ago 14 2021
EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS
Frei Carlos Mesters, Carmelita 6ª Chave Primeira Característica EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS João teve muitas visões, algumas delas muito estranhas. Ele viu animais com seis asas, cobertos com olhos ao redor e por dentro (Ap 4,8); um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5,6); cavalos com cabeça de leão e rabo de escorpião (Ap 9,17.19), uma besta-fera com sete cabeças e dez chifres (Ap 13,1), cujo número é 666 (Ap 13,18); uma cidade, bonita como uma noiva que desce do céu (Ap 21,2), e assim por diante! Ele enche o Apocalipse de números: 3, 4, 10, 1000 e suas combinações: 7 (3+4); 12 (3×4); 40 (4 x10); 144.000 (12x12x1000). É um outro mundo! Estranho, irreal, diferente do nosso! E o que dizer do número 666 da Besta Fera? (Ap 13,18). Há muitas interpretações. A mais provável é que se trate de uma alusão ao rei Salomão que, por ano, tirava 666 talentos de ouro, i.é, 23 toneladas, dos agricultores da Palestina (1Reis 10,14). Além disso há o uso de números para indicar as letras. Por exemplo, VI significa seis. Assim, o número de C-e-s-a-r – N-e-r-o-n é 666. Como é que visões tão estranhas podem clarear a situação do povo? Por que João não usa a linguagem comum como, por ex., Lucas faz nos Atos e Paulo nas cartas? O que será que o Apocalipse quer alcançar com estas visões? Vamos dar aqui seis respostas. Trazer conforto e coragem na luta O Apocalipse de João traz visões grandiosas: Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18), o Trono de Deus (Ap 4,2-8), o Cordeiro imolado (Ap 5,6-14), a Mulher e o Dragão (Ap 12,1-6). Talvez não entendamos logo o seu significado em todos os detalhes. Mesmo assim, experimentamos algo. É como o menino que passeia com o pai. O menino nada entende do que seja força e proteção. Mas ele sente a força e a proteção do pai, pois vai tranqüilo, sem medo, ao lado dele! Assim, a visão de Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18) não diz o que é força e proteção. Mas faz o povo sentir a força e a proteção de Jesus ressuscitado, caminhando com ele, ao lado dele! Transformar a saudade em esperança As visões do Apocalipse de João estão cheias de imagens tiradas do Antigo Testamento. A história do povo é lembrada ou evocada, às vezes, por uma única palavra. Algumas visões nada mais são do que construções novas, feitas com os velhos e já conhecidos tijolos do AT. Por que as visões recorrem tanto ao Antigo Testamento? O AT era o passado do povo. Passado bom, onde Deus tinha manifestado a sua presença com grandes milagres. Muitos lembravam o passado apenas para curtir a saudade: “Antigamente sim! Mas hoje…! Deus não aparece mais!” Ora, as visões recheadas com frases e lembranças do Antigo Testamento, transformam este passado num espelho. É como se estivesse acontecendo de novo, agora! Elas despertam a memória, desobstruem o caminho da fonte que existe dentro do povo e, aos poucos, a energia do passado vai acordando, o véu vai caindo, o povo se reencontra e a caminhada se ilumina: “Deus continua agindo! O mesmo Deus de antigamente! Ele não mudou de lá para cá! Ele está conosco!” A saudade se transforma em esperança: Não podemos desanimar! Comunicar ao povo algo da paz de Deus Às vezes, pessoas medrosas e não engajadas usam o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta: “Deus faz tudo! A nós cabe assistir e esperar!” Mas este não era o caso das comunidades da Ásia para as quais João escrevia o seu livro. Não havia o risco de elas usarem o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta, pois já estavam na luta, há muitos anos. O problema delas era outro: como fazer para não desanimar da luta, pois estavam meio perdidas e desanimadas na frente de batalha (Ap 6,10). O Apocalipse de João achou uma resposta. Por meio das visões, João transporta as comunidades para dentro do céu (Ap 4,1), para perto do trono de Deus (Ap 4,2-11), onde está o quartel general do Cordeiro que lidera a batalha (Ap 14,15; 17,14; 7,9-17). Lá do alto, do centro das operações, elas contemplam a luta com os olhos de Deus. Descobrem que as ameaças e pragas não são para os oprimidos, mas sim para os opressores do povo, e experimentam que, apesar de difícil, a luta já está ganha (Ap 14,9-12; 17,14). Assim, as visões comunicam algo da paz com que Deus, sereno, lá do alto, comanda a luta contra a injustiça e a opressão (Ap 11,14-18; 12,10-11). As comunidades fincam a sua raiz em Deus e a tempestade das perseguições já não consegue arrancá-la. Elas voltam para a luta bem mais animadas, com sabor de vitória. Defender-se contra os opressores do povo Em época de perseguição, todo cuidado é pouco. Dizer abertamente que o império romano era o grande inimigo a ser combatido podia dar prisão. João achou um jeito para dizê-lo de outra maneira. Por exemplo, para explicar o mistério da grande prostituta, sentada sobre a besta-fera com sete cabeças (Ap 17,3), ele diz: “Aqui é preciso ter inteligência para poder discernir: as sete cabeças são sete colinas sobre as quais a mulher está sentada” (17,9). Todos sabiam que a cidade de Roma, sede do Império, estava construída sobre sete colinas. Para o bom entendedor, meia palavra basta! Em outro lugar, João diz: “Quem tem inteligência é capaz de calcular o número da besta, pois é um número de gente. Seu número é 666!” (Ap 13,18). De acordo com o número de cada letra, o leitor calculava e descobria a mensagem: a besta é o imperador de Roma que persegue os cristãos. As visões com seus símbolos eram um meio para esclarecer o povo perseguido e defendê-lo contra os seus opressores. Elas revelavam a sua mensagem aos oprimidos e a escondiam aos opressores. Deus manda ser bom, mas não bobo! Fazer-se entender pelo povo das comunidades Um cartaz com desenhos transmite muito mais do que só falar. Uma dramatização é mais
ago 14 2021
SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA
LITURGIA DA PALAVRA LEITURA I – Ap 11,19a;12,1-6a.10ab SALMO RESPONSORIAL – Salmo 44 (45) LEITURA II – 1 Cor 15,20-27 EVANGELHO – Lc 1,39-56 TEMA: NOSSA MÃE É ELEVADA AO CÉU MAS ESTÁ MAIS PERTO DE NÓS Hoje, Jesus ressuscitado acolhe a sua mãe na glória do céu. Hoje, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua mãe a coroa de doze estrelas. O dogma da Assunção foi definido no ano de 1950, durante o pontificado de Pio XII. É uma solenidade que, correspondendo ao natal (morte) dos outros santos, é considerada a festa principal da Virgem. A Igreja celebra hoje em Nossa Senhora a realização do Mistério pascal. Sendo Maria a “cheia de graça”, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus. Maria carrega muitos títulos que mostram a sua grandeza entre todos os homens e mulheres da face da terra. A ladainha de Nossa Senhora é o resumo daquilo que é Maria. Maria, imagem da Igreja. Como Maria, a Igreja gera na dor um mudo novo. E como Maria, participa na vitória de Cristo sobre o Mal. Maria, glorificada na Assunção, é a criatura que atingiu a plenitude da salvação, até a transfiguração do corpo. É a mulher vestida de sol coroada de doze estrelas. É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus. A Mãe do Senhor é a imagem da Igreja: luminosa garantia de seu destino de salvação, porque o Espírito do Ressuscitado cumprirá plenamente sua missão em todos nós, como o fez nela, que já é aquilo que nós seremos. Maria assunta ao céu é garantia de que o homem todo se salva, de que os corpos ressurgirão. Para o cristão, a salvação é a ressurreição dos corpos, um mundo novo e a terra nova. Na Eucaristia, pão de imortalidade, se encontram os alimentos-base do homem, frutos da terra, da videira e do trabalho do homem; é precisamente a Eucaristia a garantia quotidiana de que a salvação atinge o homem todo na sua situação concreta, +ara arrebatá-lo à morte, a mais terrível inimiga do progresso. Convidamos a rezar com Maria porque ela está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do seu filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!” Rezar com Maria, mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus. Compromisso Pessoal Glorificar a Deus pelo dom de viver Exultar ao Senhor pelas maravilhas que Ele opera em nós Alegrar-se no Senhor por cuidar de nós.
ago 13 2021
APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO
Frei Carlos Mesters, Carmelita 5ª Chave APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO O Apocalipse é Boa Nova porque comunica conforto e esperança a um povo em crise, ameaçado na sua fé. A crise tinha duas causas, ligadas entre si. A externa: a perseguição e as mudanças na sociedade. A interna: a falta de visão e de fé, as divisões e o cansaço. Deus parecia ter perdido o controle da situação. Os opressores pareciam ser os donos da história. Muitos se perguntavam: “Será que vale a pena continuar a participar da comunidade?” O Apocalipse enfrenta este problema e ajuda o povo a perceber e a combater as causas da crise. Ele tira o véu dos fatos e revela o outro lado, o lado escondido que só a fé é capaz de enxergar, e faz o povo saber que os acontecimentos não estão escapando da mão de Deus. Os poderosos parecem ser os donos do mundo, mas, na realidade, o seu poder é limitado por Deus. A Boa Nova do Apocalipse é esta: Deus continua sendo o Senhor da história! Ele conduz o seu povo para a vitória final. Ninguém, por mais forte que seja, consegue mudar o rumo do plano de Deus. Os opressores do povo vão ser derrotados e condenados, todos! A ressurreição de Jesus o garante! Este anúncio forte e vigoroso desloca o peso da balança. De um lado, enfraquece a carga da perseguição (causa externa). Do outro lado, fortalece o peso da fé (causa interna). O povo se equilibra de novo na vida. Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo agradece, explode em cânticos de alegria e se dispõe a resistir. Entoa, desde já, o canto da vitória, como Miriam, irmã de Moisés, depois da travessia do Mar Vermelho. Depois dos Salmos, o Apocalipse é o livro da Bíblia, em que mais se canta! Por isso, qualquer interpretação do Apocalipse feita para meter medo nas pessoas deve ser considerada como errada e falsa! Já não seria Boa Nova para os pobres. Seria o mesmo que usar o sol para molhar ou a água para enxugar! As várias maneiras de se anunciar a Boa Nova de Deus No início, os cristãos criaram várias formas para transmitir a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe: em forma de história (Atos dos Apóstolos), de carta (Paulo), de cântico (Maria, Zacarias), de evangelho escrito (Mateus, Marcos, Lucas, João), e em forma de apocalipse. Quem transmite uma mensagem em forma de cordel, deve conhecer o ritmo da poesia do povo. Quem o faz em forma de história em quadrinhos, deve saber desenhar. Quem o faz em forma de uma canção, deve entender de música. E quem anunciava a Boa Notícia de Deus em forma de apocalipse, o que ela ou ele devia saber ou fazer? Costumava fazer as coisas que caracterizam o jeito próprio dos apocalípticos transmitirem sua mensagem ao povo perseguido das comunidades: (1) expressar tudo por meio de visões e símbolos; (2) dividir a história em etapas para situar o momento presente; (3) usar linguagem radical de oposição entre o bem e o mal. Entender bem estas três coisas ajudará a esclarecer grande parte das dificuldades que o Apocalipse costuma provocar em nós. Vamos ver de perto estas três chaves. É o que vamos ver de perto nas próximas três chaves
ago 11 2021
A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO
Frei Carlos Mesters, Carmelita 3ª Chave A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO Apocalipse 1,1-20 Ap 1,1-3: A Apresentação. Aqui batemos na porta Ap 1,4-8: A Saudação. João vem abrir e convida para entrar Ap 1,9-20: A Visão Inaugural João nos coloca em contato com Jesus O primeiro capítulo do Apocalipse de João é uma amostra do que vem a ser o livro e a sua mensagem: (1) informa sobre a natureza do livro; (2) apresenta-o como uma carta carinhosa escrita por uma pessoa amiga para comunidades perseguidas que precisavam de animação e de orientação; (3) cria o ambiente, no qual o livro deve ser lido; (4) envolve as comunidades numa celebração, em que possam experimentar a presença de Jesus ressuscitado, vivo no meio delas. Apocalipse 1,1-3: Apresentação do livro: Revelação de Jesus Cristo Estes versículos iniciais oferecem informações sobre a natureza do Apocalipse, sua origem, seu valor ou autoridade, seu autor, conteúdo e destinatários. Mostram ainda como o livro deve ser lido e interpretado, qual a exigência de compromisso e qual a recompensa que a sua observância traz consigo. A palavra Apocalipse significa re-velação. Jesus é o autor da Revelação. Ele nos revela “as coisas que devem acontecer em breve” (Ap 1,1). Há uma hierarquia na maneira de comunicar a revelação: A sua origem está em Deus, que a transmite a Jesus, que a entrega ao Anjo, que a manifesta a João, que a comunica aos Servos, que devem testemunhá-la diante da humanidade. O Apocalipse é Profecia (1,3), mas não é profecia no sentido de Nostradamus ou dos videntes que entram em ação na véspera de cada Ano Novo. Para estes, a profecia é uma adivinhação, nascida da curiosidade que quer conhecer o futuro. O Apocalipse não deve ser lido como se lá dentro pudéssemos encontrar referências abertas ou veladas ao nosso tempo. Isto seria uma tentativa irreverente do ser humano para penetrar no mundo de Deus e arrancar dele o segredo do futuro. Profecia no sentido do Apocalipse é o contrário. É Deus que, através de Jesus, penetra no nosso mundo, na nossa história, e se dá a conhecer através das palavras de João. Com a ajuda da Palavra de Deus, contida no Antigo Testamento, e do Espírito de Jesus (Jo 14,26; 16,13; Ap 1,10; 4,2), chamado Espírito da Profecia (Ap 19,10), João revela, tira o véu, e nos faz conhecer a ação de Deus na história. Até hoje, as nossas comunidades, animadas pelo Espírito de Jesus e orientadas pela Palavra de Deus, descobrem e partilham entre si a ação deste mesmo Deus, sempre presente na vida e na história do seu povo. Apocalipse 1,4-8: Saudação inicial: em Nome da Trindade Santa Nós dizemos: Pai, Filho, e Espírito Santo. O Apocalipse diz: É-Era-Vem; os Sete Espíritos; Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos Reis da terra. No fim do primeiro século, a doutrina era como uma flor que brotava diretamente da experiência vivida das comunidades. Nestes nomes, João diz o que eles esperavam do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Hoje, para muitos de nós, a doutrina cristã é como a flor que foi cortada da experiência e está guardada no caderno do catecismo. Flor bonita e colorida, mas seca, sem vida. Apocalipse 1,9-20: “Não tenham medo! Estive morto, mas estou vivo!” A visão de Jesus ressuscitado é o grandioso painel de entrada do Apocalipse. Nele João transmite a experiência que ele mesmo teve da ressurreição. É o resumo e o centro da mensagem que ele quer comunicar às comunidades cansadas e perseguidas da Ásia Menor. É para que elas possam ter a mesma experiência da presença viva de Jesus ressuscitado no meio delas. Pois só assim serão capazes de superar o medo da morte e de acreditar na vida. Esta visão inicial nos coloca em contato direto com a linguagem dos símbolos, própria do Apocalipse. É uma linguagem, cujo valor não estão só naquilo que é dito, mas também naquilo que é sugerido e evocado. Por isso, o intérprete não deve querer explicar racionalmente todas as palavras, mas sim fazer o possível para levar o leitor, a leitora, a ter a mesma experiência que está na raiz do símbolo. Convém ler a visão inaugural de Jesus como se contempla uma pintura, como se assiste a um drama, como se ouve uma música. A linguagem simbólica faz com que escritor e leitores sintonizem na mesma freqüência ou con-spiração (ação comum do espírito), e tenta fazer com que a con-spiração se torne em ambos uma in–spiração comum, um chão comum. A gente talvez não entenda logo o significado de todos os detalhes: túnica longa, cinto de ouro, cabelos brancos, olhos como chamas de fogo, pés de bronze incandescente, voz como o estrondo de cataratas de água, sete estrelas na mão direita, espada afiada de dois gumes saindo da boca, o rosto como sol em pleno brilho do meio dia! Mas, mesmo sem entender, adivinhamos algo de grande e de muito importante para a vida. São imagens poderosas que falam por si. É como acontece com música bonita: todos gostam de ouvir e se sentem bem, mas só pouca gente entende de música. Música é feita não para quem entende, mas para quem gosta dela e se reanima ao ouvi-la! Esta visão de Jesus, colocada no início do livro, é como a obra de arte colocada na entrada da igreja. Toda vez que você entra, terá que olhar de novo, pois a gente não dá conta de abarcá-la de uma vez. Tem que voltar sempre para ver de novo, meditar, até que ela entre em você e lhe comunique a sua mensagem. A Primeira Palavra de Jesus no Apocalipse: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente!” A primeira reação de João é de medo: Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Era a reação normal diante da manifestação de Deus (Dn 10,9; Is 6,5; Ex 3,6). Mas não é só isto! A atitude de medo de João reflete também a situação das comunidades. Ameaçadas por dentro e por fora pelo poder do império e pelas tensões internas, elas estavam prostradas e com medo. Estavam
ago 10 2021
DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE
Frei Carlos Mesters, Carmelita 2ª Chave DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE Quando dizemos: “Fulano é um sujeito apocalíptico!”, costumamos indicar uma pessoa que só fala em desastres e fim do mundo. Quando dizemos: “Fulana é uma profetisa!”, indicamos uma pessoa, cuja palavra tem uma mensagem importante para os outros. Como explicar esta diferença? Profecia e Apocalipse não são ambos manifestações do mesmo Espírito de Deus e fontes de espiritualidade para o mesmo povo de Deus? Muitas vezes, se diz: “Temos que ser profetas!” Nunca se diz: “Temos que ser apocalípticos!” Pelo contrário! A palavra apocalíptico parece ter uma apreciação negativa. As igrejas até costumam reagir para manter fora de casa os ares aparentemente confusos e incômodos do movimento apocalíptico. Mesmo assim, o movimento pentecostal-apocalíptico cresce como uma bola de neve. Cresce em toda a parte, sobretudo entre os mais pobres e excluídos. Assim acontecia no fim do primeiro século. Assim acontece hoje. No Antigo Testamento, antes do exílio, no período dos Reis, entre 1000 e 587 aC, não havia Apocalípticos, mas havia muitos Profetas. Depois do exílio, de 587 aC até 100 dC, depois que os grandes impérios tomaram conta do mundo, os profetas começaram a desaparecer e apareceram os apocalípticos que produziram uma abundante literatura entre o século IV aC e o século II dC. Como se explica esta mudança? Qual a relação entre apocalipse e império, entre o movimento apocalíptico e a situação sócio-política e econômica em que o povo vive? Desde o início da monarquia, em torno do ano 1000 antes de Cristo, até o exílio, 587 aC, os profetas faziam parte da vida do povo de Israel. Eles eram a consciência falante do povo de Deus. Depois do exílio, porém, o povo dizia: “Não existem mais profetas” (Sl 74,9). Chegaram a dividir a história em dois períodos: o período em que havia profetas, e o período “em que já não havia mais profetas” (1 Mc 9,27). Falava-se dos “antigos profetas” (Zac 1,4; 7,7; cf Ez 38,17). Coisa do passado! Tinham até feito uma lista que já estava completa e encerrada: “doze profetas” (Ecli 49,10). E diziam: “Antigamente, Deus falava para a gente, agora já não fala mais!” (Sl 99,6-8). O povo constatava a mudança, mas não sabia explicar por que Deus já não se manifestava como antes. Achavam que “a mão de Deus tinha mudado” (Sl 77,11). Só ficou a saudade, cada vez mais forte, dos antigos profetas! Assim, durante os mais de 400 anos do período dos reis, eles tiveram profetas. Durante mais de 500 anos, desde o exílio até João Batista, viveram sem profetas! É neste período sem profetas que surge o movimento apocalíptico como nova forma de profecia, como nova manifestação do Espírito, como nova espiritualidade. Qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera a profecia, e qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera o movimento apocalíptico? A experiência humana em que surge e floresce a profecia Os profetas do tempo dos Reis viviam numa época em que era possível abarcar e controlar a situação. O espaço em que viviam, o território, era limitado e podia ser defendido e governado. O povo que vivia dentro deste território podia ser convocado, recenseado e cobrado. Eles eram donos do espaço em que viviam. Tinham autonomia política. Todos professavam a mesma religião, tinham fé no mesmo Deus. Todos eram súditos do mesmo rei, tinham o mesmo compromisso de observar a Aliança. Eles eram uma nação independente, senhora do seu próprio destino, da sua própria história. Era dentro deste espaço limitado que eles procuravam viver a sua fé em Deus, observando a Aliança. Na origem da ação profética está uma experiência humana muito profunda e muito comum até hoje. Quando, diante de uma injustiça, você percebe que tem a possibilidade de fazer algo para mudar a situação, então, dentro de você, nasce um sentimento de responsabilidade que o faz dizer: “Não posso ficar parado! Deus está me chamando! Devo fazer alguma coisa!” Não é assim? Pois bem, a ação profética nasce desta consciência forte que, de vez em quando, surge em nós de que podemos e devemos fazer algo para mudar a situação. A teologia da Libertação é profética. Ela nasceu da consciência e da possibilidade que se entrevia de nós cristãos podermos interferir no rumo da história da América Latina e de transformarmos a situação de acordo com as exigências da Aliança, do Evangelho. Ela usa expressões que traduzem a mesma experiência: ser sujeito da história, assumir nossa responsabilidade diante dos fatos, responder diante de Deus pelo que acontece no país, cumprir nossa tarefa de transformar a situação. A mudança que ocorreu O exílio da Babilônia (598 aC a 537 aC) provocou uma grande mudança, pois quebrou o sistema sócio-político em que o povo vivia no tempo dos reis. Em 598, a elite (rei, sacerdotes, falsos profetas, nobres e chefes) foi levada para o exílio (2Rs 24,10-17). Dez anos depois, em 587, o pouco que restava da liderança foi preso e morto (2Rs 25,1-21). Jerusalém, a capital, junto com o Templo, o santuário do rei, tudo foi destruída. Todos ficaram sob o domínio do poder estrangeiro, sem mais nenhum recurso para poder controlar a situação. Já não eram Estado nem Nação, mas apenas uma comunidade étnica, perdida num império multi-racial, sem independência política, sem exército, sem rei. O espaço livre ficou muito reduzido e, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez menor. O pouco poder que lhes sobrou se concentrava em torno do Sacerdócio que controlava o Templo e em torno dos doutores ou escribas que controlavam a explicação da Lei. Anteriormente, na época da monarquia, o povo experimentava o mundo, o tempo (história) e o espaço (território) como entregues à sua própria responsabilidade. Esta experiência despertava nele a vontade de interferir no rumo das coisas e gerava a profecia. Quando, naquele tempo, o povo do campo era oprimido pelos poderosos, ameaçado de perder suas terras, surgiam profetas como Amós, Miquéias, Isaías e Jeremias. Eles enfrentavam os poderosos e cobravam deles o compromisso da Aliança. A fé
ago 10 2021
“JAMAIS PEDIRIA PARA SAIR”
A história de Moçambique habituou-nos cenários de aparente hostilidade contra a Igreja. Num relatório de 1973 a PIDE sugeria a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o território moçambicano. Em Fevereiro de 1974, foi publicada uma carta denominada “Imperativo de Consciência”, assinada por Dom Manuel Vieira Pinto e todos os missionários combonianos presentes em Moçambique (34 padres, 19 irmãos leigos e 41 irmãs). Essa carta era uma manifestação contra a política colonial, contra a continuação da guerra e contra o silêncio da Igreja Católica em Moçambique. Fruto da polémica instalada, o Governo deu ordem de expulsão a 11 missionários combonianos (nove italianos e dois portugueses) e Dom Manuel Vieira Pinto, que chegou a Lisboa nas vésperas de 25 de Abril. Entre 1974 e 1977, vários bispos moçambicanos pediram para sair das suas dioceses. Vieira Pinto voltou para Nampula. Na época da revolução, a seguir a independência, a Igreja foi vista como um perigo ou inimigo a abater. Pois, a construção de um Novo Homem nascido da revolução moçambicana, cujo ideal foi consolidado no III Congresso da Frelimo, em 1977, exigia que a sociedade moçambicana deveria estar afastada das crenças consideradas “supersticiosas e obscurantistas” e caberia ao Estado levar ao povo uma perspectiva materialista e científica do mundo. Neste sentido, o governo da Frelimo adoptou uma postura de restrição e perseguição às diversas confissões religiosas no país. Mas antes do Congresso havia igualmente uma política antirreligiosa. Considerava-se que os missionários eram agentes a favor do imperialismo, as Igrejas transformavam os seus ensinamentos em dogmas que escravizavam, e que faziam acreditar que a miséria e a opressão do povo eram algo imutável. Em 1976 a Conferência Episcopal de Moçambique publicou uma Carta Pastoral onde os bispos destacam que cerca de 600 missionários deixaram o país entre 1975 e 1976, muitos deles por dificuldades de adaptação à nova realidade, por traumas pelos acontecimentos que acompanharam a Revolução, por serem expulsos pelo governo ou impedidos de entrar novamente no país. Em Junho de 1977 Dom Manuel Vieira Pinto escreveu uma carta onde criticava o ideal de Homem Novo. “(…) Uma coisa é combater o obscurantismo, a superstição, os preconceitos, outra coisa é combater a religião. Confundir, sem mais, obscurantismo e religião é cometer um erro grave. Infelizmente não falta quem o faça, provocando assim na consciência do Povo, particularmente na consciência dos continuadores, novos preconceitos, novas formas de obscurantismo. Também não será correcto confundir a crítica à religião com a negação pura e simples de Deus, ou com a humilhação do homem crente. A intolerância religiosa é uma triste e lamentável ofensa à dignidade do homem”. Entre os dias 08 e 13 de Setembro de 1977, ocorreu a I Assembleia Nacional de Pastoral na cidade da Beira para encontrar respostas face aos novos tempos. Na época, os fiéis não sabiam como era possível engajar-se na Revolução e praticar a fé. Não sabiam se a filiação ao partido Frelimo significava a negação de Deus. Influenciados pelos ventos de mudança da Igreja Católica, a I Assembleia Nacional de Pastoral tinha a intenção de criar em Moçambique uma Igreja Ministerial, pobre, despojada de seus bens e apoiada na participação de todos os seus membros e não mais no Estado. Ora, como a história é cíclica, factos do passado voltam a manifestar-se no presente. Aliás, segundo Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), em seu “Historia Magistra Vitae”, a história é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mensageira da velhice. Para Cícero, conhecer a história é se deparar com as acções de várias pessoas, independentemente da distância espacial e temporal que a separam. Teria, a história, uma função pedagógica, de instruir o indivíduo a pensar acerca de seu presente e planejar seu futuro tendo como referência o passado. Combinando com essa linha de pensamento, o historiador alemão R. Koselleck (1923-2006), afirma que a história nos deixa livres para repetir os sucessos do passado, ao invés de incorrermos presentemente nos velhos erros. Por essa razão, a história de antiprofetismo apresentada acima, repete-se ainda com a transferência de Dom Luiz Fernando Lisboa da Diocese de Pemba, na província moçambicana de Cabo Delgado, para a diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim, no Estado do Espírito Santo, e concede-lhe ainda o título honorífico pessoal de arcebispo. O anúncio foi feito a 11 de Fevereiro último, em comunicado, pela sala de imprensa da Santa Sé. Como é sabido Dom Luiz Fernando Lisboa foi uma das primeiras vozes a alertar o mundo sobre a situação de Cabo Delgado e destacou-se, nos últimos anos, na defesa das populações desprotegidas. Além disso, no ano passado, foi acusado por indivíduos próximos do Governo de ser apoiante dos insurgentes, talvez isso lhe valeu ser expulso do país. Portanto, a transferência de Dom Luiz cheira a cor de expulsão diplomática. Porque já foi ameaçado de morte por várias ocasiões. E em certa altura falando do “ciclone humano dos ataques” expressou que ser bispo de Pemba “foi uma experiência de cruz e de dor”. De facto, centenas de pessoas já morreram e milhares estão deslocadas devido à acção de um grupo fundamentalista islâmico do qual pouco se sabe ao certo, mas que terá ligações ao autoproclamado Estado Islâmico. “Dessa guerra, eu pude tirar muitas lições. A principal delas é a grandeza desse povo que é pobre mas que é muito solidário. Eu vi muitas histórias, ouvi muitas histórias, vi muitas situações e percebi quanto é que, mesmo na pobreza, nós podemos ajudar, nós podemos repartir, partilhar. Nesse tempo de guerra cada família que não era deslocada acolheu uma ou duas ou até três famílias deslocadas, dentro da sua casa, no seu quintal repartindo o pouco que tinha com aqueles que não tinham nada e estavam ainda no desespero, na estrada, sem ter norte. A experiência do povo de Cabo Delgado vai ficar sempre marcada na minha vida” garante Dom Luiz. É verdade que “a missão é de Deus, não é nossa”. Mas como diz o cantor “Se calarem a voz dos profetas,
ago 10 2021
Covid-19 versus direito ao trabalho
Por Dr. Ali Armando Amade Covid-19 versus direito ao trabalho Trabalhei durante 5 anos, com contrato de trabalho regular (indeterminado), no restaurante duma unidade hoteleira nas belas praias da Província de Inhambane. Antes da Pandemia da COVID-19 tínhamos sempre muitos clientes. Infelizmente, desde Abril do ano passado (2020) o empreendimento ficou encerrado, precisamente devido à COVID-19. Todos nós, trabalhadores, fomos dispensados e ficámos em casa à espera que os tempos melhorassem. Nos finais do ano passado, o restaurante reabriu, mas, lamentavelmente, eu e alguns colegas não fomos chamados para retomar o trabalho, portanto, fomos deixados em casa sem nenhuma remuneração. O que é que temos que fazer com a unidade patronal? (Carta assinada – Inhambane). As praias da Província de Inhambane são por excelência um cartão-de-visita para muitos turistas moçambicanos (internos) e estrangeiros, visitantes de fora do nosso país que querem se deliciar daquelas maravilhosas praias. Falar de turismo é o mesmo que falar duma actividade que implica a deslocação de um ou vários indivíduos de sua zona habitual para outra durante um determinado período de tempo. Deslocação, tanto por lazer ou alguma actividade profissional facto que, naturalmente, implica a procura de unidades hoteleiras para a hospedagem. E, ao se instalarem nas referidas instâncias turísticas, vão manter contactos físicos ou de aproximação com outras tantas pessoas. Desde finais de 2019 o mundo começou a confrontar-se com um novo Vírus da família dos Coronavírus, o SARS-COV-2, identificado em Wuhan na China, COVID-19. Como se sabe, a transmissão é feita por meio das gotículas respiratórias, ao tossir ou espirrar, ou ao tocar em objectos contaminados e levar a mão à boca, nariz e olhos sem antes higienizá-las. Foi com vista a reduzir o máximo possível a propagação do COVID-19, que o Governo de Moçambique e um pouco por todo o mundo, fechou as fronteiras nacionais, cancelando, por isso, as viagens para o nosso país. A medida de fechar as fronteiras, praias, estâncias turísticas, etc. afectou sobre maneira o sector hoteleiro (incluindo os restaurantes e outros similares) que, sem clientes, se viu forçado a encerrar as portas e, por conseguinte, a despedir ou suspender alguns contratos de trabalho. Feita a explicação do porquê da suspensão dos contratos de trabalho, agora vamos responder à inquietação do nosso querido amigo trabalhador dum restaurante, com contrato de trabalho por tempo indeterminado há mais de cinco anos e neste momento em casa sem a competente remuneração. Falámos nas linhas anteriores de duas figuras jurídicas, nomeadamente o despedimento e a suspensão do contrato de trabalho. E será precisamente sobre esta última figura que nos vamos debruçar visto ser a que se adequa à situação no nosso amigo. Dispõe o n.º 1 do artigo 123 da Lei 23/2007, de 1 de Agosto (Lei do Trabalho) que “o empregador pode suspender o contrato de trabalho por motivos de mercado, tecnológicos, catástrofes ou ocorrências que tenham ou venham, previsivelmente, a afectar a actividade normal da empresa ou estabelecimento”. Significa que o contrato de trabalho pode ser suspenso por força maior quando, por exemplo, se verifiquem motivos conjunturais que obriguem o encerramento temporário da empresa. Dos direitos adquiridos Ora, pese embora esse direito reservado ao empregador para suspender temporariamente o contrato de trabalho mediante uma comunicação, por escrito, a cada trabalhador abrangido, os fundamentos da suspensão e indicada a data de início e de duração da mesma, remetendo simultaneamente cópias dessas comunicações ao ministério que tutela a área do trabalho e ao órgão sindical da empresa, conforme o n.º 2 do artigo 123 da Lei do Trabalho, não quer dizer que o trabalhador fica em casa sem remuneração ou com “as mãos a abanar” como se diz. Pois, o n.º 5 do mesmo artigo 123 da Lei do Trabalho, recomenda que mesmo estando em casa, devido à suspensão do contrato de trabalho, o trabalhador tem direito a receber 75% do seu salário no primeiro mês, 50% no segundo mês e 25% no terceiro mês. Contudo, se passarem os três meses e o motivo que originou a suspensão prevalecer, suspende-se o pagamento das remunerações, podendo as partes (se quiserem) acordar a extinção do contrato ou relação de trabalho, sem prejuízo das indemnizações a que o trabalhador tiver direito. Portanto, caro amigo, como pode perceber na nossa resposta, tinhas o direito de receber o teu salário durante três meses nos moldes que já indicámos. Mas se o encerramento continuasse, o que não é o caso, podiam (tu e a direcção do restaurante) acordar a extinção do contrato de trabalho e por conseguinte ser paga a competente indemnização. E, uma vez recebido o valor da indemnização por sua parte, cessavam todos os direitos e obrigações com a sua entidade patronal. Ora, no caso que tudo o que explicamos não tenha acontecido e até à presente data continue em casa, sem ter recebido qualquer valor monetário desde a suspensão do seu contrato de trabalho, aconselhamos ao nosso caríssimo amigo para, querendo, pedir ajuda, ao IPAJ, à Inspecção Provincial do Trabalho e ou ao Centro de Mediação e Arbitragem Laboral aí na cidade de Inhambane. BOX Despedimento (extinção do contrato ou da relação de trabalho) Se o impedimento referido n. 1 do artigo 123 da Lei de Trabalho subsistir, para além dos 3 meses, e houver um acordo para a extinção do contrato ou relação de trabalho, o empregador deve colocar à disposição do trabalhador ou trabalhadores, compensação pecuniária calculada nos termos do artigo 128 da Lei de Trabalho, podendo a indeminização ser fraccionada em três parcelas, mediante acordo das partes. O que recomenda o artigo 128 da Lei do Trabalho? O n. 2 deste artigo 128 da Lei do Trabalho recomenda que a rescisão do contrato de trabalho por tempo indeterminado, com justa causa porte do trabalhador, confere-lhe o direito à indemnização a 45 dias de salário por cada ano de serviço. No que tange aos contratos a prazo certo, cujo suporte legal se encontra no n. 3 do mesmo artigo, a indemnização será correspondente às remunerações que se venceriam entre
ago 09 2021
Cidadania é a chave da mudança
Por Dr Deolindo Paúa A nossa experiência do dia-dia como moçambicanos tem-nos provado que não estamos seguros ao abandonar nosso destino como país aos políticos. Sempre que adormecemos um pouco, ao acordar, encontramos nossos direitos hipotecados, a justiça social pontapeada e o país mergulhado nos piores escândalos e crises de toda a índole. Quem se esqueceu das mortes em massa pós-eleições de 1999 na Mocimboa da Praia? Quem se esqueceu do abandono dos madjermanes que reivindicam suas pensões há décadas? Quem se esqueceu das dívidas ocultas? Quem pode ser capaz de fechar os olhos ao duvidoso crescimento da fortuna de nossos líderes contra o crescimento da pobreza de cidadãos comuns em todo o país? A memória da nossa história Nossa memória sobre guerras injustificadas, sobre as dívidas ocultas, sobre processos eleitorais de credibilidade duvidosa, sobre a corrupção levada a cabo por altos funcionários, nossa memória sobre as matanças a cidadãos indefesos em plena luz do dia ainda é fresca. Aliás, graças a esses acontecimentos, hoje, o país está mergulhado numa das piores crises que se podia ter. O custo de vida sobe até mesmo no campo. O emprego escasseia e sua disponibilidade começa também a privilegiar quem tem poder de decisão sobre os recursos públicos e não mais aos competentes. As oportunidades de trabalho e de empreender continuam sendo do benefício de pessoas injustamente seleccionadas. De quem é a culpa? De quem é a culpa é a pergunta que todos fazem. Mas mais do que procurar culpados, há que procurar os erros para corrigi-los. Em todos os países, o exercício pleno de cidadania tem sido o travão para a anarquia dos políticos em relação a gestão pública. Países onde políticos fazem e desfazem é onde os cidadãos são cobardes. Cidadãos íntegros não deixam seus direitos serem violados. Denunciam quando há desigualdade no acesso aos benéficos; denunciam quando o atendimento nas instituições públicas é injusto; denunciam quando os políticos descriminam vontades do povo em favor das suas; reclamam, gritam e se agitam quando os pressupostos de uma vida juntos não estão a ser preenchidos pelos políticos. Onde não há cidadania o contrato social morre. A democracia extingue-se. E então, reclamar um direito passa a ser agitação. Exigir o respeito do contrato aos políticos ser falta de patriotismo como algumas opiniões próximas ao poder pretendem fazer entender. Atentado contra a cidadania A ditadura ganhou sempre lugar onde os cidadãos, por medo ou não, abandonaram sua liberdade, abdicaram seu poder e renderam-se ao poder arbitrário estabelecido. O nosso país é todos os dias bombardeado por atentados contra a nossa cidadania. A cada amanhecer há um cidadão morto por pensar diferente. A cada anoitecer, há um cidadão detido, um outro ameaçado por questionarem o poder, e há uma outra maioria de cidadãos sem direito ao básico para sobreviver e propositadamente abandonados á sua sorte. Estas situações todas parece vencerem nossa vontade de ser cidadãos. O mais grave é a tendência de abandono da cidadania, manifesta nas palavras que se ouvem hoje nas ruas: “este país tem donos!”. Que donos? Se este país realmente tem donos e esses donos não somos nós como cidadãos, os que nasceram e crescem aqui, os que procuram a todo custo sobreviver e fazer sobreviver o país, então, somos realmente fracassados. A responsabilidade pela mudança é dos cidadãos Não há dúvidas de que certas pessoas apoderaram-se dos recursos do país, que deveriam ser de todos e que para mante-los na sua posse usam todos os recursos ao seu alcance. Mas isto não justifica nossa perigosa desistência. A responsabilidade pela mudança das coisas é inteiramente dos cidadãos, nossa. Cidadãos significa donos do país. Políticos significa sevos dos cidadãos. Não vejo a possibilidade dos donos abandonarem sua propriedade aos empregados. Nosso grave erro é que ao dizermos que “este país tem donos” esses donos referimos aos políticos. Pensamos que eles podem tratar as coisas por nós. Enganamo-nos que o nosso modelo de políticos moçambicanos são patriotas e que podemos ficar descansados que eles vão resolver os problemas por nós. Tal como a experiência nos provou, estamos redundantemente enganados! Pelo menos os nossos políticos já nos provaram várias vezes que não passam de comissários. Nenhuma mudança do interesse do povo será encabeçada por um político ou por um partido político. Os partidos políticos são organizações de interesses, muitas vezes egoístas. Jamais serão capazes de beneficiar ao povo em algo que não beneficie seus negócios. O perigo da neocolonização Nenhuma mudança justa será encabeçada por um partido político. Então é erróneo fechar-se na própria cobardia pensando que as coisas piores que acontecem no nosso país mudarão quando houver mudança de partidos políticos na gestão do Estado. Talvez! Seria bom! Mas acho que temos experiência suficiente para não pensar assim. Todos os partidos, no que lhes move a procurar incessantemente o poder, são iguais. A única possibilidade que temos para impor justiça social e mudanças profundas no nosso país, é tomando o nosso activismo. Precisamos de voltar a nos sentir donos deste país ou seremos novamente colonizados da forma mais vil e pelos nossos próprios irmãos, se é que não estamos a ser colonizados. Aqueles que preferem pensar que o país está sendo governado na justiça gostava que me explicassem, por exemplo, o motivo das incessantes guerras. Além de impor de propósito milhões de pessoas à situação de pobreza, a pior injustiça que se pode cometer num país é a de impor uma guerra e à situação de refúgio pessoas pobres e desfavorecidas. O país a saque dos políticos Tal como diz a ditado popular, ou mudamos, ou tudo se repete. Ou nos reerguemos da nossa cobardia, ou continuaremos sendo espezinhados. Nosso país continuará a saque de várias formas desde a corrupção, o roubo, as desigualdades salariais que beneficiam mais aos políticos do que aos funcionários públicos, o saque inexplicado dos nossos recursos naturais, o endividamento do país para fins singulares, a manutenção propositada de guerras, até que sejamos conscientes dessa colonização. Continuarão fabricando ricos repentinos. Continuará fazendo pessoas extremamente ricas de um lado
ago 09 2021
O valor da solidariedade
Por P. António Bonato Neste capítulo da Encíclica “Fratelli Tutti” Papa Francisco convida-nos a reflectir sobre o valor da solidariedade como tomada de responsabilidade pela fragilidade dos outros na procura dum destino comum. Na sua recente viagem ao Iraque nos mostrou quanto importante seja a solidariedade para a construção dum mundo mais humano. Quero destacar a solidariedade, que «como virtude moral e comportamento social, fruto da conversão pessoal, exige empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que detêm responsabilidades de carácter educativo e formativo. Penso em primeiro lugar nas famílias, chamadas a uma missão educativa primária e imprescindível. Constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro e da transmissão da fé. Também os agentes culturais e dos meios de comunicação social têm responsabilidades no campo da educação e da formação, especialmente na sociedade actual onde se vai difundindo cada vez mais o acesso a instrumentos de informação e comunicação (114). Sociedades líquidas Nestes momentos em que tudo parece diluir-se e perder consistência, faz-nos bem invocar a solidez, que deriva do facto de nos sabermos responsava pela fragilidade dos outros na procura dum destino comum. A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros. O serviço é, «em grande parte, cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo». Nesta tarefa, cada um é capaz «de pôr de lado as suas exigências, expectativas, desejos de omnipotência, à vista concreta dos mais frágeis (…). O serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até “padece” com ela e procura a promoção do irmão. Por isso, o serviço nunca é ideológico, dado que não servimos ideias, mas pessoas» (115). Pensar e agir como comunidade Solidariedade é uma palavra que nem sempre agrada; diria que algumas vezes a transformamos num palavrão, que não se pode dizer; mas é uma palavra que expressa muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro (…). A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem» (116). Solidariedade e casa comum Quando falamos em cuidar da casa comum, que é o planeta, fazemos apelo àquele mínimo de consciência universal e de preocupação pelo cuidado mútuo que ainda possa existir nas pessoas. De facto, se alguém tem água de sobra mas poupa-a pensando na humanidade, é porque atingiu um nível moral que lhe permite transcender-se a si mesmo e ao seu grupo de pertença. Isto é maravilhosamente humano! Requer-se este mesmo comportamento para reconhecer os direitos de todo o ser humano, incluindo os nascidos fora das nossas próprias fronteiras (117). Desenvolvimento deve ser riqueza para todos O desenvolvimento não deve orientar-se para a acumulação sempre maior de poucos, mas há-de assegurar «os direitos humanos, pessoais e sociais, económicos e políticos, incluindo os direitos das nações e dos povos». O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; nem acima do respeito pelo ambiente, pois «quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos» (122). É verdade que a actividade dos empresários «é uma nobre vocação, orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos»… Mas estas capacidades dos empresários, que são um dom de Deus, deveriam em todo o caso orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e a superação da miséria, especialmente através da criação de oportunidades de trabalho diversificadas. (123). Novas relações Falamos duma nova rede nas relações internacionais, porque não é possível resolver os graves problemas do mundo, pensando apenas em termos de mútua ajuda entre indivíduos ou pequenos grupos. Lembremo-nos que «a desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais». E a justiça exige reconhecer e respeitar não só os direitos individuais, mas também os direitos sociais e os direitos dos povos. Quanto afirmamos implica que se assegure «o direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso», que às vezes é fortemente dificultado pela pressão resultante da dívida externa. Em muitos casos, o pagamento da dívida não só não favorece o desenvolvimento, mas limita-o e condiciona-o intensamente. Embora se mantenha o princípio de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, a maneira de cumprir este dever que muitos países pobres têm para com países ricos não deve levar a comprometer a sua subsistência e crescimento (126). Sonhar humanidade diferente Trata-se, sem dúvida, doutra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nesta lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio. Mas, se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples facto de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, tecto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Com efeito, a paz real e duradoura é possível só «a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a co-responsabilidade na família humana inteira» (127).
ago 09 2021
Cárie Dentária
Cárie Dentária A cárie dentária é uma destruição dos tecidos calcificados do dente (chamados de esmalte, dentina e cemento) através do ataque dos ácidos produzidos por bactérias presentes na boca. Essa produção de ácidos é maior com o consumo de açúcar e em casos onde há falta de higiene bucal. Sintomas Dor que piora ao comer ou beber algo doce, frio ou quente; Perda de dentes; Dificuldades em engolir; Presença de furinhos em um ou mais dentes; Manchas amarelas ou brancas na superfície do dente; Sensibilidade ao tocar num dente; Gengiva inchada e dolorida. O que fazer quando se tem cárie? O tratamento para eliminar cáries é realizado pelo dentista. Na fase inicial a cárie não apresenta qualquer sintoma e, por isso quando aparecem os primeiros sintomas é importante ir imediatamente ao dentista para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento adequado, evitando complicações como uma infecção mais grave ou perda de um dente.
