out 20 2021
O amor político
«Existe o chamado amor “elícito”: expressos os actos que brotam directamente da virtude da caridade. Mas há também um amor “imperado”: traduz os actos de caridade que nos impelem a criar instituições mais sadias, regulamentos mais justos, estruturas mais solidárias. É caridade acompanhar uma pessoa que sofre ou vive na miséria, mas é caridade também tudo o que se realiza para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento: é a caridade política. (186). Os sacrifícios do amor Esta caridade, coração do espírito da política, é sempre um amor preferencial pelos últimos, que subjaz a todas as acções realizadas em seu favor. Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade. Um tal olhar é o núcleo do autêntico espírito da política (187). Isto demonstra a urgência de se encontrar uma solução para tudo o que atenta contra os direitos humanos fundamentais. Os políticos são chamados a “cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade, no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à “cultura do descarte” (…); significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade”. As maiores preocupações dum político não deveriam ser as causadas por uma descida nas sondagens, mas por não encontrar uma solução eficaz para “o fenómeno da exclusão social e económica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada” (188). Amor que integra e reúne A caridade política expressa-se também na abertura a todos. Sobretudo o governante é chamado a renúncias que tornem possível o encontro, procurando a convergência pelo menos nalguns temas. Sabe escutar o ponto de vista do outro, facilitando um espaço a todos. Com renúncias e paciência, um governante pode ajudar a criar aquele poliedro bom onde todos encontram um lugar (190). Mais fecundidade que resultados Na política, há lugar também para amar com ternura. “Em que consiste a ternura? No amor, que se torna próximo e concreto. É um movimento que brota do coração e chega aos olhos, aos ouvidos e às mãos. A ternura é o caminho que percorreram os homens e as mulheres mais corajosos e fortes”. No meio da actividade política, “os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o direito de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos e, como tais, devemos amá-los e tratá-los” (194). Isto ajuda-nos a reconhecer que nem sempre se trata de obter grandes resultados, que às vezes não são possíveis. Na actividade política, é preciso recordar-se de que “independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afecto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. É maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude, quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes! Os grandes objectivos, sonhados nas estratégias, só em parte se alcançam. Mas, sem olhar a isso, quem ama e deixou de entender a política como uma mera busca de poder “está seguro de que não se perde nenhuma das suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma das suas preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum ato de amor a Deus, não se perde nenhuma das suas generosas fadigas, não se perde nenhuma dolorosa paciência. Tudo isto circula pelo mundo como uma força de vida” (195). Por outro lado, é grande nobreza ser capaz de desencadear processos cujos frutos serão colhidos por outros, com a esperança colocada na força secreta do bem que se semeia. Ao amor, a boa política une a esperança, a confiança nas reservas de bem que, apesar de tudo, existem no coração do povo. Por isso, «a vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais” (196). Vista desta maneira, a política é mais nobre do que a aparência, o marketing, as diferentes formas de maquilhagem mediática. Tudo isto semeia apenas divisão, inimizade e um cepticismo desolador incapaz de apelar para um projecto comum. Ao pensar no futuro, alguns dias as perguntas devem ser: Para quê? Para onde estou realmente apontando? (197)». Por Pe António Bonato
out 19 2021
DISENTERIA
O que é a disenteria? A Disenteria é uma alteração gastrointestinal em que há aumento no número e frequência de consistência mais mole e também há presença de muco e sangue nas fezes. Principais causas A disenteria está na maioria dos casos associados com infecção por bactérias principalmente a shigella e Escherichia cóli, mas também pode ser causada por parasitas incluindo o protozoário entamoeba histolítica que também pode contaminar água e alimentos e causar a diarreia quando a carga parasitária é muito elevada. Apesar da causa mais frequente da disenteria ser infecção pode também acontecer devido ao uso de prolongado de medicamentos que podem lesionar a mucosa intestinal sendo indicado nesse caso que o médico seja consultado para que possa ser feita a suspensão ou troca do medicamento. Sintomas de disenteria O principal sintoma da disenteria é a presença de sangue e muco nas fezes, no entanto normalmente são observados outros sinais como: Dores e cólicas abdominais, sendo normalmente indicado de lesão na mucosa intestinal. Aumento de frequência para evacuação Fezes amolecidas Náuseas e vómitos, que podem conter sangue Cansaço Desidratação Falta de apetite Importante! Na disenteria, como a frequência das evacuações é maior há grande risco de desidratação o que pode ser grave. Por isso assim que forem notados sinais e sintomas indicativos de disenteria é importante que o médico seja consultado além de ser também importante beber no mínimo 2 litros de água e fazer o uso de soro de reidratação oral. Prevenção de disenteria Proporcionar saneamento básico para toda a população Lavar as mãos com agua e sabão ou cinza antes e depois das refeições e depois de usar a latrina Utilizar sempre que possível agua tratada ou fervida para beber Lavar bem as frutas e hortaliças e deixa-las de molho em uma solução. Por Júlia Tarua
out 19 2021
A próxima pandemia são as mudanças climáticas
Depois da pandemia da Covid-19, o mundo vai ter de enfrentar – na verdade já enfrenta – a pandemia das mudanças climáticas, alertam peritos ambientalistas e o Papa Francisco. Desde o ano passado, por cauda da Covid-19, o mundo foi se adaptando a novas formas de viver, igrejas fechadas, teletrabalho, aulas à distância, reuniões virtuais, compras online, menos convívios entre amigos, reduzidas visitas familiares, velórios e funerais com limitada participação de familiares e amigos, enfim, uma nova maneira de organização da nossa vida. Infelizmente, essa nova forma de vida não fez desaparecer a pandemia da Covid-19 ela continua entre nós. A outra pandemia Os ambientalistas e o mesmo Papa Francisco alerta-nos que a próxima pandemia chama-se mudanças climáticas: as alterações de temperatura provocadas no planeta terra em que vivemos, que passou a aquecer muito mais do que era, resultando num ciclo desordenado das estações do ano. Os verões e os invernos passaram a ser mais intensos, por vezes mais curtos e noutros anos mais longos. As inundações passaram a ser mais constantes e de forma mais severa. As secas deixaram de ser eventos extraordinários que só cabiam nas histórias narradas pelos mais velhos, passando a ser uma realidade que todos nós conhecemos porque vemos acontecer um pouco por todo o país. Mudanças em Moçambique Entre 2016 e 2019, as províncias do sul enfrentaram graves secas que levaram à perda massiva da produção agrícola, gerando graves crises de fome em Inhambane, Gaza e província de Maputo. Em 2019, as regiões centro e norte foram atingidas por dois grandes ciclones: os dois ciclones de categoria 5 – Idai e Keneth. Primeiro foi o ciclone Idai que fustigou a capital da província de Sofala, Beira, matando mais de 600 pessoas só em Moçambique, mais de 300 no vizinho Zimbabwe e 60 pessoas no Malawi. A seguir, outro ciclone Kenneth atingiu Pemba, capital da rica província de gás de Cabo Delgado. Estes eventos mostram que a pandemia das mudanças climáticas já se abateu sobre nós moçambicanos. As causas? O modelo de desenvolvimento económico que o nosso país e o mundo abraçaram: muita dependência na extracção de recursos naturais e minerais (areias pesadas e pedras preciosas, carvão mineral, florestas e gás natural). Os recursos naturais chegaram no fim? A aposta na extracção de minérios chegou a um fim de ciclo. A extracção do gás de Pande e Temane, em Inhambane, já tem um fim à vista – segundo estimativas da empresa petroquímica Sasol, não sobram mais do que 15 anos de extracção; o carvão de Moatize já está no fim da linha. Em Janeiro deste ano, o gigante brasileiro da mineração Vale anunciou que estava se retirando dos projectos moçambicanos de carvão na província de Tete como parte de seu compromisso de emergência climática para acabar com a produção de carvão. O anúncio foi feito 15 anos depois de a província carbonífera moçambicana de Tete ter-se tornado um lugar imaginário nos sonhos de empresas, funcionários, pequenos e médios empresários, um El Dorado Tete, como eu e o colega economista João Mosca intitulámos o livro que publicámos em 2011. Como enfrentar o problema? Temos respostas para essa pandemia das mudanças climáticas? Temos sim, mas são difíceis de implementar, tal como o são todas as medidas de política que visam a sobrevivência dos povos e das nações. Sob o lema Unindo o mundo para enfrentar as mudanças climáticas, a próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26) — a ter lugar em Glasgow, no Reino Unido, entre os dias 01 e 12 de Novembro de 2021 — reunirá representantes de cerca de 200 governos com o objectivo de acelerar a acção climática para cumprir o Acordo de Paris. Esse acordo rege as medidas de redução de emissão de gases estufa a partir de 2020, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2 graus centígrados, preferencialmente em 1,5 graus centígrados, e reforçar a capacidade dos países de responder ao desafio, num contexto de desenvolvimento sustentável. O acordo foi negociado em Paris, capital da França, durante a COP21 e aprovado em 12 de Dezembro de 2015. BOX “À vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii Gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (Papa Francisco Encíclica “Laudato Si’). Desta forma, conforme nos exorta o Papa Francisco, a nossa resposta aos desafios e ameaças das mudanças climáticas deve consistir primeiro na tomada de consciência da degradação das condições de vida neste planeta Terra, por via dos eventos climáticos adversos; segundo, devemos mudar de atitude individual e colectiva, como famílias, comunidades e países. Devemos proteger este planeta, pois trata-se de proteger “a nossa casa comum.” Em termos práticos e concretos, devemos repensar o nosso modelo de desenvolvimento que assenta na extracção massiva, descoordenada e inconsequente de recursos naturais; precisamos de adoptar novas práticas de agricultura, com menos queimadas. A “casa comum” espera por nós, protejamo-la! Por Tomás Selemane
out 18 2021
Terrorismo em Cabo Delgado e os Rosto dos rebeldes
O governo de Moçambique em várias ocasiões lançou a mensagem que o país enfrenta um inimigo “sem rosto”, não existindo canais de comunicação, pelo que se desconhecem as suas pretensões. O Observatório do Meio Rural (OMR) através do seu pesquisador, Dr. João Feijó, argumenta o contrário. Aqui vai o resumo do documento. «O documento apresentado (pelo OMR) resulta de informação recolhida a partir de 32 entrevistas a indivíduos raptados (a esmagadora maioria mulheres), mas também a antigos vizinhos, professores, superiores hierárquicos e colegas das pessoas analisadas. Grande parte dos entrevistados conviveu com os indivíduos em causa antes do processo de radicalização ou durante o seu cativeiro. (É de recordar que também o Secretário de Estado dos USA, dias antes da publicação do documento do OMR, anunciou a designação de 5 lideres terroristas em África e entre esses, está o líder dos terroristas que actuam em Cabo Delgado). Rosto dos rebeldes Não obstante a presença de estrangeiros, a esmagadora maioria dos membros do grupo são moçambicanos, oriundos maioritariamente dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Macomia e Quissanga, mas também do planalto de Mueda, do litoral de Nampula e da província do Niassa, entre outras regiões. Entre eles destacamos: o líder do grupo é largamente conhecido na região, ainda que por vários nomes como Bonomado Machude Omar ou Ibn Omar, natural de Palma e crescido em Mocímboa da Praia. O executivo de Omar, aquele que passa instruções no terreno, é identificado por Mustafá natural de Mocímboa da Praia. Maulana é o nome próprio, constitui um dos comandantes mais destacados pelos indivíduos que estiveram em cativeiro, pelo facto de se apresentar como engenheiro agrónomo. De acordo com as testemunhas, trata-se de um indivíduo natural de Lichinga. Enfim, Rosa Cassamo nasceu em Cabo Delgado, e reconhecida como chefe de logística em Ilala e Mucojo (distrito de Macomia). Hoje é considerada de mãe, no seio de insurgentes, desempenhando um papel importante na mobilização de várias mulheres do seu povoado, para ingressassem na insurgência. O que proclamam e o que praticam? Exceptuando algumas comunicações pela agência AMAQ (agência oficial do Estado Islâmico), o grupo não aposta na comunicação formal com o exterior. Os canais utilizados para apresentarem as suas reivindicações consistem, sobretudo, em pequenas palestras após os ataques, em sessões de doutrinação com indivíduos capturados, mas também mensagens e pequenos vídeos, que circulam pelas redes sociais. O grupo adopta um discurso propagandístico anti-governamental, criticando as políticas do governo de Moçambique, que consideram responsável pela exclusão social e pela injustiça. A democracia é apresentada, literalmente, como um sistema que permite que os ricos se tornem mais ricos à custa dos pobres. De acordo com o grupo, a solução para o caos social reside no derrube do Governo e na adesão áquilo que se poderia designar de Sharia (Lei islâmica). O discurso religioso é articulado com um discurso nacionalista (“Implementar a religião muçulmana, porque a terra é nossa”) e de primazia dos locais no acesso aos recursos de poder. Complementar a via militar com reformas e diálogo Ao invés de reconhecer a existência de problemas sociais internos, habilmente capitalizados pelos insurgentes para o seu esforço de guerrilha, promovendo reformas e abrindo canais de comunicação, o Governo de Moçambique vem privilegiando uma estratégia militar. Nas últimas semanas (cf. Mês de Julho), foi anunciado um grande contingente militar estrangeiro, oriundo do Ruanda e da SADC, e consolida-se uma operação de grande envergadura sobre uma área de cerca 30.000 km2, maioritariamente composta por floresta densa, onde o inimigo demonstra capacidade de camuflagem. Porém com este texto pretendemos demonstrar que, contrariamente ao discurso oficial, os líderes moçambicanos do grupo dos “machababos” são largamente conhecidos por populações do Nordeste de Cabo Delgado (por líderes religiosos e comunitários, antigos professores, vizinhos e familiares), inclusive pelas Forças de Defesa e Segurança. Portanto apelamos para que se explorem canais negociais com os insurgentes, capacitando e envolvendo líderes locais, possibilitando condições para ajuda humanitária de civis, libertação de pessoas raptadas, promovendo amnistias e mecanismos de acesso aos recursos naturais, valorizando a importância do Islão na sociedade moçambicana». (F.J.) Por OMR (Destaque Rural n. 130 10/8/21) BOX Em Cabo Delgado desde o mês de Julho operam um contingente militar ruandês e um contingente militar composto por militares dos países pertencentes a SADC. O Presidente moçambicano, em declarações na 41ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), que se realizou no dia 17/08, na cidade de Lilongwe, Malawi, afirmou que a intervenção militar contra os grupos armados em Cabo Delgado deve ser complementada com projectos de desenvolvimento social e económico, visando a eliminação das causas que favorecem o “extremismo violento”… “Estamos cientes da necessidade de complementar essas intervenções militares com o apoio humanitário imediato e investimento no desenvolvimento a médio e longo prazos”. Filipe Nyusi apontou igualmente a prevenção e sensibilização dos cidadãos da SADC contra o extremismo violento, observando que este fenómeno é uma ameaça à paz e segurança regional. “A paz e segurança constituem um dos alicerces do processo de integração regional” visando “propiciar a promoção da cooperação e desenvolvimento social para o progresso e bem-estar dos povos” (DW 17/8)
out 18 2021
O Valor do testemunho
“Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos” (At 4, 20), é o tema da mensagem do Papa Francisco, por ocasião do Dia Mundial das Missões 2021. «Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que nos é revelada no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa mostram-nos até que ponto Deus ama a nossa humanidade e assume as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos anseios e angústias (cf. Gaudium et Spes, 22). Tudo, em Cristo, nos lembra que o mundo em que vivemos e a sua necessidade de redenção não Lhe são estranhos e também nos chama a sentirmo-nos parte activa desta missão: “Ide às saídas dos caminhos e convidai todos quantos encontrardes” (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado deste amor de compaixão. A experiência dos Apóstolos A história da evangelização tem início com uma busca apaixonada do Senhor, que chama e quer estabelecer com cada pessoa, onde quer que esteja, um diálogo de amizade (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros que nos referem isso, lembrando inclusive a hora do dia em que O encontraram: «Eram as quatro da tarde» (Jo 1, 39). A amizade com o Senhor, vê-Lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-Se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-Se com os necessitados, fazer apelo às bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade, deixa uma marca indelével, capaz de suscitar admiração e uma alegria expansiva e gratuita que não se pode conter. Com Jesus, vimos, ouvimos e constatamos que as coisas podem mudar… Tempo novo, que suscita uma fé capaz de estimular iniciativas e plasmar comunidades a partir de homens e mulheres que aprendem a ocupar-se da fragilidade própria e dos outros, promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra a sua beleza, sempre que se lembra, com gratidão, que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19). A primeira comunidade apostólica E, no entanto, para a primeira comunidade apostólica, os tempos não eram fáceis; os primeiros cristãos começaram a sua vida de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão entrelaçavam-se com resistências internas e externas, que pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido; mas isso, em vez de ser uma dificuldade ou um obstáculo que poderia levá-los a retrair-se ou fechar-se em si mesmos, impeliu-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos tornaram-se um lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada e ninguém podia permanecer alheio ao anúncio libertador… Os nossos dias O mesmo se passa connosco: o momento histórico actual também não é fácil. A situação da pandemia evidenciou e aumentou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que já tantos padeciam, e desmascarou as nossas falsas seguranças e as fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a sua vulnerabilidade e fragilidade. Experimentamos o desânimo, a decepção, o cansaço; e até a amargura conformista, que tira a esperança, se apoderou do nosso olhar. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome dum sadio distanciamento social, é urgente a missão da compaixão, capaz de fazer da distância necessária um lugar de encontro, cuidado e promoção. «O que vimos e ouvimos» (At 4, 20), a misericórdia com que fomos tratados, transforma-se no ponto de referimento e credibilidade que nos permite recuperar e partilhar a paixão por criar “uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens” (cf. Fratelli Tutti, 36). Um convite a cada um de nós O tema do Dia Mundial das Missões deste ano – «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20) – é um convite dirigido a cada um de nós para cuidar e dar a conhecer aquilo que tem no coração. Esta missão é, e sempre foi, a identidade da Igreja. No isolamento pessoal ou fechando-se em pequenos grupos, a nossa vida de fé esmorece, perde profecia e capacidade de encanto e gratidão; por sua própria dinâmica, exige uma abertura crescente, capaz de alcançar e abraçar a todos. No Dia Mundial das Missões recordamos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso baptismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Hoje, Jesus precisa de corações que sejam capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, que os faça sair para as periferias do mundo e tornar-se mensageiros e instrumentos de compaixão. E esta chamada, fá-la a todos nós, embora não da mesma forma. Lembremo-nos que existem periferias que estão perto de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Há também um aspecto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial… Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o seu amor de compaixão desperte também o nosso e, a todos, nos torne discípulos missionários. Papa Francisco
out 18 2021
Catequista – Tornar o Evangelho sempre actual
Após o “Directório Catequístico Geral” de 1971 e o “Directório Geral para a Catequese” de 1997, a 23 de Março de 2020, o Papa Francisco aprovou o novo “Directório para a Catequese”, elaborado pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Aqui vai uma breve apresentação. O documento afirma que cada baptizado é um discípulo missionário enviado a comunicar a fé. Há três princípios básicos que orientam a comunicação da fé: o testemunho, porque “a Igreja não cresce pelo proselitismo, mas pela atracção”; a misericórdia, que é uma autêntica catequese para tornar credível o anúncio do Evangelho; o diálogo, livre e gratuito que, impelido pela caridade, contribui para promover a paz e a fraternidade. A tarefa da catequese A catequese deve ter um caracter missionário: “À luz destas linhas que caracterizam a catequese em perspectiva missionária, relê-se também a finalidade do processo catequético (…): levar cada pessoa à comunhão íntima com Cristo (…), realizada mediante um processo de acompanhamento (…), que leve ao amadurecimento duma mentalidade de fé” (Introdução, 3). A formação de catequistas “A catequese na missão evangelizadora da Igreja”, é a primeira parte do documento que trata da formação dos catequistas que devem “ser catequistas antes de fazer os catequistas!”. Portanto, devem trabalhar com gratuidade, dedicação e coerência, de acordo com uma espiritualidade missionária que os mantém longe do individualismo e os ajuda a adoptar um “estilo de comunhão”. A linguagem da catequese “O processo de catequese”, segunda parte, enfrenta o desafio da linguagem usada na comunicação da fé que deveriam incluir várias formas tais como a narração, a arte e os instrumentos digitais. Paróquias, associações e escolas católicas “Catequese nas Igrejas particulares”, é a terceira parte na qual emerge o papel das paróquias, associações, movimentos eclesiais e escolas católicas no processo catequético. Catequese e cultura digital O novo Directório convida a uma maior educação aos meios de comunicação social, porque estamos perante uma forma de “analfabetismo digital”. Além disso, é importante ajudar as pessoas a não confundir os meios com o fim, a discernir como navegar na web, de modo a ir além da tecnologia para encontrar uma humanidade renovada na relação com Cristo. Outros temas do Directório No documento encontramos também a exortação a acompanhar na fé e inserir na vida da comunidade, aquelas famílias que se encontram em situações irregulares, com um estilo de proximidade, escuta e compreensão, bem como a pensar numa catequese com pessoas marginalizadas, tais como: refugiados, deslocados, sem abrigo, doentes crónicos, toxicodependentes, prisioneiros, vítimas de prostituição. Do mesmo modo, sublinha-se o compromisso com a “questão ecológica”, a que a catequese deve chamar a atenção. O grito da terra, que está intimamente ligado ao grito dos pobres, é parte essencial da mensagem catequética. Não faltam também indicações e orientações para uma catequese num contexto ecuménico e de pluralismo religioso. Este tempo de pandemia faz-nos perceber muito bem que nada pode ser tomado como garantido, e que estamos perante uma situação que nos orienta para fazer uma experiência de Igreja nova e verdadeiramente generativa. Cada Igreja local tem a tarefa de tornar isto possível, através de momentos de reflexão, partilha e formação. Auspicamos que este novo Diretório para a Catequese possa ajudar na renovação da catequese e na realização da missão da Igreja, que existe para evangelizar. Por Max Robol
out 18 2021
A função pública em Moçambique 3
Nesta edição tencionamos apresentar a terceira parte de várias entrevistas concernentes à função pública em Moçambique. Desta vez apresentamos abaixo o diálogo com o Pe Adelino Lopes Alfredo do Clero Diocesano de Lichinga e actual Capelão da UCM – Extensão de Lichinga. VN: Qual é o estágio actual do sector de Administração pública no mundo? ALA: Em linhas de curiosidade e partindo de alguns escritos sobre diversificados temas de gestão e administração da função pública em geral, pode-se depreender que muitas nações apresentam uma elevada preocupação sobre a qualidade do funcionamento do sector público. Sobretudo, na estruturação das acções específicas, desde os governos, líderes e utentes numa honraria ético-moral da pessoa humana. Moçambique não está à margem deste desassossego do mundo, exceptuando algumas nações que apresentam padrões exemplares na proporção do bem-estar da função pública para todos. Aliás, das experiências diárias e carregadas de 5% de empirismo, nota-se que o slogan dos grupos partidários a quanto das vésperas eleitorais, presidenciais ou municipais, todos clamam e prometem restabelecer a qualidade jamais vista na função pública. O que faz entender que afinal, este sector toca com todos neste mundo em que erradamente, o que é do “património do Estado” não é de ninguém. Ante esta realidade “deformada” precisa-se salvaguardar as virtudes basilares da pessoa humana para que a valorização da vida seja efectiva. Portanto, que a designação de uma gestão e administração da função pública passe como diz Brown (2006), pelas influências que promovem a articulação entre o líder e subordinados sem se descartar os dotes pessoais aliados a honestidade, a confiabilidade, consideração, integridade, maleabilidade, prudência, justiça, liberdade, etc. VN: Qual é a sua experiência sobre a função pública em Moçambique? Vantagens e Desvantagens. ALA: A experiência quotidiana mesmo cheia de empirismo leva a consciência da necessidade de reerguer este sector trazendo à tona o conteúdo próprio da probidade pública onde cada um deverá sentir-se membro cuja presença e colaboração será indispensável para a prossecução de uma boa gestão e administração da função pública em geral. Portanto, ter-se em conta que o que é público, não significa não ser de ninguém, isso não é correcto. Mas sim, para fazer compreender que todos os homens devem contribuir para o bem comum da sociedade através das condutas que oferecem um bom convívio social, serviço ao próximo, cumprimento dos deveres cívicos e respeito à liberdade para a formação de uma sociedade menos corrupta. Não se deve descartar que a função pública está carregada de diversificadas vantagens, pois, a sua existência é indispensável em todas as nações do mundo. Visto que é o sector da acção directa dos Estados, como meio através do qual o governo faz chegar aos povos as suas estratégias, planos, objectivos e todo o processo da máquina governativa de uma nação. Os constrangimentos ou desvantagens registam-se, evidentemente, por causa de serviços ineficientes, prevalência da corrupção, não cumprimento do princípio da imparcialidade por exemplo nos concursos de ingresso, obras públicas de baixa qualidade, etc.. Como se pode ver no dia-dia da vida social e pública dos povos, o grande problema é o desrespeito do bem público que é visto como algo que não é de ninguém, fragilizando assim o teor de funcionamento correcto da função pública. VN: Face a este cenário precário e doentio das instituições públicas, que recomendações a deixar visando garantir a promoção do bem comum? ALA: Numa visão também carregada de experiências do dia-dia os serviços oferecidos nas instituições públicas, no país serão sempre indispensáveis; alguns são básicos e outros executivos. O que cria constrangimento é que os receptores de serviços básicos e executivos estão destinados a perpetuar somente neles. Portanto, não há empatia que leva as pessoas a sentirem e colocarem-se no lugar dos que recebem os serviços básicos. Isto provoca descontentamentos, insatisfação e revolta de geração em geração entre tribos e zonas ou regiões do país. Em minha opinião, para ultrapassar esta problemática as lideranças devem ser munidas de responsabilidade, honestidade, empatia, prudência, sentido de pertença, justiça como também de liberdade na gestão e administração dos serviços da função pública. Por outro lado, deve-se oferecer os serviços tendo em conta a eficiência e qualidade tão almejadas. VN: Quais são os desafios da função pública moçambicana? ALA: A função pública em Moçambique não deve estar à margem das finalidades deste sector que é de garantir as necessidades do bem comum ao povo. Para uma gestão e administração da função pública eficiente e competente, urge a necessidade de fazê-la espelhando-se no cumprimento dos princípios que a regem, tais como a legalidade, imparcialidade, justiça e boa-fé na gestão e administração do passado e nas nações do mundo enunciadas como exemplares neste processo em debate. VN: Que perspetivas a aventar para o futuro? ALA: É sempre bom sonhar para o melhor. Que todos moçambicanos tomem consciência de fazer melhor a gestão e administração pública com sentido de pertença; Uma reforma baseada numa monitoria constante dos serviços prestados, uma descentralização e supervisão das políticas públicas; Uma reciclagem do pessoal do sector com vista a sanar o fenómeno da corrupção que devasta a qualidade dos serviços oferecidos; E reabilitação das estruturas físicas para corresponderem com os esforços e vontades politicas do Estado, em função da melhoria do sector no país em benefício da prossecução do bem comum.
out 18 2021
O verdadeiro “nakuru” das famílias actuais
Ter um homem ideal, capaz de cuidar da sua vida e seus anseios, está na ponta do desejo de quase todas as mulheres. O mesmo se diga dos homens, quase todos eles, com excepção daqueles que por chamado de Deus primam por uma vida celibatária pelo Reino de Deus. Figura na ordem da vontade dos homens também ter uma mulher ideal. Mas na sociedade em que estamos, na realidade actual, essa vontade de ter um/a parceiro/a ideal, é contraposta pelo fenómeno da fragilidade dos laços humanos. As relações que se estabelecem pelo vínculo de casamento são menos duradoiras. De maneiras que há, na nossa sociedade, muitas mulheres com que nenhum homem se quer casar, e muitos homens também com que nenhuma mulher se arrisca casar. É assim que registamos um crescimento vertiginoso de homens com saudades de serem maridos, e também mulheres com saudades de serem esposas. Instabilidade dos laços conjugais Diante dessa realidade inequívoca da instabilidade dos laços conjugais, não são poucas pessoas, entre homens e mulheres, que se dizem ser reféns de azar ou vítimas do marido e mulher-da-noite. Com isso pouco se faz para reflectir sobre as reais causas dessa fragilidade tremenda dos relacionamentos românticos. Os motivos detrás dos divórcios. Ou seja, aquilo que faz o homem e a mulher ser azedos e incapazes de formar uma família feliz. Somente mais notável é sempre a tendência de atirar a culpa contra os outros. E aí criam-se certos complexos de culpabilidade, dentre os quais figuram: Complexo “nakurífero” (de “Nakuru”, ou marido-da-noite): a ideia de que há um espírito que se apossa de uma mulher ou homem, impedindo-lhe estabelecer casamento duradouro. Quem é o seu verdadeiro “Nakuru”? Complexo de perseguição: a ideia de que a pessoa não se casa porque há alguém que lhe inveja, persegue, incluindo familiares e pessoas alheias. Quem é o seu verdadeiro perseguidor? Complexo de maldição divina: a ideia de que a pessoa não se dá bem no casamento ou não se casa porque Deus ou os espíritos dos antepassados não estão bem com ela. Quem é seu verdadeiro amaldiçoador? Será Deus, ou os antepassados? Nada a ver. Complexo de azar: a convicção de que a pessoa nasceu sem sorte de ter homens ou mulheres ideais para o casamento. Será? Onde está o seu verdadeiro azar? Os complexos acima são muitas vezes simples refúgio de quem não quer descobrir a própria nudez, típico de pessoas que se querem passar de vítimas e inocentes do próprio sofrimento. Pois, pouco fazem para descobrir a influência da sua postura diária na sociedade e no relacionamento. Tomados a peito, esses complexos, ou centrífugos, levam a pessoa a níveis cada vez mais predadores da vida, desde a frequência nos curandeiros, à mudança doentia de igrejas a procura de milagres, incluindo prostituição. Atitudes nocivas à convivência familiar No pano de fundo, há certos comportamentos e atitudes nocivos à convivência familiar. Problemas que, como um grau de mostarda, germinam e crescem na família minando o relacionamento conjugal. Que quando não tidos em conta tornam-se um verdadeiro “Nakuru”, o verdadeiro inimigo perseguidor, maldição e azar da pessoa. Isto é, coisas que tornam um homem ou uma mulher uma pessoa com quem ninguém quer se casar. No meu livro “Amor: um exercício a dois” (2019), sob o título de “doenças do relacionamento”, fiz menção daquilo que mina o bem-estar dos cônjuges: a relação parasitária, a vida comparativa, a traição, o ciúme selvagem, o espírito de orelhas, a fofoquice, a hospitalidade selectiva, o consumo de drogas, o reclamar de tudo, a atitude de tudo imperar, a mania sexual, o desejo de ganhar razão em tudo, a inveja, a vergonha de passear juntos, o uso irracional do celular, os passeios sem ponteiro, a indiferença, a hipocrisia sentimental, o aprovacionismo, o medo multifacetado, o individualismo económico, a cegueira espiritual (medo de rezar). Quando estas posturas se apossam de uma família, o seu lar perde o sabor e ganha contornos bastante terríveis. A família passa de lugar de amor e paz para “ginásio de karate”, campo de batalha. Portanto, antes de atirar a culpa para os outros é preciso rever o seu “modus operandi”, o seu agir, na órbita do seu relacionamento. Só assim vai descobrir o verdadeiro “Nakuru”, a verdadeira perseguição, maldição e azar que azedam a sua vida. Que caminhos a seguir? Que caminhos se podem adoptar em ordem a dar sabor e sentido à vida conjugal? Isso exige das famílias certas posturas que lhes ajudem a mitigar os vários problemas sentimentais que as apoquentam na sua vida diária: desenvolver a arte de viver em família, que passa necessariamente pelo cultivo de certas virtudes: ter um código de segurança na vida, saber dialogar, ter paciência, possuir atitude de serviço, superar a inveja, a arrogância e o orgulho; amar e deixar-se amar, saber perdoar, desculpar, confiar, esperar, suportar; estar sempre disposto para pedir licença, agradecer e pedir perdão, ter projectos comuns e nada de individualismo, recobrar o sentido de família como “Igreja doméstica” onde existe a cultura de diálogo, encontro e de oração. Por Diác. Serafim João Muacua
out 18 2021
“A família deve ser o centro das atenções da Igreja e da Sociedade”
O Ano especial, inspirado na Exortação Apostólica, Alegria do Amor, e no amor encarnado pela Sagrada Família, teve início no dia 19 de Março, 5 anos após a publicação do Documento Pós-Sinodal, e terminará no dia 26 de Junho de 2022, por ocasião do X Encontro Mundial das Famílias. ”Convido a um renovado e criativo impulso pastoral para colocar a família no centro das atenções da Igreja e da sociedade”. É este o convite do papa Francisco depois do Angelus do Domingo 14 de Março ao recordar o início do Ano da Família “Amoris Laetitia”. Após o Angelus, o Papa recordou a todos, o Ano da Família Amoris Laetitia com estas palavras: “No dia 19 de Março, solenidade de São José, será aberto o Ano da Família Amoris Laetitia: um ano especial para crescer no amor familiar. Convido a um renovado e criativo impulso pastoral para colocar a família no centro das atenções da Igreja e da sociedade. Rezo para que cada família possa sentir em sua própria casa a presença viva da Sagrada Família de Nazaré, para que ela possa preencher nossas pequenas comunidades domésticas com amor sincero e generoso, uma fonte de alegria mesmo em provações e dificuldades”. Família protagonista da sociedade As famílias têm necessidade de cuidado pastoral, de dedicação, mediante um estilo de maior colaboração entre eles e os pastores. É necessário investir na formação dos formadores e, sobretudo, implementar uma mudança de mentalidade: pensá-las não como ‘objecto’, mas como ‘sujeito’ da pastoral ordinária. A família permanece para sempre custódia das nossas relações mais autênticas e originárias. Em síntese, este foi o convite feito pelo cardeal Kevin Farrell responsável da iniciativa papal. IV Assembleia Nacional de Pastoral (ANP) O 4º capítulo dos Lineamenta em preparação a IV ANP é dedicado mesmo à pastoral da Família. De facto em Moçambique, como em muitos lugares de África, mais do que a dimensão jurídico-legal, o que define a família são os valores que ela representa, principalmente a união e protecção de um para com o outro. A família pode, em Moçambique, não necessariamente ter pessoas do mesmo sangue mas ela é composta por pessoas com os mesmos valores e princípios. A família em Moçambique, enquanto instituição social, tem passado por mudanças aceleradas na sua estrutura, organização e função de seus membros. Ao modelo tradicional foram se somando muitos outros modelos de família, fruto e consequência de abertura às outras culturas e de profundas transformações estruturais de carácter global e, por muitos outros aspectos, têm sido porta de ingresso para profundas crises (IV ANP n.19-20). De facto, o crescimento progressivo de crianças de rua em todas as nossas cidades, é um sinal evidente do mal-estar da Família em Moçambique. As crianças de rua são, simultaneamente, uma denúncia à crise de estabilidade nas uniões matrimonias e o aumento do número de mães solteiras, resultantes, ou de separações, ou de escolhas de procriação livre de compromisso marital. Também o crescimento do número de idosos abandonados e, portanto, desemparados, quer pelos próprios filhos e também pela sociedade, indica que as famílias estão com profundas feridas que devem ser saradas. (IV ANP 21). A nossa Igreja tem sorte porque com estas duas iniciativas vai ser estimulada a reflectir, planificar e organizar a pastoral familiar. E assim, tendo os instrumentos necessários, não vamos perder estas duas ocasiões para renovar e por em primeiro plano a nossa atenção para as famílias que são verdadeiras colunas portantes da vida da comunidade.
out 16 2021
A filosofia faz-se pela realidade social, porque todos aqueles que são filósofos de renome as suas reflexões partiram das realidades sociais por eles vividas
A informação foi avançada na manhã desta sexta-feira (15/10), no Seminário Filosófico Interdiocesano Santo Agostinho da Matola, por ocasião da XXI Jornadas filosóficas. Xavier advertiu que os estudantes desta nação moçambicana não passem o tempo a reflectir realidades ocidentais trazidas pelos filósofos antigos. Mas devem-se ocupar dos problemas reais dos moçambicanos. Partindo dos problemas religiosos, políticos e sociais dos moçambicanos, como meio para obtenção de uma moçambicanidade coesa. A fonte avançou que a coesão social em Agostinho e Rousseau, uma abordagem crítica sobre as desigualdades sociais em Moçambique, revela aquilo que as instituições educacionais moçambicanas poderiam fazer para uma harmonia social. E ao terminar o seu discurso aproveitou a oportunidade de falar do julgamento que decorre no país, onde referenciou que “a preocupação dos moçambicanos não deve ser de julgar ou condenar os homens que se envolveram no processo, mas pedir que eles devolvam o que roubaram ao Estado Moçambicano”. De referir que António Xavier falava no momento em que os finalistas do curso de Filosofia terminavam as suas actividades da semana filosófica. Por Rodriguês Pedro
