8ª Chave Terceira Característica USAR LINGUAGEM RADICAL NA LEITURA DOS FATOS Nas visões do Apocalipse, não há meio termo.  Só contraste! De um lado, o mal; do outro, o bem. De um lado, o Dragão e a besta-fera (Ap 13,1-18); do outro, o Cordeiro e o seu exército (Ap 14,1-5); de um lado, Roma, a grande prostituta (Ap 17,1-18); do outro, Jerusalém, a noiva do Cordeiro (Ap 21,1-22,5). João sabe muito bem que, na vida real, as coisas não são assim. Sabe que o bem e o mal existem misturados até na vida das comunidades. Sabe que, no imperio romano, tem muita coisa boa, muita gente boa. Por que, então, nas visões ele fala como se, de um lado, só tivesse coisa boa e, do outro, só coisa ruim? Parece extremista e radical. O problema político A situação política estava muito confusa. Uns quarenta anos antes, Paulo tinha escrito aos cristãos de Roma que deviam obedecer às “autoridades constituídas” (Rm 13,1), “de modo que aquele que se revolta contra a autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus” (Rm 13,2). Nos Atos dos Apóstolos, Lucas tinha apresentado o império romano como simpático aos cristãos (At 13,7; 18,12-15; 19,35-40; 25,13-27). Mas a situação tinha mudado. Agora, essas mesmas “autoridades constituídas” estavam perse­guindo os cristãos. Elas até se infiltravam nas comunidades para forçá-las a adorar os falsos deuses do império (Ap 2,14.20). Quem era o culpado por essa situação? O império em si, ou apenas alguns maus funcionários? As coisas não estavam claras. Havia várias opiniões. Deve ter havido muita discussão e até brigas em torno desse assunto da política! No Apocalipse, João toma posição e dá a sua opinião. Para ele, o culpado não são alguns maus funcio­nários do império, mas sim o império em si: a sua organização econômica e a sua pretensão de ser o senhor do mundo (Ap 13,1-18; 18,2-20). Por isso, ele condena radicalmente qualquer tentativa de aliança com o império. A maneira de analisar a realidade O Apocalipse aprecia e avalia as coisas a partir do futuro, isto é, a partir da contribuição que elas estão dando para o triunfo final do bem e da justiça. A vitória já está certa, garantida pelo poder de Deus (Ap 11,17-18; 21,6-8.27; 22,3-5). Aquilo que contribui para a vitória é bom, vem de Deus. Aquilo que impede a vitória não presta, vem do mal, do diabo. Ora, o império romano, do jeito que estava organizado, não estava contribuindo para a vitória do bem e da justiça. Pelo contrário! Impedia a vitória, pois perseguia as comunidades que queriam contribuir e promover a vida! Por isso, na descrição que faz do império (Ap 13,1-18) e da cidade de Roma (Ap 17,1-18), João não aponta nada de bom. Tudo aí é maldade! O império romano é obra do Dragão (Ap 13,1-2), é vômito de satanás (Ap 12,15). A cidade de Roma, a grandiosa sede do império, capital do mundo, não passa de uma grande prostituta que leva o mundo inteiro para a perdição (Ap 17,1-2). Comparando. O império é como um navio imenso navegando no mar. No navio tem coisas boas e ruins. Tudo misturado. Mas o navio está sendo usado para fazer guerra. Está navegando em direção ao litoral para bombardear a população indefesa. Este rumo do navio está totalmente errado e, por isso, tudo que está no navio se orienta para o mal. O que João condena não é o bem que existe no navio do império, mas sim o rumo errado do mesmo. Tudo está sendo usado e organizado para perseguir os cristãos indefesos que querem defender a vida. João quer alertar os cristãos. Eles não podem ser ingênuos e alimentar um regime, cuja organização é contra o Evangelho, contra a vida (Ap 18,4). Não podem permitir que a falsa propaganda penetre nas comunidades (Ap 2,14.20). Devem, ao contrário, agüentar firme na sua luta e resistir, mesmo até à morte (Ap 2,10), apesar das perseguições (Ap 3,10-11). É nesta luta humilde e penosa das comunidades que está a semente da futura vitória do bem e da justiça (Ap 2,7.11.17.26; 3,5.12.21). Resistindo a todo custo e não se deixando desviar nem manipular, elas serão o exército do Cordeiro que enfrenta o dragão do Império (Ap 14,1-5) e o vencerá (Ap 17,14). É por tudo isto que João fala em termos radicais. É uma forma de fazer análise da realidade para ajudar os cristãos a enxergar com clareza a política do império romano e a se definir diante da situação. Hoje em dia, diante da propaganda do sistema neoliberal faz falta um apocalipse que nos ajude a fazer uma leitura um pouco mais crítica da realidade, questionando os rumos do atual império.

ago 15 2021

DIVIDIR A HISTÓRIA EM ETAPAS PARA SITUAR O MOMENTO PRESENTE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 7ª Chave Segunda Característica DIVIDIR A HISTÓRIA EM ETAPAS PARA SITUAR O MOMENTO PRESENTE Uma comparação. Você está viajando de Belo Horizonte para  Rio de Janeiro. É noite, perto da madrugada. Você estava dormindo e acorda. Conforme os seus cálculos, o ônibus já devia estar chegando no Rio de Janeiro. Na realidade, não há nenhum sinal de cidade lá fora. Tudo escuro! Além disso, em vez de asfalto, é estrada de chão, cheio de buracos, coisa que não existe entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Preocupada, você se levanta e pergunta ao motorista: “Onde estamos? Vai demorar para chegar?” Ele responde: “Uma ponte quebrada obrigou a gente a fazer uma volta de quase 50 quilômetros por esta estrada de chão. Daqui a pouco alcançamos de novo o asfalto. Vamos chegar no Rio com uma hora de atraso”. Aí você se tranqüiliza e diz: “Obrigada! Então está tudo certo. Falta pouco. Graças a Deus!” Fora de você, nada mudou. Era a mesma escuridão, a mesma estrada de chão, cheia de buracos. Dentro de você, tudo mudou. Você se situou, graças à palavra do motorista! O apocalíptico é como o motorista do ônibus: ajuda o povo a se situar na caminhada, feita no escuro das perseguições. A caminhada já vem de longe. Ninguém sabe quanto tempo ainda vai demorar nem por onde o povo está andando. Deus perdeu o volante, assim parece. Angustiados perguntam: “Onde é que estamos? Vai demorar muito?” (Ap 6,10). O interesse do povo que sofre não é saber como vai ser o futuro daqui a cem ou a quinhentos anos, mas sim como vai ser amanhã: “Vai ou não vai ter perseguição? Vamos ou não vamos ter comida?” O apocalíptico explica quantas são as etapas da caminhada do plano de Deus e informa em que etapa a comunidade se encontra no momento da perseguição. Como é que ele faz isto? O apocalíptico vive num tempo de crise e de perseguição, no meio de um povo sem poder. Para ajudá-lo ele volta atrás na história e, por meio de visões, se transporta para o passado, para o início do plano de Deus ou para o início de alguma etapa importante deste plano. E de lá, do fundo da história, ele olha para a frente e descreve quantas são e como vão ser as etapas do plano de Deus, desde aquele momento inicial até o fim dos tempos. Assim, na realidade, algumas destas etapas já pertencem ao passado; uma etapa está acontecendo no momento presente em que ele está escrevendo, e outras etapas ainda vão acontecer no futuro. Quase sempre, a etapa presente, em que o povo sofre a perseguição, encontra-se imediatamente antes do fim. Deste modo, as comunidades perseguidas se situam e se animam: “Falta pouco! Estamos quase no fim! Vamos continuar na caminhada!” Por isso, geralmente, os escritos apocalípticos são pseudônimos. Seus autores buscam uma figura significativa no passado, a partir da qual olham para o futuro. Basta olhar os nomes de alguns apocalipses que surgi­ram nos primeiros séculos: apocalipse de Adão, Set, Sem, Abraão, Moisés, Elias, Sofonias, Baruque, Daniel, Zacarias, Estêvão, Pedro, Tomé, Maria, Tiago, Paulo, João. Vejamos três exemplos deste procedimento: Um exemplo tirado do livro de Daniel: A visão do Filho do Homem(Dn 7,1-28) O autor de Daniel 7,1-28 vive no tempo dos Macabeus (167 aC). É o período do império helenista, época da grande perseguição do rei Antíoco IV (175-164) contra o povo judeu. A perseguição criou uma situação de deses­pero. Para comunicar a sua mensagem de esperança, o autor do livro de Daniel se transporta para o passado, época do exílio (550 aC), o “primeiro ano de Baltazar, rei da Babilônia” (Dn 7,1). Estando lá no passado, ele tem uma visão, que lhe faz ver as etapas do plano de Deus, desde o exílio da Babilônia até o fim da perseguição que o povo estava sofrendo. Nesta “visão noturna” (Dn 7,2), aparecem, um depois do outro, os quatro grandes impérios, todos com aparência de “animais monstruosos”: leão com asas de águia (império da Babilônia) (Dn 7,4), urso com três costelas entre os dentes (império dos Medos) (Dn 7,5), onça com quatro asas e quatro cabeças (império dos Persas) (Dn 7,6), e uma “fera medonha e terrível” (império dos gregos iniciado com Alexandre Magno) (Dn 7,7-8). Os impérios têm aparência de animais porque são animalescos, brutais, desumanos. Eles perseguem, desumanizam e matam a vida. O quarto império dos gregos, o da “fera medonha e terrível”, persegue e mata os “santos do Altíssimo” (Dn 7,21.25). É aqui que o povo perseguido do ano 167 se reconhece: “Estamos na 4ª etapa!” E imediatamente vem a pergunta: “Quanto será que falta até que chegue o fim da perseguição?” A resposta vem em seguida. Depois dos quatro reinos anti-humanos, chega a quinta e última etapa do Dia de Javé. O céu se abre e aparece o Trono do julgamento divino: “Um Ancião se assenta, vestido de veste branca como a neve, cabelos brancos como a lã” (Dn 7,9-10). A simples aparição do Trono do Juiz faz desaparecer os reinos animalescos. Diante do olhar divino, o mal desaparece como gelo diante do sol! Eles são julgados, condenados e destruídos (Dn 7,11-12). Aparece, então, o quinto reino, o Reino de Deus, com aparência não de um animal mas sim de gente, de “um Filho de Homem”, que recebe todo o poder (Dn 7,13-14). Pois o Reino de Deus é um reino humano, que promove a vida. É o contrário dos reinos animalescos! A figura do Filho do Homem representa o povo de Deus, o Povo dos Santos do Altíssimo (Dn 7,22. 27; cf. 7,18). É uma figura comunitária ou coletiva. Conforme esta maneira de interpretar a história, a perseguição já não aparece como uma fatalidade, mas é vista como um tijolo que contribui para a construção do Projeto de Deus. É etapa necessária para se chegar ao fim, como a dor de parto é caminho necessário para o nasci­mento da vida nova. As comunidades perseguidas descobrem que a história continua

ago 14 2021

EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS

Frei Carlos Mesters, Carmelita 6ª Chave Primeira Característica EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS João teve muitas visões, algumas delas muito estranhas. Ele viu animais com seis asas, cobertos com olhos ao redor e por dentro (Ap 4,8); um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5,6); cavalos com cabeça de leão e rabo de escorpião (Ap 9,17.19), uma besta-fera com sete cabeças e dez chifres (Ap 13,1), cujo número é 666 (Ap 13,18); uma cidade, bonita como uma noiva que desce do céu (Ap 21,2), e assim por diante! Ele enche o Apocalipse de números: 3, 4, 10, 1000 e suas combinações: 7 (3+4); 12 (3×4); 40 (4 x10); 144.000 (12x12x1000). É um outro mundo! Estranho, irreal, diferente do nosso! E o que dizer do número 666 da Besta Fera? (Ap 13,18). Há muitas interpretações. A mais provável é que se trate de uma alusão ao rei Salomão que, por ano, tirava 666 talentos de ouro, i.é, 23 toneladas, dos agricultores da Palestina (1Reis 10,14). Além disso há o uso de números para indicar as letras. Por exemplo, VI significa seis. Assim, o número de C-e-s-a-r – N-e-r-o-n é 666. Como é que visões tão estranhas podem clarear a situação do povo? Por que João não usa a linguagem comum como, por ex., Lucas faz nos Atos e Paulo nas cartas? O que será que o Apocalipse quer alcançar com estas visões? Vamos dar aqui seis respostas. Trazer conforto e coragem na luta O Apocalipse de João traz visões grandiosas: Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18), o Trono de Deus (Ap 4,2-8), o Cordeiro imolado (Ap 5,6-14), a Mulher e o Dragão (Ap 12,1-6). Talvez não entendamos logo o seu significado em todos os detalhes. Mesmo assim, experimentamos algo. É como o menino que passeia com o pai. O menino nada entende do que seja força e proteção. Mas ele sente a força e a proteção do pai, pois vai tranqüilo, sem medo, ao lado dele! Assim, a visão de Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18) não diz o que é força e proteção. Mas faz o povo sentir a força e a proteção de Jesus ressuscitado, caminhando com ele, ao lado dele! Transformar a saudade em esperança As visões do Apocalipse de João estão cheias de imagens tiradas do Antigo Testamento. A história do povo é lembrada ou evocada, às vezes, por uma única palavra. Algumas visões nada mais são do que construções novas, feitas com os velhos e já conhecidos tijolos do AT. Por que as visões recorrem tanto ao Antigo Testamento? O AT era o passado do povo. Passado bom, onde Deus tinha manifestado a sua presença com grandes milagres. Muitos lembravam o passado apenas para curtir a saudade: “Antigamente sim! Mas hoje…! Deus não aparece mais!” Ora, as visões recheadas com frases e lembranças do Antigo Testamento, transformam este passado num espelho. É como se estivesse acontecendo de novo, agora! Elas despertam a memória, desobstruem o caminho da fonte que existe dentro do povo e, aos poucos, a energia do passado vai acordando, o véu vai caindo, o povo se reencontra e a caminhada se ilumina: “Deus continua agindo! O mesmo Deus de antigamente! Ele não mudou de lá para cá! Ele está conosco!” A saudade se transforma em esperança: Não podemos desanimar! Comunicar ao povo algo da paz de Deus Às vezes, pessoas medrosas e não engajadas usam o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta: “Deus faz tudo! A nós cabe assistir e esperar!” Mas este não era o caso das comunidades da Ásia para as quais João escrevia o seu livro. Não havia o risco de elas usarem o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta, pois já estavam na luta, há muitos anos. O problema delas era outro: como fazer para não desanimar da luta, pois estavam meio perdidas e desanimadas na frente de batalha (Ap 6,10). O Apocalipse de João achou uma resposta. Por meio das visões, João transporta as comunidades para dentro do céu (Ap 4,1), para perto do trono de Deus (Ap 4,2-11), onde está o quartel general do Cordeiro que lidera a batalha (Ap 14,15; 17,14; 7,9-17). Lá do alto, do centro das operações, elas contemplam a luta com os olhos de Deus. Descobrem que as ameaças e pragas não são para os oprimidos, mas sim para os opressores do povo, e experimentam que, apesar de difícil, a luta já está ganha (Ap 14,9-12; 17,14). Assim, as visões comunicam algo da paz com que Deus, sereno, lá do alto, comanda a luta contra a injustiça e a opressão (Ap 11,14-18; 12,10-11). As comunidades fincam a sua raiz em Deus e a tempestade das perseguições já não consegue arrancá-la. Elas voltam para a luta bem mais animadas, com sabor de vitória. Defender-se contra os opressores do povo Em época de perseguição, todo cuidado é pouco. Dizer abertamente que o império romano era o grande inimigo a ser combatido podia dar prisão. João achou um jeito para dizê-lo de outra maneira. Por exemplo, para explicar o mistério da grande prostituta, sentada sobre a besta-fera com sete cabeças (Ap 17,3), ele diz: “Aqui é preciso ter inteligência para poder discernir: as sete cabeças são sete colinas sobre as quais a mulher está sentada” (17,9). Todos sabiam que a cidade de Roma, sede do Império, estava construída sobre sete colinas. Para o bom entendedor, meia palavra basta! Em outro lugar, João diz: “Quem tem inteligência é capaz de calcular o número da besta, pois é um número de gente. Seu número é 666!” (Ap 13,18). De acordo com o número de cada letra, o leitor calculava e descobria a mensagem: a besta é o imperador de Roma que persegue os cristãos. As visões com seus símbolos eram um meio para esclarecer o povo perseguido e defendê-lo contra os seus opressores. Elas revelavam a sua mensagem aos oprimidos e a escondiam aos opressores. Deus manda ser bom, mas não bobo! Fazer-se entender pelo povo das comunidades Um cartaz com desenhos transmite muito mais do que só falar. Uma dramatização é mais

ago 14 2021

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

LITURGIA DA PALAVRA LEITURA I – Ap 11,19a;12,1-6a.10ab SALMO RESPONSORIAL – Salmo 44 (45) LEITURA II – 1 Cor 15,20-27 EVANGELHO – Lc 1,39-56 TEMA: NOSSA MÃE É ELEVADA AO CÉU MAS ESTÁ MAIS PERTO DE NÓS Hoje, Jesus ressuscitado acolhe a sua mãe na glória do céu. Hoje, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua mãe a coroa de doze estrelas. O dogma da Assunção foi definido no ano de 1950, durante o pontificado de Pio XII. É uma solenidade que, correspondendo ao natal (morte) dos outros santos, é considerada a festa principal da Virgem. A Igreja celebra hoje em Nossa Senhora a realização do Mistério pascal. Sendo Maria a “cheia de graça”, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus. Maria carrega muitos títulos que mostram a sua grandeza entre todos os homens e mulheres da face da terra. A ladainha de Nossa Senhora é o resumo daquilo que é Maria. Maria, imagem da Igreja. Como Maria, a Igreja gera na dor um mudo novo. E como Maria, participa na vitória de Cristo sobre o Mal. Maria, glorificada na Assunção, é a criatura que atingiu a plenitude da salvação, até a transfiguração do corpo. É a mulher vestida de sol coroada de doze estrelas. É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus. A Mãe do Senhor é a imagem da Igreja: luminosa garantia de seu destino de salvação, porque o Espírito do Ressuscitado cumprirá plenamente sua missão em todos nós, como o fez nela, que já é aquilo que nós seremos. Maria assunta ao céu é garantia de que o homem todo se salva, de que os corpos ressurgirão. Para o cristão, a salvação é a ressurreição dos corpos, um mundo novo e a terra nova. Na Eucaristia, pão de imortalidade, se encontram os alimentos-base do homem, frutos da terra, da videira e do trabalho do homem; é precisamente a Eucaristia a garantia quotidiana de que a salvação atinge o homem todo na sua situação concreta, +ara arrebatá-lo à morte, a mais terrível inimiga do progresso. Convidamos a rezar com Maria porque ela está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do seu filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!” Rezar com Maria, mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Compromisso Pessoal Glorificar a Deus pelo dom de viver Exultar ao Senhor pelas maravilhas que Ele opera em nós Alegrar-se no Senhor por cuidar de nós.

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