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set 21 2026

O SONHO DE UM PAÍS QUE QUER VIVER EM PAZ

Por: Kant de Voronha Setembro chega sempre com uma luz diferente. Há um brilho maduro no céu, um calor que começa a regressar devagar, uma pressa da natureza em lembrar-nos que o ciclo agrícola está prestes a recomeçar. É um mês de preparação: o agricultor olha para o solo, sente a humidade, observa as nuvens que ainda tardam. É o mês das decisões; semeia-se esperança mesmo antes de semear o milho. Mas Setembro, para nós, com as mudanças climáticas, não é apenas o mês do agricultor. É também o mês das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), o mês em que o país pára por um instante para olhar para quem veste a farda e guarda a fronteira, para quem patrulha a madrugada, para quem protege povoações inteiras das ameaças que teimam em surgir, ora vindas da violência armada, ora do crime organizado, ora das tensões territoriais. E assim, sem qualquer exagero, Setembro torna-se o mês que une duas realidades essenciais para a sobrevivência do país: terra e segurança. Porque um país que não defende a sua terra não colhe o seu alimento. E um agricultor que vive com medo não consegue produzir nada além de ansiedade.   A agricultura é a espinha dorsal de Moçambique Todos repetem esta frase, mas poucos compreendem a sua profundidade. Não é apenas uma actividade económica; é uma cultura, uma identidade, um modo de existir. É da terra que vêm o pão, o emprego, a paz social, a economia familiar, a segurança alimentar e a dignidade de milhões de moçambicanos. Contudo, a agricultura ainda vive num estado de sobrevivência. Sobrevive ao clima imprevisível. Sobrevive às pragas e às cheias repentinas. Sobrevive à falta de insumos, de assistência técnica, de mercados estáveis. Sobrevive à distância entre a aldeia produtora e a cidade consumidora. Sobrevive às queimadas descontroladas, ao desmatamento, à erosão que engole campos inteiros. E, em alguns distritos de Cabo Delgado e Nampula, sobrevive também ao conflito armado, esse inimigo silencioso que destrói não apenas infra-estruturas, mas também a alma da comunidade. Setembro recorda-nos que a agricultura não precisa apenas de chuva. Precisa de paz. Precisa de protecção. Precisa de estabilidade. E é aqui que entra a ponte com as Forças Armadas. As Forças Armadas não guardam apenas fronteiras; guardam a soberania alimentar. Quando combatem o terrorismo no Norte, não estão apenas a defender quilómetros de terra — estão a proteger machambas, aldeias, famílias, mulheres que carregam lenha, crianças que caminham para a escola, jovens que querem apenas cultivar a vida. É impossível falar de agricultura em Moçambique sem falar de segurança. E é impossível falar de segurança sem reconhecer a importância das FADM no tecido social. O agricultor pode ter sementes, pode ter vontade, pode ter força; mas se não tiver paz, nada brota. A farda militar e a enxada agrícola, embora pertençam a mundos diferentes, são irmãs no propósito: ambas trabalham para a sobrevivência do país. Mas, apesar da sua importância, o agricultor continua sem apoios consistentes. A produção nacional não acompanha a demanda. A dependência de importações aumenta. A juventude rural migra para a cidade porque a terra já não parece prometer futuro. E o próprio país parece ter esquecido que o desenvolvimento sustentável começa com uma enxada, não com uma torre de vidro. Setembro obriga-nos a encarar uma verdade desconfortável: somos um país agrícola que não investe suficientemente na agricultura. E enquanto isso continuar, a fome ocasional, a inflação dos alimentos, a vulnerabilidade climática e a pobreza estrutural continuarão a ser companheiras de viagem. Mas Setembro também é um mês de esperança. A terra continua fértil. O povo continua trabalhador. E, mesmo diante das adversidades, há sinais de resistência: cooperativas que renascem, jovens que regressam à agricultura com tecnologias novas, projectos de irrigação comunitária, mulheres que lideram associações rurais, pequenos agricultores que inovam sem esperar por promessas governamentais. Ao mesmo tempo, as FADM vão-se profissionalizando, reestruturando, dialogando mais com as comunidades, reconhecendo que a defesa nacional não se faz apenas com armas, mas também com presença, proximidade e respeito pelo povo que protegem. E assim, este Setembro obriga-nos a pensar numa nova equação:   Como construir um país onde a terra esteja segura e o cidadão também? Uma agricultura fortalecida garante a paz social. Uma força armada preparada garante a estabilidade. E a estabilidade gera desenvolvimento. A grande pergunta que este mês nos deixa é simples, mas profunda: quando teremos coragem para assumir que a independência económica, a verdadeira, começa na terra e na segurança? Porque, se a independência política foi conquistada em 1975, a independência alimentar ainda está por conquistar. A independência económica ainda está por construir. E a independência social ainda está por lapidar.   E agora? O país não pode ficar eternamente dependente da chuva, nem eternamente dependente da ajuda externa. Precisamos de responsabilidade interna. Precisamos de uma gestão coerente. Precisamos de uma liderança capaz de transformar o solo produtivo em motor do desenvolvimento. E precisamos de paz — a paz que nasce não só do silêncio das armas, mas da presença visível de um Estado que protege, inclui e cuida. Setembro, com o seu misto de vento seco e esperança verde, lembra-nos que Moçambique tem duas grandes forças: o povo que cultiva e o povo que defende. Se estas duas forças caminharem juntas, não haverá fome que vença, não haverá crise que derrube, não haverá ameaça que destrua. Porque, no fim, a realidade é esta: sem uma agricultura forte, o país passa fome; sem uma segurança forte, o país perde a alma. Setembro é o mês que nos pede para unir as duas. E para acreditar que, juntas, podem transformar Moçambique num país verdadeiramente independente — da terra ao espírito.

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