set 03 2026
Crónica: Quando a autonomia se confunde com auto-suficiência
Giovanni Muacua Há um fenómeno silencioso que se vai instalando na nossa sociedade e que poucos ganham a coragem de discutir. Fala-se muito da emancipação feminina, da independência económica e da igualdade de direitos, que são conquistas legítimas e inegociáveis. Mas fala-se pouco dos excessos que, por vezes, acompanham essas conquistas. O problema não está na liberdade da mulher. O problema começa quando a liberdade é confundida com auto-suficiência e quando a independência financeira passa a ser entendida como licença para dispensar os valores que sustentam uma família. Há dias, num transporte semicolectivo, enquanto seguia para o trabalho, testemunhei uma conversa que me fez reflectir. Duas senhoras conversavam animadamente. Uma delas, aparentemente recém-formada na área da saúde, dizia à amiga: “Mana, estou cansada daquele homem. Assim que eu for colocada no Aparelho do Estado, nem me vou despedir dele. Simplesmente desapareço. Com o meu salário consigo alimentar-me”. A frase foi dita com orgulho, como quem anuncia uma grande conquista. O silêncio que se fez no interior da viatura foi revelador. Alguns passageiros trocaram olhares discretos. Ninguém respondeu. Mas todos pareciam compreender que aquela afirmação dizia muito mais do que as palavras pronunciadas. Aquela mulher certamente tem a sua história. Talvez tenha sofrido humilhações. Talvez tenha enfrentado desprezo ou violência. Não conhecemos a sua realidade e seria injusto julgá-la. Contudo, o seu discurso espelha uma mentalidade que se torna cada vez mais visível: a crença de que o emprego, o salário e a autonomia económica tornam dispensável o compromisso afectivo. É aqui que reside uma das grandes ilusões do nosso tempo. Vivemos numa sociedade que mede o sucesso pelas posses, pelo cargo ocupado e pelo saldo da conta bancária. Ensina-se a conquistar diplomas, empregos e património, mas ensina-se cada vez menos a cultivar relacionamentos, a resolver conflitos e a construir famílias sólidas. O resultado está diante dos nossos olhos: cresce o número de separações, aumentam os lares monoparentais, multiplicam-se pessoas que vivem rodeadas de conforto material, mas profundamente sós. Nem o salário mais elevado substitui o carinho de quem espera por nós em casa. Nenhum cargo elimina a necessidade de ser amado. O dinheiro compra medicamentos, mas não cura a solidão. Compra uma casa, mas não constrói um lar. Compra uma cama confortável, mas não garante um sono tranquilo quando a consciência pesa ou quando o coração sente falta de companhia. É curioso observar como algumas relações se transformam depois da estabilidade profissional. Existem casais em que o respeito dá lugar à competição. O diálogo cede espaço ao orgulho. Pequenos gestos de carinho deixam de existir. Já não se diz “boa viagem”, “cheguei bem” ou “até logo”. No entanto, uma relação não termina apenas por causa de grandes traições. Muitas vezes morre lentamente, sufocada pela indiferença, pelo orgulho e pela ausência de atenção aos pequenos detalhes. Muitos homens continuam a abandonar os filhos, a fugir às responsabilidades familiares, a exercer violência doméstica e a acreditar que o dinheiro lhes concede autoridade para humilhar a esposa. Muitos jovens já entram no namoro pensando mais na estabilidade financeira do que na estabilidade emocional. Casam-se sem aprender a dialogar. Separam-se sem tentar reconciliar-se. Trocam de parceiro com a mesma facilidade com que trocam de telefone. Não será por acaso que tantos sacerdotes, pastores e conselheiros matrimoniais recebem diariamente homens e mulheres que, apesar de possuírem emprego, casa e rendimento, confessam sentir um enorme vazio afectivo. O dinheiro resolveu muitos problemas materiais, mas não conseguiu preencher o coração. E talvez seja precisamente aí que muitos, homens e mulheres, estejam a pensar menos com o coração e mais com os joelhos: ajoelhados diante do dinheiro, do orgulho e da ilusão de que podemos viver sem precisar uns dos outros.
ECOLOGIA: TEMPO DA CRIAÇÃO 2026
Pe. Massimo Robol, mccj O Tempo da Criação é a celebração ecuménica anual que envolve cristãos de várias Igrejas e comunidades eclesiais para rezar e responder juntos ao clamor da Terra. A celebração começa a 1 de Setembro, considerado por algumas denominações cristãs como o Dia Mundial de Oração pela Criação e por outras como a Festa da Criação, e termina a 4 de Outubro, Festa de São Francisco de Assis. O tema do Tempo da Criação de 2026 é “Água viva”, e baseia-se na passagem do Livro do Profeta Ezequiel 47, 9-12. O tema, “Água Viva”, é inspirado numa visão bíblica de esperança e cura ecológica. No meio do exílio e de uma grande perda, a imagem da água viva que flui do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água e a biodiversidade, bem como a responsabilidade humana para com toda a criação. A visão de Ezequiel é, em última análise, de esperança; entrar no rio lembra-nos o baptismo. Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo, isto é, a cura de Deus, então “rios de água viva” também fluirão do nosso coração. À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura das outras pessoas e da criação. De facto, o Tempo da Criação é também um momento oportuno para a proximidade fraterna e a solidariedade com as pessoas vulneráveis e pobres, principalmente aquelas que sofrem com a degradação ambiental. Todavia, a visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas, 2,1 biliões de pessoas ainda não têm acesso a água potável segura. Isto representa uma em cada quatro pessoas no mundo! Com o aumento das alterações climáticas e o incremento da extracção de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica”, ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural. A crise hídrica afecta de forma desproporcional, sobretudo, as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e todas as formas de vida que não têm voz nos sistemas políticos ou económicos. O facto de subestimar a importância da preservação e da boa gestão da água traz consigo muitos desafios: o impacto na saúde das doenças transmitidas pela água contaminada; o impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios; o aumento do consumo de água impulsionado pela produção da energia necessária para as nossas actividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial; o impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar. Todos os cristãos são chamados a confrontar estes desafios e a rejeitar uma visão do mundo que trata a água como um recurso descartável, ou até mesmo como um produto que pode ser vendido com fins lucrativos. Torna-se fundamental promover a preservação, o uso responsável e a distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental. É assim que o Tempo da Criação se torna uma oportunidade para nos empenharmos na construção de um mundo mais justo e que dê vida a toda a família humana, bem como a toda a criação. Seria recomendável que também as lideranças religiosas fizessem um apelo público para denunciar a poluição prejudicial, e exigir que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água. Ao vencermos o medo e mergulharmos nas águas do amor de Deus, que possamos tornar-nos parte do Rio da transformação para o mundo, para testemunharmos a cura e a renovação da criação e a bênção da Terra. Entre no Tempo da Criação e visite o portal https://seasonofcreation.org/pt/, onde é possível encontrar material e ideias para participar da celebração.
set 01 2026
A CATEQUESE E A INCLUSÃO
Pe. Cantífula de Castro A missão do catequista vai além da transmissão de conhecimentos sobre a fé: ela envolve acolher e integrar todas as pessoas, reconhecendo a diversidade de experiências, capacidades e realidades presentes na comunidade. Em Moçambique, onde a diversidade cultural, linguística e social é vasta, a catequese inclusiva torna-se essencial para a construção de uma comunidade verdadeiramente cristã e participativa. A inclusão na catequese significa prestar atenção às crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, aos que vivem em contextos de vulnerabilidade ou marginalização social, e àqueles que, por diferentes razões, se sentem afastados da vida comunitária. O catequista deve ser um instrumento de atenção, paciência e acolhimento, garantindo que cada pessoa se sinta valorizada e capaz de crescer na fé. Outro aspecto importante é a sensibilização para a diversidade cultural e social. Compreender as tradições, línguas e costumes locais permite que a catequese seja significativa e relevante. A fé não deve ser ensinada de forma abstracta, mas sim ligada à vida quotidiana das pessoas, mostrando como os ensinamentos cristãos se manifestam na prática e na convivência diária. A catequese inclusiva também envolve a promoção da justiça, da solidariedade e do respeito mútuo, ensinando que a comunidade cristã é chamada a ser sinal de união e fraternidade, independentemente das diferenças. Ao agir desta forma, o catequista cumpre não apenas um papel educativo, mas também social e pastoral, fortalecendo a coesão da comunidade e inspirando uma fé viva e transformadora. Por isso, o actual tema desafia os catequistas a praticar a inclusão como expressão concreta do Evangelho, acolhendo cada pessoa com respeito e dignidade, e promovendo uma catequese que seja realmente participativa, diversa e humana, contribuindo para uma Igreja mais aberta, próxima das pessoas e fiel à mensagem de Cristo.
A CATEQUESE E A COMUNICAÇÃO DA FÉ NO MUNDO DIGITAL
Pe Cantífula de Castro No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé. A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. Portanto, este tema desafia os catequistas a integrar a tecnologia na missão evangelizadora, mantendo a essência do Evangelho e alcançando as pessoas onde elas se encontram hoje: no mundo digital. Com discernimento, criatividade e autenticidade, é possível transformar os desafios tecnológicos em oportunidades para crescer na fé e formar discípulos conscientes e comprometidos. No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé. A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. “Esta transformação histórica exige responsabilidade e discernimento para garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada para o bem comum, construindo pontes de diálogo e promovendo a fraternidade, e assegurando que ela sirva os interesses da humanidade como um todo.”. Papa Leão XIV
ago 20 2026
Educação e Saúde Mental
Por: Valentina Atthumpuha O mês de Agosto, marcado por pausas escolares, convivência familiar mais intensa e reflexões sobre o andamento do ano lectivo, é também um momento oportuno para olhar com atenção para um tema muitas vezes silenciado: a saúde mental das crianças e dos adolescentes. Em Moçambique, assim como em muitos outros países, cresce a preocupação com o bem-estar emocional dos mais jovens, cuja rotina escolar, desafios sociais, pressões familiares e influências tecnológicas podem gerar ansiedade, insegurança e sofrimento. Falar de saúde mental não é falar de “fraqueza”, nem de problemas exclusivos de adultos. Trata-se de reconhecer que todas as pessoas, em qualquer idade, precisam de apoio emocional, compreensão e orientação para lidar com dificuldades. O que está a acontecer com os nossos jovens? A realidade mostra sinais preocupantes. Nas escolas, aumentam relatos de conflitos entre alunos, agressões, isolamento, choro fácil, dificuldades de concentração e desmotivação. Muitos estudantes enfrentam perdas familiares, deslocações internas, pobreza, insegurança nas comunidades, além das pressões naturais da idade: mudanças físicas, comparações sociais, dúvidas sobre o futuro e incertezas académicas. A tecnologia, embora útil, trouxe consigo novos desafios. O tempo excessivo no telemóvel, a comparação constante com vidas “perfeitas” nas redes sociais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados podem gerar ansiedade, baixa auto-estima e até dependência digital. É um mundo atractivo, mas que exige maturidade emocional para ser usado com segurança. Sinais que não devem ser ignorados Nem sempre as crianças e os adolescentes conseguem explicar o que sentem. Muitas vezes expressam sofrimento através de comportamentos. Entre os sinais que merecem atenção destacam-se: a) Isolamento ou recusa em participar de actividades; b) Irritabilidade constante ou explosões de raiva; c) Tristeza prolongada e choro sem explicação clara; d) Queda brusca no rendimento escolar; e) Queixas frequentes de dores sem causa médica clara; f) Falta de energia ou desinteresse por coisas de que antes gostavam; g) Medo de ir à escola ou de enfrentar colegas; h) Mudanças nos hábitos de sono ou alimentação. Estes comportamentos podem ter diferentes causas e não significam necessariamente uma doença, mas indicam que algo não vai bem. O importante é que adultos responsáveis estejam atentos e disponíveis para conversar. A escola como espaço de apoio e protecção A escola não é apenas um lugar de aprendizagem académica. É também um espaço de convivência humana, onde se constroem amizades, se desenvolve identidade e se criam referências afectivas importantes. Por isso, tem grande impacto no bem-estar emocional das crianças. Um ambiente escolar positivo, em que os alunos se sintam valorizados e respeitados, reduz significativamente conflitos e ansiedade. Professores atentos podem identificar mudanças de comportamento e encaminhar para apoio adequado. Pequenas práticas fazem grande diferença: Saudar cada aluno com cordialidade; incentivar a participação sem pressão; evitar humilhações públicas; organizar actividades que promovam cooperação; criar momentos de escuta activa; reforçar a confiança nos alunos que têm dificuldades. Quando a escola transmite segurança e acolhimento, o aluno sente-se mais forte para enfrentar desafios. O papel da família no cuidado emocional A família é o primeiro espaço de protecção. Um lar onde as crianças podem falar livremente, ser ouvidas e respeitadas fortalece a saúde mental. Contudo, muitas famílias enfrentam dificuldades económicas, relações tensas ou rotinas pesadas, o que pode limitar o tempo e a paciência para lidar com questões emocionais. Não é necessário perfeição, mas sim presença. Algumas atitudes simples ajudam muito: i) Conversar diariamente, nem que seja por alguns minutos; ii) Perguntar como correu o dia, sem julgamentos; iii) Evitar comparar os filhos entre si ou com outras crianças; iv) Valorizar pequenos progressos e não apenas notas; v) Oferecer carinho e atenção mesmo diante de conflito. As crianças que se sentem amadas e compreendidas ganham maior confiança para enfrentar problemas. A importância de falar sobre sentimentos Muitas vezes, ensinar matemática, leitura ou ciências é considerado prioridade, enquanto educar emoções fica para segundo plano. No entanto, crianças que conseguem identificar e expressar sentimentos são mais capazes de resolver conflitos e gerir frustrações. A escola e a família podem incentivar momentos de partilha emocional: 1) Perguntar o que o aluno ou filho está a sentir; 2) Usar actividades de grupo para trabalhar empatia; 3) Ensinar que sentir tristeza, medo ou raiva não é errado; 4) Mostrar como resolver problemas com diálogo. Quando se normaliza a conversa sobre emoções, reduz-se o estigma e facilita-se o pedido de ajuda. Estratégias simples para fortalecer a saúde mental Mesmo em contextos com poucos recursos, existem práticas acessíveis que podem ajudar: a) Caminhadas e actividades ao ar livre; b) Jogos e brincadeiras que estimulem socialização; c) Horários de descanso adequados; d) Redução do uso de telemóveis antes de dormir; e) Leitura e actividades artísticas;f) Rotinas equilibradas de estudo e lazer. O equilíbrio entre o corpo e a mente é essencial para o desenvolvimento saudável. Quando procurar ajuda especializada Há momentos em que o apoio familiar e escolar não é suficiente. Quando o sofrimento se prolonga por semanas, afecta as actividades diárias ou envolve risco para a segurança da criança, é importante procurar ajuda de profissionais da psicologia ou da saúde mental. Quanto mais cedo for a intervenção, maiores são as chances de recuperação. Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. E todos: família, escola, comunidade e sociedade, têm um papel insubstituível nesta missão.
ago 18 2026
As lágrimas de Raquel e o Despertar da Paz
Por: Mónica Meque Vivemos em tempos difíceis e de desafios constantes, num mundo onde a esperança da paz e da tranquilidade humana tende a desmoronar-se a cada dia. As armaduras da pobreza, do terrorismo, das angústias, das incertezas, da xenofobia e de outros males que apoquentam a sociedade tendem a vergar incessantemente o povo moçambicano. As recentes informações que nos chegam da vizinha África do Sul esmagam o coração de muitas mulheres, de muitas mães que esperavam o seu marido, o seu filho ou filha, o seu sobrinho e o seu neto voltarem triunfantes do prometido Eldorado, carregados de molhos de espigas de uma abundante colheita. Mas, infelizmente, algumas delas têm de enfrentar o terrível drama de receber em lágrimas os corpos dos seus entes queridos. Face a esta situação, o que pode ainda fazer a mulher? A profecia de Jeremias, num dos seus versículos, relata-nos um episódio que vale a pena recordar: “Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem” (Jer 31,15). O cenário repete-se. As personagens mudam. Hoje, já não é Raquel; é a África, é uma outra pobre mulher que chora amargamente e de forma inconsolável. Hoje não são as tribos do Norte de Israel chacinadas pelos assírios; são filhos da mesma Mãe-África a perpetrarem atrocidades fratricidas. Violência após violência! Como fica o coração de uma mãe? A mulher vive, hoje, numa sociedade onde o choro de um irmão já não nos toca o peito, onde o abraço de esperança virou uma troca de moeda, onde a família e a sociedade em geral se transformaram em lugares de julgamento e exclusão. Somos os acusadores e os defensores do crime alheio; somos os donos da verdade. Porém, não conhecemos a paz. Um lar de paz e harmonia é o que toda a mulher deseja para a sua família. Mas o que seria essa paz? Falar da paz não significa necessariamente ausência de armas, guerras, conflitos, discussões ou atritos sociais e familiares, mas refere-se igualmente à observância da tranquilidade e da ordem em todos os aspectos: individual ou interior, social, político e religioso. Nenhuma mulher gosta de viver em ambientes de hostilidade. Ela é, por natureza, acolhedora, protectora, promotora e integradora de paz e solidariedade. Sabemos que o povo moçambicano viveu e vive momentos turbulentos, desafios de natureza política, social, económica, financeira, cultural e até mesmo religiosa. Ninguém escapa ao caos. Os preços dos alimentos de primeira necessidade não param de aumentar; sobre o combustível, esse nem se pode comentar; o filho tende a julgar e a desonrar os seus pais; os pais não assumem a responsabilidade de criar e educar os seus filhos; os cônjuges fogem da fidelidade; a globalização surge com mais poder de decisão sobre os valores sociais e éticos da sociedade; enfim, o desespero vai tomando conta de cada cidadão moçambicano. Aliado a isto, um exemplo concreto revelou-se na vida dos moçambicanos aquando das manifestações pós-eleitorais das últimas eleições gerais. O povo moçambicano viveu momentos de aflição e de tensão jamais vistos, onde o desespero e a insegurança eram o único sentimento e alimento diário, fazendo com que os corações se tornassem menos esperançosos e mais angustiados. Podemos ainda acrescentar a este exemplo os recentes actos xenófobos que aumentam a violência e o luto, minando a irmandade. Mas como buscar a paz? Como reacender a esperança? Antes de mais, é preciso compreender que a paz é o amor; a paz é uma responsabilidade individual e colectiva que o ser humano deve conhecer e cultivar todos os dias. Ela constitui a chave-mestra para o bem-estar social e económico de toda a sociedade. Não se pode somente falar e gritar sobre a paz e a união, sem buscar acções concretas e mecanismos eficazes para que elas se materializem. A paz exige, não só da mulher como também de todos, a humildade e o amor a Deus. Desde a simples mulher até às lideranças governamentais, é crucial conhecer, compreender e aceitar a paz, colocando-a como uma agenda indispensável e inegociável para o bem-estar socioeconómico de todos os moçambicanos e da Região Austral. A promoção da cultura do diálogo, da partilha, do acolhimento e do aperfeiçoamento da fé torna-se cada vez mais indispensável na vida dos moçambicanos. Outrossim, não menos importante, a luta pela erradicação da fome, da iliteracia, do desemprego, a provisão de serviços essenciais de saúde, água e saneamento constituem caminhos que nos levam à paz e à integração nacional e regional. Por fim, é tempo de compreender que somente cultivando e fomentando a paz, o homem e a mulher, o moçambicano, o sul-africano e o africano em geral podem ter uma vida saudável, impulsionar o amor ao próximo e promover um país de Direito, justiça social e democracia. Só assim se tornará evidente que a responsabilidade pela paz efectiva é tarefa de cada um de nós, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou cor partidária. Não importa onde e quando, o coração do ser humano deve estar recheado de sentimentos saudáveis que o levem à paz, e somente assim conseguirá viver em paz e transmitir ao próximo essa mesma paz. Só assim calaremos e limparemos as lágrimas de Raquel dos nossos dias.
ago 11 2026
CAIXA SOLIDÁRIA VIDA NOVA 2026
Pe. Sérgio Vilanculo A Vida Nova é uma revista socio-religiosa propriedade da Arquidiocese de Nampula, publicada sob a responsabilidade do Centro Socio-Pastoral Paulo VI de Anchilo e dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Fundada em 1 de Janeiro de 1960 pelos Missionários Portugueses da “Boa Nova” sob o nome de Boa Nova, a revista é dirigida desde 1971 pelos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, altura em que passou a denominar-se Vida Nova. A Vida Nova tem como principal objectivo a evangelização. Desde a sua criação, a revista procura formar e informar a sociedade moçambicana e, em particular, as lideranças cristãs sobre assuntos de interesse social e religioso, com o intuito de promover uma cultura de paz e justiça à luz da doutrina social da Igreja. É parte integrante desta missão educar os seus leitores para que se tornem cidadãos e cristãos convictos, incutindo-lhes o respeito pela diversidade social e religiosa. Os temas tratados sistematicamente na revista dizem respeito, substancialmente, à alegria, à esperança, aos desafios e ao caminho das comunidades cristãs no país. No que se refere às publicações, até à data, esta constitui a única revista católica impressa e distribuída a nível nacional. Trata-se de uma publicação mensal (12 números por ano) com formato A5, 32 a 36 páginas, capa a quatro cores e interior a preto e branco. Recentemente, a revista tem vindo a apostar na sua autossustentabilidade. Os seus assinantes têm colaborado com valores compreendidos entre 150 e 200 meticais, dependendo da sua localização geográfica, enquanto outros têm optado pela versão digital. Contudo, a relação entre a contribuição de cada assinante e as despesas reais ainda deixa muito a desejar. É neste âmbito que se insere a iniciativa denominada Caixa Solidária Vida Nova 2026. Esta acção visa criar uma rede de Benfeitores entre os leitores e simpatizantes da revista. A ideia central é que cada Benfeitor contribua com uma caixa de papel A3 — matéria-prima essencial para a nossa paginação e produção gráfica —, no período compreendido entre Agosto e Outubro. A meta é alcançar, pelo menos, 100 benfeitores. Cada caixa de papel custa aproximadamente 3.200,00 MT (três mil e duzentos meticais). Para que todos possam fazer parte desta missão, abrimos duas modalidades de participação: Benfeitor Pleno: Doação de uma caixa inteira (ou o valor correspondente de 3.200,00 MT). Co-Benfeitor: Doação de meia caixa (1.600,00 MT) ou qualquer outro valor livre que toque ao seu coração. O Benfeitor pode optar por depositar o valor numa das nossas contas ou fazer a entrega directa da caixa na nossa sede (Anchilo). Cada gesto garante um ano de esperança nas mãos de alguém. Para expressar o nosso agradecimento, cada Benfeitor (Pleno ou Co-Benfeitor) receberá a Revista Vida Nova (Impressa e Digital) em casa durante 12 meses, uma Agenda e um Calendário 2027 exclusivos, terá o seu nome mencionado na edição especial de Dezembro e receberá um Certificado Digital de Benfeitor. Ajude-nos a levar a Vida Nova mais longe e a chegar a mais comunidades onde o digital e a internet não chegam. Contribua via: M-Pesa: 85 048 5214 E-Mola: 86 538 5214 Titular da Conta: Cecília Constantino Após o envio, por favor mande o comprovativo para o número 86 121 4433 para entrar no grupo de Benfeitores.
ago 11 2026
Carta: Xenofobia: Protesto ou caça?
Caros amigos e leitores da revista Vida Nova! Escrevo-vos para partilhar uma questão que, a meu ver, é muito preocupante: a xenofobia na nossa vizinha África do Sul. Dói-me o coração ao ver certos vídeos e noticiários a respeito deste assunto. A última situação que vi, na qual sul-africanos munidos de paus e dísticos arrombavam a casa de supostos estrangeiros, chocou-me. A pergunta que não se cala em mim é a seguinte: isto é um protesto contra a imigração ilegal, como dizem, ou é uma caça desenfreada e furtiva a estrangeiros? Na minha humilde maneira de ver as coisas, condeno estes actos e acho-os desprezíveis e desumanos. O africano mata outro africano porque acha que o outro impede o seu crescimento. Mas ignoramos que as estrelas, apesar de serem milhares, conseguem brilhar todas, cada uma com o seu brilho próprio. E o que dizer do Governo? O Governo limita-se a afirmar somente que está a monitorizar a situação. A SADC nada faz e nem “o bico levanta”. Infelizmente, parece-me cada vez mais evidente que a vida de cidadãos africanos nada vale, primeiro aos olhos do mundo e, muito menos, aos olhos do próprio africano. Vozes de retaliação ouvem-se na Nigéria; outras vozes de condenação em Moçambique. Mas tudo é violência respondida por violência, rancores por rancores, indignação por indignação. Até quando?! Não há povo africano ou outro no mundo que não tenha sofrido antes ou que não sofra hoje; mas pensar que o brilho do outro ofusca o seu não dá a ninguém o direito de recorrer à violência. Mário Novais, Beira VN: Caro amigo Mário, a tua reflexão é pertinente e adequada aos tempos que estamos a passar. Esperamos que ela encontre o devido acolhimento junto dos demais leitores e que suscite não somente revoltas tempestuosas, mas também acções concretas em benefício dos irmãos que veem a sua vida ceifada ou transformada por esta situação. A vida não chega até nós Porquê é que não recebemos as revistas, quando já assinamos a Vida Nova? Armando Augusto Mutxaraimuali – Paróruia de Santa Teresa do Menino Jesus do Ilê VN: Caro amigo assinante! Para a Paróquia de Santa Teresa do Menino Jesus do Ilê, as revistas têm sido enviadas através dos Padres Dehonianos juntamente com outras revistas destas partes da Zamnbézia. As possíveis causas que podem estar por detrás podem ser o atraso no levantamento das mesmas por parte dos encarregados ou por outra razão alheia a nossa vontade.
Dom Osório Citora Afonso: um Evangelho vivido ao serviço da Igreja
Por: Kant de Voronha Há vidas que não precisam de longos discursos para serem compreendidas. Basta contemplar o caminho que percorreram, as pessoas que tocaram e a esperança que semearam. Assim foi a vida de Dom Osório Citora Afonso. O seu ministério episcopal não pode ser reduzido aos anos em que governou a Diocese de Quelimane, nem à dor provocada pela sua morte. A sua verdadeira grandeza encontra-se na forma como viveu o Evangelho e fez da sua vida uma escola permanente de comunhão, catequese e missão. A Igreja em Moçambique despede-se de um dos seus pastores, mas não perde o testemunho de um discípulo que acreditava profundamente que a evangelização continua a ser a primeira missão da Igreja. Dom Osório compreendia que uma comunidade só cresce verdadeiramente quando cresce na fé. Por isso, dedicou grande parte do seu ministério à formação dos cristãos, ao fortalecimento das comunidades e à valorização da catequese como fundamento da vida eclesial. Num tempo em que tantas pessoas procuram respostas rápidas para os problemas da humanidade, Dom Osório recordava-nos que a resposta mais profunda continua a ser Jesus Cristo. Era esta convicção que orientava a sua acção pastoral. Não procurava apenas organizar estruturas ou administrar instituições. Procurava formar discípulos. Sabia que uma Igreja forte não é aquela que possui muitos edifícios ou grandes recursos materiais, mas aquela que possui cristãos bem formados, conscientes da sua fé e comprometidos com a missão. Talvez por isso a palavra “catequese” ocupasse um lugar tão especial no seu coração. Para Dom Osório, a catequese nunca foi apenas um período de preparação para receber sacramentos. Era um verdadeiro caminho de encontro com Cristo, capaz de transformar a vida das pessoas e renovar as comunidades. Catequizar significava educar para a fé, formar consciências, despertar vocações, fortalecer famílias e construir uma sociedade iluminada pelos valores do Evangelho. Num mundo onde muitos baptizados conhecem pouco a riqueza da própria fé, o seu testemunho desafia-nos a devolver à catequese o lugar central que sempre ocupou na vida da Igreja. Uma comunidade que descuida a formação cristã corre o risco de possuir muitos fiéis, mas poucos discípulos. A evangelização começa precisamente quando o coração se deixa educar pela Palavra de Deus. Outro traço marcante do seu ministério foi a convicção de que a Igreja deve caminhar unida. Muito antes de a sinodalidade se tornar um dos grandes temas da vida eclesial contemporânea, Dom Osório já procurava viver este estilo de Igreja. Gostava de escutar. Valorizava o diálogo. Incentivava a participação dos leigos, dos religiosos, dos catequistas, dos jovens e das famílias na construção das comunidades. Compreendia que a Igreja não pertence apenas aos seus pastores, mas a todo o Povo de Deus, onde cada baptizado possui uma missão insubstituível. A sinodalidade não é apenas um método de organização pastoral. É uma espiritualidade. É aprender a caminhar juntos, a discernir juntos e a procurar juntos a vontade de Deus. Num tempo marcado por divisões, conflitos e individualismos, esta forma de viver a Igreja torna-se um verdadeiro sinal profético. Dom Osório acreditava que ninguém evangeliza sozinho. A missão pertence a toda a Igreja. Também a missão ocupava um lugar privilegiado na sua visão pastoral. Nunca concebia uma Igreja fechada sobre si mesma. A Igreja existe para anunciar Cristo. Existe para sair ao encontro das pessoas, sobretudo das mais pobres, das mais esquecidas e das mais afastadas da fé. Uma comunidade que deixa de evangelizar começa lentamente a perder a sua identidade. O Evangelho não foi dado para permanecer fechado nas sacristias, mas para ser anunciado em cada família, em cada escola, em cada hospital, em cada prisão, em cada aldeia e em cada cidade. É precisamente esta dimensão missionária que continua a desafiar a Igreja em Moçambique. Ainda existem muitas periferias humanas que esperam pela presença consoladora de Cristo. Ainda existem jovens à procura de sentido para a vida, famílias marcadas pelo sofrimento, crianças necessitadas de formação cristã e comunidades sedentas da Palavra de Deus. O maior tributo que podemos prestar à memória de Dom Osório será continuar esta missão com renovado entusiasmo. A morte violenta de Dom Osório Citora Afonso, ocorrida no Paço Episcopal de Quelimane, no dia 6 de Junho de 2026, provocou profunda consternação na Igreja e na sociedade. As circunstâncias deste acontecimento permanecem entregues ao trabalho das autoridades competentes. Contudo, para os cristãos, permanece uma certeza maior do que qualquer acto de violência: a vida daquele que serve fielmente Cristo não termina com a morte. O testemunho continua vivo nas comunidades que edificou, nas vocações que incentivou, nos catequistas que formou e nos fiéis que ajudou a aproximar-se de Deus. As novas gerações necessitam de conhecer testemunhos como o de Dom Osório. Vivemos numa época em que abundam influenciadores digitais, mas escasseiam verdadeiras referências espirituais. A juventude precisa de homens e mulheres que mostrem, pela própria vida, que a santidade continua a ser possível. Dom Osório ensinou precisamente isso. A santidade constrói-se na fidelidade quotidiana, na simplicidade do serviço, na escuta da Palavra de Deus e no amor incondicional pela Igreja. O seu legado não pode permanecer apenas na memória afectiva daqueles que o conheceram. Deve transformar-se num compromisso pastoral. Cada catequista que prepara uma criança para encontrar Cristo, cada sacerdote que anuncia o Evangelho com dedicação, cada religioso que serve os pobres, cada jovem que responde generosamente à vocação e cada família que educa os seus filhos na fé prolonga a missão que Dom Osório abraçou com tanto amor. A Igreja em Moçambique possui hoje a responsabilidade de preservar esta herança espiritual. Não através de monumentos ou homenagens ocasionais, mas vivendo aquilo que ele acreditava: uma Igreja verdadeiramente sinodal, onde todos caminham juntos; uma Igreja profundamente catequética, onde a fé é constantemente formada; e uma Igreja essencialmente missionária, que nunca se cansa de anunciar Jesus Cristo. No Evangelho, Jesus afirma que a árvore conhece-se pelos seus frutos. Os frutos deixados por Dom Osório Citora Afonso permanecem vivos na fé de tantas comunidades, no entusiasmo de muitos catequistas, na
ago 04 2026
CRÓNICA: ENTRE PAREDES DE HOSPITAIS
Vukani Maxakha Estar doente nas nossas bandas tornou-se cada vez mais complicado. Outro dia, um vizinho ficou gravemente doente e precisávamos de o levar ao hospital. Mas como tirá-lo daquele beco sem ruas? Ele vivia no fundo dos becos da nossa banda, onde as ruelas não permitem a passagem nem de um carro nem de uma mota; acho que até uma mulher grávida de seis ou mais meses teria dificuldades sérias para passar por lá. Fazê-lo sair daqueles becos não foi nada fácil. Ter acesso aos serviços de saúde ficou ainda mais difícil. Outra vez, fui ao Hospital Central de Nampula para visitar o pai de um amigo que diziam estar internado lá, há três dias. Já fazia tempo que não entrava nas instalações daquela instituição sanitária, uma das maiores e de referência nacional. Informei-me pelas indicações dispostas no hospital e dirigi-me para onde, provavelmente, estaria o paciente que teria de visitar. Para meu espanto, quando cheguei à enfermaria, parecia estar a entrar num mercado: pacientes e visitantes em todo e qualquer canto, nas camas e nos corredores; não havia sequer lugar para nos deslocarmos. Aí me perguntei: como é que os pacientes podem recuperar-se bem naquele estado? Por outro lado, como é que os médicos e o resto da equipa médica podem dar conta do recado naquelas condições? É mesmo um milagre sobreviver em tais circunstâncias. Daí veio-me à mente um texto lindo, de um autor desconhecido, que passo a apresentar: “Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que igrejas, já viram despedidas e beijos mais sinceros do que aeroportos. É no hospital que você vê um homofóbico sendo salvo por um médico homossexual, uma médica “patricinha” salvando a vida de um mendigo. Na UTI, você vê um judeu cuidando de um racista, um paciente policial e outro, presidiário. Na mesma enfermaria, ambos recebem os mesmos cuidados. Um paciente rico na fila de transplante hepático, pronto para receber um órgão de um doador pobre. É nessas horas que o hospital toca na ferida das pessoas, que universos se cruzam com um propósito e, nessa comunhão de destinos, nos damos conta de que sozinhos não somos ninguém. A verdade absoluta das pessoas, na maioria das vezes, só aparece no momento da dor ou da ameaça real da perda definitiva. O hospital é o local onde os seres humanos se desnudam das suas máscaras e se mostram como são na sua verdadeira essência. Esta nossa vida passa rápido, não brigue com as pessoas em vão. Não critique tanto o seu corpo, não reclame. Não perca o seu sono, nem deixe que lhe tomem a paz. Não deixe de beijar os seus amores, não se preocupe tanto. Ame o seu Deus, a sua família, os seus amigos. Ore/reze por aqueles que você imagina não merecer. Bens e patrimónios devem ser conquistados por cada um, não se dedique a acumular herança. Espera-se muito o Natal, a sexta-feira, o outro ano, quando tiver dinheiro, quando o amor chegar, quando você achar que tudo será perfeito. Na realidade, não existe nada perfeito. O ser humano não consegue atingir isso porque, simplesmente, não foi feito para se completar aqui… Aproveite e ame mais. Perdoe mais. Abrace mais. Viva mais intensamente. E deixe todo o resto na mão de Deus!” Os parágrafos deste texto de origem desconhecida são tão profundos que nos deixam a reflectir. Como não fazer preces sinceras se estás entre a vida e a morte? Naquelas condições, cada paciente, além do alto risco de contagiar os outros, corre também o mesmo risco de ser contaminado por eles. Isto é desumano. Gritam as paredes, mas quem as escuta? Elas não fazem mais do que murmurar silenciosamente, e o seu ruído só é sentido pelos pacientes. Cá entre nós! Digamos de passagem. Parece brincadeira, mas esta situação pode tirar alguém do sério. Enquanto, de um lado, o hospital está superlotado como o mercado de Waresta, do outro lado temos as instalações do novo hospital provincial, inacabado e abandonado há tempo. É doloroso e triste ver o povo sofrendo e mal acomodado, e um bando de executivos de gravatas, responsáveis pela má gestão das obras, circulando por aí impunemente. Infelizmente, esta moda está a pegar na Pérola do Índico: escolas, hospitais, pontes, etc., que se começam, mas nunca se concluem. As paredes daqueles edifícios guardam muitas memórias. Apesar das condições precárias de trabalho, os hospitais também guardam lindas memórias de profissionais dando o seu melhor para salvar mais uma vida, ou de profissionais chorando e culpando-se por não poderem salvar mais vidas. Na verdade, se nestas situações é difícil ser um paciente, é ainda mais difícil ser um profissional de saúde nestes casos. Falou o velho de olhar penetrante!


