out 26 2021
Pneumonia
Pneumonia é uma inflamação dos pulmões que pode ser desencadeada por diferentes agentes ao nível dos alvéolos (pequenos sacos de ar) e produz sinais e sintomas respiratórias. Existem diferentes tipos de infecção pulmonar não pneumónica (incluindo bronquite aguda) que podem variar na sua gravidade. Denomina-se pneumonia quando há infecção dos alvéolos pulmonares e frequentemente infiltração do parênquima visível na radiografia ou TAC do tórax. Os alvéolos e os bronquíolos terminais ficam inflamados (“inchados”) e preenchidos com fluido, impedindo o correto funcionamento dos pulmões. Denomina-se broncopneumonia, quando o foco infeccioso e a resposta inflamatória estão localizados nos brônquios e no pulmão circundante. Causas da pneumonia A pneumonia apresenta diferentes causas, podendo ser desencadeada por agentes infecciosos ou consequência de processos alérgicos, sendo nesse caso, provocada por agentes como fumaça e produtos químicos. – Infecções virais, bacterianas e fúngicas. Frequentemente a pneumonia é associada com a gripe, sendo uma complicação grave dessa virose. Transmissão de pneumonia A pneumonia pode ser transmitida pelo: ar, saliva, secreções e ate mesmo por transfusão de sangue, no inverno, nos pêlos de nariz, os quais actuam na filtragem do ar, tem seu funcionamento comprometido aos agentes causadores da doença. Sintomas de pneumonia Tosse Produção de muco (expectoração) Falta de ar ou dificuldade em respirar Dores no tórax (peito) as quais podem ser intensificadas como uma respiração profunda Febre alta Perda de apetite Mal-estar geral e fraqueza Prevenção da pneumonia A pneumonia pode ser prevenida com a adopção de algumas medidas simples tais como: Lavar as mãos Evitar aglomerações Não fumar (o fumo facilita a penetração do agente infeccioso) Fazer a correta higienização do ar condicionado Não existe nenhuma vacina contra a pneumonia que previna todos os tipos desta infecção pulmonar. Contra o pneumococo (agente mais frequente), dispomos actualmente de duas vacinas activas apenas contra algumas estirpes bacterianas desse grupo. Por Júlia Tarrua
out 25 2021
JUBILEU DOS 25 ANOS DE VIDA SACERDOTAL DO PADRE RAFAEL BACIANO SAPATO
HOMILIA DO P. RAFAEL SAPATO POR OCASIÃO DO SEU JUBILEU SACERDOTAL JUNTO COM O SEU IRMÃO P. LOURENÇO MIQUEIAS Lichinga, 24 de Outubro 2021, XXX D.C. Ano B, Domingo das Missões I L. Jer 31,7-9, II L. Hebr 5,1-6; Ev. Mc 10,46-52 Antes de partilhar a minha reflexão sobre a Palavra de Deus neste XXX Domingo, Domingo das Missões, gostaria de estender a homenagem que prestamos a Mons. Miqueias aos vivos, isto é, a esta assembleia litúrgica que muito nos honra e encoraja com a sua presença, a começar pelo nosso Vigário Geral, P. Agostinho, o Magnifico Reitor do Seminário Filosófico Interdiocesano S. Agostinho, P. Joaquim Lopes, juntamente com o seu Vice, P. Samuel Bungueia, o Pároco da Sé Catedral, que acolhe esta celebração, P. Inácio Mole, os Sacerdotes diocesanos de Lichinga e os Missionários em Lichinga, de modo particular os últimos a ser ordenados na nossa Diocese, P. Abel e P. Isaias, o P. Francisco Alves de Nacala, as Irmãs Religiosas nativas, Missionárias ao serviço da Diocese de Lichinga e as que vieram de Quelimane (Representante das Irmãs Agostinianas, Ir. Gabriela e das Irmãs deNossa Senhora da Visitação, Ir. Celeste), as Entidades de Estado e Governo no Niassa,da Edilidade de Lichinga, e do Distrito de Chimbunila, o Professor Machona de Nampula, as delegações das Paróquias da cidade de Lichinga, Catedral, Cerâmica e Nzinge, os convidados, o coro e todas as pessoas que aqui vieram rezar conosco. O trecho do livro de Jeremias que acabamos de escutar, numa das suas passagens diz: Fazei ouvir os vossos louvores. É o objetivo desta celebração. Porque Jubileu significa Júbilo, louvor. Motivos para louvor e júbilo são muitos. Senão vejamos: O cego Bartimeu depois de ter sido curado seguiu Jesus, o meu irmão, P. Miqueias e eu próprio, depois de termos sido curados da cegueira espiritual, por Jesus, por intermédio de pessoas que ele quis que fizessem parte da nossa história, ele aceitou que lhe seguíssemos durante 25 anos. E como diz o Salmista hoje “Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho“. Também, para nós, dizer que estamos a celebrar 25 anos de seguimento ao Senhor, parece-nos viver um sonho. Ser aceite por Jesus para fazer parte da sua companhia, sem dúvidas, é motivo de jubilo, louvor que Jeremias pede na primeira leitura deste domingo. Quantos não se emocionam quando são convidados pelo seu superior hierárquico, para integrar a sua delegação ou o seu governo? Jesus é mais que superior hierárquico, porque é Deus. No processo da cura do cego Bartimeu há alguns aspectos dignos de serem refletidos. Ele ouve Jesus a passar, grita pedindo socorro, muitos lhe repreendem, mas quando Jesus pára e manda chama-lo, chamaram o cego e disseram, “Coragem! Levanta-te, que ele está a chamar-te!“. Nós também ouvimos Jesus a passar nos locais onde estudávamos, e gritamos “Filho de David, tem piedade de nós”. Muitos nos repreenderam mas houve aqueles que nos disseram: coragem! Levanta-te, que ele está a chamar-te. Gostaria de começar por este último aspecto na nossa vocação. Houve intermediários que nos encorajaram para chegarmos ao Filho de David, sermos curados da cegueira espiritual por ele e lhe seguirmos ao longo destes anos todos. Doutro modo, não estaríamos hoje a celebrar 25 anos de sacerdócio. Estou a falardos nossos parentes, promotores vocacionais, formadores nas várias etapas, as várias pessoas envolvidas na nossa formação, os Bispos de Lichinga, nomeadamente, D. Luís, de eterna memória, D. Hilário, D. Elio, agora D. Atanásio, e fora de Lichinga, os nossos párocos, os irmãos no Sacerdócio, as Irmãs Religiosas, as comunidades cristãs, Paróquias e locais de trabalho onde passamose estamos, amigos benfeitores e conhecidos. Por todos esses queremos com Jeremias fazer ouvir os nossos louvores. Para que fim Jesus nos curou e aceitou que lhe seguíssemos por 25 anos? Responde o autor da carta aos Hebreus,no trecho que escutamos hoje: “Todo o sumo sacerdote escolhido dentre os homens, é constituído em favor dos homens nas suas relações com Deus para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados “. Os termos de referência da nossa missão são mais que claros. Durante estes 25 anos algo o Senhor fez por nosso intermédio. O Senhor, por nosso intermédio, ajudou a encorajar aqueles que precisavam de encorajamento, algumas vocações saíram desse encorajamento. Por isso tudo queremos com Jeremias soltar brados de alegria. Jubileu é também momento de pedido de perdão. Durante o retiro de preparação para esta celebração, o qual foi pregado por D. António Juliasse, Bispo Auxiliar de Maputo e Administrador Apostólico de Pemba, na Paróquia de S. António de Mbemba, Diocese de Lichinga, fizemos um profundo exame de consciência o qual nos ajudou a descobrir que parece temos mais motivos para pedir perdão ao Senhor e ao seu povo do que de louvor. O trecho da Carta aos Hebreus de hoje diz “ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados porque também ele está revestido de fraqueza“. Houve momentos que não fizemos assim, pelo contrário revelamos impaciência e intransigência. A todos aqueles que maltratamos, o que é contra a atitude de Jesus, perdão. Quando o cego Bartimeu gritava a pedir socorro de Jesus, muitos lhe repreendiam. Houve momentos que nós também repreendemos até desanimar pessoas a quem erámos supostos encorajar e animar, sorry. O cego Bartimeu quando foi chamado por Jesus, deitou a capa ou manto, o que lhe identificava como mendigo credenciado, segundo os procedimentos daquele período, gesto que revela mudança radical. Aqui há diferença conosco. Pelo facto que não foram poucos os momentos que nós quisemos recuperar a nossa capa, decepcionando e mesmo escandalizando o povo. E o Senhor em alguma parte da Escritura já advertiu: Ai daquele que escandalizar um desses pequeninos… (Mt 18,6). E nós já escandalizamos. Certamente, alguém esteja a perguntar, porquê então, assim procederam, sabendo? O autor da carta aos Hebreus já explicou: estamos também revestidos de fraqueza. Por estas situações todas nebulosas e pouco felizes, imploramos misericórdia do Senhor e pedimos imensas desculpas a todos aqueles que sofreram com
out 25 2021
Acordo Geral de Paz sem paz
Uma pergunta: o que é que o Acordo Geral de Paz (AGP) de 1992, que encerrava a guerra de 16 anos entre o Governo e a Renamo, tem a ver com o terrorismo em Cabo Delgado, ou com os ataques da auto-proclamada Junta Militar da Renamo no centro do país? Vamos tentar responder à questão. Neste mês de Outubro celebramos o 29º aniversário do Acordo Geral de Paz (AGP) assinado em Roma, a 4 de Outubro de 1992, colocando fim ao conflito armado que durou 16 anos. Celebramos esse aniversário do AGP numa altura em que o nosso país vive uma guerra na província de Cabo Delgado e uma instabilidade militar nas províncias de Manica e Sofala. Alguns leitores dirão: mas o que o AGP que encerrava a guerra entre o Governo e a Renamo tem a ver com o terrorismo em Cabo Delgado, ou com os ataques da auto-proclamada Junta Militar da Renamo no centro do país? A resposta é simples: tem tudo a ver, conforme explico a seguir. Desde que o AGP foi assinado, o nosso país nunca gozou duma paz efectiva. Em 1994, 1999, 2004, 2009, 2014 e 2019 tivemos eleições gerais e presidenciais. Nenhuma dessas eleições representou uma estabilidade política e social de Moçambique. A cada eleição seguiu-se um conflito pós-eleitoral com o maior partido da oposição, a Renamo, e não só a contestar os resultados. Na mesma senda, em 1998, 2003, 2008, 2013 e 2018 tivemos eleições autárquicas. Essas também, ao contrário do que se esperava, serviram apenas para o país passar a ter conselhos municipais – actualmente designados conselhos autárquicos – sem nenhum processo de estabilização política e social das nossas cidades. Enquanto o nosso país percorria estes 29 anos do AGP, realizavam-se eleições gerais e autárquicas e conforme referi, não houve nenhuma preocupação de construção de um Estado, ou de uma nação, de um projecto conjunto de moçambicanidade, que aglutinasse todas as sensibilidades moçambicanas. O que vimos foi o agudizar das diferenças, do ódio e da violência entre os membros de partidos políticos adversários. Ao invés da nação moçambicana unir-se ainda mais, para o aprofundamento da unidade nacional, criámos mais divisionismos e mais exclusão. Sem cumprimento do AGP, sem modernização nem investimento no exército nacional, o nosso país virou todas as suas atenções para a febre do momento: a emergência dos recursos minerais, acreditando-se que não havia mal que nos chegasse. O poder político do nosso país não imaginava que em 2017, longe do fim da guerra dos 16 anos, uma das províncias, Cabo Delgado, fosse atacada por desconhecidos, numa incursão terrorista que até 2021 desalojaria mais de 800 mil pessoas, e tiraria a vida a mais de 200 pessoas, com danos materiais ainda por quantificar – um drama humanitário sem precedentes no período pós-guerra dos 16 anos. Eu conheço a explicação da guerra de Cabo Delgado que procura colocar todos os elementos na componente externa do conflito. É verdade que várias indicações daquele conflito indicam estarmos perante um ataque terrorista. Mas também é verdade que muitas evidências do nosso percurso histórico recente indicam que internamente estavam mais do que criadas as condições para a eclosão dum conflito, sem condições humanas, materiais nem financeiras para a nossa própria defesa. Não admira, pois que passados quatro anos de conflito e insucesso das nossas forças de defesa e segurança, tenhamos precisado do exército ruandês que veio fazer em um mês o que nós não conseguimos fazer em quatro anos. Do norte de Moçambique ao centro: os ataques armados protagonizados pela auto-proclamada Junta Militar da Renamo são uma mancha no nosso Moçambique, em paz. Uma mancha completamente condenável e que era de todo evitável. Para os leitores que não se lembrem, um resumo: a Junta Militar da Renamo é um grupo de guerrilheiros dissidentes do maior partido da oposição, que contesta a eleição do actual Presidente da Renamo, Ossufo Momade. Porque é que uma contestação particular, privada, de um grupo partidário sobre um processo partidário chegou a afectar a sociedade moçambicana, no geral, e a sociedade das províncias de Manica e Sofala, em particular? Tudo isto só foi possível por estarmos num país que preza a violência, numa sociedade em que cidadãos acreditam que só a violência os pode fazer ouvir. Nada disto faz sentido, passados 29 anos de paz e 46 anos de independência nacional. Precisamos de reflectir sobre como devemos sair da actual situação em que estamos a celebrar o 29º aniversário do Acordo Geral da Paz (AGP) sem que o país esteja em paz. Estamos simplesmente sem motivos para celebrar a passagem de mais um 4 de Outubro. Com muita infelicidade! Por Dr. Thomas Selemane
out 25 2021
Para a Paz É o Diálogo que vence!
No dia 4 deste mês celebramos o 26º aniversário do Acordo Geral de Paz (AGP). Ocasião para avaliar o estado de saúde da Paz em Moçambique. Já passaram 26 anos desde que o antigo presidente da Republica Joaquim Chissano e o falecido presidente da Renamo Afonso Dhlacama assinaram o AGP no qual foi posto o ponto final da guerra civil que matou e destruiu o País desde 1977. Roma 1992 No AGP as delegações do Governo moçambicano e da Renamo assinaram em Roma 7 protocolos de entendimento depois de vários anos de conversações entre as partes. Entre outros foram concordados os critérios e modalidades para a formação e reconhecimento dos partidos políticos; os princípios para a redacção da Lei Eleitoral: os procedimentos eleitorais e o sistema de voto democrático, imparcial e pluralístico; a formação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique; a despartidarização e reestruturação das Forças Policiais e o calendário de implementação do processo eleitoral. Tudo isso foi fruto dum diálogo difícil que viu as duas partes ter que rever as suas posições para “os superiores interesses da nação moçambicana” (Comunicado em conjunto 1992). Maputo 2019 Todos sabemos que depois dos AGP de 1992 o caminho de reconciliação nacional foi ainda longo e difícil até chegarmos ao 6 de Agosto de 2019, quando Ossufo Momade, líder da Renamo, então recém-eleito depois da morte de Afonso Dhlacama, e Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique (2015-presente) e presidente da Frelimo, assinaram o Acordo de Paz e Reconciliação de Maputo. Este acordo, o 3º de uma série de acordos de paz desde 1992 centra-se em três objectivos fundamentais: Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR). Moçambique 2021 Então podemos dizer que estes 26 anos foram marcados por contínuas oscilações entre passos dados para o alcance da paz e outros contrários. Ainda hoje assistimos a ataques violentos no centro do Pais e, mais trágica, é a situação da Província de Cabo Delgado à mercê de terroristas sem escrúpulos que continuam a destruir e ameaçar a vida de centenas de milhares de pessoas. Para encontrar a solução a este conflito o governo escolheu a via militar, coadjuvado pelos militares da SADC e do Ruanda. Porém, outra voz se levantou apelando ao Governo para considerar também a possibilidade de diálogo com os grupos armados que atuam em Cabo Delgado, assinalando que há “certos tipos de terrorismo” que acabaram através de negociações. É o antigo presidente Joaquim Chissano que lembrando a experiencia do AGP 1992 afirmou que: “Pode ser que apareça um líder desse grupo que nos ofereça a oportunidade de um diálogo que conduza ao fim” da violência armada na província de Cabo Delgado. Dialogo, é difícil mas retribui Portanto, para verdadeiramente celebrar os 26 anos do AGP, não é viável apostar exclusivamente na escolha da estratégia militar para combater os terroristas em Cabo Delgado porque a experiencia nos ensinou que o conflito com “os bandidos armados” não terminou pela via militar, mas numa mesa de negociações. E assim seria de grande valor também a abertura de canais de comunicação entre as partes envolvidas que, através a oportunidade de um diálogo, como apelou o Joaquim Chissano, se possam encontrar respostas para implementar um justo desenvolvimento e pôr fim ao sofrimento do povo inocente. BOX: Comunicado conjunto “As duas delegações manifestaram interesse e vontade de tudo fazerem para levarem a cabo um processo construtivo de busca de uma paz duradoura para o seu país e para o seu povo. Tendo em consideração os superiores interesses da nação moçambicana, as duas Partes concordaram que é necessário que se ponha de lado aquilo que as divide e que se concentre, com prioridade, a atenção naquilo que as une, com vista a criarem uma base comum de trabalho para, no espírito de compreensão e entendimento mútuos, realizarem um diálogo no qual debatam os diferentes pontos de vista. As duas delegações afirmaram estar prontas a empenhar-se profundamente e no espírito de respeito e compreensão mútuos, na busca de uma plataforma de trabalho para pôr fim à guerra, e criar condições políticas, económicas e sociais que permitam trazer uma paz duradoura e normalizar a vida de todos os cidadãos moçambicanos”. (Comunicado conjunto AGP Roma 1992). Por AB
out 24 2021
Um ministério renovado para uma Igreja missionária
“O ministério do Catequista na Igreja é muito antigo”. Com esta consideração, o Papa Francisco institui para a Igreja o ministério do catequista que, no entanto, sempre acompanhou o caminho da evangelização em todos os tempos e em todos os lugares e foi consagrado o papel do catequista missionário dentro da Igreja. O documento “Antiquum Ministerium” (AM) alarga as fronteiras da ministerialidade dentro da Igreja, colocando o ministério do catequista no horizonte de uma pluralidade de funções expressa “no serviço de homens e mulheres que, obedientes à acção do Espírito Santo, dedicaram a sua vida à edificação da Igreja” (AM,2). Ministério laical Embora o texto reconheça a actividade da catequese como um ministério enraizado na longa história da Igreja, liga-o expressamente à condição “laical”. Esta forma específica de apresentar o ministério do catequista não é neutra: falar do “ministério laical do catequista” significa associá-lo a uma condição específica do cristão, que está marcada no fundamento jurídico da codificação canónica. As citações dos documentos do Concílio Vaticano II e do Código de Direito Canónico indicam como, em geral, o motu próprio fala dos leigos com referência aos cristãos que “não são membros da sagrada Ordem” (Lumen Gentium, 31) e são qualificados por um exercício do apostolado que “possui uma indiscutível valência secular” (AM,6). A catequese é, por assim dizer, “reservada” sobretudo para aqueles que se encontram na condição canónica específica de “leigo” e definida, na sequência da Lumen Gentium 33, em termos de uma colaboração dos leigos ao apostolado da hierarquia. De facto, o documento afirma que: “Hoje em dia, em razão da escassez de clero para evangelizar tão grandes multidões e exercer o ministério pastoral, o ofício dos catequistas tem muitíssima importância” (AM, 4). Aqui surge uma pergunta: e se não houvesse escassez de clero, tal ofício teria a mesma importância? Povo de Deus Neste sentido, o documento AM parece colocar-se em continuidade com uma certa linguagem do Concílio Vaticano II e transmitir uma ideia de Igreja na qual a noção do Povo de Deus permanece marcada por uma articulação jurídica entre leigos e clérigos, que dá a estes últimos uma primazia qualitativa que se torna vinculante. Todavia, o texto do motu próprio dá também um passo em frente em relação à mesma eclesiologia conciliar no que diz respeito à natureza dos ministérios, ao seu fundamento teológico e à sua função na vida da Igreja. Fá-lo nos dois primeiros números do documento, que são apresentados como um comentário articulado do Capítulo 12 da 1ª carta de Paulo aos Coríntios, 28-31. O texto Paulino é muito mais do que uma lista de funções desempenhadas dentro da Igreja: pelo contrário, ele traça o exercício de certas tarefas dentro da comunidade a partir de carismas que são um dom do Espírito. É o Espírito, de facto, que actua através das obras dos cristãos, numa manifestação que visa o bem comum (1Cor 12,7). Esta conclusão é aprofundada na passagem sucessiva do AM, onde se encontra a outra citação do mesmo Capítulo 12 da 1ª carta de Paulo aos Coríntios 4-11. Este texto não coloca a questão de quais ministérios distribuir na Igreja e a quem, mas reconhece que o carisma, que é o fundamento dos ministérios, é um dom do Espírito e que a Igreja como comunidade é chamada a reconhecer a presença destes carismas dentro dela e a encorajar uma vocação ao ministério que é fundada no Baptismo, e portanto própria de cada cristão. Neste sentido, o motu próprio torna-se também uma progressão do Concílio Vaticano II em dar uma definição “em positivo” da condição canónica de leigo, que já não é “o cristão sem o ministério ordenado”, mas alguém a quem se pode atribuir um ministério específico, no nosso caso, o de catequista. Além do legalismo É preciso reconhecer que o Concílio Vaticano II, na sua reflexão eclesiológica sobre o Povo de Deus, “intui” um ministério baptismal, que não é necessariamente fundamentado na sacralização de uma determinação jurídica. No entanto, a construção e elaboração de um conceito e de um vocabulário adequado para dar voz à consciência teológica de uma Igreja que se reconhece como Povo de Deus e que se afirma enraizada no Baptismo, permanece, ainda hoje, algo inacabado. Isso desafia não só os teólogos mas todos os baptizados, porque envolve o mandato de toda a Igreja e a acção do mesmo Espírito que “realiza tudo em todos” (1Cor 12,6), e fundamenta a diversidade de carismas e ministérios. É por isso que os primeiros dois números do AM representam o elemento mais teologicamente relevante neste itinerário de amadurecimento eclesial. Eles explicitam, na linguagem do Novo Testamento, os fundamentos de um ministério que brota da “aspiração” à qual todos os baptizados são chamados, confirmando que os dons do Espírito são dispensados entre todo o povo de Deus. Este facto torna a ministerialidade não como algo reconhecido e promovido pelos clérigos (CIC cân. 275 §2), mas o acto eclesial de garantir a presença dos carismas dados pelo Espírito e colocados ao serviço da Missão de Deus, para a vinda do Seu Reino. Toda a comunidade está chamada ao seguimento de Cristo. Por essa razão, não se deve pensar a dimensão ministerial apenas a partir de cima, a partir de uma hierarquia. É necessário vê-la a partir de baixo, a partir dos carismas, dos serviços e dos ministérios que, com a força do Espírito Santo, vão edificando o Corpo de Cristo. Nisso, a importância dos ministérios e a sua renovação não resulta da falta de sacerdotes, mas da “renovada consciência da evangelização no mundo contemporâneo” (AM, 5). Aqui insere-se aquela “transformação missionária” que deve abraçar todas as realidades da Igreja. BOX Por conseguinte, como afirma o documento: “Receber o ministério de Catequista imprime uma acentuação maior ao empenho missionário típico de cada um dos baptizados que, no entanto, deve ser desempenhado de forma plenamente secular, sem cair em qualquer tentativa de clericalização” (Antiquum Ministerium, n. 7). Nesta afirmação, encontra-se a novidade trazida por este ministério: homens e mulheres são
out 22 2021
Missão: Igreja em saída
“Missão: ser uma igreja em saída, decididamente missionária” é o tema do 1º capítulo dos Lineamenta da IV ANP. Um apelo à reflexão sobre a realidade das nossas paróquias que são uma rede de comunidades que procuram passar de uma pastoral de manutenção para uma pastoral decididamente missionária. O texto a seguir é uma ajuda para à nossa reflexão. Igreja em saída é o refrão do pontificado do Papa Francisco desde a publicação da Exortação Apostólica “Alegria do Evangelho (AE)”. É nessa exortação que o Papa exprime as suas principais preocupações a respeito da Igreja e do mundo, e desenvolve alguns temas que têm implicação directa na dinâmica pastoral e missionária da Igreja, a fim de delinear um novo perfil eclesial. Para Francisco, a transmissão da fé não se resume num conjunto desarticulado duma imensidade de doutrinas, mas no testemunho da fé em Jesus Cristo, principalmente entre os mais pobres e fragilizados da sociedade. BI da Igreja “Igreja em saída” é uma Igreja que toma a iniciativa, sem medo de ir ao encontro dos afastados, de chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos (cf. AE 24). É um convite especial à passagem de uma Igreja auto-referencial, centrada em si mesma, a uma Igreja aberta à alteridade, porque “quem deseja viver com dignidade e em plenitude não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem” (AE 9). O papa Francisco compreendeu bem que a missão é uma questão vital da Igreja, faz parte da sua natureza. Entretanto, ele chama a atenção para o verdadeiro sentido missionário, que não se resume numa mera transmissão de doutrinas, as vezes, impostas à força (cf. AE 35), criando assim, uma separação entre os “eleitos e os não eleitos”. Na verdade, assumir um estilo missionário, é fazer que a mensagem do Evangelho “chegue realmente a todos, sem excepções nem exclusões” (AE 35), de modo que a mensagem evangélica se torne mais convincente e radiosa. Igreja: povo de Deus A Igreja é para Papa Francisco muito mais do que uma instituição orgânica e hierárquica, é sobretudo Povo de Deus em caminho, um povo peregrino e evangelizador. Isso significa que “a Igreja deve ser lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viver segundo a vida boa do Evangelho” (AE 114). O propósito do papa Francisco com o processo de retomada do conceito de Povo de Deus, à luz de uma “Igreja em saída”, é de actualizar com sabedoria um conceito que tem suas raízes na Bíblia e foi conscientemente discutido e assumido pelo Vaticano II. De facto, a Igreja precisa entender que a sua missão não é fechar-se em si mesma ou em grupos de elite, mas ir ao encontro dos que andam perdidos, das imensas multidões sedentas de Cristo. Esperança da Igreja A exortação EG do papa Francisco – entendida aqui não como um documento específico, mas como um conjunto de gestos, palavras e acções que concretizam a Igreja – se apresente como a esperança de uma primavera para a Igreja católica, a certeza que fica é que a sua novidade exortativa incomoda, e exige, tanto do Magistério, como do fiel cristão, uma mudança radical de mentalidade, à luz do Evangelho, antes que das normas e das regras doutrinais muitas vezes impostas à força. Convite de Francisco O Papa Francisco não deseja nada mais que todo o Povo de Deus possa participar da vida da Igreja, que ninguém se sinta excluído da vida eclesial, mas todos se sintam amados e acolhidos por Deus. A “Igreja em saída” é justamente uma Igreja de portas abertas, a fim de acolher e oferecer a todos o testemunho salvífico do Senhor. É uma Igreja que busca iluminar a humanidade com as luzes do Evangelho, sem condicionar a fé cristã numa confusão de obsessões e procedimentos. Igreja da Visitação Para concretizar o plano pastoral do Papa o subsídio em preparação à IV ANP, apresenta algumas propostas operativas que vale a pena recordar: a) A Igreja Católica em Moçambique é chamada a empenhar-se mais na renovação da vida pastoral, com um programa que coloque a missão em todas as iniciativas, numa verdadeira Igreja “em saída” e em “estado permanente de missão”, numa dinâmica de conversão pastoral, onde a opção missionária esteja presente como alma da vida da Igreja (AE27). b) Partindo das experiências missionárias já existentes urge ser uma Igreja em saída, Igreja da Visitação, onde todos são sujeitos de evangelização, porque ser cristão é viver em missão. c) De grande importância é a pastoral da visitação e a criação nas nossas paróquias do ministério da visitação. Este ministério é essencial e urgente porque actua directamente sobre cada pessoa, cada família, cada núcleo, cada comunidade. O contacto pessoal, feito através das visitas, possibilita, na conversa, na escuta e na oração, que cada pessoa seja evangelizada de modo muito próprio, bem especial. Outubro, mês missionário por definição, é a ocasião privilegiada para começar uma séria avaliação da dimensão missionária das nossas Comunidades que formam a Igreja local ao fim de poder reprogramar a nossa vida pastoral. BOX “Desde quando a Igreja assumiu as categorias imperiais (cf. Império Romano) até tornar-se o que é hoje, precisou fazer uma opção: pôr o essencial da fé cristã em segundo plano e priorizar o fortalecimento de suas estruturas eclesiais. Por isso, em vez de Evangelho, deu ao povo doutrina; em vez de fé, deu-lhe conceitos; em vez do “querigma” (cf. Anúncio de salvação), deu-lhe dogmas; em vez do compromisso com o Reino, acomodou-o debaixo dos seus preceitos. De tudo isso, o que restou foi um cristianismo frágil e descomprometido com a causa do Evangelho, pois, nesse modelo eclesial, o que definia um cristão católico não era a prática concreta dos ensinamentos de Jesus, à luz do Evangelho, mas “considerava-se católico quem professava visivelmente a fé, era validamente baptizado, aceitava os sacramentos e vivia sob o governo do Romano Pontífice, como vigário de Cristo na terra” (Libanio). Por AB
out 22 2021
O Labirinto do amor líquido
Dizem que antigamente as pessoas se casavam verdadeiramente até envelheciam juntas. O casamento começava em casa, na família e se perpetuava na sociedade. Exemplo disso, são as várias famílias que actualmente celebram 30, 40 e ou 50 anos de casamento ou até mais. Não significa ausência de problemas durante esse período de vida a dois, mas sim capacidade de amar o outro de todo coração, na íntegra, sem parcelas. Ou seja, capacidade de governar a relação de amor, capacidade de encarar as dificuldades e desafios do relacionamento. Pelo contrário, na actualidade casa-se por conveniência: se tem dinheiro ou não, se é de família que respira bom ar ou carente. Os casamentos de hoje começam na rua e terminam na rua. O namoro nasce nas redes sociais: Whatsapp, facebook, Instagram, Twiter, etc. É um namoro muitas vezes à distância e que se faz com uma pessoa fantasma, que não se conhece, mas que produz ilusões frequentes entre jovens. Por essas vias uns já namoraram com pessoas fora da sua idade ou sendo mais velhas ou ainda mais novas. Dizia-se antes que isso provocava hérnia, mas parece que nos dias que correm as pessoas mataram todos os tabus. Por isso, crescem deficientes e as doenças estranhas nascem desordenadamente e daí se espantam dizendo: isto não acontecia antigamente. Hoje em dia muitas pessoas não querem comprometer-se. Têm medo de ter uma única mulher ou um homem para toda vida. As relações são livres, sem compromisso, sem duração, sem raízes, sem cor, sem profundidade. Portanto, são relacionamentos de máscaras, cheios de segredos, trancados com muitos códigos. E onde começam a nascer segredos dá-se espaço e lugar para o demónio sentar ao meio deles, dividi-los e começar a reinar. Emergem, então, as desconfianças, infidelidades, ciúmes, invejas, traições etc. Tudo isso vai culminar na separação inesperada. Consequentemente nascerá o labirinto do amor líquido. Nas suas incursões no mundo do pensamento, Zygmunt Bauman escreveu vários livros nos quais fala claramente do “O amor líquido”, de “tempos líquidos”, de “modernidade líquida”, de tudo que constitui o tecido social liquidamente corrompido pela contemporaneidade. No labirinto do amor líquido descobrimos “o homem sem qualidades”, de Robert Musil. Na sociedade actual, o indivíduo age por si mesmo, em seu próprio nome, sem o apoio da tradição e sem os impasses da colectividade. Corre-se, até, o grave risco de assumir o ideal de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir que decidiram um relacionamento livre/líquido. Vários relacionamentos de hoje conectam-se, mas, sem o compromisso de permanência, vemos o surgimento de uma subjectividade moderna sem qualidade, liquefeita, fútil e doentia. Nos casamentos modernos, consolidados nas redes sociais, vemos a interação, os encontros sem comprometimento que desobedecem à lei da gravidade, a ausência de peso. As relações amorosas, os vínculos familiares e até mesmo os relacionamentos em “redes”, segundo Bauman, estão se tornando cada vez mais flexíveis e volúveis. Portanto, a lei que move os relacionamentos tornou-se um objecto de consumo cada vez mais rápido, fácil e descartável. O consumidor está sempre com mais fome e sente profunda insatisfação o tempo todo. Por isso se faz o desporto sexual onde os adeptos ganham o prazer sem momentâneo. Aliás, os relacionamentos seguem a lógica das mercadorias, ou seja, se existe algum defeito, podem ser trocadas. Por outro lado, porém, não existe a garantia de que gostem do novo produto. Veio com algum defeito? Troca-se, assim ninguém sofre. No entanto, as consequências desse novo padrão de relação social fragiliza a confiança no próximo. Em outras palavras, poderíamos dizer que os relacionamentos humanos correm o risco de extinção. Vive-se de forma descartável e o importante nisso são as trocas materiais “paga-me e te dou”. No labirinto do amor líquido a procriação é facultativa porque ter filhos é um investimento oneroso. O importante é curtir a vida e curtir sem compromisso. Julga-se que para manter a finura, a elegância, o peito firme, a viola em forma é mais fácil adoptar um filho/filha, que aturar 9 meses de gestação. A família é comprada porque tudo pode ser descartável. O parentesco é onlinizado. Os encontros físicos entre membros de família começam a desaparecer porque investe-se em reuniões online, pior ainda com a desculpa do Coronavírus. Quando as relações apresentam dificuldades é só manter-se distante delas. E é nessa superficialidade que navegamos. As relações sólidas estão cada vez mais raras e mais fracas ou inexistentes. Quando aparece um problema, a relação simplesmente se desfaz, simplesmente se rompe. Não há esforços de resgate, não há recuperação. É automático efácil assim. Não se pode aquecer a cabeça a resolver problemas de relacionamento. Os padrinhos só servem para o dia de casamento milionário. Os tios são remetidos a gerir seus próprios problemas. As pessoas de hoje, no seu relacionamento, enfrentam o “medo” e imaturidade pessoal, em que não é possível conceber uma relação sólida, autêntica e estável, com um projeto futuro. Em virtude disso, o individualismo procura apenas satisfazer as necessidades pontuais com um começo e um fim. Vive-se de emoções que não podemos recordar e que nos escapam rapidamente das mãos, até desaparecer completamente. Nos chapa-cem e outros locais de convivência é notável, como aponta Bauman, comportamentos de mixofilia, que é o prazer de estar num ambiente estimulante, e de mixofobia, que é o seu oposto, ou seja, é o medo de misturar-se. Os encontros são virtuais, mais do que físicos. Tudo isso não fica impune. A sociedade materialista, nos dias que correm, preserva o seu casamento na base dos bens materiais. Homem sem dinheiro não tem valor. Mulher sem dinheiro não tem garantia de lar. E assim o amor entra em jogo de negociação. Amam-se as coisas e não as pessoas. As pessoas apenas se gostam por ter dinheiro e não por amor que brota do fundo dos seus corações. Nos casamentos actuais as pessoas pensam que o valor do casamento depende da vida estável dos cônjuges: uma economia altamente estável e um emprego apreciável. Os desempregados não podem casar? Quem nos garante que os ricos têm o melhor casamento do
out 22 2021
Apocalipse para nós
No texto abaixo apresentamos o resumo final da mensagem do Apocalipse de João. Tirar o véu dos olhos, da Bíblia e da história: O povo está impaciente e diz: “Até quando, Senhor?” (Ap 6,10). Se Deus é o dono do mundo, como Ele permite esta perseguição tão demorada? O Apocalipse tira o véu dos olhos e aponta os sinais da vitória de Jesus. Mostrando “as coisas que devem acontecer muito em breve” (Ap 1,1), tira o véu da história e situa a perseguição dentro do conjunto do plano da Salvação (Ap 4,2.8; 5,10; etc.). Deus Pai, Juiz Supremo, Senhor do Tempo e do Espaço, Defensor da vida: Perseguidos pelo Império, os cristãos estão morrendo. A mensagem central do Apocalipse é a fé na ressurreição (Ap 1,17-18). O fundamento desta fé é a certeza de que Deus é o Criador do céu e da terra, Senhor da vida e da morte (Ap 11,17-18). A ele nada é impossível. Jesus Cristo, Vencedor da morte, Defensor do povo, Senhor da História: Jesus é o irmão mais velho, aquele que, pela entrega de si, resgata seus irmãos perseguidos (Ap 5,9). Ele é o Defensor do povo (Ap 12,10). Jesus tornou-se o Senhor da história (Ap 5,7). Perseguição e martírio: Perseguição e sofrimento, insegurança, medo e perigo de morte, falta de horizonte, cansaço, eram o pão de cada dia do povo das comunidades (Ap 2,10; 6,9-11; 7,13-14; 12,13.17; 13,7; 16, 6; 17,6; 18,24; 20,4). Como sobreviver nesta situação e testemunhar a Boa Nova de Deus? O Apocalipse é mensagem de esperança para o povo perseguido (Ap 1,9-18). É expressão da vitória de Jesus, é pedra na construção do Reino, etapa na realização do plano de Deus (Ap 5,6-10). 5. Símbolos do passado O uso do Antigo Testamento caracteriza o Apocalipse. Um uso marcado pela familiaridade de quem se sente em casa no Antigo Testamento, pela liberdade de quem se sente herdeiro da tradição e pela fidelidade de quem quer ser fiel ao compromisso da Aliança. O Específico: a fé na ressurreição: o que marca o Apocalipse e o diferencia dos outros apocalipses é o alcance e a centralidade da fé na ressurreição. Os apocalipses judeus e cristãos não admitem este dualismo. Para eles, o que existe é o projecto de Deus e o desvio dos que se colocam contra o projecto. O poder do mal é real e é responsável pelo que faz, mas não é dono da história nem tem autonomia total. É um poder dependente e limitado. No fim todo o mal será totalmente eliminado. A vitória final será de Deus, será do bem.
out 21 2021
Proteger e promover os direitos das crianças
«Estou preocupado com o aumento de casos de abusos sexuais de crianças. Antigamente era raro ouvir no noticiário casos de abusos sexuais ou exploração de crianças no nosso País. O que é que se está a passar? Em Moçambique existe uma legislação actualizada em defesa dos direitos das crianças? Como podemos defender as nossas crianças destes “monstros”? (Carta assinada) “As crianças são as flores que nunca murcham” Samora Machel Hoje em dia, há mais órgãos de comunicação social e redes sociais que difundem as informações encurtando cada vez mais a distância entre os povos e aumentou também a consciência social acerca deste trágico fenómeno presente em todas as sociedades. É por isso que parece que o abuso de menores seja maior agora do que no passado. A verdade é que o abusos de menores é uma praga e uma ferida aberta da nossa sociedade que deve ser curada através duma legislação específica e através da formação cívica dos cidadãos. Até quando se é criança? O termo criança indica, segundo o n.º 1 do artigo 3° da Lei n.º 7/2008, de 9 de Julho (Legislação sobre menores), toda a pessoa menor de dezoito anos de idade. E o artigo 122° do Código Civil considera menores as pessoas, de um ou outro sexo, enquanto não perfizerem vinte e um anos de idade. Ora, através destes dois diplomas legais, percebe-se facilmente o legislador procura demostrar que estes indivíduos não têm capacidade física e mental suficiente para gerir a sua pessoa e bens, portanto, são pessoas que necessitam de protecção e cuidados para o seu bem-estar como recomenda o n. 1 do artigo 47 da Constituição da República de Moçambique. Documentos importantes Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (DUDH), Indica no artigo 1° que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”. Aliás, “todo o indivíduo (em especial às crianças e pessoas que precisam de cuidados especiais) tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. E ainda, todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação” (artigo 7). Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981 (CADHP). Consta do artigo 2º que, “toda a pessoa tem direito ao gozo dos direitos e liberdades (…) sem nenhuma distinção de raça, de etnia, de cor, de sexo, de língua, de religião, (…) de nascimento ou de qualquer outra situação”. “O ser humano tem direito ao respeito da sua vida e à integridade física e mental da sua pessoa. Ninguém pode ser arbitrariamente privado desse direito” (artigo 4). Em Moçambique a Constituição da República (CRM) no artigo 35 aborda a universalidade e igualdade dos direitos humanos em Moçambique mormente a igualdade perante a lei, o gozo de mesmos direitos e mesmas obrigações sem distinção da cor, raça, sexo, origem étnica, etc. O artigo 121 indica que todas as crianças têm direito à protecção da família, da sociedade e do Estado, tendo em vista o seu desenvolvimento integral; as crianças, particularmente as órfãs, portadoras de deficiência e as abandonadas, têm protecção da família, da sociedade e do Estado contra qualquer forma de discriminação, de maus tractos e contra o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições. Lei n.º 7/2008, de 9 de Julho (Lei de Promoção e Protecção dos Direitos da Criança), cujo objecto é especificamente reforçar, estender, promover e proteger os direitos da criança. Lei n.º 8/2008, de 15 de Julho (Aprova a Lei da Organização Tutelar de Menores). Indica no artigo n. 2 que nos casos omissos os tribunais de menores devem observar, com as necessárias adaptações, as normas processuais por que se regem os outros tribunais ordinários, os princípios legais enunciados na Lei de Bases de Protecção da Criança e nos instrumentos de direito internacional de que Moçambique é parte, desde que não contrariem a natureza e os fins da jurisdição de menores. Lei n.º 6/99, de 2 de Fevereiro (Regula o acesso de menores a lugares públicos). Esta lei tem como objectivo regular o acesso de menores a lugares públicos onde se realizam actividades de recreação e de entretenimento nocturno, a compra e consumo de bebidas alcoólicas e tabaco, exposição, venda e aluguer ou projecção de filmes em videocassete interditos a menores de 18 anos de idade. Decreto n.º 35/2002, de 5 de Dezembro (Aprova o Regulamento da Lei n.º 6/99, de 2 de Fevereiro); Lei n.º 6/2008, de 9 de Julho (Lei do Tráfico de Pessoas, especialmente mulheres e crianças). Esta Lei tem por objecto estabelecer o regime jurídico aplicável à prevenção e combate ao tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças. Aplica-se também à prevenção e combate ao tráfico de pessoas dentro ou para fora do território nacional. Lei n.º 19/2019, de 22 de Outubro (Lei de Prevenção e Combate as Uniões Prematuras em Moçambique). É objecto desta Lei estabelecer o regime jurídico aplicável a proibição, prevenção, mitigação das uniões prematuras e penalização dos seus autores e cúmplices, bem como a protecção das crianças que se encontram ou se encontravam nessas uniões. A Lei de Combate as Uniões Prematuras, tem como objecto dentre outros, prevenir a ocorrência de uniões prematuras, proibir as uniões com ou entre crianças, adoptar medidas para fazer cessar uniões prematuras já existentes. A união entre duas pessoas formada como propósito imediato de constituir família, só é permitida a quem tiver completado dezoito anos de idade à data da união. Todo o adulto que, por si ou por interposta pessoa, noivar criança conhecendo a idade desta, será punido com pena de prisão até dois anos conforme estabelece a Lei. Lei n.º 24/2019, de 24 de Dezembro (Código Penal) O Código Penal no artigo 202determina que que quem tiver trato sexual com menor de doze anos é punido com pena de prisão de 16 a 20 anos. Por sua vez, o n. 1 do artigo 203 diz que, quem, mediante violência ou ameaça grave, praticar
out 21 2021
OS PERIGOS DO PARTIDARISMO FANÁTICO
É possível militar um partido político sem ser fanático. Numa conversa com um amigo brasileiro, ele fez um comentário segundo o qual o problema que enfermava a democracia da sua terra era o fanatismo dos cidadãos. De acordo com ele, os cidadãos brasileiros fazem política e apoiam seus partidos de forma acrítica e os defendendo incondicionalmente. Ouvir aquela lamentação deixou-me desesperado porque achei que aquela democracia da qual ele mencionava graves defeitos fosse evoluída, tal como as outras democracias ocidentais que nos inspiraram. Entretanto, o comentário que ele fez, também me fez perceber as deficiências da nossa democracia. Pelas evidências incontestáveis que o dia-a-dia não para de nos apresentar, a democracia moçambicana também não tem a qualidade desejável, justamente porque os actores políticos e, sobretudo, os membros e simpatizantes de partidos políticos são fanáticos. Mas o que é ser fanático? Bom, o dicionário da língua portuguesa diz que a palavra “fanático” refere aquela pessoa que se apaixona cegamente por uma religião, ideia ou partido. Apaixonar-se cegamente significa não questionar sobre os princípios e a coerência dessa religião, ideia ou partido, limitando-se apenas a segui-los. O fanatismo pode ser entendido também como adesão absoluta a uma ideia e emprego a todos os meios, mesmo os mais violentos para a impor. Assim, o fanatismo caracteriza-se pelo domínio e imposição aos outros de uma religião, ideologia ou convicção. Com essas características percebemos que qualquer tipo de fanatismo é perigoso. Ele pode ser a causa dos extremismos. Na ciência provoca ignorância, porque quem pensa que o que sabe é a verdade absoluta e inquestionável, nunca aprende, não evolui. Na religião o fanatismo faz pensar que a própria religião é perfeita e que é a única detentora da graça de Deus, a única verdadeira religião, a melhor religião em relação a todas outras religiões. Por isso, o fanatismo religioso provoca intolerância religiosa e violência. Podemos notar que a maior parte dos terrorismos são causados pela tentativa de pessoas fanáticas de impor sua religião aos outros. Na política o fanatismo estagna países, causa guerras, promove intolerância política e prejudica liberdades de pensamento e de expressão. Democracia doentia e consequências sociais O nosso país é constituído por um panorama de democracia ainda doentia porque ainda não aprendemos a conviver entre pessoas de partidos diferentes. Cada partido, junto com os seus militantes e simpatizantes, esforça-se a impor a sua verdade como a única. Por isso os conflitos são frequentes. Somos um país de guerras. Desde o meio rural a cidade, desde pessoas não intelectuais até as devidamente formadas, cultiva-se um fanatismo político triste. Com efeito, é o fanatismo que faz com que dois vizinhos de partidos diferentes não se dirijam palavra e se tratem como estranhos; é o fanatismo que faz com que directores de escolas ameacem seus professores caso se filiem a um partido diferente do recomendado; é o fanatismo que torna os partidos políticos inimigos e não apenas adversários políticos; é o fanatismo político que faz com que em tempos de campanha eleitoral, caravanas de partidos diferentes se violentem mutuamente; é o fanatismo que faz com que pessoas devidamente formadas e conscientes adiram a opções de viciação de resultados eleitorais; é o fanatismo político que faz com que esquemas de fraude sejam desenhados, quem pensa diferente seja morto, jornais, rádios e televisões sejam incendiados, jornalistas e académicos com opinião íntegra sejam ameaçados. O fanatismo captura a democracia e dificulta o fluir das liberdades. Temos que dizer que foi o fanatismo, enquanto afirmação absoluta de uma ideologia como sendo a mais verdadeira que as outras, que precipitou o nosso país desnecessariamente a uma guerra civil de longos 16 anos. O fanatismo torna as pessoas estúpidas. Fomos capazes de matar milhões de pessoas (ainda matamos) apenas porque discordávamos nas nossas políticas. Pertencer a qualquer partido político não é crime No estágio em que nos encontramos como um país de democracia em construção, devíamos entender que pertencer a qualquer que seja o partido político não é um crime. Expressar a própria opinião e a própria orientação política é um acto de liberdade e de direito humano. Quando um cidadão acha que o seu partido é o mais certo e obriga aos outros por meio da violência a concordarem com ele, investe sua força física e psíquica para provar que seu partido não comete erros e que está sempre certo, isso significa que esse cidadão está sendo fanático. O drama dos cidadãos fanáticos moçambicanos está no facto de eles pensarem que seus partidos, mesmo quando estão errados, eles estão sempre certos. Infelizmente temos em Moçambique muitos fanáticos militando partidos políticos. Há aqueles fanáticos que não querem que os erros de seus partidos sejam apontados. Quando alguém se atreve a apontar esses erros propondo soluções para a sua superação, insurgem-se. Mesmo contra factos, tentam fazer com que esses erros pareçam virtudes; mas também há aqueles fanáticos nos partidos que, movidos pelos seus interesses de ganhar simpatia, bajulam, divinizam quem tem poder e são capazes de atentar contra os direitos de qualquer um que colocar em causa a sua oportunidade de enriquecer. O mais triste em toda esta situação é que os fanáticos são jovens, supostamente lúcidos, formados, que pela sua tentativa de sobreviver encontram na filiação incondicional a um partido, sobretudo àquele que controla o poder, a oportunidade de encontrar e manter seu pão. Muitos deles, não são fanáticos por convicção, mas por necessidade de sobrevivência. Por falta de opções para se empregar, são capazes de fazer qualquer coisa, até mesmo de defender ideias partidárias indefensáveis, desde que isso garanta a sua sobrevivência. São estes que mais preocupam a democracia do nosso país, porque se acobardam na solução de seus interesses egoístas, alienando a construção de uma democracia genuína. O fanatismo trava o desenvolvimento Não precisamos de dizer que o fanatismo atrasa a democracia e o desenvolvimento porque toda a gente já tem domínio sobre isso. Contra uma autoridade conseguida e sustentada por fanáticos é difícil encontrar uma saída fácil. A certa altura, todos sabemos que estamos sendo fanáticos, mas
