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out 12 2021

Os Caminhos Arriscados do Homem de hoje

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de ferimentos, o abandonaram, deixando-o meio morto” (LC. 10. 29-30). Queremos referir do mundo actual em que o homem dúvida de tudo e menos nada muito mais quando não confia algo ou alguém na sua vida em todos os sentidos, vivendo apenas pela graça do seu criador, Deus. Cabe perguntar desde já: quem é o homem vulnerável que os salteadores de hoje atacam? E em que caminhos? Para onde fica Jerusalém e para onde é Jericó? E quem são os salteadores de serviço entre Jerusalém e Jericó? Conhecemo-lo suficientemente, contamos com eles, actuam às claras ou escondem-se na noite? Comecemos por elaborar uma listagem: quais políticos em campanha, daqueles que jazem nas atualmente nas bermas dos caminhos que vão a Jericó ou Dubai, para Abu Dabi ou África do sul, para Maputo ou Ilha de Moçambique. E por que não também nos caminhos ou corredores das nossas machamba e até, bem perto, nos dos nossos super mercados… Agora vejamos as dificuldades que alguns grupos de pessoas enfrentam na vida quotidiana: Os idosos: são os que pedem cada vez mais aí o prato da balança etária e a verdade nunca estamos suficientemente preparados para envelhecer e, menos ainda, de cuidar das pessoas que, tanto gasto as suas energias na construção do mundo e do Reino, requerem agora especiais necessidades de apoio. Descobrimos de dar mais anos à vida, mas ainda nos falta sabedoria para darmos mais vida aos anos. Bastante se faz pelos idosos hoje, e os religiosos estarão na primeira linha desse fazer, mas muitos idosos passam os últimos anos da sua vida terrena marginalizados, mergulhados na depressão, na solidão e no desespero. Os doentes terminais: são os despedidos dos hospitais sem esperança de cura e, não raro, abandonados aos seus próprios cuidados ou aos da família, que muita das vezes não existe ou está indisponível, ficam condenados a morrer sem dignidade. Os dependentes: Os dependentes de drogas, muitos dos quais entram num caminho sem retorno com passagem quase obrigatória pela contaminação pelo vírus do SIDA; os dependentes do jogo, que derretem em horas o que eles ou familiar ganham para poder viver com decência; os dependentes do álcool, portadores de uma doença às vezes não reconhecida como tal e não tratada, mas capaz de infernizar todos os ambientes ambientes onde o dependente se move: recorramos aqui aos confessores que um pequeno estudo sobre a doença apoiará o aconselhamento no confessionário. Os acusados pelos média: referimos aqui gente violada na sua interioridade e privacidade, não raro com suspeitas à margem da verdade. Que digam os psiquiatras quantos recorrem aos seus serviços! As vítimas de poluição: Agredidos pelos efeitos da tecnologia dos países ricos que, depois de nós intoxicarem a todos, num total desrespeito pela natureza faturando sem pudor os seus ecossistemas, acabam ainda por comprar os subsolos dos mais pobres, a troco de alguns dólares para saciar as suas muitas carências, impingido-lhes os seus resíduos tóxicos e nucleares. Vítimas da dívida externa: Povos recém libertados de processos coloniais, que aínda não tiveram espaço nem tempo para organizar a sua cidade e que matam a fome aumentando sempre mais a sua crucificante dependência dos pobres. Vítimas de globalização: Aqueles que o mercado mundial integrado prometeu sentar à mesma mesa, na ideia global, mas que afinal o poder desumanizador dos mais fortes acaba por remeter para situações gritantes de subdesenvolvimento. Gente de rosto indefinido: Falamos agora dos que são menos válidos física ou mentalmente, dos sem abrigo que (só em Nampula dizem que são….?), dos presos, dos emigrantes clandestinos, dos homossexuais, das mulheres abandonadas, dos filhos mal amados, enfim, daqueles para os quais gostaríamos de arranjar, e muitas vezes arranjamos psicologicamente, outros mundos onde achamos que devem viver. Passamos então de irmão a juízes. Seria bom, seria normal: atrevemo-nos a dizer que estes grupos fossem diminuídos cada vez mais à medida que os anos passam, que as técnicas terapêuticas e assistências se valorizam, que as ferramentas económicas e de gestão se aperfeiçoam. Infelizmente não é assim. José António Pagola, na sua revista Vida Nueva (Fevereiro, 2000), com o título: para uma cultura da solidariedade, afirma que “a pobreza marginalizadora é um produto calculado do desenvolvimento”. E sabemos como, cada dia, se vão desenhando novos pobres, novos caídos, o que parece inevitável se, como afirma o autor, “aceitamos como normal […] que o desenvolvimento e Bem-Estar de um sector da população traga consigo a exclusão de outro sector”. A sociedade actual tem uma configuração estratificada em três blocos bem diferenciados, entre os quais se erguem barreiras, quais cercas de arame farpado. No primeiro sector vivem os integrados, que estão seguros dentro do sistema, com trabalho, dinheiro, posição social e nível de vida assegurado. Normalmente preferem não pensar nas vítimas da crise económica e neles cresce facilmente a indiferença e o individualismo. A estes serve-lhes o arame farpado para auto proteção. No segundo sector vivem os que estão em situação de estabilidade ameaçada, na iminência do desemprego, com contratos de trabalho temporários, ausências antecipadas indesejadas, trabalho precário, a pensar nos filhos e na impossibilidade de dar uma formação adequada e sem qualquer tipo de garantia de emprego futuro, porque, se nada é estável agora, muito menos o será depois. Sentem-se importantes para cumprir projetos pessoais e sonhos…, arrastam-se pelos caminhos de angústia e do medo da iminência da queda. A cerca de arame farpado destes é mais psicológica que metálica e tem portas de vai-vem, mas aprisiona-os a insegurança da estabilidade ameaçada. Já os do terceiro e último sector foram empurrados para dentro de cerca de arame farpado e não têm as chaves dos portões. Não têm possibilidade de integração na sociedade de bem-estar e sofrem um desgaste constante a nível económico, social e cultural. Tudo se deteriora, até mesmo as suas relações familiares. Acabam por perder a confiança em si mesmos e não vêem qualquer saída nem futuro. A estes serão os

out 06 2021

A Agenda 2022 já chegou!

A Agenda VN 2022 está anexada à revista de Novembro 2021 Quem desejar mais cópia podes contactar a redação: VN 850485214 / 860484388 vidanovaanchilo@gmail.com obrigado

set 30 2021

Crónica – ESTE HOMEM NÃO É DA NOSSA TERRA

“Todo o reino, dividido contra si mesmo, fica devastado; e toda a cidade ou casa, dividida contra si mesma, não poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo: como há-de subsistir o seu reino? E, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam, então, os vossos discípulos?” (Mt 12,25-27) Uma das estratégias mais antigas que o espírito mau usa para confundir e derrotar a humanidade é a velha táctica de dividir para reinar. Esta é uma técnica de batalha tão efectiva e maquiavélica que a própria humanidade, sob a influência do espírito mau, tem reproduzido desde épocas antigas. A história faz-nos reviver a memória de líderes como Júlio César, Lisandro de Esparta, Filipe da Macedónia, Napoleão e muitos outros que utilizaram dela para construir suas guerras e campanhas bélicas e derramar o sangue de milhares de pessoas apenas para satisfazer seus caprichos. Não é preciso muito esforço nem lupa para notar que a sociedade na qual vivemos, está dividida. Vamos lá dizer em linguagem mais clara e objectiva; a realidade social fragmenta-se diariamente em pedaços cada vez menores; grupos políticos, religiosos, étnicos, sociais, de gênero e muitos outros estão se subdividindo repetidas vezes e guerreando tanto entre si quanto uns contra os outros; dividiram o mundo em continentes, em países em raças, em fronteiras em regiões, etc. As divisões antigas reproduzem novas divisões ainda mais profundas, dentro e fora dos grupos já existentes, e já enfraquecidos. E o demónio está aí aplaudindo a cada um para que continuem a rivalizar mais, despedaçar mais e faltar união, comunhão, harmonia, bem-estar, etc. Vejamos, por exemplo, que há partidos políticos surgidos da divisão de outros, casamentos que nascem da mesma sorte de divisão, igrejas que se despedaçam gerando outras seitas, grupos sociais sofrendo rupturas tão violentas e dolorosas que tornam-se incapazes de caminhar na mesma direção, ou mesmo de, simplesmente permanecerem frente a frente sem que uma guerra urbana ocorra. Existem inúmeros exemplos que podemos perceber com relativa facilidade ao nosso redor. Tudo isso está, na verdade, produzindo uma quantidade assustadora de histerias sociais que vão corroendo os pilares, estilhaçando a cada um em fragmentos cada vez menores e mais fracos até chegar a um ponto de colapso e ruína. Nosso dever é, portanto, discernir com clareza e lucidez para não sermos influenciados por pessoas facciosas, líderes ou membros, das instituições sociais ou religiosas, que tentam criar divisões internas ou externamente, pois o caminho que trilham, embora possa até não parecer, leva unicamente à ruína. A lei da natureza é certeira. O ser humano nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz-se se tiver sorte e morre. Ninguém escolhe onde nascer. Ninguém tem opção de escolher os seus progenitores, muito menos a capacidade de contrariar o destino. Mesmo que haja pessoas que odeiem os seus pais por se julgarem indignos deles, Deus os colocou no mundo por meio deles. Aliás, é recorrente ouvir-se que fulano X ou Y matou sua mãe, sua avó, seu tio, seu avô porque julgou que era feiticeira. Que injúria e espírito mau. Esse homicida é irracional! O ser humano não tem o direito de tirar a vida a si próprio ou a outrem. Mas tem sim a liberdade de escolher onde ir viver e que caminhos seguir para realizar seus objectivos. É por isso que há movimentação de pessoas de um lado para o outro. O famoso êxodo rural. Além disso, o nº 1 do Artigo 6 da Constituição da República de Moçambique define que “O território da República de Moçambique é uno, indivisível e inalienável, abrangendo toda a superfície terrestre, a zona marítima e o espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais”. Assim, qualquer moçambicano, onde quer que esteja, está no gozo pleno dos seus direitos como moçambicano. Nada lhe impede de exercer tarefas sociais. Por isso vemos naturais de Nampula trabalhando em Niassa ou os de Cabo Delgado trabalhando em Nampula, etc, etc. Só que por vezes há alguns exageros quando vemos que só os machuabos enchem no Maputo e outras províncias como empregados domésticos. Ou quando os de Maputo enchem em todas províncias do país ocupando os postos de trabalho por afinidade, amizade, nepotismo, padrinhismo, regionalismo, grupismo, corrompismo, etc. Entretanto, há pessoas com ódio cujos corações continuam aversos aos que chegam ou vivem na sua terra e trabalham ao serviço do povo. Não faltam vozes de concidadãos que dizem “este não é nosso conterrâneo por isso não pode ser nosso chefe nem nos pode mandar”. Afinal de contas quem é que não veio aqui no mundo? Quem é que desde o princípio do mundo vivia aqui? Todos nós somos vientes. Ninguém é dono do lugar onde vive. Por isso que é descabido negar a liderança de pessoas de outras províncias ou distritos sob pretexto de ser viente. É comum, por exemplo, encontrar líderes comunitários e religiosos que são fortemente odiados por seus comparsas ou pelo povo por não serem naturais da localidade, e aí exercerem liderança sobre o povo. De onde encontram essa lei que proíbe pessoas de Nampula serem líderes em Inhambane ou em Morrumbala? De onde veio a norma segundo a qual só pode ser líder comunitário ou religioso em Maputo apenas os que nasceram em Maputo? Não somos todos moçambicanos? Não somos todos cidadãos que gozam dos mesmos direitos e deveres? O princípio da igualdade perante a lei e oportunidades aplica-se, em norma geral, para todos moçambicanos, sem exclusão de sua origem. Portanto, nada determina que o ódio acenda no coração de incompetentes que se oportunam com a pele de ser natural para inviabilizar o trabalho dos outros. Ouviu bem? E mais não disse! Por Kant de Voronha

set 30 2021

Não pode haver justiça social a partir de desigualdades

Por Dr Deolindo Paúa Do mesmo modo que não se podem esperar mangas ao semear girassol, nem esperar que surjam maçãs num limoeiro, também não se pode esperar que se instale no nosso país justiça social a partir de acções que multiplicam desigualdades entre as pessoas. A nossa Constituição da República, no seu artigo 1º estabelece que Moçambique é um Estado de justiça social. No artigo 35 faz derivar essa justiça da igualdade entre os moçambicanos. Uma feliz combinação que, se efectivada, pode tornar o país num exemplo de respeito aos direitos humanos. Entretanto, quem é moçambicano, ou vive em Moçambique, sabe que até aqui, 46 anos depois da independência, a justiça social continua sendo inalcançável. As pessoas mais ricas são as mesmas de sempre e que continuam oferecendo oportunidades de riqueza apenas às pessoas do seu círculo familiar ou de amizades; as pessoas pobres, cada vez mais pobres, também são as mesmas desde a independência, que continuam sendo obrigadas a ser pobres ao perder oportunidade de emprego e de riqueza em favor dos cada vez mais ricos. Isto pode estar relacionado com a desigualdade enraizada em três contextos: regional ou tribal, política e profissional.   Desigualdade regional A razão da luta armada pela independência foi a descriminação em todos os sentidos, que era imposta pelo colono ao nativo. A luta foi movida pelo desejo de devolver dignidade aos moçambicanos. Por isso, os primeiros líderes da Frelimo (aquela Frelimo do passado e que se confundia com o povo) e do Estado tinham como compromisso a implantação da igualdade como pressuposto da unidade nacional. Mas por sermos africanos e termos constituído inevitavelmente um país multicultural, essa igualdade devia assentar sobre o equilíbrio entre as várias culturas. Infelizmente esse objectivo parece continuar a ser um sonho. De facto, é preocupante ouvir em conversas públicas do dia-a-dia cidadãos afirmarem que os melhores edifícios de escolas e hospitais estão concentrados numa determinada região do país e não nas outras; que os melhores cargos públicos são ocupados por gente de determinada região em detrimento de gente de outra região; e que os melhores investimentos económicos são feitos só numa região, deixando-se para outras regiões investimentos menos importantes. São assustadores estes pensamentos regionalistas. Mas mais assustadora é a ligação destes preconceitos com a realidade. Num projecto de unidade nacional o desenvolvimento deveria ser igual em todas as províncias. Mas o modo como se desenvolve a qualidade de vida e das infrastruturas na capital do país em forma desigual as outras províncias, faz valer as especulações de regionalismo. Assimetrias regionais, culturais e tribais nunca levarão a justiça social porque são fenómenos que solidificam a desigualdade.   Desigualdade política Hoje, em Moçambique, fazer política é a forma mais rápida de criar condições de sobrevivência e até mesmo de se ser rico. De facto, é curioso o facto de que os empresários mais bem-sucedidos tenham passagem pela política ou pelo menos tenham ligação com políticos influentes. Não é por acaso que vemos pessoas se esforçarem para assumir cargos políticos. Já não importa a capacidade de exercer o cargo que almejam, mas apenas a finalidade que é o acesso fácil aos recursos que facilitam a riqueza. Por isso vemos municípios governados por oportunistas, governos infestados por ministros incompetentes, Assembleia da República cheia de deputados improdutivos e incompetentes. Mas mais grave é que o partido mais forte num município ou no país inteiro controla a vontade dos cidadãos. Quem milita no partido que governa tem as melhores chances de ascender a cargos de chefia, de conseguir emprego, de trabalhar em instituições bem localizadas, de mudar de carreira, de obter financiamento para o seu projecto empresarial e, enfim, de sobreviver melhor que os outros cidadãos. Por isso cargos de chefia como directores de escolas, chefes dos postos administrativos, administradores distritais, vereadores, governadores provinciais, directores provinciais, ministros, etc., não são ocupados necessariamente por competentes, mas por quem gritou mais durante a campanha eleitoral. O critério de selecção para assumir determinados cargos já não é apenas o de ser cidadão moçambicano, mas também e sobretudo o de ser militante. Se um cidadão não milita no partido que governa então está condenado ao sofrimento. Ora, se a política ao invés de unir e aglutinar para coordenar esforços de desenvolvimento, divide e cria preferências entre uns e outros cidadãos da mesma pátria, então esse partido não é agente de desenvolvimento, mas de desigualdade e de injustiça.   Desigualdade profissional Seria bom que, tal como em países normais, a Administração Pública tivesse critérios de tratamento igual para os seus funcionários. Mas isso nem sempre acontece. Por exemplo, o professor não tem os mesmos direitos que o médico, nem o médico os mesmos privilégios que o contabilista, muito menos este as mesmas regalias que o alfandegário, e assim sucessivamente. Há quem diga que essas diferenças se justificam pela natureza do trabalho que cada grupo de profissionais exerce. Pode ser perceptível. Mas, respeitando as especificidades de cada profissão, julgo que há exageros legais que promovem a desigualdade. No passado mês de Maio estava em discussão o estatuto que atribuía regalias e benefícios ao funcionário parlamentar. A justificação da Assembleia da República para aprovar (por consenso entre as três bancadas) o regime especial de regalias do funcionário da Assembleia da República é de que havia necessidade de conferir dignidade e oferecer auxílio pelo complexo trabalho que se exerce. Na situação penosa do funcionário público moçambicano qualquer aumento salarial deveria ser motivador, justo e obrigatório. Entretanto, este ajuste peca por ser selectivo. Por isso as perguntas que insistentemente são feitas não são sobre a justeza ou não das regalias. Mas têm a ver com o facto de se ter ignorado a situação de trabalho extremamente degradado do professor e do médico, por exemplo, sobretudo nas zonas recônditas. Quer dizer que qualquer justificação que não leve em conta o sacrifício de quem usa recursos e esforço pessoal para desempenhar a sua actividade profissional é equivocada. Se queremos um Estado de justiça social temos que ser capazes de assumir as consequências dessa

set 29 2021

Mutilação Genital Feminina: Luta para “abolir uma barbárie”

Por Judite Macuacua Pinto No dia 6 de Fevereiro celebra se o Dia Internacional contra a Mutilação Genital Feminina. Em muitos países africanos, as mulheres continuam a ser vítimas desta prática. Por isso nunca é tarde de mais para falar deste assunto. Hadja Idrissa Bah não quer ser uma vítima. A jovem da Guiné-Conacri está determinada a lutar como activista contra a Mutilação Genital Feminina (MGF). Apesar de ser proibido, o ritual brutal é generalizado no seu país: segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 97% das mulheres na Guiné-Conacri são circuncidadas. “Em muitas comunidades, cosem inclusive os lábios genitais, que são depois rasgados na noite de núpcias”, conta Hadja, de dezanove anos, em entrevista à DW. “Estou traumatizada. Quando alguém me fala sobre a circuncisão, sinto-me impotente e tenho medo – é uma coisa que me consome.” A jovem veste um turbante amarelo claro e uma blusa xadrez, vermelho e azul. Fala de forma entusiasmada sobre a organização que fundou, para informar e proteger as raparigas do grande sofrimento da mutilação genital. “Fiquei a odiar os meus pais, porque eles me traíram”, recorda. “Não me disseram para onde estava a ser levada. Teoricamente era para ir de férias, mas fui confrontada com isto.”   Mulheres consideradas impuras Em muitos países africanos, segundo as crenças tradicionais, raparigas e mulheres são consideradas impuras se não forem circuncidadas. “Os pais temem que não encontrem marido, e muitas mulheres acham que a sua condição é normal”, diz a médica Mariatu Tamimu, que trata vítimas de MGF na Serra Leoa. Os ferimentos resultantes da mutilação genital podem ter níveis diferentes de gravidade. Comum a todos os casos é que a genitália feminina externa é parcial ou completamente removida. Muitas vezes, o procedimento é realizado em condições anti-higiénicas, sem anestesia e com meios simples, como cacos de vidro ou lâminas de barbear. “Na nossa clínica de ginecologia na cidade de Bo, costumamos operar fístulas que se formaram devido à mutilação. Muitas vezes, o canal de parto está fechado. Nós abrimo-lo para que as mulheres possam dar à luz”, diz a médica de 32 anos. “É tudo para o prazer dos homens”, afirma. “O clitóris é cortado, porque a crença generalizada é que, caso contrário, as mulheres podem traí-los.” Para Tamimu, a prática não tem nada a ver com religião. Algumas mulheres conseguem ter uma vida normal e engravidar após uma cirurgia. Mas outras, por causa da gravidade dos ferimentos, “ficam lesadas para a vida inteira”.   Rituais alternativos No Quénia, a circuncisão genital feminina também é proibida. No entanto, é realizada secretamente em muitas comunidades. Denge Lugayo, da organização não-governamental africana “Amref Health Africa”, que luta contra a MGF, enfatiza que, para acabar com esses rituais perigosos a longo prazo, toda a comunidade deve estar envolvida. A organização promove, por exemplo, a realização de ritos de passagem de idade alternativos. “Todos os passos que as comunidades seguem durante o ritual são seguidos, exceto a circuncisão. A celebração, a cerimónia e a dança são realizadas, mas recomendamos a exclusão do corte da rapariga ou da mulher”, diz Lugayo. Ações de esclarecimento nas escolas também são importantes, tal como programas alternativos de ocupação para as mulheres que realizam a circuncisão, acrescenta: “Se quisermos abolir essa barbárie no futuro, também temos de considerar as mulheres que fazem a MGF e criar outras fontes de rendimento, e temos de conversar com elas sobre isso. Podem, por exemplo, produzir sabonetes ou almofadas para as raparigas.”   Clínica em Berlim ajuda migrantes Há quatro anos que Cornelia Strunz, cirurgiã no Hospital Waldfriede de Berlim, trata mulheres vítimas de mutilação genital. Faz operações reconstrutivas e oferece também ajuda psicossocial e aconselhamento. “A maioria das mulheres são migrantes de países africanos e falam aqui, pela primeira vez, sobre o que lhes aconteceu”, revela a médica. “A Organização Mundial de Saúde estima que 10% das mulheres vítimas de MGF morrem de consequências agudas e 25% de consequências a longo prazo. Muitas têm dores na região do clitóris e das cicatrizes. Outras foram completamente costuradas, sentem dores ao urinar e não podem ter relações sexuais. Algumas têm fístulas, que se formam entre a vagina e o reto.” Muitas dessas vítimas vivem há muito tempo na Alemanha; outras vêm de toda a Europa para receber tratamento na clínica. Para as mulheres, o tratamento é gratuito, possibilitado pela fundação “Desert Flower”, da modelo somali Waris Dirie, que foi vítima de mutilação genital e assim muitas mulheres são ajudadas a te uma vida melhor. (DW)

set 28 2021

A caridade politica

A caridade politica «Gostaria de insistir no facto que «dar a cada um o que lhe é devido, segundo a definição clássica de justiça, significa que nenhum indivíduo ou grupo humano se pode considerar omnipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais. A efectiva distribuição do poder, sobretudo político, económico, militar e tecnológico, entre uma pluralidade de sujeitos e a criação dum sistema jurídico de regulação das reivindicações e dos interesses realiza a limitação do poder. Mas, hoje, o panorama mundial apresenta-nos muitos direitos falsos e, ao mesmo tempo, amplos sectores sem protecção, vítimas inclusivamente dum mau exercício do poder» (171).   Autoridade mundial ou pessoal? Quando se fala duma possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito, não se deve necessariamente pensar numa autoridade pessoal. Mas deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais (172).   Uma caridade social e política Actualmente muitos possuem uma má noção da política, e não se pode ignorar que frequentemente, por trás deste facto, estão os erros, a corrupção e a ineficiência de alguns políticos (176). “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia… precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários aspectos” (177). Perante tantas formas de política mesquinhas e fixadas no interesse imediato, lembro que “a grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo. O poder político tem muita dificuldade em assumir este dever num projecto de nação” (178).   O amor político Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade. Com efeito, um indivíduo pode ajudar uma pessoa necessitada, mas, quando se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos, entra no “campo da caridade mais ampla, a caridade política”. (180) Esta caridade política supõe ter maturado um sentido social que supere toda a mentalidade individualista. Cada um é plenamente pessoa quando pertence a um povo e, vice-versa, não há um verdadeiro povo sem referência ao rosto de cada pessoa. Povo e pessoa são termos correlativos. Contudo, hoje, pretende-se reduzir as pessoas a indivíduos facilmente manipuláveis por poderes que visam interesses ilegítimos. A boa política procura caminhos de construção de comunidade nos diferentes níveis da vida social, a fim de reequilibrar e reordenar a globalização para evitar os seus efeitos desagregadores (182).   Amor eficaz A partir do “amor social”, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos. O amor social é uma «força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente, desde o interior, as estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos» (183)   A caridade na verdade A caridade está no centro de toda a vida social sadia e aberta. Todavia, hoje, “não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais. A relação da caridade com a verdade é que favorece o seu universalismo. Privada da verdade, a emotividade fica sem conteúdos relacionais e sociais. Por isso, a abertura à verdade protege a caridade duma fé falsa, que a priva de «amplitude humana e universal (184). A caridade precisa da luz da verdade, que buscamos constantemente, e “esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé”, sem relativismos. Isto supõe também o desenvolvimento das ciências e a sua contribuição insubstituível para encontrar os percursos concretos e mais seguros para alcançar os resultados esperados. Com efeito, quando está em jogo o bem dos outros, não bastam as boas intenções, mas é preciso conseguir efectivamente aquilo de que eles e seus países necessitam para se realizar (185). (2ª –Cont.)

set 27 2021

A participação dos cristãos na política

Por Dr. Tomas Selemane “A política é um compromisso de humanidade e santidade” (Papa Francisco) Quando nós falamos de participação política não estamos a falar apenas de militância partidária. Essa é apenas uma de muitas formas de participar na política, outras são: participação nas associações cívicas, movimentos de cidadania, grupos profissionais entre outras. Os travões do desenvolvimento do nosso país, como temos vindo a apresentar nas passadas edições da VN, devem ser combatidos através da participação dos cristãos na vida social e política. De facto quanto mais os cristãos participarem da vida social e política, com espírito cristão, colocando em prática os ensinamentos do Evangelho, mais humanizada, solidária e justa será a nossa sociedade.   Politica, caminho de serviço Papa Francisco nos recordou que: “a política é um compromisso de humanidade e santidade, e, portanto, um caminho exigente de serviço e responsabilidade aos fiéis leigos, chamados à animação cristã das realidades temporais”. Estas palavras são um apelo e, ao mesmo tempo, um desafio à maioria dos cristãos de Moçambique e de todo o mundo. Por razões históricas, os cristãos em Moçambique e no mundo desenvolveram, ao longo do tempo, uma relação conflituosa com a política. Por um lado são conhecidas as relações de proximidade que práticas políticas opressivas e de exploração, como o colonialismo ou o apartheid, mantinham com as igrejas cristãs. Por outro, não esqueçamos que o património da Igreja, nomeadamente escolas, hospitais, internatos e habitações foram atacadas e nacionalizadas pela Frelimo revolucionária, que, a seguir a independência nacional, pregava o marxismo-leninismo. E agora acolhemos os ateus de outrora, que regressaram ao convívio da fé, baptizaram os seus filhos e netos e muitos deles celebraram matrimónio e retomaram a vivência cristã. Este percurso histórico é intrigante para a maioria das nossas comunidades cristãs. Em parte porque falamos pouco da nossa história, e por isso, também a compreendemos muito pouco.   Ser cristão de fachada? Em consequência disso, existem muitos cristãos católicos que consideram a participação na política como sendo incompatível com a sua vida cristã. Do mesmo modo, temos muitos cristãos católicos que por militância partidária, ou dever de ofício na política, muitas vezes decidem esquecer-se do seu compromisso católico, colocando em frente os seus interesses político-partidários. Talvez é por essa razão que havendo muitos cristãos nas nossas instituições políticas – tanto no Estado, no Governo, nos Municípios como nos partidos políticos – a nossa vida social e política continua orientada pelo ódio, pela violência, pela intolerância e por perseguições políticas.   Estudo relevante Em 2018, a Comissão Episcopal de Justiça e Paz, realizou uma pesquiza e um estudo em todas as dioceses do país para procurar compreender como os nossos cristãos encaram “o papel do cristão católico na vida social e política em Moçambique.” A realização desse estudo foi motivada pela “inquietação sentida pela Comissão Episcopal de Justiça e Paz devido ao avolumar-se das dificuldades de convivência pacífica entre os moçambicanos, fundadas na violação sistemática das regras básicas de boa convivência, e consciente da positiva influência que o Espírito evangélico pode exercer na promoção da paz, solidariedade recíproca entre grupos de interesses diversificados, promoção da justiça social e do bem comum.” Com essa motivação, o estudo procurou indagar sobre como fazer com que o rico património espiritual do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja sirva de motor impulsionador do empenho ulterior dos cristãos católicos na vida social e política.   Difícil conectar O estudo concluiu, de entre outros aspectos, que os cristãos católicos moçambicanos revelam uma grande dificuldade em fazer uma conexão entre o ser cristão e o ser cidadão comprometido; pelo contrário, fazem, inclusive, um esforço de separar a sua religiosidade da própria vida existencial nas áreas da política, da economia, da saúde, etc. É por isso mesmo que a sua participação na vida social e política do país tem sido exígua. O exíguo envolvimento dos cristãos católicos moçambicanos na vida social e política do país – resumiram os autores do estudo – “impede a cristianização da realidade política e socioeconómica, podendo ser uma consequência lógica do modo como vem sendo feita a formação cristã; a formação catequética que se administra nas Paróquias pode não ser suficiente para dotar os cristãos de conhecimentos e habilidades para afrontar problemas existenciais à luz da Palavra e da Comunhão com Deus.”   Box Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (2018) sobre a Chamada à Santidade no Mundo Actual, nos lembra que para ser santo, não é necessário ser Bispo, sacerdote, religiosa ou religioso mas todos os cristãos são chamados à santidade. “Todos nós somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais.”

set 27 2021

Qual é o significado das exéquias para os cristãos?

Ninguém escapa A vida e a morte são duas gémeas inseparáveis. Quando chega uma, a outra, mais cedo ou mais tarde, também não deixa de aparecer. É por isso que a Igreja celebra solenemente estes dois momentos de passagem da vida de cada um. Há muitas maneiras de celebrar um funeral, dependendo da religião, da cultura e da sociedade em que vivemos. Neste tempo de pandemia pelo covid-19, os funerais dos nossos entes queridos falecidos por este vírus mortal, tiveram um funeral “reduzido” conforme o normal. Isto provocou muitas feridas no coração dos familiares que muitas vezes não puderam despedir-se, conforme eles desejavam do próprio familiar. É por isso que vamos entender melhor o que é a celebração do funeral. Luz eterna Funeral vem da palavra latina “funus”, que por sua vez deriva de “funalia”, tocha, porque outrora se faziam os enterros à noite, e eram acompanhados com tochas acesas ou archotes. O cristianismo purificou esta cerimónia pagã, santificando-a com as luzes empregadas nos ofícios fúnebres, mas as luzes agora simbolizavam a alegria e a esperança na ressurreição da carne. Embora a morte seja natural para todas as civilizações, cada cultura tem um jeito especial de se despedir e de homenagear a pessoa querida que partiu. Confira abaixo como são os rituais fúnebres nalgumas diferentes religiões.   Igreja Católica Duas ideias principais percebemos claramente em todos os ofícios fúnebres da Liturgia da Igreja. A primeira é excitar, em favor dos mortos, a compaixão e a caridade dos vivos, pelos defuntos que estão à espera do encontro com a luz eterna; a segunda, é afirmar a ideia consoladora da ressurreição da carne. O velório é celebrado com incenso, que significa veneração; água, para lembrar o baptismo e velas, para simbolizar que a vida vai se queimando. Além do mais, a luz é um sinal de Deus. Outro hábito comum na igreja católica é a vivência do luto. De acordo com a religião, é importante que se permita viver a tristeza do momento. Muitos vestem roupas pretas para simbolizar que perderam um amigo ou familiar.   Protestantismo Assim como as cerimónias fúnebres católicas, os funerais protestantes também acompanham uma celebração religiosa. Porém, os protestantes não utilizam velas, nem crucifixos, apenas flores para homenagear quem partiu.   Judaísmo Para o judaísmo, como a morte é democrática, isto é, acomete a todos os tipos de pessoas, ela também deve ser simbolizada de maneira igual. Nessa religião, primeiramente, o corpo é lavado por pessoas especializadas da comunidade para que volte a ser como chegou a esse mundo, purificado. Depois o corpo deve ser vestido com uma túnica branca e, então, ocorre o velório. Antes do funeral, os familiares do morto rasgam as suas próprias roupas, como representação do luto.   Você sabe qual é o significado das exéquias para os cristãos? O Catecismo da Igreja Católica nos ajuda a compreender o que são as exéquias. A palavra exéquias provém do verbo latino exsequi, que significa “seguir” e refere-se ao cortejo fúnebre que segue o corpo do defunto até o túmulo. Para entender o significado cristão disso, encontramos uma profunda explicação das exéquias no Catecismo da Igreja Católica. Antes de tudo, há um item sobre “A última Páscoa do cristão”. Aqui, lembra-se que a Morte e a Ressurreição de Cristo revelam para nós o sentido da nossa morte: o cristão que morre em Cristo Jesus “abandona este corpo para ir morar junto do Senhor” (2 Coríntios 5,8). A Igreja, como mãe, acompanha o cristão no termo da sua caminhada para entregá-lo “nas mãos do Pai”.   Onde acontecem as exéquias? A Celebração das Exéquias, acontece, frequentemente, em três lugares: o velório em casa ou noutros lugares próprios onde os parentes recebem os amigos do falecido; a Igreja onde se celebra a Missa de corpo presente ou directamente no cemitério, onde se sepulta o corpo do falecido e há uma celebração da Palavra. Nesses lugares, muitos cristãos escutam a Palavra de Deus, especialmente os Evangelhos, e rezam. A Palavra nos transmite o sentido da morte para o cristão, como acima lembrado. E a oração expressa a nossa fé na “comunhão dos santos”. “Santos” são os santificados pelo baptismo, que procuram viver sua fé de maneira coerente. A morte não nos separa dos falecidos: nós permanecemos “em comunhão” com eles. Eles estão em Deus e rezam por nós; e vice-versa. Na vida presente, muitas vezes, a fé é misturada com pecados de fraqueza e egoísmo, que, mesmo assim, não rompem de maneira radical a comunhão com Deus e com os irmãos. Então, logo após a morte, os cristãos vão completar sua conversão: e aqui encontramos a fé católica na existência do Purgatório. Vivos e falecidos permanecem, pois, unidos, e rezam reciprocamente uns pelos outros, para que a conversão total a Cristo seja completa. A esse respeito, é bom lembrar a origem da palavra “cemitério”. Na língua grega koimeterion (κοιμητήριον) significa “lugar de repouso”, dormitório. Sim, mas quem vai dormir, depois do descanso, levanta-se. E nós levantar-nos-emos, no dia da ressurreição: para viver com Cristo, que destruirá a morte para sempre. A palavra “cemitério” aponta, pois, para o sentido profundamente cristão da morte. Nos lugares das exéquias, nós cristãos somos chamados a ser missionários, quer dizer, anunciadores da morte-ressurreição de Cristo, que dá um novo sentido à vida e à morte. As exéquias são, pois, um “momento de graça” para renovar a nossa fé e para proclamá-la.

set 27 2021

A fraternidade é a nova fronteira da humanidade

Por Pe. Massimo Robol «Não há alternativa: ou construímos juntos o futuro ou não haverá futuro. De modo particular, as religiões não podem renunciar à tarefa impelente de construir pontes entre os povos e as culturas. Chegou o tempo de as religiões se gastarem mais activamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, para ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os itinerários concretos de paz». Com esta visão, a 4 de Fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o Grão Imã de Al-Azhar (a Universidade islâmica do Cairo) Ahmad al-Tayyeb assinaram em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz e da Convivência Comum. Alguns dirão que se trata de mais um documento que corre o risco de cair no esquecimento público, como tantos outros. Este é o perigo que temos de evitar se estivermos verdadeiramente preocupados com o bem da família humana. Face a uma humanidade ferida por tantas divisões, conflitos e sofrimentos, o Papa e o Grão Imã mostram que a promoção da cultura do diálogo, do encontro e do conhecimento do outro não é uma utopia, mas a condição necessária para viver em paz e deixar às gerações futuras um mundo melhor do que aquele em que vivemos. Por isso, o Documento pretende ser um convite a todas as pessoas, “que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal Documento se torne para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos”. O texto do Documento sobre a Fraternidade Humana enfrenta, chamando-os pelo nome, alguns dos problemas mais urgentes do nosso tempo, convidando crentes e pessoas de boa vontade a um exame de consciência e a assumir com confiança e determinação as suas responsabilidades na construção de um mundo mais justo e inclusivo.   Simpósio em Anchilo O apelo final dos dois signatários, para que o Documento fosse divulgado nas várias esferas da vida civil, política e religiosa, foi acolhido também por algumas confissões religiosas presentes na Província de Nampula. Assim, o Centro Catequético “Paulo VI” do Anchilo – Nampula, a Comissão Arquidiocesana para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, a Comunidade de Sant’Egídio, em colaboração com a Plataforma dos Clubes de Paz de Nampula, (Conselho Islâmico de Moçambique – CISLAMO e Conselho Cristão de Moçambique – CCM), organizaram dois encontros de estudo e reflexão sobre esta declaração, que tiveram lugar no Centro Catequético “Paulo VI” do Anchilo, nos dias 19 e 20 de Maio de 2021. Nos dois eventos participaram crentes muçulmanos e membros da religião cristã, incluindo católicos e protestantes. Após a apresentação do Documento sobre a Fraternidade Humana, o programa dos encontros desenvolveu alguns aspectos do texto através de uma série de temas. O primeiro tinha como título: “O papel das religiões na construção da paz, como fruto social do compromisso espiritual”. O orador, o Rev. Daniel Joaquim, Pastor da Igreja Evangélica de Cristo, afirmou que a religião é, por sua natureza, fonte de comunhão entre os crentes. Como tal pressupõe os valores da solidariedade e da fraternidade, caminhos para gerir a coexistência humana, para interpretar as diferenças que existem entre nós e para desanuviar os conflitos. A comunhão é o fruto do amor, que deve levar à acção, para o bem de todos, independentemente da afiliação religiosa, social, étnica ou cultural. A tarefa principal de cada crente é fazer com que a religião se torne meio para defender e promover a paz e a justiça, a dignidade humana e o cuidado do ambiente. Portanto, a oração, o diálogo, o respeito e a solidariedade são antídotos contra o terrorismo, o fundamentalismo e todos os tipos de guerra e violência. O segundo tema ajudou os participantes a reflectir sobre a “Fraternidade humana e liberdade religiosa: dois pressupostos para uma convivência civil”. Animou a palestra o Pe. Eduardo A. Roca Oliver, sacerdote Fidei Donum espanhol que trabalha em Pemba e é Responsável do Centro Inter-religioso para a Paz – Pemba. O ponto de partida foi a afirmação que a liberdade é um direito de toda a pessoa: todos gozam de liberdade de crença, pensamento, expressão e acção porque somos todos membros da única família humana. O pluralismo, não só religioso, da nossa sociedade é uma realidade que nos convida a reflectir sobre a nossa identidade sem a qual não existe um autêntico diálogo inter-religioso. Não dizemos que todas as religiões são iguais, mas que todos os crentes, aqueles que procuram Deus e todas as pessoas de boa vontade, têm igual dignidade. O justo é que haja a religião, o bom é que todos possam praticar a própria religião. Temos, portanto, de nos empenhar para que Deus, que nos criou, não seja razão para a divisão, mas sim para a unidade e a comunhão. O terceiro tema tinha como título: “A cultura do diálogo como método de conhecimento mútuo e forma de colaboração”. O orador, o Sheikh Jamal Mussa Ibrahimo, do Conselho Islâmico de Moçambique – CISLAMO, afirmou que o diálogo é essencial para reforçar os laços da fraternidade humana, para construir um mundo pacífico e uma coexistência comum. Devemos adoptar a cultura do diálogo como caminho, como forma de colaboração, como método de conhecimento mútuo e como critério comum. Escolhe-se o diálogo para rejeitar conflitos e progredir no conhecimento mútuo. Ao conhecermo-nos melhor, será possível apreciar os valores presentes no outro. E os elementos comuns podem abrir espaços de colaboração para o bem comum de diferentes povos. Assim, será possível passar da mera tolerância à coexistência fraterna. A abertura aos outros e o reconhecimento da origem comum é o primeiro passo para nos afastarmos dos muros levantados pelo medo e pela ignorância e para tentarmos juntos construir aquelas pontes de amizade que são fundamentais para o bem de toda a humanidade. O Documento sobre a Fraternidade Humana é

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