ago 18 2026
As lágrimas de Raquel e o Despertar da Paz
Por: Mónica Meque Vivemos em tempos difíceis e de desafios constantes, num mundo onde a esperança da paz e da tranquilidade humana tende a desmoronar-se a cada dia. As armaduras da pobreza, do terrorismo, das angústias, das incertezas, da xenofobia e de outros males que apoquentam a sociedade tendem a vergar incessantemente o povo moçambicano. As recentes informações que nos chegam da vizinha África do Sul esmagam o coração de muitas mulheres, de muitas mães que esperavam o seu marido, o seu filho ou filha, o seu sobrinho e o seu neto voltarem triunfantes do prometido Eldorado, carregados de molhos de espigas de uma abundante colheita. Mas, infelizmente, algumas delas têm de enfrentar o terrível drama de receber em lágrimas os corpos dos seus entes queridos. Face a esta situação, o que pode ainda fazer a mulher? A profecia de Jeremias, num dos seus versículos, relata-nos um episódio que vale a pena recordar: “Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem” (Jer 31,15). O cenário repete-se. As personagens mudam. Hoje, já não é Raquel; é a África, é uma outra pobre mulher que chora amargamente e de forma inconsolável. Hoje não são as tribos do Norte de Israel chacinadas pelos assírios; são filhos da mesma Mãe-África a perpetrarem atrocidades fratricidas. Violência após violência! Como fica o coração de uma mãe? A mulher vive, hoje, numa sociedade onde o choro de um irmão já não nos toca o peito, onde o abraço de esperança virou uma troca de moeda, onde a família e a sociedade em geral se transformaram em lugares de julgamento e exclusão. Somos os acusadores e os defensores do crime alheio; somos os donos da verdade. Porém, não conhecemos a paz. Um lar de paz e harmonia é o que toda a mulher deseja para a sua família. Mas o que seria essa paz? Falar da paz não significa necessariamente ausência de armas, guerras, conflitos, discussões ou atritos sociais e familiares, mas refere-se igualmente à observância da tranquilidade e da ordem em todos os aspectos: individual ou interior, social, político e religioso. Nenhuma mulher gosta de viver em ambientes de hostilidade. Ela é, por natureza, acolhedora, protectora, promotora e integradora de paz e solidariedade. Sabemos que o povo moçambicano viveu e vive momentos turbulentos, desafios de natureza política, social, económica, financeira, cultural e até mesmo religiosa. Ninguém escapa ao caos. Os preços dos alimentos de primeira necessidade não param de aumentar; sobre o combustível, esse nem se pode comentar; o filho tende a julgar e a desonrar os seus pais; os pais não assumem a responsabilidade de criar e educar os seus filhos; os cônjuges fogem da fidelidade; a globalização surge com mais poder de decisão sobre os valores sociais e éticos da sociedade; enfim, o desespero vai tomando conta de cada cidadão moçambicano. Aliado a isto, um exemplo concreto revelou-se na vida dos moçambicanos aquando das manifestações pós-eleitorais das últimas eleições gerais. O povo moçambicano viveu momentos de aflição e de tensão jamais vistos, onde o desespero e a insegurança eram o único sentimento e alimento diário, fazendo com que os corações se tornassem menos esperançosos e mais angustiados. Podemos ainda acrescentar a este exemplo os recentes actos xenófobos que aumentam a violência e o luto, minando a irmandade. Mas como buscar a paz? Como reacender a esperança? Antes de mais, é preciso compreender que a paz é o amor; a paz é uma responsabilidade individual e colectiva que o ser humano deve conhecer e cultivar todos os dias. Ela constitui a chave-mestra para o bem-estar social e económico de toda a sociedade. Não se pode somente falar e gritar sobre a paz e a união, sem buscar acções concretas e mecanismos eficazes para que elas se materializem. A paz exige, não só da mulher como também de todos, a humildade e o amor a Deus. Desde a simples mulher até às lideranças governamentais, é crucial conhecer, compreender e aceitar a paz, colocando-a como uma agenda indispensável e inegociável para o bem-estar socioeconómico de todos os moçambicanos e da Região Austral. A promoção da cultura do diálogo, da partilha, do acolhimento e do aperfeiçoamento da fé torna-se cada vez mais indispensável na vida dos moçambicanos. Outrossim, não menos importante, a luta pela erradicação da fome, da iliteracia, do desemprego, a provisão de serviços essenciais de saúde, água e saneamento constituem caminhos que nos levam à paz e à integração nacional e regional. Por fim, é tempo de compreender que somente cultivando e fomentando a paz, o homem e a mulher, o moçambicano, o sul-africano e o africano em geral podem ter uma vida saudável, impulsionar o amor ao próximo e promover um país de Direito, justiça social e democracia. Só assim se tornará evidente que a responsabilidade pela paz efectiva é tarefa de cada um de nós, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou cor partidária. Não importa onde e quando, o coração do ser humano deve estar recheado de sentimentos saudáveis que o levem à paz, e somente assim conseguirá viver em paz e transmitir ao próximo essa mesma paz. Só assim calaremos e limparemos as lágrimas de Raquel dos nossos dias.
ago 11 2026
CAIXA SOLIDÁRIA VIDA NOVA 2026
Pe. Sérgio Vilanculo A Vida Nova é uma revista socio-religiosa propriedade da Arquidiocese de Nampula, publicada sob a responsabilidade do Centro Socio-Pastoral Paulo VI de Anchilo e dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Fundada em 1 de Janeiro de 1960 pelos Missionários Portugueses da “Boa Nova” sob o nome de Boa Nova, a revista é dirigida desde 1971 pelos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, altura em que passou a denominar-se Vida Nova. A Vida Nova tem como principal objectivo a evangelização. Desde a sua criação, a revista procura formar e informar a sociedade moçambicana e, em particular, as lideranças cristãs sobre assuntos de interesse social e religioso, com o intuito de promover uma cultura de paz e justiça à luz da doutrina social da Igreja. É parte integrante desta missão educar os seus leitores para que se tornem cidadãos e cristãos convictos, incutindo-lhes o respeito pela diversidade social e religiosa. Os temas tratados sistematicamente na revista dizem respeito, substancialmente, à alegria, à esperança, aos desafios e ao caminho das comunidades cristãs no país. No que se refere às publicações, até à data, esta constitui a única revista católica impressa e distribuída a nível nacional. Trata-se de uma publicação mensal (12 números por ano) com formato A5, 32 a 36 páginas, capa a quatro cores e interior a preto e branco. Recentemente, a revista tem vindo a apostar na sua autossustentabilidade. Os seus assinantes têm colaborado com valores compreendidos entre 150 e 200 meticais, dependendo da sua localização geográfica, enquanto outros têm optado pela versão digital. Contudo, a relação entre a contribuição de cada assinante e as despesas reais ainda deixa muito a desejar. É neste âmbito que se insere a iniciativa denominada Caixa Solidária Vida Nova 2026. Esta acção visa criar uma rede de Benfeitores entre os leitores e simpatizantes da revista. A ideia central é que cada Benfeitor contribua com uma caixa de papel A3 — matéria-prima essencial para a nossa paginação e produção gráfica —, no período compreendido entre Agosto e Outubro. A meta é alcançar, pelo menos, 100 benfeitores. Cada caixa de papel custa aproximadamente 3.200,00 MT (três mil e duzentos meticais). Para que todos possam fazer parte desta missão, abrimos duas modalidades de participação: Benfeitor Pleno: Doação de uma caixa inteira (ou o valor correspondente de 3.200,00 MT). Co-Benfeitor: Doação de meia caixa (1.600,00 MT) ou qualquer outro valor livre que toque ao seu coração. O Benfeitor pode optar por depositar o valor numa das nossas contas ou fazer a entrega directa da caixa na nossa sede (Anchilo). Cada gesto garante um ano de esperança nas mãos de alguém. Para expressar o nosso agradecimento, cada Benfeitor (Pleno ou Co-Benfeitor) receberá a Revista Vida Nova (Impressa e Digital) em casa durante 12 meses, uma Agenda e um Calendário 2027 exclusivos, terá o seu nome mencionado na edição especial de Dezembro e receberá um Certificado Digital de Benfeitor. Ajude-nos a levar a Vida Nova mais longe e a chegar a mais comunidades onde o digital e a internet não chegam. Contribua via: M-Pesa: 85 048 5214 E-Mola: 86 538 5214 Titular da Conta: Cecília Constantino Após o envio, por favor mande o comprovativo para o número 86 121 4433 para entrar no grupo de Benfeitores.
ago 11 2026
Carta: Xenofobia: Protesto ou caça?
Caros amigos e leitores da revista Vida Nova! Escrevo-vos para partilhar uma questão que, a meu ver, é muito preocupante: a xenofobia na nossa vizinha África do Sul. Dói-me o coração ao ver certos vídeos e noticiários a respeito deste assunto. A última situação que vi, na qual sul-africanos munidos de paus e dísticos arrombavam a casa de supostos estrangeiros, chocou-me. A pergunta que não se cala em mim é a seguinte: isto é um protesto contra a imigração ilegal, como dizem, ou é uma caça desenfreada e furtiva a estrangeiros? Na minha humilde maneira de ver as coisas, condeno estes actos e acho-os desprezíveis e desumanos. O africano mata outro africano porque acha que o outro impede o seu crescimento. Mas ignoramos que as estrelas, apesar de serem milhares, conseguem brilhar todas, cada uma com o seu brilho próprio. E o que dizer do Governo? O Governo limita-se a afirmar somente que está a monitorizar a situação. A SADC nada faz e nem “o bico levanta”. Infelizmente, parece-me cada vez mais evidente que a vida de cidadãos africanos nada vale, primeiro aos olhos do mundo e, muito menos, aos olhos do próprio africano. Vozes de retaliação ouvem-se na Nigéria; outras vozes de condenação em Moçambique. Mas tudo é violência respondida por violência, rancores por rancores, indignação por indignação. Até quando?! Não há povo africano ou outro no mundo que não tenha sofrido antes ou que não sofra hoje; mas pensar que o brilho do outro ofusca o seu não dá a ninguém o direito de recorrer à violência. Mário Novais, Beira VN: Caro amigo Mário, a tua reflexão é pertinente e adequada aos tempos que estamos a passar. Esperamos que ela encontre o devido acolhimento junto dos demais leitores e que suscite não somente revoltas tempestuosas, mas também acções concretas em benefício dos irmãos que veem a sua vida ceifada ou transformada por esta situação. A vida não chega até nós Porquê é que não recebemos as revistas, quando já assinamos a Vida Nova? Armando Augusto Mutxaraimuali – Paróruia de Santa Teresa do Menino Jesus do Ilê VN: Caro amigo assinante! Para a Paróquia de Santa Teresa do Menino Jesus do Ilê, as revistas têm sido enviadas através dos Padres Dehonianos juntamente com outras revistas destas partes da Zamnbézia. As possíveis causas que podem estar por detrás podem ser o atraso no levantamento das mesmas por parte dos encarregados ou por outra razão alheia a nossa vontade.
Dom Osório Citora Afonso: um Evangelho vivido ao serviço da Igreja
Por: Kant de Voronha Há vidas que não precisam de longos discursos para serem compreendidas. Basta contemplar o caminho que percorreram, as pessoas que tocaram e a esperança que semearam. Assim foi a vida de Dom Osório Citora Afonso. O seu ministério episcopal não pode ser reduzido aos anos em que governou a Diocese de Quelimane, nem à dor provocada pela sua morte. A sua verdadeira grandeza encontra-se na forma como viveu o Evangelho e fez da sua vida uma escola permanente de comunhão, catequese e missão. A Igreja em Moçambique despede-se de um dos seus pastores, mas não perde o testemunho de um discípulo que acreditava profundamente que a evangelização continua a ser a primeira missão da Igreja. Dom Osório compreendia que uma comunidade só cresce verdadeiramente quando cresce na fé. Por isso, dedicou grande parte do seu ministério à formação dos cristãos, ao fortalecimento das comunidades e à valorização da catequese como fundamento da vida eclesial. Num tempo em que tantas pessoas procuram respostas rápidas para os problemas da humanidade, Dom Osório recordava-nos que a resposta mais profunda continua a ser Jesus Cristo. Era esta convicção que orientava a sua acção pastoral. Não procurava apenas organizar estruturas ou administrar instituições. Procurava formar discípulos. Sabia que uma Igreja forte não é aquela que possui muitos edifícios ou grandes recursos materiais, mas aquela que possui cristãos bem formados, conscientes da sua fé e comprometidos com a missão. Talvez por isso a palavra “catequese” ocupasse um lugar tão especial no seu coração. Para Dom Osório, a catequese nunca foi apenas um período de preparação para receber sacramentos. Era um verdadeiro caminho de encontro com Cristo, capaz de transformar a vida das pessoas e renovar as comunidades. Catequizar significava educar para a fé, formar consciências, despertar vocações, fortalecer famílias e construir uma sociedade iluminada pelos valores do Evangelho. Num mundo onde muitos baptizados conhecem pouco a riqueza da própria fé, o seu testemunho desafia-nos a devolver à catequese o lugar central que sempre ocupou na vida da Igreja. Uma comunidade que descuida a formação cristã corre o risco de possuir muitos fiéis, mas poucos discípulos. A evangelização começa precisamente quando o coração se deixa educar pela Palavra de Deus. Outro traço marcante do seu ministério foi a convicção de que a Igreja deve caminhar unida. Muito antes de a sinodalidade se tornar um dos grandes temas da vida eclesial contemporânea, Dom Osório já procurava viver este estilo de Igreja. Gostava de escutar. Valorizava o diálogo. Incentivava a participação dos leigos, dos religiosos, dos catequistas, dos jovens e das famílias na construção das comunidades. Compreendia que a Igreja não pertence apenas aos seus pastores, mas a todo o Povo de Deus, onde cada baptizado possui uma missão insubstituível. A sinodalidade não é apenas um método de organização pastoral. É uma espiritualidade. É aprender a caminhar juntos, a discernir juntos e a procurar juntos a vontade de Deus. Num tempo marcado por divisões, conflitos e individualismos, esta forma de viver a Igreja torna-se um verdadeiro sinal profético. Dom Osório acreditava que ninguém evangeliza sozinho. A missão pertence a toda a Igreja. Também a missão ocupava um lugar privilegiado na sua visão pastoral. Nunca concebia uma Igreja fechada sobre si mesma. A Igreja existe para anunciar Cristo. Existe para sair ao encontro das pessoas, sobretudo das mais pobres, das mais esquecidas e das mais afastadas da fé. Uma comunidade que deixa de evangelizar começa lentamente a perder a sua identidade. O Evangelho não foi dado para permanecer fechado nas sacristias, mas para ser anunciado em cada família, em cada escola, em cada hospital, em cada prisão, em cada aldeia e em cada cidade. É precisamente esta dimensão missionária que continua a desafiar a Igreja em Moçambique. Ainda existem muitas periferias humanas que esperam pela presença consoladora de Cristo. Ainda existem jovens à procura de sentido para a vida, famílias marcadas pelo sofrimento, crianças necessitadas de formação cristã e comunidades sedentas da Palavra de Deus. O maior tributo que podemos prestar à memória de Dom Osório será continuar esta missão com renovado entusiasmo. A morte violenta de Dom Osório Citora Afonso, ocorrida no Paço Episcopal de Quelimane, no dia 6 de Junho de 2026, provocou profunda consternação na Igreja e na sociedade. As circunstâncias deste acontecimento permanecem entregues ao trabalho das autoridades competentes. Contudo, para os cristãos, permanece uma certeza maior do que qualquer acto de violência: a vida daquele que serve fielmente Cristo não termina com a morte. O testemunho continua vivo nas comunidades que edificou, nas vocações que incentivou, nos catequistas que formou e nos fiéis que ajudou a aproximar-se de Deus. As novas gerações necessitam de conhecer testemunhos como o de Dom Osório. Vivemos numa época em que abundam influenciadores digitais, mas escasseiam verdadeiras referências espirituais. A juventude precisa de homens e mulheres que mostrem, pela própria vida, que a santidade continua a ser possível. Dom Osório ensinou precisamente isso. A santidade constrói-se na fidelidade quotidiana, na simplicidade do serviço, na escuta da Palavra de Deus e no amor incondicional pela Igreja. O seu legado não pode permanecer apenas na memória afectiva daqueles que o conheceram. Deve transformar-se num compromisso pastoral. Cada catequista que prepara uma criança para encontrar Cristo, cada sacerdote que anuncia o Evangelho com dedicação, cada religioso que serve os pobres, cada jovem que responde generosamente à vocação e cada família que educa os seus filhos na fé prolonga a missão que Dom Osório abraçou com tanto amor. A Igreja em Moçambique possui hoje a responsabilidade de preservar esta herança espiritual. Não através de monumentos ou homenagens ocasionais, mas vivendo aquilo que ele acreditava: uma Igreja verdadeiramente sinodal, onde todos caminham juntos; uma Igreja profundamente catequética, onde a fé é constantemente formada; e uma Igreja essencialmente missionária, que nunca se cansa de anunciar Jesus Cristo. No Evangelho, Jesus afirma que a árvore conhece-se pelos seus frutos. Os frutos deixados por Dom Osório Citora Afonso permanecem vivos na fé de tantas comunidades, no entusiasmo de muitos catequistas, na
ago 04 2026
CRÓNICA: ENTRE PAREDES DE HOSPITAIS
Vukani Maxakha Estar doente nas nossas bandas tornou-se cada vez mais complicado. Outro dia, um vizinho ficou gravemente doente e precisávamos de o levar ao hospital. Mas como tirá-lo daquele beco sem ruas? Ele vivia no fundo dos becos da nossa banda, onde as ruelas não permitem a passagem nem de um carro nem de uma mota; acho que até uma mulher grávida de seis ou mais meses teria dificuldades sérias para passar por lá. Fazê-lo sair daqueles becos não foi nada fácil. Ter acesso aos serviços de saúde ficou ainda mais difícil. Outra vez, fui ao Hospital Central de Nampula para visitar o pai de um amigo que diziam estar internado lá, há três dias. Já fazia tempo que não entrava nas instalações daquela instituição sanitária, uma das maiores e de referência nacional. Informei-me pelas indicações dispostas no hospital e dirigi-me para onde, provavelmente, estaria o paciente que teria de visitar. Para meu espanto, quando cheguei à enfermaria, parecia estar a entrar num mercado: pacientes e visitantes em todo e qualquer canto, nas camas e nos corredores; não havia sequer lugar para nos deslocarmos. Aí me perguntei: como é que os pacientes podem recuperar-se bem naquele estado? Por outro lado, como é que os médicos e o resto da equipa médica podem dar conta do recado naquelas condições? É mesmo um milagre sobreviver em tais circunstâncias. Daí veio-me à mente um texto lindo, de um autor desconhecido, que passo a apresentar: “Paredes de hospitais já ouviram preces mais honestas do que igrejas, já viram despedidas e beijos mais sinceros do que aeroportos. É no hospital que você vê um homofóbico sendo salvo por um médico homossexual, uma médica “patricinha” salvando a vida de um mendigo. Na UTI, você vê um judeu cuidando de um racista, um paciente policial e outro, presidiário. Na mesma enfermaria, ambos recebem os mesmos cuidados. Um paciente rico na fila de transplante hepático, pronto para receber um órgão de um doador pobre. É nessas horas que o hospital toca na ferida das pessoas, que universos se cruzam com um propósito e, nessa comunhão de destinos, nos damos conta de que sozinhos não somos ninguém. A verdade absoluta das pessoas, na maioria das vezes, só aparece no momento da dor ou da ameaça real da perda definitiva. O hospital é o local onde os seres humanos se desnudam das suas máscaras e se mostram como são na sua verdadeira essência. Esta nossa vida passa rápido, não brigue com as pessoas em vão. Não critique tanto o seu corpo, não reclame. Não perca o seu sono, nem deixe que lhe tomem a paz. Não deixe de beijar os seus amores, não se preocupe tanto. Ame o seu Deus, a sua família, os seus amigos. Ore/reze por aqueles que você imagina não merecer. Bens e patrimónios devem ser conquistados por cada um, não se dedique a acumular herança. Espera-se muito o Natal, a sexta-feira, o outro ano, quando tiver dinheiro, quando o amor chegar, quando você achar que tudo será perfeito. Na realidade, não existe nada perfeito. O ser humano não consegue atingir isso porque, simplesmente, não foi feito para se completar aqui… Aproveite e ame mais. Perdoe mais. Abrace mais. Viva mais intensamente. E deixe todo o resto na mão de Deus!” Os parágrafos deste texto de origem desconhecida são tão profundos que nos deixam a reflectir. Como não fazer preces sinceras se estás entre a vida e a morte? Naquelas condições, cada paciente, além do alto risco de contagiar os outros, corre também o mesmo risco de ser contaminado por eles. Isto é desumano. Gritam as paredes, mas quem as escuta? Elas não fazem mais do que murmurar silenciosamente, e o seu ruído só é sentido pelos pacientes. Cá entre nós! Digamos de passagem. Parece brincadeira, mas esta situação pode tirar alguém do sério. Enquanto, de um lado, o hospital está superlotado como o mercado de Waresta, do outro lado temos as instalações do novo hospital provincial, inacabado e abandonado há tempo. É doloroso e triste ver o povo sofrendo e mal acomodado, e um bando de executivos de gravatas, responsáveis pela má gestão das obras, circulando por aí impunemente. Infelizmente, esta moda está a pegar na Pérola do Índico: escolas, hospitais, pontes, etc., que se começam, mas nunca se concluem. As paredes daqueles edifícios guardam muitas memórias. Apesar das condições precárias de trabalho, os hospitais também guardam lindas memórias de profissionais dando o seu melhor para salvar mais uma vida, ou de profissionais chorando e culpando-se por não poderem salvar mais vidas. Na verdade, se nestas situações é difícil ser um paciente, é ainda mais difícil ser um profissional de saúde nestes casos. Falou o velho de olhar penetrante!
jul 28 2026
O Diálogo e o Direito de Participação como Caminho para a Paz
Por: Aurélio Jumbe Moçambique atravessa um momento crucial da sua história social e política, onde a busca pela paz definitiva e pela reconciliação nacional se apresenta cada vez mais urgente. Muitas vezes, somos tentados a acreditar que o silêncio como a ausência de debate ou o abafar das inquietações é o caminho mais rápido para a acalmia. No entanto, o verdadeiro apaziguamento de uma nação nunca se constrói sobre o silêncio, mas sim através do diálogo aberto, estruturado e regulado pelo Direito que estabelece os limites e pela Verdade. A pacificação do nosso país exige que cada cidadão compreenda o valor das suas palavras e o poder da sua participação activa à luz da lei. O Poder das Declarações em Oposição ao Silêncio No mundo do Direito, o silêncio raramente tem valor positivo. Salvo excepções que a lei estabelece, o silêncio não significa consentimento nem resolve problemas; ele cria um vazio. Pelo contrário, o Direito valoriza a “declaração”, a expressão clara da nossa vontade. Quando falamos em declarações negociais (os actos de vontade que criam compromissos), referimo-nos à capacidade que as nossas palavras têm de produzir efeitos práticos. O Artigo 217.º do Código Civil estabelece que a declaração de vontade pode ser expressa (feita por palavras ou escritos) ou tácita. Para que a reconciliação em Moçambique seja eficaz, precisamos de declarações de intenção expressas e claras. Falar, propor e negociar são actos que geram vínculos de confiança. Se duas comunidades vizinhas têm um conflito sobre os limites de uma terra, o silêncio e o afastamento apenas geram ressentimento, desconfiança e até agravar o conflito. No entanto, quando os líderes se sentam, dialogam e assinam um acordo claro (uma declaração expressa), pacifica a relação entre ambos. O diálogo gera efeitos visíveis; o silêncio apenas adia ou agrava o conflito. A Dignidade, a Imagem e os Perigos da Especulação Contudo, a palavra tem tanto poder para construir como para destruir. Quando as declarações perdem o seu propósito de conciliação e se transformam em ataques infundados, elas tornam-se obstáculos à paz. A Constituição da República de Moçambique (CRM), no seu Artigo 41.º, consagra o direito à honra, ao bom nome, à reputação e à defesa da imagem pública e da reserva da vida privada. Quando o diálogo é substituído por fofocas e calúnias, estes direitos fundamentais são gravemente violados. Por exemplo, partilhar mensagens nas redes sociais com acusações sem provas sobre a morte não contribui para a justiça. Pelo contrário, viola o artigo 41.º da CRM que referimos acima, mancha a imagem de terceiros, cria pânico social e destrói a base de confiança necessária para unir as pessoas. O diálogo que edifica a paz baseia-se em factos e no respeito absoluto. O Direito de Participação Popular Para que o diálogo inclusivo como qualquer outro anterior ou posterior a este funcione, ele deve estar alicerçado no Direito de Participação Política e Cívica, garantido pelo Artigo 73.º da CRM. O cidadão não é um mero súbdito do Estado; tem o direito e o dever de intervir activamente na vida do país. A lei garante que o Estado não pode agir de forma isolada. Os cidadãos têm o direito de colaborar, de apresentar petições e de exigir transparência nas decisões que afectam as suas vidas. O diálogo inclusivo agora em curso no país não pode ser um teatro; deve ser um espaço onde as declarações dos cidadãos produzem efeitos reais nas políticas públicas. O Princípio do Contraditório O coração de qualquer diálogo seja ele jurídico, administrativo e social é o Princípio do Contraditório, isto é, o direito de pronunciar-se sobre o assunto que lhe diz respeito. O contraditório significa que “ninguém pode ser afectado por uma decisão sem antes ter tido a oportunidade de ser ouvido”. Este princípio ensina-nos que existem sempre perspetivas diferentes. Se o Governo ou os diferentes grupos sociais tomarem decisões de forma unilateral, baseados no silêncio imposto à outra parte, qualquer acordo será frágil. Ouvir o contraditório é ter a humildade de escutar as queixas e os argumentos do outro, respondendo-lhes de forma ponderada. É neste equilíbrio de declarações mútuas que se forja a paz duradoura. A reconciliação não é um milagre instantâneo. O silêncio, embora pareça pacífico, é muitas vezes o refúgio das injustiças. Como cristãos e cidadãos, somos chamados a exercer o nosso direito de participação com responsabilidade. Devemos afastar-nos da maledicência e das especulações que mancham a imagem alheia. Exigir o respeito pelo contraditório e fazer declarações que promovam o entendimento mútuo são as ferramentas que temos ao nosso dispor. Que as nossas palavras sejam sempre instrumentos de construção da paz.
jul 23 2026
Cidades que crescem sem crescer
Por: Kant de Voronha Há meses que nos obrigam a abrir os olhos para aquilo que fingimos não ver no quotidiano. Julho é um desses meses. As temperaturas baixam, mas as contradições do país aquecem. É o mês em que o vento frio atravessa as ruas, carregando consigo o pó das obras paradas, o lixo não recolhido, os gritos dos mercados improvisados e o burburinho de uma cidade que cresce todos os dias, mesmo quando não cresce para melhor. As nossas cidades são organismos vivos: respiram, expandem-se, enchem-se de sonhos e de sobrevivências improvisadas. Mas são também espelhos que revelam, sem piedade, a desigualdade que atravessa o coração de Moçambique. De Maputo a Nampula, da Cidade da Beira a Tete, o país urbano é um mosaico de contrastes: “ilhas” modernas cercadas de bairros sem água confiável, prédios novos ao lado de vielas onde a noite chega antes do pôr-do-sol por falta de iluminação pública. Julho lembra-nos que a urbanização moçambicana não é apenas um fenómeno demográfico. É uma urgência social. A cidade não se desenvolve na mesma proporção Cresce em população, cresce em trânsito, cresce em bairros informais. Cresce em problemas que se repetem: trânsito caótico, transportes precários, ausência de saneamento básico, habitação inapropriada, criminalidade urbana, erosão e enchentes de Julho ou Novembro que encontram canais entupidos e ruas desalinhadas com o próprio projecto urbano. Cresce, mas não amadurece. A cidade é como um adolescente que no corpo parece adulto, mas cujas responsabilidades excedem as suas capacidades. Tudo o que se construiu parece correr atrás do prejuízo. A população chega primeiro; os serviços chegam depois e, muitas vezes, não chegam. Em cada rua improvisada há uma história de fuga da pobreza rural. Em cada mercado informal há um grito de sobrevivência. Em cada “chapa” congestionado há um pedido silencioso por dignidade. E tudo isto compõe o cenário urbano de Moçambique, onde o desenvolvimento nem sempre acompanha o ritmo da necessidade. Julho convida-nos a pensar na cidade a partir de três perguntas essenciais: Para quem as cidades estão a ser construídas? Para quem pode pagar rendas altas? Para quem tem carro? Para quem ocupa escritórios envidraçados? Ou para a maioria que caminha longas distâncias, que vende no mercado e que acorda às quatro da manhã para apanhar o primeiro transporte? A forma como uma cidade se organiza diz muito sobre quem ela considera prioritário. Quanto da cidade é planeado e quanto é improvisado? A verdade, dolorosa mas evidente, é que grande parte da expansão urbana é uma resposta individual à ausência de políticas eficazes de habitação. As pessoas constroem onde é possível, não onde é seguro. Constroem porque precisam, não porque o espaço foi pensado para elas. A cidade cria oportunidades ou apenas concentra dificuldades? O espaço urbano deveria ser um lugar de avanço: emprego, educação, cultura, serviços. Mas, para muitos moçambicanos, a cidade é um desafio diário, não uma promessa. Estas perguntas são mais do que retóricas. São exigências. O drama urbano moçambicano não é apenas infra-estrutural; é existencial. A cidade tornou-se o lugar onde os sonhos se misturam com a frustração. Onde o jovem procura o emprego que não encontra. Onde a mulher vende hortaliças para garantir o jantar. Onde o trabalhador luta contra o transporte caótico e perde horas preciosas da vida em filas, engarrafamentos e caminhadas intermináveis. E, ainda assim, há beleza na cidade. Há resiliência. Há criatividade. Há sobreviventes que insistem em transformar espaços quebrados em possibilidades. A cidade vive porque o povo teima em viver O problema não é o povo. O problema é o sistema que organiza o povo sem escutar o que ele realmente precisa. Para que Moçambique cresça com dignidade, é urgente repensar o que significa urbanizar. Urbanizar não é encher de prédios. Não é construir avenidas sem calçadas. Não é erguer centros comerciais enquanto bairros inteiros continuam sem saneamento básico. Urbanizar é humanizar. É criar espaços onde as pessoas se sintam seguras, incluídas e respeitadas. É permitir que o morador do bairro periférico tenha os mesmos direitos de mobilidade que o morador do centro. É investir em transporte público digno, seguro e eficiente. É garantir que a habitação seja um direito, não um privilégio. É organizar o comércio informal em vez de reprimi-lo. É planear a cidade com quem nela vive e não apenas com projectos que agradam a quem governa. A cidade é casa. E casa não se constrói para alguns, constrói-se para todos. Julho, com o seu frio persistente, traz um aviso discreto: a urbanização continuará a ser o grande desafio moçambicano nas próximas décadas. A população urbana cresce a uma velocidade maior do que a capacidade de resposta do Estado. Se não forem tomadas medidas estruturantes agora, o futuro das cidades será um futuro de desigualdades agravadas. Mas há margem para esperança. E a esperança, em Moçambique, é sempre matéria viva. A cidade pede parceria Se a escutarmos, ela cresce. Se a ignorarmos, ela desmorona. Julho é o mês que nos pergunta: que cidade queremos deixar para as nossas crianças e para o país que celebrará 60, 70, 80 anos de independência? Porque, no fim, a realidade é esta: sem cidades dignas, não haverá país digno. E sem justiça urbana, não haverá verdadeiro desenvolvimento.
Identidade assassina
Por: Deolindo Paúa É urgente que a nossa sociedade tenha cuidado com o rumo que está a tomar. A normalidade com que se matam pessoas em Moçambique demonstra que estamos num caminho contrário daquele para o qual a nossa generosa e compassiva cultura nos educou. Como moçambicanos, pelo comportamento social violento que temos demonstrado, indicamos que estamos abandonando a nossa essência de valores e de compaixão, para assumir uma identidade estranha à nossa cultura, a de uma sociedade violenta e egoísta. O título deste texto é inspirado por uma famosa reflexão de um jornalista e filósofo libanês Amin Maalouf, escrita em 1998. Nessa reflexão, o jornalista condena a tendência ideológica de reduzir a identidade das pessoas a uma única pertença, seja ela religiosa, política, cultural ou étnica. Para ele, dogmas ideológicos rígidos são responsáveis por uma intolerância do mundo que leva à negação e ao assassinato do outro. Por isso, ele propõe que seja possível cada um manter-se fiel à sua condição social e convicção ideológica, sem atacar a condição e convicção do outro. De facto, hoje, falar a verdade, exigir a justiça, discordar dos erros dos outros, negar a normalização do mal tornaram-se perigos contra uma prática política e social que tende a normalizar um comportamento de violência e a ideologia de um poder a partir da violência. Como assumimos esta identidade? Na nossa situação, talvez não haja culturas lutando ou se rejeitando mutuamente, tal como na circunstância do jornalista, mas há uma cultura crescente de violência. O assassinato de quem pensa diferente tornou-se na nossa forma normal de impor a verdade individual ou de grupos. Portanto, a nossa identidade; a violência pela posse de bens extrapola os limites de simples problema de pobreza e de criminalidade e atinge o nível de costume. A eliminação dos outros por razões de poder passou a ser um comando e uma estratégia políticos e não um acidente de percurso. Pois, quando tal como acontece na nossa sociedade, matar para apoderar-se dos bens do outro, para apoderar-se do poder, da verdade e da legitimidade se transformam em regra de convivência e quem deveria exigir o seu abandono se transforma em autor, então estamos diante da consolidação de uma identidade selvagem. Esta identidade não é resultado do acaso. Foi construída pela nossa própria história. Desde a legítima guerra de libertação, passando pela pedagogia da justiça pelas próprias mãos no contexto das execuções públicas logo depois da independência, pela consolidada ideia de partido único ao qual cabia a definição do verdadeiro e do falso, pela opção da guerra dos 16 anos para impor a democracia, etc., passámos aos poucos construindo essa mentalidade de violência. Tal costume é resultado de um processo de construção comportamental que levou consciências a normalizar o acto bárbaro de assassinar o outro para resolver problemas individuais ou de grupos. Com efeito, nos últimos três anos, a prática de matança ganhou terreno. Nos bairros, os linchamentos usam-se como solução de diferendos. Na política, nunca se viu um massacre tão grande pela posse de poder como nas últimas eleições em que, sem qualquer tipo de contemplação, pessoas foram assassinadas por discordarem e por contestarem um processo eleitoral mal conduzido. Nas cadeias, a tortura como indução para a confissão de crimes denuncia, paradoxalmente, a normalização do crime. A polícia que deveria proteger e garantir os direitos humanos é sempre associada a situações de tortura e de assassinato de pessoas pertencentes à sociedade civil ou a partidos políticos da oposição, bem como a populações que legitimamente tentam reclamar os seus direitos com greves ou manifestações. Em Cabo Delgado, provavelmente por causa de recursos naturais, da religião ou por qualquer outro motivo desconhecido, uma guerra em que de forma selvagem se decapitam pessoas se tenta normalizar contra um conjunto de valores tradicionais e ocidentais que recomendam a civilização e a cultura da promoção da vida. Mais recentemente, quer na capital do país, quer nas outras cidades, pessoas são mortalmente baleadas sem que o Estado reaja, nem para evitar tais actos, muito menos para responsabilizar os autores. A estes actos se juntam muitos outros derivados de violência doméstica, de desentendimentos sociais ou de interesses económicos egoístas. O facto é que a prática normalizada destes actos solidifica a nossa nova identidade: a de que nos tornámos num povo assassino e selvagem, por recorrer à violência ou à matança para resolver qualquer tipo de desentendimento com os nossos semelhantes. Contributo do Estado na consolidação da identidade selvagem O papel do Estado em qualquer parte do mundo é, primeiramente, garantir a segurança de todos para que haja condições de uma vida minimamente civilizada. Quando o Estado, directa ou indirectamente, se torna no motor da insegurança ou cria circunstâncias para que os cidadãos se assassinem mutuamente, então ele torna-se desnecessário. No nosso caso moçambicano, a normalização da violência semeia terror, mas ao mesmo tempo, estabelece um hábito contra uma vida de civilização. Assim, a insegurança provocada por esta nova identidade que assumimos torna a violência mútua num modo de vida. O nível de selvajaria a que chegámos, em que os mais fortes em termos de capacidade de violência ditam as regras, demonstra que a nossa situação social e política está falida. Quer dizer que o nosso Estado não está falhando apenas na sua missão de educar, de dar saúde, de criar a necessária segurança, está falhando também na sua missão essencial que deveria ser a de manter os valores morais para que a justiça e o civismo se realizem. Quando o Estado não se esforça, nem demonstra interesse em impor as regras básicas de civismo, então torna-se conivente da barbaridade. Que alternativa temos? Se quisermos ser um país civilizado, precisamos de tomar a consciência sobre a nossa identidade humana e, sobretudo africana de valores assentes no humanismo, mas sobretudo armar o Estado de pessoas tão competentes que possam assumir a coragem de impor a viragem. Se continuarmos no caminho da normalização da matança em que estamos, sucumbiremos à
jul 20 2026
Igualdade de Género nas Escolas
Por: Valentina Atthumpuha No contexto moçambicano, onde persistem desigualdades ligadas ao género, torna-se essencial compreender como estas diferenças afectam o percurso educativo das crianças e dos jovens. A escola deveria ser o lugar onde todos têm oportunidades iguais para crescer, aprender e sonhar. Contudo, muitas raparigas e rapazes continuam a enfrentar obstáculos que limitam o seu potencial. A igualdade de género não significa que todos devam ser iguais, mas sim que todos devem ter as mesmas oportunidades de desenvolver as suas capacidades, independentemente de serem rapazes ou raparigas. A educação tem um papel crucial nesse processo, pois é na escola que se constroem atitudes, se quebram preconceitos e se abrem novas janelas de futuro. Desigualdades que começam cedo Em muitas comunidades, as crianças crescem inseridas em tradições e expectativas sociais que influenciam a forma como cada género é percebido. Algumas raparigas são incentivadas a cuidar da casa, dos irmãos e a preparar-se para o casamento, enquanto os rapazes são vistos como potenciais provedores ou líderes familiares. Estes papéis, embora culturais, acabam por limitar o acesso e a permanência das raparigas na escola, sobretudo quando surgem responsabilidades domésticas precoces, longas distâncias a percorrer ou dificuldades económicas. Além disso, fenómenos como casamentos prematuros, gravidez precoce, assédio e violência de género continuam a afastar muitas raparigas do percurso escolar. O impacto é grave: quando uma rapariga abandona a escola, perde-se uma oportunidade de desenvolvimento individual e social. A escola como espaço de transformação A escola tem o poder de romper com estereótipos que se perpetuam há gerações. Professores atentos e bem formados podem mostrar, através de palavras e atitudes, que rapazes e raparigas são capazes de aprender, liderar, criar e resolver problemas de forma igualmente competente. Quando a escola valoriza a participação de todos, sem favoritismos nem preconceitos, abre-se um caminho mais justo para o desenvolvimento humano. Medidas como organizar grupos mistos, incentivar o debate sobre igualdade, distribuir responsabilidades de forma equitativa e promover atividades que reforcem o respeito mútuo ajudam a criar um ambiente escolar saudável. O professor tem um papel especial ao observar situações de discriminação e intervir de forma firme, educativa e respeitosa. A importância do exemplo familiar e comunitário A escola educa, mas a família e a comunidade têm grande influência sobre a forma como raparigas e rapazes se veem a si mesmos. Quando os pais reforçam que a educação é valiosa tanto para as filhas quanto para os filhos, a mensagem transforma-se em ação. Famílias que apoiam as raparigas nos estudos, que as protegem do casamento precoce e que valorizam o seu talento contribuem para quebrar ciclos de desigualdade. Da mesma forma, é essencial mostrar aos rapazes que a igualdade de género não os diminui; pelo contrário, ensina-os a relacionar-se com respeito, a reconhecer capacidades e a viver num ambiente mais justo. A educação para a igualdade beneficia toda a sociedade. Estereótipos dentro da sala de aula Alguns gestos simples podem reforçar ou questionar desigualdades. Quando se espera que somente rapazes participem de certas atividades ou que raparigas realizem tarefas específicas, alimenta-se a ideia de que existem papéis fixos para cada género. É fundamental que professores analisem cuidadosamente as suas práticas: Quem responde mais às perguntas? Quem recebe mais elogios? Quem é colocado como líder de grupo? Quem é lembrado para limpar a sala ou organizar materiais? Estas pequenas escolhas têm grande impacto na autoestima e no desenvolvimento de competências. O valor da educação das raparigas para o futuro do país Estudos internacionais e experiências comunitárias mostram que quando uma rapariga permanece na escola, toda a sociedade beneficia. Ela tem maior probabilidade de conseguir emprego, participar activamente na vida cívica, proteger a saúde da família, apoiar a escolarização dos seus filhos e romper ciclos de pobreza. Uma rapariga educada torna-se uma mulher mais preparada para enfrentar desafios, tomar decisões e contribuir para o crescimento económico da sua comunidade. A educação das raparigas é, portanto, um investimento estratégico para o desenvolvimento nacional. Proteger e apoiar as raparigas na escola Para promover igualdade de género, é essencial criar ambientes seguros e acolhedores. Isso inclui: Reforçar a vigilância contra assédio e violência; Criar espaços de apoio emocional; Oferecer orientação sobre saúde sexual e reprodutiva; Garantir condições básicas, como casas de banho adequadas e privadas; Incentivar a participação das raparigas em clubes, debates, concursos e actividades de liderança. Quando a rapariga sente que pertence à escola e que é valorizada, ela permanece, aprende e cresce. A igualdade de género é um caminho que se faz dia a dia, dentro da sala de aula, nas famílias e nas comunidades. E cada passo dado a favor da justiça e da dignidade abre portas para um futuro mais solidário e mais promissor para Moçambique.
jul 17 2026
Sem água, não há vida
Por Thomas Selemane Segundo dados oficiais, cerca de dois terços da população moçambicana têm acesso a fontes melhoradas de abastecimento de água. Contudo, esta média nacional esconde profundas desigualdades. Nas cidades, a cobertura é significativamente superior, enquanto nas zonas rurais milhões de cidadãos continuam percorrendo longas distâncias para obter água, muitas vezes de qualidade duvidosa. O resultado é um paradoxo preocupante: um país atravessado por alguns dos maiores rios da África Austral continua incapaz de garantir água potável para todos os seus habitantes. Moçambique possui uma riqueza hídrica invejável. Os rios Zambeze, Rovuma, Limpopo, Save, Púnguè, Buzi, Licungo e inúmeros outros atravessam o território nacional. O país dispõe ainda de extensas reservas de águas subterrâneas e beneficia de uma localização privilegiada em importantes bacias hidrográficas regionais. No entanto, a abundância de água na natureza não se traduz automaticamente em água nas torneiras das famílias. A razão é simples: não basta ter água; é preciso captá-la, tratá-la, armazená-la e distribuí-la. E é precisamente nestas áreas que persistem enormes défices de investimento público no nosso país. Em muitas localidades, os rios continuam sendo a principal fonte de abastecimento das comunidades. Durante a estação seca, os níveis de água diminuem drasticamente. Durante a época chuvosa, a contaminação aumenta. Em ambos os casos, as consequências recaem sobre a população, sobretudo mulheres e crianças, que continuam suportando o peso diário da procura de água para consumo doméstico. A questão da água não deve ser vista apenas como um problema de infraestruturas. Trata-se de uma questão de saúde pública, produtividade económica e dignidade humana. Sem acesso regular a água potável, aumentam os casos de diarreias, cólera e outras doenças de origem hídrica. Hospitais ficam sobrecarregados, crianças faltam às aulas e trabalhadores perdem dias de produtividade. Os impactos económicos são igualmente significativos. Empresas necessitam de água para operar. Agricultores precisam de água para irrigação. Escolas e centros de saúde dependem de água para funcionar adequadamente. Sem um abastecimento fiável, torna-se difícil promover o desenvolvimento local e atrair investimento privado. Apesar dos progressos registados nas últimas décadas, o ritmo de expansão dos sistemas de abastecimento continua insuficiente para acompanhar o crescimento populacional e a rápida urbanização do país. Nas periferias urbanas, milhares de famílias ainda dependem de fontanários públicos, vendedores informais ou poços precários. Em várias zonas rurais, sistemas construídos com apoio de parceiros de desenvolvimento acabam abandonados por falta de manutenção e gestão sustentável. O desafio não está apenas na construção de novas infraestruturas. Está igualmente na preservação das existentes. Muitos sistemas de abastecimento enfrentam avarias recorrentes, perdas elevadas de água e insuficiência de recursos para manutenção. Em alguns casos, a infraestrutura existe, mas não funciona de forma regular ou eficiente. As mudanças climáticas tornam a situação ainda mais complexa. Secas prolongadas, ciclones e cheias extremas estão a aumentar a pressão sobre os recursos hídricos nacionais. Comunidades inteiras enfrentam períodos de escassez cada vez mais frequentes. Sem investimentos robustos em resiliência climática, armazenamento e gestão integrada dos recursos hídricos, o país continuará vulnerável a crises recorrentes de abastecimento. O problema não decorre da falta de água. Decorre, sobretudo, da insuficiência de investimento na sua transformação em água segura para consumo humano. Durante décadas, a gestão do sector tem avançado através de projectos dispersos, muitas vezes dependentes de financiamento externo e sem continuidade suficiente para responder às necessidades nacionais de longo prazo. É necessário elevar a água à categoria de prioridade estratégica nacional. Tal como a energia, as estradas ou a agricultura, o abastecimento de água deve ser encarado como um investimento estruturante para o desenvolvimento. Cada metical investido em água gera benefícios múltiplos em saúde, educação, produtividade e redução da pobreza. Nenhum país alcançou elevados níveis de bem-estar sem garantir acesso universal à água potável. A experiência internacional demonstra que sociedades mais saudáveis, produtivas e resilientes são aquelas que investem de forma consistente nos seus sistemas de abastecimento e saneamento. Moçambique não é um país pobre em água. É um país que ainda não investiu o suficiente para transformar a sua abundância hídrica em bem-estar colectivo. Enquanto milhões de moçambicanos continuarem sem acesso seguro e regular à água potável, o desenvolvimento permanecerá incompleto. Porque, em última análise, sem água não há saúde. Sem água não há produtividade. Sem água não há dignidade. E sem água não há bem-estar. Por isso se diz sem água não há vida!


