SINAIS E SÍMBOLOS, NA BÍBLIA
Daniel A. Raul Conceitos: Símbolo e sinal Iniciámos esta reflexão procurando perceber a ligeira diferença entre sinal e símbolo: “sinal é indício, prova, aviso, emblema… O sinal indica algo de forma directa, funcional e objectiva, enquanto um símbolo representa conceitos abstractos, culturais ou emocionais com significados profundos e múltiplos. Sinais avisam (muitas vezes convencionais, carecem de iniciação para interpretá-los e entendê-los) ou instruem (exemplo: o semáforo). Na Bíblia, às vezes é algo que transcende o rumo comum da natureza; símbolos (do grego, symbolon = prova, de symballein = juntar) evocam ideias ou convicções (pombo da paz, bandeira nacional, aliança de casamento, logótipos), podem ser também convencionais, mas culturalmente construídos, e evocam um mundo de associações. Em muitos casos, mesmo na Bíblia, símbolo e sinal aparecem como sinónimos ou um ao lado do outro” (cfr. Bíblia Africana, p. 2259). De facto, em algum momento desta breve reflexão, poderemos usar as palavras “símbolo” e “sinal” como sinónimas. Palavras e manifestações simbólicas no Antigo Testamento São várias as passagens bíblicas que apresentam a palavra ou palavras que, traduzidas em português, significam “sinal”. Em Ex 12,13: o hebraico ‘ot significa sinal distintivo das casas durante as pragas no Egipto; Gn 9,12: o arco-íris como sinal da aliança; Ex 3,12: sinal da verdade de uma afirmação; Js 4,6: memorial; Ex 4,8: sinal = milagre; 2Rs 20,8: sinal = presságio. Em Jz 6,17: sinal é a prova do encargo recebido, é a sua legitimação; mas em 1Sm 14,10: ‘ot é a conduta dos inimigos. A palavra grega para dizer sinal é σημειον (lê-se: semeion) e aparece diversas vezes na Bíblia grega do Antigo Testamento, chamada A Setenta (LXX). As estatísticas da presença dessa palavra no AT são: 79 vezes no Antigo Testamento, das quais 39 vezes no Pentateuco e 19 vezes em Isaías, Jeremias e Ezequiel (provavelmente por causa das famosas acções simbólicas presentes nesses profetas). Ainda no AT, é frequente a expressão “sinais e prodígios” (‘otôt ûmôfetîm), quase sempre em referência à libertação no Egipto, com interpretação deuteronomista (após a Reforma religiosa do rei Josias, em 622 a.C.). 2.1. Acções simbólicas nos profetas Nos profetas, ‘ot (sinal) tem a função de legitimar a palavra de Deus que se realizará no futuro (Dt 13,2), como um modo de o profeta encontrar legitimidade diante dos ouvintes (1Sm 2,34). As acções simbólicas nos profetas acontecem, especialmente em Ez, Jer e Is, por ordem divina que deve ser obedecida e são ligadas a uma interpretação que, por sua vez, deve ser feita. Têm testemunhas oculares, visam sempre algum fim, são sinais divinos que comportam um anúncio e são sinais que por si só falam… Por exemplo, nas acções simbólicas (Is 8,18; Is 20,3; Ez 4,3; Ez 5,1-17; Ez 12,6.11; Ez 24,15-27; Jer 13,1ss; Jer 18,1-11; Jer 19,1ss; Jer 28,1ss…), neste caso, ‘ot refere-se à mensagem do profeta: o sinal tem a mesma função da palavra profética, como nos exemplos acima. ‘Ot pode indicar “memória” que chama a atenção para a acção salvífica de Deus ou ponto de chegada futuro da obra de Deus, sobretudo em textos que se aproximam da apocalíptica (Is 19,20; Is 53,13). Sinais e símbolos no Novo Testamento, especialmente no Evangelho segundo S. João Embora a palavra grega semeion (sinal) apareça diversas vezes nos evangelhos (veja-se o “sinal de Jonas” referido por Jesus em Mt 12,38-40 e Lc 11,29-32), é sobretudo no Evangelho segundo S. João que essa presença é mais frequente, a ponto de os sinais serem um conteúdo central e estruturante desse Evangelho, e por isso, a primeira parte desse livro se designa “Livro dos Sinais” (João, capítulos 1-12). Os sete sinais no Evangelho de S. João são: a transformação da água em vinho (Jo 2,1-11), a cura do filho do oficial do rei (Jo 4,46-54), a cura do paralítico em Betesda (Jo 5,1-15), a multiplicação dos pães (Jo 6,1-14), Jesus andando sobre as águas (Jo 6,16-21), a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-44). A seguinte passagem resume o propósito dos sinais, em Jo 20,30-31: “Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida n’Ele”. Desse modo, João explica o objectivo dos milagres realizados por Jesus, que, neste evangelho, são designados por “sinais”: eles servem para revelar a divindade de Jesus e convidar as pessoas à fé. Do sinal e símbolo bíblico para o sinal/mistério na Igreja primitiva Na comunidade primitiva, a par do pão, do vinho e do cordeiro, pontifica o sinal do peixe (em grego ΙΧΘΥΣ, lê-se ikthus), o qual servia como código secreto e uma profunda profissão de fé, pois as suas letras formam uma sigla (Jesus Cristo, de Deus Filho, Salvador), para despistar os perseguidores do cristianismo nos primeiros séculos, tempo das catacumbas e de muita perseguição por causa da fé em Jesus Cristo. Elementos para uma conclusão Os símbolos na Bíblia abrangem: a) Linguagem: parábolas, alegorias e comparações (2Sm 12,1-15; Lc 7,41-42; Lc 17,11-19). b) Números: 2 a 2 discípulos, 3 dias sepultado, 7, 12, 40, 50 ou 7×7=49, 70×7, 80, 1000, 5000. c) Acções (simbólicas) que equivalem a palavras (especialmente em Is, Ez e Jer). d) Veste: sandálias, manto, saco, faixa nos rins, báculo de pastor, cinza (Jer 1,17; Lc 12,35; Jo 13; 1Pd 1,13). e) Comida e bebida: leite e mel, acolhimento e comida especialmente como hospitalidade (A PRÓPRIA EUCARISTIA), pão e vinho, comer de pé no Egipto (Gn 14,18; Ex 3,8; Lc 22,19-20). f) Animais: leão, lobos, cães, serpente, touros, vacas, cordeiro, pombo (Am 4,1; Sl 22; 1Pd 5,8; Ap 5,5). g) Gestos: lavar os pés, sacudir o pó, imposição das mãos, rasgar as vestes (Mt 10,14; Jo 13; At 14,14; Hb 6,1-2). Deste resumo, vemos a necessidade de conhecer e aprofundar tanto os sinais como os símbolos bíblicos para mantermos a alegria de entrar no Mistério
Os Pais: Primeiros Catequistas na Bíblia
Pe. Marcos Mubango Introdução A transmissão da fé constitui uma das principais preocupações da revelação bíblica. Desde o Antigo Testamento, Deus confia à família a missão de conservar e transmitir a memória da sua acção salvífica. Neste contexto, os pais aparecem como os primeiros catequistas dos filhos, responsáveis por introduzi-los no conhecimento de Deus, na observância da Aliança e na prática da vida religiosa. A presente reflexão pretende mostrar que esta missão possui sólido fundamento bíblico e continua a constituir um princípio orientador da acção catequética da Igreja. Os pais como educadores da fé no Antigo Testamento O fundamento da catequese familiar encontra-se na vocação de Israel para transmitir a fé de geração em geração. Em Génesis 18, 19, Deus afirma ter escolhido Abraão para ensinar os seus descendentes a seguir os caminhos do Senhor, revelando que a educação religiosa integra o próprio projecto da Aliança. O texto central desta missão é Deuteronómio 6, 4-9, onde, após a profissão de fé do Shema Israel, Moisés ordena que os mandamentos sejam constantemente ensinados aos filhos. A Palavra de Deus deve acompanhar toda a vida quotidiana: em casa, durante as viagens, ao levantar e ao deitar. A catequese deixa, assim, de ser um acto ocasional para se tornar um verdadeiro estilo de vida. Esta missão prolonga-se na pedagogia da memória. Quando os filhos interrogam os pais acerca do significado dos mandamentos, estes respondem narrando a libertação do Egipto (Dt 6, 20-25). A transmissão da fé realiza-se, portanto, através da recordação das obras de Deus na história, tornando a experiência da salvação o fundamento da educação religiosa. A catequese familiar no Novo Testamento O Novo Testamento confirma a centralidade da família na formação da fé. Jesus cresceu no ambiente religioso da família de Nazaré, sendo educado por Maria e José na observância da Lei e das tradições de Israel (Lc 2, 41-52). A Encarnação confere à vida familiar um significado singular, mostrando que o próprio Filho de Deus quis experimentar o processo humano de crescimento numa família. As cartas paulinas reforçam esta responsabilidade ao exortarem os pais a educar os filhos “na disciplina e na instrução do Senhor” (Ef 6, 4). O exemplo de Timóteo, formado na fé pela mãe Eunice e pela avó Lóide (2 Tm 1, 5), evidencia que o testemunho familiar constitui o primeiro ambiente de iniciação cristã. Implicações teológico-pastorais A missão catequética dos pais ultrapassa a simples transmissão de conhecimentos religiosos. Ela concretiza-se sobretudo através do testemunho de vida, da oração em família, da participação na liturgia e da prática da caridade. A família torna-se, deste modo, uma verdadeira comunidade educativa da fé. Num contexto marcado pela secularização e pela fragilidade das relações familiares, a redescoberta desta vocação revela-se essencial para a renovação da catequese. A comunidade paroquial exerce uma função indispensável, mas não substitui a responsabilidade originária dos pais, primeiros educadores da fé dos seus filhos. Conclusão A análise dos principais textos bíblicos permite concluir que a missão catequética dos pais possui origem divina e ocupa um lugar central na história da salvação. Desde Abraão até às primeiras comunidades cristãs, a família é apresentada como o espaço privilegiado da transmissão da fé. A Palavra de Deus, celebrada, vivida e testemunhada no ambiente familiar, garante a continuidade da Aliança entre as gerações e faz da família uma verdadeira “igreja doméstica”. Recuperar esta consciência constitui um dos desafios mais relevantes para a catequese e para a pastoral familiar da Igreja na actualidade. Anexo A Bíblia considera a família também como o local da catequese dos filhos. Vê-se isto claramente na descrição da celebração pascal (cf. Ex 12, 26-27; Dt 6, 20-25) – mais tarde explicitado na haggadah judaica –, concretamente no diálogo que acompanha o rito da ceia pascal. Eis como um Salmo exalta o anúncio familiar da fé: «O que ouvimos e aprendemos e os nossos antepassados nos transmitiram, não o ocultaremos aos seus descendentes; tudo contaremos às gerações vindouras: as glórias do Senhor e o seu poder, e as maravilhas que Ele fez. Ele estabeleceu um preceito em Jacob, instituiu uma lei em Israel. E ordenou aos nossos pais que a ensinassem aos seus filhos, para que as gerações futuras a conhecessem e os filhos que haviam de nascer a contassem aos seus próprios filhos» (Sl 78/77, 3-6). Por isso, a família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa «artesanal», pessoa a pessoa: «Se amanhã o teu filho te perguntar (…), dir-lhe-ás…» (Ex 13, 14). Assim, entoarão o seu canto ao Senhor as diferentes gerações, «os jovens e as donzelas, os velhos e as crianças» (Sl 148, 12). Amoris Laetitia 16
set 11 2026
A falsa propaganda de unidade nacional e o desafio da exclusão política e económica
Deolindo Paúa Celebrámos a 25 de Junho deste ano 51 anos de independência. A tónica dos discursos de ocasião foi sempre a unidade nacional para alcançar a independência económica. Voltámos a gritar “Viva a unidade nacional!”, mesmo conscientes de que a nossa desunião como povo se aprofunda a cada dia por causa das nossas opções de governação. Se há uma verdade no discurso de unidade nacional repetido a cada evento comemorativo é que, de facto, dispersos e sem unidade, dispersamos também energias que deveríamos orientar para uma só causa: a causa do desenvolvimento económico do nosso país. Desuniões baseadas em banalidades e em conflitos de poder nunca nos levarão à prosperidade. A nossa união deve encabeçar a nossa vontade de mudar o presente e de lutar por um futuro melhor. Todos os políticos deveriam ser chamados à consciência sobre esta finalidade. Se os partidos políticos são orientados apenas pelo desejo de posse de poder e não pelo anseio de fazer a diferença no projecto de melhorar Moçambique, então a sua existência é inútil. A cada ciclo eleitoral vemos esforços de políticos e dos seus partidos para alcançar o poder. Mas para quê? Os sinais mostram que a única intenção dos partidos políticos que lutam pelo poder é ter acesso aos recursos para resolver problemas dos seus grupos. Provam-no as deficiências de gestão de poder dentro dos próprios partidos. Assim, partidos que deveriam ser alternativas ideológicas para a realização da mesma causa nacional tornam-se grupos de rivalidades e de dispersão de esforços. A unidade nacional, que deveria ser solidificada pelo direito a essas várias visões políticas para o país, fica, ao contrário, em crise ao pregarem-se ideologias de divisionismo. A falsa unidade nacional como causa da exclusão A nossa independência foi fruto da unidade nacional. Mas o acesso ao poder, depois da proclamação da independência, não seguiu a mesma lógica. Por meio de critérios duvidosos, o poder foi distribuído entre aqueles que atribuíram a si mesmos a legitimidade de aceder-lhe. A exclusão de pessoas de visões diferentes da daqueles que assumiram o poder começou uma nova era nacional: a era da falsa unidade nacional pregada nos púlpitos, mas negada na realidade. Desde essa altura, prega-se a unidade nacional nos comícios, nas cerimónias oficiais do Estado, nos encontros diplomáticos, nos acordos políticos, etc., mas na realidade, em termos de acções, não se veem sinais tendentes à unidade nacional. Pelo contrário, a crise da unidade nacional, que antes era movida por facções tribais, hoje atingiu outros estágios. A exclusão política e económica encabeçam uma nova desunião, mesmo antes de se resolver o problema da desunião causada pelos factores tribais e regionais. Hoje, a pobreza é causada pela exclusão económica e política. Tal como se faz nos discursos políticos, a nossa unidade nacional deveria reflectir-se em esforços de dar espaço a todos para contribuírem de igual forma para a chamada independência económica. Mas o nosso modelo de união discrimina os mais pobres e exclui os que não possuem recursos para medir forças na batalha pelo acesso a recursos de desenvolvimento. O exemplo mais prático é o da exclusão no acesso ao emprego e ao financiamento de projectos de renda. Quase sempre, os que conseguem emprego são os que conseguem pagar por ele. Os que conseguem financiamento são os que possuem influência política ou económica para sensibilizar quem decide. A exclusão política segue o mesmo caminho. A via da filiação partidária tem sido usada para excluir muitos cidadãos do acesso a recursos de sobrevivência, num claro atentado à unidade nacional. A unidade nacional, que deveria significar a mobilização de todos para o trabalho, é condicionada a sensibilidades políticas. Não é ao acaso que os lugares estratégicos de decisão para o desenvolvimento do país não são confiados a pessoas competentes. O único critério para aceder a tais lugares tem sido o da filiação política. Esta prática tem excluído milhões de moçambicanos que gostariam de contribuir para o desenvolvimento do país. Enquanto as nossas políticas económicas continuarem excludentes, não podemos falar de unidade nacional. A dependência política e económica continuarão se as nossas opções para alcançar o progresso forem selectivas e condicionadas a pertenças políticas. O país é de todos e quem governa deveria ter o domínio desta base. A unidade nacional não se faz com discursos embelezados de aparentes boas intenções. Ela é o resultado de acções concretas que, com patriotismo, mobilizam a todos e disponibilizam recursos para a luta contra a pobreza, tal como no passado foi feito na luta contra o colonialismo.
Curiosidades sobre a Bíblia
Na antiga Fenícia (hoje correspondente ao Líbano), havia uma cidade chamada Biblos (βύβλος).Lá, se produzia uma planta que, depois de bem preparada, era usada para receber a escrita: o papiro. As coleções de escritos em papiro eram chamadas de rolos ou “livros”. Por isso, Bíblia (βιβλία — palavra grega no plural) é um conjunto de rolos ou livros de papiros que formam uma pequena biblioteca em um só lugar. A Sagrada Escritura começou a ser registrada entre o ano 1500 a.C. e o ano 150 d.C., Ou seja, ela levou cerca de 1600 anospara ficar pronta. Nos seus textos originais, a Escritura não tinha a divisão em versículos e capítulos. Entre 1227 e 1228, o teólogo Stephen Langton, bispo de Cantuária, na Inglaterra,realizou um detalhado trabalho para dividir a Bíblia inteira em capítulos. Apenas em 1551, Robert d’Etiénne, um tipógrafo francês, conseguiu dividir a Bíblia toda em versículos. Ele se baseou nos esforços de estudiosos judeus, conhecidos como massoretas, que já haviam esboçado uma divisão em versículos do Antigo Testamento nos séculos IX e X. Qual o livro mais longo e o mais curto? O título de maior livro são os Salmos.O livro contém hinos, louvores, orações de agradecimento, súplicas e cânticos, somando um total de 150 composições abordando diversos temas. O mais curto é a Terceira Epístola de João, com apenas 14 versículos. Em quais idiomas a Bíblia foi escrita? Foram em três línguas.Os autores escreveram a maior parte do Antigo Testamento em hebraico antigo, incluindo o Pentateuco, os Livros Históricos, os Livros Proféticos e parte dos Livros Sapienciais. Os escritores também usaram o aramaico para compor alguns trechos do Antigo Testamento,especialmente nos Livros de Daniel e Esdras. Isso ocorreu durante o Exílio Babilônico e reflete a influência dessa língua na região. Já o Novo Testamento foi escrito em grego.Os autores compuseram os Evangelhos, as Epístolas e o Livro do Apocalipse nesse idioma, o que possibilitou uma ampla divulgação da mensagem de Jesus Cristo na época. Por que Nossa Senhora é citada poucas vezes na Bíblia? Apesar de sua grande importância no Cristianismo sendo a Mãe de Jesus e nossa Mãe, as palavras de Maria são concentradas em momentos-chave, como o Magnificat em Lucas 1,46. A missão de Nossa Senhora está totalmente ligada a missão do seu próprio Filho. E uma das características mais bonitas da Mãe de Deus é exatamente essa,Maria ser a Virgem do silêncio, aquela cuja presença fala e muito ao nosso coração. Como interpretar a Sagrada Escritura? À luz do Espírito Santo, da própria Igreja a partir da Tradição e do Magistério,é possível entender que existem passagens literais e simbólicas na Bíblia. Isso significa que nem tudo nas Escriturasé para ser compreendido de maneira estritamente literal, pois possuem significados mais profundos, usando linguagem poética ou imagens que apontam para verdades espirituais. Um exemplo disso está em Marcos 9,43, quando Jesus fala que “Se tua mão te leva a pecar, corta-a!”,não é para fisicamente realizar este corte, mas a real mensagem é que se amamos verdadeiramente a Deus, devemos detestar tudo o que O aborrece e O ofende, rompendo definitivamente com o pecado, principalmente atitudes com mais apego ou mesmo afetos impuros.
A Palavra que reconcilia, a Casa Comum que nos une
A coordenação O mês de Setembro convida-nos, de modo muito especial, a voltar o coração para a Palavra de Deus. A Bíblia não é apenas um livro antigo nem uma colecção de histórias do passado. Ela é a voz viva de Deus que continua a iluminar os caminhos da humanidade, a fortalecer a esperança e a indicar o rumo para uma vida mais justa, mais fraterna e mais solidária. Vivemos tempos marcados por muitos desafios. O nosso País continua a procurar caminhos seguros para consolidar a paz, fortalecer a reconciliação e construir uma verdadeira unidade nacional. Ao mesmo tempo, enfrentamos problemas ambientais que ameaçam a vida das pessoas, das comunidades e das futuras gerações. A degradação das florestas, a poluição, as mudanças climáticas e a exploração irresponsável dos recursos naturais recordam-nos que a criação não é propriedade de alguns, mas um dom de Deus confiado a todos. Foi precisamente esta preocupação que levou o Papa Francisco a oferecer à Igreja e ao mundo a Encíclica Laudato Si’. Nela somos convidados a compreender que tudo está interligado. Não podemos separar o cuidado da natureza do cuidado das pessoas, sobretudo dos pobres, dos doentes, dos idosos e das crianças. Quando destruímos a criação, também ferimos a dignidade humana. Quando protegemos a vida, protegemos igualmente a obra do Criador. Mas não haverá verdadeiro cuidado da Casa Comum sem corações reconciliados. A paz começa no interior de cada pessoa, cresce na família, fortalece-se nas comunidades e produtos e produz frutos na sociedade. A reconciliação não significa esquecer o passado, mas decidir construir um futuro onde prevaleçam o perdão, a justiça, a verdade e o respeito mútuo. Um povo dividido desperdiça energias; um povo unido encontra força para vencer as dificuldades e alcançar o desenvolvimento. A Palavra de Deus oferece-nos esta sabedoria. Ela ensina-nos que todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, somos irmãos. Não há lugar para o ódio, para a exclusão, para a violência ou para a indiferença. O cristão é chamado a ser construtor de pontes, promotor do diálogo e testemunha da esperança. A fé que professamos deve traduzir-se em gestos concretos de amor, de respeito pela criação e de compromisso com o bem comum. Neste mês da Bíblia, somos convidados a renovar o hábito da leitura diária das Sagradas Escrituras. Uma família que reza com a Palavra de Deus torna-se mais unida. Uma comunidade que escuta a Palavra torna-se mais missionária. Uma nação que se deixa iluminar pelos valores do Evangelho fortalece a justiça, a paz e a solidariedade. Que Maria, Mãe da Igreja e Rainha da Paz, nos acompanhe neste caminho de conversão. Que aprendamos a ouvir a Palavra de Deus, a cuidar da Casa Comum e a trabalhar, todos os dias, pela reconciliação e pela unidade nacional. Assim construiremos um Moçambique mais humano, mais fraterno e mais fiel ao projecto de Deus para o seu povo. Unidos na fé!
set 03 2026
Crónica: Quando a autonomia se confunde com auto-suficiência
Giovanni Muacua Há um fenómeno silencioso que se vai instalando na nossa sociedade e que poucos ganham a coragem de discutir. Fala-se muito da emancipação feminina, da independência económica e da igualdade de direitos, que são conquistas legítimas e inegociáveis. Mas fala-se pouco dos excessos que, por vezes, acompanham essas conquistas. O problema não está na liberdade da mulher. O problema começa quando a liberdade é confundida com auto-suficiência e quando a independência financeira passa a ser entendida como licença para dispensar os valores que sustentam uma família. Há dias, num transporte semicolectivo, enquanto seguia para o trabalho, testemunhei uma conversa que me fez reflectir. Duas senhoras conversavam animadamente. Uma delas, aparentemente recém-formada na área da saúde, dizia à amiga: “Mana, estou cansada daquele homem. Assim que eu for colocada no Aparelho do Estado, nem me vou despedir dele. Simplesmente desapareço. Com o meu salário consigo alimentar-me”. A frase foi dita com orgulho, como quem anuncia uma grande conquista. O silêncio que se fez no interior da viatura foi revelador. Alguns passageiros trocaram olhares discretos. Ninguém respondeu. Mas todos pareciam compreender que aquela afirmação dizia muito mais do que as palavras pronunciadas. Aquela mulher certamente tem a sua história. Talvez tenha sofrido humilhações. Talvez tenha enfrentado desprezo ou violência. Não conhecemos a sua realidade e seria injusto julgá-la. Contudo, o seu discurso espelha uma mentalidade que se torna cada vez mais visível: a crença de que o emprego, o salário e a autonomia económica tornam dispensável o compromisso afectivo. É aqui que reside uma das grandes ilusões do nosso tempo. Vivemos numa sociedade que mede o sucesso pelas posses, pelo cargo ocupado e pelo saldo da conta bancária. Ensina-se a conquistar diplomas, empregos e património, mas ensina-se cada vez menos a cultivar relacionamentos, a resolver conflitos e a construir famílias sólidas. O resultado está diante dos nossos olhos: cresce o número de separações, aumentam os lares monoparentais, multiplicam-se pessoas que vivem rodeadas de conforto material, mas profundamente sós. Nem o salário mais elevado substitui o carinho de quem espera por nós em casa. Nenhum cargo elimina a necessidade de ser amado. O dinheiro compra medicamentos, mas não cura a solidão. Compra uma casa, mas não constrói um lar. Compra uma cama confortável, mas não garante um sono tranquilo quando a consciência pesa ou quando o coração sente falta de companhia. É curioso observar como algumas relações se transformam depois da estabilidade profissional. Existem casais em que o respeito dá lugar à competição. O diálogo cede espaço ao orgulho. Pequenos gestos de carinho deixam de existir. Já não se diz “boa viagem”, “cheguei bem” ou “até logo”. No entanto, uma relação não termina apenas por causa de grandes traições. Muitas vezes morre lentamente, sufocada pela indiferença, pelo orgulho e pela ausência de atenção aos pequenos detalhes. Muitos homens continuam a abandonar os filhos, a fugir às responsabilidades familiares, a exercer violência doméstica e a acreditar que o dinheiro lhes concede autoridade para humilhar a esposa. Muitos jovens já entram no namoro pensando mais na estabilidade financeira do que na estabilidade emocional. Casam-se sem aprender a dialogar. Separam-se sem tentar reconciliar-se. Trocam de parceiro com a mesma facilidade com que trocam de telefone. Não será por acaso que tantos sacerdotes, pastores e conselheiros matrimoniais recebem diariamente homens e mulheres que, apesar de possuírem emprego, casa e rendimento, confessam sentir um enorme vazio afectivo. O dinheiro resolveu muitos problemas materiais, mas não conseguiu preencher o coração. E talvez seja precisamente aí que muitos, homens e mulheres, estejam a pensar menos com o coração e mais com os joelhos: ajoelhados diante do dinheiro, do orgulho e da ilusão de que podemos viver sem precisar uns dos outros.
ECOLOGIA: TEMPO DA CRIAÇÃO 2026
Pe. Massimo Robol, mccj O Tempo da Criação é a celebração ecuménica anual que envolve cristãos de várias Igrejas e comunidades eclesiais para rezar e responder juntos ao clamor da Terra. A celebração começa a 1 de Setembro, considerado por algumas denominações cristãs como o Dia Mundial de Oração pela Criação e por outras como a Festa da Criação, e termina a 4 de Outubro, Festa de São Francisco de Assis. O tema do Tempo da Criação de 2026 é “Água viva”, e baseia-se na passagem do Livro do Profeta Ezequiel 47, 9-12. O tema, “Água Viva”, é inspirado numa visão bíblica de esperança e cura ecológica. No meio do exílio e de uma grande perda, a imagem da água viva que flui do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água e a biodiversidade, bem como a responsabilidade humana para com toda a criação. A visão de Ezequiel é, em última análise, de esperança; entrar no rio lembra-nos o baptismo. Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo, isto é, a cura de Deus, então “rios de água viva” também fluirão do nosso coração. À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura das outras pessoas e da criação. De facto, o Tempo da Criação é também um momento oportuno para a proximidade fraterna e a solidariedade com as pessoas vulneráveis e pobres, principalmente aquelas que sofrem com a degradação ambiental. Todavia, a visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas, 2,1 biliões de pessoas ainda não têm acesso a água potável segura. Isto representa uma em cada quatro pessoas no mundo! Com o aumento das alterações climáticas e o incremento da extracção de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica”, ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural. A crise hídrica afecta de forma desproporcional, sobretudo, as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e todas as formas de vida que não têm voz nos sistemas políticos ou económicos. O facto de subestimar a importância da preservação e da boa gestão da água traz consigo muitos desafios: o impacto na saúde das doenças transmitidas pela água contaminada; o impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios; o aumento do consumo de água impulsionado pela produção da energia necessária para as nossas actividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial; o impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar. Todos os cristãos são chamados a confrontar estes desafios e a rejeitar uma visão do mundo que trata a água como um recurso descartável, ou até mesmo como um produto que pode ser vendido com fins lucrativos. Torna-se fundamental promover a preservação, o uso responsável e a distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental. É assim que o Tempo da Criação se torna uma oportunidade para nos empenharmos na construção de um mundo mais justo e que dê vida a toda a família humana, bem como a toda a criação. Seria recomendável que também as lideranças religiosas fizessem um apelo público para denunciar a poluição prejudicial, e exigir que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água. Ao vencermos o medo e mergulharmos nas águas do amor de Deus, que possamos tornar-nos parte do Rio da transformação para o mundo, para testemunharmos a cura e a renovação da criação e a bênção da Terra. Entre no Tempo da Criação e visite o portal https://seasonofcreation.org/pt/, onde é possível encontrar material e ideias para participar da celebração.
set 01 2026
A CATEQUESE E A INCLUSÃO
Pe. Cantífula de Castro A missão do catequista vai além da transmissão de conhecimentos sobre a fé: ela envolve acolher e integrar todas as pessoas, reconhecendo a diversidade de experiências, capacidades e realidades presentes na comunidade. Em Moçambique, onde a diversidade cultural, linguística e social é vasta, a catequese inclusiva torna-se essencial para a construção de uma comunidade verdadeiramente cristã e participativa. A inclusão na catequese significa prestar atenção às crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, aos que vivem em contextos de vulnerabilidade ou marginalização social, e àqueles que, por diferentes razões, se sentem afastados da vida comunitária. O catequista deve ser um instrumento de atenção, paciência e acolhimento, garantindo que cada pessoa se sinta valorizada e capaz de crescer na fé. Outro aspecto importante é a sensibilização para a diversidade cultural e social. Compreender as tradições, línguas e costumes locais permite que a catequese seja significativa e relevante. A fé não deve ser ensinada de forma abstracta, mas sim ligada à vida quotidiana das pessoas, mostrando como os ensinamentos cristãos se manifestam na prática e na convivência diária. A catequese inclusiva também envolve a promoção da justiça, da solidariedade e do respeito mútuo, ensinando que a comunidade cristã é chamada a ser sinal de união e fraternidade, independentemente das diferenças. Ao agir desta forma, o catequista cumpre não apenas um papel educativo, mas também social e pastoral, fortalecendo a coesão da comunidade e inspirando uma fé viva e transformadora. Por isso, o actual tema desafia os catequistas a praticar a inclusão como expressão concreta do Evangelho, acolhendo cada pessoa com respeito e dignidade, e promovendo uma catequese que seja realmente participativa, diversa e humana, contribuindo para uma Igreja mais aberta, próxima das pessoas e fiel à mensagem de Cristo.
A CATEQUESE E A COMUNICAÇÃO DA FÉ NO MUNDO DIGITAL
Pe Cantífula de Castro No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé. A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. Portanto, este tema desafia os catequistas a integrar a tecnologia na missão evangelizadora, mantendo a essência do Evangelho e alcançando as pessoas onde elas se encontram hoje: no mundo digital. Com discernimento, criatividade e autenticidade, é possível transformar os desafios tecnológicos em oportunidades para crescer na fé e formar discípulos conscientes e comprometidos. No contexto contemporâneo, os catequistas enfrentam um desafio cada vez mais presente: a necessidade de comunicar a fé num mundo digitalizado. As novas gerações crescem rodeadas de tecnologias, redes sociais e informação instantânea. Para que a mensagem cristã continue a ser transmitida de forma eficaz, os catequistas devem aprender a dialogar com este ambiente, mantendo a profundidade espiritual e a autenticidade da fé. A comunicação digital não substitui o encontro presencial, mas pode complementar a acção catequética, permitindo alcançar mais pessoas e reforçar a formação. É essencial que os catequistas utilizem estas ferramentas com discernimento, promovendo conteúdos que eduquem, inspirem e fortaleçam a vivência cristã. Outro aspe(c)to central é a linguagem. A fé deve ser transmitida de forma clara, acessível e compreensível, evitando jargões teológicos complexos, mas sem perder a riqueza do ensinamento. A comunicação digital exige criatividade, empatia e capacidade de dialogar com diferentes públicos, respeitando as diversidades culturais e geracionais presentes em Moçambique. Além disso, os catequistas devem estar atentos à dimensão ética e moral do ambiente digital. O uso das redes sociais, mensagens e plataformas de vídeo deve ser orientado pela prudência, pela promoção do respeito e pelo testemunho cristão. A fé comunicada de forma responsável pode tornar-se uma força de transformação, aproximando os jovens da Igreja e fortalecendo a sua identidade cristã. “Esta transformação histórica exige responsabilidade e discernimento para garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada para o bem comum, construindo pontes de diálogo e promovendo a fraternidade, e assegurando que ela sirva os interesses da humanidade como um todo.”. Papa Leão XIV
ago 20 2026
Educação e Saúde Mental
Por: Valentina Atthumpuha O mês de Agosto, marcado por pausas escolares, convivência familiar mais intensa e reflexões sobre o andamento do ano lectivo, é também um momento oportuno para olhar com atenção para um tema muitas vezes silenciado: a saúde mental das crianças e dos adolescentes. Em Moçambique, assim como em muitos outros países, cresce a preocupação com o bem-estar emocional dos mais jovens, cuja rotina escolar, desafios sociais, pressões familiares e influências tecnológicas podem gerar ansiedade, insegurança e sofrimento. Falar de saúde mental não é falar de “fraqueza”, nem de problemas exclusivos de adultos. Trata-se de reconhecer que todas as pessoas, em qualquer idade, precisam de apoio emocional, compreensão e orientação para lidar com dificuldades. O que está a acontecer com os nossos jovens? A realidade mostra sinais preocupantes. Nas escolas, aumentam relatos de conflitos entre alunos, agressões, isolamento, choro fácil, dificuldades de concentração e desmotivação. Muitos estudantes enfrentam perdas familiares, deslocações internas, pobreza, insegurança nas comunidades, além das pressões naturais da idade: mudanças físicas, comparações sociais, dúvidas sobre o futuro e incertezas académicas. A tecnologia, embora útil, trouxe consigo novos desafios. O tempo excessivo no telemóvel, a comparação constante com vidas “perfeitas” nas redes sociais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados podem gerar ansiedade, baixa auto-estima e até dependência digital. É um mundo atractivo, mas que exige maturidade emocional para ser usado com segurança. Sinais que não devem ser ignorados Nem sempre as crianças e os adolescentes conseguem explicar o que sentem. Muitas vezes expressam sofrimento através de comportamentos. Entre os sinais que merecem atenção destacam-se: a) Isolamento ou recusa em participar de actividades; b) Irritabilidade constante ou explosões de raiva; c) Tristeza prolongada e choro sem explicação clara; d) Queda brusca no rendimento escolar; e) Queixas frequentes de dores sem causa médica clara; f) Falta de energia ou desinteresse por coisas de que antes gostavam; g) Medo de ir à escola ou de enfrentar colegas; h) Mudanças nos hábitos de sono ou alimentação. Estes comportamentos podem ter diferentes causas e não significam necessariamente uma doença, mas indicam que algo não vai bem. O importante é que adultos responsáveis estejam atentos e disponíveis para conversar. A escola como espaço de apoio e protecção A escola não é apenas um lugar de aprendizagem académica. É também um espaço de convivência humana, onde se constroem amizades, se desenvolve identidade e se criam referências afectivas importantes. Por isso, tem grande impacto no bem-estar emocional das crianças. Um ambiente escolar positivo, em que os alunos se sintam valorizados e respeitados, reduz significativamente conflitos e ansiedade. Professores atentos podem identificar mudanças de comportamento e encaminhar para apoio adequado. Pequenas práticas fazem grande diferença: Saudar cada aluno com cordialidade; incentivar a participação sem pressão; evitar humilhações públicas; organizar actividades que promovam cooperação; criar momentos de escuta activa; reforçar a confiança nos alunos que têm dificuldades. Quando a escola transmite segurança e acolhimento, o aluno sente-se mais forte para enfrentar desafios. O papel da família no cuidado emocional A família é o primeiro espaço de protecção. Um lar onde as crianças podem falar livremente, ser ouvidas e respeitadas fortalece a saúde mental. Contudo, muitas famílias enfrentam dificuldades económicas, relações tensas ou rotinas pesadas, o que pode limitar o tempo e a paciência para lidar com questões emocionais. Não é necessário perfeição, mas sim presença. Algumas atitudes simples ajudam muito: i) Conversar diariamente, nem que seja por alguns minutos; ii) Perguntar como correu o dia, sem julgamentos; iii) Evitar comparar os filhos entre si ou com outras crianças; iv) Valorizar pequenos progressos e não apenas notas; v) Oferecer carinho e atenção mesmo diante de conflito. As crianças que se sentem amadas e compreendidas ganham maior confiança para enfrentar problemas. A importância de falar sobre sentimentos Muitas vezes, ensinar matemática, leitura ou ciências é considerado prioridade, enquanto educar emoções fica para segundo plano. No entanto, crianças que conseguem identificar e expressar sentimentos são mais capazes de resolver conflitos e gerir frustrações. A escola e a família podem incentivar momentos de partilha emocional: 1) Perguntar o que o aluno ou filho está a sentir; 2) Usar actividades de grupo para trabalhar empatia; 3) Ensinar que sentir tristeza, medo ou raiva não é errado; 4) Mostrar como resolver problemas com diálogo. Quando se normaliza a conversa sobre emoções, reduz-se o estigma e facilita-se o pedido de ajuda. Estratégias simples para fortalecer a saúde mental Mesmo em contextos com poucos recursos, existem práticas acessíveis que podem ajudar: a) Caminhadas e actividades ao ar livre; b) Jogos e brincadeiras que estimulem socialização; c) Horários de descanso adequados; d) Redução do uso de telemóveis antes de dormir; e) Leitura e actividades artísticas;f) Rotinas equilibradas de estudo e lazer. O equilíbrio entre o corpo e a mente é essencial para o desenvolvimento saudável. Quando procurar ajuda especializada Há momentos em que o apoio familiar e escolar não é suficiente. Quando o sofrimento se prolonga por semanas, afecta as actividades diárias ou envolve risco para a segurança da criança, é importante procurar ajuda de profissionais da psicologia ou da saúde mental. Quanto mais cedo for a intervenção, maiores são as chances de recuperação. Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. E todos: família, escola, comunidade e sociedade, têm um papel insubstituível nesta missão.


