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Archive for vidanova

jun 26 2026

UM PAÍS QUE AINDA PROCURA A SUA VERDADEIRA INDEPENDÊNCIA

Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a olhar mais fundo para nós mesmos, e Junho é um desses meses. É o mês em que o país se veste de cores infantis, de danças escolares, de poesias ensaiadas em salas sem carteiras, de bonecas feitas de capulana velha. Mas é também o mês em que a bandeira se levanta mais alto, recordando um dia longínquo, 25 de Junho de 1975, quando Moçambique proclamou ao mundo que queria ser dono do seu destino.   Passaram-se cinquenta e um anos. Meio século de busca, de quedas e recomeços, de esperanças repetidas, de feridas cicatrizadas que não desaparecem, e de uma juventude que já nasceu livre, mas que, contraditoriamente, ainda vive amarrada a condicionamentos que a independência política não conseguiu resolver. Entre estes dois símbolos, a criança e a bandeira, está a nossa história recente, com as suas promessas cumpridas, promessas adiadas e promessas traídas. Junho é o espelho duplo da nação: de um lado, a fragilidade; do outro, a possibilidade.   Uma metáfora e um diagnóstico Tem o rosto da esperança, mas carrega o peso da pobreza estrutural que ainda persiste. Em muitas zonas, a infância começa cedo demais e termina rápido demais. Começa aos três anos, quando já se aprende a carregar água na cabeça; termina aos dez, quando se entra num mercado informal para ajudar a sustentar a casa. Sonha-se ser professor, enfermeira, piloto, jornalista mas acorda-se, muitas vezes, num país onde a escola ainda não é um porto seguro, onde faltam professores motivados, carteiras minimamente dignas ou livros que cheirem a futuro.   Mistura inquieta entre o sonho legítimo e a carência imposta O Dia da Criança serve, portanto, não para entregar bolachas embrulhadas em eventos formais, mas para nos perguntar que tipo de país estamos a construir para elas: Um país que promete educação de qualidade, mas deixa escolas sem condições? Um país que proclama direitos da criança, mas continua a tolerar casamentos prematuros? Um país que organiza desfiles escolares, mas ainda falha na nutrição, na saúde e na protecção social? Se as crianças são o futuro, a pergunta que Junho nos coloca é simples: que futuro um país oferece quando o presente falta?   Mas Junho também é Independência, um daqueles marcos que não se celebra por hábito, mas por consciência histórica. O país que conquistou a independência política em 1975 ainda não encontrou, por completo, a sua independência económica e social. E isso não é segredo: é visível nos indicadores, nas ruas, na desigualdade, na dependência de doadores externos, no comércio dominado por forças externas, nos mercados de trabalho frágeis e, sobretudo, na dificuldade de transformar recursos naturais em riqueza para o povo.   A independência não termina quando se baixa uma bandeira estrangeira. A independência só se cumpre quando um povo consegue orientar-se pelas suas próprias capacidades. E aqui surge o grande dilema moçambicano: como é que um país tão rico em recursos permanece com tanta gente pobre? A resposta é complexa, mas não é impossível de compreender: décadas de conflitos, fraca industrialização, corrupção sistemática, instabilidade em algumas regiões e um sistema económico que não foi desenhado para fortalecer o pequeno produtor, o trabalhador urbano ou o jovem empreendedor.   A pergunta de Junho, mais profunda do que parece, é esta: Se não conquistarmos a independência económica e social, o que comemoraremos daqui a mais cinquenta anos? A independência política é como uma porta aberta. A independência económica é o caminho. A independência social é o destino. E o destino do país deve ser traçado com a mesma seriedade com que se protege uma criança, porque o futuro da nação é literalmente o rosto delas.   Se há algo que estes 51 anos nos ensinaram, é que um país não cresce apenas com discursos, cresce com trabalho, com justiça social, com instituições credíveis, com políticas coerentes, com uma cidadania activa e com a coragem de enfrentar os nossos próprios erros. A independência verdadeira não é uma lembrança histórica, mas uma construção diária. Se o país alcançar estes dois níveis de emancipação, então sim, poderemos dizer que Junho é uma celebração completa e não apenas um ritual anual.   E voltamos às crianças, porque elas são a medida exacta do que fazemos bem e do que continuamos a falhar. Se um país é capaz de abrir caminhos para que cada criança se transforme em cidadã plena, então esse país está no rumo certo. Mas se a infância é marcada pela privação, pela violência, pela exclusão e pela ausência de oportunidades, então a independência continuará incompleta.   Por isso, Junho não é apenas festa. É uma convocatória. Convoca-nos a assumir responsabilidades, a olhar para a nação com honestidade, a reconhecer que 51 anos é tempo suficiente para perceber que o problema não é a falta de talento do povo, mas a falta de estruturas que o permitam florescer. Convoca-nos a perguntar, sem medo: estamos a construir um país onde as crianças poderão celebrar, um dia, uma independência que não seja apenas política? Porque a verdadeira independência — a que transforma a vida das pessoas, a que rompe os ciclos de pobreza, a que gera oportunidade e dignidade, essa ainda está em construção. E cada Junho deveria lembrar-nos disso.

jun 25 2026

51 Anos depois: Da pobreza à extrema pobreza

Por: Deolindo Paúa Um dos motivos que encorajou jovens e velhos a começar uma guerra de libertação era a desigualdade imposta pelo colono ao moçambicano. Essa situação gerava profundas injustiças no nosso território. Resumidamente, a injustiça era a causa principal da luta pela independência. A chegada da independência, em 1975, criou no seio dos moçambicanos a esperança de que aquele obstáculo ao desenvolvimento humano estava ultrapassado. Acreditava-se que começava uma nova era: a era da inclusão. Hoje, voltados 51 anos, quase todos os estudos sobre o estágio de desenvolvimento de Moçambique colocam-no na dianteira da extrema pobreza. A causa é exactamente a mesma que conduziu à luta: as desigualdades. A desigualdade imposta pelo colono foi substituída pela desigualdade imposta pelos nossos próprios irmãos, que mais tarde assumiram o poder. Meio século depois ainda somos os mais pobres Quem acompanha a história de Moçambique pode constatar dois cenários que perturbaram a sua evolução. O primeiro foi a guerra civil que, além de ceifar vidas, retraíu o investimento e a confiança internacional. O segundo foi uma sucessiva governação antipatriótica, que fundou e solidificou a corrupção e o nepotismo, sobretudo depois de 1987. Uma análise rápida desse cenário permite concluir que, com a independência, a elite opressora colonial foi literalmente substituída por uma elite corrupta em termos económicos. Esta elite entendeu Moçambique como sua propriedade privada. Por isso, concluiu que tinha primazia sobre os recursos do país. Este modo de ver o novo Moçambique eliminou a inclusão. Infelizmente, esta percepção continua a orientar os sucessivos processos de governação. Moçambique, que deveria ser uma conquista de todos os moçambicanos, continua a ser visto, dentro e fora, com a imagem que uma elite vendeu por décadas: a de que é conquista de apenas alguns patriotas. Esta tem sido a causa dos conflitos sociais e políticos recentes. Vemos jovens que se querem afirmar política e economicamente contra uma elite historicamente constituída. A ideologia segundo a qual Moçambique pertence a uma minoria consolidada unilateralmente faz com que, 51 anos depois, continuemos num círculo vicioso interminável: entre a pobreza da crescente maioria e a prosperidade da mesma minoria. A causa da pobreza é fundamentalmente a desigualdade Há alguns dias, mais um relatório do Banco Mundial colocou Moçambique na segunda posição entre os países mais pobres do mundo. Mais uma vez, a informação soou como um escândalo. Não apenas porque o nosso país se encontra numa fase adulta, em que deveria ter consolidado a sua economia, mas sobretudo porque Moçambique é actualmente um palco de exploração multimilionária de recursos naturais diversos e de financiamentos externos. Entre as causas está, uma vez mais, a desigualdade profunda e cada vez mais acentuada entre os extremamente ricos e os extremamente pobres. Esta constatação, que não é nova, reforça a ideia de que a nossa pobreza não é motivada pela insuficiência de recursos. Ela é fruto dos problemas da sua distribuição, que privilegia sempre as mesmas pessoas. Há quem diga que esta conclusão tenha objectivos obscuros do o Banco Mundial, tal como sempre se afirma, mas independentemente de tais posições, os factos são confirmados por vários estudos domésticos. A título de exemplo, o relatório do Observatório do Meio Rural (OMR) de Fevereiro de 2022, sobre os ingredientes da revolta juvenil, indica as desigualdades e a injustiça na distribuição de oportunidades como uma das prováveis causas da facilidade do recrutamento de jovens nas acções terroristas em Cabo Delgado. Igualmente, o Instituto Nacional de Estatística (INE), no seu último Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) em 2022, indicou que, apesar do crescimento de Moçambique, as grandes diferenças geográficas de desenvolvimento prevalecem e as assimetrias se aprofundam, continuando o meio rural mais pobre e as cidades mais prósperas, as periferias mais precária e as zonas de cimento em evolução constante. Estes dados comprovam que nenhum crescimento será capaz de criar desenvolvimento se as políticas públicas continuarem a privilegiar com recursos e oportunidades apenas determinadas pessoas e regiões geográficas. A política, que deveria ser um serviço público e patriótico, foi transformada em autovergonhoso auto-serviço. Tornou-se uma oportunidade para o enriquecimento duvidoso a partir de recursos vida dos mais pobres. Sem esforços para mudar o cenário O pior é que todos nós, incluindo quem governa, sabemos desta situação e conhecemos as suas soluções. Contudo, não se vê esforço para mudar. Os indicadores de pobreza são anunciados com recorrência por vários estudos de várias entidades. No entanto, ao invés de se ocupar de políticas que corrijam tais indicadores com as técnicas adequadas, financia-se a produção de teorias para discutir se a nossa pobreza é verdadeira ou inventada. Somos mais ágeis em negar a pobreza do que em combatê-la. Contudo, mesmo sem estes relatórios, ditos tendenciosos, a nossa pobreza tem sinais objectivos: falta de emprego, prevalência da fome, falta de água potável e dificuldade do Estado em prover recursos para o seu próprio financiamento e funcionamento. Estes sinais têm soluções técnicas claras: descentralizar as oportunidades e garantir que todos tenham as mesmas condições de acesso aos recursos de sobrevivência e de desenvolvimento. É necessário eliminar as práticas governativas que insistem em dar recursos a quem não precisa deles para sobreviver, mas apenas para o luxo. Num país como o nosso, não faz sentido que pessoas que governaram e se aproveitaram do Estado para erguer impérios tenham, ainda, primazia nas regalias. Esse direito deve pertencer àquelas que precisam do básico, como uma escola para estudar e um hospital para tratar da saúde. Regalias para os ricos são uma ofensa para os pobres. Se para ter o básico para sobreviver se exige uma pertença obrigatória a um partido que supõe distribuir as oportunidades, então estamos a replicar as políticas coloniais. Se assim for, o processo que nos levou à independência é nulo.

jun 23 2026

Leão XIV: Um Ano de Pontificado ao Serviço da Paz, da Justiça e da Esperança

Por: Pe. Cantífula de Castro Ao completar o seu primeiro ano de pontificado (a 08 de Maio), o Papa Leão XIV começa a consolidar uma identidade pastoral marcada pela proximidade humana, pela defesa da dignidade dos povos e pela insistência numa Igreja socialmente comprometida com as dores do mundo contemporâneo. Num cenário internacional atravessado por guerras, crises económicas, deslocamentos humanos, tensões culturais e crescente fragilidade moral, o novo Papa tem procurado reafirmar a missão da Igreja Católica como presença espiritual, mas também como consciência ética da humanidade. O centro da acção pastoral Desde o início do seu ministério petrino, Leão XIV escolheu colocar a paz no centro da sua acção pastoral. A expressão “paz desarmada e desarmante”, repetida em diversos discursos, tornou-se uma síntese do seu pensamento sociopastoral. Para o Papa, a paz não pode ser reduzida à ausência de conflitos militares. Ela nasce da justiça, da inclusão social, do respeito pela dignidade humana e da capacidade de diálogo entre povos e culturas. Neste primeiro ano, o pontífice demonstrou uma atenção particular às populações vulneráveis. Os seus pronunciamentos sobre os migrantes, os refugiados, as vítimas da guerra e os pobres revelam uma clara continuidade com a Doutrina Social da Igreja. Contudo, Leão XIV tem procurado dar um tom próprio ao seu magistério: menos centrado apenas na denúncia e mais orientado para a reconstrução moral das sociedades. Em várias intervenções, alertou para aquilo que considera ser uma das grandes crises do século XXI: a perda do sentido comunitário. Segundo o Papa, o individualismo económico, a cultura do descarte e a indiferença social estão a destruir lentamente os vínculos humanos e espirituais que sustentam a convivência pacífica entre os povos. Por isso, insiste frequentemente numa “pastoral da proximidade”, capaz de colocar a Igreja junto das feridas concretas da humanidade. Abandono da lógica da força O terrorismo, as guerras regionais e as tensões geopolíticas também ocuparam espaço significativo no seu pontificado. O Papa apelou repetidamente ao abandono da lógica da força e criticou a transformação da economia mundial numa estrutura frequentemente subordinada à indústria armamentista e aos interesses financeiros globais. Na sua perspectiva, não haverá paz verdadeira enquanto milhões de pessoas continuarem excluídas do acesso à alimentação, educação, saúde e trabalho digno. No campo pastoral, Leão XIV tem defendido uma Igreja menos burocrática e mais missionária. Tem incentivado os sacerdotes, religiosos e leigos a assumirem uma presença activa nas periferias sociais e existenciais. A evangelização, segundo o Papa, não deve limitar-se aos espaços litúrgicos tradicionais; deve alcançar os ambientes de sofrimento humano, exclusão social e crise moral. Juventude e diálogo inter-religioso A juventude também ocupa um lugar importante na sua visão pastoral. O Papa considera os jovens não apenas destinatários da missão evangelizadora, mas protagonistas da transformação social e espiritual do mundo contemporâneo. Em várias ocasiões, apelou à formação ética, intelectual e espiritual das novas gerações, alertando para os perigos da manipulação digital, da cultura da superficialidade e da perda de referências humanas sólidas. Outro aspecto relevante do seu primeiro ano de pontificado foi a defesa constante do diálogo inter-religioso. Leão XIV entende que a religião não pode servir de instrumento de divisão ou violência. Pelo contrário, acredita que as tradições religiosas possuem uma responsabilidade histórica na promoção da reconciliação, da solidariedade e da fraternidade universal. No fundo, o primeiro ano do Papa Leão XIV revela um pontificado profundamente sociopastoral. A sua proposta não é apenas espiritual no sentido estritamente religioso, mas também ética, humana e civilizacional. O Papa procura recordar ao mundo que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante da pobreza, da injustiça, da violência e da exclusão. Num tempo marcado pela instabilidade global, Leão XIV apresenta-se como uma voz que insiste na esperança, na responsabilidade colectiva e na necessidade de reconstruir os fundamentos humanos da convivência social. O seu pontificado ainda está no início, mas já demonstra uma clara intenção de colocar a Igreja ao lado dos que sofrem e de reafirmar o Evangelho como caminho de paz, justiça e dignidade para todos os povos.

jun 16 2026

CRÓNICA: DA INDEPENDÊNCIA ÀS FRALDAS

Por: Giovanni Muacua Ao contemplarmos a realidade actual, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: estaremos verdadeiramente independentes em Moçambique? A independência política foi conquistada em 1975. Contudo, a independência económica, social e moral continua distante para muitos cidadãos. O país possui enormes riquezas naturais: gás natural, carvão mineral, rubis, ouro, grafite, madeira e terras férteis. Apesar disso, a maioria da povo continua mergulhada na pobreza. Aqui tudo falta-nos. A riqueza do país não beneficia que a uma minoria. Samora Machel alertava para o perigo do “inimigo interno”, um colonizador negro revestido de pele moçambicana. Hoje, muitos cidadãos sentem que essa profecia se tornou realidade. Expulsou-se o colono estrangeiro, mas nasceram novas formas de opressão dentro do próprio país. A diferença é que agora o explorador fala a mesma língua, vive no mesmo território e carrega a mesma bandeira. A corrupção tornou-se uma das maiores ameaças à verdadeira independência nacional. Recursos destinados ao povo desaparecem misteriosamente. Dinheiros públicos são desviados enquanto hospitais não possuem medicamentos básicos e escolas funcionam sem carteiras nem livros. Multiplicam-se os escândalos financeiros, mas poucos são responsabilizados. A justiça parece forte contra os pobres e fraca diante dos poderosos: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressoras, para negarem justiça aos pobres” (Is 10,1-2). O sofrimento do povo agrava-se diante da subida constante do custo de vida. O preço do combustível aumenta frequentemente. Isto afecta os transportes públicos, os produtos alimentares e os serviços básicos. Em consequência, o cidadão comum perde cada vez mais o poder de compra. Muitas famílias já não conseguem garantir três refeições por dia. Jovens licenciados permanecem anos sem emprego, enquanto vagas são atribuídas por influência ou corrupção. Na esfera profissional, tornou-se comum ouvir denúncias de concursos públicos manipulados. Os vencedores já são conhecidos antes mesmo da abertura oficial das candidaturas. O mérito perde espaço para o nepotismo e para o clientelismo político. O cidadão trabalhador e honesto sente-se desmotivado. Ele percebe que o esforço nem sempre é valorizado: “Ai daqueles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça” (Am 5,7). Há uma crescente onda de desigualdade social. Enquanto alguns acumulam fortunas e vivem em luxo exagerado, milhares de famílias vivem em bairros sem saneamento, energia eléctrica ou segurança. Crianças estudam sentadas no chão. Mulheres percorrem kilómetros em busca de água. Doentes morrem por falta de assistência médica adequada. Esta realidade contradiz os ideais pelos quais tantos moçambicanos lutaram durante a guerra de libertação. Além disso, Moçambique enfrenta graves desafios de segurança. O terrorismo em Cabo Delgado continua a provocar mortes, deslocamentos populacionais e destruição de comunidades inteiras. Milhares de famílias perderam casas, bens e familiares. Crianças crescem longe da escola e da estabilidade familiar. O medo e a incerteza passaram a fazer parte da vida de muitos moçambicanos. A crise moral também se faz sentir em vários sectores da sociedade. Na política, muitos dirigentes preocupam-se com interesses partidários do que em servir o povo, promovem-se divisões, intolerância e discursos manipuladores. O povo é frequentemente usado como instrumento para alcançar ou manter o poder: “Os seus chefes julgam por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,11). Na esfera religiosa surgem igualmente sinais preocupantes. Cresce o número de líderes religiosos que transformam a fé em negócio. Em vez de promoverem a justiça, a verdade e a solidariedade, exploram emocionalmente os fiéis em busca de riqueza e prestígio pessoal. Há mais preocupação com ofertas e contribuições financeiras do que com o sofrimento humano. A religião, que deveria ser fonte de esperança e transformação social, por vezes torna-se instrumento de manipulação: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). Perante tudo isso, muitos cidadãos perguntam-se: Que independência celebramos? Será apenas independência territorial e política? Ou deveríamos lutar também pela independência da fome, da corrupção, da injustiça e da pobreza? A verdadeira independência deve traduzir-se em dignidade humana, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos fundamentais e compromisso sincero com o bem comum. Enquanto persistirem o abuso do poder, a corrupção, a manipulação política, o nepotismo, a hipocrisia, a injustiça social e a indiferença diante do sofrimento do povo, a independência continuará incompleta: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm vestidos de ovelhas” (Mt 7,15). Moçambique precisa urgentemente de uma nova consciência nacional, baseada na honestidade, no patriotismo, na solidariedade e na responsabilidade colectiva. O país não mudará apenas com discursos políticos nem com celebrações festivas. A mudança exige líderes comprometidos com a verdade e cidadãos activos na defesa da justiça e do bem comum. Celebrar a independência nacional significa renovar o compromisso de construir um país onde haja justiça, paz, oportunidades e dignidade para todos.

HOMENAGENS DESTACAM LEGADO DE FÉ, PAZ E SERVIÇO DE DOM OSÓRIO CITORA

Mensagens de familiares, Missionários da Consolata, comunidade cristã e autoridades marcaram a celebração de despedida de Dom Osório Citora Afonso, realizada este sábado na Sé Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula. Em nome da família, foi recordado o percurso de vida de Dom Osório como um homem de fé, simplicidade, humildade e dedicação ao povo de Deus. Os familiares afirmaram que a sua partida deixa uma dor profunda, mas também um legado de paz, esperança e serviço que continuará vivo entre aqueles que com ele conviveram. Os Missionários da Consolata destacaram Dom Osório como um missionário alegre, próximo das comunidades e profundamente apaixonado pela Palavra de Deus. Recordaram igualmente o seu compromisso com a reconciliação, a paz e a missão evangelizadora, valores que marcaram toda a sua vida sacerdotal e episcopal. Por sua vez, o Governo da Província de Nampula considerou Dom Osório um património de todo o povo moçambicano, sublinhando que o seu testemunho de amor ao próximo, humildade e serviço permanecerá vivo na memória da Igreja e da sociedade. As homenagens convergiram numa mesma mensagem: a vida de Dom Osório foi interrompida pela violência, mas o seu legado continuará a inspirar gerações.

“NÃO BASTA ESCLARECER O CASO DOM OSÓRIO, É PRECISO COMBATER A VIOLÊNCIA PELA RAIZ”

A celebração de despedida de Dom Osório Citora Afonso, realizada este sábado na Sé Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula, ficou marcada por um forte apelo à paz e ao respeito pela vida humana. Na homilia, o Arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saúre, classificou o assassinato do bispo de Quelimane como um acto bárbaro e afirmou que o caso se insere numa preocupante onda de violência que continua a atingir Moçambique. Perante milhares de fiéis e diversas autoridades, Dom Inácio recordou que os autores do crime apenas conseguiram matar o corpo de Dom Osório, mas não poderão apagar o seu testemunho de fé, missão e serviço. O prelado destacou ainda que a morte do bispo deve servir de reflexão para toda a sociedade, defendendo que não basta esclarecer apenas este caso, mas que é necessário combater as causas profundas da violência e da cultura da morte no país. O Arcebispo de Nampula apresentou Dom Osório como um pastor fiel ao Evangelho, comprometido com a paz, a reconciliação e a promoção da dignidade humana. No final, apelou para que Moçambique ponha fim aos assassinatos de homens e mulheres de bem e transforme esta tragédia num ponto de viragem para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica.

jun 04 2026

Junho em Moçambique: Celebrações, História e Patriotismo

O mês de Junho possui um profundo significado histórico, político, económico, social e religioso para Moçambique. Trata-se de um período marcado por celebrações nacionais, datas comemorativas de elevado valor simbólico e acontecimentos ligados à memória colectiva que carecem da nossa recordação nesta edição. 1 de Junho — Dia Internacional da Criança: Uma ocasião dedicada à promoção e defesa dos direitos da criança. A data chama igualmente a atenção para desafios persistentes, como o acesso à educação, nutrição, saúde e protecção infantil. 4 de Junho — Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo: Celebramos a presença real de Jesus na Eucaristia, o “Pão da Vida” que sustenta a nossa caminhada e a nossa unidade como povo de Deus. 12 de Junho — Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: Momento de profunda devoção ao amor misericordioso de Cristo, sendo também o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. 16 de Junho — Dia da Criança Africana: Esta data recorda o massacre de estudantes ocorrido em Soweto, na África do Sul, em 1976, durante o regime do apartheid, sendo um grito pela dignidade de todas as crianças do continente. 16 de Junho — Dia da Moeda Moçambicana: A data assinala a introdução oficial do Metical como moeda nacional. O Dia da Moeda representa um símbolo da soberania económica e da independência financeira do país. 23 de Junho — Dia da Função Pública Africana: Um momento de reflexão sobre o papel dos funcionários públicos na construção do Estado, na prestação de serviços sociais e no fortalecimento da administração pública com ética e transparência. 25 de Junho — Dia da Independência Nacional: Trata-se da mais importante efeméride política do país. Nesta data, em 1975, Moçambique proclamou oficialmente a sua independência do domínio colonial, sob a liderança da FRELIMO e do primeiro Presidente, Samora Machel. Pela Redação Outras datas relevantes de Junho: 5 de Junho — Dia Mundial do Ambiente; 13 de Junho — Dia de Santo António, muito celebrado em diversas comunidades católicas; 14 de Junho — Dia Mundial do Dador de Sangue; 21 de Junho — Dia da Música; 23 de Junho — Dia Internacional das Viúvas; 26 de Junho — Dia Internacional de Combate às Drogas; 27 de Junho — Dia das Micro, Pequenas e Médias Empresas

jun 04 2026

Até quando durará o sofrimento em Moçambique?

Até quando durará o sofrimento em Moçambique? Um país tão rico em recursos minerais, terrestres, marinhos e florestais, mas que continua mergulhado na pobreza. O mais inesperado, triste e difícil de acreditar foi o surpreendente facto de, na última classificação sobre a pobreza global, o país ter caído para a segunda posição a nível mundial. Nas décadas de 80 e 90, momentos antes de começar a extração em grande escala de muitos recursos, o país ocupava sempre a quinta ou a sexta posição; actualmente, porém, apesar da exploração de diversos recursos, caímos quase no extremo inferior do desenvolvimento. A população vive sem sossego devido a acontecimentos horríveis, que vão desde a insurgência armada até aos relatos chocantes de desaparecimento de órgãos genitais, episódios que provocam mortes injustas e espalham o terror. Penso que as entidades competentes devem, urgentemente, procurar mecanismos eficazes para pôr fim a estas hostilidades no país. Mesmo no tempo de Moisés, as dez pragas do Egipto — enviadas por Deus através de Moisés e Aarão para convencer o Faraó a libertar o povo de Israel da escravidão — que provocaram uma série de catástrofes descritas no livro bíblico do Êxodo (capítulos 7 a 12), tiveram um fim, e o povo finalmente ficou livre. Portanto, o governo deve preocupar-se genuinamente com o seu povo, a partir da resolução dos problemas concretos que inquietam e ameaçam o bem-estar das famílias. O Senhor falou aos sacerdotes: “Tomai a arca da aliança e ide diante do povo”. Eles tomaram a arca e caminharam à testa do povo (Js 3,6). A forma como vivemos hoje não dignifica a moçambicanidade. Moçambique é amplamente reconhecido como uma sociedade com enormes jazigos de recursos, necessários para alavancar processos sérios de desenvolvimento económico e social que permitam gerar bem-estar e prosperidade para todos. É fundamental que os governantes mudem a visão centralizadora de que decidem tudo sozinhos, e passem a considerar que são apenas mais um actor neste processo de desenvolvimento do país. Nós, a população, queremos a paz e a liberdade de nos engajarmos no processo de desenvolvimento de forma individual e colectiva.  (Carta assinada Nampula) João Rodrigues Sabonete

maio 28 2026

A Formação de Professores e o Papel do Educador na Sociedade Actual

Por Valentina Atthumpuha É tradicional recordarmo-nos do valor do trabalho e dos trabalhadores no mês de Maio. Entre todos os profissionais que sustentam o desenvolvimento de uma nação, o professor ocupa um lugar de destaque. Ele é o mediador do conhecimento, o guardião da esperança, o construtor silencioso de gerações futuras. Em Moçambique, onde a juventude representa a maior parcela da população, a importância do educador torna-se ainda mais evidente: sem professores preparados, motivados e apoiados, não há escola que floresça, nem sociedade que avance. Contudo, o trabalho docente enfrenta desafios profundos. Muitos professores ensinam em condições difíceis, com excesso de alunos por turma, escassez de materiais, longas distâncias a percorrer e salários que nem sempre acompanham a exigência da profissão. Ainda assim, dia após dia, entram nas salas de aula com o compromisso de formar cidadãos, abrir horizontes e fortalecer a identidade nacional. É por isso que Maio é um momento oportuno para reflectir sobre a formação dos professores e sobre o papel indispensável que desempenham na sociedade actual. A formação é base para a qualidade do ensino A formação inicial e contínua dos professores é um dos pilares da educação. Um professor bem preparado domina os conteúdos, compreende as necessidades dos alunos e utiliza métodos de ensino mais eficazes. No entanto, a formação docente enfrenta certas limitações: falta de acesso fácil a cursos complementares, actualizações pedagógicas irregulares, escassez de materiais de estudo e dificuldades logísticas. Muitos professores, sobretudo nas zonas rurais, trabalham com conhecimentos adquiridos há vários anos, sem oportunidades regulares de reciclagem. Apesar disso, há um esforço crescente para oferecer oficinas pedagógicas, seminários e recursos digitais que ajudam no aperfeiçoamento do professor. Programas de ensino à distância também têm permitido que educadores continuem os estudos sem abandonar as suas comunidades. O professor como orientador e modelo para a juventude Mais do que transmitir conteúdos, o professor orienta, inspira e influencia profundamente a forma como os alunos vêem o mundo. Muitos jovens, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades familiares ou económicas, encontram no professor um ponto de apoio, uma voz de confiança e um exemplo de superação. O educador é, muitas vezes, o primeiro adulto fora da família a reconhecer um talento, a ouvir uma preocupação ou a encorajar um sonho. É por isso que o professor precisa de ter sensibilidade, paciência e capacidade de diálogo. A escola não é apenas um espaço de ensino; é também um espaço de convivência humana, onde se aprendem valores, respeito, cidadania e responsabilidade. Os desafios actuais da profissão docente A sociedade moçambicana enfrenta problemas que afectam directamente o ambiente escolar: desigualdade social, violência, gravidez precoce, trabalho infantil e instabilidade económica. Esses desafios recaem frequentemente sobre o professor, que precisa de lidar com realidades complexas para as quais, por vezes, não teve formação específica. Além disso, o aumento do número de alunos por turma torna o trabalho pedagógico mais exigente. Ensinar a mesma matéria a cinquenta ou sessenta crianças, cada uma com ritmos e dificuldades diferentes, é uma tarefa que exige criatividade e grande dedicação. Criar condições dignas para o trabalho docente Para que a educação avance, é indispensável valorizar os professores. Isso inclui condições materiais adequadas, remuneração justa, apoio emocional e reconhecimento social. Valorizar o professor não é apenas responsabilidade do Estado; é um compromisso de toda a comunidade. Pais que colaboram com a escola, alunos que respeitam os educadores e líderes comunitários que apoiam projectos educativos contribuem para criar um ambiente favorável ao ensino. O papel transformador do professor nas comunidades Em muitas localidades do país, o professor é também um líder comunitário. Ele participa de reuniões, esclarece dúvidas sobre saúde e cidadania, orienta famílias e mobiliza pais para acompanharem os estudos dos filhos. Em certas comunidades, o professor é visto como uma figura de referência, alguém que traz conhecimento e promove mudança. Com efeito, investir no professor é investir nas crianças, nas famílias e no futuro do país. É garantir que a sala de aula continue a ser um espaço de esperança, transformação e oportunidade. É, acima de tudo, reconhecer que sem educadores comprometidos, não há sonhos que encontrem caminho, nem futuro que se realize com plenitude. Box 1 (Focada na Missão): «O professor é o mediador do conhecimento, o guardião da esperança e o construtor silencioso de gerações futuras. Sem educadores apoiados, não há sociedade que avance.» Box 2 (Focada na Realidade Social): «Muitos jovens, especialmente os que enfrentam dificuldades familiares ou económicas, encontram no professor um ponto de apoio, uma voz de confiança e um exemplo de superação.» Box 3 (Apelo à Acção): «Valorizar o professor não é apenas responsabilidade do Estado; é um compromisso de toda a comunidade. Investir no docente é garantir que a sala de aula continue a ser um espaço de esperança.»

maio 27 2026

PAPA LEÃO XIV ALERTA: “A HUMANIDADE CORRE O RISCO DE PERDER A SUA IDENTIDADE NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL”

A nova Carta Encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV, alerta para os desafios que a humanidade enfrenta na era da inteligência artificial e das novas tecnologias. No documento, o Santo Padre afirma que o progresso tecnológico deve estar ao serviço da dignidade humana e do bem comum, evitando que a sociedade construa uma “nova torre de Babel”, marcada pela desigualdade, pelo domínio do poder digital e pela perda dos valores humanos e espirituais. A Encíclica recorda que a técnica pode trazer benefícios importantes, mas também riscos de desumanização, exclusão social e manipulação da liberdade. O Papa destaca ainda que a Doutrina Social da Igreja continua actual diante das mudanças do mundo moderno. Inspirando-se no Evangelho e no ensinamento dos Papas anteriores, Leão XIV defende princípios como a solidariedade, a justiça social, o bem comum e a proteção da dignidade de cada pessoa. O texto chama atenção para os impactos da inteligência artificial no trabalho, na educação, na democracia e na comunicação, alertando para o perigo de uma cultura baseada apenas no lucro, na eficiência e no controlo tecnológico da vida humana. Clique aqui para ler o texto completo da “Magnifica humanitas” Na conclusão, Papa Leão XIV faz um apelo à humanidade para que escolha o caminho da fraternidade e da paz, construindo uma civilização do amor em vez de uma sociedade dominada pelo egoísmo e pela exclusão. O Pontífice incentiva cristãos e homens de boa vontade a trabalharem juntos na defesa dos pobres, dos migrantes, dos jovens e dos mais vulneráveis, colocando Deus no centro das escolhas humanas. Segundo o Papa, o verdadeiro progresso nasce de corações abertos ao diálogo, à verdade e à esperança.

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