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Archive for vidanova

mar 13 2026

IV Domingo da Quaresma – 15/03/2026

1 Sam 16, 1b.6-7.10-13a; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41 ou Jo 9,1.6-9.13-17.34-38 Curar a cegueira colectiva: ver como Deus vê Neste Domingo IV da Quaresma somos convidados a curar a cegueira individual e colectiva para ver como Deus vê. Na primeira leitura, Deus manda Samuel ungir um novo rei. Todos os irmãos de David passam à frente, homens fortes, altos, preparados. Mas Deus diz: “O homem vê as aparências, mas Deus vê o coração.” Quantas vezes, nas nossas nações, fazemos escolhas pelas aparências, só porque alguém fala bonito, pertence à nossa etnia, faz promessas, tem dinheiro ou porque distribui camisetes. E depois, lamentamos os resultados. No Evangelho, Jesus cura o cego de nascença. Mas há uma ironia: quem não vê é quem se acha iluminado. Os fariseus recusam a verdade, tapam os olhos, distorcem os factos. Esta é a cegueira que também atinge a nossa sociedade: cegueira à pobreza extrema em que milhões da população ainda vivem; cegueira política que impede de reconhecer erros; cegueira económica que faz das riquezas naturais uma maldição em vez de bênção; cegueira social que ignora a violência contra mulheres e crianças; cegueira espiritualmente perigosa: a de achar que estamos bem quando estamos longe de Deus. O Apóstolo Paulo diz “Outrora éreis trevas; agora sois luz no Senhor.” Ser luz é denunciar o que está mal e anunciar o que pode ser transformado. Compromisso A Quaresma é tempo de recuperar a visão, não apenas para ver com os olhos, mas ver com o coração.

mar 09 2026

O Direito de Resistência: Fundamentos, Importância e Aplicação Prática

Por: Aurélio Jumbe Nos dias que correm, é frequente muitas pessoas e autoridades, no nosso meio, praticarem acções que contrariam a lei, ferirem a dignidade da pessoa humana ou deixarem de o fazer conscientemente com a justificação de estarem a cumprir “ordens superiores”. Em face a estas situações, podemos questionar-nos sobre o que fazer e como reagir diante das “ordens/instruções superiores”. O artigo 80 da Constituição da República de Moçambique consagra o chamado direito de resistência, reconhecendo que toda pessoa tem o direito de não se submeter a ordens ou actos ilegais, arbitrários ou que violem os seus direitos enquanto pessoa. São as chamadas “ordens superiores” que em geral não têm uma justificação válida. Este direito não nasce do desejo de desobediência, mas da própria ideia de que a autoridade só é legítima quando actua dentro da lei e ao serviço do bem comum. Fundamento do direito de resistência O fundamento principal deste direito está na dignidade da pessoa humana. Antes de qualquer função, cargo ou posição social, cada indivíduo é uma pessoa com consciência, liberdade e responsabilidade. Nenhuma hierarquia, seja administrativa, política, social ou comunitária, pode anular o dever que cada ser humano tem de dizer “não” à injustiça, ao abuso e à violação da legalidade. Assim, o direito de resistência protege a pessoa contra a obediência cega e contra o uso arbitrário do poder. Assim, o direito de resistência funciona como um limite ao dever de obediência. Importância do direito de resistência O direito de resistência é importante porque protege as pessoas contra abusos de poder. Em palavras simples, ele significa que: i) Quando um governo ou autoridade age de forma injusta, violenta ou contra os direitos humanos, as pessoas têm o direito de não obedecer cegamente; ii) as leis existem para proteger o povo, e não para oprimir; iii) ajuda a manter a liberdade, a justiça e a democracia, pois impede que o poder seja usado sem limites; iv) ensina que os cidadãos não são passivos: eles podem questionar, protestar e se organizar de forma responsável para defender seus direitos. Assim, o direito de resistência garante que ninguém seja obrigado a aceitar injustiças e ajuda a construir uma sociedade mais justa e consciente. O que significa resistir, na prática? Resistir não é lutar com violência, nem criar confusão. Resistir é dizer “não” às injustiças; recusar participar em actos ilegais; proteger a própria consciência e os direitos dos outros bem como a dignidade humana. Porém, a resistência deve ser pacífica, consciente e responsável. Este direito serve como um escudo de protecção. Numa linguagem simples: “Ninguém pode mandar fazer o que é errado, mesmo que seja o seu chefe.” Isso vale para todos. O direito de resistência ajuda a combater subornos pedidos por agentes públicos, cobranças ilegais, discriminação em serviços públicos, abuso de autoridade por polícias ou fiscais, entre outros. Aliás, este direito ainda protege contra expulsão injusta de terras familiares, distribuição de benefícios apenas a amigos ou parentes, decisões injustas de líderes comunitários, exclusão no acesso à água, escola ou posto de saúde. Um líder comunitário tenta dar a machamba de uma família a outra pessoa sem explicação legal. A família pode resistir pacificamente e procurar apoio nas autoridades distritais. Para os funcionários e agente do Estado, o direito de resistência é também um dever profissional. Neste âmbito, em especial, o Estatuto dos Funcionários e Agentes do Estado, aprovado pela Lei n.º 4/2022, de 11 de Fevereiro, no seu art. 63/a deixa claro que o funcionário não deve cumprir ordens ilegais. Uma ordem é ilegal quando: viola a Constituição; vai contra a lei; vem de quem não tem poder para ordenar; ignora os procedimentos legais; tenta enganar ou esconder a verdade. Este direito garante a protecção contra o abuso de poder por parte de superiores como também de qualquer autoridade administrativa em relação à população em geral. Por exemplo, se um chefe manda um funcionário alterar um documento para beneficiar um parente ou a si mesmo, o funcionário pode e deve recusar, pedir a ordem por escrito e comunicar o caso ao chefe máximo ou à procuradoria. Em poucas palavras, o direito de resistência existe para equilibrar o poder com a consciência, proteger a pessoa humana contra a arbitrariedade e fortalecer o Estado de Direito. Resistir não é destruir, mas corrigir; não é desobedecer por orgulho, mas por consciência; não é criar o caos, mas ajudar a restaurar a justiça. Assim, o artigo 80 não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade: cada cidadão é chamado a ser guardião da legalidade, da dignidade humana e do bem comum. Dizer “não” ao que é errado é uma forma de dizer “sim” à justiça, à dignidade e ao bem comum.

mar 06 2026

III Domingo da Quaresma – 08/03/2026

Ex 17,3-7; Rom 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42 ou Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42 A água viva de Cristo, fonte de justiça e de verdade No deserto, o povo tem sede e murmura contra Moisés. Esta sede não é só física, é também sede de esperança e dignidade. Quando olhamos para o mundo, vemos um povo igualmente sedento: sede de paz verdadeira, sobretudo no Norte; sede de emprego digno; sede de estradas que não matem; sede de líderes que não mintam; sede de instituições que não vendam justiça; sede de serviços de saúde que não humilhem o pobre. E muitos, desesperados, procuram água em lugares errados: nos discursos políticos vãos que prometem muito e realizam pouco, na feitiçaria e superstição, nas igrejas de exploração, no álcool que destrói famílias, na corrupção “de sobrevivência”, nas redes de mentira e manipulação. A samaritana também procurava água onde nunca seria satisfeita. Jesus senta-se junto dela, não para acusar, mas para curar a sede que ela escondia. O Senhor diz: “Quem beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede.” Ele quer oferecer ao nosso país uma água nova: a água da verdade numa sociedade onde a mentira se tornou normal; a água da justiça para um povo cansado de ver culpados soltos e inocentes presos; a água da paz que não depende de acordos secretos, mas de reconciliação real; a água da dignidade humana, tantas vezes atropelada por interesses económicos. Compromisso Lutar pela transformação do mundo, bebendo da água da verdade, justiça, paz e conversão interior.

mar 03 2026

O Papel da Mulher na Erradicação das Uniões Prematuras em Moçambique

Por: Mónica Meque Moçambique é um Estado africano independente há 50 anos, caracterizado por abundantes recursos minerais e uma população maioritariamente jovem. Porém, ainda enfrenta desafios de natureza económica, social, política e cultural, e é considerado como um dos Países africanos com baixo índice de desenvolvimento humano. A pobreza extrema, deficiente provisão de serviços básicos como a saúde, educação, água e saneamento, o desemprego, principalmente na camada juvenil aliados a dependência externa do Pais em diversas dimensões, continuam na agenda de alguns desafios e empecilhos deste belo Pais. Não menos importante, associa-se uma das práticas ou fenómenos sociais frequentes nos Países africanos, em particular Moçambique, as “uniões prematuras”. O casamento prematuro ou as chamadas “uniões prematuras” como designa a Lei moçambicana, de 19/2019 de 22 de outubro, constitui um assunto relevante não só para a sociedade moçambicana, mas também para a sociedade em geral, na medida que o fenómeno fere com os direitos humanos e em especial os direitos da rapariga. Esta prática que encontra a sua definição legal no nº 1 do artigo 2 da Lei 19/2019 de 22 de outubro, na qual estabelece a união prematura como a ligação entre pessoas, em que pelo menos uma seja criança, formada com propósito imediato ou futuro de constituir família, vem privando os direitos e futuro das raparigas nas comunidades rurais no nosso Pais e influenciando no desenvolvimento socioeconómico do Pais. A WLSA MOÇAMBIQUE (2016), afirma que esta prática continua a ser um problema na Africa Austral, devido a uma serie de factores sendo a pobreza o mais gritante. O órgão apontou que pelo menos em cinco países da SADC, quase 40% de menores são casadas antes dos 18 anos de idade. Em Moçambique, a taxa de prevalência dos casamentos prematuros é bastante elevada, sendo caracterizado como um País com uma das taxas mais altas do mundo, a segunda maior taxa, na sub-região da África oriental e Austral, afectando quase uma em cada duas raparigas como aponta IDS (2011). “Cerca de 48 por cento das mulheres em Moçambique com idades entre os 20 e os 24 anos já foram casadas ou estiveram numa união antes dos 18 anos e 14% antes dos 15anos” (IDS, 2011). Esta prática tem maior predominância nas famílias que vivem nas zonas rurais, com maior enfoque nas regiões norte e centro do Pais, como as provinciais de Cabo Delegado, Nampula, Niassa, Zambézia, Manica e Sofala. Desde os tempos remotos a união conjugal sempre foi tida como algo natural e bem-vindo, na medida que se estabelece a base do conceito família, e assume papel fundamental na construção e fortalecimento de uma sociedade. Porém, esta prática muitas vezes causada por questões de natureza financeira, social e cultural, tem trazido consequências directas e indirectas na vida da criança, rapariga e sociedade moçambicana, chamado a atenção de várias entidades e órgãos governantes, civil, etc. As uniões prematuras são em muitas vezes as responsáveis por mortes de raparigas em partos ou pós-partos, causadas por fistulas obstétricas; abandono da escola: onde muitas raparigas depois de assumir o lar abandonam a escola, ora por responsabilidades domésticas ora por orientação de seus parceiros ou Pais/encarregados de educação; Pinto e Bolacha (2022), no seu estudo sobre as uniões prematuras em Moçambique aponta que esta prática constitui actualmente um dos principais fatores de insucesso escolar da rapariga e da sua escolarização, uma vez que influência negativamente os esforços políticos de massificar o acesso à educação da rapariga e reduzir as desigualdades ou disparidades de gênero na oferta dos serviços educativos. Aponta também os riscos de saúde como fistula obstétrica, ocasionada pela gravidez precoce, que em certos casos pode causar a morte.  Qual seria o papel da Mulher/Mãe erradicação desta prática? “O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra”… “a grandeza das mulheres implica todos os direitos decorrentes da sua dignidade humana inalienável, mas também do seu génio feminino, indispensável a sociedade” (Papa Francisco, 2023, p.119 e 120 in Alegria do amor). Embora a mulher seja um ser especial e extremamente importante na edificação da família e consequentemente da sociedade como enfatiza o Papa Francisco, é desafiante discriminar o papel da mulher na prevenção das uniões prematuras. Não é linear abordar ou definir o papel da mulher/Mãe na erradicação das uniões prematuras principalmente nas comunidades e zonais rurais, onde a desigualdade de género, a cultura patriarcal, os hábitos e costumes estão fortemente enraizados, o típico hábito: “de que o homem é quem define os destinos da família”, e por consequência a mulher é somente a cumpridora ou implementadora dessas políticas. “a menina ou rapariga faz as tarefas domésticas e fica em casa cuidar dos irmãos e o rapaz é quem direito a estudar”. Porém, é preciso lembrar que a mulher foi criada como ser especial e de uma relevância insubstituível para sociedade. “As suas capacidades especificamente femininas em particular a maternidade- conferem-lhe também deveres, já que o seu ser mulher implica também uma missão peculiar nesta terra, que a sociedade deve proteger e preservar para o bem de todos”, como nos lembra Papa Francisco. Através do seu envolvimento político, na criação de leis, políticas eficientes, eficazes e sustentáveis que protegem a rapariga e incentivam-nas a estudar e apostar na alfabetização, fazem toda a diferença na redução desse fenómeno. A mulher como parte da implementação e monitoria e avaliação dessas políticas relacionadas a mulher e rapariga, no reconhecimento e defesa de seus direitos contribuem a minimização do fenómeno. A mulher, Mãe, camponesa alfabetizada, ajuda no reconhecimento de seus direitos e da rapariga. Uma Mãe que ampara o seu filho com a sua ternura e compaixão, ajuda a despertar nele a confiança, autoestima e reconhecimento de seus valores. A continua aposta na educação e alfabetização não só das mulheres mais dos homens, Pais e encarregados das crianças e raparigas nas comunidades rurais torna-se crucial para uma mudança de pensamento. A educação é a base do desenvolvimento tanto humano como social e económico de um Pais. Por fim, não se

fev 27 2026

O ruidoso silêncio da crise da educação em Moçambique

Por Thomas Selemane A educação em Moçambique atravessa um dos momentos mais delicados da sua história recente. Embora o País tenha conhecido avanços notáveis na expansão do acesso escolar desde o início dos anos 2000, o quadro actual revela fragilidades profundas que comprometem o futuro das gerações mais jovens. A crise do pagamento de horas extras aos professores, a conversão do ensino nocturno em ensino à distância ao nível secundário e a degradação progressiva da qualidade educativa são apenas alguns dos sintomas de um sistema que pede reforma urgente. Neste novo ciclo governativo, 2026-2029, espera-se que a governação do Presidente Chapo resolva as mazelas de tensão, expectativas e exigência social. Entre as várias vertentes da crise, três merecem particular destaque. O primeiro elemento crítico é o não pagamento regular das horas extras aos professores, uma situação que se arrasta em diferentes províncias e tem gerado protestos, greves intermitentes e um clima de desmotivação generalizada no corpo docente. Muitos professores, sobretudo os que leccionam em turmas superlotadas ou leccionam em turnos adicionais para suprir a falta de docentes, dependem deste rendimento suplementar para sustentar as suas famílias. Quando o Estado atrasa ou suspende os pagamentos, o impacto é directo: aulas canceladas, redução do tempo lectivo, diminuição da preparação pedagógica e um sentimento precário de valorização da carreira docente. Não é exagero afirmar que o sistema educacional funciona hoje sobre o sacrifício pessoal de milhares de professores, cuja resiliência tem sido maior que a própria capacidade institucional de resposta. A crise das horas extras não é apenas administrativa; é um indicador de sub-financiamento estrutural. O sector da educação continua a competir com outras prioridades fiscais num orçamento nacional pressionado pela dívida pública, por choques económicos e por limitações de arrecadação. No entanto, um país que falha em remunerar dignamente os seus professores compromete a base de qualquer política de desenvolvimento sustentável. A retórica oficial frequentemente enaltece a educação como um pilar do progresso, mas essa visão precisa traduzir-se em acções concretas, previsibilidade orçamental e gestão eficiente dos recursos humanos. A valorização docente não pode ser uma promessa — deve ser uma política de Estado. O segundo ponto crítico é a transformação do ensino nocturno em ensino à distância no ensino secundário, uma mudança acelerada pela pandemia e consolidada sem a devida preparação pedagógica, tecnológica ou social. O curso nocturno sempre desempenhou um papel inclusivo fundamental: permitiu que trabalhadores, jovens mães, vendedores informais e outros cidadãos com horários restritivos pudessem estudar presencialmente. A migração para o ensino à distância, embora compreensível no contexto de modernização, poderá gerar exclusão. A realidade digital do país ainda é marcada por profundas desigualdades. Muitos estudantes não dispõem de computadores, de internet estável ou de condições domésticas para acompanhar aulas virtuais. O risco é evidente: transformar uma política de expansão do acesso num mecanismo de selecção socioeconómica que penaliza os mais pobres. Além disso, há o desafio pedagógico. O ensino à distância exige metodologias próprias, plataformas funcionais, professores capacitados e acompanhamento contínuo. Sem isso, a modalidade pode deteriorar o processo de aprendizagem e aumentar o abandono escolar. A modernização digital é uma oportunidade, mas precisa ser tratada com responsabilidade e planejamento. Não basta transferir aulas presenciais para telas; é preciso repensar currículos, ritmos, suporte tutorial e mecanismos de avaliação. Caso contrário, estaremos a construir um ensino secundário noturno que existe apenas no papel, mas que falha na prática. O terceiro ponto — talvez o mais preocupante — é a qualidade do ensino. Indicadores de aprendizagem revelam que muitos alunos terminam o ensino primário com dificuldades sérias de leitura, escrita e cálculo básico. No ensino secundário, o problema agrava-se com currículos extensos, baixa taxa de domínio conceitual, escassez de livros didáticos atualizados e um ambiente escolar muitas vezes hostil ao pensamento crítico. Não é incomum que estudantes cheguem à universidade com lacunas graves, como incapacidade de leitura, escrita e compreensão de textos básicos, comprometendo a formação de quadros para os setores públicos e privados. A qualidade da educação não depende apenas do número de escolas construídas ou da taxa de matrícula; depende da capacidade de ensinar bem. O futuro de Moçambique dependerá, em grande medida, da capacidade de olhar para a sala de aula e nela ver o coração do desenvolvimento. O professor valorizado, o estudante motivado, o currículo relevante e o ambiente escolar digno não são luxo; são fundamento. Se falharmos aqui, falhamos em tudo o restante. Por isso, 2026 marca o início de uma nova travessia. Que seja o ano em que deixamos de gerir crises e começamos a construir soluções.

Comissão Episcopal de Justiça e Paz: Reformas referentes à Governação

Cont. Dialogo Nacional inclusivo: o que é? A Comissão Episcopal de Justiça e Paz da Igreja Católica oferece às comunidades cristãs e a todos os moçambicanos de boa vontade o subsidio “Cartilha Politica para o diálogo nacional inclusivo” como forma de se prepararem para participar ativamente do processo de Diálogo Nacional Inclusivo lançado oficialmente no dia 10 de Setembro em Maputo. Reformas referentes à Governação 1. Reformas da política de exploração dos recursos naturais Em relação a questões de terra e recursos naturais, o nosso País tem um quadro legal muito vasto e progressista. Para além da Constituição, que diz que a terra é propriedade do Estado, a Lei de Terras, a Política Nacional de Terra, a Lei de Florestas e Fauna Bravia, a Lei do Ambiente, a Lei do Ordenamento do Território, a Lei de Conservação, a Lei de Minas e a Lei de Petróleos, além dos respectivos regulamentos. Todas estas legislações garantem ao cidadão moçambicano o usufruto dos recursos naturais sem prejuízo do ambiente e dos interesses superiores do Estado. Porém, o debate em curso, olha para os males que a exploração desses recursos está a causar sobretudo nas comunidades locais, e aponta para a reforma dos procedimentos legais com o intuito de garantir uma gestão sustentável desses recursos numa opção preferencial por essas comunidades locais. Que propostas concretas da Igreja sobre tais reformas? Antes e acima de tudo, é preciso definir os recursos naturais (terra, florestas, pescado, petróleos, minérios e hidrocarbonetos) como recursos estratégicos cuja política deve ser estável (não mudar a cada governo) e a sua alteração deve ser por consenso na Assembleia da República. Em termos específicos, é preciso: a) Adiar ou descartar a exploração dos recursos naturais que não criem ligações económicas, fiscais e espaciais no país. b) Fortalecer instituições de regulação e fiscalização com mais autonomia e mais recursos humanos e materiais. c) Aprofundar a reforma fiscal para garantir maior progressividade e captura de valor, acabar com os incentivos fiscais. d) Criar mecanismos mais eficazes de redistribuição de receitas para as comunidades locais, através da resolução de problemas concretos de desenvolvimento local: água potável, vias de acesso, electricidade, etc. 2. Reformas na adopção de medidas de inclusão económica Inclusão económica é o processo que garante que todos os indivíduos e grupos, especialmente aqueles tradicionalmente excluídos, tenham acesso e participação equitativa nos benefícios económicos de uma sociedade. Isso envolve não apenas o acesso a recursos financeiros, mas também a oportunidades de geração de renda, emprego e participação em actividades económicas. Em Moçambique foram criadas algumas plataformas e projectos com vista a promover a inclusão económica e financeira. Porém, o debate em curso é desenvolvido no contexto da inclusão das mulheres e dos jovens, mostrando que as iniciativas já em curso têm os seus pontos benéficos, mas que ainda não são suficientes, pois os resultados são insignificantes. Ainda há há tantos moçambicanos excluídos. Que propostas concretas da Igreja sobre tais reformas? a) Formar os jovens e as mulheres para a geração de renda e emprego: oferecer oportunidades para que as pessoas possam gerar renda de forma sustentável, oferecer apoio a todos os que estão no sector informal, amparando suas actividades produtivas. b) Permitir a participação equitativa no mercado de trabalho: sem barreiras nem discriminação, o que significa dar oportunidade a todos de forma meritória. c) Promover uma educação que capacita para o desenvolvimento de habilidades: formar para produzir e contribuir para a economia e o bem-estar de cada indivíduo, apostar na profissionalização dos jovens e das mulheres, e ajudar a criar condições de produção. d) Criar programas de auxílio financeiro e escolarização: sobretudo para as famílias em extrema pobreza. e) Incentivar o empreendedorismo: oferecendo apoio financeiro, técnico e de gestão para a expansão de negócios e oportunidades. f) Criar programas que oferecem treinamento e capacitação profissional: sobretudo para pessoas desempregadas ou com baixa qualificação. g) Acesso a crédito: Programas que facilitam o acesso a crédito para pessoas de baixa renda, permitindo que elas invistam em seus negócios ou em outras actividades económicas. (2. Cont.)   Por: Pe. António Bonato

fev 26 2026

A PALAVRA DE DEUS COMO FUNDAMENTO DA CATEQUESE

Por: Pe Cantífula de Castro A Palavra de Deus ocupa um lugar central na vida e missão da Igreja, constituindo a fonte primeira e insubstituível da catequese. A Bíblia assume um papel privilegiado na formação dos cristãos. Ela ilumina as situações concretas do povo, fortalece a esperança e orienta a acção pastoral diante dos desafios sociais, culturais e espirituais que marcam o País. A catequese bíblica não consiste apenas na leitura de textos sagrados, mas na capacidade de fazer ressoar a Palavra no coração da comunidade, tornando-a alimento espiritual, guia moral e inspiração para a vida quotidiana. O catequista é, por isso, chamado a conhecer, amar e meditar a Escritura, de modo a apresentá-la com fidelidade e sensibilidade. A Bíblia deve ser anunciada não como um conjunto de regras, mas como história viva da relação de Deus com o seu povo, marcada por misericórdia, libertação, justiça e salvação. No contexto moçambicano, onde coexistem elementos culturais como o respeito pelos antepassados, os ritos de iniciação, a vida comunitária, o valor da palavra falada e a busca constante de sentido, a Palavra de Deus encontra um terreno fértil para a inculturação. O catequista deve ajudar os fiéis a descobrir a presença de Deus na vida diária, relacionando a Escritura com as experiências concretas das famílias, da juventude, dos idosos e dos grupos vulneráveis. A aproximação bíblica deve ser pedagógica, simples, participativa e adaptada às diversas línguas e níveis de formação. A centralidade da Palavra na catequese implica também responsabilidade. É necessário evitar interpretações isoladas, moralistas ou manipuladas do texto bíblico, comuns em ambientes onde circulam discursos religiosos distorcidos ou desviados. A função do catequista é orientar para uma leitura correta, em comunhão com o magistério da Igreja e aberta à tradição cristã. Isso exige humildade e formação permanente, tanto teológica quanto pastoral. Além disso, é fundamental cultivar métodos que aproximem a comunidade da Bíblia: círculos bíblicos, lectio divina comunitária, dramatizações, cantos inspirados na Escritura, uso de histórias bíblicas nas línguas locais (como Emakhuwa, Sena, Ndau, Changana, entre outras), e a integração de elementos visuais e narrativos que respeitem a cultura local. Estes meios ajudam a tornar a Palavra compreensível, viva e transformadora. A Palavra de Deus, quando bem anunciada, transforma a catequese numa escola de fé e vida. Ela educa para o perdão, a paz e a reconciliação — valores essenciais para a história moçambicana; fortalece as famílias na vivência do amor e do respeito; inspira os jovens a construir projetos de vida responsáveis; e ilumina as comunidades na defesa da dignidade humana, da justiça social e da solidariedade. Assim, o catequista deve fazer da Bíblia o coração do seu ministério, permitindo que a Palavra transforme primeiro a sua própria vida e, por meio do seu testemunho, alcance e renove a comunidade. Uma catequese bíblica, profunda e inculturada, é caminho seguro para a maturidade da fé e o fortalecimento da Igreja em Moçambique.

fev 24 2026

JUVENTUDE QUE PROCURA CAMINHOS, MESMO SEM ESTRADAS

Por: Kant de Voronha Fevereiro chega sempre com um ritmo diferente. Já passou a euforia do Ano Novo, as resoluções já começaram a mostrar se eram de verdade ou apenas entusiasmo passageiro e o país retoma o seu movimento real. É também o mês em que muitos adultos, jovens, adolescentes e crianças regressam às escolas, às universidades, aos centros de formação e, nalguns casos, às ruas, onde a aprendizagem da vida é mais dura e mais exigente. Falar da juventude no nosso país nunca é assunto leve. É tocar no coração do país, porque somos uma nação jovem, mas ainda com pouca capacidade de transformar essa força em desenvolvimento. E quando dizemos que a juventude procura caminhos mesmo sem estradas, estamos a reconhecer, com honestidade, que o jovem moçambicano vive num cenário onde as portas nem sempre estão abertas, os horizontes nem sempre são nítidos e as oportunidades ainda são escassas. Mas, apesar disso, ele insiste. Persiste. Imagina soluções e cria espaços onde o Estado, as instituições e a própria sociedade muitas vezes ainda não chegaram.   A juventude que carrega muito e recebe pouco Há décadas que ouvimos discursos a exaltar “o potencial dos jovens”. Mas a verdade nua é que muitos jovens sentem que o país lhes pede demais e lhes devolve de menos. Pedimos que estudem, mas oferecemos escolas sem carteiras suficientes, salas superlotadas, professores desmotivados e livros que chegam tarde. Pedimos que sonhem alto, mas não criamos o ambiente económico necessário para transformar sonhos em projectos de vida. Pedimos que sejam responsáveis, mas colocamo-los num mercado de trabalho onde a experiência é exigida até para tarefas que poderiam ser portas de entrada. No fim, o jovem fica no meio de duas realidades: aquilo que lhe pedem e aquilo que lhe dão. Entre essas duas margens, ele tenta construir uma ponte — às vezes com ferramentas frágeis, outras vezes com criatividade surpreendente. Criatividade a partir da falta O que mais impressiona na juventude moçambicana não é a dificuldade que enfrenta, mas a capacidade que tem de reinventar a vida. Basta passar por qualquer bairro para ver jovens que transformam um telemóvel velho num pequeno negócio de recargas; que fazem cortes de cabelo na porta de casa; que criam páginas de redes sociais para divulgar produtos; que começam pequenos projectos de costura, serralharia ou reparação de aparelhos. Há jovens que estudam com candeeiro de petróleo, mas discutem temas globais com uma maturidade admirável. Há estudantes que dividem um único livro por quatro colegas, mas apresentam trabalhos com profundidade e disciplina. Há rapazes e raparigas que vendem gelo, amendoim, refrescos ou carvão para pagar a própria escola. Isto mostra duas verdades: a juventude tem força; mas esta força não pode continuar a depender apenas de improviso. Um país sério não pode sobreviver sem políticas robustas para a juventude. E, muito menos, pode continuar a viver da criatividade que nasce da carência, é preciso criatividade que nasce da oportunidade. A luta silenciosa pelo emprego Falar de emprego juvenil em Moçambique é quase falar de um deserto. Há poucas vagas, muita procura, salários baixos e exigências desajustadas. Muitos jovens passam meses, até anos, a procurar trabalho. A esperança começa grande, mas vai diminuindo. Alguns aceitam trabalhos temporários, muitas vezes sem contrato, sem segurança, sem protecção. Outros acabam por desistir e voltam para a informalidade. No entanto, não é falta de talento. O país tem jovens formados em várias áreas: saúde, educação, engenharia, comunicação, administração, informática, agricultura. O problema é que a economia ainda não tem fôlego suficiente para absorver todos. E aqui surge uma pergunta incómoda: que futuro oferecemos a esta massa jovem que cresce todos os anos? Se a juventude não encontra caminho, o país perde a sua energia. Não existe nação forte com jovens frustrados. Juventude, valores e identidade Um dos desafios actuais é também a pressão sobre os valores. Vivemos num tempo em que a influência das redes sociais, das modas importadas e da busca rápida por dinheiro tem abalado a construção moral de muitos jovens. Há quem queira sucesso sem esforço, riqueza sem trabalho, fama sem mérito. Mas, ao lado desses, existem milhares de jovens discretos, que não aparecem nas notícias, mas carregam valores firmes: o respeito pelos pais, o compromisso com a comunidade, a fé, a responsabilidade, o amor ao estudo, a paciência e a honestidade. Moçambique não está perdido. O que está em disputa? Duas formas de ser jovem: uma que procura atalhos e outra que procura caminhos verdadeiros. Cabe à sociedade apoiar a segunda e orientar a primeira. A escola como porta ou parede A escola deve ser o lugar onde o jovem descobre o mundo, adquire ferramentas, fortalece a mente e molda a visão. Mas a realidade, para muitos, é que a escola é também fonte de frustração. Faltam professores de qualidade, falta água, faltam livros, faltam carteiras, faltam laboratórios, falta tudo o que deveria existir. E, mesmo assim, há alunos que caminham quilómetros, atravessam pontes improvisadas e acordam às quatro da manhã só para sentar numa sala quente e cheia. Quando um país vê jovens com esta força e não melhora a escola, está a cometer uma injustiça grave. O que a juventude e País precisam? Para que Moçambique avance, é urgente: – Criar oportunidades de emprego e estágios reais; – Reforçar políticas públicas de juventude; – Garantir educação de qualidade; – Combater a corrupção que fecha portas; – Proteger os jovens do crime, das drogas e das falsas promessas; – Incentivar o empreendedorismo com apoio concreto, não apenas discursos; – Ouvir os jovens antes de falar por eles. Nenhuma sociedade prospera quando a juventude anda perdida. A juventude moçambicana não precisa de piedade, precisa de caminhos. Não precisa de elogios vazios, precisa de políticas sólidas. Não precisa de incentivos passageiros, precisa de oportunidades estruturadas. Mas, enquanto essas mudanças não chegam, ela continua a caminhar, com coragem, criatividade e uma esperança teimosa que insiste em acreditar no futuro. Porque a realidade é esta: mesmo quando o país falha nas estradas, os

fev 18 2026

Quaresma: Eis o tempo favorável!

Todos os anos a Igreja vive quarenta dias em fervorosa oração, permanente jejum e admirável espírito de caridade. Estes quarenta dias que antecedem a Páscoa, começando pela Quarta-feira de Cinzas, são conhecidos, entre os cristãos, como Quaresma. Pelos quarenta dias da Grande Quaresma, diz o Catecismo da Igreja Católica, a Igreja se une ao mistério de Cristo no deserto (CIgC 540). O deserto além de ser um lugar geograficamente inóspito e árido, adquire na espiritualidade cristã uma significação particular de um tempo de provação, solidão, confronto e dependência de Deus. Por isso, a Quaresma é também conhecida como o tempo favorável de mudança, o tempo de conversão e penitência, o tempo de preparação intensiva, eleição e escrutínios dos catecúmenos, bem como, o tempo de preparação dos fiéis para a celebração do mistério da Morte e Ressurreição de Jesus. Este é o tempo favorável e, particularmente, apropriado para os exercícios espirituais, os retiros, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola (cf. CIgC 1438). Estas práticas contribuem para fazer adquirir o domínio sobre os nossos instintos e a liberdade de coração e manifestar provas concretas de conversão de modo a melhor viver o mistério Pascal. Qual a razão do número 40? O número quarenta, no Antigo Testamento, designa normalmente uma geração. Encontramos muitas referências a este número. De seguida, são assinaladas algumas destas referências: – Dilúvio: 40 dias e 40 noites (Gn 6,9); – Moisés no Sinai: 40 dias e 40 noites (Ex 24,18;34,28; Dt 9,9) – Apelo do profeta Jonas em Nínive: 40 dias e 40 noites (Jn 3,4) – Israel no deserto: 40 anos (Js 5,6; Nm 14,34) – A caminhada de Elias: 40 dias e 40 noites (1 Rs 19,8) – Jesus no deserto: 40 dias e 40 noites (Mt 4,2; Lc 4,2) Com base nestas experiências, o número 40 passou a significar o tempo necessário para uma libertação e purificação espiritual. Liturgia quaresmal No referente à disposição das leituras para a Quaresma, a estrutura do ordenamento das leituras da Missa estabelece o que se segue para os domingos e dias feriais: Nos domingos, as leituras do Evangelho estão distribuídas do seguinte modo: no primeiro e segundo domingos conservam-se as narrações da Tentação e da Transfiguração do Senhor, que se leem, no entanto, segundo os três sinópticos. Nos três domingos seguintes foram restabelecidos para o ano A o Evangelho da Samaritana, do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro; estes Evangelhos, por serem da maior importância relativamente à iniciação cristã, podem ler-se também nos anos B e C, sobretudo onde houver catecúmenos. No entanto nos anos B e C propõem-se também outros textos: no ano B, textos de São João sobre a futura glorificação de Cristo pela Cruz e Ressurreição; no ano C, textos de São Lucas sobre a conversão. No “Domingo de Ramos na Paixão do Senhor”, para a procissão foram escolhidos os textos que se referem a entrada solene do Senhor em Jerusalém, tomados dos três sinópticos; na Missa, lê-se a narração da Paixão do Senhor. As leituras do Antigo Testamento referem-se à história da salvação, que é um dos temas próprios da catequese quaresmal. Em cada ano há uma série de textos que apresentam os principais elementos desta história da salvação, desde o princípio até a promessa da nova aliança. As leituras do Apóstolo foram seleccionadas de maneira a corresponderem às leituras do Evangelho e do Antigo Testamento e, na medida do possível, a haver entre elas uma adequada conexão. Nos dias feriais, as leituras do Evangelho e do Antigo Testamento que foram seleccionadas têm mútua relação entre si e tratam diversos temas próprios da catequese quaresmal, apropriados ao sentido espiritual deste tempo. A partir da segunda-feira da quarta semana, é proposta a leitura semi-contínua de São João, na qual aparecem os textos deste Evangelho que melhor correspondem às características da Quaresma. Como as leituras da Samaritana, do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro se leem agora nos domingos, mas apenas no ano A (e nos outros facultativamente), pretendeu-se tornar possível a sua leitura também nos dias feriais: assim, no princípio das semanas terceira, quarta e quinta, inseriram-se “Missas facultativas” com aqueles textos; estas Missas podem utilizar-se em qualquer dia ferial da semana correspondente, em vez das leituras do dia. Uma mensagem de esperança É este o tempo favorável (2 Cor 6,2)! É este o tempo da conversão! É este o tempo da salvação! Nada está perdido. Ainda é possível mudar e acreditar. Ainda é possível renascer, deixando de lado ódios, violências, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, etc. Só assim sairemos victoriosos do deserto como Jesus, amando a todos como irmãos e aceitando o Seu reino de amor, justiça, paz e alegria. (Pe. Sérgio M. Vilanculo)

fev 17 2026

Eis o Tempo Favorável: ainda é possível recomeçar

Com a imposição das cinzas, iniciamos a Quaresma, tempo de conversão, penitência e renovação espiritual. A Quaresma não pode ser reduzida a um mero exercício ritualista. Ela interpela a consciência pessoal e colectiva, exigindo uma fé encarnada na nossa realidade concreta. Num país como o nosso que persistem as desigualdades estruturais, fragilidade institucional, pobreza crónica e crises de valores, a Quaresma é um tempo ainda mais profundo e exigente para o povo moçambicano. Na realidade política, Moçambique vive tensões recorrentes ligadas à governação, à corrupção- ção, à exclusão social e à fragilidade da justiça. Nesse plano, a Quaresma interpela profundamente tanto os governantes quanto os governados. Converter-se não significa apenas rezar mais, mas romper com práticas que atentam contra a dignidade humana. Neste sentido, a Quaresma deveria ser tempo de exame de consciência sobre o uso dos recursos públicos, a manipulação das instituições e o silenciamento da voz dos pobres. O jejum quaresmal denuncia a “fome” causada pela má governação e desafia os líderes a jejuarem da corrupção, do autoritarismo e da indiferença. Para os cidadãos, a Quaresma interpela a passividade, o medo e a resignação. A conversão quaresmal exige uma cidadania activa, ética e responsável, que recuse normalizar a injustiça e a violência política. Assim, a fé cristã deixa de ser ópio e torna-se fermento de transformação social. O sentido do jejum quaresmal torna-se particularmente provocador num país onde grande parte da população já vive em jejum forçado devido à pobreza extrema, ao desemprego, ao aumento do custo de vida e às desigualdades regionais. O verdadeiro jejum quaresmal deve ser solidário e profético: jejuar do consumismo, da exploração económica, da acumulação egoísta e da indiferença face ao sofrimento alheio. A esmola quaresmal, por sua vez, não pode limitar-se a gestos assistencialistas. Ela deve ser ex-pressão de partilha justa, promoção da dignidade e questionamento das causas profundas da pobreza. No campo religioso, Moçambique assiste a um crescimento significativo de expressões religiosas, algumas marcadas por sincera busca de Deus, outras por discursos de prosperidade fácil, milagres imediatos e espiritualidade desvinculada da ética social. Neste cenário, a Quaresma impõe um sério discernimento. A verdadeira espiritualidade quaresmal não aliena o crente da realidade, mas compromete-o com ela. A oração, um dos pilares da Quaresma, não pode ser fuga dos problemas sociais, mas força interior para enfrentá-los com coragem e lucidez. Uma fé que não questiona a injustiça, que legitima o sofrimento como “vontade de Deus”, trai o sentido bíblico da conversão. A Quaresma chama também a Igreja a uma auto-crítica: até que ponto as comunidades cristãs são voz profética diante das injustiças. Até que ponto os líderes religiosos denunciam o pecado estrutural e não apenas os pecados individuais. (Coordenação VN)

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