logo

maio 14 2021

Chaquir Bimate já não é treinador do ferrovia de Nampula

Maus resultados afastam, Chaquir Bimate do comando técnico do Ferroviário de Nampula. As contas continuam a complicar para as locomotivas de Nampula e para não sustentar os mesmos erros até ao final do campeonato nacional de futebol, o Clube Ferroviário de Nampula, decidiu afastar Chaquir Bimate do comando técnico da equipa. Por enquanto a equipa será assegurada por Artur Macassar treinador adjunto. Entretanto, o vice-presidente do Ferroviário de Nampula, Luís Munguambe, avançou que o afastamento do treinador do Ferroviário de Nampula deve-se por conta do fraco desempenho que a equipa está a registar e pelas constantes derrotas. Os adeptos desta turma, afirmam que o afastamento de Chaquir Bimate é justo, uma vez que equipa está lutar para conquistar o título e não a manutenção na grande prova futebolística. Refira-se que Chaquir Bimate deixa a equipa no barco furado, ou seja na 12a  posição, com 4 derrotas, uma vitória, zero empate, 3 golos marcados e 7 sofridos. (Júlio Assane)

maio 11 2021

A mudança climática e a Saúde Humana

Por Éden Sansão Mucache “O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos… as mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade” (LS, II). Uma das implicações mais inquietantes da mudança climática é o seu impacto potencialmente devastador sobre a saúde humana. Segundo um relatório da OMS “Um clima mais quente é mais variável ameaça provocar a elevação da concentração de alguns poluentes no ar, o aumento da transmissão de doenças por água impura e por alimentos contaminados, o comprometimento da produção agrícola em alguns dos países menos desenvolvidos e o aumento dos perigos típicos dos climas extremos”. A OMS prevê que as mudanças de temperatura promoverão a propagação de doenças infecciosas. Muitas das doenças que mais causam mortes são extremamente sensíveis às variações do clima como temperatura e precipitações, incluindo cólera e doenças diarreicas, assim como doenças transmitidas por vectores como malária, dengue e outras infecções. A encíclica de Papa Francisco Laudato si’ realça que a mudança do clima compreende alterações provenientes de mudanças de temperatura, precipitações, dentre outros fenómenos, em relação às médias históricas, interferindo nas características climáticas do planeta. Essas mudanças ocorrem por processos naturais, mas também podem ocorrer pela acção humana. Actualmente, entende-se que as mudanças climáticas contribuem para a carga global de doenças e mortes.   Quais são os factores de risco para a saúde? A mudança de clima pode ser um factor de risco directo para a saúde humana, mas também pode influenciar muitos outros factores de risco para a saúde. Por exemplo, uma onda de calor resultante da mudança climática representa um factor de risco directo. As populações vulneráveis, neste caso, idosos e crianças, ficam expostas ao calor acima do normal esperado, podendo resultar em doenças ou óbitos. Outros factores de risco para saúde resultantes da mudança climática incluem: Alteração na precipitação de chuvas (causando inundações estiagens, incêndios florestais); Aumento do nível do mar; Falta de água e alimentos; Comprometimento da qualidade e quantidade da água e dos alimentos; Migração da população.   Quais são os impactos na saúde da população? Entre os impactos directos e indirectos da mudança climática se apresentam: Doenças diarreicas, provenientes de transmissão de água e alimentos, em consequência da alteração na quantidade e qualidade da água; Doenças transmitidas por vectores, como malária, febre-amarela, dentre outras, devido à alteração na temperatura e precipitação, que afectam o desenvolvimento e comportamento dos vectores, e em alguns casos de parasitas (ex: o plasmódio na malária); Doenças não-transmissíveis, como desnutrição e subnutrição com implicação no crescimento e desenvolvimento infantil, devido à alteração na disponibilidade de alimentos decorrentes das secas e variabilidades climatológicas, além de transtornos psicossociais, doenças cardiorrespiratórias e dermatoses.   O que podemos fazer? O sumo pontífice deixa várias recomendações no capítulo 6 da encíclica que são importantes a serem seguidas: A educação e a formação ambiental que envolva todos os ambientes educacionais: a escola, a família, os meios de comunicação e a catequese; Deve-se apostar em uma mudança nos estilos de vida e a forma como cuidamos do ambiente; O exame de consciência deverá incluir uma nova dimensão para considerar não apenas como se vive a comunhão com Deus, com os outros, consigo mesmo, mas também com todas as criaturas e a natureza. Além disso, existem medidas próprias do sector de saúde para evitar o impacto na saúde das comunidades. O sector da saúde pode ter um papel central para ajudar as sociedades a se adaptar aos efeitos da mudança climática e aos riscos que esta representa para a saúde humana. Os governos devem fortalecer os sistemas de saúde pública, dos programas de resposta às emergências e da pesquisa. As direcções de saúde devem reduzir riscos e agravos à saúde da população, por meio das acções de promoção e vigilância em saúde.   BOX Louvado seja meu senhor pela irmã agua que é tao útil e humilde, preciosa e casta. Francisco defende que tudo quanto na natureza existe, é fruto do amor de Deus. Actualmente as mudanças climáticas fazem com que muitas espécies desapareçam motivadas pela falta das chuvas regulares que se fazem sentir nos últimos anos. Quero partilhar a penosa situação em que a cidade de Nampula se depara com a distribuição da água. Devido à escassez de água, verifica-se a restrição na sua distribuição, chegando alguns bairros a passarem dois a três dias sem verem sair agua nas torneiras. O que me preocupa não são apenas as necessárias restrições, mas a gestão geral. As condutas são muitas vezes vandalizadas e estão ao ar livre, fácil presa dos aproveitadores. Apelo à sociedade gestora para que faça o máximo esforço para proteger e distribuir igualmente o bem mais precioso que temos: a água. Lourenço Adérito

maio 11 2021

A injustiça da guerra

Por AB À luz da encíclica “Fratelli Tutti” queremos reflectir sobre os conflitos que, no norte e no centro do Pais, criam sofrimentos e mortes. Papa Francisco propõe um percurso de perdão sem esquecimento e enriquecido com a memória para ultrapassar os graves conflitos que assolam o mundo. Desde 2017 a Província de Cabo Delgado no norte de Moçambique, é palco de ataques, acções violentas e atrocidades contra os civis indefesos por parte de grupos de terroristas de matriz islâmica que querem criar o seu próprio ”estado” dentro do Estado moçambicano. Até hoje é uma guerra sem vencedor que provocou a deslocação de mais de 500 mil pessoas que abandonaram as suas casas, as suas machambas, os seus pertences e, sobretudo, a sua existência quotidiana, para encontrar abrigo em Pemba ou na Província de Nampula, bem como em outros distritos de outras Províncias. É uma tragedia que se depara com o fundamentalismo de quem, em nome de Deus, mata, corta as cabeças e queimas as casas. Também no Centro do Pais recomeçaram os ataques armados, daquela que se chama a Junta militar da Renamo, contra viaturas, camiões e machimbombos que transitam na Nacional 1 e nas aldeias circunvizinhas.   O lento caminho da paz Duas realidades conflituosas que paralisam Moçambique, provocam inúteis sofrimentos do povo e mantêm o pais num estado de insuportável ansiedade que prejudica aquele “futuro melhor” proclamado há tanto tempo. Esta é a nossa realidade. Agora vamos ver o que a carta “Fratelli Tutti” nos diz para encontrar um caminho de saída desta situação de escuridão. “No coração dos que maquinam o mal, há falsidade, mas aqueles que têm conselhos de paz, viverão na alegria» (Prov. 12, 20). No entanto, há quem busque soluções na guerra, que frequentemente «se nutre com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo». A guerra não é um fantasma do passado, mas tornou-se uma ameaça constante. O mundo está a encontrar cada vez mais dificuldade no lento caminho da paz que empreendera e começava a dar alguns frutos (256).   Guerra negação de todos os direitos Dado que se estão a criar novamente as condições para a proliferação de guerras, lembro que «a guerra é a negação de todos os direitos e uma agressão dramática ao meio ambiente. Se se quiser um desenvolvimento humano integral autêntico para todos, é preciso continuar incansavelmente no esforço de evitar a guerra entre as nações e os povos. Para isso, é preciso garantir o domínio incontrastado do direito e o recurso incansável às negociações, aos mediadores e à arbitragem, como é proposto pela Carta das Nações Unidas, verdadeira norma jurídica fundamental» … (257)   Guerra justa ou preventiva? Não! Deste modo facilmente se opta pela guerra valendo-se de todo o tipo de desculpas aparentemente humanitárias, defensivas ou preventivas, recorrendo-se mesmo à manipulação da informação. De facto, nas últimas décadas, todas as guerras pretenderam ter uma «justificação» … Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques «preventivos» ou acções bélicas que dificilmente não acarretem «males e desordens mais graves do que o mal a eliminar» … Assim, já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar duma possível «guerra justa». Nunca mais a guerra! (258) No nosso mundo, já não existem só «pedaços» de guerra num país ou noutro, mas vive-se uma «guerra mundial aos pedaços», porque os destinos dos países estão intensamente ligados entre si no cenário mundial (259).   A guerra não é solução Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal. Não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contacto com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos. Voltemos o olhar para tantos civis massacrados como «danos colaterais». Interroguemos as vítimas. Prestemos atenção aos prófugos, àqueles que sofreram as radiações atómicas ou os ataques químicos, às mulheres que perderam os filhos, às crianças mutiladas ou privadas da sua infância. Consideremos a verdade destas vítimas da violência, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer o abismo do mal no coração da guerra, e não nos turvará o facto de nos tratarem como ingénuos porque escolhemos a paz (261)”.

maio 11 2021

O drama de Cabo Delgado

Por Dr. Deolindo Paúa O drama de Cabo Delgado deixa qualquer cidadão consciente, preocupado, pois, o nosso destino não pode ser definido pelo egoísmo de um grupo de pessoas. O nosso destino deveria pertencer-nos, não apenas como uma sociedade, mas sobretudo como um Estado soberano. Ninguém deveria ser condenado a abandonar a sua casa e os seus bens para vaguear no nada à procura de um destino incerto. A nossa sensibilidade como seres humanos já deveria ter sido reposta com os vários sofrimentos que passámos. Realmente, passámos por muitas guerras, como moçambicanos. Desde o início da colonização, escasseia a paz. Mas por outro lado, pela nossa experiência de gestão de conflitos, deveríamos ter melhorado e adoptado uma abordagem razoável de comunicação com o público. Até aqui, o que ouvimos como cidadãos sobre Cabo Delgado são trocas de acusações. De um lado uma sociedade civil e uma imprensa que acusam as Forças de Defesa e Segurança de inoperância. Do outro lado, as constantes conferências de imprensa do governo para rejeitar as acusações e assumir o seu activismo no terreno e denunciar a desinformação dos primeiros.   Gestão de conflito baseada na autoimagem A estas alturas já devíamos ter abandonado um modelo de gestão de conflitos baseado na auto-imagem como parece ser o caso. As nossas acções como Estado deveriam ser tendentes a garantir a soberania e os direitos dos cidadãos. Aliás, que Estado seríamos, se a nossa prioridade não fosse a de defender a dignidade de nossos cidadãos? O que constatamos neste momento é que há refugiados em muitas províncias do país, vindos de Cabo Delgado à procura de segurança. Então perguntamos: a situação em Cabo Delgado está ou não controlada? O que vemos e o que ouvimos como sociedade provoca-nos confusão e não nos deixa perceber o que se passa realmente nas terras do Norte de Cabo Delgado. Infelizmente estamos numa época em que pelas tecnologias de informação, as pessoas relatam tudo. Nesses relatos, verdades e mentiras vão sendo veiculadas. A porta para a desinformação pode justamente ser esse antagonismo: entre uma autoridade que nega factos ocorridos, interessada em limpar a sua imagem para ganhar as eleições, e uma imprensa supostamente interessada em exagerar nos relatos. Em quem se pensa que o povo vai acreditar? Precisamos de colocar os interesses nacionais acima de tudo.   A desinformação nunca é solução Nenhuma desinformação evitou que as pessoas morressem. Do mesmo jeito, defender a imagem de um governo inoperante em vez de defender o povo, jamais será solução. Negação de factos e descredibilização da imprensa jamais evitou mortes. É assumindo a verdade que se podem construir estratégias de remoção de um obstáculo aos direitos humanos. Apesar da teimosia dos factos, as nossas autoridades parecem comprometidas com a promoção da própria imagem. Com elas todos nós diante do horror aos nossos olhos, preferimos pontapear a verdade e vivermos como se nada estivesse a acontecer.   Ambição política mata a moral A guerra provoca o desespero das pessoas a quem afecta. Por isso, o que elas esperam não é necessariamente discussões e sobre quem tem razão nelas. O que elas esperam são acções concretas que lhes tirem essa aflição. Por debaixo do fogo provocado pela guerra, receio que haja um cidadão aflito interessado em saber quem tem razão na discussão sobre o tamanho de seu sofrimento. A sua única preocupação é a sobrevivência. A nossa ambição política já matou a nossa moral. Não deixemos que mate também a nossa sensibilidade sobre a vida e sobre o sofrimento das pessoas que fogem de uma guerra cujas motivações desconhecemos. Negar factos pode ser politicamente correcto, mas jamais será estratégia quando os factos contradizem esses factos. Entre esta aposta no politicamente correcto que as nossas autoridades preferem, ao abordar o assunto de Cabo Delgado, há factos que teimam em nos surpreender.   Todos no mesmo barco Supostamente o drama não é apenas do povo que foge, aterrorizado. É também das nossas forças militares visivelmente desmotivadas por causa de problemas logísticos que envolvem além de alimentação, dificuldades de equipamento militar. Continuamos a investir o nosso melhor armamento para a protecção de pessoas singulares, de altas individualidades. Continuamos a investir melhor igualmente nas nossas forças para conter manifestações pacíficas de cidadãos descontentes. Mas talvez não investimos, ou pelo menos não alocamos a técnica adequada num conflito que devia ser levado a sério por afectar a nossa soberania. É uma estranha forma de gestão de uma guerra extremamente assassina. Como cidadãos, não estamos interessados na suposta desinformação de alguma imprensa, mas também não estamos interessados numa FDS falante e não operante. As vidas de Cabo Delgado também são humanas!

maio 11 2021

O Ecumenismo e unidade dos cristãos

Por Pe. Massimo Robol Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (Jo 15,5) Este ano, a Comunidade monástica de Grandchamp, na Suíça, preparou o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que pode ser celebrada de 18 a 25 de Janeiro ou na semana que antecede a Festa de Pentecostes. As Irmãs da comunidade suíça, fundada na década de 1930, provenientes de diferentes países e tradições cristãs, foram responsáveis pelas reflexões, desenvolvendo o tema: “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (Jo 15,5). O encontro preparatório para a elaboração do material para a Semana de Oração, contou com a presença de membros do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, do Conselho Ecuménico das Igrejas e da Comunidade monástica de Grandchamp. O tema da Semana de Oração, escolhido pelas Irmãs, permitiu às religiosas de compartilhar a experiência da sua vida contemplativa e falar do fruto desta oração: uma comunhão mais profunda com os seus irmãos e irmãs em Cristo, e uma maior solidariedade com toda a criação. O material elaborado baseia-se em três pilares: oração, vida comunitária e hospitalidade. Eles são articulados como um apelo a permanecer em Cristo a fim de se aproximar dos outros e superar as divisões entre os cristãos. É Jesus que nos convida a deixar a sua Palavra habitar em nós, para que qualquer pedido que fizermos seja atendido. Como cristãos, como Igreja, desejamos unir-nos a Cristo para cumprir o seu mandamento de amar-nos uns aos outros como Ele nos amou. Isto, sabendo que aproximar-se dos outros, viver em comunhão com outras pessoas, às vezes muito diferentes de nós, é um desafio. Num contexto ecuménico, a actual proliferação de muitas igrejas livres, igrejas pentecostais e seitas é um fenómeno que deve ser levado a sério. Estima-se que em Moçambique se encontrem mais de mil igrejas que não estão registadas. As que têm aval para exercer a sua actividade religiosa são de igual número! Infelizmente, a finalidade de muitas destas denominações cristãs é mais material do que espiritual. A pobreza e o momento difícil por que o país passa está a criar espaço para que as igrejas livres e as seitas prosperem. Sem tirar o desejo de encontro pessoal com Deus e da procura da sua ajuda, que animam os cristãos em geral, corre-se o risco que os crentes de muitas destas igrejas e seitas se tornem simples “consumidores” de produtos sagrados, “consumidores” de milagres, para conseguir melhorar as suas condições de vida. O Governo de Moçambique está a preparar uma legislação para enfrentar esta situação. Actualmente, está em fase de auscultação pública a nova proposta de Lei sobre a liberdade religiosa, de crença e de culto, à qual todos deveríamos poder dar um contributo construtivo. Porém isso é só parte da solução. De facto, perante estes novos desafios, o nosso esforço ecuménico pela unidade visível dos cristãos encontra-se numa encruzilhada. A experiência mostra que o processo ecuménico deve ser sustentado pela prática da vida e da fé dos próprios cristãos. Actualmente, o principal problema do ecumenismo é a sua fraca recepção por parte de muitas igrejas e confissões cristãs. Há ainda uma certa indiferença, incompatibilidade e desconfiança entre os próprios cristãos. Certamente, os esforços de aproximação e reconciliação custam e exigem sacrifícios, mas sempre sustentados pela oração de Cristo que deseja que sejamos um, como Ele está com o Pai, para que o mundo creia. Na véspera da sua paixão e morte, Jesus Cristo reza pelos seus discípulos, para que “sejam um só” (Jo 17,21). Esta oração é considerada a base do movimento ecuménico e, ao mesmo tempo explica o que é o ecumenismo. As palavras de Jesus não são uma ordem, um mandamento, uma regra, mas uma oração. Portanto, nós não podemos programar, organizar, nem conceber e construir a unidade de acordo com as nossas ideias e desejos. Podemos dizer que não existe uma Igreja mantida unida pela “cola”, porque a unidade que Jesus pede é uma graça de Deus e um compromisso de todos os cristãos. É preciso, então, dar espaço ao Espírito para que cada um possa ser transformado. Talvez seja o caso que todas as igrejas e denominações cristãs parem de andar à volta de si próprias, da sua hierarquia, dos seus pregadores, da sua estrutura, para que se fale cada vez mais de Deus, do seu amor, da sua misericórdia e da salvação de toda a humanidade em Cristo. Não podemos esquecer que, como cristãos, vivemos também numa criação que geme enquanto espera ser libertada: permanecendo em Cristo, pode-se receber a força e a sabedoria para agir contra estruturas de injustiça e opressão, para nos reconhecer plenamente como irmãos e irmãs em humanidade, e ser artífices de uma nova maneira de viver em respeito e comunhão com toda a Criação. Espiritualidade e solidariedade estão inseparavelmente unidas. Oração e acção devem estar juntas. Quando permanecemos em Cristo, recebemos o Espírito de coragem e sabedoria para acolhermos uns aos outros, favorecendo um clima de reconciliação, esperança e paz.

maio 10 2021

A RIQUEZA DE SANGUE

África dos nossos antepassados. África dos que lutaram e morreram por nossa libertação. África dos que sonham a igualdade de direitos e oportunidades. África daqueles que diariamente morrem explorados, injustiçados, empobrecidos, aniquilados nos seus sonhos. Esta é a terra onde Deus abençoou com muitas riquezas: humanas, naturais, florestais, minerais, marinhas, faunísticas, petrolíferas, etc. Pensa-se, desde muito tempo, que em África não existe riqueza saudável. Os que mais se sacrificam em trabalho, menos prosperam. Mesmo os assalariados não conseguem atingir os níveis de posse daqueles outros que seguem caminhos sinuosos. Enriquece quem serve a magia, quem passa por santuários obscuros, quem percorre caminhos de trevas e sem luz; quem passa de feiticeiro para outro, quem se transforma em cobra. Enriquece quem pratica iniquidade, quem corrompe, quem rouba, quem mata, quem se julga mais esperto, quem vive bajulando, quem se dobra diariamente para lamber chule, para carregar e adicionar trocos que caem debaixo da mesa do suposto dono. Mas isso tem consequências sociais, religiosas, políticas, económicas, relacionais, existenciais. É por esse motivo que se considera que os ricos de África e de Moçambique não o são como resultado do seu salário mensal. Esta é a história dos que vivem sempre subindo os outros. Assim foi também com o coelho e o camaleão. Por sua natureza, o camaleão tem passos lentos. Porém, quando se encontrou com o coelho exibindo o seu talento de correr rápido, o camaleão respondeu-lhe: – “Sim! Eu sei que não corro muito. Mas eu sou mais esperto do que tu. Força, corramos! Va-mos ver quem ganha!” Então o coelho começou a correr. O camaleão, no mesmo momento, subiu para a cauda do coelho, agarrou-se a ela e sentou-se. O coelho não sabia, ou não sentia o peso, porque estava com pressa. Logo que chegou à meta, o camaleão adiantou-se a saltar para o chão e sentou-se. Ora, quando o coelho ia sentar-se, o camaleão disse: – “Não te sentes sobre mim! Eu cheguei há muito tempo e estou à tua espera”. Então o coelho ficou muito aborrecido porque foi vencido pelo camaleão. É da mesma forma como muitas riquezas de sangue trepam a cauda dos menos espertos. Revestidos de hipocrisia aparecem como se fossem os melhores, perfeitos e até se gabam com a sua força e poder! E enquanto continuarmos na esteira deste modo de enriquecimento nunca faltará a multidão dos miseráveis cada vez mais remetidos ao abismo; nunca faltará o barulho da guerra, do crime, dos falsos feiticeiros que se oportunam da vida alheia para prosperar. A riqueza de sangue mostra que o horror da guerra semeado em Moçambique é igualmente uma das faces obscuras do enriquecimento ilegal, indevido, selvagem, ganancioso e abominável. Por causa da riqueza há quem manda matar, manda sequestrar, manda fuzilar, manda expulsar o povo das suas terras, manda explorar os recursos do país exportando-os clandestinamente para fora do país, manda silenciar os que vêem a luz. A vida de cada dia, as manobras que são produzidas e todas artimanhas dos elefantes cooperam sobremaneira na construção de riquezas de sangue que em nada facilitam o desenvolvimento de África e seus países. Os que se propõem liderar e gerir a coisa de todos, muitas vezes se apoderam de tudo e em nome do povo começam a enriquecer esquecendo-se daqueles a quem prometeram vida melhor e desenvolver o país. Utopia eterna. A guerra, as rivalidades, as divisões, as assimetrias, as injustiças, a corrupção e outros males sociais acontecem porque a fome pelo dinheiro e consequente riqueza coloca os reis e poderosos em conflitos intermináveis. Ora, para manter a sua hegemonia, a sua riqueza, o seu poder, a sua fama, a sua prepotência servem-se das armas para afugentar possíveis pretendentes. O maior interesse em tudo isso é a procura do Reconhecimento. Conta-se que há muito tempo, o elefante é que era reconhecido como rei de todos os animais. Mas, ao mesmo tempo, também o coelho tinha sido feito rei, mas ninguém sabia. Por isso, o elefante e o coelho lutavam entre si por esse mesmo reino. Queriam reinar em simultâneo. E por falta de reconhecimento por parte do povo começaram a lutar fortemente. Acontece, porém, que certo dia, todos os animais se reuniram para saberem ao certo quem era o rei. Com efeito, concordaram ir perguntar a Deus. O coelho mandou o macaco subir àquela árvore onde ia realizar-se a reunião, para responder quando perguntassem a Deus: “Quem é, ao certo, o rei?” Entretanto, se porventura perguntassem: “O rei é o elefante?” O macaco não devia responder. Mas quando fosse perguntado: “O rei é o coelho?” devia responder: “Sim! É o coelho”, senhor Deus. Ao responder devia mostrar maior reverência ao coelho. A garantia disso é que o macaco seria adjunto do rei se o coelho fosse declarado rei de todos os animais. Acontece que o elefante, por falta de esperteza não conseguiu armar nenhuma cilada para reforçar o seu poderio. E, portanto, no dia em que se reuniram, Deus perguntou: – O rei é o elefante?” Nessa ocasião, ninguém respondeu nada. Todos animais permaneceram calados. Deus perguntou por sete vezes se o elefante era o rei. Seguindo as orientações do seu chefe máximo, o macaco também permaneceu totalmente quieto e sem se mexer. Continuava pendurado na árvore em redor da qual estavam sentados os demais animais. Em seguida, Deus voltou a perguntar: – “O rei é o coelho?” E sem esperar a segunda vez, o macaco respondeu: – “Sim, Senhor Deus! O rei é o coelho! Ele é muito respeitado por todos nós e promove o desenvolvimento da nossa aldeia e de todo grupo”. Naquele instante, depois dos pronunciamentos do macaco, todos os animais souberam que o seu rei era o coelho. O elefante, indefeso, ficou muito zangado e fugiu para o mato. É desta forma como uns são ofuscados e ensombrados por aqueles que têm macacos pendurados em várias árvores para os defender. Os que não têm nada continuam a gritar sem ser ouvidos e, quando se esgotam, fogem para o mato e encolhem

maio 10 2021

A Força Feminina

Por Judite Macucua Pinto Nos dias de hoje, muito se fala sobre a possibilidade de descolonização dos saberes e sobre o ocultamento de conhecimentos diversos, ao modelo eurocêntrico legitimado como ciência. Nesta perspectiva, constatamos que as mulheres “africanas” , particularmente as moçambicanas, ainda não são, na sua maioria, presentes significativamente nas área cientificas e académicas. Das várias africanas e das poucas que conhecemos, iremos tratar da especificidade moçambicana, sua relação com outros meios geográficos, como por exemplo, o Brasil e os caminhos das carreiras do campo da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. A este propósito, sabe-se, no entanto, que em Moçambique, as mulheres, têm vindo a conquistar, embora com muitas dificuldades, algum espaço nos últimos anos, na esfera Política, Económica e Social. Esta dificuldade é ainda maior nas Ciências Naturais, onde elas estão em número muito reduzido. Contudo, segundo fontes abalizadas na matéria, citam que algumas acções com vista a despertar interesse das meninas e mulheres, tem sido a actuação como modelos, no sentido de orientar palestras e grupos de conversa com alunas das escolas, para desmistificar os estereótipos e encorajá-las a escolher mais cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. A supervisão e a integração de raparigas no grupo de Pesquisa, na Universidade, é outra acção que tem em vista motivá-las a ficar na carreira e tem um efeito multiplicador, pois estas jovens estudantes, vão também para as escolas para mostrar às alunas que, sim, é possível realizar experiências laboratoriais sob orientação das tutoras.   Mulher moçambicana na arena da ciência Na luta pelo Meio Ambiente, Moçambique já incentiva as mulheres na Ciência, daí que, no Parque Nacional de Gorongosa, encontram-se duas pesquisadoras que participam de um projecto mundial para criar um banco de dados de Genes. Elas são um exemplo para encorajar outras meninas das vilas vizinhas, sobre a diversidade de formas de vida na terra. Porque estas jovens cientistas moçambicanas, estão inseridas em uma realidade onde muitas meninas se casam e têm filhos antes de terminar o ensino básico, querem deste modo, servir de exemplo e encorajar as outras jovens, também a seguir carreira na área de Ciência. No contexto da COVID-19 uma cientista moçambicana, a bióloga e pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde, Dr. Raquel Matavele Chissumba, ganhou o Prémio Global da UNESCO para as Mulheres Cientistas. Assim, o trabalho de pesquisa e de busca de um tratamento natural para a COVID-19, foi o seu foco da atenção e inseriu-se numa iniciativa da Organização para Mulheres na arena da Ciência para o Mundo em Desenvolvimento.   Na arena política Na arena política, vamos conhecer algumas Mulheres Moçambicanas candidatas a lugares preminentes nas Eleições Autárquicas do ano passado nomeadamente: Francisca Tomás, na Província de Manica; Judite Massengele, na Província do Niassa; Margarida Mapanzene, Província de Gaza; Ângela Eduardo, na Província de Cabo Delgado; Carla Fabião Mucavele, também em Gaza. Porque são tão poucas? Qual foi o motivo? Desinteresse ou pouco espaço num meio dominado por homens? De facto, este número foi muito baixo, principalmente a nível dos Governos Provinciais e Municipais, segundo afirmou uma activista do Instituto para a Democracia Multipartidária. Todavia, as Mulheres em Moçambique, estão agora a interessar-se e a perceber que a política é o dia-a-dia delas e que elas devem ser membros. Mas, encontram, evidentemente, um obstáculo porque os homens acham que o espaço político, é um espaço exclusivo deles. Eles é que percebem, eles é que ditam as regras!   Perfil de algumas mulheres que marcaram a história A rainha guerreira dos Massagetae, Tribo da Ásia Central, que lutou contra Ciro, rei do Primeiro Império da Pérsia, perto de 530a.C. Hatshepsut, foi a primeira Faraó do Egipto e a mais bem-sucedida de todas elas, que viveu no inicio do Sécul XV a. C. Sobre esta personalidade, os historiadores dizem que o seu reinado durou cerca de 20 anos e correspondeu a uma época de relativa paz e prosperidade económica. Zenóbia, rainha de Palmira (actual Síria), conquistou uma parte da Ásia Menor e desafiou os Romanos no Século III a.C. Bodiceia, rainha dos Celtas Iceni, do Norte da Inglaterra, foi a responsável por conquistar as cidades romanas organizando as mais sangrentas revoltas contras os Romanos.   Século XXI O tempo passou e as mulheres reivindicaram um lugar ao sol. Muitas voltaram aos livros, voltando também para a memória da humanidade. Assim, nesse contexto, agora conhecemos algumas personalidades femininas que marcaram o seculo XX e marcam o XI: Luisa Dias Diogo- Personalidade Moçambicana. Formou-se em Economia e foi a primeira mulher moçambicana, a assumir o cargo de Ministra do Plano e Finanças do Governo Moçambicano. Em 2004, com a demissão do então Primeiro- Ministro, Pascoal Mocumbi, passou a acumular a sua pasta com a de Primeira-Ministra. Ellen Johnson Sirleaf – Personalidade Liberiana. Ela ficou conhecida por “Dama de Ferro da África”. Foi eleita em 2005 Presidente da Libéria e foi a primeira mulher a liderar uma nação africana e deixou como marca, o facto de ser líder da Paz, Justiça e da Democracia num país saído duma guerra civil que durou 14 anos. A Ellen lutou para levar a justiça ao povo da Libéria e enfrentou a ditadura militar , sendo que, em 2011, aos 72 anos de idade, foi premiada com o Nobel da Paz, juntamente com a sua compatriota Lymah Gbowee e a Iemenita Tawakkul Karman. Indira Gandhi – Personalidade Indiana. Seguiu as pegadas do seu pai, Mahatma Gandhi, como Primeira-Ministra da India, trabalhando arduamente no desenvolvimento do país, até ser assassinada em 1984. Ela construiu uma Índia forte e influente na região, além de ter procurado melhorar a vida dos mais pobres e apoiado a industrialização e o desenvolvimento tecnológico. Madre Teresa de Calcutá, missionária natural da Macedónia ficou famosa em todo o mundo pelo seu trabalho de ajuda às populações carentes da India e não só. A Madre Teresa aos 18 anos entrou para a casa de formação das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto. E mais tarde, criou a sua própria Congregação dedicada ao serviço dos mais pobres

maio 10 2021

Shistomiase ou bilharziose

Por Júlia Tarrua Shistomiase – é uma doença infecciosa parasitária provocada por um tipo de vermes que são assexuados separados.   Como se apanha a shistossomiase? Através das aguas dos rios onde encontramos a reprodução das cercarias do caracol e estes penetram na pele e podem provocar inflamação do fígado e do baço. O homem é o principal hospedeiro definitivo, daí que os vermes adultos macho e fémea copulam-se nos vasos sanguíneos e depositam ovos que vão para a circulação venosa e depois para a bexiga. A shistossomiase tem um período de incubação de 15 dias a 2 anos.   Sintomas – Dores abdominais – Dores de cabeça -Mal estar (astenia) calafrios -Febres -Tosse seca -Dores da bexiga -Hematúria terminal (urina com sangue na ultima micção) e dermatite shistomica na face crónica. A shistomiase tem cura desde que o individuo é diagnosticado. Complicações -Esterilidade -Impotência sexual -Funções do fígado, laterícia -Ascite -Anemia -Neurite por causa da circulação colateral dos ovos ou lombrigas   Prevenção -Tomar banho no rio depois das 9 horas usar proteção nos pés sempre que for ao rio -Não defecar ou urinar na água durante o banho.   BOX 31 de Janeiro Dia mundial de luta contra a lepra Este dia foi instituído em 1954 pela ONU, a pedido de Raoul Follereau, o apóstolo dos leprosos do século XX, que um dia afirmou que “não há sonhos grandes demais”. Esta efeméride tem o objectivo de sensibilizar as pessoas para a discriminação exercida sobre os doentes com lepra, assim como promover a ajuda dos leprosos e a sua reintegração social. Foi escolhido o último domingo de Janeiro para a celebração em honra de Gandhi, falecido neste dia, que afirmou que “eliminar a lepra é o único trabalho que não consegui completar na minha vida”. O objectivo mundial é continuar o seu trabalho. A doença da lepra A lepra trata-se de uma doença transmissível, que afecta os nervos e a pele. A lepra tem cura, apesar de necessitar de uma longa época de incubação e de tratamento. Na sua origem estão a falta de água potável e de higiene, a desnutrição, entre outros males associados à pobreza. Todos os anos surgem entre 400 a 500 mil novos casos de lepra. Esta doença também é conhecida por doença de Hansen, pois foi um médico holandês chamado Gerhard Hansen que descobriu o bacilo responsável pelo surgimento da doença em 1873.

maio 10 2021

TRAVÕES DO DESENVOLVIMENTO DE MOÇAMBIQUE

Por Dr. Tomas Selemane O que é que trava o desenvolvimento do pais? Começamos o ano novo com uma nova rubrica: Contraponto. Umas páginas de reflexões políticas, económicas e sociais à luz da Doutrina Social da Igreja (DSI), um convite à acção por uma sociedade mais justa. Ocasião para reflectir o que geralmente se acredita ser verdade e para procurar apelar a mais acção, à mudança de atitude, ao maior engajamento cristão, de modo a sairmos da situação de católicos somente de baptismo e de missas. Começamos a nossa viagem identificando os maiores travões do desenvolvimento de Moçambique. A opinião pública identifica como principais travões do desenvolvimento do nosso país, a pobreza, o desemprego, a insuficiência de escolas e hospitais, de estradas pavimentadas, ou simplesmente transitáveis, a fraca produtividade agrícola, a desnutrição, e por aí a diante. Porém, todos esses problemas são consequências de outros problemas mais profundos. Intolerância política É a intolerância política o primeiro maior travão do desenvolvimento de Moçambique. Inspirados na última Encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti” – Somos todos irmãos: Sobre a Fraternidade e a Amizade Social – consideramos como sendo o primeiro maior travão do desenvolvimento de Moçambique a intolerância política no seu sentido mais amplo. Não me refiro à intolerância partidária que produz e reproduz ódio entre membros e simpatizantes dos diferentes partidos políticos, com maior destaque para os três maiores (Frelimo, Renamo e MDM). Refiro-me àquela intolerância que igualmente gera e reproduz ódio entre os membros e simpatizantes do mesmo partido político. A intolerância que está na origem das desavenças que se vivem dentro dos partidos políticos, de forma particular, e dentro da nossa sociedade, de forma geral. Harmonia nas diversidades Na sua Encíclica “Somos todos irmãos”, o Papa Francisco ensina-nos como podemos construir um mundo melhor a partir da aceitação do Outro, de como a fraternidade e a amizade social podem ajudar-nos a construir um mundo pacífico e com mais justiça. E este é exactamente, do nosso ponto de vista, o primeiro maior problema de Moçambique: como aceitar as diferenças sociais e políticas, dentro e fora dos partidos políticos? Porque é que não vemos uma convivência harmoniosa, salvo raras excepções que confirmam a regra, entre pessoas de partidos políticos diferentes? Mais preocupante ainda: porque é que não vemos harmonia entre os diferentes grupos dentro dos principais partidos políticos? Intolerância dentro dos partidos políticos Por exemplo, são conhecidas as desavenças que houve dentro do partido Frelimo entre o grupo do Presidente Guebuza e o grupo do seu antecessor, o Presidente Chissano. Foi notória a votação ao esquecimento do segundo grupo pelo primeiro, muitas vezes com pronunciamentos públicos indecentes, incluindo prisão de ex-governantes num claro fingimento de combate à grande corrupção. Com a chegada do Presidente Filipe Nyusi à Presidência do país e da Frelimo, temos visto também o mesmo grau de intolerância entre o seu grupo de apoiantes e o grupo do seu antecessor. Como que a completar a trágica coreografia política, essa intolerância inclui também pronunciamentos públicos de uns contra os outros, incluindo também prisões de ex-governantes: Sempre em nome de um suposto combate à corrupção. Digo suposto porque fora das prisões não vemos nenhumas reformas às causas da grande corrupção no país. Estes são sinais de como a intolerância política no nosso país é mais profunda do que a intolerância partidária. E na Renamo? Do lado da Renamo, são conhecidos os desentendimentos entre o grupo de apoiantes do Presidente Ossufo Momade com o grupo do seu antecessor, o Presidente Afonso Dhlakama. O surgimento da autoproclamada Junta Militar – com todas as consequências que dela advêm – deve ser entendido no contexto dessa intolerância política, essa falta de capacidade de aceitação do Outro por parte de ambos os grupos. Não vemos tentativas nem esforços de convivência mútua, de aceitação de que “somos todos irmãos” tal como nos ensina o Papa Francisco. E no MDM? Do lado do MDM também vimos como a falta de aceitação entre irmãos resultou em saídas de membros daquele partido, tendo inclusive chegado ao trágico cúmulo da morte do ex-Presidente do Município de Nampula, Mahamudo Amurane. Sem conclusão das investigações das autoridades da justiça sobre as causas e os mandantes daquele assassinato, está assente no plano de análise política a discórdia que existia entre a direcção do MDM e aquele dirigente autárquico. Você não é dos nossos! É conhecida a discriminação, por exemplo, de pessoas que não sejam do partido no poder quando se trata de nomeações para cargos governativos, a vários níveis. Mas também, nos locais onde os partidos da oposição (Renamo e MDM) governam, não vemos procedimentos de aceitação do Outro. Notamos o mesmo grau de intolerância política, neste caso em miniatura, porque são casos registados a nível municipal. Ao passo que a intolerância política da Frelimo é mais visível porque ocorre a nível nacional e dentro de diferentes territórios do país. Promover a tolerância politica Podemos afirmar que sem aceitação mútua, sem tolerância e compreensão das nossas diferenças – se não nos tratamos como irmãos – é impossível criarmos desenvolvimento. Podemos ir aumentando o número de escolas e de hospitais, por exemplo, mas se não assumimos que essas escolas e hospitais devem pertencer a todos os moçambicanos, tanto para o seu uso como para a sua gestão, vamos apenas ter mais escolas e mais hospitais com mais exclusão, e por consequência, com maior desigualdade. Por isso, é importante que nós os católicos sejamos “sal da terra e luz do mundo” (Mat. 5: 13, 14) e marquemos diferença nos diferentes sectores da sociedade onde trabalhamos, ao contrário da inércia em que vivemos actualmente!

maio 10 2021

Liturgia do tempo da Quaresma

Por Pe Cantífula de Castro 40 dias para renovar-nos Anualmente, o ciclo da liturgia oferece-nos a oportunidade de uma longa caminhada de Quaresma. Trata-se de um tempo de preparação “pelo qual se sobe ao monte santo da Páscoa”, como o descreve o Cerimonial dos Bispos (CB 249). O tempo da Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina pela tarde de Quinta-Feira Santa, antes da Missa Vespertina da Ceia do Senhor, com que se inaugura o Tríduo Pascal.   Origem da Quaresma A Quaresma organizou-se a partir do século IV. A sua história anterior não é muito clara. Parece que o seu gérmen original foi o jejum pascal de dois dias, na Sexta e no Sábado antes do Domingo da Ressurreição, espaço que, a pouco e pouco, se alargou a uma semana, depois a três e, segundo as diversas regiões, sobretudo nas do Oriente, como o Egipto, até às seis semanas ou quarenta dias. Em Roma, a Quaresma já estava constituída, entre os anos 350 e 380.   Porquê quarenta dias? Para dar sentido a este período, como preparação da Páscoa, teve certamente grande influência o simbolismo bíblico do número quarenta. Vejamos alguns exemplos apresentados pela Bíblia. O dilúvio durou quarenta dias antes da aliança de Deus com Noé, conforme narrado em Génesis 6,1-8,12; Encontramos também Moisés que ficou quarenta dias e quarenta noites no monte (Êxodo 24,18); Moisés intercedeu em nome de Israel por 40 dias e 40 noites (Deuteronómio 9,18-25); a Lei especificava um número máximo de chicotadas que um homem poderia receber por um crime, e esse limite era 40 (Deuteronómio 25,3); os espiões israelitas levaram 40 dias para espionar Canaã (Números 13,25); antes da libertação de Sansão, Israel serviu os filisteus por 40 anos (Juízes 13,1); Golias provocou o exército de Saul por 40 dias antes de David chegar para matá-lo (1 Samuel 17,16). Por outro lado, o Povo de Israel caminhou durante quarenta anos pelo deserto (Números 14,26-35); a mesma sorte caiu para o profeta Elias que caminhou quarenta dias e quanta noites para o monte Sinai ao encontro de Deus (1Reis 19,1-8). No Novo Testamento, Jesus Cristo passou quarenta dias e quarenta noites no deserto, antes de começar a sua missão messiânica (Mateus 4,1-11). Deste modo, os quarenta dias de preparação para a Páscoa aparecem como um tempo de prova, de purificação e de preparação para um acontecimento importante e salvador. O Catecismo da Igreja Católica explica que “Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto” (CIC, 540).   A Espiritualidade da Quaresma Antigamente, a Quaresma começava originariamente no Domingo. Mas, nos séculos VI-VII acentuou-se como característica determinante o jejum, e como, aos domingos, não se jejuava, adiantou-se o seu início para a quarta-feira anterior ao primeiro domingo, a que de imediato se chamou “de Cinzas”, para que a Páscoa fosse precedida de quarenta dias de jejum efectivo. A Igreja propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de acção: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, paz e o amor em toda a humanidade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão e assim aproximar-se de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma consequência da penitência. A Quaresma é um tempo forte de conversão e de mudança interior, tempo de deixar tudo o que é velho em nós. Tempo de graça e salvação, em que nos preparamos para viver, de maneira intensa, livre e amorosa, o momento mais importante do ano litúrgico e da história da salvação: a Páscoa, aliança definitiva, vitória sobre o pecado, a escravidão e a morte. A espiritualidade da Quaresma é caracterizada também por uma atenta, profunda e prolongada escuta da Palavra de Deus. É esta Palavra que ilumina a vida e chama à conversão, infundindo confiança na misericórdia de Deus. O confronto com o Evangelho ajuda a perceber o mal, o pecado, na perspectiva da Aliança, isto é, a misteriosa relação nupcial de amor entre Deus e o seu povo. Motiva para atitudes de partilha do amor misericordioso e da alegria do Pai com os irmãos que voltam convertidos. Enfim, a espiritualidade da Quaresma é apresentada pela Igreja como um caminho para a Páscoa e mistério Pascal de Cristo e exprime-se no exercício das obras de caridade, no perdão, na oração, no jejum, principalmente no jejum do pecado. O Concílio Vaticano II determinou expressamente que se acentuasse o carácter baptismal e penitencial da Quaresma, “sobretudo através da recordação ou da preparação para o Baptismo e através da Penitência, dispõe os fiéis, que com mais frequência ouvem a Palavra de Deus e se entregam à oração, para a celebração do Mistério Pascal” (SC, 109). Agora “a liturgia quaresmal prepara para a celebração do Mistério Pascal tanto os catecúmenos, através dos diversos graus da iniciação cristã, como os fiéis, por meio da recordação do Baptismo e das práticas de penitência” (NG 27).   O que muda nas celebrações no Tempo da quaresma? As seis semanas da Quaresma dividem-se em três etapas, marcadas pelos Evangelhos correspondentes: os dois primeiros domingos, com as tentações e a transfiguração do Senhor; os três seguintes, com as catequeses baptismais da samaritana (água), do cego (luz) e Lázaro (vida), próprias do Ciclo A, mas que se podem seguir cada ano, embora haja outra série de leituras param cada ciclo; e, finalmente, o sexto domingo, chamado de Ramos ou da Paixão, que inaugura a Semana Santa. A liturgia da Palavra salienta alguns momentos significativos da História da Salvação: a criação do mundo, Abraão, o Êxodo e Moisés, o rei David, os profetas e o Servo de Javé. Tudo isso ajuda a entender a Quaresma como um caminho de crescente preparação para a celebração da Páscoa. Na liturgia não se canta Aleluia e o Glória. O

Nossa Localização

© 2025 Revista Vida Nova – Propriedade do Centro Catequético de Anchilo. Todos os direitos reservados.