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set 05 2022

A PAZ EM MOÇAMBIQUE 47 ANOS APÓS A INDEPENDÊNCIA

Depois da aprovação da primeira Constituição multipartidária da história de Moçambique e já vencidos mais de trinta anos, o país continua a enfrentar grandes desafios no processo da construção democrática. Entretanto, não só as instituições que resultaram das reformas políticas no âmbito da nova Constituição têm demonstrado fragilidades no seu funcionamento, como também as regras do jogo político têm sido marcadas por uma certa instabilidade, consubstanciada, por exemplo, nas sucessivas revisões da legislação eleitoral (Forquilha, 2020). Osúltimos índices de democracia, Moçambique tem registado recuos significativos na sua pontuação, o facto reside depois de ter passado de regime híbrido para regime autoritário segundo apontam os relatórios (The Economist, 2019), o País passou da posição 116, em 2018, para a posição 120, em 2019 (The Economist, 2020). No que se refere à situação económica, a trajectória do País tem sido marcada por crises e contradições, resultantes, essencialmente, das estruturas sociais de produção, das dinâmicas de dependência e do sistema social de acumulação (Castel-Branco, C.N., 2020a). No plano social, apesar de ter havido uma ligeira melhoria em termos de bem-estar e uma redução percentual da taxa de pobreza de consumo em 5 % entre 2008/2009 e 2014/2015, de acordo com os dados do Inquérito aos Orçamentos Familiares (IOF) 2014/2015, análises indicam que ainda persistem diferenças significativas regionais e entre os espaços urbano e rural ao longo do País. Com efeito, «a redução da pobreza no período entre 1996/1997 e 2014/2015 foi substancial tanto nas áreas rurais como urbanas, mas a redução foi mais acentuada nas áreas urbanas entre 2008/2009 e 2014/2015. De acordo com Forquilha (2020) na sua obra “desafios de Moçambique” desde o fim da guerra civil, em 1992, o País registou alguns avanços em matéria de pacificação e crescimento económico, particularmente nos anos 1990, também não é menos verdade que esses avanços têm sido acompanhados por recuos significativos. Com efeito, desde os sucessivos conflitos eleitorais, passando pela crise das dívidas ocultas até às crises político-militares recorrentes, a realidade parece contradizer o discurso da “história de sucesso” e sobre tudo quando falamos do verdadeiro contexto da Paz em Moçambique na actualidade. Portanto, identificar, analisar e debater essas crises e propor pistas para soluções com vista a contribuir para o desenvolvimento económico, social e político de Moçambique, constituem os nossos desafios se realmente queremos um Moçambique em Paz. As crises da paz em Moçambique A primeira crise que afugenta a paz no nosso País refere-se às chamadas dívidas ilícitas, contraídas em 2013 e 2014 com garantias soberanas do Estado e sem conhecimento do Parlamento, as quais agravaram a crise financeira do País e cristalizaram a fragilidade das instituições criadas no contexto da construção democrática, cujos efeitos socioeconómicos ainda continuam a fazer-se sentir nas famílias moçambicanas, particularmente as mais desfavorecidas. As dívidas ilícitas possuem, ainda, contornos judiciais de natureza política e complexa, consubstanciadas em conflitos e clivagens no seio das elites da Frelimo, conforme ilustra a audição do antigo Presidente da Frelimo e da República, Armando Emílio Guebuza, pela Procuradoria Geral da República, a 30 de Setembro de 2020, no âmbito do processo autónomo 536/11/P/2019. A segunda crise queafecta no nosso país e conduz à falta de paz é a prevalência de conflitos armados nas regiões Centro e Norte de Moçambique, nas províncias de Manica e Sofala e Cabo Delgado,respectivamente. Embora se trate de conflitos armados de natureza diferente, eles reflectem os desafios do processo da construção do Estado moçambicano no período pós-independência com as suas contradições e clivagens de ordem social, política e económica e graves implicações em termos de crise humanitária, fixada no aumento do número das populações deslocadas, que fogem das zonas assoladas pela violência armada. Isso notabiliza-se nos sucessivos acordos assinados entre o Governo e a Renamo, desde 1992. A terceira crise que risca a paz em Moçambique diz respeito à pandemia da COVID-19, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Março de 2020. De origem e natureza complexas, a pandemia da COVID-19, na realidade, constitui um “facto social total” (Mauss, 2007), na medida em que tem implicações nas diferentes dimensões da vida em sociedade, nomeadamente política, económica, social e religiosa. Com efeito, aquilo que inicialmente se apresentava como um mero problema de saúde pública, rapidamente se transformou num desafio transversal. Àsemelhança das outras crises acima mencionadas, a crise sanitária no contexto da COVID-19 também veio expor a fragilidade das instituições do País, nomeadamente sanitárias, económicas, políticas e sociais, bem como as vulnerabilidades de uma economia virada para a acumulação extractiva e porosa de capital, com enormes fraquezas nos serviços públicos e nas condições de trabalho e de vida, incapaz de lidar com esta crise e com as medidas sanitárias necessárias. E como se constrói a Reconciliação? Emnenhuma parte do mundo a reconciliação se faz com discursos. Ela é feita comacções concretas do ponto de vista do processo de construção das instituições. Com efeito, enquanto as instituições do País não forem um espelho da heterogeneidade de Moçambique; se elas não tomarem em conta as ricas diferenças na maneira de pensar e olhar para o País, independentemente da crença religiosa, opinião política ou cor da pele e continuarem a servir interesses de grupos; e se elas não promoverem a inclusão política, económica e social, dificilmente Moçambique terá soluções duradouras para a violência recorrente e o discurso da chamada paz efectiva e reconciliação será uma mera retórica dos políticos. E como ter a verdadeira paz com tantas crises e fragilidades, num país onde cerca de 90% da população vive abaixo de 1 USD por dia? Achegar Tiodósio Matias

set 05 2022

A imposição da justiça social exige opções difíceis

No que diz respeito à acção de cidadania, a nossa sociedade moçambicana nota-se cansada e abatida. Os cidadãos que guardam a esperança de um futuro melhor prometido há 47 anos, mas que nunca chega, parecem cansados de lutar pela justiça social, pior quando a cada dia os seus ouvidos são escandalizados por relatos de crimes daqueles a quem cabe o dever de proteger os outros. É que por vezes, a força da injustiça é superior à força de vontade para contradizê-la. Aliás, quando, quem assume o poder é o primeiro a lesar aqueles a quem devia servir, parece mais fácil, para quem devia ser servido, render-se. A tentação de maior parte dos jovens moçambicanos, hoje, que assistem ao assalto impiedoso à sua esperança de emprego, de habitação, de educação, de saúde, etc., é, infelizmente, resignar-se. Auto serviço e corrupção do país Há alguns anos que o nosso país ganha uma nova forma de ser governado assente no auto-serviço e na corrupção. Hoje, enquanto por um lado as condições de sobrevivência e de enriquecimento beneficiam a quem tem poder político, por outro, a corrupção se instala e se solidifica nas instituições do Estado. Não é novidade, infelizmente, que o acesso ao emprego é selectivo; não é também novidade que os altos funcionários do Estado ganham os extraordinários e mais altos salários e bonificações da função pública. Não é igualmente novidade que o poder é usado para influenciar e corromper, manipulando o sistema a favor de determinadas pessoas com interesses em manter os seus benefícios. O que devia ser de todos e para todos serve apenas à família de alguns. Os desafios que caracterizam as circunstâncias que atravessamos parece indicarem que a honestidade perdeu a batalha e ganhou espaço e vitória a desonestidade, a delinquência. Pior é que essa delinquência é encabeçada pelas autoridades que deviam combatê-la. Hoje, contra toda a esperança de um dia construirmos um país de justiça social onde todos sintam orgulho de viver, a nova forma de viver baseada em quem tem mais força, ganhou espaço. Em consequência, como imitação dos demais a quem governa na base de sabotagem ao Estado, os mais pequenos funcionários do Estado seguem o exemplo. Os militares deixaram de proteger o país e começaram a assaltá-lo. Esta é a realidade que nos agride os ouvidos a partir de Cabo Delgado; a polícia deixou de proteger as pessoas e passa a roubá-las. É o que agora sabemos sobre o envolvimento da polícia nos sequestros e nos assaltos por todo o país; os enfermeiros deixaram de tratar os doentes e prevenir a morte de seus concidadãos e agora a provocam com sua negligência. É a reclamação dos pacientes nos maiores hospitais do país onde a corrupção e a negligência sobrepõem-se ao direito à saúde que o indivíduo tem; os políticos deixaram de servir o país e se servem do país roubando e endividando-o para viabilizar seus interesses, os de seus amigos e de seus filhos. Este é o escândalo que nos é dado a partir do julgamento das dívidas ocultas. Qual pode ser a nossa esperança neste cenário como cidadãos? Mais do que uma esperança passiva, o que devemos fazer para mudar? Os poderosos controlam a vontade dos fracos Na situação em que nos encontramos é fácil ver que os espertos abocanham as riquezas. Com as riquezas que possuem e com o poder político que assumem também controlam as vontades dos mais fracos. Controlam os mais compráveis para os ajudar a viciar os votos, cujos resultados os mantêm no poder; controlam a polícia que protege os seus bens ilícitos, controlam os militares contra quem se atrever a reclamar; controlam jovens cobardes que vivem só para si mesmos, etc. Parece tudo perdido, mas na realidade a nossa única esperança para libertar o nosso país dessa postura delinquente e criminosa é agir como cidadãos normais. Quando digo cidadãos normais refiro-me àqueles que não se contentam com a sua casa bonita e o seu pouco dinheiro e pensam que podem ficar alheios às questões políticas; refiro-me àqueles que, movidos pelo patriotismo e pelo amor a sua liberdade, fazem valer o ideal de um país de justiça social. Infelizmente, neste nosso cenário em que o nosso país é praticamente controlado pela vontade dos políticos que são ao mesmo tempo os mais ricos, produzem-se três tipos de cidadãos: os primeiros são os que acham que o que a política faz não lhes interessa. Têm emprego fora das instituições do Estado e pensam que não se podem meter na política porque não é esta que os alimenta; os segundos são aqueles que, para sobreviverem, devem viver à sombra dos políticos e dos mais ricos. A sua fonte de sobrevivência é normalmente a bajulação. Por isso, para estes, patriotismo é concordar e defender quem exerce o poder, não importa que esteja certo ou errado; os terceiros, que considero os piores, são os desistentes. Lutaram pelo bem-estar e pela justiça social, por vários anos, esperaram que as coisas melhorassem, mas como a injustiça e a delinquência estão enraizadas nas instituições do Estado e sua remoção não é fácil, renderam-se. Juntaram-se aos primeiros ou aos segundos. Não desistir na luta contra a injustiça A pior postura de um cidadão é desistir de lutar contra a injustiça do seu país. Entristece-me ver a desistência de muitos jovens académicos cuja crítica era esperança na luta para um Moçambique justo. A cada ano vejo jovens académicos pararem de mostrar o seu descontentamento com o modelo de governação e embarcarem para a bajulação como modo fácil de sobrevivência. O nosso futuro é que fica comprometido porque nenhum país de cobardes consegue implantar a justiça. Se cada um se interessar pelo trabalho que lhe garante sobrevivência singular, estaremos a vender o país. Num país empobrecido como o nosso, a indiferença dos cidadãos é criminosa na mesma proporção que a bajulação. Do mesmo modo que no passado, jovens que partiram de suas famílias para a guerra sem saber se iriam voltar, embarcaram para a luta de libertação nacional com

set 05 2022

O corpo no espaço litúrgico

O nosso SER é o melhor instrumento de comunicação do mundo. Nenhum equipamento, por mais sofisticado que seja, seria capaz de substituir o nosso SER no processo comunicacional. A comunicação interpessoal ou grupal é presencial, tem calor humano e é afetiva. A afetividade estava presente em toda a pedagogia de Jesus, quando Ele estava no meio do povo. Foi assim com Zaqueu, com Lázaro e suas irmãs, com o cego de Jericó, com as criancinhas, etc. O SER de cada um é concreto e abstrato. Concreto porque é visualizável, palpável e materializado. Abstrato porque é composto de sentimentos, emoções, manifestações espirituais, pensamentos, memórias, inteligências e capacidade de criar. Ao comunicarmo-nos devemos agir combinando o nosso ser concreto com o ser abstrato. Quanto mais conseguirmos agir assim, mais aperfeiçoado será o nosso desempenho e mais qualificada será a nossa comunicação. O equilíbrio entre o concreto e o abstrato do nosso ser possibilita alcançarmos os objetivos desejados no ato comunicacional. O corpo é a manifestação concreta do SER, a exteriorização do que somos e o cartão de visita; é a morada do espírito, da essência humana e o sacrário da mente. O corpo deve estar sempre bem cuidado, asseado, são e em forma. A saúde do corpo é importante para a saúde do espírito, assim como a saúde do espírito é importante para a saúde do corpo. Um não pode viver dissociado do outro. Para que o corpo comunique bem, é preciso: Estar livre das tensões – Desinibir e naturalizar os movimentos do corpo, comunicando através de gestos equilibrados. As tensões vêm da insegurança, do mau humor, da constante vigilância do poder, do policiamento para mascarar as deficiências e não admiti-las para superá-las, do estresse provocado pelo trabalho excessivo em detrimento do lazer. Ser bem colocado em eixo – para que tenha presença marcante no ambiente, numa postura de ânimo e firmeza: Ombros levantados; Tórax aberto (peito para frente. Ele faz parte da nossa caixa de ressonância); Cabeça erguida, olhando para todos os lados, quando estiver comunicando em público, em movimentos moderados e equilibrados; Mãos e braços que se movimentam livres e harmônicos. No caso dos proclamadores da Palavra e comentaristas, não há necessidade de muitos movimentos com os braços. Porém, estes devem estar relaxados. Pernas e pés firmes e apoiados. “Inteligir” (conscientizar: ter noção), o mais possível, todos os gestos – para que sejam expressão consciente e voluntária, no contexto da comunicação que se quer fazer. A comunicação gestual é feita de movimentos soltos, harmônicos e tranquilos, combinando a fala do corpo com a fala da mente e a oralidade; Valorizar a comunicação facial – toda a região que está acima dos olhos tem forte poder de comunicação. O bom comunicador trabalha com a expressão facial, interpretando o significado do que fala com os músculos do rosto. Olhar olho no olho no momento da comunicação interpessoal ou grupal é fundamental para chamar a atenção, envolver os ouvintes e engajá-los no que estamos dizendo. Muitas platéias se dispersam por falta de comunicação gestual e facial dos expositores. A fala sem o auxílio destes recursos se torna monótona. Jesus Cristo conseguia concentrar multidões que O ouviam o dia inteiro, a ponto de escutá-lo com fome, no final de uma tarde. Sua comunicação atraía; Utilizar as mãos – como importante instrumento de comunicação, no auxílio da fala. Há comunicadores confusos na hora de falar em público porque não sabem o que devem fazer com as mãos. Ao invés de as utilizarem no reforço do que está sendo dito, atrapalham-se em gestos desconexos em relação ao acto da comunicação: colocando as mãos nos bolsos, apertando-as umas nas outras ou usando muletas para ocupá-las. Dão a impressão de que as mãos estão atrapalhando. Quase sugerem a amputação. Esse é o tipo de comunicador “maneta”, embora possua as duas mãos. No caso dos leitores, é aconselhável que as mãos fiquem sobre o texto. Quando for olhar para a assembleia, coloque o dedo indicador sobre o texto, evitando, assim, perder-se na leitura; Os olhos – devem estar sempre atentos à leitura. Nos pontos finais, ou seja, nas pausas, olhar para a assembleia. Evite olhar apenas para um dos lados. Caso tenha dificuldades de olhar para a assembleia, no meio da leitura, faça isto no início, quando estiver dizendo “Leitura do Livro do Profeta Isaías” (por exemplo) e no final, ao dizer “Palavra do Senhor”; Cuidar da aparência – cabelos penteados (quem ainda os possui), barba bem feita (ou bem arrumada e asseada, para os que a têm), fossas nasais limpas (inclusive, para facilitar a respiração), ouvidos higienizados, roupa adequada ao nível social do ambiente (limpas, bem passadas, e devidamente arrumadas sobre o corpo: gola, botões, etc.). Isso é sinal de auto-estima. Kant de Voronha

set 05 2022

O lugar de permanência após a circuncisão masculina

‟Namuhakwa” e ‟Nvera” Do lugar das operações, os circuncidados são conduzidos para um sítio, onde passam a noite daquele dia, e dias e noites seguintes, ao relento, deitando-se de costas (para dormir) num chão varrido e relativamente limpo, com as cabeças viradas para a fogueira, para evitar que o calor do fogo aqueça as coxas e (coza) o ferimento no órgão viril. A este sítio chama-se ‟Namuhakwa”. Permanecem aqui, sem comer nem beber toda a noite e todo o dia solar seguinte, até cerca das 17 horas deste dia, hora em que tomam algum alimento, começando pela água, sorvida de uma cova artificial no solo, através de um pequeno tubo de palha. Este processo vai continuar durante vários dias, até ao dia em que se tomar o primeiro banho, o que vai acontecer só após arelativa cicatrização da incisão. A partir de outras tarefas, os padrinhos preparam pequenos paus com forquilhas com os quais prendem as pernas dos afilhados, por altura dos joelhos, para que, sobretudo durante o sono, a ferida não entre em contacto com as coxas, evitando assim a possível infecção da mesma. Andam nus até à cicatrização completa das feridas, após o qual põem algum pedaço de tecido. Transferem-se, depois, para uma construção tosca, denominada ‟Nvera”, um barracão não maticado e mal coberto de capim, deixando entrar a jorros a água da chuva, nos dias em que esta resolve visitá-los, mesmo que não seja torrencial. Aqui cada iniciado toma um nome, à sua escolha, de um animal, de um Pássaro, de uma árvore ou de qualquer objecto, pelo qual deve ser chamado durante o período de permanência no mato, deixando, assim, aquele que recebera da família e conhecido na comunidade de onde veio.   Alguns Conselhos morais – ‟Havara aluwa, munvare mwìl’awe!”. – Quando o leopardo estiver feroz, apanhai-o pela cauda. Esta é uma das inúmeras canções que se entoam e os rapazes repetem, podendo durar tempo indeterminado, para depois o mestre explicar que o leopardo aqui referido é o capim da machamba, do qual não se deve fugir, mas pegá-lo pela ponta e arrancá-lo com a enxada, para as plantas alimentares poderem crescer à vontade. Metáfora popular, para incutir nos jovens a coragem e o espírito de trabalho, sobretudo o de produção agrícola. ‟Naxirakaletthiká, tthiká! Ohiyeonthéiha!”. Ó deficiente, volta para trás, volta para trás! Não venhas provocar riso em nós! A esta canção, aparece um individuo, simulado de portador de deficiência física: lábios revirados para fora e seguros por um fio quase invisível; cabelo desgrenhado e esbranquiçado com farinha ou cinza, andar desajeitado; apoiando-se a um cajado. Figura estranha e de aspeto repelente, perante a qual ninguém deve rir. Isto serve para ensinar aos circuncidados que, na vida real, vão-se deparar com situações idênticas a que está neste momento em frente deles, com a diferença de que esta de hoje é simulada. Então, não se riam. Enkhuma, enkhumaenikonayòmi! – Tudo o que acontece só me vê a mim. Canção alusiva à galinha, a que se recorre para resolver questões de vária ordem. Com isto procura-se demonstrar aos jovens que é importante a criação de aves domésticas, para que quando forem adultos também as criem, porque ‟família sem galinha é uma família pobre” – dizem os mestres abalizados na matéria de ensinamentos e conselhos. Mediante os ritos de iniciação, no barracão de que atrás fizemos menção, durante grande parte de noites, através de canções, provérbios e adivinhas seguidas de respectivas explicações, o rapaz aprendia a ser ‟homem”, aprendia os cuidados e normas a observar em relação a mulher nos seus delicados momentos de vida feminina (período menstrual, gravidez, doenças em geral, necessidades em alimentos, em roupa e em outras coisas). Era nestas circunstâncias que também se explicava aos circuncisos tudo o que se faz nos ritos de iniciação das mulheres, como prévia preparação para o casamento, pois os moços tinham idade para contraírem o matrimónio algum tempo após o regresso à comunidade, deixando de ser dependentes dos pais, já que eram adultos. Achava-se necessário o conhecimento das particularidades da vida feminina, por parte dos jovens, como prevenção, para evitar que estes cometessem inconveniência contra as privacidades das suas futuras esposas. É através de ritos de iniciação que se aprende e se chega ao conhecimento do mundo delicado e quão misterioso segredo do nascimento dos bebés. É ali, no mato, onde o jovem ou adolescente aprende e chega a saber como fica uma pessoa morta e o que se faz em tal circunstância, isto é, como se fecham os olhos do cadáver, como se lava o morto, como se prepara a cova para a sepultura, de que é constituída a mesma na parte interior, como se coloca nela o defunto, quem o coloca e em que posição o coloca. Por Alberto Viegas

set 02 2022

Papa Francisco e o dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação – 1/9/22

«Escuta a voz da criação» é o tema e o convite do «Tempo da Criação» deste ano. O período ecuménico começa no dia 1 de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e termina a 4 de outubro com a festa de São Francisco. É um momento especial para todos os cristãos, a fim de orarmos e cuidarmos, juntos, da nossa casa comum. Inspiração originária do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, este «Tempo» é uma oportunidade para aperfeiçoarmos a nossa «conversão ecológica», uma conversão encorajada por São João Paulo II como resposta à «catástrofe ecológica» pressagiada por São Paulo VI já em 1970…… mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação 2022  

ago 30 2022

A IMBISA CAMINHANDO COM O SEUS JOVENS

A Associação Inter-regional dos Bispos da África Austral (IMBISA) prepara-se para celebrar a sua XIII Assembleia Plenária de 22 a 27 de Setembro de 2022 em Windhoek, Namíbia. A mesma tem como tema: Construindo juntos-Reimaginando o envolvimento da Igreja com os Jovens na Região da IMBISA à luz da Exortação do Papa Francisco, Christus Vivit. Esta Plenária conta com a participação dos representantes dos Jovens dos Países que fazem parte da IMBISA. A Constituição dogmática Lumen Gentium define a Igreja como povo de Deus em marcha ao afirmar que «Assim a Igreja toda aparece como «um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo»(LG 4), por sua vez a Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa define a Igreja que está em África como  familia de Deus (EA 63), pensamento retomado no Documento de Kampala. Na família todos contam, aliás este é o espírito do Sinodo sobre a Sinodalidade convocado pelo Papa Francísco subordinado ao tema: Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão, cujo processo de preparação pretende envolver todos.Caminhar juntos, é o espírito da IMBISA desde a sua fundação que agora caminha a passos largos para o seu Jubileu de Ouro. Foi guiados pelo mesmo espírito de uma Igreja família procurando consolidar a sinodalidade que pensaram em convidar os Jovens para a próxima Plenária. É típico de uma boa família que todos os membros estejam envolvidos nos acontecimentos que dizem respeito à familia, cada membro de acordo com o seu lugar na família. A exemplo da Santíssima Trindade onde não há confusão nem superposição de papeis, pois as três pessoas divinas entrepenetram-se num relacionamento harmonioso. Na Santíssima Trindade o Pai se relaciona com o Filho com espírito paterno e o Filho com o Pai com o espírito filial. Portanto, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, está sempre presente. O mesmo se dá na família, pois os pais agem como pais.Interagem com os filhos com o espírito paterno, por sua vez os filhos agem como filhos, isto é, interagem com os pais com espírito filial. O que une os pais e os filhos ou está sempre presente nos pais e nos filhos, é o espírito de família, expresso mormente pela escuta, valorização dos pontos de vista, preocupações e partilha de bons momentos e também dos desafios de todos os membros da família. Os jovens na IMBISA durante o encontro pré-sinodal que teve lugar de 19 a 24 de Março de 2018 em Joanesburgo, África do Sul, exprimiram na sua mensagem o desejo de serem consultados em decisões e assuntos que afectem os jovens, bem como serem guiados no desempemnho de responsabilidades e tarefas. Pediram que lhes seja dada a possiblidade de se expressarem na Igreja. Julgo constituir motivo de alegria o facto de os jovens clamarem pela inclusão ou por um papel mais relevante na vida Igreja. Que não sejam somente cumpridores ou consumidores das decisões dos adultos. Querem se sentir parte integrante da Igreja hoje e não só no futuro como se costuma ouvir. De facto todos somos Igreja hoje, desde crianças até adultos. Nenhuma camada social ou faixa etária está à espera da sua vez para ser Igreja. Os jovens, com o seu vigor físico, sua  capcidade imaginativa e inovativa podem fortalecer mais a sua família, a Igreja. Pois há trabalhos que só os adultos podem e há também aqueles que só os jovens podem. Há coisas que os adultos sabem mas dada a fragilidade física não podem realizar e por sua vez os jovens há coisas que não sabem, mas com a sua vantagem física sabendo podem fazer. Em geral, a conjugação de esforços ou a sinergia tem como resultado o fortalecimento ou consolidação de qualquer que seja o empreendimento, neste caso é o fortalecimento da nossa família, a Igreja. A união faz a força e como diz diz  a sabedoria africana ‘a união do rebanho obriga o leão a dormir com fome’. Pedro na Sagrada Escritura nos alerta: « Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda à volta, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé» (1Pe 5,8-9). A nossa sociedade é chamada a enfrentar o demónio que anda à solta como leão que ruge e o melhor antídoto para essa constante ameaça é a união,  cada um de acordo com as suas forças. O convite dos Bispos da IMBISA aos jovens da região austral da África para a Plenária, não só expressa o seu elevado espírito de família e de sinodalidade como também é uma evidência que estão sintonizados com o Papa Francísco, que,com o seu grande espírito de pastor, deu um grande exemplo de consideração aos jovens, convocando um Sínodo para os Jovens, o qual deu origem à Exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit, a carta magna para a Pastoral Juvenil e o Secretariado da IMBISA, inspirando-se no mesmo documento, concebeu um manual intitulado Manual da Pastoral juvenilcomo um instrumento de comunhão para a sua região procurando dar o seu contributo  no projecto de construção da sinodalidade. No seu documento o Santo Padre aponta uma pastoral sinodal para os jovens.Pois Francisco  defende uma pastoral juvenil que conta com com os jovens, aliás, eles são os protagonistas. Na Sagrada Escritura não faltam passagens ondeos jovens são protagosnistas. Como é o caso do jovem que se dirigiu a Jesus preocupado com a vida eterna, ou por outras palavras com a sua salvação e Jesus interagiu com ele com  paciência e consideração (Mt 19,16-30), dando exemplo que todos contam. Rafael Sapato (rafaelbacianosapato@gmail.com)

ago 30 2022

as leituras dominicais

Estamos a receber muitas mensagens referentes às leituras da liturgia dominical. Infelizmente houve um erro na nossa calendarização. Queremos confirmar que as leituras do domingo 4 de Setembro 2022 correspondem aos do Domingo 23ºdo Tempo Comum contrariamente a como indicado nas páginas da VN de Agosto. A partir da VN de Setembro o erro já foi corrigido. Pedimos desculpas pelos transtornos involuntariamente causados.

ago 29 2022

BUSCANDO a VERDADEIRA PAZ em MOÇAMBIQUE

Por ocasião dos 30 anos do Acordo Geral de Paz a CEM propõe um mês de oração e reflexão pela PAZ em Moçambique. 04 de Setembro 2022 – 04 de Outubro 2022       Oração pelos 30 anos do Acordo Geral de Paz                            Pai Santo fonte da verdadeira paz,                         Ao celebrarmos, em Moçambique, os 30 anos do Acordo geral de Paz                         Agradecemos por todos os bons sinais que nos tendes oferecido,

ago 26 2022

CAJUPANA apostada na Promoção de ajuda humanitária e Profissional aos deslocados

Esta visão foi partilhada na manhã de hoje (26/08) pelo Pe Jacinto Augusto, Coordenador Arquidiocesano da Comissão de Justiça e Paz (CAJUPANA). O clérigo falava à margem da cerimónia de Graduação de 12 jovens deslocados de guerra de Cabo Delgado que foram formados em matérias de Electricidade. De acordo com a fonte, a formação visava potenciar aos jovens de conhecimentos e práticas que possam inseri-los na luta pela sobrevivência, mas com técnicas do saber fazer. “A CAJUPANA selecionou estes 12 jovens como beneficiários deste curso de Electricidade porque estamos apostados na promoção de ajuda humanitária e formação profissional com vista a munir os deslocados de guerra de Cabo Delgado de ferramentas que contribuam para o seu bem-estar” referiu o Pe Jaconto. Numa altura em que o terrorismo não dá tréguas em Cabo Delgado, apesar de haver cidadãos que regressam às suas aldeias, a fonte esclareceu que o número de graduados podia ser ainda maior. Entretanto, espera-se que num futuro próximo sejam alocados quites de material de trabalho para fortalecer as iniciativas dos graduados e sua entrada no mundo do empreendedorismo. A nossa equipa de redação ouviu alguns graduados os quais louvando a iniciativa da CAJUPANA se comprometem a tornar realidade os conhecimentos adquiridos durante as aulas. Kant de Voronha

ago 26 2022

IFPELAC gradua 12 jovens formados em Electricidade Instaladora em Anchilo

A cerimónia de Graduação teve lugar na Paróquia de Anchilo, na manhã desta sexta-feira (26). Na ocasião, um grupo de 12 jovens deslocados de guerra que se beneficiaram da formação foram declarados aptos para o mercado do emprego. Os beneficiários graduados louvam a iniciativa da Comissão Nacional de Justiça e Paz porque conseguiram adquirir conhecimentos que lhes levarão ao saber fazer, apesar das dificuldades havidas durante a formação. “Esta formação projetou-nos à racionalidade do mundo em que vivemos, apostados no desenvolvimento do pensamento. Acreditamos que uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida. Por isso vencemos as dificuldades que enfrentamos durante as aulas”, lê-se na mensagem assinada pelos graduandos. Promovida pela Comissão Nacional de Justiça e Paz, a formação teve a duração de 2 meses e foi ministrada pelo Instituto de Formação Profissional e Estudos Laborais Alberto Cassimo, Delegação de Nampula. Kant de voronha

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