jul 13 2026
MAGNIFICA HUMANITAS: A Tecnologia ao Serviço da Pessoa
Pe Cantífula de Castro Entre Babel e Jerusalém: uma escolha para o nosso tempo Vivemos numa época marcada por mudanças rápidas. A inteligência artificial, a robótica e as tecnologias digitais estão a transformar a forma como trabalhamos, comunicamos, aprendemos e até tomamos decisões. Diante desta nova realidade, o Papa Leão XIV oferece à Igreja e ao mundo uma importante reflexão através da Encíclica Magnifica Humanitas. O documento parte de uma pergunta simples, mas profunda: como garantir que o progresso tecnológico continue ao serviço da pessoa humana? Para responder, o Papa recorre a duas imagens bíblicas. A primeira é a Torre de Babel, símbolo da pretensão humana de construir um mundo sem Deus, baseado apenas no poder, no controlo e na autossuficiência. A segunda é Jerusalém, a cidade reconstruída pelo povo de Deus através da cooperação, da solidariedade e da confiança no Senhor. Segundo Leão XIV, também hoje a humanidade está diante desta escolha. Podemos utilizar a tecnologia para aumentar desigualdades, concentrar poder e transformar as pessoas em simples números. Ou podemos colocá-la ao serviço da fraternidade, da justiça e do bem comum. O Papa reconhece que a tecnologia é um dom da inteligência humana e tem contribuído para melhorar a vida de milhões de pessoas. Contudo, alerta que nenhuma tecnologia é totalmente neutra. Por detrás dos algoritmos, das plataformas digitais e dos sistemas de inteligência artificial existem interesses, escolhas e valores que influenciam a sociedade. A dignidade humana vale mais do que qualquer algoritmo No coração da Encíclica está uma verdade fundamental da fé cristã: cada pessoa humana foi criada à imagem e semelhança de Deus. Por isso, o valor de uma pessoa não depende da sua riqueza, da sua produtividade, da sua popularidade nas redes sociais ou da sua capacidade de competir no mercado. Cada ser humano possui uma dignidade que ninguém lhe pode retirar, porque essa dignidade é um dom de Deus. O Papa manifesta preocupação perante certas mentalidades contemporâneas que avaliam as pessoas apenas pelos resultados que produzem. Quando isso acontece, corre-se o risco de transformar homens e mulheres em instrumentos ao serviço da economia, da tecnologia ou dos interesses de grupos poderosos. A Encíclica recorda que os direitos humanos nascem precisamente desta dignidade fundamental. Cada pessoa merece respeito, protecção e oportunidades para desenvolver plenamente os seus talentos. Neste contexto, Leão XIV convida os cristãos a olharem para as novas tecnologias com discernimento. A inteligência artificial pode ajudar na medicina, na educação, na investigação científica e em muitos outros sectores. Contudo, nunca poderá substituir aquilo que torna o ser humano verdadeiramente humano: a capacidade de amar, de criar relações, de exercer a liberdade, de procurar a verdade e de abrir-se à transcendência. A verdadeira grandeza do homem não está em tornar-se uma máquina perfeita, mas em viver a sua vocação de filho de Deus e irmão de todos. Construir uma civilização do amor na era digital A parte final da Encíclica apresenta um forte apelo à responsabilidade de todos. O Papa chama a atenção para problemas que afectam a sociedade actual, como a manipulação da informação, a propagação de notícias falsas, a polarização social, o desemprego tecnológico e a crescente precariedade do trabalho. Diante destes desafios, propõe uma utilização ética das tecnologias e uma educação capaz de formar consciências críticas e responsáveis. Leão XIV insiste que a economia deve servir a pessoa humana e não o contrário. O trabalho continua a ser um elemento essencial da dignidade humana e não pode ser reduzido a uma simples questão de eficiência ou lucro. Ao mesmo tempo, o Papa convida os cristãos a promover uma verdadeira cultura do encontro, baseada no diálogo, na escuta e na solidariedade. Num mundo marcado por guerras, desigualdades e novas formas de exclusão, a resposta da Igreja não é o medo da tecnologia nem a rejeição do progresso, mas a sua orientação para o bem comum. A mensagem central da Magnifica Humanitas pode resumir-se numa frase simples: a tecnologia deve servir a pessoa e nunca substituir a pessoa. Para Leão XIV, o futuro será verdadeiramente humano apenas se for construído sobre os valores do Evangelho. O progresso autêntico nasce quando a inteligência caminha juntamente com a sabedoria, quando a inovação respeita a dignidade humana e quando o coração permanece aberto a Deus e aos irmãos. É este o desafio que a Encíclica deixa aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade: construir, mesmo na era digital, uma autêntica civilização do amor.
jul 09 2026
BISPOS DE MOÇAMBIQUE EXIGE ESCLARECIMENTO TOTAL DO ASSASSINATO DE DOM OSÓRIO CITORA AFONSO
Após regressarem do Vaticano, onde foram recebidos em audiência pelo Santo Padre, Papa Leão XIV, e lhe transmitiram a preocupação da Igreja em Moçambique relativamente ao assassinato do Bispo de Quelimane, os arcebispos da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) realizaram uma conferência de imprensa esta quinta-feira (09/07), na qual defenderam que a verdade sobre o crime deve ser plenamente esclarecida. O Arcebispo de Maputo e Vice-Presidente da CEM, Dom João Carlos, afirmou que a formação sacerdotal tem como fundamento a Bíblia e os valores cristãos, rejeitando qualquer associação da Igreja a actos de violência. Segundo o prelado, a morte de Dom Osório Citora Afonso constitui uma profunda preocupação para a Igreja, sobretudo por ter ocorrido na sua própria residência, um espaço considerado seguro. Por sua vez, o Arcebispo de Nampula e presidente da CEM, Dom Inácio Saure, reforçou o apelo para que o caso seja tratado com total transparência. A CEM garantiu ainda que continuará a colaborar com as autoridades na investigação do crime e apelou aos órgãos de comunicação social para que façam uma cobertura responsável, baseada em factos e isenta de manipulação da opinião pública. Os bispos prestaram estas declarações durante uma conferência de imprensa realizada à chegada de Roma, onde participaram numa audiência com o Santo Padre, Papa Leão XIV.
jul 07 2026
O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO E O CAMINHO DA CURA INTERIOR
Pe. Cantífula de Castro O Sacramento da Reconciliação, ou Confissão, é um dos maiores dons que Cristo deixou à Sua Igreja. Ele não é apenas um rito obrigatório, mas um encontro pessoal com a misericórdia de Deus, capaz de transformar a vida e curar feridas profundas. Para os catequistas, compreender e transmitir o sentido verdadeiro deste Sacramento é essencial, especialmente num contexto em que muitas pessoas carregam sofrimentos silenciosos, culpas acumuladas, conflitos familiares e traumas resultantes de dificuldades sociais. A reconciliação não começa no confessionário, mas no coração. É um caminho de reconhecimento humilde da própria fragilidade, de arrependimento sincero e de decisão de recomeçar. No quotidiano moçambicano, onde tantas situações geram tensão — desemprego, conflitos domésticos, violência, problemas de alcoolismo, desonestidade, infidelidade e injustiças no trabalho —, a Confissão torna-se um espaço de libertação, permitindo que cada pessoa reencontre a paz e retome o rumo da vida com esperança. O catequista deve ajudar os fiéis a perceberem que a Confissão não é julgamento, mas acolhimento. O sacerdote, ao ouvir, representa Cristo que abraça, não condena; que cura, não humilha; que levanta, não afasta. Infelizmente, muitos cristãos ainda têm medo ou vergonha de confessar-se, ou acreditam que só os grandes pecados merecem ser levados ao confessionário. O catequista deve esclarecer que Deus deseja tratar também as pequenas feridas diárias: ressentimentos, impaciências, mentiras, invejas, preguiça espiritual, falhas na caridade ou nos deveres familiares. Um elemento central é a cura interior. Muitas pessoas vivem com culpas antigas, traumas da infância, perdas dolorosas, fracassos pessoais ou experiências de violência que lhes tiraram a paz. A Confissão, unida à oração, ao aconselhamento e ao acompanhamento pastoral, pode abrir caminhos de cura. Quando alguém se sente ouvido, acolhido e perdoado, começa um processo de libertação que toca não apenas o espírito, mas também o coração e as relações humanas. É importante explicar bem cada passo do Sacramento: exame de consciência, arrependimento, confissão, absolvição e propósito de emenda. O catequista pode ensinar a fazer um exame de consciência simples, baseado nos Mandamentos, nas Bem-Aventuranças e no amor ao próximo. Outro ponto relevante é a dimensão comunitária da reconciliação. Embora a Confissão seja pessoal, os seus frutos beneficiam toda a comunidade. Uma pessoa reconciliada é mais paciente, mais generosa, mais justa e mais capaz de construir a paz. O catequista pode também incentivar a prática de celebrações comunitárias penitenciais, especialmente no Advento e na Quaresma, momentos privilegiados de renovação espiritual. Outro desafio pastoral é esclarecer que a Confissão não é um substituto para a responsabilidade. Receber o perdão não significa esquecer as consequências dos actos. Quando possível, o cristão é chamado a reparar o mal cometido. A misericórdia de Deus não anula a justiça, mas enche-a de amor. Finalmente, a reconciliação aponta sempre para um futuro melhor. O catequista deve, portanto, proclamar com convicção: a misericórdia de Deus é maior do que qualquer pecado, e cada coração arrependido é para Ele motivo de festa. Assim, o Sacramento da Reconciliação torna-se um caminho de cura interior, de renovação pessoal e de reconstrução comunitária — um convite permanente a recomeçar e a viver na paz que vem de Deus.
PROJECTOS PARA PEQUENAS COMUNIDADES RURAIS
Por: Pe. Sérgio M. Vilanculo Introdução Em muitas zonas de Nampula ou de Inhambane, por exemplo, o sustento do povo baseia-se na machamba de subsistência e na produção de carvão vegetal. Contudo, cada família planta, consome, vende e sofre sozinha. Sozinha, a mandioca pode render apenas 20,00 MT por molho. Sozinho, o carvão destrói a floresta e resulta em multas pesadas. O problema nas nossas comunidades, muitas das vezes, não é a falta de trabalho; é a falta de união. O associativismo é o atalho para transformar a terra, a mão-de-obra e o carvão em rendimento que permanece na própria comunidade. Apresentamos quatro projetos simples que começam com menos de 2.000,00 MT por família. Caixa Agrícola Rotativa – “O Xitique da Enxada” Um grupo de 10 famílias organiza-se, e cada uma contribui com 200,00 MT por mês. Todos os meses, uma família recebe o total de 2.000,00 MT para comprar sementes, enxadas ou para alugar uma charrua ou um trator. Sem bancos e sem juros. Ao fim de 10 meses, todas as famílias investiram na sua produção. Farinha de Mandioca com Marca da Comunidade Um grupo de 5 mulheres junta-se para torrar farinha um dia por semana, utilizando o carvão local. Embalam o produto com uma etiqueta simples: “Farinha de Wakhunteya”. A mandioca que antes saía a 20,00 MT o molho, transformada em farinha, passa a valer 70,00 MT por quilo. O investimento inicial é de apenas 1.500,00 MT. Carvão Legal + Horta de 45 Dias Uma associação de 8 carvoeiros assume o compromisso: para cada 10 sacos de carvão produzidos, plantam um canteiro de couve ou de tomate. O carvão garante o sustento de hoje; a horta assegura o de amanhã. Além disso, a cinza do carvão é reaproveitada como adubo orgânico. O custo financeiro é zero. Banco de Sementes Comunitário Cada família guarda 2 kg da sua melhor semente num bidão comunitário. Quem pede sementes emprestadas para a sementeira, devolve 3 kg na altura da colheita. O custo envolve apenas a compra dos bidões e do produto contra o gorgulho, somando cerca de 800,00 MT. Em dois anos, o banco de sementes triplica de tamanho. Conclusão Um projeto grande começa sempre pequeno. Não é necessário esperar por um trator ou por uma ONG. Basta que 5 vizinhos ou membros da comunidade estejam decididos a fazer a experiência durante 30 dias. Começa com quem já produz carvão junto ou tem uma machamba vizinha. A pergunta certa a fazer é: “O que podemos fazer já na próxima segunda-feira com 500,00 MT?” Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito. A machamba do futuro nasce da conversa de hoje.
jul 06 2026
Sabias que?: Missionários e Agentes de pastorais mortos em 2025
O assassinato de Dom Osório leva-nos a reflectir os diferentes casos de assassinatos no mundo. Segundo dados verificados pela Agência Fides, 17 missionários foram assassinados em todo o mundo em 2025, entre sacerdotes, religiosas, seminaristas e leigos. A repartição por continente mostra que o maior número de agentes pastorais mortos em 2025 ocorreu em África, onde dez missionários (seis padres, dois seminaristas e dois catequistas) foram assassinados. Quatro missionários foram mortos nas Américas (dois padres e duas freiras) e dois na Ásia (um padre e um leigo). Um padre foi morto na Europa. Nos últimos anos, África e América alternaram-se no topo desta trágica classificação. Em detalhe: África (10): – Cinco perderam a vida na Nigéria, – Dois no Burkina Faso, – Um na Serra Leoa – Um no Quénia e um no Sudão. América (4) – 2 Freiras – Haiti, – 1 Padre – México – 1 Padre de origem indiana nos Estados Unidos. Ásia (2) – 1 Padre – Mianmar – 1 Padre – Filipinas. Europa – 1 Padre – Polónia. Agencia Fides
jul 03 2026
CRÔNICA: Bala a Bala, Destruindo o Novo Dia
Por: Giovani Muacua A crescente onda de esquadrões de morte mata o brilho de Moçambique. A realidade de cada dia no nosso país nega veementemente o esqueleto que o Hino Nacional descreve sobre Moçambique: “Moçambique, nossa terra gloriosa! Pedra a pedra construindo o novo dia. Milhões de braços, uma só força. Ó Pátria Amada, vamos vencer”. Moçambique, custa-nos perceber até que ponto és a “nossa terra gloriosa” com corpos imolados e sangue derramado em cada dia; custa-nos entender com que “pedra a pedra” construis o novo dia, quando, na realidade, com bala a bala são silenciadas vozes inocentes. Tão pouco conseguimos ver que “milhões de braços, uma só força”, com inúmeras divisões nas diferentes instituições (políticas, sociais e religiosas). Fazendo uma breve retrospectiva histórica, várias figuras públicas moçambicanas são eliminadas inocentemente, por vezes, pelas suas intervenções de forte impacto político, social e religioso. No ano 2000, mataram Carlos Cardoso (em Maputo), jornalista que investigava alegados casos de corrupção ligados à privatização bancária; em 2015, silenciaram Gilles Cistac (em Maputo), professor universitário e especialista em Direito Constitucional, morto a tiro após intervenções públicas sobre questões constitucionais e descentralização; em 2017, mataram a tiros em Nampula, Mahamudo Amurane, Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula; em 2019, assassinaram Anastácio Matavele (em Xai-Xai), Observador Eleitoral e Dirigente de uma organização da sociedade civil, durante o período eleitoral. Em 2024, não escaparam do assassinato Elvino Dias, Advogado ligado à oposição política, e Paulo Guambe, mandatário do partido PODEMOS. Desta vez, os esquadrões de morte invadiram Jerusalém, o Paço Episcopal da Diocese de Quelimane, onde mataram macabramente o Dom Osório Citora Afonso (2026), Bispo de Quelimane e Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira, o primeiro Bispo, natural de Iapala, Distrito de Ribáuè, Província de Nampula. Será de bala a bala que Moçambique é glorioso e pode construir um novo dia? O corpo imolado e sangue derramado de Osório clama pela justiça e verdade. Foi na madrugada de 6 de Junho de 2026, que este servo de Deus e da Igreja foi baleado mortalmente. Um novo Mártir, um novo Santo do povo moçambicano. Um assassínio macabro e hediondo que aconteceu precisamente nas vésperas da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com altares preparados, os fiéis católicos estão prontos para irem às procissões com cânticos de louvor para exaltar o Corpo oferecido e o Sangue derramado de Cristo pela salvação do mundo. Foi neste contexto em que outro corpo e outro sangue era derramado dramaticamente sobre o solo moçambicano. Sentimento de choque, incredulidade e dor para o mundo inteiro. Não foi apenas morte de um cidadão, nem apenas da morte de um líder religioso. Foi morte de um pastor, homem de Deus, filho moçambicano, que doara a sua vida ao serviço da Igreja e do povo. De facto, existem acontecimentos que superam a esfera de crime comum e se transformam em sinais dos tempos. O assassinato de Dom Osório é um desses acontecimentos. Realidade que nos impõe a fitar o olhar para além dos factos imediatos e a interrogar-nos sobre a realidade política, social e espiritual deste e neste país. Que sociedade estamos a construir enquanto cresce a onda de violência e esquadrões de morte? A morte de Dom Osório é luto “nacional” e deixa um forte apelo às autoridades governamentais, forças de segurança e instituições judiciais para que a verdade seja revelada e a justiça, seja feita. Não se trata de revelar a verdade e fazer justiça por vingança, mas por respeito supremo à dignidade. Quando um país resigna-se esclarecer crimes transforma a impunidade em cultura e a violência em café diário. Dom Osório era filho de Iapala, no distrito de Ribáuè, província de Nampula. O seu percurso de vida era motivo de orgulho para milhares de moçambicanos. Homem simples, próximo das comunidades, conhecedor das alegrias e sofrimentos do povo. A sua morte feriu a família, os amigos, os Missionários da Consolata, a Diocese de Quelimane, a Arquidiocese da Beira e toda a Igreja em Moçambique. Que Deus acolha Dom Osório Citora na plenitude da Sua paz. E que o seu sangue derramado se transforme numa voz profética que desperte Moçambique para os valores da justiça, da verdade, da fraternidade e da paz. Dom Osório Citora, Descanse em paz!
UM PAÍS QUE AINDA PROCURA A SUA VERDADEIRA INDEPENDÊNCIA
Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a olhar mais fundo para nós mesmos, e Junho é um desses meses. É o mês em que o país se veste de cores infantis, de danças escolares, de poesias ensaiadas em salas sem carteiras, de bonecas feitas de capulana velha. Mas é também o mês em que a bandeira se levanta mais alto, recordando um dia longínquo, 25 de Junho de 1975, quando Moçambique proclamou ao mundo que queria ser dono do seu destino. Passaram-se cinquenta e um anos. Meio século de busca, de quedas e recomeços, de esperanças repetidas, de feridas cicatrizadas que não desaparecem, e de uma juventude que já nasceu livre, mas que, contraditoriamente, ainda vive amarrada a condicionamentos que a independência política não conseguiu resolver. Entre estes dois símbolos, a criança e a bandeira, está a nossa história recente, com as suas promessas cumpridas, promessas adiadas e promessas traídas. Junho é o espelho duplo da nação: de um lado, a fragilidade; do outro, a possibilidade. Uma metáfora e um diagnóstico Tem o rosto da esperança, mas carrega o peso da pobreza estrutural que ainda persiste. Em muitas zonas, a infância começa cedo demais e termina rápido demais. Começa aos três anos, quando já se aprende a carregar água na cabeça; termina aos dez, quando se entra num mercado informal para ajudar a sustentar a casa. Sonha-se ser professor, enfermeira, piloto, jornalista mas acorda-se, muitas vezes, num país onde a escola ainda não é um porto seguro, onde faltam professores motivados, carteiras minimamente dignas ou livros que cheirem a futuro. Mistura inquieta entre o sonho legítimo e a carência imposta O Dia da Criança serve, portanto, não para entregar bolachas embrulhadas em eventos formais, mas para nos perguntar que tipo de país estamos a construir para elas: Um país que promete educação de qualidade, mas deixa escolas sem condições? Um país que proclama direitos da criança, mas continua a tolerar casamentos prematuros? Um país que organiza desfiles escolares, mas ainda falha na nutrição, na saúde e na protecção social? Se as crianças são o futuro, a pergunta que Junho nos coloca é simples: que futuro um país oferece quando o presente falta? Mas Junho também é Independência, um daqueles marcos que não se celebra por hábito, mas por consciência histórica. O país que conquistou a independência política em 1975 ainda não encontrou, por completo, a sua independência económica e social. E isso não é segredo: é visível nos indicadores, nas ruas, na desigualdade, na dependência de doadores externos, no comércio dominado por forças externas, nos mercados de trabalho frágeis e, sobretudo, na dificuldade de transformar recursos naturais em riqueza para o povo. A independência não termina quando se baixa uma bandeira estrangeira. A independência só se cumpre quando um povo consegue orientar-se pelas suas próprias capacidades. E aqui surge o grande dilema moçambicano: como é que um país tão rico em recursos permanece com tanta gente pobre? A resposta é complexa, mas não é impossível de compreender: décadas de conflitos, fraca industrialização, corrupção sistemática, instabilidade em algumas regiões e um sistema económico que não foi desenhado para fortalecer o pequeno produtor, o trabalhador urbano ou o jovem empreendedor. A pergunta de Junho, mais profunda do que parece, é esta: Se não conquistarmos a independência económica e social, o que comemoraremos daqui a mais cinquenta anos? A independência política é como uma porta aberta. A independência económica é o caminho. A independência social é o destino. E o destino do país deve ser traçado com a mesma seriedade com que se protege uma criança, porque o futuro da nação é literalmente o rosto delas. Se há algo que estes 51 anos nos ensinaram, é que um país não cresce apenas com discursos, cresce com trabalho, com justiça social, com instituições credíveis, com políticas coerentes, com uma cidadania activa e com a coragem de enfrentar os nossos próprios erros. A independência verdadeira não é uma lembrança histórica, mas uma construção diária. Se o país alcançar estes dois níveis de emancipação, então sim, poderemos dizer que Junho é uma celebração completa e não apenas um ritual anual. E voltamos às crianças, porque elas são a medida exacta do que fazemos bem e do que continuamos a falhar. Se um país é capaz de abrir caminhos para que cada criança se transforme em cidadã plena, então esse país está no rumo certo. Mas se a infância é marcada pela privação, pela violência, pela exclusão e pela ausência de oportunidades, então a independência continuará incompleta. Por isso, Junho não é apenas festa. É uma convocatória. Convoca-nos a assumir responsabilidades, a olhar para a nação com honestidade, a reconhecer que 51 anos é tempo suficiente para perceber que o problema não é a falta de talento do povo, mas a falta de estruturas que o permitam florescer. Convoca-nos a perguntar, sem medo: estamos a construir um país onde as crianças poderão celebrar, um dia, uma independência que não seja apenas política? Porque a verdadeira independência — a que transforma a vida das pessoas, a que rompe os ciclos de pobreza, a que gera oportunidade e dignidade, essa ainda está em construção. E cada Junho deveria lembrar-nos disso.
jun 25 2026
51 Anos depois: Da pobreza à extrema pobreza
Por: Deolindo Paúa Um dos motivos que encorajou jovens e velhos a começar uma guerra de libertação era a desigualdade imposta pelo colono ao moçambicano. Essa situação gerava profundas injustiças no nosso território. Resumidamente, a injustiça era a causa principal da luta pela independência. A chegada da independência, em 1975, criou no seio dos moçambicanos a esperança de que aquele obstáculo ao desenvolvimento humano estava ultrapassado. Acreditava-se que começava uma nova era: a era da inclusão. Hoje, voltados 51 anos, quase todos os estudos sobre o estágio de desenvolvimento de Moçambique colocam-no na dianteira da extrema pobreza. A causa é exactamente a mesma que conduziu à luta: as desigualdades. A desigualdade imposta pelo colono foi substituída pela desigualdade imposta pelos nossos próprios irmãos, que mais tarde assumiram o poder. Meio século depois ainda somos os mais pobres Quem acompanha a história de Moçambique pode constatar dois cenários que perturbaram a sua evolução. O primeiro foi a guerra civil que, além de ceifar vidas, retraíu o investimento e a confiança internacional. O segundo foi uma sucessiva governação antipatriótica, que fundou e solidificou a corrupção e o nepotismo, sobretudo depois de 1987. Uma análise rápida desse cenário permite concluir que, com a independência, a elite opressora colonial foi literalmente substituída por uma elite corrupta em termos económicos. Esta elite entendeu Moçambique como sua propriedade privada. Por isso, concluiu que tinha primazia sobre os recursos do país. Este modo de ver o novo Moçambique eliminou a inclusão. Infelizmente, esta percepção continua a orientar os sucessivos processos de governação. Moçambique, que deveria ser uma conquista de todos os moçambicanos, continua a ser visto, dentro e fora, com a imagem que uma elite vendeu por décadas: a de que é conquista de apenas alguns patriotas. Esta tem sido a causa dos conflitos sociais e políticos recentes. Vemos jovens que se querem afirmar política e economicamente contra uma elite historicamente constituída. A ideologia segundo a qual Moçambique pertence a uma minoria consolidada unilateralmente faz com que, 51 anos depois, continuemos num círculo vicioso interminável: entre a pobreza da crescente maioria e a prosperidade da mesma minoria. A causa da pobreza é fundamentalmente a desigualdade Há alguns dias, mais um relatório do Banco Mundial colocou Moçambique na segunda posição entre os países mais pobres do mundo. Mais uma vez, a informação soou como um escândalo. Não apenas porque o nosso país se encontra numa fase adulta, em que deveria ter consolidado a sua economia, mas sobretudo porque Moçambique é actualmente um palco de exploração multimilionária de recursos naturais diversos e de financiamentos externos. Entre as causas está, uma vez mais, a desigualdade profunda e cada vez mais acentuada entre os extremamente ricos e os extremamente pobres. Esta constatação, que não é nova, reforça a ideia de que a nossa pobreza não é motivada pela insuficiência de recursos. Ela é fruto dos problemas da sua distribuição, que privilegia sempre as mesmas pessoas. Há quem diga que esta conclusão tenha objectivos obscuros do o Banco Mundial, tal como sempre se afirma, mas independentemente de tais posições, os factos são confirmados por vários estudos domésticos. A título de exemplo, o relatório do Observatório do Meio Rural (OMR) de Fevereiro de 2022, sobre os ingredientes da revolta juvenil, indica as desigualdades e a injustiça na distribuição de oportunidades como uma das prováveis causas da facilidade do recrutamento de jovens nas acções terroristas em Cabo Delgado. Igualmente, o Instituto Nacional de Estatística (INE), no seu último Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) em 2022, indicou que, apesar do crescimento de Moçambique, as grandes diferenças geográficas de desenvolvimento prevalecem e as assimetrias se aprofundam, continuando o meio rural mais pobre e as cidades mais prósperas, as periferias mais precária e as zonas de cimento em evolução constante. Estes dados comprovam que nenhum crescimento será capaz de criar desenvolvimento se as políticas públicas continuarem a privilegiar com recursos e oportunidades apenas determinadas pessoas e regiões geográficas. A política, que deveria ser um serviço público e patriótico, foi transformada em autovergonhoso auto-serviço. Tornou-se uma oportunidade para o enriquecimento duvidoso a partir de recursos vida dos mais pobres. Sem esforços para mudar o cenário O pior é que todos nós, incluindo quem governa, sabemos desta situação e conhecemos as suas soluções. Contudo, não se vê esforço para mudar. Os indicadores de pobreza são anunciados com recorrência por vários estudos de várias entidades. No entanto, ao invés de se ocupar de políticas que corrijam tais indicadores com as técnicas adequadas, financia-se a produção de teorias para discutir se a nossa pobreza é verdadeira ou inventada. Somos mais ágeis em negar a pobreza do que em combatê-la. Contudo, mesmo sem estes relatórios, ditos tendenciosos, a nossa pobreza tem sinais objectivos: falta de emprego, prevalência da fome, falta de água potável e dificuldade do Estado em prover recursos para o seu próprio financiamento e funcionamento. Estes sinais têm soluções técnicas claras: descentralizar as oportunidades e garantir que todos tenham as mesmas condições de acesso aos recursos de sobrevivência e de desenvolvimento. É necessário eliminar as práticas governativas que insistem em dar recursos a quem não precisa deles para sobreviver, mas apenas para o luxo. Num país como o nosso, não faz sentido que pessoas que governaram e se aproveitaram do Estado para erguer impérios tenham, ainda, primazia nas regalias. Esse direito deve pertencer àquelas que precisam do básico, como uma escola para estudar e um hospital para tratar da saúde. Regalias para os ricos são uma ofensa para os pobres. Se para ter o básico para sobreviver se exige uma pertença obrigatória a um partido que supõe distribuir as oportunidades, então estamos a replicar as políticas coloniais. Se assim for, o processo que nos levou à independência é nulo.
jun 23 2026
Leão XIV: Um Ano de Pontificado ao Serviço da Paz, da Justiça e da Esperança
Por: Pe. Cantífula de Castro Ao completar o seu primeiro ano de pontificado (a 08 de Maio), o Papa Leão XIV começa a consolidar uma identidade pastoral marcada pela proximidade humana, pela defesa da dignidade dos povos e pela insistência numa Igreja socialmente comprometida com as dores do mundo contemporâneo. Num cenário internacional atravessado por guerras, crises económicas, deslocamentos humanos, tensões culturais e crescente fragilidade moral, o novo Papa tem procurado reafirmar a missão da Igreja Católica como presença espiritual, mas também como consciência ética da humanidade. O centro da acção pastoral Desde o início do seu ministério petrino, Leão XIV escolheu colocar a paz no centro da sua acção pastoral. A expressão “paz desarmada e desarmante”, repetida em diversos discursos, tornou-se uma síntese do seu pensamento sociopastoral. Para o Papa, a paz não pode ser reduzida à ausência de conflitos militares. Ela nasce da justiça, da inclusão social, do respeito pela dignidade humana e da capacidade de diálogo entre povos e culturas. Neste primeiro ano, o pontífice demonstrou uma atenção particular às populações vulneráveis. Os seus pronunciamentos sobre os migrantes, os refugiados, as vítimas da guerra e os pobres revelam uma clara continuidade com a Doutrina Social da Igreja. Contudo, Leão XIV tem procurado dar um tom próprio ao seu magistério: menos centrado apenas na denúncia e mais orientado para a reconstrução moral das sociedades. Em várias intervenções, alertou para aquilo que considera ser uma das grandes crises do século XXI: a perda do sentido comunitário. Segundo o Papa, o individualismo económico, a cultura do descarte e a indiferença social estão a destruir lentamente os vínculos humanos e espirituais que sustentam a convivência pacífica entre os povos. Por isso, insiste frequentemente numa “pastoral da proximidade”, capaz de colocar a Igreja junto das feridas concretas da humanidade. Abandono da lógica da força O terrorismo, as guerras regionais e as tensões geopolíticas também ocuparam espaço significativo no seu pontificado. O Papa apelou repetidamente ao abandono da lógica da força e criticou a transformação da economia mundial numa estrutura frequentemente subordinada à indústria armamentista e aos interesses financeiros globais. Na sua perspectiva, não haverá paz verdadeira enquanto milhões de pessoas continuarem excluídas do acesso à alimentação, educação, saúde e trabalho digno. No campo pastoral, Leão XIV tem defendido uma Igreja menos burocrática e mais missionária. Tem incentivado os sacerdotes, religiosos e leigos a assumirem uma presença activa nas periferias sociais e existenciais. A evangelização, segundo o Papa, não deve limitar-se aos espaços litúrgicos tradicionais; deve alcançar os ambientes de sofrimento humano, exclusão social e crise moral. Juventude e diálogo inter-religioso A juventude também ocupa um lugar importante na sua visão pastoral. O Papa considera os jovens não apenas destinatários da missão evangelizadora, mas protagonistas da transformação social e espiritual do mundo contemporâneo. Em várias ocasiões, apelou à formação ética, intelectual e espiritual das novas gerações, alertando para os perigos da manipulação digital, da cultura da superficialidade e da perda de referências humanas sólidas. Outro aspecto relevante do seu primeiro ano de pontificado foi a defesa constante do diálogo inter-religioso. Leão XIV entende que a religião não pode servir de instrumento de divisão ou violência. Pelo contrário, acredita que as tradições religiosas possuem uma responsabilidade histórica na promoção da reconciliação, da solidariedade e da fraternidade universal. No fundo, o primeiro ano do Papa Leão XIV revela um pontificado profundamente sociopastoral. A sua proposta não é apenas espiritual no sentido estritamente religioso, mas também ética, humana e civilizacional. O Papa procura recordar ao mundo que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante da pobreza, da injustiça, da violência e da exclusão. Num tempo marcado pela instabilidade global, Leão XIV apresenta-se como uma voz que insiste na esperança, na responsabilidade colectiva e na necessidade de reconstruir os fundamentos humanos da convivência social. O seu pontificado ainda está no início, mas já demonstra uma clara intenção de colocar a Igreja ao lado dos que sofrem e de reafirmar o Evangelho como caminho de paz, justiça e dignidade para todos os povos.
jun 16 2026
CRÓNICA: DA INDEPENDÊNCIA ÀS FRALDAS
Por: Giovanni Muacua Ao contemplarmos a realidade actual, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: estaremos verdadeiramente independentes em Moçambique? A independência política foi conquistada em 1975. Contudo, a independência económica, social e moral continua distante para muitos cidadãos. O país possui enormes riquezas naturais: gás natural, carvão mineral, rubis, ouro, grafite, madeira e terras férteis. Apesar disso, a maioria da povo continua mergulhada na pobreza. Aqui tudo falta-nos. A riqueza do país não beneficia que a uma minoria. Samora Machel alertava para o perigo do “inimigo interno”, um colonizador negro revestido de pele moçambicana. Hoje, muitos cidadãos sentem que essa profecia se tornou realidade. Expulsou-se o colono estrangeiro, mas nasceram novas formas de opressão dentro do próprio país. A diferença é que agora o explorador fala a mesma língua, vive no mesmo território e carrega a mesma bandeira. A corrupção tornou-se uma das maiores ameaças à verdadeira independência nacional. Recursos destinados ao povo desaparecem misteriosamente. Dinheiros públicos são desviados enquanto hospitais não possuem medicamentos básicos e escolas funcionam sem carteiras nem livros. Multiplicam-se os escândalos financeiros, mas poucos são responsabilizados. A justiça parece forte contra os pobres e fraca diante dos poderosos: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressoras, para negarem justiça aos pobres” (Is 10,1-2). O sofrimento do povo agrava-se diante da subida constante do custo de vida. O preço do combustível aumenta frequentemente. Isto afecta os transportes públicos, os produtos alimentares e os serviços básicos. Em consequência, o cidadão comum perde cada vez mais o poder de compra. Muitas famílias já não conseguem garantir três refeições por dia. Jovens licenciados permanecem anos sem emprego, enquanto vagas são atribuídas por influência ou corrupção. Na esfera profissional, tornou-se comum ouvir denúncias de concursos públicos manipulados. Os vencedores já são conhecidos antes mesmo da abertura oficial das candidaturas. O mérito perde espaço para o nepotismo e para o clientelismo político. O cidadão trabalhador e honesto sente-se desmotivado. Ele percebe que o esforço nem sempre é valorizado: “Ai daqueles que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça” (Am 5,7). Há uma crescente onda de desigualdade social. Enquanto alguns acumulam fortunas e vivem em luxo exagerado, milhares de famílias vivem em bairros sem saneamento, energia eléctrica ou segurança. Crianças estudam sentadas no chão. Mulheres percorrem kilómetros em busca de água. Doentes morrem por falta de assistência médica adequada. Esta realidade contradiz os ideais pelos quais tantos moçambicanos lutaram durante a guerra de libertação. Além disso, Moçambique enfrenta graves desafios de segurança. O terrorismo em Cabo Delgado continua a provocar mortes, deslocamentos populacionais e destruição de comunidades inteiras. Milhares de famílias perderam casas, bens e familiares. Crianças crescem longe da escola e da estabilidade familiar. O medo e a incerteza passaram a fazer parte da vida de muitos moçambicanos. A crise moral também se faz sentir em vários sectores da sociedade. Na política, muitos dirigentes preocupam-se com interesses partidários do que em servir o povo, promovem-se divisões, intolerância e discursos manipuladores. O povo é frequentemente usado como instrumento para alcançar ou manter o poder: “Os seus chefes julgam por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,11). Na esfera religiosa surgem igualmente sinais preocupantes. Cresce o número de líderes religiosos que transformam a fé em negócio. Em vez de promoverem a justiça, a verdade e a solidariedade, exploram emocionalmente os fiéis em busca de riqueza e prestígio pessoal. Há mais preocupação com ofertas e contribuições financeiras do que com o sofrimento humano. A religião, que deveria ser fonte de esperança e transformação social, por vezes torna-se instrumento de manipulação: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). Perante tudo isso, muitos cidadãos perguntam-se: Que independência celebramos? Será apenas independência territorial e política? Ou deveríamos lutar também pela independência da fome, da corrupção, da injustiça e da pobreza? A verdadeira independência deve traduzir-se em dignidade humana, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos fundamentais e compromisso sincero com o bem comum. Enquanto persistirem o abuso do poder, a corrupção, a manipulação política, o nepotismo, a hipocrisia, a injustiça social e a indiferença diante do sofrimento do povo, a independência continuará incompleta: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm vestidos de ovelhas” (Mt 7,15). Moçambique precisa urgentemente de uma nova consciência nacional, baseada na honestidade, no patriotismo, na solidariedade e na responsabilidade colectiva. O país não mudará apenas com discursos políticos nem com celebrações festivas. A mudança exige líderes comprometidos com a verdade e cidadãos activos na defesa da justiça e do bem comum. Celebrar a independência nacional significa renovar o compromisso de construir um país onde haja justiça, paz, oportunidades e dignidade para todos.


