maio 14 2026
Novo Magno Chanceler da UCM apresentado à Reitoria
O recém-eleito Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique, Dom António Juliasse, Bispo de Pemba, foi apresentado esta terça-feira à Reitoria da instituição, num acto conduzido por Dom Osório Citora Afonso, Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), em representação do presidente daquele organismo. A cerimónia contou igualmente com a presença de vários bispos que representam o episcopado moçambicano na universidade. A informação foi partilhada na página oficial da UCM no Facebook. Durante o encontro, Dom Osório destacou que a UCM continua a ser um projecto da Igreja ao serviço da nação moçambicana, promovendo a ligação entre a fé, a cultura e a ciência. Por sua vez, o Reitor da universidade, Padre Filipe Sungo, afirmou que a chegada de Dom António Juliasse marca o início de um caminho conjunto assente na missão educativa da Igreja e no compromisso com o desenvolvimento do país.
Estudo do CIP Questiona Receitas do Gás Natural em Moçambique
Segundo o Jornal O País, um estudo divulgado pelo Centro de Integridade Pública (CIP) e pelo Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) conclui que o Estado moçambicano poderá arrecadar entre 4 e 5 mil milhões de dólares ao longo dos 27 anos de exploração do projecto Coral Sul FLNG, em Cabo Delgado, valores muito abaixo das projecções públicas que apontam para cerca de 77 mil milhões de dólares. O pesquisador do CIP, Rui Mate, explicou que os cálculos têm como base os contratos assinados, o modelo fiscal em vigor e os preços internacionais do gás natural. De acordo com o O País, o estudo refere ainda que a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) não deverá gerar dividendos líquidos significativos até 2034, devido ao pagamento de uma dívida de cerca de 1,3 mil milhões de dólares contraída para financiar a sua participação no projecto. Os investigadores alertam igualmente para fragilidades no modelo fiscal do sector extractivo e defendem maior transparência, além da diversificação da economia nacional, com maior aposta em sectores como a agricultura, reduzindo a dependência do gás natural.
maio 13 2026
A BÍBLIA NA VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ
Por Pe. Cantífula de Castro A Bíblia é o coração da fé cristã e o fundamento de toda a catequese. A Palavra de Deus ilumina a vida, orienta a moral, inspira a oração e fortalece a esperança. Para o catequista, compreender o lugar da Sagrada Escritura na comunidade é fundamental — sobretudo num país onde muitas famílias enfrentam desafios sociais, económicos e espirituais que exigem discernimento e consolação constante. A Bíblia não é apenas um livro antigo: é Palavra viva, que continua a falar às realidades concretas do nosso tempo. Os conflitos, o sofrimento, as alegrias, as dúvidas e as conquistas do povo moçambicano encontram eco nas narrativas bíblicas. As famílias que lutam pela sobrevivência reconhecem-se na caminhada dos israelitas no deserto; os jovens que procuram sentido identificam-se com os discípulos de Jesus; e as comunidades feridas por conflitos e deslocamentos encontram consolo no anúncio profético da paz e da justiça. A Bíblia como Companheira de Caminhada A tarefa do catequista é ajudar o povo a perceber que a Bíblia é uma companheira de vida. Isso implica ensinar a lê-la com respeito, método e espírito de oração. Em muitas paróquias, a prática dos círculos bíblicos e das celebrações da Palavra torna a Escritura mais acessível, valorizando o envolvimento de todos os fiéis — inclusive daqueles que, não sabendo ler, participam através da escuta e da memória oral, traço tão marcante da cultura moçambicana. É importante reforçar que a leitura bíblica exige contexto. O catequista deve explicar o ambiente histórico e cultural onde os textos foram escritos, evitando interpretações literais ou supersticiosas que possam confundir os fiéis. A Bíblia não é um “livro mágico” para resolver problemas imediatos, mas uma fonte de sabedoria que orienta escolhas e fortalece a confiança em Deus. Liturgia, Inculturação e Missão O uso da Bíblia na liturgia é também um espaço privilegiado de formação. Nas leituras dominicais, a comunidade escuta a Palavra que ilumina os acontecimentos da vida e convida à conversão. No contexto moçambicano, é igualmente relevante promover a tradução da Palavra para as línguas nacionais. A Bíblia ressoa de forma mais profunda quando escutada em Emakhuwa, Xichangana, Elomwe, Echuwabo, Sena ou Ndau. Quando a Palavra fala a “língua do coração”, a fé floresce com mais autenticidade. Outro ponto essencial é formar os catequistas para discernir, à luz da Escritura, as situações desafiadoras da actualidade: violência doméstica, injustiça social, corrupção ou perda de valores. A Bíblia não foge à realidade; pelo contrário, desafia-a. Os profetas clamam por justiça e as cartas paulinas chamam à reconciliação. Ao escutar a Palavra, a comunidade descobre que não é chamada a guardar a fé apenas para si, mas a anunciá-la com coragem. Assim, a Bíblia torna-se presença viva e transformadora no quotidiano. Quando acolhida com fé e inteligência, ela fortalece a identidade, cura feridas e anima a caminhada de um povo que, embora enfrente muitos desertos, sabe que nunca caminha sozinho. A Palavra é, verdadeiramente, luz para os pés e esperança para o futuro.
Quando Servir Vira Sofre: Alerta de Maio para o trabalhador moçambicano
Maio, mês do trabalhador, encontra muitos moçambicanos com um cansaço que não passa no domingo. A OMS classifica burnout como “estresse crónico de trabalho não gerenciado”: exaustão, cinismo e perda de sentido. O retrato em Moçambique O estudo “Vulnerabilidade ao burnout em profissionais de saúde de um hospital público no norte de Moçambique”, publicado na Quaderns de Psicología em Julho de 2023, avaliou 300 profissionais. Os dados são alarmantes: 77,3% tinham desgaste psíquico alto, 72% alta indolência e 31,6% baixa ilusão pelo trabalho. Trabalho por turnos e ser mulher aumentaram o risco. Se acontece no hospital, ocorre na machamba, na escola, na igreja. Teologia do limite A Bíblia normaliza o descanso. Deus cessou no sétimo dia (Gn 2,2) e ordenou o sábado (Ex 20,8). Jesus se retirava para orar (Lc 5,16). Elias teve burnout em 1Rs 19: Deus respondeu com sono e comida, não cobrança. Descanso é mandamento, não luxo. Teu valor vem de seres imagem de Deus (Gn 1,27), não do teu salário. Marta servia Cristo e ouviu: “Andas inquieta” (Lc 10,41). Até ministério sem limite adoece. Moisés ia colapsar até Jetro mandar delegar (Ex 18,17-18). Três medidas para Maio Vigia os sinais: Insônia, irritabilidade, cinismo e “dor de domingo” são luz vermelha. Guarda o sábado: 24h sem email/trabalho. O cérebro precisa de off para não queimar. Negocia a carga: Fala com a liderança. Pr 15,22 diz que “planos sem conselho falham”. Neste mês dos trabalhadores, Moçambique precisa de servos saudáveis, não mártires da produtividade. Deus te chamou para frutificar (Gn 1,28), mas também disse “vinde a mim, cansados” (Mt 11,28). Descansar é mordomia do corpo, templo do Espírito (1Co 6,19). Desafio: Escolhe um sábado este mês para desligar. Deus sustenta o mundo sem ti por 24h.
maio 06 2026
Xenofobia na África do Sul: crise de segurança ou falha de solidariedade africana?
Por: Cremildo Alexandre Os recentes protestos em Durban, reportados pela SABC News, revelam uma tensão crescente em torno da presença de estrangeiros em situação irregular na África do Sul, reacendendo um debate antigo sobre xenofobia no continente. Enquanto alguns manifestantes exigem medidas mais duras do governo sul-africano, a situação expõe fragilidades profundas na convivência regional, onde cidadãos africanos, em busca de melhores condições de vida, acabam enfrentando rejeição, violência e exclusão. Países como Tanzânia e Nigéria já começaram a repatriar seus cidadãos, numa resposta prática, mas que também levanta questões sobre a capacidade de África proteger os seus próprios filhos fora das suas fronteiras. Por outro lado, Moçambique, através do Presidente Daniel Chapo, optou por um apelo à calma e serenidade, defendendo uma abordagem diplomática e cautelosa diante da crise. Essa postura procura evitar o agravamento das tensões e preservar as relações bilaterais, mas também pode ser interpretada como insuficiente diante do sofrimento de cidadãos afetados. A xenofobia, neste contexto, não é apenas um problema de imigração, mas um desafio moral e político para todo o continente africano, que historicamente defendeu a unidade e solidariedade entre os seus povos. Afinal, até que ponto os países africanos estão realmente comprometidos com a proteção e dignidade dos seus cidadãos além-fronteiras?
maio 06 2026
O trabalho, na Bíblia: maldição ou bênção?
Por: Pe. Marcos Mubango Introdução É muito generalizada a ideia segundo a qual o trabalho é uma maldição, fundamentando essa visão na Sagrada Escritura. Maio é mês trabalhador. Vamos dedicar o nosso espaço deste mês a perceber como, na verdade, a Bíblia vê o trabalho: bênção ou maldição? 1. O trabalho, uma maldição? A ideia de que o trabalho é uma “maldição” vem principalmente de uma interpretação comum de Gn 3,17 onde, após o pecado de Adão e Eva, Deus profere palavras que associam o trabalho a dor, cansaço e esforço extremo, dizendo a Adão: “maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida”. Estas palavras de Deus são interpretadas como uma punição divina que tornou o trabalho maldito. A visão negativa do trabalho é reforçada pela perspectiva negativa dada ao termo ’abodah, palavra hebraica para trabalho, em Êxodo 5, 9-18, onde é usada para significar “servidão”, “trabalho forçado”, referindo-se à “escravidão” dos hebreus no Egito, imposta pelo Faraó, como um mecanismo de opressão e punição, para mantê-los exaustos e impedi-los de ouvir as promessas de libertação de Moisés. A visão negativa do trabalho na Bíblia é reforçada ainda pelo livro do Eclesiastes que o apresenta, muitas vezes, como “vaidade”, especialmente quando o esforço não traz satisfação real. Como se pode facilmente constatar, parece haver uma progressão na maldição do trabalho que, além de ser “penoso” (Gn 3,17), impedindo qualquer tentativa de libertação (Ex 5,9-18) e, finalmente, é um “correr atrás do vento” (Ecle 6,1). 2. O trabalho, uma bênção! Uma diferente interpretação das passagens acima citadas (Gn 3,17; Ex 5,9-18 e Ecle 6,1) mostra-nos o contrário, ou seja, que o trabalho é uma dádiva de Deus, uma bênção, e não uma maldição. O trabalho é algo bom e digno, antes de tudo, porque é uma extensão da ação criativa de Deus. Deus trabalhou na criação do universo (Cf. Gn 2,2-3) e trabalha continuamente para a manutenção da vida e para a redenção humana (cf. Jo 5,17). O trabalho humano é uma participação na obra criadora de Deus, pois ele, criado à imagem de Deus, é chamado a administrar, desenvolver e dar continuidade à criação, agindo como colaborador de Deus no mundo. Esta vocação dignifica o ser humano, permitindo que, através de seus dons, intelecto e esforço, transforme a realidade e contribua para a construção da sociedade. Aliás, como nos mostra Gênesis 2,15, o trabalho faz parte do plano original de Deus que coloca o homem no jardim do Éden com a tarefa de torná-lo produtivo e protegê-lo, servindo a Deus e ao próximo. Em Gn 3,17-19, Deus amaldiçoa a terra e não o trabalho em si. A maldição da terra trouxe futilidade e dor para a atividade laboral que em si é boa. O trabalho, natural e prazeroso, se torna penoso por causa da ruptura da comunhão do homem com Deus, que torna a terra menos produtiva, forçando o homem a trabalhar de forma penosa para obter o sustento. Em Êxodo 5,9-18, o trabalho não é descrito como uma maldição em si, mas transformado em um instrumento de opressão e castigo devido à crueldade do Faraó. Trata-se, portanto, de uma instrumentalização do trabalho que é usado para “calar a boca” dos israelitas, impedindo-os de pensar na liberdade ou de ouvir Moisés. Isso demonstra que o trabalho, que deveria ser digno, pode ser pervertido pelo pecado humano em exploração e escravidão. Para o Eclesiastes, o trabalho é considerado uma bênção e dádiva de Deus na medida em que permite o homem desfrutar dos seus frutos (Ecle 3,13.22). Entretanto, o trabalho se torna “vaidade” quando a pessoa trabalha incessantemente e não consegue aproveitar o que acumulou, deixando tudo para outros que não se esforçaram. A maldição não está no trabalho, mas na ganância, no stress e na incapacidade de aproveitar o fruto do próprio trabalho (Ecle 6,2). Qohelet sugere, assim, a necessidade de equilíbrio no trabalho, isto é, trabalhar com dedicação, mas também desfrutar da vida, reconhecendo que a verdadeira satisfação vem de Deus, não apenas do acúmulo de riquezas. Esta visão positiva do trabalho é reforçada pelo Novo Testamento onde o trabalho é visto como uma bênção, vocação e dádiva divina, e não como um castigo ou maldição. Jesus, ao ser conhecido como filho do carpinteiro (cf. Mt 13,55), valoriza o trabalho manual como parte do plano divino. No seu ministério, Jesus ensina que Deus valoriza o empenho e é generoso, não baseando a recompensa apenas no tempo trabalhado, mas na graça e no chamado (cf. Mt 25,14-30). S. Paulo também valorizava profundamente o trabalho, tanto em um sentido prático quanto espiritual. Ele não apenas pregava a importância do esforço, mas também o praticava como fabricante de tendas (Act 18,3) para sustentar seu ministério e não ser um fardo para as comunidades. O trabalho é um acto de adoração (cf. Col 3,23-24), uma maneira de viver a vida digna e respeitável, garantindo a autonomia financeira e evitando ser um fardo para os outros (cf.1 Ts 4,11-12). O trabalho, quando feito no Senhor, nunca é fútil (cf.1 Cor 15,58). Conclusão Na Bíblia, o trabalho é considerado uma bênção divina e uma vocação original do ser humano, instituída por Deus antes da queda do homem, e não um castigo. Ele é visto como uma forma de honrar a Deus, desenvolver o caráter, obter sustento e servir ao próximo, sendo um meio de realização pessoal e de exercer a administração da criação. No mês dos trabalhadores, peçamos a Deus para que nos livre da tentação da instrumentalização, da exploração e da busca incessante por lucro, e nos capacite a valorizar a dignidade humana e a justiça no trabalho, fazendo dele um meio de servir a Deus e prover sustento com dignidade.
maio 05 2026
Crónica: Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros
Por Giovanni Muacua Vale mais a pena morrer pobre do que enriquecer matando os outros. A vida é um dom sagrado de Deus, oferecido gratuitamente a cada ser humano, independentemente da sua condição social, económica, cultural ou religiosa. Apenas a Deus compete dar e tirar a vida. Nenhum ser humano, por mais poderoso, rico ou influente que seja, tem autoridade para decidir sobre a vida do outro — muito menos quando essa decisão é movida pela ambição, pela ganância ou pela sede insaciável de riqueza. Vivemos tempos difíceis, marcados por uma profunda crise de valores humanos, morais e espirituais. As relações entre as pessoas tornaram-se frias, calculistas e perigosamente individualistas. Cada um parece preocupar-se apenas consigo mesmo, com o seu sucesso pessoal e com o seu bem-estar imediato, colocando a vida do próximo em segundo plano. Vive-se como se o sofrimento alheio fosse irrelevante, como se a dor do outro não tivesse importância alguma. Este modo de viver revela uma sociedade ferida e doente, que perdeu o sentido do sagrado e da fraternidade. Neste contexto, ganha força uma lógica perversa, segundo a qual “os fins justificam os meios”. Trata-se de um verdadeiro maquiavelismo social, no qual não importa como se alcança a riqueza ou o poder, desde que o objectivo final seja atingido. Esta lógica é profundamente desumana e anticristã. É uma visão pagã da vida, que transforma o ser humano em instrumento e não em fim. No entanto, a fé cristã recorda-nos que todos fomos criados para viver, para amar e para cuidar uns dos outros, enquanto caminhamos nesta terra à espera da segunda vinda de Cristo, nosso Salvador. Todos havemos de morrer. Esta é uma verdade incontornável. A morte não escolhe classe social, não respeita estatutos nem títulos. Morrem ricos e pobres, jovens e velhos, fortes e fracos, negros e brancos. A morte coloca todos no mesmo nível e recorda-nos que as riquezas acumuladas, muitas vezes com tanto sacrifício e violência, não acompanham ninguém para o túmulo. O que permanece é apenas a memória das nossas acções e a responsabilidade diante de Deus. Por isso, qualquer riqueza construída sobre a morte, o sofrimento e o sangue de outros seres humanos não conduz à felicidade verdadeira. Uma riqueza que nasce de assassinatos, sacrifícios humanos, feitiçaria ou práticas ocultas não traz paz interior, não gera segurança nem alegria duradoura. Pelo contrário: cria medo, desconfiança e destrói famílias inteiras, levando, inevitavelmente, à condenação moral e espiritual. É triste e revoltante constatar que estas práticas não são apenas histórias antigas ou lendas urbanas. Elas acontecem no seio das nossas comunidades, muitas vezes dentro das próprias famílias. Há tios, irmãos e pais que, movidos pela ganância, recorrem a feiticeiros e curandeiros para “fortalecer” os seus negócios, acreditando que a prosperidade só será possível à custa da morte ou da desgraça de alguém próximo. Em muitos casos, as vítimas são os próprios filhos, netos ou sobrinhos. Essas pessoas enriquecem rapidamente, exibem sinais exteriores de sucesso e sentem-se invencíveis. No entanto, esquecem-se de que também elas vão morrer. E, quando esse dia chegar, terão de prestar contas a Deus por cada vida destruída, por cada lágrima derramada, por cada injustiça cometida. Deus é paciente, mas é justo. A sua justiça pode tardar, mas nunca falha. Que sucesso é esse que se constrói sobre o medo, a morte e a destruição dos laços familiares? Nenhuma pessoa que vive da bruxaria está isenta da morte. Nenhuma prática oculta pode salvar alguém do juízo divino. Há pessoas que já não conseguem dar um passo sem recorrer à feitiçaria: para estudar, para trabalhar, para casar ou para enriquecer. Toda a vida passa a ser governada pelo medo e pela dependência do mal. Este tipo de vida não traz felicidade verdadeira; gera angústia, insegurança e isolamento. Viver sabendo que os próprios familiares o temem, não por respeito, mas por medo, é uma tragédia humana. Um bom pai, um bom tio ou um bom irmão não é aquele que enriquece destruindo a vida dos outros, mas aquele que protege, educa, orienta e promove a vida em abundância. É importante afirmar com clareza: para enriquecer, ninguém precisa de matar ninguém. Não é necessário destruir vidas para alcançar estabilidade económica. O trabalho honesto pode ser lento e difícil, mas preserva a dignidade humana e a paz de consciência. A pobreza vivida com dignidade vale muito mais do que a riqueza manchada de sangue. No fim, não seremos julgados pela quantidade de bens acumulados, mas pela forma como respeitámos a vida, promovámos a justiça e cuidámos uns dos outros. Quem tem ouvidos, ouça!
Ecos da 132.ª Assembleia Plenária da CEM “Dialogar para reconciliar o povo moçambicano”
A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), reunida de 14 a 21 de Abril de 2026, no Seminário Filosófico de Santo Agostinho da Matola, dirigiu-se às comunidades cristãs e a todos os cidadãos de boa vontade. Saudando-os na alegria pascal, os Bispos reafirmaram a fé na presença transformadora de Cristo Ressuscitado na nossa vida quotidiana. Comunhão com o Santo Padre e Transições Eclesiais A Assembleia, presidida pelo Arcebispo de Nampula, expressou profunda comunhão com o Papa Francisco, destacando o seu apelo à construção da paz e à denúncia da corrupção. Entre as principais notícias da vida da Igreja, destacam-se: – A criação da nova Diocese de Caia. – A renúncia, por motivos de saúde, do Arcebispo da Beira, D. Claudio Dalla Zuanna, a quem foi prestada homenagem pelo seu serviço pastoral e contributo académico. – A eleição de D. António Juliasse como novo Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique (UCM). Análise da Situação Sócio-Política e Desafios Nacionais Os Bispos analisaram com preocupação a realidade do País, apontando feridas abertas que exigem atenção urgente: Conflito em Cabo Delgado:A persistência da violência e o drama dos deslocados. Crise Social:A pobreza crescente, a degradação dos serviços de saúde, a falta de medicamentos e as más condições das estradas. Educação e Juventude:O desânimo dos jovens perante a falta de perspectivas e a necessidade de habitação. Responsabilidade Cívica:O alerta contra a manipulação política, apelando ao compromisso com o bem-comum e à reconciliação nacional. Pastoral, Formação e Protecção de Menores A CEM reflectiu sobre a vitalidade das comunidades e a formação dos futuros sacerdotes, destacando o elevado número de seminaristas — um sinal de esperança que exige maior sustentabilidade económica das paróquias. Foi também reafirmado o compromisso rigoroso com a protecção de menores, através da implementação de directrizes e formações específicas contra abusos. Quanto aos eventos, a visita do Cardeal Pietro Parolin foi considerada um marco para o diálogo nacional, e confirmou-se que a próxima Jornada Nacional da Juventude terá lugar na Beira, em 2028. Próximos Passos: Fé e Compromisso Social Foi aprovada a revisão dos Estatutos da CEM e definido o tema da IX Semana Nacional de Fé e Compromisso Social: “Dialogar para reconciliar o povo moçambicano”. Os Bispos concluem o comunicado com um apelo à esperança activa, exortando todos os moçambicanos a serem construtores de uma sociedade mais justa e solidária. Perfil: D. António Juliasse Ferreira Sandramo Novo Magno Chanceler da UCM Nomeado pela Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) durante a sua 132.ª Assembleia Plenária, D. António Juliasse Ferreira Sandramo assume agora a elevada missão de Magno Chanceler da Universidade Católica de Moçambique (UCM). Sucede a D. Claudio Dalla Zuanna, num momento de particular importância para a consolidação académica e espiritual da instituição. Percurso Académico e Científico António Juliasse possui um sólido currículo académico, marcado pela interdisciplinaridade entre a Fé e a Razão: – Teologia: Licenciado pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. – Antropologia: Licenciado pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH). – Estudos Africanos: Mestre pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, onde desenvolveu investigação sobre práticas sócio-culturais em Moçambique. – Experiência Docente: Antes da sua elevação ao episcopado, foi docente de Antropologia na própria UCM, conhecendo profundamente a realidade da instituição que agora dirige como Chanceler. Caminho Pastoral Natural de Soalpo, na Província de Manica, nasceu a 20 de Março de 1968. Foi ordenado sacerdote em 1998, tendo servido na Diocese de Chimoio em diversas funções paroquiais e de coordenação. – Em 2018, foi nomeado pelo Papa Francisco como Bispo Auxiliar de Maputo. – Em 2022, assumiu a titularidade da Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, onde se tem destacado pela sua voz profética na defesa das populações vítimas do terrorismo e na assistência humanitária aos deslocados. Missão na UCM Como Magno Chanceler, D. António Juliasse terá a responsabilidade de velar pela identidade católica da Universidade, garantindo que o ensino superior continue a ser um instrumento de protecção da dignidade humana e de promoção da paz social. A sua vasta experiência em contextos de crise e a sua preparação intelectual fazem dele uma figura chave para guiar a UCM nos desafios educativos e sociais que Moçambique enfrenta.
abr 24 2026
DESAFIOS E OPORTUNIDADES NO MOÇAMBIQUE DIGITAL
(Valentina Atthumpuha) A juventude moçambicana encontra-se num momento de grandes transformações. A expansão gradual da internet, o aumento do acesso a telemóveis inteligentes e a circulação constante de informações colocam os jovens diante de novas possibilidades, mas também de desafios que exigem orientação, equilíbrio e espírito crítico. Se por um lado as tecnologias criam oportunidades para aprender, trabalhar e empreender, por outro lado podem facilmente conduzir a dependências, dispersão e vulnerabilidades. Março e Abril, meses marcados por diversos debates sobre juventude, inovação e inclusão, tornam-se propícios para reflectir sobre o impacto das tecnologias no presente e no futuro profissional dos nossos jovens. É uma reflexão necessária, sobretudo num país em que grande parte da população é jovem e vive em contextos sociais, económicos e educativos muito diversos. A presença crescente das tecnologias no quotidiano da juventude Em Moçambique, o telemóvel tornou-se o principal meio de acesso ao mundo digital. Mesmo nas zonas rurais, onde a internet pode ser mais limitada, a juventude utiliza redes sociais, vídeos educativos, jogos e plataformas de comunicação. Esta presença digital influencia a forma como os jovens aprendem, socializam e constroem a sua identidade. As tecnologias, quando bem utilizadas, abrem portas para conhecimentos que antes eram difíceis de alcançar. Hoje, um jovem pode assistir a uma aula online, aprender uma nova habilidade técnica, procurar oportunidades de emprego ou comunicar com pessoas de outras províncias e países. Porém, o uso inadequado pode resultar em dispersão, conflitos familiares, consumo de conteúdos inadequados e até riscos de segurança. Entre a inspiração e a pressão As redes sociais são, talvez, o espaço digital mais frequentado pelos jovens. Lá encontram entretenimento, humor, tendências culturais e modelos de vida que influenciam comportamentos. Muitos jovens criam conteúdos, partilham ideias e encontram reconhecimento entre amigos e seguidores. Contudo, há também riscos importantes: a comparação constante com vidas idealizadas, a pressão por “likes”, a exposição exagerada da vida pessoal e a facilidade de contacto com desconhecidos. Estes factores podem afectar a auto-estima, a concentração nos estudos e o bem-estar emocional. É fundamental que pais, educadores e líderes comunitários orientem os jovens para um uso equilibrado e responsável. Ensinar a filtrar informações, reconhecer conteúdos falsos e evitar comportamentos perigosos é tão importante quanto ensinar leitura e escrita. A tecnologia como caminho para novas carreiras O mercado de trabalho está a mudar e o Moçambique digital começa lentamente a abrir espaço para profissões que há poucos anos eram quase desconhecidas. Hoje, jovens podem trabalhar ou aspirar a actuar em áreas como: Desenvolvimento de aplicações e software; Manutenção e montagem de equipamentos informáticos; Design gráfico e audiovisual; Marketing digital; Análise de dados; Produção de conteúdos digitais; Prestação de serviços online para pequenas empresas. Estas oportunidades não exigem, inicialmente, grandes investimentos financeiros. Muitos jovens começam a aprender através de vídeos, cursos gratuitos e grupos de estudo. A curiosidade e a persistência tornam-se os principais instrumentos de trabalho. Mesmo em comunidades rurais, há jovens que prestam pequenos serviços de informática, ajudam colegas a criar documentos digitais, ou iniciam micro-negócios baseados em telemóveis. São exemplos que mostram como a tecnologia pode contribuir para autonomia financeira e desenvolvimento local. A escola diante dos desafios tecnológicos As escolas enfrentam o grande desafio de acompanhar o ritmo das mudanças digitais. Muitas ainda têm poucos computadores, falta de energia estável ou professores com formação limitada em tecnologias. Contudo, mesmo com essas limitações, há possibilidades reais de integração da tecnologia no processo educativo. O professor pode utilizar vídeos educativos, textos digitais, simulações simples e até exercícios interactivos para tornar as aulas mais atractivas. Actividades de pesquisa orientada, debates sobre segurança digital e pequenos projectos envolvendo telemóveis podem também ajudar a desenvolver competências modernas sem exigir equipamentos sofisticados. Ao abordar tecnologias, a escola não deve limitar-se aos aspectos técnicos. É essencial trabalhar também valores como ética digital, respeito online, privacidade e responsabilidade no uso de redes sociais. Apoiar a juventude no uso saudável da tecnologia A juventude precisa de apoio para que a tecnologia seja uma aliada, e não um obstáculo. É importante promover: Rotinas equilibradas que incluam estudo, descanso, convívio familiar e tempo limitado de ecrãs; Actividades culturais e desportivas que combatem o sedentarismo e fortalecem o bem-estar emocional; Momentos de diálogo entre pais e filhos para que os jovens se sintam livres para partilhar dúvidas e dificuldades; Projectos comunitários, onde jovens aprendem juntos e se apoiam mutuamente; Exemplos positivos, porque os jovens aprendem mais com o que veem do que com o que lhes é dito. Educar um jovem para o uso consciente da tecnologia é educá-lo para a vida, para o respeito e para o futuro. Esperança e responsabilidade O Moçambique digital está a crescer, e a juventude é a grande protagonista desta transformação. Contudo, o futuro profissional não depende apenas de acesso à internet; depende de disciplina, curiosidade, resiliência e capacidade de aprender continuamente. O mundo exige jovens flexíveis, criativos e capazes de resolver problemas reais. Se os adultos, pais, professores, líderes comunitários, investirem na orientação, no incentivo e na criação de ambientes de aprendizagem, a tecnologia deixará de ser apenas entretenimento e tornar-se-á um instrumento poderoso para o desenvolvimento do país. Portanto, as tecnologias, que muitas vezes são vistas como ameaça, podem tornar-se ferramentas de transformação, desde que usadas com responsabilidade e acompanhadas de valores sólidos. Jovens que aprendem a usar a tecnologia com propósito tornam-se cidadãos mais preparados, trabalhadores mais competentes e seres humanos capazes de sonhar com um futuro melhor. O Moçambique digital não acontecerá apenas nos grandes centros urbanos: ela nasce, sobretudo, na criatividade da juventude, na força da comunidade e no compromisso de todas as gerações com a educação e o desenvolvimento.
Campeões de diálogos e perdedores da reconciliação
(Dr Deolindo Bento Paúa) Se existe alguma coisa em que somos bons é a capacidade de encenar diálogos e, por via disso, encenar também soluções dos nossos problemas. A história reza que o nosso Estado foi fundado, eliminando opiniões discordantes e gerindo conflitos de vária ordem. Tudo parece indicar que só é possível governar Moçambique se se construir pontes e concordâncias de forma honesta e genuína, o que não conseguimos e, por isso, não alcançamos a verdadeira estabilidade. Não se conversa com bandidos A expressão “não se dialoga com bandido” é amplamente atribuída à Frelimo, sobretudo, no contexto da guerra dos 16 anos, para interagir com a Renamo com vista a acabar com o conflito. Até hoje, a palavra “bandido” usada naquele contexto, parece indicar todo aquele que discorda com a opinião oficial vigente. Quem discorda com a governação, com as decisões, com as políticas públicas adoptadas é marginalizado como se de um bandido se tratasse. Podemos então assumir que a dificuldade da Frelimo em dialogar de forma franca é tradicional e que por razões de formalidade e de demonstração de bom senso na arena internacional, ela precisou encenar diálogos. Deus queira que este diálogo em curso não seja uma dessas encenações, porque Moçambique precisa dialogar com franqueza para passar ao próximo capítulo, o capítulo da inclusão, depois de longos anos de exclusão social. De facto, os nossos diálogos sempre estiveram órfãos de verdade e de franqueza, porque sempre houve uns pensando que, por seu esforço, deveriam criar consensos com bandidos, mesmo sem intenção de cumprir os consequentes acordos. A longa guerra dos 16 anos prova o desinteresse em manter um Moçambique unido e reconciliado. Depois, seguem-se os sucessivos conflitos pós-eleitorais cujo apogeu foi as eleições de 2024. Até aqui, os métodos, os canais e os intervenientes dos sucessivos diálogos que têm tido lugar, além de terem sido sempre questionáveis, não produziram efeitos desejados. Hoje, numa mistura de dúvida e esperança movidas por essa história de insucessos, muitas pessoas olham para o Diálogo Nacional Inclusivo em curso como possibilidade de ruptura da tradição improdutiva de diálogos. O diálogo nacional chamado inclusivo Sabemos todos que para responder aos sucessivos conflitos que têm acompanhado a história de Moçambique e, sobretudo para acabar com o conflito instalado após os eventos das eleições de 2024, foi proposto o Diálogo Nacional Inclusivo que, sob a gestão de uma comissão técnica, supõe-se estar a colher sensibilidades de todas as camadas sociais e de todos os grupos de moçambicanos para constituir uma intenção política consensual. A ideia formal é a de criar um pacote legislativo de gestão pública livre de conflitos. Por isso o principal pacote em auscultação é o eleitoral que se supõe que tem facilitado fraudes e gerado desavenças. Se o diálogo funcionar em obediência cega a letra, a intenção pode produzir resultados que criem bases de justiça social e de reconciliação que precisamos estabelecer desde a independência. Elogio a COTE, apesar de partidária Uma das razões que leva parte dos moçambicanos a duvidar dos resultados deste diálogo não tem a ver apenas com o facto de diálogos passados não terem produzido efeito, mas também pelo facto da composição comissão técnica que o encabeça ser questionável. Os diálogos passados foram feitos entre o governo da Frelimo e a Renamo, excluindo outras sensibilidades sociais. Esse modelo levou a questionamentos sobre a legitimidade de partidos em representar interesses nacionais. Infelizmente, neste diálogo, o figurino continua. Representantes de partidos políticos, alguns deles sem legitimidade, lideram o processo. A sociedade civil e o resto da população são apenas convidados. O povo é convidado num processo que deveria ser ele a liderar. Parece ser certo que, neste modelo, interesses de partidos vão sempre nortear o rumo do diálogo. E agora, graças aos eventos das últimas eleições, parece haver certeza de que o interesse dos partidos políticos é divergente do interesse nacional, o que os torna efectivamente suspeitos para agir no interesse do povo. O que a CNE, o STAE e Conselho Constitucional se tornaram é resultado da tentativa de acomodação de interesses e garantia de sobrevivência de partidos e não do interesse nacional. A ineficiência desses órgãos e suas decisões tendenciosas nas sucessivas eleições e sobretudo nas últimas, provou-se na exclusão de candidaturas de partidos que seriam uma ameaça à hegemonia dos partidos representados neles. Em suma, no modelo de diálogo vigente, o interesse nacional pode sucumbir sempre ao interesse dos interlocutores partidários que ilegitimamente o encabeçam. No entanto, o trabalho técnico feito pela COTE até aqui demonstra algum profissionalismo. Veremos quando chegar a hora das decisões políticas sobre os resultados da auscultação. A intolerância do PR e os sinais de um diálogo teatral Há décadas que se repete a teoria de que o diálogo político tem que ser feito com verdade e antecedido pela reconciliação. A carta dos bispos católicos de Novembro de 2024 faz recomendações concretas a esse respeito. Assumir a verdade eleitoral, os crimes e os excessos cometidos por todas as partes nos conflitos, reconciliar-se com os factos, com os divergentes e com todos os moçambicanos e só depois ir ao diálogo. Ora, se por um lado a COTE demonstra competência e compromisso no exercício da sua missão de coordenar o diálogo, o Presidente da República não tem dado sinais de compromisso com a reconciliação. Aliás, depois da sua tomada de posse, Daniel Chapo passou os primeiros 6 meses em comícios pelo país, em que tentava convencer aos moçambicanos de que tinha ganho as eleições. Para conseguir isso, definiu apelidos pejorativos concretos para os manifestantes e, sobretudo para os seus líderes. No seu primeiro informe sobre o estado geral da nação, Daniel Chapo voltou a apelidar as manifestações de criminosas, ilegais e inconstitucionais, sem no entanto mencionar a sua causa criminosa. Crimes nas manifestações não fazem manifestações criminosas. Mesmo que tivessem sido criminosas e ilegais, em nome da reconciliação que se supõe existir para que o diálogo produza o efeito desejado, não seria admissível uma tal atitude, um ano depois. Os sucessivos discursos intolerantes do Presidente


