abr 16 2026
Crónica: Mesmo Fora Daqui se Morre
Por: Giovanni Muacua O nosso país, o belo Moçambique, está a ficar cada vez mais esfarrapado, não por falta de recursos de investimento, mas por causa da insensibilidade e egoísmo destes senhores. Como quem morre são sempre os outros, ninguém se interessa por melhorar as condições das nossas unidades sanitárias. Cada um preocupado em encher o próprio umbigo e bolso; investe na própria riqueza, jogando o bem-comum na morgue à espera da sepultura. Num país que nasceu rico em recursos naturais e culturais, a esperança transformou-se, aos poucos, num espaço onde a vida vale pouco e a sobrevivência tornou-se um privilégio. Não por falta de meios, mas por excesso de indiferença. O problema de Moçambique não é a falta de riqueza, mas a sua má gestão. O problema não é a escassez de dinheiro, mas a sua concentração em bolsos privados. O problema não é a falta de discursos políticos, mas a distância entre esses discursos e a realidade nua dos hospitais públicos, onde a dor grita mais alto do que qualquer slogan governamental. “O nosso maior valor é a vida”, diz o Ministério da Saúde. Mas que vida é essa que se promete, quando falta gesso, faltam reagentes, faltam medicamentos e sobra sofrimento? As unidades sanitárias do país são o retrato mais cruel da desigualdade social e económica. Enquanto o cidadão comum enfrenta bichas intermináveis, humilhações e tratamentos desumanos, os senhores do poder, os donos das decisões e das riquezas nacionais, viajam ao estrangeiro com uma simples dor de cabeça. Lá, recebem cuidados dignos, tecnologia avançada e conforto. Aqui, o povo recebe silêncio, desprezo e anestesia em falta. A saúde tornou-se um espelho da política nacional: quem pode, vive; quem não pode, espera ou morre. O país arrecada impostos, explora recursos minerais, assina contratos milionários e anuncia investimentos. Socialmente, porém, o retorno disso é invisível para a maioria. Onde vai o dinheiro que sai do suor dos trabalhadores, dos impostos pessoais e empresariais? Se nas farmácias públicas faltam medicamentos, como explicar a abundância nas clínicas privadas? Se os hospitais públicos carecem de aparelhos básicos de diagnóstico, de onde vêm os equipamentos modernos nas clinicas privadas? Essa contradição não vem do acaso; é o sistema. Um sistema que lucra com a dor e transforma a saúde num negócio para poucos. A contrapartida consiste em que há mais investimento em armas do que em vidas. Compra-se gás lacrimogéneo, munições e viaturas de repressão, enquanto se negligencia a compra de aparelhos clínicos, medicamentos essenciais e condições mínimas de trabalho para médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde trabalham sem 13º salário, sem materiais, sem motivação e sob pressão constante. Ainda assim, espera-se que salvem vidas com as mãos vazias. É um paradoxo cruel: o Estado exige milagres de quem ele próprio abandona. A violência não está apenas nas balas ou nos cassetetes; ela está também na agulha que perfura a carne sem anestesia, no parto feito sem condições, no paciente que grita de dor enquanto o sistema finge não ouvir. É uma violência silenciosa, diária e institucionalizada. Uma violência que mata mais do que qualquer guerra declarada. Dizem que a morte não escolhe classe social e é verdade. Mesmo os que fogem para além-mar, acreditando escapar ao destino comum, acabam por descobrir que em todo o canto se morre. A morte é democrática, mas a vida não é. A vida em Moçambique tornou-se profundamente desigual. Uns vivem cercados de conforto e protecção; outros sobrevivem cercados de medo, doença e abandono. Esta situação não é apenas uma falha administrativa, é uma falência moral. Um país que aceita ver o seu povo sofrer sem reagir, perdeu o sentido de nação. As festas luxuosas, as viagens desnecessárias e as mansões erguidas com dinheiro público são afrontas directas à dor colectiva. Cada tijolo dessas casas luxuosas poderia ser um medicamento, um aparelho clínico, uma cama hospitalar. Cada festa poderia ser uma ala reabilitada. Cada viagem poderia ser uma vida salva. O povo está exausto. Exausto de promessas vazias, de discursos reciclados, de ver a morgue mais organizada do que o hospital. Exausto de ser tratado como número e não como ser humano. A Bíblia já chorava a ruína da filha do povo; hoje, Moçambique chora a sua própria chaga. Uma chaga aberta pela ganância, pela corrupção e pela insensibilidade. Que fique bem claro: investir na saúde não é caridade, é obrigação. Melhorar hospitais não é favor, é um dever constitucional e moral. A vida não pode continuar a ser moeda de troca política. Porque no fim, ricos ou pobres, governantes ou governados, todos somos peregrinos nesta terra. A morte, justa e paciente, visita a todos, dentro ou fora de Moçambique. Quem tem ouvidos, ouça.
abr 16 2026
Autossustentabilidade: A gestão das iniciativas locais
Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo No número anterior, apresentamos a iniciativa uma comunidade, uma machamba. Conforme sublinhamos é uma iniciativa que muito tem ajudado algumas das nossas comunidades rurais ou peri-rurais. Contudo, estas iniciativas locais têm enfrentado um grande problema, sobretudo no que concerne a gestão: Quem deve gerir? Como guardar o dinheiro? Em que aplicar? Como justificar ou prestar contas? Estas e outras perguntas não se calam e que, por vezes, podem gerar conflitos nas comunidades. Como sanar esta preocupação? A primeira coisa a fazer é perceber que as nossas comunidades rurais são constituídas, muitas das vezes, por gente muito simples, gente que está habituada a uma economia doméstica muito simples: produziu, consumiu. Os que chegam a vender, por vezes, tudo vendem sem um mínimo de stock para eventuais situações e, chegado o tempo da fome, compram os mesmos produtos a um preço muito superior ao que tinham vendido. Por outra, a maioria parece não estar preparada para o associativismo ou cooperativismo. Por isso muitos que levam a cabo tais iniciativas, sejam eles anciãos ou animadores, chegados a época das campanhas, enfrentam sérios problemas. A segunda coisa a fazer é munir as comunidades de uma educação económica sustentável e os líderes de uma gestão inclusiva. A educação económica sustentável tem de ser guiada por alguns princípios: a busca pelo bem comum, o sentido de pertença à comunidade ou ao grupo, incentivos de trabalho, etc. A gestão inclusiva dos líderes exige, por sua vez, uma visão estratégica, o envolvimento da comunidade na escolha de prioridades e tomada de decisões que visam a aplicação dos bens alocados. A terceira coisa a fazer é a prestação de contas. Este aspecto tem sido um grande “calcanhar de Aquiles” da gestão nas nossas comunidades locais. Muitas vezes ouvimos, fulano ou sicrano “comeu ou está a comer o nosso dinheiro”. O facto de ter ciente que o dinheiro e os bens pertencem à comunidade é já um grande passo na autossustentabilidade pois todos são chamados a prover à mesma do necessário. Mas isto exige que os detentores dos bens façam a devida prestação de contas, justificando o uso do dinheiro e, sempre que possível, documentado e não usem os bens comuns como bens próprios. Uma boa gestão inspira as pessoas, cria um ambiente saudável de colaboração e se foca em soluções, busca oportunidades e crescimento da comunidade, transforma desafios em oportunidades e faz com que as pessoas se sintam capazes de realizar coisas grandiosas.
abr 10 2026
Dialogo Nacional inclusivo: Reformas referentes à Governação
Por: Pe. António Bonato A Comissão Episcopal de Justiça e Paz da Igreja Católica oferece às comunidades cristãs e a todos os moçambicanos de boa vontade o subsidio “Cartilha Politica para o diálogo nacional inclusivo” como forma de se prepararem para participar ativamente do processo de Diálogo Nacional Inclusivo lançado oficialmente no dia 10 de Setembro em Maputo Reformas referentes à Governação Reformas do projecto de reconciliação e unidade nacional Depois da independência, era suposto Moçambique trilhar por um caminho de construção da unidade nacional e de busca de desenvolvimento. Mas, pelo contrário, tal caminho foi marcado por conflitos armados, eleitorais e pós-eleitorais, que foram criando feridas não cicatrizadas tanto no projecto da unidade nacional, como no coração dos moçambicanos, feridas que hoje precisam de ser encaradas com determinação para a sua reparação. Ao longo de todo este tempo, os governos e os partidos políticos têm tomado algumas iniciativas para restabelecer um clima de paz e de reconciliação no país. Neste ponto o debate gira em torno do caminho e das falhas da reconciliação e da construção da unidade nacional desde a independência, e contribui com algumas ideias concretas para que o Diálogo Nacional Inclusivo que vai acontecer dê os seus frutos. Que propostas concretas da Igreja sobre tais reformas? Na VIIIª Semana Nacional de Fé e Compromisso Social, a Igreja chamou atenção a alguns passos que precisam de ser dados se queremos buscar a verdadeira reconciliação e a unidade nacional. Tais passos podem ser resumidos no seguinte: a) Construir uma memória colectiva baseada na verdade dos factos: precisamos de enfrentar o que aconteceu de facto, sem omissões, precisamos de reconhecer os erros do passado, pois só assim poderemos curar as feridas não cicatrizadas deste passado. b) Construir uma visão compartilhada (sonhar juntos o mesmo sonho): isso passa primeiro pelo exercício do perdão sincero. Todas as partes envolvidas no diálogo, perdoando-se entre si, precisam de desenvolver uma visão comum de um futuro bom. Por isso, é preciso buscar pontos comuns, trabalhando juntos, frente a frente, com escuta mútua, aberta e sem preconceitos. c) Construir relações de confiança: depois do enfrentamento da verdade e da aceitação mútua, segue a construção de relações de confiança, respeito e cooperação entre todas partes envolvidas, promovendo a reparação dos danos, a justiça restaurativa, a empatia e a identificação de estratégias de resolução de conflitos. d) Operar uma mudança cultural e de mentalidade: isto passa por uma mudança significativa e radical nas atitudes, nos comportamentos e na mentalidade, passando a valorizar o outro, a aceitar as diferenças como riqueza, a vencer os preconceitos e a promover uma cultura de diálogo e compreensão. Tal mudança há-de ser concretizada pela revisão das leis, pela inclusão, pela igualdade de todos perante tais leis, pela promoção da justiça social, pela garantia dos direitos humanos e pela criação de mecanismos funcionais e pacíficos de resolução de conflitos. e) Rever e monitorar a Comissão Técnica para o Diálogo: todas as propostas das alíneas anteriores poderão tornar-se possíveis se houver um trabalho sério por parte desta Comissão. Por isso, dizemos que a constituição desta Comissão é o primeiro passo para se prever o sucesso (ou fracasso) do processo. Por isso, esta Comissão precisa de se examinar constantemente, de se julgar, de ter a certeza de que está a agir pelo bem do país, pela reconciliação de todos moçambicanos, pela paz e pela unidade nacional. Daí que haja a necessidade de garantir a sinceridade, seriedade e honestidade de cada integrante, desde o nível nacional até ao nível das províncias, distritos e comunidades.(3-fim) BOX Princípios orientadores do diálogo nacional inclusivo a) Primazia do Estado de Direito Democrático; b) Respeito pelos direitos fundamentais, pela unidade nacional, inclusão e reconciliação efectiva entre os moçambicanos; c) Priorização do bem-estar, justiça social e transparência; d) Construção de consensos em torno das soluções a serem propostas; e) Interseccionalidade; f) Igualdade e equidade; g) Equilíbrio de género; h) Justiça e transparência; i) Liberdade; j) Participação; k) Publicidade; l) Não causar danos; m) Legalidade. Os valores deste diálogo são: a) Cultura de paz; b) Respeito pelo pluralismo e diversidade; c) Cidadania; d) Equilíbrio de género; e) Tolerância; f) Reconciliação; g) Honestidade.
MULHERES QUE SUSTENTAM O PAÍS COM A VOZ
Por: Kant de Voronha Março e Abril chegam sempre com uma luz especial. Março traz o Dia Internacional da Mulher e Abril recorda-nos o poder da palavra e da comunicação na vida moçambicana. Quando olhamos para o nosso país com mais atenção, percebemos que estes dois meses não se podem separar. A mulher é, há séculos, a grande comunicadora da vida: é ela quem transmite valores, educa, partilha saberes, resolve conflitos, consola, encoraja, vigia, avisa e preserva a história oral. É também ela que domina a palavra doméstica, comunitária, religiosa e cultural. Por isso, juntar estes dois meses numa só reflexão não é apenas conveniente: é justo. A verdade é simples e profunda: a mulher moçambicana é uma ponte entre a vida e o futuro. E a sua voz é um dos instrumentos mais importantes para a construção da paz, da harmonia e da dignidade no país. A mulher que carrega o mundo sem fazer barulho Todos sabemos, mesmo sem estatísticas, que grande parte do peso do país assenta nos ombros das mulheres. São elas que acordam mais cedo, carregam bidões de água, fazem longas filas nos mercados, trabalham na machamba, sustentam a economia informal, organizam o lar, tratam dos filhos, ajudam os vizinhos e ainda encontram força para cantar, rezar e sorrir. O curioso é que tudo isto acontece quase sempre em silêncio. As mulheres trabalham numa espécie de heroísmo diário que raramente é reconhecido. A sociedade habituou-se tanto à sua resistência que, muitas vezes, nem percebe a injustiça de esperar tanto delas. Quando celebramos Março, não estamos apenas a elogiar as mulheres; estamos a admitir que, muitas vezes, falhamos com elas. O poder invisível da voz feminina Abril convida-nos a falar da comunicação. E aqui, novamente, encontramos a mulher no centro da conversa. A casa funciona porque a mulher comunica. O bairro mantém paz porque as mulheres conversam, aconselham, acalmam, chamam à razão. As igrejas têm vida porque as mulheres rezam, cantam, catequizam e animam. Os mercados sobrevivem porque as mulheres negociam, discutem preços, partilham informações e seguram a economia informal. Em muitas famílias, a figura que transmite valores como respeito, disciplina, fé, solidariedade e responsabilidade é a mãe ou a avó. É ela quem diz frases que moldam a personalidade dos filhos: “não mintas”, “trabalha com honestidade”, “não faltes ao respeito”, “não te metas em confusão”, “não explores ninguém”, “não desprezes quem sofre”. A comunicação feminina é formadora. Educa mais do que muitos programas oficiais. A mulher que enfrenta medos que não contam nas estatísticas A realidade da mulher moçambicana também tem sombras pesadas: violência doméstica, casamentos prematuros, assédio, desigualdades no emprego, exclusão de oportunidades, carga mental desproporcional, pobreza extrema, acesso limitado à educação e injustiça social. Muitas destas situações permanecem escondidas porque as vítimas têm medo de falar — ou porque não acreditam que alguém as irá ouvir. E aqui o tema da comunicação volta a aparecer: o silêncio imposto às mulheres é uma das formas mais cruéis de violência. Um país cresce quando a voz das mulheres é respeitada, escutada e protegida. Mulheres no jornalismo, na rádio e na comunicação comunitária Moçambique tem visto crescer o número de mulheres no jornalismo, na rádio e noutras formas de comunicação pública. Este avanço é importante porque a presença feminina muda, de forma positiva, a forma como contamos a realidade. As mulheres jornalistas tendem a abordar temas muitas vezes esquecidos: problemas de saúde materna, a luta das famílias pobres, as dificuldades das raparigas na escola, os desafios da violência baseada no género, a economia doméstica, a vida comunitária, os sentimentos das pessoas, as dores silenciosas. Quando uma mulher comunica, a sociedade ouve assuntos que antes eram ignorados. Mas ainda há desafios: desigualdade salarial, assédio nas redações, falta de oportunidades de liderança e a necessidade de maior segurança no terreno, especialmente nas zonas afectadas por violência ou instabilidade. A palavra como arma e como remédio No nosso contexto, a palavra pode ser cura ou ferida. Pode levantar ou derrubar. Pode orientar ou enganar. E muitas mulheres são vítimas de palavras que ferem: insultos, humilhações, ameaças, mentiras, fofocas destrutivas, manipulação emocional. Esta violência verbal é tão séria quanto a física, porque destrói lentamente a dignidade. Mas também há palavras que curam: palavras de apoio, encorajamento, solidariedade e esperança e a maioria destas palavras vêm das mulheres. Quando uma mulher diz “vai ficar bem”, a comunidade inteira respira melhor. A comunicação feminina como força de paz Em tempos de conflitos armados ou tensões comunitárias, quem cuida primeiro dos feridos, quem consola os vizinhos, quem garante que as crianças mantêm alguma rotina, quem organiza grupos de ajuda, quem procura informação para proteger a família? As mulheres. São elas que entendem que a paz não nasce de discursos: nasce de gestos pequenos, de palavras serenas, de reconciliações discretas, de coragem silenciosa. Se queremos promover paz em Moçambique, precisamos de ouvir mais as mulheres e aprender com elas. A fé feminina que sustenta a comunidade Nas paróquias, comunidades eclesiais, grupos de oração, cânticos e actividades sociais, a força motriz é feminina. A fé das mulheres não é apenas espiritual; é prática. É fé que cozinha para funerais, que acolhe órfãos, que visita doentes, que organiza coros, que mantém viva a tradição de celebrar, rezar e agradecer. Através da palavra de fé, elas transmitem esperança num país onde a vida é, muitas vezes, dura demais. Desafios que ainda pedem resposta Para honrar verdadeiramente as mulheres, não basta celebrar Março e Abril. É preciso transformar a realidade. Entre os maiores desafios estão: Garantir educação plena para raparigas; combater casamentos prematuros; criar mecanismos sérios contra a violência doméstica; apoiar mulheres empresárias e agricultoras; aumentar o acesso das mulheres à terra e ao crédito; valorizar o trabalho doméstico, que sustenta milhões; fortalecer a presença feminina em cargos de decisão; proteger a palavra das mulheres: o direito de falar sem medo. A palavra da mulher é património nacional Quando pensamos bem, percebemos que a voz feminina moçambicana é um património cultural. É pela voz das mulheres que as
abr 08 2026
Mulher: Tesouro precioso da sociedade
Por: Coordenação Esta edição única da Vida Nova, que une os meses de Março e Abril, convida-nos a olhar para a mulher com atenção renovada. Março lembra-nos o Dia Internacional da Mulher, a 8, e Abril convoca-nos para o Dia da Mulher Moçambicana, a 7. Duas datas próximas no calendário, mas sobretudo unidas por uma mesma urgência reconhecer, valorizar e proteger a dignidade da mulher, em todas as circunstâncias da vida. Em Moçambique, falar da mulher é falar do centro silencioso da família e da comunidade. É falar da mãe que sustenta o lar, da camponesa que trabalha a terra, da vendedora que garante o pão diário, da catequista que transmite a fé, da jovem que sonha com um futuro melhor. Mas é também falar da mulher que sofre mais quando o País é ferido por desastres naturais e pela violência armada. As cheias e inundações que recentemente atingiram o Centro e o Sul do País deixaram marcas profundas. Casas destruídas, campos perdidos, famílias deslocadas. Nestes cenários, a mulher aparece muitas vezes como a primeira a organizar a sobrevivência. Cuida das crianças, dos idosos, procura água, alimento, abrigo. Faz tudo isto em condições duras, com poucos recursos e, não raras vezes, sem voz nas decisões que afectam a reconstrução. A crise ambiental não é neutra. Pesa mais sobre quem já vive em situação de fragilidade. O Magistério da Igreja tem-nos recordado, de forma clara, que o cuidado da casa comum é inseparável do cuidado das pessoas. Quando a terra é maltratada, quando os rios transbordam por falta de protecção ambiental, quando o clima se torna imprevisível, os pobres sofrem primeiro. E entre os pobres, as mulheres sofrem mais. Cuidar do ambiente é, portanto, um acto de justiça. É uma escolha moral que protege a vida, hoje e amanhã. Ao mesmo tempo, o terrorismo que desde Outubro de 2017 assola Cabo Delgado, atingindo também Memba, tem deixado um rasto de dor difícil de descrever. Deslocações forçadas, famílias desfeitas, medo permanente. Mais uma vez, as mulheres carregam um peso particular. Muitas perderam maridos e filhos, outras foram obrigadas a fugir, deixando tudo para trás. Mesmo assim, continuam a ser fonte de resistência, de cuidado e de esperança nos centros de acolhimento e nas comunidades feridas. A Igreja ensina-nos que não pode haver verdadeira paz sem justiça. A violência não se combate apenas com armas, mas com dignidade, inclusão e solidariedade. Promover a paz em Cabo Delgado passa por escutar as populações, valorizar o papel das mulheres na reconstrução do tecido social e criar condições para uma vida segura e digna. A mulher não é apenas vítima da guerra. É também artesã da paz, quando lhe é dada oportunidade. Neste tempo marcado por desafios ambientais e humanos, somos chamados a uma solidariedade concreta. Celebrar a mulher nestes dois meses não é apenas um gesto simbólico. É um compromisso. Compromisso com a vida, com a justiça, com a paz e com o cuidado da criação.
abr 07 2026
O Mukhero: A mulher no mercado informal
Por: Mónica Meque Um dos maiores desafios actuais da camada juvenil feminina em Moçambique é a busca pelo emprego formal. Actualmente, muitos jovens, as mulheres inclusive, mesmo com uma boa formação tem enfrentado o dilema do desemprego, contrariando a famosa tese que a baixa escolaridade é o maior pivô do desemprego nos Países em via de desenvolvimento. A crescente globalização, as deficientes políticas públicas, a fraca industrialização, a crise económica, os desastres naturais, o crescimento demográfico, a corrupção, entre outros factores, têm sido apontados como principais causas deste fenómeno em Moçambique. Com intuito de sobreviver, custear as despesas alimentares, de educação, de saúde, manter a sua dignidade humana, os jovens buscam de todas as formas possíveis estratégias para o alcance destes objectivos, demostrando sua determinação e resiliência perante este grande desafio. Uma destas formas é o sector informal. OIT (2006) define o sector informal como um conjunto de unidades empenhadas na produção de bens ou serviços, tendo como principal objectivo a criação de empregos e de rendimentos para as pessoas envolvidas. Em Moçambique este sector é caracteririzado como um leque de actividades não registadas pelas entidades estatais responsáveis por tal, composta por pequenas empresas, com principal intuito o sustento familiar. O mercado informal tem sido a alternativa de muitos jovens moçambicanos tanto os não escolarizados como os formados na busca de seus anseios. Este sector actualmente engloba maior parte de trabalhadores do sexo feminino, ou seja, mulheres, com maior incidência nas zonas rurais como aponta INE (2005). Mesmo com inúmeros desafios tais como a insegurança do mercado, o preconceito, a desconfiança tanto dos agentes estatais como da população, elevadas tarifas alfandegárias, várias são as mulheres que se colocam as ruas para vender produtos alimentares, de beleza, calcados, roupa de calamidade entre outros, buscando o seu sustento e o de suas famílias, demostrando assim a sua força e luta constante na autoafirmação de seus direitos e valores. Um dos exemplos concretos da batalha pela sobrevivência e afirmação dos valores e direitos da mulher assenta na firmação da popular actividade “mukhero”, que é caracterizada por ser praticada maioritariamente por mulheres, na qual deslocam-se a determinado ponto nacional ou estrageiro (maioritariamente) com maiores facilidades, em termos de preços, ou seja, mercados onde os preços praticados são relativamente baixos comparados aos do nosso País e vêm revender no mercado nacional. Porém, essa actividade não é tão fácil como parece. No seu livro sobre o “tempo da juventude”, Alcinda Honwana, elucida alguns desafios e riscos enfrentados nesta actividade. Dentre os mais destacados, estão as elevadas tarifas alfandegárias, que acabam influenciando negativamente nos lucros destas. Não menos importante, faz com que muitas mulheres optem por mecanismos não adequados como fuga ao fisco. O Mukhero tem sido uma das principais fontes de provisão de alimentos, educação e saúde de muitas famílias em Moçambique, principalmente na Zona sul de Moçambique. E, em geral, o mercado informal é um sector que muito contribui para o alívio da pobreza das famílias moçambicanas. Vários são os médicos, professores, enfermeiros, advogados, mecânicos entre outros que se formaram à custa do trabalho e esforço dos trabalhadores informais, “de uma Mãe que vendeu quase a vida inteira tomate no mercado de Maquinino para formar o seu filho”. Por isso, torna-se importante valorizar e proteger esse sector, criando segurança social para esses trabalhadores de forma a reduzir a sua vulnerabilidade; adoptando e implementando políticas eficientes, eficazes e sustentáveis; investindo nas infraestruturas como mercados entre outros. É necessário valorizar a contribuição das mulheres neste sector pois a sua inserção nas actividades económicas torna a sociedade mais equilibrada e justa. Não menos importante, como aponta o historiador Jorge Jairoce, em sua obra sobre a Mulher e o comércio informal transfronteiriço, a mulher no mercado informal proporciona um impacto directo e positivo nas relações de género, uma vez que a mulher passa a gozar da intervenção económica e social na família. Ela deixa de ser representada como mulher doméstica e submissa ao homem, no contexto da cultura patrilinear, e passa a ter voz na resolução dos problemas da família e da comunidade. Uma comunidade onde a mulher é sujeito activo tanto na vida social como na vida económica, essa comunidade torna-se abençoada e próspera.
𝗗𝗼𝗺 𝗜𝗻𝗮́𝗰𝗶𝗼 𝗦𝗮𝘂́𝗿𝗲 𝗱𝗲𝗻𝘂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝘁𝗿𝗮́𝗳𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗲 “𝘀𝗮𝗹” 𝗲 𝗮𝗹𝗲𝗿𝘁𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗱𝗲𝘀𝘁𝗿𝘂𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗮 𝗷𝘂𝘃𝗲𝗻𝘁𝘂𝗱𝗲 𝗲𝗺 𝗡𝗮𝗺𝗽𝘂𝗹𝗮
Na celebração do Domingo de Ramos, na Sé Catedral de Nampula, marcada por uma procissão bastante concorrida de fiéis que, com ramos nas mãos, entoavam “Hosana, Filho de David”, o Arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saúre, lançou uma forte denúncia contra os males que, segundo afirmou, estão a corroer a sociedade moçambicana, com destaque para a droga conhecida localmente por “sal”, associada à met*nfet*min*. Na homilia, Dom Inácio recordou que a liturgia deste dia une o triunfo e a glória de Cristo ao sofrimento e à humilhação da sua paixão, sublinhando que o verdadeiro discípulo é chamado a seguir o caminho de Jesus, que “doa a sua própria vida” pelos outros. O prelado apelou ainda à conversão sincera nesta recta final da Quaresma, advertindo que práticas exteriores como jejum, oração e peregrinação perdem sentido sem reconciliação interior com Deus e com os irmãos. Trazendo a reflexão para a realidade concreta de Nampula e de Moçambique, Dom Inácio Saúre condenou com firmeza os que promovem e lucram com a circulação do “sal”, afirmando que esta droga foi introduzida para “dizimar sobretudo os adolescentes e os jovens” e destruir a sociedade pela raiz. O Arcebispo classificou este fenómeno como uma “nova guerra silenciosa” contra o povo moçambicano e afirmou que quem persiste em vender esta substância “é verdadeiramente um anticristo”. Num tom profético, exortou os fiéis a não “lavarem as mãos como Pilatos” perante os males que ferem a sociedade, mas a assumirem a responsabilidade de agir em defesa da vida, da juventude e dos valores humanos e
mar 27 2026
VI DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR – 29/03/2026
Is 50,4-7; Filip 2,6-11; Mt 26,14-27,66 ou Mt 27,11-5 Vida Cristã, Caminho do “Hosana ao Crucifica-O Neste domingo de Ramos, a liturgia da palavra convida-nos a entrarmos com Jesus em Jerusalém. Ao mesmo tempo que nos insere na Semana das semanas, a Semana Santa. É nesta semana que se resume a história da nossa Salvação com o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. O povo agita ramos, canta, louva. Mas pouco depois, o mesmo povo, manipulado pelos líderes, grita: “Crucifica-O!” Um grito cada vez mais actual para a nossa sociedade: um povo frequentemente manipulado por discursos políticos, por promessas de campanha, por mensagens de ódio tribal, por influências externas, por propaganda que cria ilusões. O Cântico do Servo de Isaías demostra força interior: “O Senhor Deus veio em meu auxílio; por isso não me deixei abater”. A carta aos Filipenses recorda-nos que Jesus não procurou poder, mas baixou-se, serviu, deu a vida. Este é o modelo de liderança que o nosso mundo precisa: líderes que lavem os pés do povo, líderes que não façam da política um negócio familiar, líderes que pensem no bem comum, líderes que não governem por medo, mas por serviço. A paixão de Jesus mostra que a injustiça tem um sistema, os inocentes podem ser condenados, os bons podem ser calados, a verdade pode ser distorcida. Mas também mostra que Deus não abandona quem é fiel. A ressurreição está à frente. Compromisso – A fé cristã é profundamente social e política, porque Deus se fez homem num mundo cheio de injustiças. – Sigamos Jesus não só com ramos na mão, mas com compromisso na vida.
mar 26 2026
ONU declara escravidão como o crime mais grave contra a humanidade
A Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica que classifica a escravidão transatlântica como o “crime mais grave contra a humanidade”. A proposta, apresentada por Gana, também abre espaço para debates sobre reparações aos povos africanos, destacando que milhões de pessoas foram deportadas e exploradas entre os séculos XV e XIX, cujos efeitos ainda se fazem sentir, sobretudo na desigualdade racial. A votação revelou divisões entre os países. Um total de 123 Estados votou a favor, enquanto os Estados Unidos e outros poucos países votaram contra, e vários membros da União Europeia optaram pela abstenção. O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu que é preciso agir com mais coragem para enfrentar as injustiças do passado, sublinhando a necessidade de medidas concretas. A resolução incentiva os países a iniciarem diálogo sobre reparações, incluindo pedidos formais de desculpas, compensações financeiras e devolução de bens históricos. Enquanto África pressiona por justiça, alguns países ocidentais continuam a rejeitar a ideia, alegando que não devem responder por erros históricos, o que mantém o debate internacional aceso.
mar 23 2026
V Domingo da Quaresma – 22/03/2026
Ez 37,12-14; Rom 8, 8-11; Jo 11,1-45 ou Jo 11,3-7.17,20-27.33b-45 Jesus liberta-nos dos nossos túmulos A liturgia deste Domingo convida-nos a acolher a libertação que Jesus nos traz, a de sairmos dos nossos túmulos. A visão de Ezequiel, na primeira leitura, mostra um povo que perdeu a esperança, um povo que se sentia num sepulcro. Hoje, muitos irmãos dizem: o mundo, a sociedade não muda, os jovens não têm futuro, só vive quem rouba, as promessas são eternas, mas os resultados são poucos. Esse é o “túmulo” de nossa consciência. No evangelho (Jo 11,1-45) Jesus chega ao túmulo de Lázaro e chora. Isto revela uma verdade forte: Cristo sente a dor do povo. Ele vê as mães que perdem filhos na estrada, os jovens que morrem na droga, os deslocados que abandonam aldeias, os trabalhadores explorados sem salários dignos, as famílias destruídas pelo álcool, etc. Mas Jesus não se limita a chorar. Ele dá uma ordem: “Lázaro, vem para fora!” É uma ordem para todos os “Lázaros” da nossa sociedade: Lázaro que vive amarrado pelo medo; Lázaro que vive amarrado por vícios; Lázaro amarrado por má governação; Lázaro amarrado pelo desânimo; Lázaro amarrado por falta de oportunidades. Depois Ele diz: “Desatai-o e deixai-o ir.” Ou seja: libertem-no das estruturas injustas, dos sistemas opressores, dos hábitos que o escravizam. A nossa sociedade precisa ressuscitar. Mas a ressurreição começa quando alguém tem coragem de remover a pedra. A pedra da corrupção, da mentira, da violência, da injustiça, da pobreza. Cristo é mais forte do que todos os túmulos. Compromisso Cada um de nós identificar o túmulo da sua vida, da sua família, da sua comunidade, e obedecer a ordem de Jesus: “Lázaro, vem para fora!”.


