E se parássemos tudo… para começar de novo?
Por Deolindo Paúa Nos últimos anos, a nossa situação como sociedade tem demonstrado uma deterioração em quase todos os âmbitos. O que se supunha ter sido conquistado parece estar em declínio e, até ao momento, tornou-se difícil prever o nosso futuro. A Perda das Conquistas Há poucos anos, quando olhávamos para o caminho que Moçambique tem trilhado, reclamávamos pelo facto de o desenvolvimento ser localizado. Todas as críticas e reclamações direccionavam-se para a existência de crescentes desigualdades — não apenas no acesso às oportunidades, mas também na falta de abrangência do desenvolvimento às zonas periféricas. Sabíamos que, desde a independência, houve conquistas. O problema era que tais avanços estavam localizados e personalizados, sendo propriedade quase absoluta de alguns. Bom emprego, saúde de qualidade, educação de primeira, cidades condignas, os melhores salários e oportunidades de financiamento — em suma, os melhores serviços públicos — tinham (e ainda têm) donos; beneficiários quase naturais a quem a “cor da bandeira” serve. Outros moçambicanos sempre viveram em serviços periféricos. Nessa ocasião, qualquer moçambicano sabia que o nosso pior problema era a desigualdade. Saúde e Educação: O Retrato da Nossa Desgraça Hoje, percebe-se que, em vez de se criar a tão reclamada igualdade, nem sequer se consegue manter o pouco que se havia conquistado. Estamos numa viagem de regresso à desgraça colectiva, ao sermos incapazes de prover serviços básicos necessários para a sobrevivência de uma nação, como a saúde, a educação e a segurança. – Um sistema de saúde em colapso: Num passado recente, exigíamos que o Governo levasse assistência médica ao meio rural. Hoje, os poucos hospitais que existiam tornaram-se apenas paredes. A qualidade da assistência baixou devido ao elevado índice de corrupção, e o Executivo tornou-se incapaz de oferecer condições para um atendimento hospitalar básico. Nos hospitais, morre-se por negligência e corrupção, mas também por falta de medicamentos elementares, como gessos, paracetamol ou antimaláricos. – Um ensino que não oferece conhecimento: As escolas perderam a importância estratégica que deveriam ter. Os programas actuais demonstram, claramente, um investimento na analfabetização das crianças. Um relatório de 2021 indicava que apenas 6 em cada 100 crianças do ensino primário sabiam ler e escrever. Esta tendência não melhorou, pois a qualidade dos professores continuou a baixar. O sistema de educação transformou-se numa oportunidade de enriquecimento por meio de comissões, e as escolas passaram a ser locais de consumo de drogas ou prostituição, em vez de moldarem sonhos e profissões. Um Passo Diário para o Fundo do Poço Não existe sociedade próspera sem educação e saúde. Uma governação que sabota essas esperanças é, sem dúvida, um projecto de sabotagem à Pátria. A nossa situação só se resolve com uma paragem para reflectir: precisamos de pensar sobre a nossa origem e sobre onde queremos chegar. Até aqui, todos os esforços aparentes não sortiram efeito. Andamos num círculo vicioso de soluções provisórias e inadequadas. Insistimos em atribuir tarefas importantes de desenvolvimento a pessoas manifestamente incompetentes, governando no interesse próprio e não no da Pátria. Enquanto investirmos mais na protecção do poder do que na protecção da Pátria, Moçambique continuará a cair na anarquia e na pobreza. O reencontro e o recomeço parecem ser as únicas soluções ajustadas para termos o nosso País de regresso. “E se parássemos tudo… para começar de novo?” Deolindo Paúa assina uma análise frontal sobre o estado actual de Moçambique, onde o declínio da saúde, a sabotagem da educação e a inversão de valores ameaçam o futuro da Pátria. Um diagnóstico urgente que aponta a corrupção e a incompetência como os principais motores da nossa desgraça colectiva.
maio 25 2026
Semana Laudato Si’ 2026: Da Esperança à Acção
Por Pe. Massimo Robol, mccj Data: 17 a 24 de Maio de 2026 Lema: “A esperança convida-nos a reconhecer que há sempre uma saída, podemos sempre mudar de rumo, podemos sempre fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS 61). Todos os anos, a Igreja une-se para celebrar a Semana Laudato Si’. Este é um momento de oração, reflexão e acção concreta que comemora a publicação da Encíclica do Papa Francisco, em 2015. De 17 a 24 de Maio, os cristãos de todos os continentes são convidados a redobrar esforços para cuidar da nossa Casa Comum e abraçar a ecologia integral. Paróquias, escolas, movimentos e famílias são chamados a participar, lembrando que a conversão ecológica cresce passo a passo, através de relações renovadas e da promoção de comunidades fraternas. Em 2026, o convite é claro: passar da esperança à acção. A esperança não é um optimismo passivo; ela é vivida através de escolhas diárias e estilos de vida solidários. Porque é fundamental participar? A interligação de tudo Ninguém pode permanecer indiferente ao destino da nossa “Mãe Terra”. Como nos recorda a Encíclica, “tudo está interligado” (LS 117). As questões sociais e ambientais caminham juntas. Além disso, a Laudato Si’ abre-nos ao diálogo com outras denominações cristãs e religiões: o cuidado da Criação é uma responsabilidade partilhada por toda a humanidade. Uma exigência de fé Para nós, crentes, o compromisso com a Criação é, antes de mais, uma exigência teológica. Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer com a desflorestação, a poluição e as alterações climáticas, cuidar da natureza torna-se uma questão de fidelidade ao Evangelho. A Igreja procura manter viva uma cultura de responsabilidade, oferecendo aquele “suplemento de esperança” que nos incita a construir um mundo mais justo e respeitador das suas criaturas. Acções concretas e coragem institucional A conversão ecológica não é algo abstracto. Vive-se no bairro, na paróquia e na família, mas exige também coragem institucional e o envolvimento da sociedade civil. É necessário apoiar decisões políticas que garantam um futuro de paz e protecção. Um exemplo actual é o apoio ao Tratado de Combustíveis Fósseis, defendido por Igrejas do Sul Global (incluindo África) e da Europa. O recente “Manifesto das Igrejas do Sul Global por nossa Casa Comum” propõe uma transição justa: a eliminação gradual e equitativa do carvão, petróleo e gás em favor de energias renováveis. O conhecimento e a divulgação destas propostas pelas comunidades cristãs já constitui, por si só, uma resposta colectiva para mitigar a crise climática. Conclusão Não deixe esta semana passar sem dar um passo. A Semana Laudato Si’ 2026 não consiste em fazer tudo, mas em fazer algo, juntos. O poder não está na perfeição, mas na participação consciente e solidária. O Que Podemos Fazer? – Agenda Laudato Si’ 2026 Para que a nossa esperança se transforme em acção concreta durante esta semana, a equipa da Vida Nova sugere alguns passos simples para a sua paróquia ou família: Oração em Comunidade:Realizar um momento de adoração ou o terço ao ar livre, agradecendo a Deus pelo dom da Criação e pedindo perdão pelas agressões à natureza. Plantio de Esperança:Organizar o plantio de árvores nativas ou a criação de uma horta comunitária na paróquia ou na escola, envolvendo as crianças da catequese. Combate ao Desperdício:Implementar a política dos “3 R’s”: Reduzir o consumo de plásticos, Reutilizar materiais e Reciclar o que for possível. Educação Ecológica:Promover uma palestra ou círculo de debate sobre o impacto das alterações climáticas em Moçambique e a importância da preservação das nossas florestas. Voz Profética:Partilhar o “Manifesto das Igrejas do Sul Global” com os líderes locais, incentivando políticas que protejam os mais pobres dos efeitos da poluição.
maio 14 2026
Bispos Católicos condenam ataques contra comunidades cristãs em Cabo Delgado
A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) manifestou, através de uma nota pastoral divulgada esta quarta-feira (13), profunda solidariedade à Diocese de Pemba e às comunidades afetadas pelos recentes ataques armados em Cabo Delgado. Os bispos condenam a destruição de igrejas, profanação de espaços sagrados e actos de violência contra civis, considerando que tais práticas atentam contra a dignidade humana, a liberdade religiosa e os valores de convivência pacífica do povo moçambicano. No documento assinado pelo presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, Dom Inácio Saure, os líderes religiosos rejeitam todas as formas de extremismo violento e alertam para o perigo da instrumentalização da religião para justificar conflitos e divisão entre os moçambicanos. A Igreja Católica defende que nenhuma crença ou interesse económico pode justificar mortes, deslocamentos forçados e destruição de comunidades. Os bispos apelam ainda ao Governo, às autoridades civis, às comunidades religiosas e à sociedade em geral para reforçarem a promoção da paz, diálogo e reconciliação nacional. A nota pastoral exorta igualmente os fiéis a intensificarem as orações pela paz em Cabo Delgado e em todo o país, pedindo esperança e apoio às famílias vítimas da violência.
maio 14 2026
Novo Magno Chanceler da UCM apresentado à Reitoria
O recém-eleito Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique, Dom António Juliasse, Bispo de Pemba, foi apresentado esta terça-feira à Reitoria da instituição, num acto conduzido por Dom Osório Citora Afonso, Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), em representação do presidente daquele organismo. A cerimónia contou igualmente com a presença de vários bispos que representam o episcopado moçambicano na universidade. A informação foi partilhada na página oficial da UCM no Facebook. Durante o encontro, Dom Osório destacou que a UCM continua a ser um projecto da Igreja ao serviço da nação moçambicana, promovendo a ligação entre a fé, a cultura e a ciência. Por sua vez, o Reitor da universidade, Padre Filipe Sungo, afirmou que a chegada de Dom António Juliasse marca o início de um caminho conjunto assente na missão educativa da Igreja e no compromisso com o desenvolvimento do país.
Estudo do CIP Questiona Receitas do Gás Natural em Moçambique
Segundo o Jornal O País, um estudo divulgado pelo Centro de Integridade Pública (CIP) e pelo Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) conclui que o Estado moçambicano poderá arrecadar entre 4 e 5 mil milhões de dólares ao longo dos 27 anos de exploração do projecto Coral Sul FLNG, em Cabo Delgado, valores muito abaixo das projecções públicas que apontam para cerca de 77 mil milhões de dólares. O pesquisador do CIP, Rui Mate, explicou que os cálculos têm como base os contratos assinados, o modelo fiscal em vigor e os preços internacionais do gás natural. De acordo com o O País, o estudo refere ainda que a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) não deverá gerar dividendos líquidos significativos até 2034, devido ao pagamento de uma dívida de cerca de 1,3 mil milhões de dólares contraída para financiar a sua participação no projecto. Os investigadores alertam igualmente para fragilidades no modelo fiscal do sector extractivo e defendem maior transparência, além da diversificação da economia nacional, com maior aposta em sectores como a agricultura, reduzindo a dependência do gás natural.
maio 13 2026
A BÍBLIA NA VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ
Por Pe. Cantífula de Castro A Bíblia é o coração da fé cristã e o fundamento de toda a catequese. A Palavra de Deus ilumina a vida, orienta a moral, inspira a oração e fortalece a esperança. Para o catequista, compreender o lugar da Sagrada Escritura na comunidade é fundamental — sobretudo num país onde muitas famílias enfrentam desafios sociais, económicos e espirituais que exigem discernimento e consolação constante. A Bíblia não é apenas um livro antigo: é Palavra viva, que continua a falar às realidades concretas do nosso tempo. Os conflitos, o sofrimento, as alegrias, as dúvidas e as conquistas do povo moçambicano encontram eco nas narrativas bíblicas. As famílias que lutam pela sobrevivência reconhecem-se na caminhada dos israelitas no deserto; os jovens que procuram sentido identificam-se com os discípulos de Jesus; e as comunidades feridas por conflitos e deslocamentos encontram consolo no anúncio profético da paz e da justiça. A Bíblia como Companheira de Caminhada A tarefa do catequista é ajudar o povo a perceber que a Bíblia é uma companheira de vida. Isso implica ensinar a lê-la com respeito, método e espírito de oração. Em muitas paróquias, a prática dos círculos bíblicos e das celebrações da Palavra torna a Escritura mais acessível, valorizando o envolvimento de todos os fiéis — inclusive daqueles que, não sabendo ler, participam através da escuta e da memória oral, traço tão marcante da cultura moçambicana. É importante reforçar que a leitura bíblica exige contexto. O catequista deve explicar o ambiente histórico e cultural onde os textos foram escritos, evitando interpretações literais ou supersticiosas que possam confundir os fiéis. A Bíblia não é um “livro mágico” para resolver problemas imediatos, mas uma fonte de sabedoria que orienta escolhas e fortalece a confiança em Deus. Liturgia, Inculturação e Missão O uso da Bíblia na liturgia é também um espaço privilegiado de formação. Nas leituras dominicais, a comunidade escuta a Palavra que ilumina os acontecimentos da vida e convida à conversão. No contexto moçambicano, é igualmente relevante promover a tradução da Palavra para as línguas nacionais. A Bíblia ressoa de forma mais profunda quando escutada em Emakhuwa, Xichangana, Elomwe, Echuwabo, Sena ou Ndau. Quando a Palavra fala a “língua do coração”, a fé floresce com mais autenticidade. Outro ponto essencial é formar os catequistas para discernir, à luz da Escritura, as situações desafiadoras da actualidade: violência doméstica, injustiça social, corrupção ou perda de valores. A Bíblia não foge à realidade; pelo contrário, desafia-a. Os profetas clamam por justiça e as cartas paulinas chamam à reconciliação. Ao escutar a Palavra, a comunidade descobre que não é chamada a guardar a fé apenas para si, mas a anunciá-la com coragem. Assim, a Bíblia torna-se presença viva e transformadora no quotidiano. Quando acolhida com fé e inteligência, ela fortalece a identidade, cura feridas e anima a caminhada de um povo que, embora enfrente muitos desertos, sabe que nunca caminha sozinho. A Palavra é, verdadeiramente, luz para os pés e esperança para o futuro.
Quando Servir Vira Sofre: Alerta de Maio para o trabalhador moçambicano
Maio, mês do trabalhador, encontra muitos moçambicanos com um cansaço que não passa no domingo. A OMS classifica burnout como “estresse crónico de trabalho não gerenciado”: exaustão, cinismo e perda de sentido. O retrato em Moçambique O estudo “Vulnerabilidade ao burnout em profissionais de saúde de um hospital público no norte de Moçambique”, publicado na Quaderns de Psicología em Julho de 2023, avaliou 300 profissionais. Os dados são alarmantes: 77,3% tinham desgaste psíquico alto, 72% alta indolência e 31,6% baixa ilusão pelo trabalho. Trabalho por turnos e ser mulher aumentaram o risco. Se acontece no hospital, ocorre na machamba, na escola, na igreja. Teologia do limite A Bíblia normaliza o descanso. Deus cessou no sétimo dia (Gn 2,2) e ordenou o sábado (Ex 20,8). Jesus se retirava para orar (Lc 5,16). Elias teve burnout em 1Rs 19: Deus respondeu com sono e comida, não cobrança. Descanso é mandamento, não luxo. Teu valor vem de seres imagem de Deus (Gn 1,27), não do teu salário. Marta servia Cristo e ouviu: “Andas inquieta” (Lc 10,41). Até ministério sem limite adoece. Moisés ia colapsar até Jetro mandar delegar (Ex 18,17-18). Três medidas para Maio Vigia os sinais: Insônia, irritabilidade, cinismo e “dor de domingo” são luz vermelha. Guarda o sábado: 24h sem email/trabalho. O cérebro precisa de off para não queimar. Negocia a carga: Fala com a liderança. Pr 15,22 diz que “planos sem conselho falham”. Neste mês dos trabalhadores, Moçambique precisa de servos saudáveis, não mártires da produtividade. Deus te chamou para frutificar (Gn 1,28), mas também disse “vinde a mim, cansados” (Mt 11,28). Descansar é mordomia do corpo, templo do Espírito (1Co 6,19). Desafio: Escolhe um sábado este mês para desligar. Deus sustenta o mundo sem ti por 24h.
maio 06 2026
Xenofobia na África do Sul: crise de segurança ou falha de solidariedade africana?
Por: Cremildo Alexandre Os recentes protestos em Durban, reportados pela SABC News, revelam uma tensão crescente em torno da presença de estrangeiros em situação irregular na África do Sul, reacendendo um debate antigo sobre xenofobia no continente. Enquanto alguns manifestantes exigem medidas mais duras do governo sul-africano, a situação expõe fragilidades profundas na convivência regional, onde cidadãos africanos, em busca de melhores condições de vida, acabam enfrentando rejeição, violência e exclusão. Países como Tanzânia e Nigéria já começaram a repatriar seus cidadãos, numa resposta prática, mas que também levanta questões sobre a capacidade de África proteger os seus próprios filhos fora das suas fronteiras. Por outro lado, Moçambique, através do Presidente Daniel Chapo, optou por um apelo à calma e serenidade, defendendo uma abordagem diplomática e cautelosa diante da crise. Essa postura procura evitar o agravamento das tensões e preservar as relações bilaterais, mas também pode ser interpretada como insuficiente diante do sofrimento de cidadãos afetados. A xenofobia, neste contexto, não é apenas um problema de imigração, mas um desafio moral e político para todo o continente africano, que historicamente defendeu a unidade e solidariedade entre os seus povos. Afinal, até que ponto os países africanos estão realmente comprometidos com a proteção e dignidade dos seus cidadãos além-fronteiras?
maio 06 2026
O trabalho, na Bíblia: maldição ou bênção?
Por: Pe. Marcos Mubango Introdução É muito generalizada a ideia segundo a qual o trabalho é uma maldição, fundamentando essa visão na Sagrada Escritura. Maio é mês trabalhador. Vamos dedicar o nosso espaço deste mês a perceber como, na verdade, a Bíblia vê o trabalho: bênção ou maldição? 1. O trabalho, uma maldição? A ideia de que o trabalho é uma “maldição” vem principalmente de uma interpretação comum de Gn 3,17 onde, após o pecado de Adão e Eva, Deus profere palavras que associam o trabalho a dor, cansaço e esforço extremo, dizendo a Adão: “maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida”. Estas palavras de Deus são interpretadas como uma punição divina que tornou o trabalho maldito. A visão negativa do trabalho é reforçada pela perspectiva negativa dada ao termo ’abodah, palavra hebraica para trabalho, em Êxodo 5, 9-18, onde é usada para significar “servidão”, “trabalho forçado”, referindo-se à “escravidão” dos hebreus no Egito, imposta pelo Faraó, como um mecanismo de opressão e punição, para mantê-los exaustos e impedi-los de ouvir as promessas de libertação de Moisés. A visão negativa do trabalho na Bíblia é reforçada ainda pelo livro do Eclesiastes que o apresenta, muitas vezes, como “vaidade”, especialmente quando o esforço não traz satisfação real. Como se pode facilmente constatar, parece haver uma progressão na maldição do trabalho que, além de ser “penoso” (Gn 3,17), impedindo qualquer tentativa de libertação (Ex 5,9-18) e, finalmente, é um “correr atrás do vento” (Ecle 6,1). 2. O trabalho, uma bênção! Uma diferente interpretação das passagens acima citadas (Gn 3,17; Ex 5,9-18 e Ecle 6,1) mostra-nos o contrário, ou seja, que o trabalho é uma dádiva de Deus, uma bênção, e não uma maldição. O trabalho é algo bom e digno, antes de tudo, porque é uma extensão da ação criativa de Deus. Deus trabalhou na criação do universo (Cf. Gn 2,2-3) e trabalha continuamente para a manutenção da vida e para a redenção humana (cf. Jo 5,17). O trabalho humano é uma participação na obra criadora de Deus, pois ele, criado à imagem de Deus, é chamado a administrar, desenvolver e dar continuidade à criação, agindo como colaborador de Deus no mundo. Esta vocação dignifica o ser humano, permitindo que, através de seus dons, intelecto e esforço, transforme a realidade e contribua para a construção da sociedade. Aliás, como nos mostra Gênesis 2,15, o trabalho faz parte do plano original de Deus que coloca o homem no jardim do Éden com a tarefa de torná-lo produtivo e protegê-lo, servindo a Deus e ao próximo. Em Gn 3,17-19, Deus amaldiçoa a terra e não o trabalho em si. A maldição da terra trouxe futilidade e dor para a atividade laboral que em si é boa. O trabalho, natural e prazeroso, se torna penoso por causa da ruptura da comunhão do homem com Deus, que torna a terra menos produtiva, forçando o homem a trabalhar de forma penosa para obter o sustento. Em Êxodo 5,9-18, o trabalho não é descrito como uma maldição em si, mas transformado em um instrumento de opressão e castigo devido à crueldade do Faraó. Trata-se, portanto, de uma instrumentalização do trabalho que é usado para “calar a boca” dos israelitas, impedindo-os de pensar na liberdade ou de ouvir Moisés. Isso demonstra que o trabalho, que deveria ser digno, pode ser pervertido pelo pecado humano em exploração e escravidão. Para o Eclesiastes, o trabalho é considerado uma bênção e dádiva de Deus na medida em que permite o homem desfrutar dos seus frutos (Ecle 3,13.22). Entretanto, o trabalho se torna “vaidade” quando a pessoa trabalha incessantemente e não consegue aproveitar o que acumulou, deixando tudo para outros que não se esforçaram. A maldição não está no trabalho, mas na ganância, no stress e na incapacidade de aproveitar o fruto do próprio trabalho (Ecle 6,2). Qohelet sugere, assim, a necessidade de equilíbrio no trabalho, isto é, trabalhar com dedicação, mas também desfrutar da vida, reconhecendo que a verdadeira satisfação vem de Deus, não apenas do acúmulo de riquezas. Esta visão positiva do trabalho é reforçada pelo Novo Testamento onde o trabalho é visto como uma bênção, vocação e dádiva divina, e não como um castigo ou maldição. Jesus, ao ser conhecido como filho do carpinteiro (cf. Mt 13,55), valoriza o trabalho manual como parte do plano divino. No seu ministério, Jesus ensina que Deus valoriza o empenho e é generoso, não baseando a recompensa apenas no tempo trabalhado, mas na graça e no chamado (cf. Mt 25,14-30). S. Paulo também valorizava profundamente o trabalho, tanto em um sentido prático quanto espiritual. Ele não apenas pregava a importância do esforço, mas também o praticava como fabricante de tendas (Act 18,3) para sustentar seu ministério e não ser um fardo para as comunidades. O trabalho é um acto de adoração (cf. Col 3,23-24), uma maneira de viver a vida digna e respeitável, garantindo a autonomia financeira e evitando ser um fardo para os outros (cf.1 Ts 4,11-12). O trabalho, quando feito no Senhor, nunca é fútil (cf.1 Cor 15,58). Conclusão Na Bíblia, o trabalho é considerado uma bênção divina e uma vocação original do ser humano, instituída por Deus antes da queda do homem, e não um castigo. Ele é visto como uma forma de honrar a Deus, desenvolver o caráter, obter sustento e servir ao próximo, sendo um meio de realização pessoal e de exercer a administração da criação. No mês dos trabalhadores, peçamos a Deus para que nos livre da tentação da instrumentalização, da exploração e da busca incessante por lucro, e nos capacite a valorizar a dignidade humana e a justiça no trabalho, fazendo dele um meio de servir a Deus e prover sustento com dignidade.
maio 05 2026
Crónica: Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros
Por Giovanni Muacua Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros. A vida é um dom sagrado de Deus, oferecido gratuitamente a cada ser humano, independentemente da sua condição social, económica, cultural ou religiosa. Apenas a Deus compete dar e tirar a vida. Nenhum ser humano, por mais poderoso, rico ou influente que seja, tem autoridade para decidir sobre a vida do outro — muito menos quando essa decisão é movida pela ambição, pela ganância ou pela sede insaciável de riqueza. Vivemos tempos difíceis, marcados por uma profunda crise de valores humanos, morais e espirituais. As relações entre as pessoas tornaram-se frias, calculistas e perigosamente individualistas. Cada um parece preocupar-se apenas consigo mesmo, com o seu sucesso pessoal e com o seu bem-estar imediato, colocando a vida do próximo em segundo plano. Vive-se como se o sofrimento alheio fosse irrelevante, como se a dor do outro não tivesse importância alguma. Este modo de viver revela uma sociedade ferida e doente, que perdeu o sentido do sagrado e da fraternidade. Neste contexto, ganha força uma lógica perversa, segundo a qual “os fins justificam os meios”. Trata-se de um verdadeiro maquiavelismo social, no qual não importa como se alcança a riqueza ou o poder, desde que o objectivo final seja atingido. Esta lógica é profundamente desumana e anticristã. É uma visão pagã da vida, que transforma o ser humano em instrumento e não em fim. No entanto, a fé cristã recorda-nos que todos fomos criados para viver, para amar e para cuidar uns dos outros, enquanto caminhamos nesta terra à espera da segunda vinda de Cristo, nosso Salvador. Todos havemos de morrer. Esta é uma verdade incontornável. A morte não escolhe classe social, não respeita estatutos nem títulos. Morrem ricos e pobres, jovens e velhos, fortes e fracos, negros e brancos. A morte coloca todos no mesmo nível e recorda-nos que as riquezas acumuladas, muitas vezes com tanto sacrifício e violência, não acompanham ninguém para o túmulo. O que permanece é apenas a memória das nossas acções e a responsabilidade diante de Deus. Por isso, qualquer riqueza construída sobre a morte, o sofrimento e o sangue de outros seres humanos não conduz à felicidade verdadeira. Uma riqueza que nasce de assassinatos, sacrifícios humanos, feitiçaria ou práticas ocultas não traz paz interior, não gera segurança nem alegria duradoura. Pelo contrário: cria medo, desconfiança e destrói famílias inteiras, levando, inevitavelmente, à condenação moral e espiritual. É triste e revoltante constatar que estas práticas não são apenas histórias antigas ou lendas urbanas. Elas acontecem no seio das nossas comunidades, muitas vezes dentro das próprias famílias. Há tios, irmãos e pais que, movidos pela ganância, recorrem a feiticeiros e curandeiros para “fortalecer” os seus negócios, acreditando que a prosperidade só será possível à custa da morte ou da desgraça de alguém próximo. Em muitos casos, as vítimas são os próprios filhos, netos ou sobrinhos. Essas pessoas enriquecem rapidamente, exibem sinais exteriores de sucesso e sentem-se invencíveis. No entanto, esquecem-se de que também elas vão morrer. E, quando esse dia chegar, terão de prestar contas a Deus por cada vida destruída, por cada lágrima derramada, por cada injustiça cometida. Deus é paciente, mas é justo. A sua justiça pode tardar, mas nunca falha. Que sucesso é esse que se constrói sobre o medo, a morte e a destruição dos laços familiares? Nenhuma pessoa que vive da bruxaria está isenta da morte. Nenhuma prática oculta pode salvar alguém do juízo divino. Há pessoas que já não conseguem dar um passo sem recorrer à feitiçaria: para estudar, para trabalhar, para casar ou para enriquecer. Toda a vida passa a ser governada pelo medo e pela dependência do mal. Este tipo de vida não traz felicidade verdadeira; gera angústia, insegurança e isolamento. Viver sabendo que os próprios familiares o temem, não por respeito, mas por medo, é uma tragédia humana. Um bom pai, um bom tio ou um bom irmão não é aquele que enriquece destruindo a vida dos outros, mas aquele que protege, educa, orienta e promove a vida em abundância. É importante afirmar com clareza: para enriquecer, ninguém precisa de matar ninguém. Não é necessário destruir vidas para alcançar estabilidade económica. O trabalho honesto pode ser lento e difícil, mas preserva a dignidade humana e a paz de consciência. A pobreza vivida com dignidade vale muito mais do que a riqueza manchada de sangue. No fim, não seremos julgados pela quantidade de bens acumulados, mas pela forma como respeitámos a vida, promovámos a justiça e cuidámos uns dos outros. Quem tem ouvidos, ouça!
