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set 27 2021

OS DESAFIOS DO MUNDO DIGITAL PARA A IGREJA E PARA A EVANGELIZAÇÃO

Continuamos a apresentar os temas dos Lineamenta que preparam e animam as comunidades cristãs para a IVª Assembleia Nacional de Pastoral (2021-2023). A iniciativa da preparação e celebração da IVa Assembleia Nacional de Pastoral (2021-2023) visa criar uma experiência conjunta de ESCUTA, DISCERNIMENTO e COMUNHÃO ECLESIAL que coloque todo o Povo de Deus (fiéis católicos) a exprimir o que as Comunidades Cristãs e os Católicos dispersos vivem em todo Moçambique. A partir daí, inspirados pelas soluções que o Espírito Santo suscitar no meio dos crentes, toda a Igreja Católica em Moçambique traça RUMOS DE ACÇÃO COMUM para uma pastoral de conjunto. Trata-se de juntos, como Igreja Família de Deus, elaborar LINHAS PASTORAIS COMUNS, amadurecidas durante todo o caminho de preparação da IVª Assembleia Nacional de Pastoral. O que é o mundo digital? Hoje em dia é praticamente impossível ignorar o mundo digital. Por mundo digital, entende-se todas as transformações resultantes da invenção da computação e da internet. O mundo digital não só transforma a cultura humana, mas também o próprio ser humano. Por isso, hoje se fala do “Homem digital” e de “nativos digitais”, para designar os seres humanos que se definem a partir da internet e acham que sem ela não podem viver. Sendo a Igreja hoje chamada a anunciar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo tanto no mundo digital, como ao homem digital, não pode desconsiderar o diálogo com esta realidade. Tal diálogo significa adequar o Evangelho aos recursos do mundo digital e assumir os valores, alegrias, ânsias, solidão e todas as vulnerabilidades do Homem digital.   LEITURA DA REALIDADE A internet e a computação provocaram uma autêntica revolução na sociedade humana. Não só mudou a cultura, mas também o próprio ser humano no seu modo de pensar, sentir e relacionar-se. De facto, a internet representa uma grande oportunidade para o acesso à comunicação e à informação. Hoje, com qualquer dispositivo digital, seja um smartphone, computador ou tablet, não só se pode receber qualquer informação que se quiser, como também se pode emitir qualquer informação à escala global. A partilha de hábitos, tradições, usos e costumes de povos diferentes, possibilita igualmente um grande enriquecimento antropológico e contribui para o progresso global. A internet é um espaço virtual de encontro, partilha e solidariedade. Para muitos jovens hoje, a realidade de todo o existente se resume à internet. Para eles, se uma coisa não se encontra na internet e nas redes sociais, então essa coisa não existe. Para esses, se a Igreja e o Evangelho não se encontram na internet e nas redes sociais, então não existem. Felizmente, no nosso país, já se notam iniciativas, tímidas e descontinuadas, de uso da internet para a Evangelização, embora essas iniciativas ainda não tenham o impacto desejado.   FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA A Epístola aos Hebreus revela-nos que Deus falou muitas vezes e de muitos modos (Cf. Hb 1, 1). Deus comunica através da sua Palavra. A comunicação de Deus é frequente (muitas vezes) e diversificada (de muitos modos). Jesus Cristo é a Palavra de Deus por excelência: o Verbo encarnado (Cf. Jo 1, 14). O Verbo eterno do Pai, fez-se Homem em Jesus de Nazaré, para comunicar o amor misericordioso do Pai, objecto de toda a comunicação divina. A narração da criação no Génesis apresenta Deus que cria através da Sua Palavra. A Palavra de Deus é criadora. Deus comunica-Se aos homens, revelando a Sua identidade e vontade. Os profetas, mensageiros de Deus, serviram-se de vários meios, sátira, cânticos, poemas, parábolas, acções simbólicas, anúncio e denúncia, para exortar o povo a converter-se. Jesus Cristo, a última Mensagem do Pai, na sua missão messiânica comunicou o Evangelho do Reino dos Céus em todos os lugares e a todas as pessoas. O Espírito Santo capacitou aos apóstolos do Senhor Jesus para proclamarem a todos os povos a feliz mensagem pascal. A Igreja reconhece as potencialidades da Internet como instrumento de contacto pastoral, bem como de orientação vocacional, em particular onde, por várias razões, a Igreja tem dificuldades em alcançar os jovens com outros meios.   PROPOSTAS OPERATIVAS Algumas propostas operativas: a) A Igreja deve levar a luz do Evangelho à internet. Ela pode ser um espaço pré-evangélico. De facto, há muitas pessoas que frequentam a internet a procura da “Boa Nova” da felicidade. A Igreja não pode eximir-se de evangelizar essas pessoas no seu espaço existencial que é a internet. b) Mais do que um meio de comunicação, a internet constitui-se um verdadeiro mundo sedento da Luz do Evangelho para evangelizar o Homem e o mundo digitais. Na verdade, a comunicação mais bela que a internet pode fazer é a comunicação do amor misericordioso de Deus. c) Para um uso mais profícuo da internet, as dioceses podem instaurar secretariados de comunicação com o objectivo específico de organizar conteúdos para a divulgação na internet, bem como o apoio técnico para manter a página da internet actualizada bem como as outras plataformas digitais. d) Os agentes de pastoral devem ser formados para o uso das redes sociais como imperativo evangélico, dominar técnica e moralmente as plataformas sociais de modo a evangelizar os jovens de hoje.   PERGUNTAS PARA A REFLEXÃO 1) A leitura da realidade corresponde àquilo que se revela na Igreja e na sociedade de hoje? Quais são os aspectos que faltam e que devem ser tomados em consideração? 2) Quais são as oportunidades e desafios que se encontram no mundo digital? 3) Como a Igreja (dioceses, paróquias e comunidades) pode usar as redes sociais para evangelizar? 4) Quais são os perigos que se podem encontrar nas redes sociais? 5) Por que frequentemente a Igreja não usa as redes sociais para evangelizar? 6) Quais seriam as vantagens de usar as redes sociais para evangelizar?

set 25 2021

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM B

26/09/2021: LITURGIA DA PALAVRA Primeira leitura: Nm 11,25-29 Salmo: 18 (19) Segunda leitura: Tg 5,1-6 Santo Evangelho: Mc 9,38-43.45-47-48 Tema: SER UMA COMUNIDADE ACOLHEDORA, SOLIDÁRIA E DE PARTILHA DE BENS A liturgia da Palavra deste domingo apresenta várias sugestões para que os crentes possam purificar a sua opção e integrar, de forma plena e total, a comunidade do Reino. Uma das sugestões mais importantes é de reconhecer e aceitar a presença e a acção do Espírito de Deus através de tantas pessoas boas que não pertencem à instituição Igreja, mas que são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo. O livro dos Números ensina que o Espírito de Deus sopra onde quer e sobre quem quer, sem estar limitado por regras, por interesses pessoais ou por privilégios de grupo. O verdadeiro crente é aquele que, como Moisés, reconhece a presença de Deus nos gestos proféticos que vê acontecer à sua volta. A comunidade do Povo de Deus é a comunidade do Espírito. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e com o seu projecto de vida. Mesmo o irmão mais humilde, mais pobre, menos considerado da nossa comunidade possui o Espírito de Deus. O Espírito Santo não é propriedade dos padres ou dos animadores. No Evangelho temos uma instrução, através da qual Jesus procura ajudar os discípulos a procurarem somente os bens do Reino. Nesse sentido, convida-os a constituírem uma comunidade que, sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, procura acolher, apoiar e estimular todos aqueles que actuam em favor da libertação dos irmãos; convida-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; convida-os ainda a arrancarem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino. A atitude dos discípulos mostra, antes de mais, arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta, presunção de serem os donos exclusivos do bem e da verdade… Mas, por detrás da reacção dos discípulos, deve estar também uma grande preocupação com a concretização dos projectos pessoais de prestígio e grandeza que quase todos eles alimentavam. O que me leva a ir a Igreja? Não vivo de ciúmes pelo facto de estar perto do padre, dos missionários ou dos responsáveis da comunidade? Na segunda leitura, Tiago convida os cristãos a não colocarem a sua confiança e a sua esperança nos bens materiais, pois eles são valores perecíveis e que não asseguram a vida plena para o homem. O autor acrescenta apontando contra os que injustamente acumulam bens materiais: a finalidade da sua existência será o afastamento da comunidade dos eleitos de Deus. Tiago denuncia o seguinte: Os luxos e os prazeres dos ricos vivem assim da morte dos pobres. Naturalmente, Deus não pode pactuar com a injustiça e, por isso, não ficará indiferente ao sofrimento do pobre e do oprimido. Tiago critica os ricos, em primeiro lugar porque eles vivem apenas para acumular bens materiais, negligenciando os verdadeiros valores. O acúmulo de bens materiais tornou-se, para tantos homens do nosso tempo, o único objectivo da vida e o critério único para definir uma vida de sucesso. Em pleno tempo de pandemia de covid-19 vimos tanta gente mergulhada na miséria mas também gente cada vez mais rica. Nós, os cristãos, somos chamados a testemunhar que a vida verdadeira brota dos valores eternos – esses valores que Deus nos propõe. O cristão não deve acumular riquezas, mas torna-las fonte de partilha e prática da caridade. Compromisso pessoal Aprender a amar sem orgulho nem arrogância Pedir a Deus a ensinar-nos a humildade Desapegar-se de riquezas ilícitas e cuidar dos bens comuns

set 22 2021

Meios de protecção de pessoas com albinismo em Moçambique

Por Dr. Armando Alí Amade “Chamo me Calisto e sou um albino. Até aos 15 anos não tive nenhum problema com os meus amigos e conhecidos, mas crescendo comecei a sentir a desconfiança das pessoas que encontrava. Via e ouvia coisas estranhas referidas a nós albinos até que um belo dia em quanto voltava para casa fui agredido e graças a alguns passantes não fui morto. Existe uma legislação que nos protege deste abusos e ataques criminais?” (Carta assinada) Albinismo é uma doença genética relativamente rara, não contagiosa que afecta pessoas em todo o mundo, sem distinção do género, etnia ou outra manifestação social. É caracterizado pela ausência, parcial ou completa de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção da melanina. Estima-se que entre 20.000 a 30.000 pessoas em Moçambique têm albinismo e as mesmas se encontram dispersas por quase todo o país. Apesar de ser uma condição natural e hereditária, os indivíduos com albinismo sofrem com a discriminação, exclusão, ataques físicos violentos muitas vezes para a extracção de partes do seu corpo, órgãos, tráfico ou mesmo assassinato. Já foram reportados casos de tráfico transfronteiriço de pessoas com albinismo ou partes do seu corpo para alguns países que fazem fronteira com o nosso, até a vandalização de campas na calada da noite. Todas as situações sofridas pelos albinos têm a ver com mitos, crenças, práticas de curandeirismo e bruxaria e nada mais pois, uma pessoa com albinismo é uma pessoa tão normal como qualquer outra, sem nenhum poder supernatural e muito menos o seu corpo ou seus órgãos dispõem de algo diferente duma pessoa sem albinismo. Pela baixa ou fraca autoestima, as pessoas com albinismo geralmente têm uma tendência para se isolarem do resto das pessoas, tornando-se deste modo mais vulneráveis. Embora os adultos com albinismo sofram com as situações indicadas, são as crianças as maiores vítimas dos ataques físicos. Ao longo do tempo a maioria dos países produziu e promoveu ferramentas jurídicas e administrativas para a protecção e promoção dos direitos humanos dos seus cidadãos. Existem instrumentos comuns de protecção dos direitos humanos ao nível regional, continental até universal. Vamos apresentar alguns meios de defesa dos direitos humanos pese embora não serem tão-somente de protecção às pessoas com deficiência. Colocaremos em primeiro lugar a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, inspiradora de muitas Constituições no mundo e do nosso país, em particular. Indica no seu artigo 1° “que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”. Reforçando ainda que, “nenhum ser humano deve ser considerado propriedade ou bem de uma outra. Aliás, todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. E que todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a Declaração e contra qualquer incitamento a tal descriminação” (art. 7) A seguir temos a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981 que, aborda a imperiosidade de proteger as pessoas. Consta que “toda a pessoa tem direito ao gozo dos direitos e liberdades (…) sem nenhuma distinção de raça, de etnia, de cor, de sexo, de língua, de religião, (…) de nascimento ou de qualquer outra situação” (art. 2). “A pessoa humana é inviolável. Todo o ser humano tem direito ao respeito da sua vida e à integridade física e mental da sua pessoa. Ninguém pode ser arbitrariamente privado desse direito” (art. 4). A Constituição da República de Moçambique (CRM) inspira-se bastante na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O artigo 35 da CRM aborda a universalidade dos direitos humanos em Moçambique entretanto, o artigo 121 especifica os direitos reservados à criança. Ainda temos a Lei n.º 7/2008, de 9 de Julho de 2008, criada especificamente para reforçar, estender, promover e proteger os direitos da criança. (Os Direitos fundamentais da criança são tratados no artigo 4º. Pois que o n.º 1 reforça o já dito na CRM isto é, a criança goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando-se-lhe, (…) o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social. Ela não pode ser discriminada, nomeadamente em razão da cor, raça, sexo, religião, etnia, origem de nascimento, condição socioeconómica, estado de saúde e deficiência. A criança tem ainda o direito de ter a sua vida, integridade física, moral e mental respeitados – artigo 11º) Fora da indicação de direitos e meios de protecção é pertinente dizer que as práticas sofridas pelos albinos consubstanciam também a vários tipos legais de crime a saber: Violência física – crime contra a integridade física (artigo 171º e seguintes do Código Penal); Extracção de partes do corpo ou órgãos humanos (Lei n.º 6/2008, de 9 de Julho); Assassinato – homicídio (artigo 159º e seguintes do Código Penal); Tráfico transfronteiriço de pessoas (Lei n.º 6/2008, de 9 de Julho); Vandalização de campas – violação de túmulos e desrespeito aos mortos (artigo 245º do Código Penal). Os vários diplomas nacionais e internacionais, procuram agrupar esforços com vista à protecção do ser humano, à criança e às pessoas com albinismo em particular. Daí resulta que os portadores de deficiência gozam plenamente de direitos e deveres neles consagrados dentre os quais a possibilidade real de acesso aos meios sociais informais, administrativos formais e judiciais para a prossecução e realização dos seus direitos independentemente da sua idade, género, condição social, pensamentos, raça, etc. A Violência física, extracção de partes do corpo ou órgãos humanos, o homicídio, tráfico transfronteiriço de pessoas, os crimes contra a dignidade das pessoas, a violação de túmulos e desrespeito aos mortos constituem crimes, previstos e punidos no Código Penal e legislação específica. Caso sinta que os seus direitos foram violados ou na eminência de o serem, denuncie imediatamente à sua família, às estruturas do seu bairro ou à esquadra mais próxima.

set 18 2021

XXV – DOMINGO DO TEMPO COMUM B

19/09/2021: LITURGIA DA PALAVRA Primeira leitura: Sab 2,12.17-20 Salmo: Salmo 53 (54) Segunda leitura: Tg 3,1-4,10 Evangelho: Mc 9,30-37 Tema: ESCOLHER A SABEDORIA DE DEUS PARA VENCER OS MALES DO MUNDO Neste Domingo, a Palavra de Deus nos convida a prescindir da “sabedoria do mundo” e a escolher a “sabedoria de Deus”. Só a “sabedoria de Deus” dará ao homem o acesso à vida plena, à felicidade sem fim. São Marcos apresenta-nos uma história de confronto entre a “sabedoria de Deus” e a “sabedoria do mundo”. Jesus, imbuído da lógica de Deus, está disposto a aceitar o projecto do Pai e a fazer da sua vida um dom de amor aos homens; os discípulos, imbuídos da lógica do mundo, não têm dificuldade em entender essa opção e em comprometer-se com esse projecto. Jesus avisa-os, contudo, de que só há lugar na comunidade cristã para quem escuta os desafios de Deus e aceita fazer da vida um serviço aos irmãos, particularmente aos humildes, aos pequenos, aos pobres. Tiago exorta os crentes a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”, pois só ela pode conduzir o homem ao encontro da vida plena. Ao contrário, uma vida conduzida segundo os critérios da “sabedoria do mundo” irá gerar violência, divisões, conflitos, infelicidade, morte. O Baptismo é, para todos os crentes, o momento da opção por Cristo e pela proposta de vida nova que Ele veio apresentar; é o momento em que os crentes escolhem a “sabedoria de Deus” e passam a conduzir a sua vida pelos critérios de Deus. A partir desse momento, a vida dos crentes deve ser expressão da vida de Deus, dos valores de Deus, do amor de Deus. Num mundo que se constrói, tantas vezes, à margem de Deus, os cristãos devem ser os rostos dessa vida nova que Deus quer oferecer ao mundo. Estou consciente desta realidade? Tenho vivido de forma coerente com os compromissos que assumi no dia do meu Baptismo? Os valores que conduzem a minha vida são os valores que brotam da “sabedoria de Deus”? Como cristãos temos que aceitar ser perseguidos porque remamos contra as ideologias que dividem a sociedade. Sendo assim, teremos escolhido a sabedoria de Deus. A primeira leitura avisa os crentes de que escolher a “sabedoria de Deus” provocará o ódio do mundo. Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida. A coerência, a honestidade, a fidelidade dos “justos” constituem um permanente espinho que magoa os “ímpios” e que não os deixa sentirem-se em paz com a sua consciência. Por isso os justos são perseguidos. Mesmo com obrigação de escolhermos partidos que propagam ódio e violência, a postura do cristão é recusar e denunciar essa atitude contra o bem-estar do povo. A atitude dos discípulos mostra a dificuldade que os homens têm em entender e acolher a lógica de Deus. Contudo, a reacção de Jesus diante de tudo isto é clara: quem quer seguir Jesus tem de mudar a mentalidade, os esquemas de pensamento, os valores egoístas e abrir o coração à vontade de Deus, às propostas de Deus, aos desafios de Deus. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo. O Evangelho de hoje convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na sociedade, quer dentro da própria comunidade cristã. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre os irmãos, dos sonhos de grandeza, das manobras para conquistar honras e privilégios, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio.   Compromisso pessoal: Escolher, com ajuda do Espírito Santo, a sabedoria de Deus Assumir o compromisso cristão de defender o bem Lutar por um mundo justo e fraterno. Fazer sempre a vontade de Deus

set 11 2021

XXIV – DOMINGO DO TEMPO COMUM

12/09/2021: LITURGIA DA PALAVRA Primeira leitura: Is 50,5-9a Salmo responsorial: Salmo 114 (115) Segunda leitura: Tiago 2,14-18 Santo Evangelho: Mc 8,27-35 Tema: DEFENDER A VIDA DO OUTRO É ABRAÇAR O PROJECTO DE DEUS A Palavra de Deus neste domingo, convida-nos a abraçar o projecto de Deus que passa necessariamente pela defesa da vida numa altura que parece bastante fragilizada. Defender a vida significa, inicialmente acreditar que ela é dom de Deus. O relato de Isaías apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Contudo, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade ao seu projecto, triunfará sobre a perseguição e a morte. O “Servo” sofredor, apresentado por Isaías, que põe a sua vida, integralmente, ao serviço do projecto de Deus e da salvação dos homens mostra-nos o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Darias a sua vida para defender a vida dos outros? Na guerra provocada por terroristas, acompanhamos testemunhos de muitas pessoas que deram a vida pelos outros. Sejamos corajosos para defender a vida que está muito fragilizada. O Evangelista Marcos apresenta Jesus como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena. Pedro professa sua fé em Jesus, o Messias. Para Marcos, Jesus cumpre o plano do Pai. Jesus mostra aos discípulos que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante: dar a vida aos outros no sofrimento paciente. A segunda leitura lembra aos crentes que o seguimento de Jesus não se concretiza com belas palavras ou com teorias muito bem elaboradas, mas com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, de solidariedade para com os irmãos. O autor apresenta a relação entre a fé e as obras. A fé sem obra é morta. O cristão não deve viver de utopias mas de uma realidade que parte pela acção concreta como fruto da sua fé em Cristo. Nas nossas paróquias, os livros de registo de sacramentos, encontramos milhares de baptizados, mas poucos vivem “o ser cristão autêntico”. A nossa caminhada cristã não é um processo teórico e abstracto concretizado num reino de bons discursos que parecem de campanha eleitoral; mas é um compromisso efectivo com Cristo que tem de se traduzir, a cada instante, em gestos concretos em favor dos irmãos. Quem é Jesus para ti? O que é que “os homens”, seus amigos, familiares, outras religiões dizem de Jesus? Jesus não é um simples profeta nem um nacionalista. Por isso ele pergunta a todos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a pergunta de Jesus obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim? Jesus tornou-se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens e mulheres do seu tempo e do nosso – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Jesus nos ensina  a “renunciar a si mesmo”, o que implica a não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. Jesus nos ensina também a “tomar a cruz”, que significa amar até às últimas consequências, até à morte. Compromisso Pessoal Vivenciar gestos de gentileza, de serviço, de perdão, de partilha na família, na comunidade e na sociedade. Suportar com paciência as perseguições e os sofrimentos deste mundo. Seguir o caminho de Cristo conscientes de que a cruz é pesada.

set 04 2021

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

5/9/2021 – LITURGIA DA PALAVRA Primeira Leitura: Is 35,4-7a Salmo: 145 (146) Segunda Leitura: Tiago 2,1-5 Evangelho: Mc 7,31-37 Tema: SER PROFETA DE ESPERANÇA E DO AMOR Neste Domingo, a Palavra de Deus fala-nos de um Deus comprometido com a vida e a felicidade da pessoa humana, obra das suas mãos. Deus está continuamente apostado em renovar, em transformar, em recriar a pessoa humana, com o propósito de fazê-lo atingir a vida plena do Homem Novo renovado em Cristo. Na primeira leitura, Isaías garante aos exilados, afogados na dor e no desespero, que Deus está prestes a vir ao encontro do seu Povo para o libertar e para o conduzir à sua terra. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria, o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá. Em momento em que o mundo está a passar muitos problemas, como por exemplo, da pandemia Covid-19, das guerras, precisamos de cristãos com uma visão profética para dar esperança ao povo para superar o desespero e a angústia. Deve haver gente que saiba interpretar os sinais de Deus consolando Seu povo. No Evangelho, São Marcos relata o cenário no qual Jesus é o cumpridor da profecia de Isaías o mandato que o Pai Lhe confiou: abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo. No gesto de Jesus, revela-se esse Deus que não Se conforma quando o homem se fecha no egoísmo e na auto-suficiência, rejeitando o amor, a partilha, a comunhão. O encontro com Cristo leva o homem a sair do seu isolamento e a estabelecer laços familiares com Deus e com todos os irmãos, sem excepção. Hoje mais que do nunca, é uma urgência a acção e o testemunho cristão que assume a posição de Cristo – sinal visível da presença de Deus no meio do povo. O cristão não se conforma com o sofrimento do outro, mas antes se empenha na libertação dos pobres e excluídos. Na segunda leitura, Tiago dirige-se àqueles que acolheram a proposta de Jesus e se comprometeram a seguir o Mestre no caminho do amor, da partilha, da doação. Tiago convida aos cristãos a não discriminar ou marginalizar qualquer irmão e a acolher com especial bondade os pequenos e os pobres. Para os optimistas, os profetas do bem, o nosso tempo é um tempo de grandes realizações, de grandes descobertas, em que se abre todo um mundo de possibilidades ao homem. Embora haja pandemia, há descoberta de vacinas, há solidariedade; alguns países ricos partilham seus bens. Porém, o profeta deve também denunciar os males sem no entanto ser pessimista. O profeta deve apontar o uso abusivo dos recursos naturais verificando-se a eliminação das florestas que trazem consequências do sobreaquecimento do planeta, de subida do nível do mar, de destruição da camada do ozono. Isto é, os males que verificamos, são provocados pelos homens e não se trata de castigo ou abandono de Deus. O problema da discriminação e da marginalização das pessoas põe-se também – e talvez com maior ênfase nos actuais fenómenos de refugiados e deslocados de guerra e de diversos conflitos e desempregos. O cristão é convidado a denunciar não só em palavras mas dando o exemplo de acolhimento e partilha de bens.   Compromisso Pessoal Olhar os sinais dos tempos e transformá-los em ocasião de profecia. Ser profeta de esperança para animar os pobres e excluídos. Incentivar a comunidade cristã a acolher os deslocados e refugiados. Ser testemunhas do amor de Deus revelado por Cristo.

set 03 2021

Ordenamento territorial e conflito de terras nas cidades e vilas

Por  Dr. Armando Alí Amade “Vivo num bairro nos arredores da cidade da Beira desde 2018. Naquela altura éramos poucos e ocupávamos o espaço que desejávamos. Ao longo destes anos o bairro ficou superlotado e temos muitos conflitos com os vizinhos que pretendem ocupar tudo. Cada dia é uma luta para poder passar entre as casas porque o espaço fica cada vez mais reduzido. Se acontecer uma infelicidade nenhum carro pode passar nos labirintos para socorrer. Como podemos defender-nos destes abusos?” (Camila Araújo)   Moçambique regista um crescimento urbano bastante rápido, impulsionado pelo crescimento populacional. Apesar do crescimento urbano ser importante para o desenvolvimento do país, este comporta consigo algumas desvantagens mormente a pressão que o solo urbano sofre devido à concentração da população. Devido ao elevado número de habitantes num pequeno espaço de terra, regista-se a construção desordenada de casas ou barracas para pequenos negócios, construção em locais impróprios por vezes nas bermas das estradas e ruas, forçando por conseguinte a redução das dimensões das próprias ruas e vias de acesso, obstrução da passagem das águas fluviais, acessos condicionados para a remoção do lixo urbano, rápida mobilidade, em caso de necessidade, do corpo de salvação pública (Bombeiros), ambulâncias, para além do impacto Ambiental… O assunto apresentado na carta é de dimensões enormes, notório um pouco por todas as cidades do nosso país.   Medidas e meios para defesa contra o desordenamento territorial nos bairros Desde já indicamos a Constituição da República de Moçambique de 2004 (CRM); o artigo 35 recomenda que “Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnico, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou ocupação política.” Portanto, à partida, todos nós temos direitos consagrados na Constituição mas também deveres e ou obrigações e assim, qualquer cidadão pode fazer uso dos seus direitos sem necessariamente lesar os direitos dos outros, seus vizinhos ou concidadãos. “Todo o cidadão tem o direito de viver num ambiente equilibrado e o dever de o defender” – n.º 1 do artigo 90 da CRM. Por outro lado, ainda com base na Lei-mãe, todos os cidadãos têm direito à habitação condigna, sendo dever do Estado, de acordo com o desenvolvimento económico nacional, criar as adequadas condições institucionais, normativas e infra-estruturais – n.º 1 do artigo 91 da CRM. Assim dito, significa dizer que cabe às estruturas locais, sejam elas províncias, distritos, postos administrativos, localidades e povoações solucionar as preocupações e inquietações dos residentes de cada parcela territorial. Por outro lado, temos a Lei n.º 19/2007, de 18 de Julho (Lei do Ordenamento do Território). Essa lei faz o enquadramento jurídico da Política de Ordenamento do território, para que se alcancem, objectivos essenciais com destaque para o aproveitamento racional e sustentável dos recursos naturais, a preservação do equilíbrio ambiental, o melhoramento das condições de habitação podemos incluir aqui o acesso as habitações – ruas e estradas. O processo de ordenamento do território obedece a alguns princípios, para o caso em análise chamamos à colação o Princípio da Responsabilização, que recomenda a toda e qualquer entidade, pública ou privada, por qualquer intervenção sobre o território que possa ter causado, ou vir a causar, danos e degradação do território, ou afectar a sustentabilidade ambiental, assegurando a obrigação da reparação desses mesmos danos e a compensação dos prejuízos causados à qualidade de vida dos cidadãos., atento a alínea e) do artigo n.º 4 da Lei do Ordenamento do Território. Mais do que isso, o Estado e as Autarquias Locais devem promover, orientar, coordenar e monitorizar de forma articulada o ordenamento do território, no âmbito das suas atribuições e das competências dos respectivos órgãos. “Como podemos nos defender?” Primeiro, é necessário aproximar-se do Secretário do seu Bairro, apresentar o assunto que vos incomoda, ouvir as suas respostas ou formas de solução. Segundo, indicamos mais uma figura jurídica que serve para salvaguardar os acessos à via pública ou vice-versa chamada Servidão. Servidões legais de passagem como, dispõe o nº 1 do artigo 1550º do Código Civil é um meio que “os proprietários de prédios que não tenham comunicação coma via pública, nem condições que permitem estabelecê-la sem excessivo incómodo ou dispêndio, têm a faculdade de exigir a constituição de servidões de passagem sobre os prédios rústicos vizinhos”. Como pode perceber, essa é mais uma forma legal para exigir às autoridades competentes em especial as estruturas do seu Bairro o alargamento das ruas. Por outro lado é necessário um rigoroso acompanhamento das construções que vão ocorrendo por aí. Sabido que para a construção de qualquer empreendimento é sempre necessário uma licença de construção emitida pelo Município, Administração do Distrito ou Governo Provincial.

set 03 2021

Crónica do mês – O importante são as regalias

Moçambique atravessa momentos terríveis de crises incomuns e profundas. Por um lado está reinando o devastador terrorismo em Cabo Delgado e a instabilidade Nhonguista no Centro do país. Por outro lado, está a crise imposta pela pandemia do Coronavírus. Além disso, vive-se a crise financeira forçada pelas famosas dívidas ocultas; a crise social de subida crescente do custo de vida e, a crise da incerteza do futuro do país. A meio de tudo isso, já vai mais de um ano em que o salário mínimo é remetido ao esquecimento. Face ao recrudescimento da pandemia do Coronavírus, em 2020 o reajuste do salário mínimo foi suspenso. Para 2021 enquanto parecia haver algum interesse eis que, de novo, foi suspensa a apreciação dessa matéria e ainda sem data para sua retoma. O que estará por detrás desta suspensão? Falta de dinheiro? Falta de vontade política? Falta de compaixão para com os pequenos? Lembro que a Ministra da Administração e Função Pública, Ana Comoana, em 2020, declarou que “Os incrementos salariais nunca são aleatórios. Tomam como base o desempenho económico do país. Se o desempenho económico não justificar, um determinado aumento salarial, por muito boa vontade que exista, poderá não ocorrer, ou se houver, não ser naquela proporção em que se está a pensar”, afirmou Comoana. Se prestarmos atenção iremos notar que o Estado moçambicano continua a arrecadar receitas, apesar da pandemia. Aliás, as instituições do Estado nunca pararam, estão a trabalhar normalmente. Então será uma punição? Com qual pretexto e finalidade? O Governo, no uso das suas competências deveria encontrar um meio termo para poder reajustar o mínimo que beneficia os mínimos. Mesmo assim, o Parlamento moçambicano deu-se o privilégio de aprovar o Projecto de Lei do Estatuto do Funcionário e Agente Parlamentar. Trata-se de cerca de 100 milhões de meticais, anunciados pelo Ministério das Finanças, um valor exagerado para fazer cobertura das regalias para os funcionários e agentes do parlamento beneficiando demais a minoria enquanto a maioria do povo continua a devorar a sorte de cada dia. Em que país vivemos? Há alguns que defendem que o Estatuto de Funcionário Parlamentar é para permitir que os visados se sentam valorizados como à semelhança dos outros membros dos órgãos de soberania, nomeadamente os funcionários da Presidência, do Conselho de Ministros e das magistraturas judiciais e do Ministério Público. Pode ser que haja suposta legalidade nisso, pois dizem ser benefícios que constam na Lei Orgânica e no decreto de assistência médica e medicamentosa. Mas era pertinente nesta altura do campeonato? Onde está a compaixão, a empatia, o amor ao povo, o patriotismo, a sensibilidade para com o sofrimento dos outros? Até quando a elite deixará de olhar para si só e seus ganhos? Não séria prioridade o terrorismo de Cabo Delgado? Não seriam prioritários os cerca de 1 milhão de concidadãos nossos que passam fome por causa da estiagem que assola certas regiões do norte do país? Vasculhando as páginas do documento aprovado, os funcionários e agentes da Assembleia da República passam a merecer subsídios diversificados para além do seu salário mensal. Assim, haverá subsídio para assistência médica até com direito de comprar medicamento nas farmácias privadas mais caras; subsídio de alimentação, de sessão na Assembleia da República, subsídio de férias correspondente ao salário base para gozar bem o tempo de descanso como quiser e com quem ou onde quiser ir estar. O mais caricato de tudo isso é que eles terão subsídio para comprar roupa para festas solenes (Risos). Tudo isso? Então significa que o salário mensal só servirá para guardar e comprar caixão dos netos ou filhos. Cumpre-se a Escritura “Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado” (Mt 13,12; 25,29). E porque este tratamento diferenciado dos restantes trabalhadores da Função Pública? Quem são os filhos e os enteados? Se não há condições para o reajuste do salário mínimo, nada justifica que prevaleça discriminação no seio dos funcionários públicos. Que haja equidade! Todos nós sabemos que há muitos desses funcionários cujo trabalho é improdutivo. Porque se deve aplaudir assimetrias socioeconómicas que aumentam o descontentamento no seio do povo? Faltam políticas sociais para a promoção do bem comum, a ser assim o desenvolvimento integral será sempre assunto bonito dos papeis e longe da realidade. De facto, este país tem donos que merecem ganhar cada vez mais. Será possível que todo povo se transforme em funcionários parlamentares? Quem ficará nos hospitais, nas escolas, nas machambas, nos chapa-cem, nas fábricas, na marinha, no desporto, entre outras áreas de trabalho? Por Kant de Voronha, in Anatomia dos factos

set 03 2021

Para um estilo de vida sustentável

Ao final do Regina Coeli na solenidade de Pentecostes (23/5/21), papa Francisco anunciou um percurso operativo de sete anos, que guiará todas as realidades eclesiais a assumir um estilo de vida sustentável: plataforma Laudato’Si. “Amanhã encerra-se o Ano Laudato si’. Agradeço a todos aqueles que participaram com numerosas iniciativas no mundo inteiro. É um caminho que devemos continuar juntos, ouvindo o grito da Terra e dos pobres. Por isso, começará imediatamente a “Plataforma Laudato si’”, um caminho activo de sete anos que orientará as famílias, as comunidades paroquiais e diocesanas, as escolas e as universidades, os hospitais, as empresas, os grupos, os movimentos, as organizações e os institutos religiosos a assumir um estilo de vida sustentável. E parabéns aos numerosos animadores que hoje recebem o mandato de propagar o Evangelho da Criação e de cuidar da nossa casa comum.” (Papa Francisco, Regina Coeli de 23/5/21). Francisco destacou a necessidade de dar continuidade à Semana da Laudato Si, celebrada no mês de Maio, “Vai começar imediatamente a Plataforma ‘Laudato Si’, um percurso de sete anos que vai guiar as famílias, as comunidades paroquiais e diocesanas, as escolas, as universidades, os hospitais, empresas, grupos, movimentos, organizações, institutos religiosos, para assumir um estilo de vida sustentável”, indicou. A iniciativa é resultado de um esforço liderado pelo Vaticano para capacitar instituições católicas, comunidades e famílias para implementar as orientações da encíclica na próxima década. O Papa deu os parabéns aos animados ‘Laudato Si’, que receberam o mandato especial para “difundir o Evangelho da Criação e de cuidar da casa comum” no dia de Pentecostes. Celebreremo un incontro di preghiera di chiusura da Assisi e Roma per esprimere la nostra gratitudine a Dio nostro Creatore e chiedere sostegno per il lavoro a venire. In questa festività di Pentecoste, in cui si celebra anche l’inizio della Chiesa, vogliamo rimettere un mandato missionario agli Animatori locali Laudato Si’ e ad altri operatori pastorali, affinché vadano ad annunciare “il Vangelo della Creazione” (LS capitolo 2) in ogni angolo del globo. Dato il tema dell’evangelizzazione, la celebrazione sarà guidata dal cardinale Tagle. Na missa de encerramento da Semana da Laudato Si que teve lugar em Assis e Roma foi o momento para expressar a nossa gratidão a Deus, nosso Criador, e pedir apoio para o trabalho que está para vir. Na solenidade de Pentecostes, em que se celebra também o início da Igreja, foi entregue um mandato missionário aos animadores locais Laudato Si ‘e a outros agentes pastorais, para que vão anunciar “o Evangelho da Criação” (LS capítulo 2) em todos os cantos do globo.   Os 7 Objectivos da Plataforma Laudato Si Acompanham a caminhada estes objectivos operacionais: a resposta ao grito da Terra, a escuta do grito dos pobres, a economia ecológica, a adopção de um estilo de vida simples, a educação ecológica, a espiritualidade ecológica e o compromisso comunitário. Na mensagem que papa Francisco enviou no dia do lançamento da Plataforma renova a exortação, dirigida a todas as pessoas de boa vontade e contida na carta encíclica promulgada em 2015: “tenham cuidado com a Terra, que é a nossa casa comum ”. A actual pandemia trouxe à luz ainda mais o grito da natureza e dos pobres que mais sofrem com ela, destacando que tudo está interligado e interdependente e que nossa saúde não está separada da saúde do meio ambiente em que vivemos.

set 02 2021

Cabelo da mulher: estado social, religioso e a identidade da pessoas

Por Judite Macuacua   O cabelo foi, ao longo da história especialmente para as mulheres, fontes de identidade e de preocupação. O cabelo trançado contribuiu para dar mais brilho a toda a pessoa e também indicava a identidade e o grupo de pertença do individuo. Vamos apresentar um breve escursos histórico sobre o desenvolvimento dos vários penteados feminino. Antigamente o cabelo trançado indicava o estado social, religioso e a identidade da pessoas em relação ao grupo étnico a quem pertencia. Segundo historiadores, a tradição de trançar o cabelo, teve origem na Namíbia, na África, e era uma prática comum entre mulheres para se diferenciar das outras tribos da região. A sua origem data do ano 3.500 a.c. e ao longo dos anos, ela evoluiu, as suas formas e estilos, foram reinventados. Por isso, a arte de trançar o cabelo, foi transmitida de geração em geração, e através dela podia-se distinguir o grupo de filiação, e também se tornou uma coexistência devido ao tempo que levou para terminar o penteado. Assim, na Civilização Egípcia, conta-se que as tranças eram um símbolo da posição social. As mulheres dos grupos superiores, acrescentavam extensões trançadas aos cabelos e os homens, como símbolo divino, usavam-nas nas barbas. Na Grécia, as mulheres de alta sociedade, usavam cabelos muito compridos e trançados, enquanto que os escravos usavam cabelos curtos. Entretanto, com origem na África, as tranças podem possuir diversas formas e a sua história mostra-nos que elas são muito mais que um penteado. A este propósito, sabe-se que antigamente, alguns tipos de tranças, como por exemplo, as nagôs, angolas, jejes e fulas, tinham um papel importante como condutoras de mensagens. Daí que, durante o período de escravidão no Brasil, as tranças eram utilizadas para identificar as tribos a que pertenciam os escravos, por meio dos seus desenhos, elas serviam também como mapas e rotas para as fugas planeadas.   Em Moçambique Olhando para a nossa realidade moçambicana, que talvez a prática seja recente, não há registo específico do simbolismo das tranças, sendo que, as mesmas podiam e ainda continua a ser assim, são feitas em mulheres de todas as idades e com cabelos curtos, médios e longos com o intuito de, apenas conferir à mulher, um belo visual, independentemente do seu posição social e religiosa. Dada a importância que as tranças significam para a mulher moçambicana, e não só, mas também para alguns homens amantes das tranças, principalmente os jovens, movidos pela vaidade e sua inserção artística (Rastafaris), a cantora moçambicana Júlia Duarte, lançou em Agosto do ano passado, “perucas de tranças africanas”, com o seu nome. Esta iniciativa da cantora moçambicana, é um dos exemplos que testemunham quanto seja importante a arte das tranças no continente africano e no mundo, em geral.   Conheça alguns modelos de tranças afro De acordo com os historiadores, sendo as tranças de origem africana, a mais antiga feita de cabelo natural, são a “nagô”, que consiste numa trança rasteira, rente ao couro cabeludo. As nagôs são muito utilizadas por quem está a passar pelo período de transição capilar, ou seja, saindo de algum tipo de alisamento ou tratamento químico para voltar a usar as formas naturais dos fios. Relativamente às Tranças Afro, são essencialmente, estilos de entrelaçamento que juntam uma fibra sintética ao cabelo e datam dos anos 90, conhecidas pelos seguintes nomes: * kanekalon – É um modelo de tranças que faz parte de uma estética africana milenar, que sobrevive mesmo depois de séculos de apagamento. * box braids – Este modelo é o mais popular e também o mais clássico. As box braids consistem, basicamente , em juntar a fibra sintética com o comprimento da cabelo. Com elas, dá para prolongar o comprimento e apostar em cores diferentes. Segundo os entendidos na matéria, é o modelo mais procurado nos salões, principalmente por quem passa pela transição capilar e está esperando que os fios naturais cresçam. * Jumbo – ao contrário do que a maioria pensa, não é necessariamente o modelo da trança no cabelo, mas sim, o tipo de fibra sintética usada para fazer as box braids. Isto é, a versão mais acessível e universal para fazer tranças justamente por ser mais leve, fácil de comprar e ter um preço bom. * twist – O Twist, também conhecido como Marley Hair, é feito com uma fibra capilar diferente, que leva o mesmo nome da técnica. O resultado é um entrelace lindo, muito diferente das box braids, mas tão arrasador.   Tranças afro estragam o cabelo? Porque a beleza e a vaidade têm as suas consequências, por vezes, nefastas, essa é uma das perguntas geralmente feitas por quem pensa em aderir a esse penteado, mas a resposta não é tão simples assim. Como quase tudo o que é feito nos fios, depende muito de como a trança será feita e do estado dos fios antes do processo. Todavia, importa honestamente revelar que, em alguns casos, as tranças afro podem, sim, estragar o cabelo. Para se evitarem os eventuais transtornos, nesse sentido, aconselha-se às interessadas, que recorram aos profissionais qualificados, principalmente, quando é utilizado um material com um peso superior ao que o cabelo suporta. De igual modo, o outro caso que pode danificar o cabelo, é a não higienização correcta e o atrito excessivo durante a lavagem. Por outro lado e segundo a recomendação dos profissionais, durante a retirada dos fios nas tranças, é preciso ter cuidado redobrado, porque o processo exige muita paciência e o uso do creme apropriado.

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