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maio 04 2026

Ecos da 132.ª Assembleia Plenária da CEM “Dialogar para reconciliar o povo moçambicano”

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), reunida de 14 a 21 de Abril de 2026, no Seminário Filosófico de Santo Agostinho da Matola, dirigiu-se às comunidades cristãs e a todos os cidadãos de boa vontade. Saudando-os na alegria pascal, os Bispos reafirmaram a fé na presença transformadora de Cristo Ressuscitado na nossa vida quotidiana. Comunhão com o Santo Padre e Transições Eclesiais A Assembleia, presidida pelo Arcebispo de Nampula, expressou profunda comunhão com o Papa Francisco, destacando o seu apelo à construção da paz e à denúncia da corrupção. Entre as principais notícias da vida da Igreja, destacam-se: – A criação da nova Diocese de Caia. – A renúncia, por motivos de saúde, do Arcebispo da Beira, D. Claudio Dalla Zuanna, a quem foi prestada homenagem pelo seu serviço pastoral e contributo académico. – A eleição de D. António Juliasse como novo Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique (UCM). Análise da Situação Sócio-Política e Desafios Nacionais Os Bispos analisaram com preocupação a realidade do País, apontando feridas abertas que exigem atenção urgente: Conflito em Cabo Delgado:A persistência da violência e o drama dos deslocados. Crise Social:A pobreza crescente, a degradação dos serviços de saúde, a falta de medicamentos e as más condições das estradas. Educação e Juventude:O desânimo dos jovens perante a falta de perspectivas e a necessidade de habitação. Responsabilidade Cívica:O alerta contra a manipulação política, apelando ao compromisso com o bem-comum e à reconciliação nacional. Pastoral, Formação e Protecção de Menores A CEM reflectiu sobre a vitalidade das comunidades e a formação dos futuros sacerdotes, destacando o elevado número de seminaristas — um sinal de esperança que exige maior sustentabilidade económica das paróquias. Foi também reafirmado o compromisso rigoroso com a protecção de menores, através da implementação de directrizes e formações específicas contra abusos. Quanto aos eventos, a visita do Cardeal Pietro Parolin foi considerada um marco para o diálogo nacional, e confirmou-se que a próxima Jornada Nacional da Juventude terá lugar na Beira, em 2028. Próximos Passos: Fé e Compromisso Social Foi aprovada a revisão dos Estatutos da CEM e definido o tema da IX Semana Nacional de Fé e Compromisso Social: “Dialogar para reconciliar o povo moçambicano”. Os Bispos concluem o comunicado com um apelo à esperança activa, exortando todos os moçambicanos a serem construtores de uma sociedade mais justa e solidária.   Perfil: D. António Juliasse Ferreira Sandramo  Novo Magno Chanceler da UCM Nomeado pela Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) durante a sua 132.ª Assembleia Plenária, D. António Juliasse Ferreira Sandramo assume agora a elevada missão de Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique (UCM). Sucede a D. Claudio Dalla Zuanna, num momento de particular importância para a consolidação académica e espiritual da instituição. Percurso Académico e Científico António Juliasse possui um sólido currículo académico, marcado pela interdisciplinaridade entre a Fé e a Razão: – Teologia: Licenciado pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. – Antropologia: Licenciado pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH). – Estudos Africanos: Mestre pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, onde desenvolveu investigação sobre práticas sócio-culturais em Moçambique. – Experiência Docente: Antes da sua elevação ao episcopado, foi docente de Antropologia na própria UCM, conhecendo profundamente a realidade da instituição que agora dirige como Chanceler. Caminho Pastoral Natural de Soalpo, na Província de Manica, nasceu a 20 de Março de 1968. Foi ordenado sacerdote em 1998, tendo servido na Diocese de Chimoio em diversas funções paroquiais e de coordenação. – Em 2018, foi nomeado pelo Papa Francisco como Bispo Auxiliar de Maputo. – Em 2022, assumiu a titularidade da Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, onde se tem destacado pela sua voz profética na defesa das populações vítimas do terrorismo e na assistência humanitária aos deslocados. Missão na UCM Como Magno Chanceler, D. António Juliasse terá a responsabilidade de velar pela identidade católica da Universidade, garantindo que o ensino superior continue a ser um instrumento de protecção da dignidade humana e de promoção da paz social. A sua vasta experiência em contextos de crise e a sua preparação intelectual fazem dele uma figura chave para guiar a UCM nos desafios educativos e sociais que Moçambique enfrenta.

abr 24 2026

DESAFIOS E OPORTUNIDADES NO MOÇAMBIQUE DIGITAL

(Valentina Atthumpuha) A juventude moçambicana encontra-se num momento de grandes transformações. A expansão gradual da internet, o aumento do acesso a telemóveis inteligentes e a circulação constante de informações colocam os jovens diante de novas possibilidades, mas também de desafios que exigem orientação, equilíbrio e espírito crítico. Se por um lado as tecnologias criam oportunidades para aprender, trabalhar e empreender, por outro lado podem facilmente conduzir a dependências, dispersão e vulnerabilidades. Março e Abril, meses marcados por diversos debates sobre juventude, inovação e inclusão, tornam-se propícios para reflectir sobre o impacto das tecnologias no presente e no futuro profissional dos nossos jovens. É uma reflexão necessária, sobretudo num país em que grande parte da população é jovem e vive em contextos sociais, económicos e educativos muito diversos.   A presença crescente das tecnologias no quotidiano da juventude Em Moçambique, o telemóvel tornou-se o principal meio de acesso ao mundo digital. Mesmo nas zonas rurais, onde a internet pode ser mais limitada, a juventude utiliza redes sociais, vídeos educativos, jogos e plataformas de comunicação. Esta presença digital influencia a forma como os jovens aprendem, socializam e constroem a sua identidade. As tecnologias, quando bem utilizadas, abrem portas para conhecimentos que antes eram difíceis de alcançar. Hoje, um jovem pode assistir a uma aula online, aprender uma nova habilidade técnica, procurar oportunidades de emprego ou comunicar com pessoas de outras províncias e países. Porém, o uso inadequado pode resultar em dispersão, conflitos familiares, consumo de conteúdos inadequados e até riscos de segurança.   Entre a inspiração e a pressão As redes sociais são, talvez, o espaço digital mais frequentado pelos jovens. Lá encontram entretenimento, humor, tendências culturais e modelos de vida que influenciam comportamentos. Muitos jovens criam conteúdos, partilham ideias e encontram reconhecimento entre amigos e seguidores. Contudo, há também riscos importantes: a comparação constante com vidas idealizadas, a pressão por “likes”, a exposição exagerada da vida pessoal e a facilidade de contacto com desconhecidos. Estes factores podem afectar a auto-estima, a concentração nos estudos e o bem-estar emocional. É fundamental que pais, educadores e líderes comunitários orientem os jovens para um uso equilibrado e responsável. Ensinar a filtrar informações, reconhecer conteúdos falsos e evitar comportamentos perigosos é tão importante quanto ensinar leitura e escrita.   A tecnologia como caminho para novas carreiras O mercado de trabalho está a mudar e o Moçambique digital começa lentamente a abrir espaço para profissões que há poucos anos eram quase desconhecidas. Hoje, jovens podem trabalhar ou aspirar a actuar em áreas como: Desenvolvimento de aplicações e software; Manutenção e montagem de equipamentos informáticos; Design gráfico e audiovisual; Marketing digital; Análise de dados; Produção de conteúdos digitais; Prestação de serviços online para pequenas empresas. Estas oportunidades não exigem, inicialmente, grandes investimentos financeiros. Muitos jovens começam a aprender através de vídeos, cursos gratuitos e grupos de estudo. A curiosidade e a persistência tornam-se os principais instrumentos de trabalho. Mesmo em comunidades rurais, há jovens que prestam pequenos serviços de informática, ajudam colegas a criar documentos digitais, ou iniciam micro-negócios baseados em telemóveis. São exemplos que mostram como a tecnologia pode contribuir para autonomia financeira e desenvolvimento local.   A escola diante dos desafios tecnológicos As escolas enfrentam o grande desafio de acompanhar o ritmo das mudanças digitais. Muitas ainda têm poucos computadores, falta de energia estável ou professores com formação limitada em tecnologias. Contudo, mesmo com essas limitações, há possibilidades reais de integração da tecnologia no processo educativo. O professor pode utilizar vídeos educativos, textos digitais, simulações simples e até exercícios interactivos para tornar as aulas mais atractivas. Actividades de pesquisa orientada, debates sobre segurança digital e pequenos projectos envolvendo telemóveis podem também ajudar a desenvolver competências modernas sem exigir equipamentos sofisticados. Ao abordar tecnologias, a escola não deve limitar-se aos aspectos técnicos. É essencial trabalhar também valores como ética digital, respeito online, privacidade e responsabilidade no uso de redes sociais.   Apoiar a juventude no uso saudável da tecnologia A juventude precisa de apoio para que a tecnologia seja uma aliada, e não um obstáculo. É importante promover: Rotinas equilibradas que incluam estudo, descanso, convívio familiar e tempo limitado de ecrãs; Actividades culturais e desportivas que combatem o sedentarismo e fortalecem o bem-estar emocional; Momentos de diálogo entre pais e filhos para que os jovens se sintam livres para partilhar dúvidas e dificuldades; Projectos comunitários, onde jovens aprendem juntos e se apoiam mutuamente; Exemplos positivos, porque os jovens aprendem mais com o que veem do que com o que lhes é dito. Educar um jovem para o uso consciente da tecnologia é educá-lo para a vida, para o respeito e para o futuro.   Esperança e responsabilidade O Moçambique digital está a crescer, e a juventude é a grande protagonista desta transformação. Contudo, o futuro profissional não depende apenas de acesso à internet; depende de disciplina, curiosidade, resiliência e capacidade de aprender continuamente. O mundo exige jovens flexíveis, criativos e capazes de resolver problemas reais. Se os adultos, pais, professores, líderes comunitários, investirem na orientação, no incentivo e na criação de ambientes de aprendizagem, a tecnologia deixará de ser apenas entretenimento e tornar-se-á um instrumento poderoso para o desenvolvimento do país. Portanto, as tecnologias, que muitas vezes são vistas como ameaça, podem tornar-se ferramentas de transformação, desde que usadas com responsabilidade e acompanhadas de valores sólidos. Jovens que aprendem a usar a tecnologia com propósito tornam-se cidadãos mais preparados, trabalhadores mais competentes e seres humanos capazes de sonhar com um futuro melhor. O Moçambique digital não acontecerá apenas nos grandes centros urbanos: ela nasce, sobretudo, na criatividade da juventude, na força da comunidade e no compromisso de todas as gerações com a educação e o desenvolvimento.

abr 21 2026

Campeões de diálogos e perdedores da reconciliação

(Dr Deolindo Bento Paúa) Se existe alguma coisa em que somos bons é a capacidade de encenar diálogos e, por via disso, encenar também soluções dos nossos problemas. A história reza que o nosso Estado foi fundado, eliminando opiniões discordantes e gerindo conflitos de vária ordem. Tudo parece indicar que só é possível governar Moçambique se se construir pontes e concordâncias de forma honesta e genuína, o que não conseguimos e, por isso, não alcançamos a verdadeira estabilidade. Não se conversa com bandidos A expressão “não se dialoga com bandido” é amplamente atribuída à Frelimo, sobretudo, no contexto da guerra dos 16 anos, para interagir com a Renamo com vista a acabar com o conflito. Até hoje, a palavra “bandido” usada naquele contexto, parece indicar todo aquele que discorda com a opinião oficial vigente. Quem discorda com a governação, com as decisões, com as políticas públicas adoptadas é marginalizado como se de um bandido se tratasse. Podemos então assumir que a dificuldade da Frelimo em dialogar de forma franca é tradicional e que por razões de formalidade e de demonstração de bom senso na arena internacional, ela precisou encenar diálogos. Deus queira que este diálogo em curso não seja uma dessas encenações, porque Moçambique precisa dialogar com franqueza para passar ao próximo capítulo, o capítulo da inclusão, depois de longos anos de exclusão social. De facto, os nossos diálogos sempre estiveram órfãos de verdade e de franqueza, porque sempre houve uns pensando que, por seu esforço, deveriam criar consensos com bandidos, mesmo sem intenção de cumprir os consequentes acordos. A longa guerra dos 16 anos prova o desinteresse em manter um Moçambique unido e reconciliado. Depois, seguem-se os sucessivos conflitos pós-eleitorais cujo apogeu foi as eleições de 2024. Até aqui, os métodos, os canais e os intervenientes dos sucessivos diálogos que têm tido lugar, além de terem sido sempre questionáveis, não produziram efeitos desejados. Hoje, numa mistura de dúvida e esperança movidas por essa história de insucessos, muitas pessoas olham para o Diálogo Nacional Inclusivo em curso como possibilidade de ruptura da tradição improdutiva de diálogos. O diálogo nacional chamado inclusivo Sabemos todos que para responder aos sucessivos conflitos que têm acompanhado a história de Moçambique e, sobretudo para acabar com o conflito instalado após os eventos das eleições de 2024, foi proposto o Diálogo Nacional Inclusivo que, sob a gestão de uma comissão técnica, supõe-se estar a colher sensibilidades de todas as camadas sociais e de todos os grupos de moçambicanos para constituir uma intenção política consensual. A ideia formal é a de criar um pacote legislativo de gestão pública livre de conflitos. Por isso o principal pacote em auscultação é o eleitoral que se supõe que tem facilitado fraudes e gerado desavenças. Se o diálogo funcionar em obediência cega a letra, a intenção pode produzir resultados que criem bases de justiça social e de reconciliação que precisamos estabelecer desde a independência. Elogio a COTE, apesar de partidária Uma das razões que leva parte dos moçambicanos a duvidar dos resultados deste diálogo não tem a ver apenas com o facto de diálogos passados não terem produzido efeito, mas também pelo facto da composição comissão técnica que o encabeça ser questionável. Os diálogos passados foram feitos entre o governo da Frelimo e a Renamo, excluindo outras sensibilidades sociais. Esse modelo levou a questionamentos sobre a legitimidade de partidos em representar interesses nacionais. Infelizmente, neste diálogo, o figurino continua. Representantes de partidos políticos, alguns deles sem legitimidade, lideram o processo. A sociedade civil e o resto da população são apenas convidados. O povo é convidado num processo que deveria ser ele a liderar. Parece ser certo que, neste modelo, interesses de partidos vão sempre nortear o rumo do diálogo. E agora, graças aos eventos das últimas eleições, parece haver certeza de que o interesse dos partidos políticos é divergente do interesse nacional, o que os torna efectivamente suspeitos para agir no interesse do povo. O que a CNE, o STAE e Conselho Constitucional se tornaram é resultado da tentativa de acomodação de interesses e garantia de sobrevivência de partidos e não do interesse nacional. A ineficiência desses órgãos e suas decisões tendenciosas nas sucessivas eleições e sobretudo nas últimas, provou-se na exclusão de candidaturas de partidos que seriam uma ameaça à hegemonia dos partidos representados neles. Em suma, no modelo de diálogo vigente, o interesse nacional pode sucumbir sempre ao interesse dos interlocutores partidários que ilegitimamente o encabeçam. No entanto, o trabalho técnico feito pela COTE até aqui demonstra algum profissionalismo. Veremos quando chegar a hora das decisões políticas sobre os resultados da auscultação. A intolerância do PR e os sinais de um diálogo teatral Há décadas que se repete a teoria de que o diálogo político tem que ser feito com verdade e antecedido pela reconciliação. A carta dos bispos católicos de Novembro de 2024 faz recomendações concretas a esse respeito. Assumir a verdade eleitoral, os crimes e os excessos cometidos por todas as partes nos conflitos, reconciliar-se com os factos, com os divergentes e com todos os moçambicanos e só depois ir ao diálogo. Ora, se por um lado a COTE demonstra competência e compromisso no exercício da sua missão de coordenar o diálogo, o Presidente da República não tem dado sinais de compromisso com a reconciliação. Aliás, depois da sua tomada de posse, Daniel Chapo passou os primeiros 6 meses em comícios pelo país, em que tentava convencer aos moçambicanos de que tinha ganho as eleições. Para conseguir isso, definiu apelidos pejorativos concretos para os manifestantes e, sobretudo para os seus líderes. No seu primeiro informe sobre o estado geral da nação, Daniel Chapo voltou a apelidar as manifestações de criminosas, ilegais e inconstitucionais, sem no entanto mencionar a sua causa criminosa. Crimes nas manifestações não fazem manifestações criminosas. Mesmo que tivessem sido criminosas e ilegais, em nome da reconciliação que se supõe existir para que o diálogo produza o efeito desejado, não seria admissível uma tal atitude, um ano depois. Os sucessivos discursos intolerantes do Presidente

abr 21 2026

A LITURGIA COMO ESCOLA DE FÉ E COMUNHÃO

Por Cantífula de Castro A liturgia é o lugar onde a comunidade cristã experimenta de forma plena o mistério da fé. É nela que a Igreja celebra a salvação oferecida por Cristo e se reúne como povo de Deus para escutar a Palavra, participar dos sacramentos e fortalecer os laços de fraternidade. Para o catequista moçambicano, compreender a liturgia é essencial, pois grande parte da educação da fé acontece precisamente no espaço celebrativo. A liturgia é, ao mesmo tempo, celebração, formação e vida. Cada gesto, símbolo, canto, leitura e oração possui significado profundo e ensina verdades de fé que muitas vezes ultrapassam a própria catequese verbal. Nas comunidades cristãs, a liturgia assume um potencial pedagógico especial, tornando-se escola de espiritualidade e de comunhão. O catequista deve ajudar a comunidade a compreender que a liturgia não é “um ritual a cumprir”, mas uma participação viva e consciente no mistério de Cristo. Isso implica educar para o respeito pelo espaço sagrado, para a escuta atenta da Palavra e para a participação activa nas celebrações. A liturgia molda atitudes: ensina silêncio interior, reconciliação, acolhimento, solidariedade e espírito de serviço. A inculturação litúrgica é outro elemento relevante. Em Moçambique, a riqueza cultural expressa-se no canto polifónico, nas danças suaves de acolhimento, no ritmo dos tambores, na força dos provérbios e na beleza das línguas nacionais. A Igreja encoraja que tais elementos, quando adequadamente discernidos, possam integrar a liturgia, tornando-a mais próxima e compreensível ao povo. O catequista deve, portanto, incentivar o diálogo entre fé e cultura, sem perder de vista a fidelidade ao sentido universal da liturgia. Outro desafio é promover uma liturgia que eduque para a paz e a reconciliação. Num país marcado por períodos de conflito armado, crise política e tensões sociais, a celebração eucarística torna-se espaço privilegiado para curar memórias, reavivar a esperança e reforçar a unidade. O gesto da paz, o Pai-Nosso, as preces da comunidade e o envio missionário final recordam que a fé tem dimensão pública e que o cristão é chamado a ser construtor de paz no quotidiano. A liturgia também é fonte de compromisso. A comunhão com Cristo na Eucaristia deve repercutir-se no compromisso com os pobres, na honestidade no trabalho, na responsabilidade familiar e na ética comunitária. O catequista é responsável por reforçar esses vínculos, mostrando que liturgia e vida são inseparáveis. Uma liturgia bem vivida transforma a comunidade e faz amadurecer a fé. Por fim, é fundamental promover a formação litúrgica contínua. Muitos fiéis participam das celebrações sem compreender plenamente o seu sentido. Explicar os tempos litúrgicos, as cores, os ministérios, as partes da missa, o simbolismo dos sacramentos, leva a uma vivência cristã mais profunda da liturgia. Assim, a liturgia torna-se uma verdadeira escola de fé, onde a comunidade aprende a amar, crer, celebrar e servir.

abr 16 2026

Crónica: Mesmo Fora Daqui se Morre

Por: Giovanni Muacua O nosso país, o belo Moçambique, está a ficar cada vez mais esfarrapado, não por falta de recursos de investimento, mas por causa da insensibilidade e egoísmo destes senhores. Como quem morre são sempre os outros, ninguém se interessa por melhorar as condições das nossas unidades sanitárias. Cada um preocupado em encher o próprio umbigo e bolso; investe na própria riqueza, jogando o bem-comum na morgue à espera da sepultura. Num país que nasceu rico em recursos naturais e culturais, a esperança transformou-se, aos poucos, num espaço onde a vida vale pouco e a sobrevivência tornou-se um privilégio. Não por falta de meios, mas por excesso de indiferença. O problema de Moçambique não é a falta de riqueza, mas a sua má gestão. O problema não é a escassez de dinheiro, mas a sua concentração em bolsos privados. O problema não é a falta de discursos políticos, mas a distância entre esses discursos e a realidade nua dos hospitais públicos, onde a dor grita mais alto do que qualquer slogan governamental. “O nosso maior valor é a vida”, diz o Ministério da Saúde. Mas que vida é essa que se promete, quando falta gesso, faltam reagentes, faltam medicamentos e sobra sofrimento? As unidades sanitárias do país são o retrato mais cruel da desigualdade social e económica. Enquanto o cidadão comum enfrenta bichas intermináveis, humilhações e tratamentos desumanos, os senhores do poder, os donos das decisões e das riquezas nacionais, viajam ao estrangeiro com uma simples dor de cabeça. Lá, recebem cuidados dignos, tecnologia avançada e conforto. Aqui, o povo recebe silêncio, desprezo e anestesia em falta. A saúde tornou-se um espelho da política nacional: quem pode, vive; quem não pode, espera ou morre. O país arrecada impostos, explora recursos minerais, assina contratos milionários e anuncia investimentos. Socialmente, porém, o retorno disso é invisível para a maioria. Onde vai o dinheiro que sai do suor dos trabalhadores, dos impostos pessoais e empresariais? Se nas farmácias públicas faltam medicamentos, como explicar a abundância nas clínicas privadas? Se os hospitais públicos carecem de aparelhos básicos de diagnóstico, de onde vêm os equipamentos modernos nas clinicas privadas? Essa contradição não vem do acaso; é o sistema. Um sistema que lucra com a dor e transforma a saúde num negócio para poucos. A contrapartida consiste em que há mais investimento em armas do que em vidas. Compra-se gás lacrimogéneo, munições e viaturas de repressão, enquanto se negligencia a compra de aparelhos clínicos, medicamentos essenciais e condições mínimas de trabalho para médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde trabalham sem 13º salário, sem materiais, sem motivação e sob pressão constante. Ainda assim, espera-se que salvem vidas com as mãos vazias. É um paradoxo cruel: o Estado exige milagres de quem ele próprio abandona. A violência não está apenas nas balas ou nos cassetetes; ela está também na agulha que perfura a carne sem anestesia, no parto feito sem condições, no paciente que grita de dor enquanto o sistema finge não ouvir. É uma violência silenciosa, diária e institucionalizada. Uma violência que mata mais do que qualquer guerra declarada. Dizem que a morte não escolhe classe social e é verdade. Mesmo os que fogem para além-mar, acreditando escapar ao destino comum, acabam por descobrir que em todo o canto se morre. A morte é democrática, mas a vida não é. A vida em Moçambique tornou-se profundamente desigual. Uns vivem cercados de conforto e protecção; outros sobrevivem cercados de medo, doença e abandono. Esta situação não é apenas uma falha administrativa, é uma falência moral. Um país que aceita ver o seu povo sofrer sem reagir, perdeu o sentido de nação. As festas luxuosas, as viagens desnecessárias e as mansões erguidas com dinheiro público são afrontas directas à dor colectiva. Cada tijolo dessas casas luxuosas poderia ser um medicamento, um aparelho clínico, uma cama hospitalar. Cada festa poderia ser uma ala reabilitada. Cada viagem poderia ser uma vida salva. O povo está exausto. Exausto de promessas vazias, de discursos reciclados, de ver a morgue mais organizada do que o hospital. Exausto de ser tratado como número e não como ser humano. A Bíblia já chorava a ruína da filha do povo; hoje, Moçambique chora a sua própria chaga. Uma chaga aberta pela ganância, pela corrupção e pela insensibilidade. Que fique bem claro: investir na saúde não é caridade, é obrigação. Melhorar hospitais não é favor, é um dever constitucional e moral. A vida não pode continuar a ser moeda de troca política. Porque no fim, ricos ou pobres, governantes ou governados, todos somos peregrinos nesta terra. A morte, justa e paciente, visita a todos, dentro ou fora de Moçambique. Quem tem ouvidos, ouça.

abr 16 2026

Autossustentabilidade: A gestão das iniciativas locais

Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo No número anterior, apresentamos a iniciativa uma comunidade, uma machamba. Conforme sublinhamos é uma iniciativa que muito tem ajudado algumas das nossas comunidades rurais ou peri-rurais. Contudo, estas iniciativas locais têm enfrentado um grande problema, sobretudo no que concerne a gestão: Quem deve gerir? Como guardar o dinheiro? Em que aplicar? Como justificar ou prestar contas? Estas e outras perguntas não se calam e que, por vezes, podem gerar conflitos nas comunidades. Como sanar esta preocupação? A primeira coisa a fazer é perceber que as nossas comunidades rurais são constituídas, muitas das vezes, por gente muito simples, gente que está habituada a uma economia doméstica muito simples: produziu, consumiu. Os que chegam a vender, por vezes, tudo vendem sem um mínimo de stock para eventuais situações e, chegado o tempo da fome, compram os mesmos produtos a um preço muito superior ao que tinham vendido. Por outra, a maioria parece não estar preparada para o associativismo ou cooperativismo. Por isso muitos que levam a cabo tais iniciativas, sejam eles anciãos ou animadores, chegados a época das campanhas, enfrentam sérios problemas. A segunda coisa a fazer é munir as comunidades de uma educação económica sustentável e os líderes de uma gestão inclusiva. A educação económica sustentável tem de ser guiada por alguns princípios: a busca pelo bem comum, o sentido de pertença à comunidade ou ao grupo, incentivos de trabalho, etc. A gestão inclusiva dos líderes exige, por sua vez, uma visão estratégica, o envolvimento da comunidade na escolha de prioridades e tomada de decisões que visam a aplicação dos bens alocados. A terceira coisa a fazer é a prestação de contas. Este aspecto tem sido um grande “calcanhar de Aquiles” da gestão nas nossas comunidades locais. Muitas vezes ouvimos, fulano ou sicrano “comeu ou está a comer o nosso dinheiro”. O facto de ter ciente que o dinheiro e os bens pertencem à comunidade é já um grande passo na autossustentabilidade pois todos são chamados a prover à mesma do necessário. Mas isto exige que os detentores dos bens façam a devida prestação de contas, justificando o uso do dinheiro e, sempre que possível, documentado e não usem os bens comuns como bens próprios. Uma boa gestão inspira as pessoas, cria um ambiente saudável de colaboração e se foca em soluções, busca oportunidades e crescimento da comunidade, transforma desafios em oportunidades e faz com que as pessoas se sintam capazes de realizar coisas grandiosas.

Dialogo Nacional inclusivo: Reformas referentes à Governação

Por: Pe. António Bonato A Comissão Episcopal de Justiça e Paz da Igreja Católica oferece às comunidades cristãs e a todos os moçambicanos de boa vontade o subsidio “Cartilha Politica para o diálogo nacional inclusivo” como forma de se prepararem para participar ativamente do processo de Diálogo Nacional Inclusivo lançado oficialmente no dia 10 de Setembro em Maputo Reformas referentes à Governação Reformas do projecto de reconciliação e unidade nacional Depois da independência, era suposto Moçambique trilhar por um caminho de construção da unidade nacional e de busca de desenvolvimento. Mas, pelo contrário, tal caminho foi marcado por conflitos armados, eleitorais e pós-eleitorais, que foram criando feridas não cicatrizadas tanto no projecto da unidade nacional, como no coração dos moçambicanos, feridas que hoje precisam de ser encaradas com determinação para a sua reparação. Ao longo de todo este tempo, os governos e os partidos políticos têm tomado algumas iniciativas para restabelecer um clima de paz e de reconciliação no país. Neste ponto o debate gira em torno do caminho e das falhas da reconciliação e da construção da unidade nacional desde a independência, e contribui com algumas ideias concretas para que o Diálogo Nacional Inclusivo que vai acontecer dê os seus frutos. Que propostas concretas da Igreja sobre tais reformas? Na VIIIª Semana Nacional de Fé e Compromisso Social, a Igreja chamou atenção a alguns passos que precisam de ser dados se queremos buscar a verdadeira reconciliação e a unidade nacional. Tais passos podem ser resumidos no seguinte: a) Construir uma memória colectiva baseada na verdade dos factos: precisamos de enfrentar o que aconteceu de facto, sem omissões, precisamos de reconhecer os erros do passado, pois só assim poderemos curar as feridas não cicatrizadas deste passado. b) Construir uma visão compartilhada (sonhar juntos o mesmo sonho): isso passa primeiro pelo exercício do perdão sincero. Todas as partes envolvidas no diálogo, perdoando-se entre si, precisam de desenvolver uma visão comum de um futuro bom. Por isso, é preciso buscar pontos comuns, trabalhando juntos, frente a frente, com escuta mútua, aberta e sem preconceitos. c) Construir relações de confiança: depois do enfrentamento da verdade e da aceitação mútua, segue a construção de relações de confiança, respeito e cooperação entre todas partes envolvidas, promovendo a reparação dos danos, a justiça restaurativa, a empatia e a identificação de estratégias de resolução de conflitos. d) Operar uma mudança cultural e de mentalidade: isto passa por uma mudança significativa e radical nas atitudes, nos comportamentos e na mentalidade, passando a valorizar o outro, a aceitar as diferenças como riqueza, a vencer os preconceitos e a promover uma cultura de diálogo e compreensão. Tal mudança há-de ser concretizada pela revisão das leis, pela inclusão, pela igualdade de todos perante tais leis, pela promoção da justiça social, pela garantia dos direitos humanos e pela criação de mecanismos funcionais e pacíficos de resolução de conflitos. e) Rever e monitorar a Comissão Técnica para o Diálogo: todas as propostas das alíneas anteriores poderão tornar-se possíveis se houver um trabalho sério por parte desta Comissão. Por isso, dizemos que a constituição desta Comissão é o primeiro passo para se prever o sucesso (ou fracasso) do processo. Por isso, esta Comissão precisa de se examinar constantemente, de se julgar, de ter a certeza de que está a agir pelo bem do país, pela reconciliação de todos moçambicanos, pela paz e pela unidade nacional. Daí que haja a necessidade de garantir a sinceridade, seriedade e honestidade de cada integrante, desde o nível nacional até ao nível das províncias, distritos e comunidades.(3-fim) BOX Princípios orientadores do diálogo nacional inclusivo a) Primazia do Estado de Direito Democrático; b) Respeito pelos direitos fundamentais, pela unidade nacional, inclusão e reconciliação efectiva entre os moçambicanos; c) Priorização do bem-estar, justiça social e transparência; d) Construção de consensos em torno das soluções a serem propostas; e) Interseccionalidade; f) Igualdade e equidade; g) Equilíbrio de género; h) Justiça e transparência; i) Liberdade; j) Participação; k) Publicidade; l) Não causar danos; m) Legalidade. Os valores deste diálogo são: a) Cultura de paz; b) Respeito pelo pluralismo e diversidade; c) Cidadania; d) Equilíbrio de género; e) Tolerância; f) Reconciliação; g) Honestidade.

abr 08 2026

MULHERES QUE SUSTENTAM O PAÍS COM A VOZ

Por: Kant de Voronha Março e Abril chegam sempre com uma luz especial. Março traz o Dia Internacional da Mulher e Abril recorda-nos o poder da palavra e da comunicação na vida moçambicana. Quando olhamos para o nosso país com mais atenção, percebemos que estes dois meses não se podem separar. A mulher é, há séculos, a grande comunicadora da vida: é ela quem transmite valores, educa, partilha saberes, resolve conflitos, consola, encoraja, vigia, avisa e preserva a história oral. É também ela que domina a palavra doméstica, comunitária, religiosa e cultural. Por isso, juntar estes dois meses numa só reflexão não é apenas conveniente: é justo. A verdade é simples e profunda: a mulher moçambicana é uma ponte entre a vida e o futuro. E a sua voz é um dos instrumentos mais importantes para a construção da paz, da harmonia e da dignidade no país. A mulher que carrega o mundo sem fazer barulho Todos sabemos, mesmo sem estatísticas, que grande parte do peso do país assenta nos ombros das mulheres. São elas que acordam mais cedo, carregam bidões de água, fazem longas filas nos mercados, trabalham na machamba, sustentam a economia informal, organizam o lar, tratam dos filhos, ajudam os vizinhos e ainda encontram força para cantar, rezar e sorrir. O curioso é que tudo isto acontece quase sempre em silêncio. As mulheres trabalham numa espécie de heroísmo diário que raramente é reconhecido. A sociedade habituou-se tanto à sua resistência que, muitas vezes, nem percebe a injustiça de esperar tanto delas. Quando celebramos Março, não estamos apenas a elogiar as mulheres; estamos a admitir que, muitas vezes, falhamos com elas. O poder invisível da voz feminina Abril convida-nos a falar da comunicação. E aqui, novamente, encontramos a mulher no centro da conversa. A casa funciona porque a mulher comunica. O bairro mantém paz porque as mulheres conversam, aconselham, acalmam, chamam à razão. As igrejas têm vida porque as mulheres rezam, cantam, catequizam e animam. Os mercados sobrevivem porque as mulheres negociam, discutem preços, partilham informações e seguram a economia informal. Em muitas famílias, a figura que transmite valores como respeito, disciplina, fé, solidariedade e responsabilidade é a mãe ou a avó. É ela quem diz frases que moldam a personalidade dos filhos: “não mintas”, “trabalha com honestidade”, “não faltes ao respeito”, “não te metas em confusão”, “não explores ninguém”, “não desprezes quem sofre”. A comunicação feminina é formadora. Educa mais do que muitos programas oficiais. A mulher que enfrenta medos que não contam nas estatísticas A realidade da mulher moçambicana também tem sombras pesadas: violência doméstica, casamentos prematuros, assédio, desigualdades no emprego, exclusão de oportunidades, carga mental desproporcional, pobreza extrema, acesso limitado à educação e injustiça social. Muitas destas situações permanecem escondidas porque as vítimas têm medo de falar — ou porque não acreditam que alguém as irá ouvir. E aqui o tema da comunicação volta a aparecer: o silêncio imposto às mulheres é uma das formas mais cruéis de violência. Um país cresce quando a voz das mulheres é respeitada, escutada e protegida. Mulheres no jornalismo, na rádio e na comunicação comunitária Moçambique tem visto crescer o número de mulheres no jornalismo, na rádio e noutras formas de comunicação pública. Este avanço é importante porque a presença feminina muda, de forma positiva, a forma como contamos a realidade. As mulheres jornalistas tendem a abordar temas muitas vezes esquecidos: problemas de saúde materna, a luta das famílias pobres, as dificuldades das raparigas na escola, os desafios da violência baseada no género, a economia doméstica, a vida comunitária, os sentimentos das pessoas, as dores silenciosas. Quando uma mulher comunica, a sociedade ouve assuntos que antes eram ignorados. Mas ainda há desafios: desigualdade salarial, assédio nas redações, falta de oportunidades de liderança e a necessidade de maior segurança no terreno, especialmente nas zonas afectadas por violência ou instabilidade. A palavra como arma e como remédio No nosso contexto, a palavra pode ser cura ou ferida. Pode levantar ou derrubar. Pode orientar ou enganar. E muitas mulheres são vítimas de palavras que ferem: insultos, humilhações, ameaças, mentiras, fofocas destrutivas, manipulação emocional. Esta violência verbal é tão séria quanto a física, porque destrói lentamente a dignidade. Mas também há palavras que curam: palavras de apoio, encorajamento, solidariedade e esperança e a maioria destas palavras vêm das mulheres. Quando uma mulher diz “vai ficar bem”, a comunidade inteira respira melhor. A comunicação feminina como força de paz Em tempos de conflitos armados ou tensões comunitárias, quem cuida primeiro dos feridos, quem consola os vizinhos, quem garante que as crianças mantêm alguma rotina, quem organiza grupos de ajuda, quem procura informação para proteger a família? As mulheres. São elas que entendem que a paz não nasce de discursos: nasce de gestos pequenos, de palavras serenas, de reconciliações discretas, de coragem silenciosa. Se queremos promover paz em Moçambique, precisamos de ouvir mais as mulheres e aprender com elas. A fé feminina que sustenta a comunidade Nas paróquias, comunidades eclesiais, grupos de oração, cânticos e actividades sociais, a força motriz é feminina. A fé das mulheres não é apenas espiritual; é prática. É fé que cozinha para funerais, que acolhe órfãos, que visita doentes, que organiza coros, que mantém viva a tradição de celebrar, rezar e agradecer. Através da palavra de fé, elas transmitem esperança num país onde a vida é, muitas vezes, dura demais. Desafios que ainda pedem resposta Para honrar verdadeiramente as mulheres, não basta celebrar Março e Abril. É preciso transformar a realidade. Entre os maiores desafios estão: Garantir educação plena para raparigas; combater casamentos prematuros; criar mecanismos sérios contra a violência doméstica; apoiar mulheres empresárias e agricultoras; aumentar o acesso das mulheres à terra e ao crédito; valorizar o trabalho doméstico, que sustenta milhões; fortalecer a presença feminina em cargos de decisão; proteger a palavra das mulheres: o direito de falar sem medo. A palavra da mulher é património nacional Quando pensamos bem, percebemos que a voz feminina moçambicana é um património cultural. É pela voz das mulheres que as

abr 08 2026

Mulher: Tesouro precioso da sociedade

Por: Coordenação Esta edição única da Vida Nova, que une os meses de Março e Abril, convida-nos a olhar para a mulher com atenção renovada. Março lembra-nos o Dia Internacional da Mulher, a 8, e Abril convoca-nos para o Dia da Mulher Moçambicana, a 7. Duas datas próximas no calendário, mas sobretudo unidas por uma mesma urgência reconhecer, valorizar e proteger a dignidade da mulher, em todas as circunstâncias da vida. Em Moçambique, falar da mulher é falar do centro silencioso da família e da comunidade. É falar da mãe que sustenta o lar, da camponesa que trabalha a terra, da vendedora que garante o pão diário, da catequista que transmite a fé, da jovem que sonha com um futuro melhor. Mas é também falar da mulher que sofre mais quando o País é ferido por desastres naturais e pela violência armada. As cheias e inundações que recentemente atingiram o Centro e o Sul do País deixaram marcas profundas. Casas destruídas, campos perdidos, famílias deslocadas. Nestes cenários, a mulher aparece muitas vezes como a primeira a organizar a sobrevivência. Cuida das crianças, dos idosos, procura água, alimento, abrigo. Faz tudo isto em condições duras, com poucos recursos e, não raras vezes, sem voz nas decisões que afectam a reconstrução. A crise ambiental não é neutra. Pesa mais sobre quem já vive em situação de fragilidade. O Magistério da Igreja tem-nos recordado, de forma clara, que o cuidado da casa comum é inseparável do cuidado das pessoas. Quando a terra é maltratada, quando os rios transbordam por falta de protecção ambiental, quando o clima se torna imprevisível, os pobres sofrem primeiro. E entre os pobres, as mulheres sofrem mais. Cuidar do ambiente é, portanto, um acto de justiça. É uma escolha moral que protege a vida, hoje e amanhã. Ao mesmo tempo, o terrorismo que desde Outubro de 2017 assola Cabo Delgado, atingindo também Memba, tem deixado um rasto de dor difícil de descrever. Deslocações forçadas, famílias desfeitas, medo permanente. Mais uma vez, as mulheres carregam um peso particular. Muitas perderam maridos e filhos, outras foram obrigadas a fugir, deixando tudo para trás. Mesmo assim, continuam a ser fonte de resistência, de cuidado e de esperança nos centros de acolhimento e nas comunidades feridas. A Igreja ensina-nos que não pode haver verdadeira paz sem justiça. A violência não se combate apenas com armas, mas com dignidade, inclusão e solidariedade. Promover a paz em Cabo Delgado passa por escutar as populações, valorizar o papel das mulheres na reconstrução do tecido social e criar condições para uma vida segura e digna. A mulher não é apenas vítima da guerra. É também artesã da paz, quando lhe é dada oportunidade. Neste tempo marcado por desafios ambientais e humanos, somos chamados a uma solidariedade concreta. Celebrar a mulher nestes dois meses não é apenas um gesto simbólico. É um compromisso. Compromisso com a vida, com a justiça, com a paz e com o cuidado da criação.

abr 07 2026

O Mukhero: A mulher no mercado informal

Por: Mónica Meque Um dos maiores desafios actuais da camada juvenil feminina em Moçambique é a busca pelo emprego formal. Actualmente, muitos jovens, as mulheres inclusive, mesmo com uma boa formação tem enfrentado o dilema do desemprego, contrariando a famosa tese que a baixa escolaridade é o maior pivô do desemprego nos Países em via de desenvolvimento. A crescente globalização, as deficientes políticas públicas, a fraca industrialização, a crise económica, os desastres naturais, o crescimento demográfico, a corrupção, entre outros factores, têm sido apontados como principais causas deste fenómeno em Moçambique. Com intuito de sobreviver, custear as despesas alimentares, de educação, de saúde, manter a sua dignidade humana, os jovens buscam de todas as formas possíveis estratégias para o alcance destes objectivos, demostrando sua determinação e resiliência perante este grande desafio. Uma destas formas é o sector informal. OIT (2006) define o sector informal como um conjunto de unidades empenhadas na produção de bens ou serviços, tendo como principal objectivo a criação de empregos e de rendimentos para as pessoas envolvidas. Em Moçambique este sector é caracteririzado como um leque de actividades não registadas pelas entidades estatais responsáveis por tal, composta por pequenas empresas, com principal intuito o sustento familiar. O mercado informal tem sido a alternativa de muitos jovens moçambicanos tanto os não escolarizados como os formados na busca de seus anseios. Este sector actualmente engloba maior parte de trabalhadores do sexo feminino, ou seja, mulheres, com maior incidência nas zonas rurais como aponta INE (2005). Mesmo com inúmeros desafios tais como a insegurança do mercado, o preconceito, a desconfiança tanto dos agentes estatais como da população, elevadas tarifas alfandegárias, várias são as mulheres que se colocam as ruas para vender produtos alimentares, de beleza, calcados, roupa de calamidade entre outros, buscando o seu sustento e o de suas famílias, demostrando assim a sua força e luta constante na autoafirmação de seus direitos e valores. Um dos exemplos concretos da batalha pela sobrevivência e afirmação dos valores e direitos da mulher assenta na firmação da popular actividade “mukhero”, que é caracterizada por ser praticada maioritariamente por mulheres, na qual deslocam-se a determinado ponto nacional ou estrageiro (maioritariamente) com maiores facilidades, em termos de preços, ou seja, mercados onde os preços praticados são relativamente baixos comparados aos do nosso País e vêm revender no mercado nacional. Porém, essa actividade não é tão fácil como parece. No seu livro sobre o “tempo da juventude”, Alcinda Honwana, elucida alguns desafios e riscos enfrentados nesta actividade. Dentre os mais destacados, estão as elevadas tarifas alfandegárias, que acabam influenciando negativamente nos lucros destas. Não menos importante, faz com que muitas mulheres optem por mecanismos não adequados como fuga ao fisco. O Mukhero tem sido uma das principais fontes de provisão de alimentos, educação e saúde de muitas famílias em Moçambique, principalmente na Zona sul de Moçambique. E, em geral, o mercado informal é um sector que muito contribui para o alívio da pobreza das famílias moçambicanas. Vários são os médicos, professores, enfermeiros, advogados, mecânicos entre outros que se formaram à custa do trabalho e esforço dos trabalhadores informais, “de uma Mãe que vendeu quase a vida inteira tomate no mercado de Maquinino para formar o seu filho”. Por isso, torna-se importante valorizar e proteger esse sector, criando segurança social para esses trabalhadores de forma a reduzir a sua vulnerabilidade; adoptando e implementando políticas eficientes, eficazes e sustentáveis; investindo nas infraestruturas como mercados entre outros. É necessário valorizar a contribuição das mulheres neste sector pois a sua inserção nas actividades económicas torna a sociedade mais equilibrada e justa. Não menos importante, como aponta o historiador Jorge Jairoce, em sua obra sobre a Mulher e o comércio informal transfronteiriço, a mulher no mercado informal proporciona um impacto directo e positivo nas relações de género, uma vez que a mulher passa a gozar da intervenção económica e social na família. Ela deixa de ser representada como mulher doméstica e submissa ao homem, no contexto da cultura patrilinear, e passa a ter voz na resolução dos problemas da família e da comunidade. Uma comunidade onde a mulher é sujeito activo tanto na vida social como na vida económica, essa comunidade torna-se abençoada e próspera.

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